MELHOR CIDADE. Em busca da. Análises, ideias e soluções para os Municípios do Brasil

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1 A l d a M a r c o A ntônio, A l e k s a n d a r M a n d i c, A l ex a n d re S c h n e i d e r, Antônio Moreno Neto, Eleuses Paiva, Fábio Feldmann, Gilberto Kassab, I n d i o d a C o s t a, M a r c e l S o l i m e o, M a r c o s C i n t r a, P a u l o S i m ã o, Reinhold Stephanes, Ricardo Patah, Samuel Hanan, Tulio Kahn, Ulisses Gamboa Coordenação - Guilherme Afif Em busca da MELHOR CIDADE Análises, ideias e soluções para os Municípios do Brasil

2 Em minha andança pelo Brasil, no contato direto com eleitores e militantes do PSD, tenho procurado enfatizar a importância da qualificação de todos os que fazem política no nosso país. Sem um trabalho consistente neste sentido, corremos o risco de afastar bons cidadãos da atividade partidária, quando todos sabemos o quanto fazem falta os idealistas e os profissionais experimentados e competentes. É neste sentido que saúdo o lançamento do livro Em Busca da Melhor Cidade, pelo Espaço Democrático. Obras como esta ajudam a despertar vocações e a mostrar que é possível, sim, contribuir para melhorar a vida dos brasileiros de hoje e do futuro. Divulgar experiências inovadoras e competentes de gestão municipal é nossa forma de colaborar com os que querem fazer mais pelo Brasil. Senadora Kátia Abreu (PSD-TO) 2

3 Em busca da MELHOR CIDADE Análises, ideias e soluções para os Municípios do Brasil Fundação para Estudos e Formação Política do PSD

4 In memoriam Amaury de Souza ( ) Cientista político, professor e intelectual apaixonado pela democracia, cuja contribuição foi essencial para a formação e concretização do Núcleo de Estudos do Espaço Democrático. 4

5 Este livro é dedicado a todos os prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e administradores públicos municipais brasileiros que, ano após ano, dão uma lição de coragem, persistência e criatividade ao resolver problemas muito maiores do que aqueles que os orçamentos de seus Municípios comportam. 5

6 Apresentação Editor responsável: Sérgio Rondino Supervisão: Rubens Figueiredo Coordenador técnico: Rogério Schmitt Colaboração: Amaury de Souza Marcos Garcia de Oliveira Carmo Chagas Projeto gráfico: Marisa Villas Boas Capa: shutterstock / blinkblink Domingos, Guilherme Afif, 1943 Em busca da melhor cidade: análises, ideias e soluções para os municípios do Brasil / Guilherme Afif e outros 1ª ed. - São Paulo; Scriptum Editorial, ISBN

7 Coordenação - Guilherme Afif Em busca da MELHOR CIDADE Análises, ideias e soluções para os Municípios do Brasil 1ª Edição São Paulo

8 8

9 Índice Apresentação Guilherme Afif Grandes desafios em debate Vilmar Rocha Zelar pelo presente sem esquecer o futuro Gilberto Kassab O Município no mundo das finanças públicas Marcel Solimeo e Ulisses Gamboa Novo federalismo, Município forte Samuel Hanan Entre a administração pública e a política: o que fazer? Marcos Cintra Município saudável, País saudável Eleuses Paiva O salto educacional começa perto de casa Alexandre Schneider Agricultura, motor das cidades Reinhold Stephanes Senhor Prefeito, quero trabalhar Ricardo Patah Urbanização e civilização: avanços e desafios Paulo Simão O lixo e a rua: o Município e o meio ambiente Fábio Feldmann Calçadas iluminadas: a segurança pública e o poder local Tulio Kahn Área social: base de um governo responsável Alda Marco Antônio A Copa, a Olimpíada e o Município: o estágio dos esportes no Brasil Antônio Moreno Neto A vizinhança das mídias digitais: a Prefeitura ligada Aleksandar Mandic Ficha Limpa nas eleições municipais: combate à corrupção e reforma política Indio da Costa

10 Apresentação Guilherme Afif Não existe federalismo forte com Município fraco. A concentração exagerada de recursos no Poder Central, associada à distribuição desequilibrada de tarefas, conspira contra a racionalidade administrativa, a alocação eficiente dos investimentos e a capacidade de cobrança da sociedade sobre o destino dos impostos que paga. A conta não fecha. Não há contorcionismo intelectual que explique este fato: quem faz mais fica com menos. Tão perto dos problemas, tão longe dos recursos poderia ser o lema dos Municípios e Estados brasileiros. Responsáveis pela prestação da maior parte dos serviços públicos considerados mais importantes pela população saúde, educação e segurança pública, para citar apenas três - Municípios e Estados enfrentam, com imensas dificuldades financeiras, o desafio de espalhar bem estar para milhões e milhões de brasileiros em todos os cantos do País. A vida dos prefeitos está sempre cheia de demandas; o cofre, sempre vazio de dinheiro. Enquanto os países mais desenvolvidos se caracterizam pela descentralização e ação conjunta dos entes federados, no Brasil vivemos o federalismo do você que se vire. Todos os anos assistimos, até com um certo enfado, a uma ou mais Marcha dos Prefeitos a Brasília, que bem poderia ser chamada de passeata do pires na mão. O que são essas marchas? Administradores municipais reivindicando recursos que se acumulam nas mãos da União, que saem das cidades e não voltam mais. Ou, quando voltam, são gravadas por um injustificável e revoltante pedágio burocrático-político. O Brasil é um país gigantesco e muito diversificado. Dados recentes indicam que 36% dos brasileiros vivem nos mais de Municípios com menos de 50 mil habitantes, enquanto cerca de 40% da população se espreme nas grandes regiões metropolitanas, que representam 1,9% do nosso território. Ora, o poder central não é aliás, está bem longe de ser onisciente. Quem entende os problemas locais são as autoridades locais. Por que, então, não aquinhoá-las com mais recursos? 10

11 Depois da Constituição de 1988, a União lançou mão de um truque. A nossa Carta Magna estabelece que os Fundos de Participação dos Estados e Municípios são formados pelos impostos federais. Pois bem, ao longo do tempo, Brasília foi criando uma série de contribuições Cofins e Cide são dois exemplos que passaram a ser excluídas do bolo a ser dividido. Os números são definitivos: em 1988, as receitas da União eram representadas por 80,27% de impostos e 19,73% de contribuições. Em 2011, as contribuições já representavam 48,5%. Fica com mais do que deveria e faz menos do que lhe é dever realizar. O caso da educação superior é emblemático. No Brasil, apenas 25% dos alunos matriculados no ensino superior estão na rede pública. São aproximadamente estudantes. E, apesar de toda a concentração de recursos e as responsabilidades constitucionais que recaem sobre a União no que diz respeito ao ensino superior, a maior parte desses alunos 56% - está nas universidades e faculdades das redes estaduais e municipais. E isso para não falar na gigantesca rede de ensino fundamental e médio, totalmente da alçada dos governos subnacionais. Essa grave distorção do nosso federalismo é um dos temas deste livro, que foi organizado pelo Espaço Democrático - a Fundação para Estudos e Formação Política do PSD. O objetivo da publicação é oferecer aos prefeitos, deputados, vereadores, administradores públicos, filiados e militantes do partido um amplo painel de experiências de gestão, ideias e propostas sobre a administração de nossos Municípios. Em seus diversos capítulos, alguns dos maiores especialistas brasileiros, quase todos coordenadores dos Conselhos Temáticos do Espaço Democrático, analisam os mais importantes temas que dizem respeito ao poder local. O resultado é um amplo retrato do nosso sistema político-administrativo, que proporciona ao leitor uma quantidade enorme de informações, associada a reflexões de autores da mais alta qualidade. Com isso, o Espaço Democrático acredita estar contribuindo para dar o pontapé inicial numa discussão vigorosa sobre os caminhos que deveremos trilhar para, no exercício da atividade política, melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. Guilherme Afif - Presidente do Espaço Democrático, é vice-governador de São Paulo e preside o Conselho Gestor do Programa Estadual de Parcerias Público-Privadas (PPPs). 11

12 Grandes desafios em debate Neste livro, certamente o trabalho de maior fôlego até agora produzido pelo Espaço Democrático, pode-se observar a essência da proposta dessa entidade, criada pelo Partido Social Democrático (PSD) para dar sustentação intelectual à sua ação política. Estão reunidos nesta publicação alguns conceitos, ideias e projetos cuja soma constitui-se em relevante contribuição para o futuro de nosso País. É com esse objetivo que a fundação vem trabalhando. Em seus Conselhos Temáticos, alguns dos maiores especialistas brasileiros em questões de interesse público vêm debatendo os grandes desafios da sociedade brasileira e elaborando as propostas que vão compor o Projeto para a Nação que vamos apresentar em 2013, após a validação por seus líderes e militantes. Com o suporte do Espaço Democrático, o partido está definindo seus caminhos e os projetos que vai abraçar. O critério para a escolha será tão somente o resultado que eles trarão para toda a população. O PSD quer que o Brasil se desenvolva, social e economicamente, e não se deixará iludir por preconceitos ou amarras ideológicas. É dessa forma, contribuindo e participando vigorosamente do debate sobre temas essenciais para o desenvolvimento do Brasil, que mostraremos que o nosso partido é realmente diferente, que nasceu para atender ao desejo de avançar hoje presente na mente dos brasileiros. Exatamente por isso, a ação do Espaço Democrático não se limita aos filiados do partido. Suas portas estão abertas a todos os que querem contribuir de alguma forma, sejam autoridades, parlamentares, acadêmicos, estudantes ou profissionais de qualquer área. 12

13 Uma síntese dessa atividade pode ser observada nesta publicação que agora chega às mãos de leitores de todo o País. Com colaboradores de diversas áreas, alguns sem qualquer ligação com o partido, reuniram-se aqui experiências e conhecimentos extremamente úteis aos gestores municipais. Boa leitura. Vilmar Rocha - Vice-presidente do Espaço Democrático, é deputado federal licenciado e Chefe da Casa Civil do Governo do Estado de Goiás 13

14 Gilberto Kassab Presidente nacional do PSD e prefeito de São Paulo ( ), o engenheiro e economista Gilberto Kassab foi vereador, deputado estadual e federal por São Paulo. Na história da cidade, é o prefeito que ocupou o cargo por mais tempo. 14

15 Gilberto Kassab Zelar pelo presente sem esquecer o f u t u r o 15

16 Em busca da melhor cidade 16

17 Gilberto Kassab Cuidar bem da cidade e das pessoas que nela vivem é a missão principal de um prefeito. O que se deve esperar dele é que seja um zelador competente à frente de uma equipe de colaboradores escolhida pelo critério de qualidade e experiência, procure ouvir o que a população tem a dizer, saiba julgar bem ao definir as prioridades, se faça presente diariamente pela cidade, cuide da manutenção do que vai indo bem, mas sempre atento ao que precisa ser corrigido, que fiscalize as obras e intervenções em andamento. Assim procurei agir como prefeito de São Paulo. Durante quase sete anos, desde que assumi o cargo pela primeira vez, tive agenda de trabalho todos os dias nas ruas da cidade, sábados, domingos e feriados. Fui prefeito em tempo integral, pois para isso fui eleito. Mas é preciso ter também preocupação igual em relação ao futuro da cidade, elaborando e viabilizando projetos, planejando para as próximas décadas. Digo sempre que grande parte dos problemas que hoje enfrentamos poderia nem existir, se nas décadas anteriores os prefeitos tivessem planejado e trabalhado com o objetivo de antecipar soluções. Veio daí minha preocupação em investir no desenvolvimento de projetos de médio e longo prazo para áreas específicas da cidade, que não seriam implantados por mim, mas pelos futuros administradores de São Paulo. Nossa cidade paga hoje pela falta de visão de futuro da maioria dos seus administradores do passado. Não fiz questão de inaugurar nada, mas trabalhei para deixar para meus sucessores o que eu e meu antecessor não encontramos: planejamento contínuo, linhas mestras de ação urbanística implantadas e projetos bem encaminhados ou prontos para serem colocados em prática. Gerenciar metrópoles exige atenção ao presente com o olhar no futuro. Foi pensando em nosso cidadão e em sua vida em família que nossa gestão concentrou esforços e priorizou educação e saúde. De olho no presente e no futuro, nos propusemos a ampliar a rede de ensino municipal e abrimos 345 novas escolas entregues até dezembro/2012 e mais 73 com obras em andamento. Isso permitiu eliminar quase completamente o terceiro turno diurno o chamado turno da fome, desastradamente encaixado entre o final da manhã e o começo da tarde de 11h às 15h. Com novas escolas, pudemos ampliar o tempo de ensino em quase todas as unidades, que têm agora apenas dois turnos, cada um com uma hora de aula a mais por dia. Ao longo de oito anos de ensino, essa hora diária a mais significa para os 17

18 Em busca da melhor cidade Criamos mais de 150 mil novas vagas em creches. Havia 60 mil crianças nas creches municipais em 2005, quando nossa gestão começou. Hoje há 210 mil. alunos pelo menos um ano a mais de aprendizado e isso fará diferença no futuro de cada um deles. A realidade inaceitável de milhares de crianças, professores e funcionários, que tinham de frequentar 54 escolas e 159 salas de lata, é passado. Todas foram desativadas, com um investimento de R$ 100 milhões. Na linha que acho essencial seguir, que é dar continuidade aos bons programas iniciados pelos antecessores, mesmo que de outro partido, nossa gestão entregou 24 novos CEUs - Centros de Educação Unificada projeto criado na administração anterior, que ampliamos e aperfeiçoamos, com um investimento de R$ 770,4 milhões. É importante assinalar, também, que criamos mais de 150 mil novas vagas em creches. Havia 60 mil crianças nas creches municipais em Em dezembro de 2012 já havia 210 mil. Foi um grande avanço, mas a demanda também cresceu nesse período e é preciso continuar trabalhando para reduzir a carência de vagas. Lembro ainda o Programa Ler e Escrever, cuja implantação resultou rapidamente no aumento de 70% para 85% do total de alunos alfabetizados ao final do segundo ano do Ciclo I, como parte da meta de alcançar 96% neste conceito. Deixamos a Prefeitura com essa meta praticamente atingida, beneficiando mais de meio milhão de alunos. Isso acontece na capital que mantém o maior sistema de ensino municipal do País, com quase 1,1 milhão de alunos, ou cerca de 10% dos 11 milhões de habitantes da cidade. São providências e intervenções de grande vulto, que em São Paulo tiveram equivalência em outra área fundamental, a saúde. Fiz questão de frisar, no meu 18

19 Gilberto Kassab contato diário com nossa população, que cumprimos a promessa de melhorar os serviços de saúde prestados pela Prefeitura de São Paulo. Esse trabalho foi iniciado em 2005, quando o prefeito era José Serra, e prosseguiu nos anos seguintes. Encontramos a saúde pública paulistana em péssimas condições. O diagnóstico feito na ocasião apontava para a conveniência de dar ênfase à atenção básica, para diminuir a sobrecarga dos hospitais e prontos-socorros municipais. Criamos então as unidades de Atendimento Médico-Ambulatorial AMAs e depois as AMAs Especialidades, para dar um atendimento ambulatorial de qualidade. Ao mesmo tempo, reformamos e reequipamos as mais de 400 Unidades Básicas de Saúde. Em 2011, as 117 AMAs da Capital atingiram a marca histórica de 10 milhões e 200 mil consultas e atendimentos. Conseguimos, assim, garantir para a população a atenção básica de saúde e aliviar o trabalho nos hospitais e prontos-socorros, que passaram a ter condições de atender melhor os casos mais complexos e as emergências. No final de 2012 a cidade tinha 139 AMAS, 19 de Especialidades. A esse conjunto de providências juntou-se a ampliação do fornecimento gratuito de medicamentos para a população nos postos de saúde mais de 246 milhões de remédios distribuídos desde E temos o programa Remédio em Casa, que sob nossa gestão garante a entrega em domicílio de medicamentos de uso constante para pacientes que sofrem de doenças crônicas são 280 mil pacientes inscritos e 1,5 milhão de receitas atendidas no período. Acabamos com as frequentes reclamações de falta de remédios. Com o programa Rede de Proteção à Mãe Paulistana, ultrapassamos a marca dos 690 mil partos. Aqui, não se trata apenas dos partos, mas do pré-natal e da atenção aos bebês durante o primeiro ano de vida. Em seus primeiros seis anos, a Rede de Proteção à Mãe Paulistana realizou 3,8 milhões de consultas, 4,8 milhões de exames e 680 mil ultrassonografias, atendendo gestantes em 439 Unidades Básicas de Saúde (UBS), 23 Ambulatórios de Especialidades (AE) e em 37 hospitais municipais. A propósito dos hospitais municipais, assinalo que, apesar de a cidade continuar crescendo rapidamente, durante quase duas décadas a Prefeitura não ampliara sua rede hospitalar. Em nossa gestão, inauguramos os hospitais municipais de Cidade Tiradentes e M Boi Mirim, e o SAID Serviço de Atenção Integral ao Dependente, em Heliópolis. Também o Hospital São Luiz Gonzaga, que ia fechar, foi municipalizado. Com essas quatro unidades, acrescentamos 728 leitos à rede municipal. 19

20 Em busca da melhor cidade Não se pode afirmar que a saúde pública de São Paulo já chegou a um nível ideal. Ainda temos que trabalhar muito para conseguir isso e, com certeza, haverá trabalho a ser feito pelas próximas gestões. Mas posso afirmar que a qualidade da prestação de serviços de responsabilidade da saúde pública municipal melhorou, e muito. Hora de mobilizar recursos para elevar a qualidade de vida É dever do administrador de hoje, portanto, cuidar para que os problemas atuais não se agravem e tornem insuportável a vida dos paulistanos do futuro. Nem é necessário voltar muito no tempo para deixar evidente que houve a oportunidade de organizar o crescimento da capital paulista, e tal oportunidade não foi aproveitada. Basta tomar como referência a segunda metade do século 20, trazendo a análise até os dias atuais. Foi na década de 1950 que a vida da cidade de São Paulo entrou em ritmo de crescimento vertiginoso. O processo de industrialização do País, acelerado com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, na segunda metade da década de 1940, deu o impulso que dinamizou o processo de expansão da capital paulista. Nascia a indústria automobilística. Toda a região do Morumbi, que era uma fazenda, um descampado, foi ocupada rapidamente. Naquele período, a região do Butantã ficava fora da cidade, com suas chácaras e olarias. Itaim Bibi, Vila Olímpia, Vila Nova Conceição, Alto de Pinheiros... todos esses bairros hoje densamente habitados e altamente valorizados pertenciam à zona rural, faziam parte do cinturão verde de São Paulo. As três décadas seguintes foram tempos em que os administradores paulistas deixaram de projetar os problemas que a cidade enfrentaria a partir de 1980 até os dias atuais. Não é o caso, agora, de culpar os prefeitos daqueles tempos. Eles tiveram suas razões para agir como agiram. Mas é o caso, agora, de mobilizar verbas próprias ou de outras fontes, inclusive da iniciativa privada para consolidar o processo de melhoria da qualidade da educação e da saúde; para socorrer as vítimas das enchentes que ocorrem nos verões; para transformar as favelas em comunidades saneadas; para criar soluções que aliviem os congestionamentos que a população enfrenta todos os dias; para combater a criminalidade nos movimentados pontos de comércio popular, os prefe- 20

21 Gilberto Kassab ridos pelos ambulantes ilegais que vão ali vender suas mercadorias pirateadas, contrabandeadas ou provenientes de roubos de cargas. Elaboramos projetos e preparamos licitações para viabilizar, em 2013 ou 2014, o início de obras que produzam efeitos daqui a cinco anos, dez anos. São obras que minha gestão concebeu imaginando apenas os benefícios que trarão para a cidade, sem perder tempo com mesquinharias, como ficar imaginando quais nomes vão aparecer na placa de inauguração ou quem vai obter votos com aquela solenidade. Temos de pensar, a sério, nos túneis por onde passarão os trilhos ferroviários hoje implantados a céu aberto, em espaços valorizados que serão mais bem aproveitados com avenidas arborizadas, ecologicamente corretas. Nesses espaços, a indústria imobiliária será orientada a construir prédios apropriados para que o trabalhador possa morar perto do seu local de trabalho. Para que esses projetos se transformem na realidade de nossos filhos e netos, é essencial que a geração atual crie as condições, trace os rumos, planeje, tome as primeiras iniciativas. Daí surgiu a convicção de que minha gestão deveria tentar resolver os problemas legados por administrações passadas, mas também propor e viabilizar soluções que garantam a qualidade de vida na São Paulo das próximas décadas. Procurei deixar, para as futuras gestões, uma visão estratégica de longo prazo, com a participação ativa da sociedade civil e em consonância com o Plano Diretor Estratégico (PDE). Com esse objetivo, a Prefeitura desenvolveu, desde 2007, o plano SP 2025, concebido para elevar a qualidade de vida da população, de forma gradativa, com impactos Tinha a convicção de que deveria tentar resolver os problemas que administrações passadas legaram, assim como propor e viabilizar soluções que garantissem qualidade de vida para as próximas décadas. 21

22 Em busca da melhor cidade Para entender o presente e delinear o futuro, convém lembrar que, em 1920, São Paulo tinha 579 mil habitantes. Desde então, a população cresceu mais de 20 vezes. Tornamo-nos a maior cidade do Hemisfério Sul. positivos em todas as camadas sociais, especialmente as mais carentes. A iniciativa busca, também, criar as condições para o comprometimento dos governantes com a visão estratégica de longo prazo desenvolvida em conjunto com a sociedade civil. As discussões iniciais do projeto foram articuladas pela Secretaria de Relações Internacionais. Em 2008, os debates foram ampliados por meio de apresentações, com a participação de todo o secretariado municipal. Em seguida, o SP 2025 passou a ser conduzido pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, criada em 2009 com competências para conduzir ações governamentais voltadas ao planejamento e desenvolvimento urbano do Município, inclusive planos de desenvolvimento de médio e longo prazos. Além do SP 2025, foi concebido também o Projeto SP Focado no mesmo objetivo de planejar e antecipar, o SP 2040 busca desenvolver uma visão e um plano estratégico de longo prazo, com horizonte de 30 anos, desenvolvido com a colaboração da Universidade de São Paulo (USP). Destaca-se, nesse contexto, a progressiva capacitação da cidade para abrigar grandes eventos. Além da Fórmula 1 e da Formula Indy, que já fazem parte do calendário anual, a Copa do Mundo de 2014 e a candidatura de São Paulo para a Expo 2020 são exemplos de oportunidades para a cidade. A construção de uma visão estratégica de longo prazo, em sintonia com a sociedade civil, estabelece um referencial para os posicionamentos da cidade, para as políticas publicas, para os agentes privados nacionais e globais, para organizações não governamentais. É apenas um ponto de partida para uma discussão que precisa continuar pelos próximos anos. 22

23 Gilberto Kassab Eixos de atuação por um futuro melhor Essa reflexão inicial identifica os potenciais da cidade, mas reconhece suas deficiências. A valoração dos potenciais e a mitigação progressiva das deficiências, com foco na melhoria da qualidade de vida do paulistano, devem ser perseguidas. Cinco eixos importantes de atuação são identificados: - a promoção do equilíbrio social - a promoção do desenvolvimento urbano sustentável - a promoção da mobilidade e acessibilidade - a promoção da melhoria ambiental - a consolidação de São Paulo como Cidade Global Para entender o presente e delinear o futuro, devemos recuar ao passado e lembrar que, menos de um século atrás, em 1920, São Paulo tinha 579 mil habitantes. Desde então, a população paulistana cresceu mais de 20 vezes. Tornamo-nos a maior cidade do Hemisfério Sul, com mais de 11 milhões de habitantes. Somos hoje o núcleo de uma região metropolitana em que vivem mais de 20 milhões de pessoas. Talvez só a China e a Índia tenham registrado crescimento a taxas tão altas. Em tempos recentes, as taxas médias de crescimento anual de São Paulo foram 5,2% (década de 1940), 5,6% (década de 50) e 4,6% (década de 60). Essa evolução se manteve em ritmo acelerado até a década de 90. Durante todo esse processo de agigantamento, faltou a devida atenção à sustentabilidade. De um lado, o poder público cometeu o erro de construir conjuntos habitacionais distantes da região central, aproveitando-se do menor preço da terra nessas áreas. De outro, permitiu a ocupação irregular de áreas igualmente periféricas, com o agravante de essas ocupações frequentemente se instalarem em áreas de risco, de preservação e de mananciais. Os resultados são conhecidos. Temos hoje cerca de 3,2 milhões de pessoas vivendo em habitações precárias. Trata-se da terceira maior população urbana do Brasil, atrás apenas da própria São Paulo e do Rio de Janeiro. E a preocupação é ainda maior quando se sabe que mais de 400 mil desses paulistanos vivem em situação de perigo, em áreas de risco, segundo levantamento recente que o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fez para a Prefeitura. Outro ponto preocupante, consequência do crescimento desordenado, é que 23

24 Em busca da melhor cidade grande parte da superfície da cidade se encontra impermeabilizada. Daí as enchentes tornarem-se um tormento recorrente nos meses de chuva. Também é perverso o movimento pendular que obriga grande parte da população a se deslocar diariamente das regiões periféricas para o centro expandido, rumo aos seus locais de trabalho. Assim, esses paulistanos perdem, por vezes, mais de três horas nesses deslocamentos. Apesar de todos esses problemas, São Paulo é uma cidade pujante. Grande centro financeiro, de negócios, de comércio, médico-hospitalar, de pesquisa e desenvolvimento, de formação de recursos de alto-nível, cultural, São Paulo tende a seguir sua vocação e obter um desempenho ainda melhor, caso as questões mencionadas acima sejam equacionadas. Nesse sentido, vale lembrar algumas ações que mostram o empenho em enfrentar esses desafios nas diversas frentes. De 2005 a 2010, na área habitacional, foram atendidas 206 mil famílias que viviam em áreas de risco e habitações precárias. No mesmo período, mais de 400 obras foram realizadas para eliminação ou redução do risco nessas áreas. Em 2011, a Prefeitura reservou uma verba de R$ 100 milhões para a realização de 110 intervenções de pequeno e médio portes nos setores mais críticos. Além dessas iniciativas, que respondem no curto e no médio prazo a esses desafios, São Paulo vem adotando também propostas que visam o desenvolvimento urbano sustentável. Merece destaque a Lei de Mudança do Clima, de 2009, pioneira e inovadora, que estabeleceu metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, em relação ao patamar expresso no inventário realizado e concluído pela Prefeitura em Estabelece diretrizes para as ações nas áreas de energia, uso do solo, construção, resíduos sólidos, transporte e saúde. Outra iniciativa já tomada é o plano municipal de manejo de águas pluviais, em desenvolvimento desde novembro de 2010, com apoio da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica, da USP. Esse plano busca criar as metodologias para que se encontre, no longo prazo, a melhor combinação de medidas, incluindo legislação, renaturalização de córregos, parques lineares, controle de assoreamento, obras hidráulicas, entre outras, para as 100 bacias municipais. Ao mesmo tempo, desenvolvemos e/ou implementamos projetos estratégicos que se concretizarão de forma completa no longo prazo. As novas operações urbanas propostas Lapa-Brás, Mooca-Vila Carioca e Rio Verde-Jacu Pêssego têm por objetivo promover a ocupação de áreas centrais dotadas de infraestrutura, 24

25 Gilberto Kassab próximas a eixos de transporte coletivo, e também o desenvolvimento econômico da Zona Leste. O Projeto da Nova Luz, já com o respaldo da lei da Concessão Urbanística, é simbólico das iniciativas do poder público para a requalificação e reocupação do Centro. No mesmo sentido, promovemos as revitalizações do Parque Dom Pedro II e do Vale do Anhangabaú, incluindo a Praça das Artes, o programa Renova Centro, que prevê a destinação de 53 prédios para habitação principalmente de baixa renda, e a reabilitação da Biblioteca Mario de Andrade. Assim, em praticamente todos os serviços implantados pela nossa gestão, cuidamos do presente e olhamos para o futuro. Atendemos aos problemas imediatos, como a verificação da situação dos bueiros, o corte de grama, a limpeza e a pintura de guias. Ao mesmo tempo, demos o exemplo do que deve ser feito, para que os futuros administradores da cidade tenham um padrão de conduta administrativa. O ambiente entendido em seu sentido mais amplo Confiei na minha equipe de secretários e subprefeitos, mas fui até eles, regularmente, para ver de perto o que estava sendo feito, para discutir um detalhe, sugerir ou determinar modificações. Como já disse, como prefeito fui todos os dias a algum ponto da cidade, inclusive aos sábados e domingos. Saí para ver de perto as obras em andamento, para conversar com os subprefeitos e outros funcionários. Confiei na minha equipe de secretários e subprefeitos, mas fui até eles, regularmente, para ver de perto o que estava sendo feito, para discutir um detalhe, eventualmente para sugerir ou determinar modificações que me pareciam apropriadas. Penso que, numa metrópole de mais de 11 milhões de habitantes, o prefeito deve adotar o mesmo estilo de prefeitos mais atentos de cidades menores. É 25

26 Em busca da melhor cidade Ao me passar o cargo, Serra comentou que sentia não ter avançado, como gostaria, no combate à poluição visual. Peguei essa deixa, como se diz no teatro, e tomei as providências que resultaram na Lei Cidade Limpa. importante ter uma noção bem clara de tudo o que está acontecendo, para tomar as providências mais indicadas em cada caso. Nos serviços de zeladoria, por exemplo, cuidamos também do nosso objetivo de ter uma São Paulo cada vez mais bem cuidada, florida e limpa. Poda e remoção de árvores, limpeza de bocas de lobo, recapeamento de ruas e serviço de tapa-buraco, manutenção de áreas ajardinadas, varrição de ruas e coleta de lixo - tudo isso faz parte dos serviços de zeladoria nas 31 Subprefeituras de São Paulo. Nasci e fui criado em São Paulo. Ao longo de cinco décadas pude acompanhar o crescimento da cidade. Lembro que, quando criança, o bairro onde morava com minha família era cortado por uma via mais larga, chamada de Estrada da Boiada, nome pelo qual é até hoje conhecida pelos moradores mais antigos. A designação fazia sentido, pois ali de fato passavam os bois a caminho do matadouro. Estou falando de uma São Paulo que ainda guardava vestígios da vida rural. Falo de quando o ar da cidade era limpo, a frota de veículos limitava-se a poucas dezenas de milhares, havia sinais de vida nos principais rios paulistanos. Infelizmente, acompanhei a deterioração causada pela ocupação desordenada do solo urbano, a multiplicação acelerada dos veículos em circulação, a proliferação das favelas e das habitações improvisadas às margens de córregos, junto aos mananciais, à beira das encostas. Criança, conheci os últimos vestígios de uma São Paulo ainda humana. Adolescente, assisti ao desaparecimento daqueles vestígios. Nos meus tempos de estudante de Engenharia e de Economia na Universidade de São Paulo, na passagem da década de 1970 para a de 80, a cidade já 26

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