PARECER Nº, DE RELATOR: Senador MAGNO MALTA

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1 PARECER Nº, DE 2011 Da COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E LEGISLAÇÃO PARTICIPATIVA, sobre o Ofício S nº 51, de 2009, que encaminha ao Senado Federal cópia de Relatório de Inspeção Prisional realizada no Estado do Espírito Santo pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. RELATOR: Senador MAGNO MALTA I RELATÓRIO Vem à atenção da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) o Ofício S nº 51, de 2009, pelo qual o Ilmo. Sr. Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) encaminha ao Senado Federal cópia de processo que trata do Relatório de Inspeção Prisional realizada no Estado do Espírito Santo. A referida inspeção ocorreu nos dias 16 e 17 de abril de 2009, na Casa de Custódia de Viana e no presídio de celas metálicas, ou contêineres, do município de Serra. Acompanharam a visita representantes do Ministério Público federal, da seccional capixaba da Ordem dos Advogados do Brasil, do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo, da Igreja Católica e da Associação de Mães de Vítimas da Violência. Na Casa de Custódia, representantes do poder público estadual recepcionaram os visitantes para prestar informações. Inicialmente, o subsecretário para assuntos do sistema penal, Coronel José Otávio Gonçalves, chegou a tentar impedir que os visitantes usassem máquinas fotográficas, alegando razões de segurança, mas desistiu dessa proibição quando informado de que não haveria visita se não fosse permitido o registro fotográfico.

2 2 Há relatos de que visitantes de ambos os sexos e de qualquer idade são submetidos a revistas íntimas, de que a visita de representantes religiosos não é autorizada e de que advogados devem agendar visitas a seus clientes com bastante antecedência. Há somente três defensores públicos no Estado e não há advogados dativos conveniados. A Casa de Custódia tem capacidade para receber 370 presos, mas abrigava em três pavilhões. Os presos ficam misturados, agentes penitenciários não entram nos pavilhões e policiais militares guarnecem a muralha. Os edifícios estão em estado bastante deteriorado, sem luz elétrica, sem chuveiros e com fornecimento de água somente no fim do dia. À noite, a iluminação é feita com holofotes dirigidos desde as muralhas. Os presos não têm atividades laborais. As condições sanitárias encontradas na Casa de Custódia são precárias, com colônias de ratos e insetos, restos de alimentos espalhados e proliferação de larvas. Não há atendimento médico e vários presos têm doenças de pele evidentes, sem tratamento. Os presos teriam sido obrigados a limpar os pavilhões em preparação para a visita, mas não teriam colaborado, o que teria provocado a polícia militar a efetuar disparos. Cápsulas de munição deflagradas e balas de borracha foram encontradas. A segurança também é crítica, havendo denúncias de esquartejamento de presos e especialmente de tortura. Na cela indicada pelos presos como local de tortura, que a administração afirmou estar desativada, os visitantes encontraram as portas fechadas com um cadeado aparentemente novo. Presos ameaçados de morte ficam no chamado seguro, ao lado das celas destinadas a presos em trânsito, o que expõe os primeiros a tentativas de assassinato. Os presos ameaçados imploraram aos visitantes por suas vidas. A comida pareceu razoável e um kit de higiene era dado semanalmente aos presos, com sabonete, papel higiênico e pasta de dente. O presídio de celas metálicas, ou contêineres, tem capacidade para 144 presos, mas abriga aproximadamente 400. A temperatura nas celas metálicas chega, no verão, a 45 graus Celsius. Não há assistência médica, nem jurídica. Não há atividades laborais. Não há privacidade. As visitas são feitas por uma grade farpada, o que chega a provocar cortes em crianças que tentam tocar as mãos de seus pais. Não há visita íntima.

3 3 A condição sanitária é deplorável. Através de uma manilha quebrada, os visitantes puderam ver um rio de esgoto que corria por baixo das celas. Havia insetos, larvas, roedores, restos, dejetos e lixo de diversos tipos na água fétida. Os contêineres tinham marcas de balas no seu exterior, e a inspeção constatou ao menos um preso com um tiro no olho e marcas de disparos na barriga. Há relatos de violência entre os presos e contra os presos, e muita promiscuidade. Os visitantes tiveram notícia de que a chamada cela microondas um container sem janelas, desativado por ordem judicial teria sido reativada no dia da inspeção. Em reunião com o Secretário de Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncali, o Presidente do CNPCP propôs a criação de um grupo de trabalho interinstitucional para apresentar soluções para os problemas carcerários encontrados, mas não teve resposta. O Secretário de Justiça opinou que os problemas só serão solucionados mediante a construção de novos presídios, negando-se a investir nas unidades existentes, que considera fadadas à demolição. O Secretário Roncali rejeitou as alegações de tortura e, diante do pedido de desativação da cela escura, respondeu, em tom acusatório, que os representantes do CNPCP tinham motivação política e que estavam do lado do grupo de direitos humanos, e não do Estado. Membros do Ministério Público estadual e do Judiciário, presentes na reunião, afirmaram conhecer as condições daqueles presídios, mas que não se dispunham a tomar providências, como a interdição daqueles locais, porque adotam uma política cooperativa com o Executivo estadual. Entidades ligadas à defesa de direitos humanos, representantes de igrejas, defensores públicos, advogados, associações de investigadores de polícia e de procuradores da República, reunidos com os representantes do CNPCP, denunciaram inércia do Executivo estadual, do Juiz de Execuções Penais e do Ministério Público Estadual. Acusaram a ocorrência de tortura, esquartejamento e desaparecimento de presos, obstrução à assistência religiosa, obstáculos à visita de advogados a seus clientes, além das condições degradantes já mencionadas. O Presidente do CNPCP conclui que, com relação à política carcerária, o Espírito Santo está em estado de anomia. Em face da postura

4 4 pouco cooperativa que percebe nas autoridades estaduais, expediu ofícios a diversos órgãos públicos e entidades, inclusive ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados, que possam colaborar para pôr fim à gravíssima situação de desrespeito aos direitos humanos constatada no Espírito Santo. No Senado Federal, o relatório do CNPCP foi distribuído, em duas autuações, à CDH e à Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania. II ANÁLISE Nos termos do art. 102-E, VII, do Regimento Interno do Senado Federal, compete à CDH opinar sobre fiscalização, acompanhamento, avaliação e controle das políticas públicas governamentais relativas aos direitos humanos. O relatório foi encaminhado ao Poder Legislativo para que os representantes do povo brasileiro e dos Estados da Federação possam ter conhecimento das graves acusações que o CNPCP formula contra a administração carcerária do governo do Espírito Santo. São, de fato, gravíssimas as acusações, acompanhadas de farta documentação que, se não chega a provar integralmente os crimes, dá grande força à suspeita de que as acusações são verossímeis. Outros órgãos detentores de competências específicas para investigar ou punir culpados pelos alegados crimes receberam o mesmo relatório. Contudo, causa-nos tamanho repúdio a condição desumana à qual os detentos estão submetidos que não podemos nos furtar ao exame mais atento da questão. As acusações são severas e os fatos alegados são gravíssimos. Por essas razões, propomos, como passo inicial, a realização de audiência pública para que a CDH possa começar a desvelar as condições do sistema carcerário. III VOTO Em razão do que foi exposto, e com amparo no art. 58, 2º, II, da Constituição Federal, e nos arts. 93, I e II, e 133, V, b, do Regimento Interno do Senado Federal, concluímos pela apresentação de requerimento, nos seguintes termos:

5 5 REQUERIMENTO Nº, DE 2011 Requer-se a realização de audiência pública para debater os fatos contidos no Relatório de Inspeção Prisional realizada no Estado do Espírito Santo, encaminhado ao Senado Federal nos termos do Ofício S nº 51, de 2009, do Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). Sejam convidados a participar da audiência pública o Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), o Secretário de Justiça do Estado do Espírito Santo, o Diretor do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) e a Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República. Sala da Comissão,, Presidente, Relator

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