EVASÃO ESCOLAR EM TURMAS DO ENSINO MÉDIO: UMA PESQUISA EXPLORATÓRIA A PARTIR DA VIVÊNCIA NO COTIDIANO ESCOLAR DE UMA ESCOLA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO

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1 EVASÃO ESCOLAR EM TURMAS DO ENSINO MÉDIO: UMA PESQUISA EXPLORATÓRIA A PARTIR DA VIVÊNCIA NO COTIDIANO ESCOLAR DE UMA ESCOLA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO Everton Pereira da Silva Departamento de Geografia UFRJ Bolsista PIBID-CAPES O presente trabalho é fruto de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida desde o inicio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação a Docência (PIBID), em abril de 2012 no CIEP Ayrton Senna 303, localizado no Bairro de São Conrado, Rio de Janeiro. Resulta das reflexões-na-ação de se pesquisar e agir como parte das atividades desenvolvidas no Subprojeto de Geografia, do mesmo. Temos por objetivo, investigar os motivos da evasão escolar de alunos do Ensino Médio. A evasão escolar compreende, em linhas gerais, o abandono da escola durante o período letivo, ou seja, o aluno se matricula, inicia suas atividades escolares, porém, em seguida deixa de frequentar a escola, por uma ou um conjunto de razões. (REINERT e GONÇALVES, 2010, p. 3). O interesse por tal tema surgiu a partir de observações do e no cotidiano na própria escola e de uma recorrente fala dos professores que atribuem a evasão ao fato de um número considerável de alunos viajar com seus pais para as cidades de origem das suas famílias, na Região Nordeste. Ao retornarem para o Rio de Janeiro, após longo tempo afastados, acabariam não voltando para a escola, perdendo assim o ano letivo. Além de investigar se as falas das professoras se confirmam e se são regra, a pesquisa também objetiva conhecer os demais motivos que levam os alunos desta escola à evasão. Dentre outras hipóteses destacam-se a evasão por motivos de trabalho e, mais recentemente, mobilidade decorrente da especulação imobiliária ocorrida na favela da Rocinha após a sua ocupação pela polícia militar do Rio de

2 Janeiro, como início do processo de instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), já que a maioria dos alunos é oriunda desta favela. Alguns estudos apontam que as UPP têm forte impacto na especulação imobiliária da cidade, inclusive nas favelas do Rio de Janeiro, obrigando muitos moradores a procurarem outros lugares mais baratos para residir. Processo este que pode ter repercussões para a permanência ou não de um aluno na escola. A metodologia a ser adotada consiste no acompanhamento dos alunos evadidos a partir dos dados coletados na secretaria da escola, na secretaria estadual de educação e no portal do ministério da educação. Muitas vezes esse tipo de pesquisa assume a forma de um estudo de caso, mas não tenho preocupação em definir o presente trabalho como tal. Enquanto pesquisava nas fontes já mencionadas acima, decidi realizar um levantamento das hipóteses da evasão escolar, nas mesmas. De maneira que pudesse verificar se as hipóteses previamente levantadas coincidiam, eis aqui algumas encontradas: O trabalho infantil é uma das hipóteses mais presentes para explicar a evasão. Em um documento o MEC denomina os alunos como em situação de vulnerabilidade e explica que o papel da Bolsa Família é tentar modificar essa situação, dando condições para que o aluno saia dessa situação e consiga permanecer na escola - o que é uma condição para a permanência deste no programa. Outra hipótese encontrada é a distância entre a escola e a casa desse aluno, fato que levou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) a criar um programa denominado de caminho da escola, que consistia na compra de ônibus escolares para levar gratuitamente os alunos para as escolas. Há também outras hipóteses recorrentes, como a evasão por repetência, ora denominada de fracasso escolar, uso e venda de drogas, etc. Mas, o foco do trabalho não é esse, de tentar enumerar as possíveis causas da evasão. Como afirmado antes, a intenção dessa parte era apenas verificar se as hipóteses anteriormente levantadas, inclusive pelas professoras, coincidiam. E dentre as apresentadas, apenas a de evasão por motivos de trabalho coincide. Mesmo a de uso e venda de drogas,

3 que para muitos poderia ser óbvia, por se tratar de uma escola que atende majoritariamente moradores da Rocinha, não aparece entre as hipóteses levantadas pelos professores da escola. Durante o percurso dessa pesquisa, feita para compreender os motivos da evasão de alunos do ensino médio, resolvi averiguar se esse ano em que realizo a respectiva pesquisa é um ano diferente dos outros em relação à evasão escolar, ou seja, se houve variação significativa. Voltando um pouco no tempo, em 2009 a escola, com a ajuda financeira da iniciativa privada, elaborou e pôs em prática um projeto que foi denominado Projeto Gerúndio. Explicando esse projeto de maneira bem simples, ele consiste em um conjunto de ações integradas, onde a cada quinze dias a escola se movimentou em uma competição, ou melhor, uma gincana cultural e esportiva, que teve início em maio e fim em novembro de 2009, com a culminância em um evento denominado Café com letras. Depois de 2009, o Projeto Gerúndio não mais ocorreu na escola. Os índices de evasão e os depoimentos dos alunos aos professores demonstram a importância do projeto na diminuição da evasão escolar. Segundo os alunos, as atividades animavamos a frequentar a escola. Eis a seguir alguns dados que confirmam a fala dos alunos. Em 2008 a evasão na escola chegou aos 28%, em 2009 a evasão caiu para 9%, em 2010 voltou a subir e chegou aos 30%, em 2011 a evasão ficou em 32% e em 2012 chegou aos 40%, índice mais alto entre os anos mencionados. Alguns eventos importantes e que merecem ser mencionados, ocorreram no CIEP Ayrton Senna 303. Até o final do ano de 2011 funcionava como escola de ensino fundamental, com turmas a partir do sexto ano e também de ensino médio, em 2012 deixou de funcionar como escola de ensino fundamental, passando a funcionar exclusivamente com turmas de ensino médio. Tal fato fez com que o perfil do aluno mudasse. Antes dessa mudança, o aluno já possuía vínculos com a escola ao chegar ao ensino médio, após 2011 esses vínculos não mais existem, pois o aluno passou a ser oriundo de outras

4 escolas, acabando com a continuidade de um trabalho que vinha sendo realizado desde o ensino fundamental. Ainda falando do ano de 2011 a escola passou, como várias outras no Estado do Rio de Janeiro, por um período de greve, que afetou o calendário escolar e que talvez ajude a explicar o segundo maior índice de evasão desde 2008, com turmas chegando aos 50% de alunos evadidos. Em 2012, inicialmente me propus a acompanhar apenas três turmas, uma de cada ano do ensino médio. A seguir apresentarei um gráfico com os percentuais de evasão no primeiro bimestre destas três turmas. As três turmas foram denominadas de turma um, dois e três e são respectivamente de primeiro, de segundo e de terceiro ano. Se comparado aos anos de 2010 e principalmente de 2011, esses percentuais estariam diminuindo, porém esses dados são apenas do primeiro bimestre e de apenas três turmas, ou seja, mantendo o histórico da escola, esses percentuais tendem a aumentar até o fim do ano letivo. Esse fato infelizmente se confirmou e no final de 2012 o índice de evasão da escola foi a maior entre os anos pesquisados. A seguir, apresentarei os dados obtidos ao final do ano de

5 2012, que demonstram de forma mais detalhada como estão os números da evasão no CIEP Ayrton Senna. Como podemos observar no gráfico acima, os números da evasão escolar no CIEP Ayrton Senna em 2012, foram os maiores desde o início desse acompanhamento, em O índice de evasão na escola foi revelador. Em números absolutos a escola atendia a 1427 alunos, teve 584 alunos evadidos e 17 transferidos, o que revela que entre o número de alunos evadidos estão ausentes os transferidos. Sem tal explicação, poderiam suscitar dúvidas quanto ao fato de os alunos realmente terem deixado a escola. Entre as séries, o índice do primeiro ano foi disparado o maior, em números absolutos, de um total de 813 alunos, 364 evadiu. Para contextualizar a situação da evasão na escola pesquisada e por entender que sem essa contextualização, não seria possível ter parâmetros da situação do fenômeno aqui estudado, resolvemos buscar dados sobre evasão em diferentes escalas, partindo da nacional, passando pela estadual e chegando

6 até a escala da própria escola. Abaixo apresentaremos um gráfico com esses índices. Ao analisar o gráfico acima, fica evidente que os índices do CIEP estão muito acima, tanto do índice nacional, quanto do estadual, isso demonstra o tamanho do problema, mas não suas razões. Constatado isso, cumpro uma parte, ainda bem inicial deste trabalho, mas que é fundamental para as próximas etapas e para o objetivo central da pesquisa, que é entender os motivos da evasão escolar, em especial, dessa escola. Saber que o índice de evasão do CIEP Ayrton Senna está com indicadores tão significativos, instiga e dá mais fôlego a essa investigação. Antes de encerrar, há algo importante a ser mencionado, mas que por hora não entrarei em detalhes, que vem sendo realizado pela secretaria estadual de educação do Rio de Janeiro, de forma arbitrária, segundo os docentes da escola, que é um processo o qual denominarei de evasão compulsória.

7 Consiste na eliminação da matrícula dos alunos que possuem um determinado número de faltas, que o funcionário da secretaria estadual de educação considera alto. Quando digo que vem sendo realizado de forma arbitrária, é porque o professor não é consultado, pois mesmo que aluno tenha a presença em algumas disciplinas e não em outras, isso não é levado em conta. Tal fato sequer é questionado e muito menos investigado. Daí surge quase que naturalmente um questionamento. Que impactos essa política da secretaria estadual de educação tem nesses índices? E mais, que impactos tem na vida desses alunos? No início de 2014, a presente pesquisa ganhou novos elementos, com uma mudança de escola, um grupo de bolsistas, no qual me incluo, saiu do CIEP Ayrton Senna e foi trabalhar no Colégio Estadual André Maurois, localizado no bairro da Gávea. Porém, apesar da mudança de escola, a princípio a nova escola atende na maioria, alunos moradores da Rocinha, como era também o caso do CIEP Ayrton Senna. Quando digo que a pesquisa ganhou novos elementos, o digo porque a princípio a pesquisa seria realizada somente no CIEP Ayrton Senna, a mudança de escola ampliou as possibilidades da pesquisa, mas ainda não tivemos muito tempo na nova escola. De forma muito superficial, pudemos constatar algumas diferenças entre as escolas, inclusive no que diz respeito aos índices de evasão escolar, o Colégio Estadual André Maurois tem índices de evasão bem menores que o CIEP Ayrton Senna. Outra diferença, é quantidade de atividades extra curriculares oferecidas pelas escolas citadas acima, o Colégio André Maurois, tem grupos de coral, teatro, esportes, etc. e o CIEP não. Mas como disse anteriormente, afirmar que isso é que faz a diferença nos índices de evasão dessas escolas, sem uma investigação mais apurada, seria muito superficial, ou até mesmo leviano de nossa parte. E é esse o nosso desafio, investigar, antes de afirmar qualquer coisa. Também apresentaremos algumas hipóteses que tentam explicar a evasão escolar em outras escalas. A próxima etapa do trabalho buscará compreender de maneira mais detalhada os motivos da evasão nessas escolas.

8 Conforme dito antes, os dados ainda são muito preliminares, a pesquisa ainda está em desenvolvimento e seria muito precipitado fazer afirmações. Pois, mais do que levantar dados, temos por objetivo entender os motivos dessa evasão e esse desafio se faz mais necessário que nunca, conforme apontam os índices. A única afirmação que posso fazer nesse momento da pesquisa é que além da pesquisa tentar ajudar a escola a entender os motivos da evasão escolar e, quem sabe, suscitar uma proposta de Projeto Político Pedagógico específico para tentar enfrentar essa questão. Ela irá contribuir em minha formação, uma vez que pretendo lecionar ao final da graduação. Como professor, ter algum acúmulo teórico e prático sobre evasão, que é um problema que há muito está presente nas escolas brasileiras, é de extrema importância. O cotidiano escolar é uma fonte inesgotável de aprendizagem, haja vista que o tema desta pesquisa, surgiu a partir de uma despretensiosa conversa na sala dos professores da escola pesquisada. Então, realizar essa pesquisa, participando do cotidiano escolar, provavelmente irá trazer algum conhecimento das questões da evasão escolar, mas não somente em relação a essa temática. Referências Reinert, J. N. & Gonçalves, W. J. Evasão Escolar: Percepção Curricular como Elemento Motivador no Ensino para os Cursos de Administração - Estudo de Caso. X Coloquio Internacional Sobre Gestión Universitaria en América del Sur. Mar del Plata, Souza, A. A.; Souza, T. P.; Queiroz, M. P.; Silva, E. S. L Evasão Escolar no Ensino Médio: Velhos ou Novos Dilemas? Campos dos Goitacazes: Revista Vértices, v.13, nº1, págs

9 Dubet, F O Que É Uma Escola Justa? Cadernos de Pesquisa, v.34, nº123, págs Charlot, B A Pesquisa Educacional Entre Conhecimentos, Políticas e Práticas: Especificidades e Desafios de uma Área do Saber. Revista Brasileira de Educação, v.11, nº31, págs

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