RECOMENDAÇÃO Nº 09, DE 13 DE JULHO DE 2015

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1 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Procuradoria da República no Estado do Amazonas RECOMENDAÇÃO Nº 09, DE 13 DE JULHO DE 2015 O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelo Procurador da República signatário, no regular exercício de suas atribuições, com base nos arts. 127, caput, e 129 da Constituição da República; artigo 5º, incisos I, III, e, V, a, VI, e artigo 6º, incisos VII, b e XX, todos da Lei Complementar nº 75/93: CONSIDERANDO a função institucional do Ministério Público de promover o Inquérito Civil Público e a Ação Civil Pública para a defesa de interesses difusos e coletivos, dentre os quais o meio ambiente e o patrimônio público e cultural, conforme a Lei Orgânica do Ministério Público da União (LC nº 75, de , art. 6º, inc. VII, alínea b ), bem como a propositura das ações de responsabilidade por danos morais e materiais causados ao patrimônio público, ao meio ambiente e a outros interesses difusos e coletivos (art. 129, III, da Constituição Federal e art. 1º, I e IV, da Lei nº 7.347/1985); CONSIDERANDO que o art. 6º, XX, da LC n. 75/1993 autoriza o Ministério Público a expedir Recomendações, visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como ao respeito aos interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo razoável para a adoção das providências cabíveis; CONSIDERANDO o que consta do Procedimento de Acompanhamento nº / , instaurado para fiscalizar a execução dos compromissos assumidos com a Agenda Socioambiental para o Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, na campanha eleitoral de 2014; CONSIDERANDO que como desdobramento da campanha Queremos uma Agenda Socioambiental para o Amazonas, promovida pelo Movimento Ficha Verde, os candidatos ao governo foram convidados a assumir compromissos públicos sobre temas prioritários para o meio ambiente e para a qualidade de vida da população do Estado;

2 CONSIDERANDO que nesse contexto, foi elaborada uma Carta de Compromissos, com demandas e propostas estratégicas, que giram em torno de quatro eixos principais, interligados entre si: (i) fortalecimento dos órgãos responsáveis pela gestão ambiental e territorial do Estado; (ii) valorização da floresta em pé e produção sustentável; (iii) melhoria da qualidade de vida nas áreas urbanas; e (iv) fortalecimento da transversalidade da temática ambiental dentro de outras Secretarias de Estado e nos municípios; CONSIDERANDO que dos sete candidatos ao governo, todos, sem exceção, assinaram a Carta de Compromissos elaborada pelo Movimento Ficha Verde, inclusive o então candidato à reeleição e atual Governador; CONSIDERANDO que ao subscrever a Carta, o Governador assumiu expressamente o compromisso de fortalecer a gestão ambiental e territorial do Amazonas, seja por meio do cumprimento do dever de zelar pela integridade das unidades de conservação (UC's) do Estado, elaborando e implementando os respectivos Planos de Gestão, seja atuando prioritariamente na regularização fundiária de unidades de conservação estaduais, em pelo menos dez UC's por ano, até contemplar todo o sistema estadual, e mais os seguintes compromissos (relação exemplificativa e não exaustiva): 1) Realização de concurso público com o objetivo de aumentar em pelo menos 50% o quadro técnico permanente do IPAAM; 2) Utilização de tecnologias avançadas e apropriadas para facilitar o monitoramento do uso da terra e das florestas; 3) Criação do Fundo Estadual de Compensação Ambiental; 4) Definição, com a participação da sociedade, dos mecanismos para viabilizar o pagamento de pelo menos 50% dos valores previstos para as compensações ambientais, anualmente, nas unidades de conservação; 5) Construção de uma rede estruturada e integrada de transporte coletivo e não-motorizado em Manaus, com a implementação de pelo menos 10 km de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas por ano na cidade e estacionamentos de bicicletas (conhecidos como bicicletários), próximos aos terminais de ônibus existentes em Manaus; 6) Apoio à consolidação dos Planos Diretores Municipais que incluam planos setoriais com previsão orçamentária em todos os municípios e que privilegiem os seguintes temas: recuperação dos igarapés urbanos, ampliação e manutenção dos corredores ecológicos, arborização urbana, mobilidade, macrodrenagem, acessibilidade, saneamento básico e alinhamento de passeio; 7) Apoio à arborização, criação e manutenção de áreas verdes, com comprovada influência sobre o clima, na cidade de Manaus e em pelo menos 25 municípios do interior;

3 8) Aumento da conectividade dos fragmentos florestais urbanos dos complexos de remanescentes florestais denominados Bacia do Mindu, Tarumã-Ponta Negra e Distrito Industrial, até 2016, como forma de garantir a qualidade de vida e proteção de espécies ameaçadas, entre elas o macaco sauim-de-coleira; 9) Criação de programas de educação adaptados à realidade local; 10) Desenvolvimento de um programa educacional de conteúdo regionalizado em seus aspectos ecológicos, culturais, históricos, geográficos e sociais em Manaus e em pelo menos 10 municípios do interior; 11) Geração de energia em bases renováveis em pelo menos 2 municípios do Estado por ano, visando à diversificação da matriz energética; 12) Regulamentação da Lei Estadual nº 3.803/2012 (lei dos agrotóxicos) e estabelecimento de uma Política Estadual de redução do uso de agrotóxicos; 13) Incentivo à produção orgânica e à valorização da diversidade regional, com ampliação e divulgação do número das feiras de produtos orgânicos nos municípios da região metropolitana de Manaus; 14) Criação de instrumentos jurídicos, administrativos e financeiros para a implementação do programa Municípios Verdes, incluindo a regulamentação do ICMS ecológico; 15) Atendimento a todas as recomendações do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE- AM), divulgadas após auditorias operacionais e ambientais realizadas nos anos de 2011 e 2012, para melhorar a estrutura operacional e a capacidade de gestão dos órgãos ambientais do Poder Executivo do Estado; 16) Implementação do SIEAM (sistema informatizado de tramitação de processos); 17) Construção, operação e manutenção de pelo menos um centro de compostagem e/ou usina de biogás na área urbana e um na área rural do Estado, para a coleta e aproveitamento de resíduos orgânicos dos açougues, frigoríficos, peixarias, matadouros, feiras, dentre outros, com parcerias da sociedade civil e empresas; 18) Envolvimento da sociedade civil e de organizações e movimentos sociais na construção da Agenda Ambiental da Administração Pública A3P, processo que deve ser participativo e transparente. CONSIDERANDO que não obstante, durante o processo eleitoral de 2014, Vossa Excelência apresentou a toda sociedade amazonense o Plano de Governo para a gestão de 2015 a 2018 (em anexo), caso lograsse êxito no certame, traçando, especificamente, diretrizes e ações políticas em prol da preservação ambiental do estado e do seu desenvolvimento sustentável, as quais, em razão de uma estrutura administrativa deficiente e ausência de recursos orçamentários/financeiros, podem restar inviáveis;

4 CONSIDERANDO o caráter vinculante dos compromissos assumidos, de modo que o descumprimento das propostas de governo registradas durante a campanha pode configurar estelionato eleitoral. Sobre o assunto, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 4523/2012, que pretende alterar o art. 171 do Código Penal para tipificar o crime, sob a justificativa de que a conduta encerra o mesmo tipo de fraude, só que em relação ao exercício da cidadania; CONSIDERANDO que os compromissos assumidos na Agenda Socioambiental para o Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e no Plano de Governo para a gestão de 2015 a 2018 necessitam da destinação de recursos orçamentários específicos e suficientes para fazerlhes frente, a serem incluídos no Plano Plurianual - PPA, na Lei de Diretrizes Orçamentárias - LDA e na Lei do Orçamento Anual LOA /2016, do Estado do Amazonas; CONSIDERANDO que, conforme os arts. 165 a 169 da Constituição Federal de 1988, o orçamento anual visa concretizar os objetivos e metas propostas no PPA, segundo as diretrizes estabelecidas pela LDO, cujos recursos orçamentários e financeiros para o atingimento de suas metas e prioridades serão discriminados pela LOA; CONSIDERANDO que a Constituição do Estado do Amazonas dispõe, no seu art. 54, dentre as atribuições do Governador XV - enviar á Assembléia Legislativa o plano plurianual, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias e as proposta de orçamento previstas nesta Constituição. CONSIDERANDO que, de iniciativa exclusiva do Poder Executivo, o prazo para envio da proposta de LOA para a Assembleia Legislativa é 30 de setembro de cada ano, devendo ser votada até 15 de dezembro, a fim de ser aplicada no ano subsequente; CONSIDERANDO o que dispõem os arts. 157 a 161 da Constituição do Estado do Amazonas, sobre os orçamentos estaduais, verbis: ART Leis de iniciativa do Poder Executivo estabelecerão: I - o plano plurianual; II - as diretrizes orçamentárias; III - os orçamentos anuais. 1º. A lei que institui o plano plurianual estabelecerá, de forma regionalizada, diretrizes, objetivos e metas da administração pública para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada. 2º. A Lei de Diretrizes Orçamentárias compreenderá: I - as metas e prioridades da administração pública direta e indireta; II - as projeções das receitas e despesas para o exercício financeiro subsequente;

5 III - os critérios para a distribuição setorial e regional dos recursos para os órgãos dos Poderes do Estado e Municípios; IV - as diretrizes relativas à política de pessoal; V - as orientações para a elaboração da lei orçamentária anual; 3º. O Estado e os Municípios publicarão, até trinta dias após o encerramento de cada bimestre, relatório resumido da execução orçamentária. 4º. Os planos e programas estaduais e municipais serão elaborados em consonância com o plano plurianual e apreciados pelo Poder Legislativo. 5º. A lei orçamentária anual compreenderá: I - o orçamento fiscal referente aos Poderes do Estado e dos Municípios, seus fundos, órgãos e entidades da administração direta, indireta e fundacional; 7º. Os orçamentos previstos no 5º, incisos I, II, deste artigo, serão compatibilizados com o plano plurianual. 8º. A lei orçamentária anual não conterá dispositivo estranho à previsão da receita e à fixação da despesa ( ). ART Os projetos de lei relativos ao plano plurianual, às diretrizes orçamentárias e ao orçamento anual e aos créditos adicionais serão enviados pelo Chefe do Poder Executivo ao Poder Legislativo, nos termos da lei complementar a que se refere o art. 157, 9º, desta Constituição. ART São vedados: I - o início de programas ou projetos não incluídos na lei orçamentária anual; II - a realização de despesas ou assunção de obrigações diretas que excedam os créditos orçamentários ou adicionais; V - a abertura de crédito suplementar ou especial sem prévia autorização legislativa e sem indicação dos recursos correspondentes; VI - a transposição, o remanejamento ou transferência de recursos de uma categoria de programação para outra ou de um órgão para outro, sem prévia autorização legislativa; 1º. Sob pena de crime de responsabilidade, nenhum investimento cuja execução ultrapasse um exercício financeiro poderá ser iniciado sem prévia inclusão no plano plurianual, ou sem lei que autorize a inclusão. ART A despesa com pessoal ativo e inativo do Estado e dos Municípios não poderá exceder os limites estabelecidos em lei complementar federal. 1º. A concessão de qualquer vantagem ou aumento de remuneração, a criação de cargos, empregos e funções ou alteração de estrutura de carreiras, bem como a admissão ou contratação de pessoal, a qualquer título, pelos órgãos e entidades da administração direta ou indireta, inclusive fundações instituídas e mantidas pelo poder público, só poderão ser feitas:

6 I - se houver prévia dotação orçamentária suficiente para atender às projeções de despesas de pessoal e aos acréscimos dela decorrentes; II - se houver autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias, ressalvadas as empresas públicas e as sociedades de economia mista. RESOLVE RECOMENDAR ao Excelentíssimo Senhor Governador do Estado do Amazonas que inclua no PPA e na proposta de orçamento - LOA/2016 do Estado do Amazonas, a serem enviados à Assembleia Legislativa, a previsão de recursos orçamentários específicos e suficientes para fazer frente aos compromissos assumidos na Agenda Socioambiental para o Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e no Plano de Governo para a gestão de 2015 a 2018, referentes à área ambiental. Fica advertido o destinatário da presente dos seguintes efeitos das Recomendações expedidas pelo Ministério Público: (a) constituir em mora o destinatário quanto às providências recomendadas, podendo seu descumprimento implicar a adoção de medidas administrativas e ações judiciais cabíveis contra o responsável; (b) tornar inequívoca a demonstração da consciência da ilicitude do recomendado; (c) caracterizar o dolo, má-fé ou ciência da irregularidade para viabilizar futuras responsabilizações em sede de ação por ato de improbidade administrativa quando tal elemento subjetivo for exigido; e (d) constituir-se em elemento probatório em sede de ações cíveis ou criminais. Nos termos do artigo 23, 1º, da Resolução n. 87/2006, do Conselho Superior do Ministério Público Federal, fica estabelecido o prazo de 30 (trinta) dias para que sejam informadas as providências adotadas em relação ao cumprimento da presente Recomendação, informando ponto a ponto os recursos incluídos no PPA e na proposta de orçamento - LOA/2016 do Estado do Amazonas, destinados a cada um dos compromissos assumidos na Agenda Socioambiental para o Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e no Plano de Governo para a gestão de 2015 a 2018, referentes à área ambiental. Encaminhe-se cópia à 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal para ciência e providências a seu cargo. RAFAEL DA SILVA ROCHA Procurador da República

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