A Presença da Siderurgia Brasileira no Mercado Internacional: Desafios para Novos Avanços

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1 A Presença da Siderurgia Brasileira no Mercado Internacional: Desafios para Novos Avanços Fernando Rezende 1 As importantes transformações ocorridas na siderurgia brasileira após a privatização promovida no início da década concorreram para ampliar significativamente as oportunidades do setor, tanto no mercado interno quanto, e principalmente, no mercado internacional. Importantes conquistas foram asseguradas, a despeito de dificuldades decorrentes de limitações impostas por necessidades da política macroeconômica, principalmente nos campos tributário e financeiro. O indicador mais representativo das transformações mencionadas é o que aponta para os ganhos de produtividade alcançados. A produção (tonelada de aço cru) por homem/hora saltou das 141 toneladas no final os anos oitenta para as 470 toneladas alcançadas na virada do milênio, graças ao enorme esforço realizado pelas empresas para racionalizar o processo produtivo, eliminar desperdícios, investir na modernização tecnológica das plantas industriais e revolucionar os métodos de gestão empresarial A face financeira das transformações exibe os recursos aplicados na modernização e os resultados daí decorrentes. Entres 1994 e 2000, os investimentos realizados pelo conjunto das empresas do setor atingiram a expressiva cifra de 10,2 bilhões de dólares, parcialmente financiados com o aporte de recursos próprios, que cresciam à medida em que esses investimentos iam se transformando em crescentes resultados financeiros. Apesar do baixo desempenho da economia brasileira na década passada, os resultados do setor mostraram o acerto das medidas adotadas pelas empresas para enfrentar o duplo desafio da abertura da economia e da privatização. Em números redondos, a renda líquida alcançou o montante de 2 bilhões de dólares em 2001, em comparação com os magros 300 milhões de dólares observados em Assessor Especial, Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior

2 No processo de adaptação à nova realidade resultante da abertura da economia e da retirada do Estado das atividades produtivas, a restruturação do setor também deu uma contribuição decisiva. Mediante fusões e aquisições, os principais grupos empresariais privados se fortaleceram, adquirindo melhores condições de competição. As mudanças processadas foram fundamentais para o atendimento do mercado interno e para consolidar posições conquistadas no mercado internacional, apesar do aumento da competição decorrente do excesso de capacidade produtiva no mundo e do baixo desempenho da economia mundial em anos recentes. Na frente interna, a demanda de aço cresceu à taxa de 6% ao ano na década de noventa, mais do dobro da taxa de crescimento da economia, elevando o consumo interno de produtos acabados para 18,2 milhões de toneladas em Apesar de aberto ao produtor estrangeiro, o coeficiente de penetração de importações no mercado brasileiro de aço é bastante reduzido (da ordem de 6% em 2000), revelando a que a predominância no atendimento do mercado interno pelo produtor nacional não foi abalada pela exposição à concorrência internacional. A consolidação de posições alcançadas no mercado externo foi um dos feitos mais marcantes do setor. Exposta à competição e desprovida de qualquer apoio governamental, a siderurgia brasileira mostrou-se capaz de assumir condições de competir em mercados dominados por indústrias de maior porte e com maior tradição no mercado internacional. Novos planos estão a caminho para tornar o setor ainda mais competitivo. Importa não abandoná-los em um momento onde a reativação de fatores adversos pode levar a posturas mais cautelosas. Até o início da década de oitenta, a exportação de produtos siderúrgicos brasileiros era insignificante., concentrava-se em produtos de baixo valor e não alcançava mercados mais distantes e sofisticados. Um grande avanço no sentido de conquistar uma parcela mais significativa do mercado internacional foi observado na década de oitenta. Em 1989, as exportações brasileiras de aço superaram a barreira dos 10 milhões de toneladas muito pouco ainda quando esse volume é comparado com o tamanho do mercado mundial de produtos siderúrgicos, mas revelador de uma maior tomada de consciência do empresário brasileiro com respeito à necessidade de expandir sua presença no mercado global.

3 Parte do crescimento das exportações nesse período deveu-se ao desaquecimento da economia brasileira e à necessidade de buscar colocação externa para a produção que não estava sendo absorvida internamente. Todavia, o aumento da presença externa teve repercussões positivas na fase seguinte, em que as novas condições de competição iriam exigir uma mudança de atitude dos empresários do setor, uma vez que a preservação do mercado interno passaria a depender também da capacidade de competir no mercado internacional. Assim, a despeito do significativo crescimento da mercado interno nos anos noventa, mencionado anteriormente, o volume exportado nessa década, após acusar um razoável crescimento nos primeiros dois anos (90-92), manteve-se no patamar atingido no final dos oitenta, demonstrando a preocupação em preservar conquistas da década anterior e avançar na direção de ocupar um maior espaço no mercado internacional. Embora importante, a manutenção do patamar atual de exportações não condiz com a competitividade internacional da siderurgia brasileira, cuja presença no mercado externo, como produtor e exportador, apresenta modestos índices de 3%. O protecionismo internacional, agravado pelas condições de excesso de capacidade produtiva no mercado mundial de produtos siderúrgicos, não permitiu que a composição das exportações brasileiras evoluísse positivamente no sentido de uma maior participação de produtos finais de maior valor. Assim, o espaço aberto para a penetração do aço brasileiro nos mercados externos ocorreu no segmento dos semi-acabados, em decorrência do fechamento de usinas não competitivas em outros países produtores. A tendência declinante das exportações de produtos finais nos anos noventa fez com que esse item da pauta de exportações de produtos siderúrgicos caísse para cerca de 3,5 milhões de toneladas em 2000, enquanto a exportação de semi acabados ultrapassava a faixa dos 6 milhões de toneladas. O esforço de consolidação da presença do produto brasileiro no mercado internacional dirigiu-se também para a busca de novos mercados, tendo em vista as dificuldades encontradas para superar as barreiras ao acesso a mercados tradicionais e à entrada em nichos mais nobres do mercado de produtos siderúrgicos. Aproveitando a vantagem da siderurgia brasileira na produção de produtos intermediários de alta qualidade (semi-acabados), o setor pode firmar posição no mercado norte-americano e aumentar sua

4 presença em países asiáticos, em especial Coréia, Tailândia e Taiwan. Juntos, esses três países já representam um mercado eqüivalente a cerca de 80% do mercado norteamericano. As estratégias para o futuro imediato caminham na direção de buscar maiores espaços. Em todos os segmentos do mercado internacional a indústria brasileira detém know how e condições de expandir sua presença no cenário internacional. As dificuldades para que isso aconteça não estão no campo da microeconomia e sim nos da macroeconomia e da política internacional. Juros elevados, impostos perversos e barreiras ao acesso a mercados de países desenvolvidos compõem o cocktail de ingredientes que ameaçam a transformação das estratégias concebidas em resultados ainda mais auspiciosos nesta primeira década do novo milênio. Dos principais fatores acima mencionados aquele com maior chance de trazer resultados mais imediatos no tocante ao desempenho exportador do setor siderúrgico brasileiro é o tributário. Estudo recente de economistas do IPEA e do BNDES revelou que a indústria siderúrgica é a mais afetada pela cumulatividade das contribuições sociais, que prejudica não só as exportações, mas também a capacidade de sustentar a competição no mercado doméstico. De acordo com o mencionado estudo, os produtos da siderurgia suportam um ônus eqüivalente a mais de 10% do valor do produto final como conseqüência da incidência cumulativa do PIS/COFINS e da CPMF ao longo de sua cadeia produtiva. Comparativamente aos demais setores da indústria contemplados nesse estudo, o ônus suportado pela siderurgia é o maior de todos. Numa conjuntura internacional marcada por um excesso de produção de aço, que concorre para deprimir os preços dos produtos siderúrgicos no mercado global e estreitar as respectivas margens de comercialização, uma pressão dessa ordem sobre os preços da indústria nacional impõe sérios limites ao aumento da fatia que os produtos brasileiros abocanham do mercado mundial. Os problemas tributários enfrentados pelo setor não se resumem às contribuições cumulativas vinculadas ao financiamento dos programas de seguridade social. O aumento das vendas externas acarreta outro problema: o acúmulo de créditos tributários relativos à cobrança do imposto estadual sobre o valor agregado (o ICMS), decorrente de dificuldades existentes para o aproveitamento integral desses créditos, principalmente quando eles se

5 referem a insumos adquiridos em outras unidades da federação. A acumulação de créditos do ICMS, que já representa um problema importante para algumas empresas, crescerá à medida que o setor aumentar sua presença no exterior, caso a Reforma Tributária que a sociedade brasileira vem reivindicando não avance na direção de transferir a incidência integral do imposto estadual para a unidade federada de destino das mercadorias, acabando com o sistema misto hoje adotado. As recentes restrições impostas pelo governo norte-americano à importação de produtos siderúrgicos e o esperado acirramento da disputa por outros mercados chama atenção para a urgência na adoção de providências que evitem retrocessos com respeito à presença internacional da siderurgia brasileira. Para isso, é necessário que o governo acompanhe os esforços que o setor privado vem fazendo para aumentar a contribuição do setor para a geração de saldos comerciais positivos e crescentes, indispensáveis para aliviar a restrição externa à obtenção de taxas mais elevadas de crescimento da economia nacional. A ação do governo deve concentrar-se nas três frentes relacionadas às restrições anteriormente apontadas. A primeira é a das negociações internacionais. Nesse caso, urge continuar trabalhando para reforçar a capacidade do país para atuar de forma mais eficaz nas principais arenas de negociações globais e para encontrar elementos de barganha que concorram para melhores resultados em negociações bilaterais. A segunda frente importante de atuação governamental é a da consolidação da estabilidade macroeconômica, da qual depende a aceleração do ritmo de redução da taxa de juros e o barateamento do crédito interno aos investimentos e à produção, bem como o aumento do crédito ao exportador em condições eqüivalentes àquelas obtidas por nossos competidores no mercado global. O barateamento do crédito também concorrerá para aumentar a agressividade dos investimentos voltados para a modernização tecnológica e gerencial, indispensável para novos ganhos de produtividade. A frente tributária é a terceira na seqüência apontada, mas aquela com maior possibilidade de trazer resultados imediatos. Nessa área, as providências mais urgentes voltam-se para a eliminação da cumulatividade das contribuições sociais e para a instituição de regras capazes de evitar a acumulação de créditos do ICMS resultantes de operações de vendas ao exterior. Tanto uma como outra das providências apontadas já foram objeto de

6 vários estudos mostrando as distorções que provocam e seu efeito deletério no comércio internacional. Os sinais emitidos pelo governo e o Congresso, com respeito a um próximo entendimento em torno de propostas para retirar a cumulatividade dos tributos, abrem perspectivas promissoras para o setor, reforçadas por expectativas mais favoráveis para o desempenho da economia brasileira neste ano, o que daria maior segurança para se avançar mais rapidamente na direção de reduzir o custo do dinheiro. Ao mesmo tempo, a disposição demonstrada pelo governo brasileiro de agir mais rapidamente na frente de negociações internacionais permite que o desenho do cenário para a siderurgia brasileira no futuro adquira um colorido mais otimista, a despeito de uma recaída, que se espera temporária, do protecionismo.

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