ALFREDO MONTES: VESTÍGIOS DE UM PROFESSOR DE INGLÊS

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1 ALFREDO MONTES: VESTÍGIOS DE UM PROFESSOR DE INGLÊS Simone Silveira Amorim 1 / UFSE RESUMO Nas últimas décadas, o desenvolvimento de pesquisas sob a égide dos pressupostos teóricos da Nova História Cultural tem trazido uma ampliação do elenco das fontes a serem utilizadas nos trabalhos em História da Educação. Da mesma forma, os estudos biográficos têm demonstrado seu valor no sentido de que, através da análise da trajetória de um personagem, pode-se reconstruir o passado com vistas a compreendermos os acontecimentos relacionados com a área educacional. É através dessas considerações que se pretende corroborar a importância do uso de biografias como fonte de estudo no campo da História da Educação, analisando-se a trajetória de Alfredo de Siqueira Montes, o primeiro professor da cadeira de inglês da Escola Normal de Sergipe, e que esteve envolvido não só na implantação da cadeira, mas também foi figura influente no cenário educacional sergipano. Palavras-chave: biografia, Nova História Cultural, cadeira de inglês, Escola Normal, História da Educação. ALFREDO MONTES: TRACES OF AN ENGLISH TEACHER ABSTRACT In the last decades, the development of researches based on the New Cultural History theories have been broaden the number of sources to be used in works related to the History of 1 Mestranda em Educação do NPGED/UFS sob a orientação da Profª. Drª. Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação: Intelectuais da Educação, Instituições Educacionais e Práticas Escolares do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da UFS.

2 Education. Likewise, the biographical studies have shown their value bearing in mind that, throughout the analysis of someone s life, it is possible to rebuild the past in order to understand the facts related to the educational major. Thru these considerations we intend to reinforce the importance of biographies as a source in the major of the History of Education, analyzing the life history of Alfredo de Siqueira Montes, the first English teacher at Escola Normal, who was involved not only in introducing the new subject, but was also a very influent person in the educational setting. Key-words: biography, New Cultural History, English specialty, Escola Normal, History of Education. Estudos recentes têm comprovado que muito foi realizado durante o século XIX e que muitos frutos plantados durante esse século foram colhidos no século XX, haja vista a educação feminina que se iniciou de forma revolucionária com as Escolas Normais, a partir da década de 1830, e que culminou com a inserção das mulheres no ensino superior e conseqüentemente no mercado de trabalho formal. Esta afirmação pode ser comprovada através de estudos realizados de acordo com os pressupostos teórico-metodológicos da História da Educação e da Nova História Cultural. Neste sentido, entende-se a importância dos estudos biográficos para a compreensão da configuração do trabalho docente no século XIX em Sergipe. O fato é que, a partir da década de 1980, começou a se instaurar uma verdadeira revolução no fazer histórico com o advento da Nova História Cultural trazendo consigo um alargamento das fontes a serem utilizadas pelos historiadores. Um dos grandes problemas a atormentar os que trabalham a história da educação pela via da cultura escolar é o de fontes, porque, salvo quanto aos atos institucionais formais e os do sistema educativo, os demais raramente se reduzem a termo escrito. Daí a busca por fontes alternativas, que incluem a iconografia, a oralidade e plantas arquitetônicas. Mesmo entre as fontes escritas, muitas aparecem com o ar de alternativas para os profissionais da área, como os cadernos de exercícios escolares, os diários de classe e outros do tipo (CASTANHO, 2000, p. 9). Segundo Warde, entre as disciplinas que compõem o campo dos estudos educacionais superiores, é a História da Educação que apresenta as mudanças mais significativas nos últimos anos (2003, p. 47). A importância da Nova História Cultural sobre os estudos de

3 História da Educação no Brasil se dá pela incorporação e redefinição através da incorporação e da redefinição de problemas, temas e objetos de estudos, como que relegados aos historiadores da educação (NUNES e CARVALHO, 1993, p. 37). Esse casamento entre a Nova História Cultural e a História da Educação veio dar um novo vigor à historiografia que pode agora nos ajudar, através dos vestígios colhidos das mais variadas fontes, a compreender melhor o que ocorria no campo educacional em uma determinada época. Mas é necessário ressaltar que A história cultural continuará sendo história cultural, interessada no estudo da teia simbólica tecida pelas sociedades humanas. A história da educação seguirá sendo história da educação, preocupada com o estudo no tempo e no espaço do fenômeno educativo em mudança. Mas ao estudar as práticas e representações dos atores e instituições educativas, a história da educação estará filtrando para dentro de seu próprio campo, numa espécie de processo osmótico, temáticas e olhares antes específicos da história cultural, não importa em qual das modalidades das muitas que pontilharam seu itinerário (CASTANHO, 2000, p. 9). No que diz respeito à educação feminina e a criação das Escolas Normais, essa iniciativa passou por diversos processos. Segundo Azevedo (1976), com a descentralização do ensino, através do Ato adicional de 1834, as Províncias passaram a ter o direito de promover a educação primária e secundária. A partir de então foram sendo estabelecidas as primeiras escolas normais no Brasil. A primeira a iniciar os seus trabalhos foi na cidade de Niterói em 1835 e essa província teve o papel de laboratório de práticas que foram estendidas a todo o país por causa da supremacia, a nível nacional, que os políticos fluminenses exerciam. Pouco tempo depois, em 1836, começa a funcionar a escola normal da Bahia e em seguida a do Ceará, em A necessidade da formação de professores em uma instituição de ensino especializada foi questionada durante as décadas de 1850 e Na verdade, durante o século XIX, os governadores das províncias ameaçavam fechar as portas das escolas normais sempre que havia outras prioridades em suas administrações e, conseqüentemente, em seus orçamentos. Algumas delas tiveram suas portas fechadas em várias ocasiões. Nessas fases de instabilidade as velhas fórmulas de prover as cadeiras vagas no magistério por meio dos concursos e/ou da utilização dos professores adjuntos passavam a substituir o investimento na formação (VILLELA, 2000, p. 113). E é nesse contexto que os diretores dessas instituições sentiram o quão difícil era manter um curso que não era valorizado pelos próprios dirigentes das

4 províncias. Por outro lado, freqüentemente, pessoas pouco preparadas para a função do magistério prestavam concursos sem maiores exigências e assumiam as cadeiras de ensino. Além disso, por muitas vezes, esses concursos já tinham seus candidatos indicados, ficando conhecidos como concursos de palácio. No entanto, a fase que se inicia a partir da década de 1970 é testemunha de uma revalorização das escolas normais. Em Sergipe, os anos de 1870 foram marcados por tentativas de implantação, organização e aperfeiçoamento da educação para professores primários. Naquela década, à medida que os presidentes se sucediam, também eram feitas mudanças, não somente no currículo, mas também na duração do curso. É nesse contexto que o diretor da instrução pública, no relatório de 4 de março de 1872, constata que o curso não oferece as melhores esperanças para satisfazer essa necessidade, chamando a atenção para a baixa freqüência ao mesmo. Nos anos que se seguiram, observa-se a preocupação constante com a Escola Normal: questiona-se o currículo, a necessidade da fiscalização das aulas e a avaliação do trabalho do professor. Em 1877 foi criada pelo Diretor Geral da Instrução Pública, Manuel Luís, uma Escola Normal feminina já que se acreditava que a mulher estaria mais habilitada para exercer o magistério primário. Também foi criada, no mesmo ano, uma outra escola normal sediada no Asilo N. S. da Pureza (extinto em 1891) pelo então presidente João Ferreira de Araújo Pinho (VALENÇA, 2002, p. 12). Até então não há registros da disciplina inglês no currículo da Escola Normal, mas apenas no curso de humanidades do Atheneu Sergipense. Quanto à instituição escolar, podemos afirmar que a mesma está permeada por discursos, inclusive da sociedade em geral. As configurações que estão implícitas nos mesmos são determinantes no sentido de que elas direcionam a cultura escolar e a ação dos professores. Por conseguinte, é imprescindível analisar o papel daqueles que têm o encargo de transmitir conhecimentos dentro do contexto em que cada um deles se inserem, bem como o dos seus semelhantes e da sociedade como um todo, levando em conta que o corpo docente de uma instituição é parte essencial na consecução da transmissão de uma cultura escolar pensada para uma determinada época. Segundo Frago e Escolano (1998), faz-se obrigatória a delimitação, ordenação e seqüenciamento daquilo que se quer transmitir, ensinar ou apreender. É nesse sentido que se encontra a ação do corpo docente de uma instituição. Neste trabalho pode-se analisar a

5 trajetória do professor Alfredo Montes, que dedicou sua vida à instrução, desde o momento em que passou no concurso para a prestigiosa posição de lente do Atheneu no ano de 1877 até os últimos dias da sua vida e conseqüente morte em agosto de É importante salientar que, mesmo antes de se tornar lente de inglês, Alfredo Montes exerceu o cargo de chefe de seção da Secretaria de Governo, fato este que já lhe concedia bastante prestígio na vida política sergipana. No ano de 1877, no dia 22 de junho, foi realizado concurso para a cadeira de inglês do Atheneu cuja vaga foi preenchida por Alfredo de Siqueira Montes (SOUSA, 2002, p. 23). A sua posse deu-se a 3 de julho de O mesmo ocupou por algum tempo a mesma cadeira na Escola Normal, a partir de abril de 1882 (GUARANÁ,1925, p. 10). Durante as provas para o concurso para ocupar a cadeira de inglês, houve uma polêmica entre ele e seu concorrente, Hormecindo Mello, demonstrando a disputa pelo poder político presente nos concursos para a prestigiosa posição de Lente da Congregação do Atheneu. Após a sua aprovação, ele se tornou um dos mais influentes e importantes lentes dessa instituição, pois foi eleito secretário da Congregação em 1882 e também fez parte das comissões de exames finais de Inglês, Francês, Latim, Português, Geografia, e Filosofia. No ano de 1882 mais um desafio se pôs à sua frente: implantar a primeira Cadeira de Inglês da recém criada Escola Normal. Mas isso não o assustava, pois Perante as perplexidades, os sujeitos esclarecidos produzem sentidos e possibilidades para a Escola Normal, propõem novo começo e futuro iminente (MONARCHA, 1999, p. 112). Ao buscar perceber as relações de interdependência estabelecidas pelo Professor Alfredo Montes no decorrer de sua trajetória, os documentos já localizados, apresentam situações de enfrentamento e expressam relações de força serão analisadas a partir das proposições de Carlo Ginzburg: Mas, ao avaliar as provas, os historiadores deveriam recordar que todo ponto vista sobre a realidade, além de ser intrinsecamente seletivo e parcial, depende das relações de força que condicionam, por meio da possibilidade de acesso à documentação, a imagem total que uma sociedade deixa de si. (...) é preciso aprender os testemunhos às avessas, contra as intenções de quem os produziu. Só dessa maneira será possível levar em conta tanto as relações de força quanto aquilo que é irredutível a elas. (...) Os instrumentos que nos permitem compreender culturas diversas da nossa são os instrumentos que nos permitem

6 compreender culturas diversas da nossa são os instrumentos que nos permitirão dominá-las (GINZBURG, 2002, p. 43). Em 30 de dezembro de 1889, Alfredo Montes foi convidado para compor uma comissão, juntamente com Gumercindo Bessa e Tomás Leopoldo, com o objetivo de orientar o presidente Felisbelo Freire na reforma educacional a ser feita durante o seu governo. Ela teria uma missão árdua e penosa, pois deveria encontrar um meio de retirar das salas de aula os professores que não fossem habilitados para estar nelas, respeitando os direitos já adquiridos pelos mesmos desde que não houvesse sacrifício pecuniário para o Estado. Deveria apontar o melhor método educacional a ser utilizado nas escolas de primeiro grau bem como os livros que deveriam ser adotados e também especificar os meios mais eficientes de levar os professores a exercer com dignidade as suas funções. Conseqüentemente, seriam muitas as nuances a serem levadas em consideração. Durante os trabalhos, a Comissão se desentendeu no que dizia respeito pontos importantes: (...) a obrigatoriedade do ensino elementar, a educação dos sentidos e a adoção de método objetivo nas escolas primárias, a elevação do nível intelectual e moral dos professores, o ensino profissional, a severa fiscalização do magistério e a divisão das escolas em rústicas e urbanas, sendo estas subdivididas em 1º e 2º graus (NUNES, 1984, p. 178). Após apenas um mês de trabalho, Gumercindo Bessa se desligou da Comissão por defender e discordar dos rumos que seriam dados aos pontos acima expostos. Felisbelo Freire elaborou a Reforma contida no Regulamento oficializada pelo Decreto de 12 de março de 1890, com base em diversos pontos levantados pelo projeto educacional em que o professor Alfredo Montes estava inserido. Salienta-se a importância daquela reforma por sua originalidade. Ele também esteve envolvido em polêmicas, pois, em maio de 1898 foi jubilado pelo fato de ter enviado, juntamente com outras pessoas, um telegrama a diversas autoridades em todo o Brasil denunciando o fato de que o Presidente Martinho Garcez ter instalado sua amásia no Palácio do Governo. Ele foi considerado moralmente incapaz para exercer sua posição de Lente por fazer ostentação de menospreço dos poderes constituídos, recusando-lhes obediência.

7 Duro golpe para aquele que já havia sido Diretor da Instrução Pública, que via na condição de pessoa pública a obrigação de cultivar os conceitos morais e que foi tolhido no seu direito de fazer aquilo de que mais gostava: ensinar. De acordo com Carlos Monarca: A liberdade sujeitar-se à condição humana efetiva-se mediante o desenvolvimento intelectual, compreendido como clareação. Em outras palavras, o administrador público, enquanto ideólogo, busca instaurar uma síntese harmônica das forças morais e jurídicas, reunindo as vantagens do estado natural e do estado civil: a liberdade mantém o homem isento do vício e a moralidade o eleva à virtude. Trata-se, assim, de tornar policiado e civilizado aquilo que não o é (MONARCHA, 1999, p.76). Mas, em agosto de 1900, retornou ao cargo e em 1903 entrou com uma ação civil para receber os benefícios pecuniários do seu cargo, pois durante o período em que ficou jubilado ele estava percebendo remuneração proporcional ao seu tempo de serviço. A princípio ele perdeu a ação, mas recorreu da decisão através de seu advogado, Gumercindo Bessa, e obteve uma sentença favorável em Infelizmente não pôde usufruir do dinheiro, pois morreu em agosto de 1906 e, na ocasião, foi homenageado por proposta de alguns de seus alunos, dentre eles Gentil Tavares da Motta e Clodomir Silva. Estes mesmos alunos sugeriram que fosse inaugurado um retrato de Montes no salão nobre do Atheneu no dia 18 de maio de Dentre outros, estava presente o presidente Rodrigues Dória. A aposição de retratos nos ambientes escolares é destacado por Rosa Fátima de Souza: O retrato torna-se, assim, um elemento de decoração das escolas públicas. Porém, não somente isso. Além de homenagem, o retrato ratifica a história social e política do Estado e da localidade e constrói uma memória que articula a história social com a história da instituição (SOUZA, 1998, p.136). Além de trabalhar na Escola Normal e ocupar importantes cargos públicos, Alfredo Montes criou e manteve um estabelecimento de ensino particular, o Ginásio Sergipense, que funcionou sob sua direção apenas no período de 1888 a Como sua paixão era o magistério, não se eximiu de lecionar inglês e quando precisou se afastar da instituição foi seu filho Alfredo Junior que assumiu a direção da instituição e velou para que o projeto educacional do seu pai idolatrado continuasse a formar a mentalidade sergipana.

8 O trabalho sério e competente de Montes ficou marcado na memória de alguns de seus alunos que vieram a ser intelectuais sergipanos como Gilberto Amado e Carvalho Neto. Este rememora uma aula de inglês no Colégio situado à Rua da Frente e dirigido por Alfredo Montes Junior, filho mais velho de Montes, em que se distraiu a olhar o vapor Esperança que singrava as águas calmas do rio que podia ser visto pela janela da sala. O fato é que, por conta de sua desatenção, o professor Alfredo Montes havia interrompido a aula e aguardava em silêncio que o seu aluno voltasse seu olhar para o mestre e prestasse atenção ao assunto que estava sendo ministrado. Carvalho Neto descreve como prática constante de Montes o fato de observar cada um de seus discípulos, conhecê-los, despertar suas energias para então guiá-los. Segundo Carvalho Neto, fazendo uso da psico-pedagogia, ele media os níveis mentais, classificava os retardados desatentos, preguiçosos, deficitários de qualquer sorte. Após essas ações ele conversava com os pais sobre a capacidade e possibilidades dos alunos em questão. Apesar de ter vivido em uma época em que o uso da palmatória era comum, Montes preferia ter conversas paternais e persuasivas mesmo com aqueles alunos considerados rebeldes aos estímulos do bem (CARVALHO, 1945, p. 13). A descrição deste acontecimento nos dá indícios de que esta teria sido uma aula qualquer e até mesmo uma situação corriqueira se seu professor não agisse de maneira pouco usual para a época, pois Dera-me o acatado mestre, com o seu silêncio intencional, uma reprimenda de luvas de pelica... (CARVALHO, 1945, p. 17). Segundo Vago, esta atitude do professor em questão demonstra uma permanente tentativa de controle de seus movimentos [das crianças] nos espaços e tempos escolares (VAGO, 2002, p. 125). Objetivando perceber as representações que Montes deixou na memória dos que conviveram como ele podemos afirmar que: É do crédito concedido (ou recusado) à imagem que uma comunidade produz de si mesma, portanto de seu ser percebido, que depende a afirmação (ou a negação) de seu ser social. O porquê da importância da noção de representação, que permite articular três registros de realidade: por um lado, as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e organizam os esquemas de percepção a partir dos quis eles classificam, julgam e agem; por outro, as formas de exibição e de estilização da identidade que pretendem ver reconhecida;enfim, a delegação a representantes (indivíduos particulares, instituições, instâncias abstratas) da coerência e da estabilidade da identidade assim afirmada. A história da construção das identidades sociais

9 encontra-se assim transformada em uma história das relações simbólicas de força (CHARTIER, 2002, p.10-11). Além disso, Carvalho Neto afirmou que deve sua formação aos dois Alfredo Montes (pai e filho), especialmente ao velho Montes, descrevendo o mestre como tendo: Estatura acima de médio, torso alevantado, cabeça longa e bem constituída, firme o pescoço sobre ombros largos. Órbitas de leve cavadas, sob o veludo de sobrancelhas regulares, velando um meigo e doce olhar. Nariz reto, proporcionado; boca discreta, sob bigodes caindo aos cantos. Queixo forte, tomado em ponta por um andó petulante, que lhe dá à fisionomia um grave aspecto, quase severo. E vem andando... passo seguro, medido, cronométrico. Colarinho alvíssimo, fechado, alto, circundado por uma gravata preta, laço cheio, plastron. Casaco escuro sobre colete branco, de fustão; calças de lista; botinas negras, bem lustradas, rangindo... E juntando-se a estes traços uma tez róseo-ambar e grisalhos cabelos; dir-se-ia que contemplo, nos seus tons de antiga, remota e evocadora oleografia de Rembrandt, representando um desses austeros tipos de reitor de Universidade, em épocas mortas... (CARVALHO Neto, 1989b, p ). O continuador de sua obra, Alfredo Montes Junior, ao criar a Sessão Demostênica nas dependências do Ginásio Sergipense e que objetivava criar nos alunos o gosto da escrita e da eloqüência erudita, perpetuou o legado educacional dos Montes, pois que trouxe uma grande significação no sentido de transformá-los em grandes oradores (CARVALHO Neto, 1989b, p ). No seu livro História da minha infância, Gilberto Amado também deixou registrada a representação que ficou guardada na sua memória a respeito do seu respeitável professor. Eu tomava lições particulares com Alfredo Montes, de inglês, e com Teixeira de Faria, de matemáticas. Entrei com essa condição [no Colégio Oliveira]. Oliveira não gostou, mas meu pai queria que eu aprendesse de verdade. Era impossível deixar de aprender com Alfredo Montes e Teixeira de Faria. (...) Serviu-me muito ainda a caminha de manhã, do colégio, com um livro na mão, para a casa de um e de outro, rua da Frente abaixo (AMADO, 1999, p.163). O jornal A Razão, da cidade sergipana de Estância, prestou sua homenagem ao mestre a quem uma geração inteira, que recebeu os seus ensinamentos e que o adorava, hoje pranteia d alma. Ressaltou as qualidades de Alfredo Montes chamando-o de querido e bondoso mestre, como também pae amantíssimo, cavalheiro de tempera superior, caráter de uma candura admirável e mestre, mestre de uma competencia inegualavel (Professor Alfredo Montes. Jornal A Razão Ano XIII. Nº 30. Estância, 5 de agosto de 1996, 3).

10 As homenagens não cessaram na época do seu falecimento, pois no dia 18 de maio de 1910 foi inaugurado no salão nobre do Atheneu um retrato seu, estando na solenidade o presidente Rodrigues Dória (NASCIMENTO, 2003b). Alfredo de Siqueira Montes foi o típico exemplo de uma pessoa que, quando tem certeza do que realmente quer, procura caminhos para alcançar seus objetivos. Sua vida, representada por uma infância iniciada na cidade de Socorro, com a mudança para São Cristóvão para estudar com Graciliano Aristides do Prado Pimentel e em seguida mudando para a recém transferida capital da província para dar continuidade aos seus estudos, seu forte desejo de se tornar professor demonstram sua singularidade, o caráter e força de vontade do mesmo. Sua história de vida e formação no magistério marcou não somente seus alunos, de forma específica, mas alcançaram aqueles que de alguma maneira estiveram ao seu redor. Sua trajetória, certamente, ainda terá muito que nos contar. No seu livro Templos de Civilização: a implantação da escola primária graduada no Estado de São Paulo ( ), Souza afirma que esse comportamento dos professores fazia parte da cultura escolar que se queria implantar durante a República. Os reformadores da instrução pública republicana inspiraram-se nos modernos dispositivos disciplinares advogados pela pedagogia moderna e em uso nas escolas públicas estrangeiras. Tais dispositivos substituíram os castigos físicos pela emulação e persuasão amistosa (SOUZA, 1998, p. 147). Estas considerações a respeito das instituições escolares demonstram a força e a importância dos seus professores na consecução da cultura escolar que se pretendia inculcar nas mentes e no comportamento dos alunos que por elas passavam. Pois a escola pública, se constituía não só como o lugar onde se ensinavam os valores cívicos, mas como instituição guardiã desses valores, cuja ação moral e pedagógica se estendia para toda a sociedade (SOUZA, 1998, p. 268). Além disso, os fatos relativos ao professor Alfredo Montes nos dão indícios suficientes de que havia uma fomentação no contexto educacional muito grande durante o século XIX e início do século XX. A História da Educação ainda tem muito a reconstruir através dos pesquisadores que se arvoram a contestar verdades que se transformaram em monumentos e que, de fato, estão equivocadas. No mais, O avanço dos estudos em História da Educação no Estado de Sergipe, na última década, permite, provisoriamente, uma única conclusão: há muito por fazer (...) (NASCIMENTO, 2003a, p. 79).

11 BIBLIOGRAFIA E FONTES AMADO, Gilberto História da minha infância. São Cristóvão: EDUFS/. Fundação Oviêdo Teixeira. AZEVEDO, Fernando de A cultura brasileira. Parte III. 5ª. ed. São Paulo: Melhoramentos/ Brasília: INL. BONTEMPI Junior, Bruno História da educação brasileira: o terreno do consenso. São Paulo, PUC. Dissertação Mestrado em Educação. CARVALHO NETO, Antonio Manuel de Alfredo Montes: grande educador. In: Revista da Academia Sergipana de Letras. Separata n. 12. Aracaju: S/ed. CARVALHO Neto, Paulo de. 1989b. Um precursor do direito trabalhista. Cartago Editorial Limitada, 2ª edição. São Paulo. CASTANHO, Sérgio Questões teórico-metodológicas de História Cultural e Educação. In: Anais do I Congresso Brasileiro de História da Educação. Rio de Janeiro: SBHE. CD Rom. CHARTIER, Roger À beira da falésia: a história entre incertezas e quietudes. Porto Alegre: Editora da UFRGS. Documento n. 2 da apelação civil contra a fazenda pública do Estado. Arquivo Geral do Judiciário. Fundo JU/C. TJ. Série Cível. Período Acervo:01. Módulo III. Nº Geral FRAGO, Antonio Viñao e ESCOLANO, Augustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Trad. Alfredo Veiga Neto. Rio de Janeiro: DP&A GINZBURG, Carlo Relações de Força: História, retórica, prova. São Paulo: Ed. Companhia das Letras.

12 GUARANÁ, Armindo Dicionário Bio-bibliográfico Sergipano. Governo de Sergipe/Rio de Janeiro: Pongetti. MONARCHA, Carlos Escola Normal da Praça: o lado noturno das luzes. Campinas: Editora da Unicamp. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do, 2003a. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de História da Educação. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED/UFS. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. 2003b. Alfredo Montes e o primeiro concurso para a cadeira de inglês do Atheneu. Cinform. Edição 1061, Aracaju de agosto. NUNES, Maria T História da Educação em Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Relatório da Instrução Pública: NUNES, Clarice e CARVALHO, Marta Maria Chagas de Historiografia da educação e fontes. In: Cadernos ANPED. Belo Horizonte (5). p Professor Alfredo Montes. Jornal A Razão Ano XIII. Nº 30. Estância, 5 de agosto de 1996, p. 3. SOUZA, Rosa Fátima de Templos de Civilização: a implantação da escola primária graduada no Estado de São Paulo ( ). São Paulo: Fundação Editora da Unesp. SOUSA, Deyci Lucide de O Ensino de Inglês em Sergipe Durante o Império. São Cristóvão, UFS. Relatório Final. TOLEDO, Maria Rita de Almeida Fernando de Azevedo e a Cultura Brasileira ou as Aventuras e Desventuras do Criador e da Criatura. São Paulo, PUC. Dissertação Mestrado em Educação. THOMPSON, E. P A miséria da teoria. Rio de Janeiro; Zahar Editores, VAGO, Tarcísio Mauro Cultura escolar, cultivo de corpos: Educação Physica e Gymnastica como práticas constitutivas dos Corpos de crianças no ensino público primário de Belo Horizonte ( ). Bragança Paulista: Edusf. VALENÇA, Cristina de A Perfil Histórico e Antropológico do Desenvolvimento Urbano de Aracaju : a educação da mulher e a Escola Normal em Aracaju Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC)-CNPq/UFS. VILLELA, Heloisa de O.S O mestre-escola e a professora. In: LOPES, Eliane Marta T. et alli. 500 Anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica. pp

13 WARDE, Mirian Jorge Historiografia da Educação Brasileira: mapa conceitual e metodológico (dos anos 70 aos anos 90). In: Revista do Mestrado em Educação. Fev./Jun. São Cristóvão, NPGED/UFS. p

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