MANIFESTAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

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1 Processo nº Autos Cíveis de Ação de Divórcio Consensual Requerentes: M D D C e H S S D MANIFESTAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO Tratam os presentes autos de Autos de Ação de Divórcio Consensual requerida por M D D C e H S S D, já qualificados nos autos. Narra a petição inicial que os Requerentes ajustaram, de comum acordo, a dissolução da sociedade conjugal, estabelecendo as cláusulas que regerão os efeitos presentes e futuros do fim da relação assim resumidas: Partilha de bens Não há bens a partilhar. Guarda de filho(s) Filho M. A. S. D. ficará sob guarda compartilhada, com residência fixada com o Divorciando ( guarda principal ). Pensão para filhos(s) Despesas compartilhadas. Direito de visita (convivência) do genitor Livre, principalmente em, face da modalidade de guarda. Pensão entre os divorciandos Dispensada. Nome da Requerente Voltará a usar o nome de solteira, H. S. T. DE S. Sem designação de audiência, vieram os autos a esta Promotoria de Justiça para exame e manifestação. Primeiramente cabe assentar que o divórcio consensual se dá mediante processo de jurisdição voluntária. Assim dispõe o artigo 40, 2º, da Lei nº 6.515/77, verbis: Art. 40 (... ) 2º - No divórcio consensual, o procedimento adotado será o previsto nos artigos a do Código de Processo Civil, observadas, ainda, as seguintes normas: I - a petição conterá a indicação dos meios probatórios da separação de fato, e será instruída com a prova documental já existente; II - a petição fixará o valor da pensão do cônjuge que dela necessitar para sua manutenção, e indicará as garantias para o cumprimento da obrigação assumida; 1

2 III - se houver prova testemunhal, ela será produzida na audiência de ratificação do pedido de divórcio a qual será obrigatoriamente realizada. IV - a partilha dos bens deverá ser homologada pela sentença do divórcio. Entre a chamada Lei do Divórcio, de 26 de dezembro de 1977, e os tempos atuais, o Direito de Família sofreu uma verdadeira revolução legislativa. Nesta grande transformação da legislação se destaca o advento da Lei nº /2007, que criou o artigo A do CPC, estabelecendo a possibilidade de formalização do divórcio e da separação consensuais sem a necessidade de chancela do Poder Judiciário. Mais recentemente, com o advento da emenda constitucional nº 66, de 13 de julho de 2010, adotou o Brasil claramente a Teoria Contratual do Casamento. Seguindo este entendimento, para o Divórcio basta a manifestação unilateral de vontade de um dos cônjuges, sem necessidade de expor os motivos ou do decurso de qualquer prazo. Neste sentido, verbis: A partir de agora, com a vigência da Emenda Constitucional nº 66, os processos de separação judicial em exame se extinguem, bem como aqueles em que os casais já obtiveram esta decisão, estando na fase de cumprir os dois anos para o pedido do divórcio, de maneira que essas pessoas também poderão requerer de forma direta e imediata o próprio divórcio. A partir de 14 de julho de 2010, data da publicação da emenda nº 66, quem tiver pedido a separação judicial ou estiver cumprindo o chamado período de pedágio para pedir o divórcio fica livre das restrições que vinham vigorando. 1 Tais alterações normativas não poderiam deixar de refletir no processo, posto que este é, antes de tudo, o instrumento para a efetivação do direito material. Partindo destas premissas, indaga-se da necessidade e obrigatoriedade da realização de audiência de ratificação diante das relevantes alterações no direcionamento do casamento e da sua dissolução. O mestre Carlos Celso Orcesi da Costa 2, em obra editada em 1987, consigna a importância e o fundamento da audiência de ratificação, sob o enfoque do direito vigente à época, verbis: (... ) O 2º do art. 3º da Lei do Divórcio pressupõe que o juiz deva promover todos os meios para que as partes se reconciliem ou transijam, ouvindo pessoal e separadamente cada um dos consortes, ao depois reunindo-os na sua presença, se assim considerar necessário. Ainda que pese o valioso significado social da conciliação, mesmo que às vezes sem grande resultado prático, toda tentativa de reaproximação deve ser buscada, por questão de princípio. 1 SANTOS, Ozéias J. Divórcio Constitucional, Syslook editora, Petrópolis-RJ, 2010, p COSTA, Carlos Celso Orcesi da, Tratado do Casamento e do Divórcio Constituição, Invalidade, Dissolução, 2º volume, editora Saraiva, São Paulo, 1987, p. 656/657. 2

3 E a única maneira do juiz exercer semelhante atividade consiste em ouvir dos cônjuges os motivos eficientes da sua deliberação. Do contrário, sem elementos, não poderia o juiz exortá-los à desistência do seu intento de separação. Constata-se do texto que a audiência de ratificação seria obrigatória porque o divórcio era uma exceção legal, que deveria ser evitado ao máximo pelo Estado, mediante a atuação do Juiz e do chamado curador do vínculo. Ainda prevalecia nessa época o princípio da máxima intervenção do Estado na família e no casamento. Diferentemente, hoje o Código Civil expressamente abraça o princípio de não intervencionismo, posto que é defeso a qualquer pessoa, de direito público ou privado, interferir na comunhão de vida instituída pela família. Cumpre destacar e esclarecer que a família não se extingue com o divórcio, apenas se transforma, razão pela qual o princípio tem vigência ainda na dissolução do vínculo matrimonial, ao contrário do que dizem alguns autores. Em suma, antes a orientação do sistema jurídico era de que cabia ao Estado dificultar ao máximo a dissolução do matrimônio, agora a orientação é de que o Estado deve facilitar o divórcio. Neste sentido escreve a juíza Maria Luiza Póvoa Cruz 3 : Portanto, ao tempo em que se elimina qualquer discussão sobre a causa do divórcio, é justo que seja oferecido às partes um caminho simplista, para a dissolução da sociedade conjugal, afastando a intromissão do Estado e possibilitando ao casal o fim do casamento, por um simples ato notarial. (... ) O reconhecimento da forma simplificada para por fim a união do casal (sem, porém, desnaturar a importância do ato, ao contrário, prestigiando o casal, na sua intimidade, no momento do fim da comunhão plena de vida) admite o casamento como um contrato de direito de família, de trato sucessivo, onde predomina a autonomia das partes, ao início do processo de habilitação e celebração do matrimônio, como no momento da dissolução. Sob a ótica constitucional, quem dita as normas para o início e o fim do relacionamento conjugal são os cônjuges (obviamente seguindo o procedimento determinado por lei). Portanto, casamento é contrato de direito de família, onde preponderam relações de ordem privada, negociais. A tutela jurisdicional somente há de ser invocada em caso de litígio entre os cônjuges. Seguindo a mesma orientação, leciona o promotor de Justiça Dimas Messias de Carvalho 4, ipsis litteris: O novo direito de família afasta a intervenção judicial e, com a mesma razão, o Ministério Público na vida das pessoas, inclusive no casamento, não sendo necessária a presença em todas suas relações jurídicas, especialmente se existe consenso entre as partes. A Lei /2007 já sinalizava, de forma inequívoca, que o moderno direito de família não tem mais o interesse em manter, a todo custo, o casamento, tanto que o Código Civil atual afastou a 3 CRUZ, Maria Luiza. Separação, Divórcio e Inventário por Via Administrativa; Editora: Del Rey; 3ª ed.; Belo Horizonte, CARVALHO, Dimas Messias. Divórcio Judicial e Administrativo; Ed. Del Rey; Belo Horizonte, p

4 figura do curador ao vínculo e o Estado reconhece e ampara outras formas de constituição de família, o que foi reafirmado pela EC n. 66/2010, ao facilitar, sobremaneira, o divórcio, tornando-se uma das legislações mais liberais do mundo. (... ) A Lei /2007 afastou o formalismo e a morosidade judicial nas separações e divórcios consensuais, notadamente a necessidade de designação de audiência de instrução para comprovação do prazo de separação de fato, o que foi mantido na EC n.66/2010, dispensando-se a exigência de prazos e permitindo a decretação do divórcio a qualquer tempo e sem motivos, simplificando a dissolução do vínculo matrimonial. A partir dessas premissas, cresce na doutrina e na jurisprudência o entendimento de que a audiência de reconciliação ou ratificação do divórcio é dispensável. Assim já se manifestou o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, verbis: Em se tratando de divórcio consensual, se há nos autos declaração de testemunhas de que o casal encontra-se separado de fato por mais de dois anos, além de ratificação do pedido de divórcio consensual com assinatura de ambos os requerentes com firma reconhecida em cartório, dispensável a realização de audiência de ratificação, merecendo ser confirmada a sentença de primeiro grau que homologa o acordo realizado entre os ex-consortes e decreta o divórcio. PRELIMINAR REJEITADA. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (TJDF, 3ª Turma Cível, Ap APC, Acórdão , relator Des. João Batista Teixeira, julgado em 09/02/2011) 1. Encontrando-se devidamente comprovados nos autos o decurso do tempo da separação de fato do casal e a intenção de dissolver o vínculo conjugal, desnecessária a realização de audiência de ratificação para a decretação do divórcio direto. (...) 3. Recurso conhecido e improvido. Unânime. ( APC, Relator MARIA DE FÁTIMA RAFAEL DE AGUIAR RAMOS, 1ª Turma Cível, DJ 13/07/2010) 1. Não há necessidade das partes comparecerem em Cartório para reconhecer firma das assinaturas apostas na petição inicial, que pretende ver decretado o divórcio do casal, quando não há indícios de vício na manifestação de vontade das partes, mormente quando existente, nos autos, duas declarações com firmas reconhecidas, atestando a separação do casal há mais de dois anos. 2. Encontrando-se devidamente comprovados nos autos o decurso do tempo da separação de fato do casal e a intenção de dissolver o vínculo conjugal, desnecessária a realização de audiência de ratificação para a decretação do divórcio direto. (TJDF, 1ª Turma Cível, Ap. nº APC, Acórdão nº , relator Des. Esdras Neves, julgado em 09/02/2011) Mostra-se prescindível que o julgador exponha exaustiva fundamentação na sentença, podendo validamente indicar, de forma objetiva e breve, os motivos de seu convencimento, sem que isso signifique ausência de fundamentação. Em observância aos princípios da economia processual, da efetividade da prestação jurisdicional e da razoável duração dos processos, mostra-se desnecessária a realização de audiência de ratificação em ação de divórcio direto, se as provas documentais carreadas aos autos são suficientes para evidenciar a separação de fato do casal, há mais de dois anos. 4

5 Apelo conhecido e não provido. (TJDF, Ap. nº APC, Acórdão nº , rela. Des. Ana Maria Duarte Amarante Brito, julgado em 23/02/2011) O próprio Superior Tribunal de Justiça, em decisão muito anterior ao advento da Lei nº /2007 e da emenda constitucional nº 66, já decidiu: O Juiz dispensará a ratificação do pedido de separação se verificar que os cônjuges estão firmes em sua disposição. Sobrevindo retratação, antes da homologação, evidencia-se que não havia aquela segurança de propósito. (STJ, Recurso Especial nº /RJ, 3ª Turma, relator Min. Eduardo Ribeiro, julgado em 15/12/1992, DJ de 08/03/1993) Em decisão mais recente, o STJ reafirmou a possibilidade de não realização da audiência de ratificação, embora tenha anulado o processo em função da imediata reclamação de um dos cônjuges, proferindo decisão assim ementada: DIVÓRCIO CONSENSUAL. AUDIÊNCIA DE RATIFICAÇÃO. A falta de audiência de ratificação do pedido de divórcio consensual é causa de nulidade da sentença proferida logo após a manifestação do Ministério Público, se o Juiz não teve condições de aferir de outro modo a firme disposição dos cônjuges em se divorciarem e se, tomando conhecimento da sentença, o marido manifesta o seu arrependimento com os termos do acordo. Art. 40, 2º, III, da Lei 6.515/77. Recurso conhecido e provido. (REsp /RJ, Rel. Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR, QUARTA TURMA, DJ 12/02/2001) O desembargador Carlos Roberto Gonçalves 5 é objetivo ao asseverar que não havendo mais provas a serem produzidas sobre o tempo da separação, não há necessidade da realização da audiência de ratificação mencionada no art. 40, 2º, III, da Lei do Divórcio. O projeto de lei nº 2.285/2007, denominado de Estatuto das Famílias, já parcialmente defasado em relação à emenda nº 66, dispõe em seu artigo 172 que no divórcio consensual, não existindo filhos menores ou incapazes, ou estando judicialmente decididas as questões a eles relativas, é dispensável a realização de audiência. Nem mesmo a existência de interesse de menores, com a estipulação de pensão alimentícia, justifica a obrigação de realização de audiência de ratificação, posto que há muito que se entende conciliáveis estes direitos. Assim leciona o Desembargador Yussef Said Cahali (Dos Alimentos, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 2 a edição, 1994, p. 653/657) que como a ação de alimentos pode ser de iniciativa seja do credor, seja do devedor, nada obsta a que, chegando ambos a um acordo extrajudicial, reclamem em juízo a sua homologação (no mesmo sentido Vladimir Passos de Freitas, Acordo em Alimentos, in Justitia 96/49; TJSP, RT 571/65; TJPR, RT 673/138; TJSC, RT 645/170) Por derradeiro, nunca é demais lembrar que no processo de jurisdição voluntária o juiz não está obrigado a observar critério de legalidade estrita, podendo adotar em cada caso a solução que reputar mais conveniente ou oportuna (art do CPC). 5 Direito Civil Brasileiro Direito de Família, 8ª edição. Editora Saraiva, São Paulo, 2011,

6 Ultrapassada a questão da prescindibilidade da audiência de ratificação, verifica-se que a petição inicial preenche os requisitos e formas legais, as partes são capazes, não havendo motivo para o Ministério Público se opor à homologação do ajuste. ANTE O EXPOSTO, considerando a manifestação de vontade das partes, o Ministério Público se manifesta pelo DEFERIMENTO E HOMOLOGAÇÃO DO PEDIDO DE DIVÓRCIO. Belém-PA, 11 de maio de ALEXANDRE BATISTA DOS SANTOS COUTO NETO 5º Promotor de Justiça de Família de Belém 6

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