UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ FRANCISLAINE HASPER BEBETECAS: UM ESPAÇO DE MEDIAÇÃO DO LITERÁRIO COM CRIANÇAS PEQUENAS

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ FRANCISLAINE HASPER BEBETECAS: UM ESPAÇO DE MEDIAÇÃO DO LITERÁRIO COM CRIANÇAS PEQUENAS Itajaí (SC) 2017

2 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ Vice-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGE Curso de Mestrado Acadêmico em Educação FRANCISLAINE HASPER BEBETECAS: UM ESPAÇO DE MEDIAÇÃO DO LITERÁRIO COM CRIANÇAS PEQUENAS Dissertação apresentada ao colegiado do PPGE como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Educação área de concentração: Educação (Linha de Pesquisa - Cultura, Tecnologia e Processos de Aprendizagem). Orientadora: Prof.ª Dr.ª Adair de Aguiar Neitzel. Itajaí (SC)

3 UNIVALI UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ Vice-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGE Curso de Mestrado Acadêmico em Educação CERTIFICADO DE APROVAÇÃO FRANCISLAINE HASPER BEBETECAS: UM ESPAÇO DE MEDIAÇÃO DO LITERÁRIO COM CRIANÇAS PEQUENAS Dissertação avaliada e aprovada pela Comissão Examinadora e referendada pelo Colegiado do PPGE como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Educação. Itajaí (SC), 12 de julho de Membros da Comissão: Orientadora: Membro Externo: Prof.ª Dr.ª Adair de Aguiar Neitzel Prof.ª Dr.ª Marynelma Camargo Garanhani (Universidade Federal do Paraná) Membro representante do colegiado: Prof.ª Dr.ª Valéria Silva Ferreira 2

4 Dedico este trabalho à minha filha, Livia, e ao meu esposo, Roger. 3

5 AGRADECIMENTOS Inicialmente, agradeço a Deus pela força, pela paz, pela superação. Obrigada! À minha família, que, além de serem incentivadores, ajudaram-me diariamente, possibilitando que estivesse ausente em relação aos cuidados com a Livia. Ao meu querido esposo, Roger, que sempre sonhou junto comigo, incentivando cada escolha com seu o amor e tempo, para esta tão intensa jornada. Te amo! A você, Livia, minha princesa, que deixei horas e horas do nosso brincar, do nosso aconchego, para me envolver com os livros. E você, que artista! Desenhou e deixou o trabalho da mamãe ainda mais belo. Agradeço-te por entender o tempo que estive por horas ausente, mas, certamente, lhe mostrando, nessa ausência, a importância do foco e da dedicação para com os estudos! Dentre tantas falas, fico com esta - Mamãe, agora você tem que estudar, não é?. À minha querida e admirável orientadora, Adair de Aguiar Neitzel, que tanto me ajudou. Quantas foram as correções, quanta paciência teve comigo. Tudo isso permitiu que eu evoluísse! A você, agradeço imensamente, pelo sorriso espontâneo, pelo abraço caloroso, deixando-me tranquila, pelo olhar sensível, pois, certamente, não teria realizado este grande sonho, pois foi você quem me escolheu. Imensamente, meu muito obrigada! Às professoras Valéria, Mônica, Carla, Verônica, Regina e Cássia, que privilégio conhecê-las e aprender ainda mais. Muito obrigada! À banca examinadora, Prof. a Dr. a Marynelma Camargo Garanhani e Prof. a Dr. a Valéria Silva Ferreira, agradeço imensamente pela disponibilidade em participar da pesquisa e pelas sugestões relevantes que tornaram o estudo ainda mais consistente. Aos amigos que encontrei no Mestrado. Quantos trabalhos; quantos encontros, uns com choros, outros com risadas; quantas alegrias; quantas mensagens; quantos cafés e almoços, até viagens e passeios; quantas parcerias desfrutamos juntos. A vocês agradeço o privilégio de ter conhecido e vivido, quantas novas amizades! Às amigas do coração, Tatiane, Karina e Ana Cláudia, mesmo de longe estavam presentes, incentivando e vivendo este sonho. A vocês o meu muito obrigada! Às bebetecas do CEI Darlan Dotto Wiersinski, do CMEI Padre Livio Donati, e tantas outras as quais visitei, sem a recepção e a disponibilidade do acesso ao espaço e às informações nada seria possível! Meu muito obrigada! 4

6 À Secretaria Municipal de Educação de Itapema, por conceder-me a licença para poder envolver-me ainda mais com o trabalho. Esse incentivo impulsionará minha carreira profissional e possibilitará que eu esteja ainda mais capaz para exercer a função. Muito obrigada a todos! 5

7 A deslizar sereno sob o céu Luminoso, o barco deriva na Idílica tarde de verão, ao léu... Crianças ali perto aninhadas, Espertas, ouvidos atentos, esperam Pela história que lhes será contada... Lá no alto do céu há muito empalideceu, Ecos declinam, lembranças perecem. A friagem do outono, o verão varreu. Senão que, espectral, ela segue a me obsedar, Alice a percorrer estranhas terras Nunca vistas por quem não sabe sonhar. Crianças que queiram esta história ouvir, Espertas, ouvidos curiosos e Lúcidos, deve pertinho se reunir. Imaginário País das Maravilhas percorrem, Devaneando enquanto os dias passam, Devaneando enquanto os verões morrem. Encantadas, pela corrente se deixam levar... Lentamente sucumbindo ao fascínio da Lenda... Que mais é viver senão sonhar? Lewis Carroll (2009, p. 316). 6

8 RESUMO Esta pesquisa, vinculada à linha de pesquisa Cultura, Tecnologia e Processos de Aprendizagem do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e do grupo de pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora, teve uma proposta de abordagem qualitativa. A temática é a bebeteca, um espaço proposto para a mediação do literário com crianças pequenas. Discutem-se duas realidades de espaço de bebetecas, sendo uma na cidade de Itajaí (SC), o Centro de Educação Infantil (CEI) Darlan Dotto Wiersinski; e outro espaço na cidade de Castro (PR), o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Padre Lívio Donati. A questão problema que norteou este estudo foi: Como ocorre a mediação do literário nas bebetecas? Assim sendo, o objetivo geral foi analisar como ocorre a mediação do literário nas bebetecas. Os objetivos específicos foram: apresentar concepções de bebetecas; identificar bebetecas no Brasil; discutir sobre os acervos literários das bebetecas do CEI Darlan Dotto Wiersinski e do CMEI Padre Lívio Donati; identificar as condições dos espaços físicos das bebetecas dos Centros de Educação Infantil, que foram foco desta pesquisa; identificar como as professoras interagem com a crianças durante os encontros literários nos dois Centros de Educação Infantil pesquisados. A coleta de dados foi feita por meio dos seguintes instrumentos: observação, entrevista, diário de bordo, documentos e fotos. A análise dos dados pautou-se na triangulação dos dados da observação, da entrevista e dos documentos. Os aportes teóricos que nortearam esta pesquisa foram: Escardó i Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini e Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros e Santos (2009), os quais apresentam o conceito de bebeteca; Petit (2012, 2013a, 2013b), Reyes (2010, 2012, 2013, 2015, 2016), Reis (2014), Martins e Neitzel (2016), os quais tratam da importância de propor às crianças pequenas alimentos culturais literários, que lhes permitirão construir uma relação estética com o livro de literatura, para que elas comecem a apreciar a leitura e sintam-se afetadas por ela. Além desses autores, contou-se com Duarte Jr. (2010), que reflete sobre os primeiros encontros sensíveis dos sujeitos com a arte; Martins (2012a, 2012b, 2014), a qual traz a ação propositora como uma mediação provocada que gera experiências estésicas. Como resultados, indica-se que a mediação do literário proposta no interior das bebetecas é feita por objetos propositores como os livros, os adereços, os fantoches, por professores, pelas próprias crianças pequenas e pela família. A mediação é possibilitada, também, pela curadoria educativa, que transforma o espaço em um ambiente de aprendizagem, de trânsito e de encontros entre a criança, os professores e a família, favorecendo a educação estética. A concepção de mediação do literário nas bebetecas permite inferir que, para as professoras, a mediação se estabelece como trocas, diálogos, momentos que dão voz às crianças pequenas. É uma aprendizagem que explora a ludicidade e permite descortinar o livro como brinquedo. Com relação aos espaços, identificou-se que, no CEI Darlan Dotto Wiersinski, apesar de ser um espaço adaptado, ela possui estantes com livros, alguns na altura das crianças, e tapete no chão onde as crianças manuseiam os livros e ouvem histórias. Nesse espaço, há trânsito de pessoas, mas é um lugar onde ocorrem mediações. Já o CMEI Padre Livio Donati apresenta uma sala própria para bebeteca, com estante na altura das crianças, tapetes e almofadas que lhes permitem ficar em uma posição confortável no chão, com boa iluminação e paredes com os personagens das histórias. O acervo de ambas as bebetecas é bem variado, contemplando o gênero narrativo e lírico. Todos os livros estão à disposição das crianças podendo ser 7

9 manuseados sem restrições. O trabalho desenvolvido pelas bebetecas permite uma educação estética das crianças pequenas, porque elas são educadas para apreciar os livros como objeto artístico e estético. A postura sensível das professoras possibilita que o movimento literário propicie momentos de troca, de interação, de afeto e de formação mútua. Esta pesquisa compreende a bebeteca como uma ação de aproximação das crianças com o livro, independentemente do espaço físico, seja uma sala, um canto ou mesmo uma cesta com livros, desde que, nesse espaço, haja a intenção de aproximar os livros das crianças pequenas, isto é, que seja produto de um projeto que pode ser construído e que seja de conhecimento de todos os docentes que fazem parte da Instituição. Outro aspecto importante trata-se da concepção do livro, que ele seja visto como um brinquedo, que possa estar nas mãos das crianças pequenas, para que elas possam entender sua função social. Palavras-chave: Bebeteca. Mediação cultural. Formação de leitores. 8

10 ABSTRACT This research, linked to the research line Culture, Technology and Learning Processes of the Postgraduate Program in Education of the University of Vale do Itajaí (UNIVALI) and the group of research Culture, School and Creative Education, had a qualitative approach proposal. The theme is bebeteca, a space proposed for mediation of the library literary collection with young children. Two realities of bebetecas are discussed, one in the city of Itajaí (SC), the Center for Early Childhood Education Darlan Dotto Wiersinski; and the other in the city of Castro (PR), the Municipal Center for Early Childhood Education Padre Lívio Donati. The problem question that underpinned this study was: How does the mediation of the literary in the bebetecas occur? Thus, the main objective was to analyze how the literary mediation occurs in the bebetecas. The specific objectives were: present conceptions of bebetecas ; identify bebetecas in Brazil; discuss the literary collections of the bebetecas of the Center for Early Childhood Education Darlan Dotto Wiersinski and the Municipal Center for Early Childhood Education Padre Lívio Donati; identify the conditions of the physical spaces of the bebetecas of these Child Education Centers, which were the focus of this research; identify how the teachers interact with the children during the literary encounters in the two surveyed Child Education Centers. Data collection was conducted through the following instruments: observation, interview, journal, documents and photos. The data analysis was drawn from the triangulation of the interview, observation and document data. The theoretical contributions that guided this research were: Escardó i Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini and Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros and Santos (2009), who present the concept of bebeteca ; Petit (2012, 2013a, 2013b), Reyes (2010, 2012, 2013, 2015, 2016), Reis (2014), Martins and Neitzel (2016), who deal with the importance of proposing to young children literary cultural feeding, which allow them to build an aesthetic relationship with the literature book so that they begin to enjoy reading and are affected by it. In addition to these authors, we counted on Duarte Jr. (2010), who reflects on the first sensitive encounters of subjects with art; Martins (2012a, 2012b, 2014), who brings the proposed action as a provoked mediation that generates aesthesic experiences. As results, we indicate that the mediation of the literary proposed within the bebetecas is made by propositional objects such as books, ornaments, puppets, by teachers, by the young children themselves and by the family. Mediation is also proposed by educational curatorship, which transforms the space into an environment of learning, transit and encounters between the child, teachers and family, favoring the aesthetic education. The conception of mediation of the literary in the bebetecas allows to infer that, for the teachers, the mediation is established as exchanges, dialogs, moments that give voice to the young children. It is a learning that explores playfulness and allows to see the book as a toy. Regarding the spaces, we identified that, in the Center of Education Darlan Dotto Wiersinski, despite being an adapted space, it has shelves with books, some at the height of the children, and carpet on the floor where the children handle the books and listen to stories. In this space, there are people passing by, but it is a place where mediations take place. The Center of Education Padre Livio Donati has its own bebeteca, with a bookshelf on the same height of the children, carpets and cushions that allow them to be in a comfortable position on the floor, with good illumination and story characters on the walls. The collection of both bebetecas is varied, contemplating the narrative and lyrical genre. All books are available to the children and can be handled without restrictions. The 9

11 work developed by the bebetecas allows an aesthetic education of young children because they are educated to appreciate the books as an artistic and aesthetic object. The sensitive posture of the teachers permits the literary movement to provide moments of exchange, interaction, affection and mutual education. This research comprehends the bebeteca as an action of approximation of the children with the book, regardless of the physical space, whether it is a room, a corner or even a basket with books, provided that, in this space, there is the intention to bring the books closer to the small children, in other words, that is the product of a project that can be built and that is known to all the teachers who are part of the Institution. Another important aspect is the conception of the book, which should be seen as a toy that can be in the hands of the small children, so that they can understand its social function. Keywords: Bebeteca. Cultural mediation. Reader education 10

12 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Nuvem de palavras 1 31 Figura 2 - Demonstrativo da origem da palavra bebeteca 32 Figura 3 - Corpus da pesquisa - as sete bebetecas 38 Figura 4 - Pontos de observação 40 Figura 5 - Pontos observados sobre o espaço da bebeteca 40 Figura 6 - Pontos observados sobre o acervo da bebeteca 41 Figura 7 - Documentos analisados da bebeteca 41 Figura 8 - Instrumentos para coleta de dados 43 Figura 9 - Nuvem de palavras

13 LISTA DE IMAGENS Imagem 1 - Bebeteca CEI Darlan Dotto Wiersinsk 46 Imagem 2 - Bebeteca CMEI Padre Lívio Donati 48 Imagem 3 Livros expostos na bebetecas 63 Imagem 4 - Biblioteca intinerante 64 Imagem 5 - Encontro de pais no CEI Darlan Dotto Wiersinsck 66 Imagem 6 - Mediação do literário 71 Imagem 7 - Experiências com o livro 73 Imagem 8 - Diálogo durantes as histórias 74 Imagem 9 Crianças do CEI escolhendo seus livros 76 Imagem 10 - Leitura livre 77 Imagem 12 - Personagens do Sítio do Picapau amarelo 84 Imagem 11 - Casa da Cuca na Bebeteca 84 Imagem 13 - Alguns materiais que compõem o espaço da bebeteca 85 Imagem 14 - Acervo da bebeteca do CMEI Padre Lívio Donati 88 Imagem 15 - Aproximação com o livro 90 Imagem 16 - Caracterização da professora 91 Imagem 17 - Encontros literários 94 Imagem 18 - Manuseio dos livros 96 Imagem 19 - Bolsa de histórias 98 12

14 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Demonstrativo das pesquisas encontradas no banco de dados da CAPES e da BDTD 19 Quadro 2 - Demonstrativo das pesquisas encontradas no banco de dados da CAPES e da BDTD 21 Quadro 3 - Pesquisas encontradas com a palavra-chave bebeteca 26 Quadro 4 - Bebetecas no estado de Santa Catarina 36 Quadro 5 - Bebeteca no estado do Rio Grande do Sul 36 Quadro 6 - Bebetecas no estado do Paraná 36 Quadro 7 - Bebeteca no estado do Rio de Janeiro 36 Quadro 8 - Bebeteca no estado de Minas Gerais 36 13

15 SUMÁRIO 1 O LIVRO EM MINHA VIDA, O PERCURSO COMO PESQUISADORA A PRIMEIRA DESCOBERTA: LITERATURA PARA CRIANÇA PEQUENA EM BUSCA DE ESPAÇOS DE LEITURA OS ENCONTROS NAS BEBETECAS GERANDO DADOS OS ENCONTROS DA PESQUISA ANÁLISE DE DADOS 43 2 CONTEXTOS DA PESQUISA: BEBETECA EM AÇÃO CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL DARLAN DOTTO WIERSINSKI CENTRO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL PADRE LÍVIO DONATI 48 3 POR QUE LER PARA AS CRIANÇAS PEQUENAS? 50 4 ENCONTROS NA BEBETECA: CEI DARLAN DOTTO WIERSINSKI O ESPAÇO O ACERVO A CRIANÇA PEQUENA E O LIVRO A CRIANÇA PEQUENA, O LIVRO E A FAMÍLIA 76 5 ENCONTROS NA BEBETECA: CMEI PADRE LÍVIO DONATI O ESPAÇO O ACERVO A CRIANÇA PEQUENA E O LIVRO A CRIANÇA PEQUENA, O LIVRO E A FAMÍLIA 97 6 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES 100 REFERÊNCIAS 100 APÊNDICES

16 1 O LIVRO EM MINHA VIDA, O PERCURSO COMO PESQUISADORA 1 Juntos naquela tarde dourada Deslizávamos em doce vagar, Pois eram braços pequenos, ineptos, Que iam os remos a manobrar, Enquanto mãozinhas fingiam apenas O percurso do barco determinar. Lewis Carroll (2009, p. 10). Foi assim, bem devagar fechei os olhos e comecei a relembrar qual foi o início da leitura em minha vida. Nesse voltar ao passado, surgiu o livro As Aventuras de Alice no país das maravilhas. Ele vem ao encontro dos momentos da minha infância, da leitura ao ser contada pela minha mãe em nossa casa. O contato com a leitura deu-se apenas com esse livro, que não acontecia com frequência. No entanto, recordo que essa história se fez presente. Petit (2013a, p. 17) discute que [...] talvez toda pessoa que trabalha com a leitura deveria pensar em seu próprio percurso como leitor, para compreender como se forma um leitor e como pode mediar a leitura do literário. Meu percurso de leitora iniciou-se com Lewis Carroll e, hoje, aqui trago minha experiência como pesquisadora sobre formação de leitor. Quando pequena, sempre fui fascinada pelos livros infantis, apesar de eles não terem feito parte dos meus brinquedos. Meu contato maior com outras obras eram possibilitadas nos momentos de contação de histórias que ocorreram no contexto escolar. Lembro-me da voz suave da professora ao contar, que me seduzia envolvendo com o MELNICK, 5 anos. 1 Muitas foram as vezes que estive acompanhada de minha filha Livia Hasper Waltrick Melnick em meus momentos de estudo. Dentre tantos livros sobre a mesa, um em especial lhe chamou a atenção - o conto As aventuras de Alice no país das maravilhas. Esse livro a acompanhou por muitos dias, esteve entre suas brincadeiras, fez leituras para suas bonecas, andou de bicicleta com o livro na cestinha, guardou em sua bolsa; enfim, circulou pela casa com o livro. Algumas vezes, ela explicava aos seus colegas: Esse livro é da mamãe, não posso tirar as fitas, mas ela me empresta. Um dia, como tantos outros, quando ela me acompanhava em minhas escritas, algo em especial aconteceu: Livia, ao observar as imagens impressas no conto de Alice, resolveu fazer os seus próprios registros 15

17 enredo da história, bem como do movimento das mãos ao folhear cada página. Por falar em páginas, estas ainda estão na minha memória: folhas finas e lisas com cores bem expressivas. A cada conto ouvido, mais e mais aguçava o meu interesse e o prazer em ouvi-los. Essas histórias passaram a fazer parte da minha infância, sendo apreciadas e vividas na escola. Com o passar dos anos, os livros infantis foram sendo substituídos pelos livros didáticos, e a literatura foi sendo esquecida; poucos livros literários lembro-me de ter lido. Minhas leituras, além dos livros didáticos, partiam de revistas, de jornais, o que realmente minha família costumava ler. Raros foram os encontros na biblioteca. Realmente, esse espaço teve sentido para mim na universidade, pois foi ali que, inúmeras vezes, tive contato com novas obras, mas todas destinadas aos conteúdos explorados pelas disciplinas. A literatura continuava ausente. A escolha pela profissão de professora aconteceu por volta dos dezesseis anos. Em uma conversa informal, duas colegas que estavam ingressando no curso do Magistério convidaram-me para participar de uma aula experimental. Já, no primeiro dia, fiquei interessada e motivada a continuar a frequentar as aulas. Ao término do curso do Magistério, iniciei o curso de Pedagogia. Naquele mesmo ano, ingressei no campo profissional, com uma turma de primeira série do Ensino Fundamental. Nesse grupo, um dos objetivos principais trabalhados foi a alfabetização. No segundo ano profissional, percebi que as turmas das crianças pequenas faziam mais sentido para mim, pois, nos momentos que tinha oportunidade de estar com os pequenos, eu tinha vontade de ficar ali, brincando e interagindo com eles. Assim, no ano de 2000, iniciei um novo desafio: trabalhar com a turma de berçário, com as crianças pequenas de um ano. Os momentos de leituras sempre estiveram presentes na rotina proposta em minhas aulas. Diariamente, proporcionava encontros - eu convidava as crianças pequenas para ouvirem e manusearem livremente os livros, porém, na maioria das vezes, com o enfoque pedagógico. Ao ler uma história, envolvia uma ação pedagógica das personagens que mais lhe chamaram a atenção: Alice e o coelho. Certamente, esses registros não poderiam ser esquecidos, pelos momentos que juntas desfrutamos. Assim, os desenhos impressos no início de cada capítulo desta dissertação e na dedicatória são uma forma de agradecimento - uma companhia que, apesar de pequena, compartilhou horas e horas deste trabalho. 16

18 como: culinária, dobradura, pintura, imitação das personagens, fantoches, máscaras, entre outros, não me permitindo apenas a leitura - eu estava sempre condicionada às atividades. Era o que sabia e aprendi a fazer. Nesse percurso como professora, acompanhada de minha paixão pelas histórias infantis resgatadas da infância, levaram-me a idas às livrarias - encanto que me acompanha até os dias atuais, fazendo parte da minha vivência, pois sempre que posso procuro adquirir novos livros. Possuo uma pequena biblioteca composta por volta de cem livros de literatura infantil. A ausência das obras literárias em minha infância instigou-me a tê-las para minha filha, compensando minha limitação de leituras no passado. Com esse acervo, oportunizo momentos agradáveis de leituras, repetindo minha experiência maternal, como uma tradição de acalento ao fazê-la dormir. Sento-me ao lado dela na cama e, ali, aninhadas, lemos e lemos mais histórias. Esse é um ritual vivido por nós. Pennac (2008, p. 31) aponta: Sem saber, descobríamos uma das funções essenciais do conto e, mais amplamente, da arte em geral, que é impor uma trégua ao combate entre os homens. O amor ganhava pele nova. Era gratuito. Esse momento de troca de amor, pela arte de ler, revela o elo gratuito entre mãe e filha. Pelo ouvir as histórias, cela uma nova história no livro da intimidade, do afeto e das lembranças, A obra literária situando-se como objeto estético propõe um encontro maternal sensível, repercutido em outra geração. Após quinze anos exercendo a função de professora com crianças de um a três anos, senti a necessidade de retornar à academia e pesquisar sobre a formação do leitor nessa fase da vida. Ao ser escolhida e poder participar do grupo de pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora, percebi, desde o início, o quanto minha prática, com relação à literatura, tinha novos desafios a serem superados. A cada novo encontro, novos conhecimentos na busca de melhorar o contato com os livros e as crianças pequenas. O desafio era deixá-los manusear livremente as obras. Durante as disciplinas do Mestrado, participei do seminário Leitura do Literário, no qual tive a oportunidade de ler três clássicos da literatura, Madame Bovary, de Flaubert; Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; e Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes. Um título no qual me permiti a releitura foi As Aventuras de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, de forma a resgatar as memórias da infância. Assim, a mediação provocada pela professora apresentou-me a outras obras literárias, ampliando meu repertório de literatura infantil para literatura 17

19 adulta nunca antes lida por mim, mostrando-me a importância de conhecer os clássicos, de como mediar e se perder neles. Kupiec, Neitzel e Carvalho (2016, p. 24) falam sobre a mediação cultural nos espaços educativos, pois esses espaços [...] são também responsáveis por estimular o contato com a arte e, nessa interação, pode-se levar os sujeitos a serem capazes de perceber, ver, sentir, apreciar e produzir, percebendo-se atores de sua história. Foi essa sensação que senti, muitas vezes. Durante esse período, perguntei-me: Onde estive nesse tempo todo que não procurei dedicar-me a esse prazer, em deliciar-me com uma boa história?. Confesso que, por vezes, tive vergonha do grupo, mas, ao mesmo tempo, agradecida por estar ali tendo a experiência de poder ler e conhecer o mundo literário adulto e gostar ainda mais dos livros. Petit (2013a, p. 62) afirma que [...] para transmitir o amor pela leitura, e em particular pela leitura de obras literárias, é preciso tê-lo experimentado. Nesse sentido, envolver-me com as histórias literárias fez e tem feito toda diferença para mim, pois o contato com o objeto estético livro e a mediação oportunizam um novo espaço no cotidiano. Uriarte, Neitzel e Carvalho (2016, p. 188) apontam que a educação estética se constitui pelas aprendizagens que ocorrem pelas experiências cognitivas, pelos sentidos e pelos afetos. As autoras evidenciam que se ocupar [...] com a estética, a partir do século XVII, é lidar com o mundo sensível, isto é, com possibilidades de aprender o mundo pelas vias sensoriais, pela percepção, participando de diferentes manifestações de acontecimentos do mundo. Com minhas vivências com o objeto estético, durante os seminários, novos livros foram adquiridos, novas leituras foram realizadas e o prazer de ler, contemplar e refletir sobre a obra e sobre a vida tomou sentido. As autoras afirmam que a educação do sensível é um movimento contemplativo que não se dá apenas na subjetividade, mas, principalmente, no pensamento reflexivo, pois razão e sensibilidade são complementares. Nos seminários, novos questionamentos quanto a minha prática foram surgindo, dentre eles a importância de escolher uma boa obra para ser lida para as crianças pequenas. Assim, fiz uma busca dentre os livros infantis que possuía, no intuito de saber quais deles tinham uma boa história, que tivessem desdobramentos e permitissem deslocamentos, qualidade estética imprescindível que contribui para formar leitores que pensam e sintam o deleite da obra. 18

20 Dentre as obras que possuo em minha biblioteca pessoal, alguns títulos podem ser trabalhados com as crianças pequenas. Percebi que alguns livros possuem a hipertextualidade, elemento muito discutido quando se trata da qualidade de um livro de literatura. Martins e Neitzel (2016, p. 44) ressaltam que a hipertextualidade [...] permite ao leitor no ato da leitura conectar, efetuar combinações e permutações de diferentes textos que convivem na mesma narrativa. Para tanto, esse tipo de obra oferece aberturas, entrecruzamentos; são livros que provocam o leitor. Dos cem livros que possuo, trinta e oito possuem características que se aproximam do que as autoras propõem a respeito de hipertextualidade. Com o desejo de ampliar meu olhar, de fortalecer e de revelar estudos já existentes no contexto de Educação Infantil, que pudessem orientar os colegas professores que também trabalham nessa área, procuramos (a partir de agora minha orientadora e eu) concentrar leituras que priorizassem as mediações de leituras com crianças pequenas. Buscamos nos sites da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), nos últimos anos, pesquisas brasileiras que contemplassem a palavra-chave bebê AND leitura. Nos portais, encontramos quatro pesquisas brasileiras que envolviam o tema em questão. A seguir, o Quadro 1 mostra as pesquisas selecionadas com os respectivos títulos, autores e o ano de defesa. Quadro 1 - Demonstrativo das pesquisas encontradas no banco de dados da CAPES e da BDTD com o tema bebê AND leitura no período de 2011 a 2017 AUTOR PESQUISA PORTAL ANO Liliane Resende Laviano Nivia Barros Escouto Marcela Souza de Almeida Rosele Martins Guimarães Apresentação de um programa de formação de professores de educação infantil em desenvolvimento de linguagem (Dissertação). A formação do leitor-literário na educação infantil (Dissertação). Leitura de histórias infantis em UTI neonatal: uma estratégia voltada para a relação mãe jovem bebê (Dissertação). Encontros, cantigas, brincadeiras, leituras: um estudo acerca das interações dos bebês, crianças bem pequenas e o objeto livro numa turma de berçário (Dissertação). Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados da pesquisa. CAPES 2015 BDTB 2013 BDTB CAPES 2013 BDTB 2011 A pesquisa de Laviano (2015), intitulada Apresentação de um programa de formação de professores de educação infantil em desenvolvimento de linguagem, desenvolveu um programa de formação para os professores da Educação Infantil, no 19

21 intuito de ter como elemento de reflexão o desenvolvimento da linguagem. O estudo apontou que a formação de professores possibilita transformações nas práticas dos professores, no que tange à autonomia para planejar, para determinar os objetivos e para observar as crianças. Em se tratando de mediação do literário, dois trabalhos estão relacionados a essa temática, sendo eles: A formação do leitor- literário na educação infantil, de Escouto (2013), e Encontros, cantigas, brincadeiras, leituras: um estudo acerca das interações dos bebês, crianças bem pequenas e o objeto livro numa turma de berçário, de Guimarães (2011) 2. Escouto (2013) evidenciou que as ações desenvolvidas oferecem condições e elementos para que a formação se institua e se consolide. Nesse sentido: A formação do leitor-literário passa, pela relação entre as palavras das crianças e as dos outros que participam da construção da história de leitura da criança e lhe possibilitam a aprendizagem e o desenvolvimento do que se refere à produção literária e a outros enunciados próprios desse campo de conhecimento. (ESCOUTO, 2013, p. 9). Guimarães (2011, p. 8), em um de seus resultados, apontou que não basta o bebê ter apenas o acesso aos livros, o bebê precisa, também, de [...] uma mediação lúdica, livre de regras reguladoras, mas repletas de experiências criativas, que potencializem o desejo e as formas de uso do livro. A autora evidencia a importância de o livro ser uma ferramenta que vem a possibilitar adultos e bebês em uma nova cultura dos livros. A pesquisa de Almeida (2013), Leitura de histórias infantis em UTI neonatal: uma estratégia voltada para a relação mãe jovem bebê, apresenta o projeto Biblioteca viva, onde mães e recém-nascidos da UTI neonatal têm a oportunidade de aproximarse e estar em contato com os livros. Almeida (2013, p. 8) apresenta, entre seus resultados, que o momento de contação de histórias na UTI neonatal, que tem por objetivo [...] aproximar mãe e bebê, possibilita para esse par um momento em que o foco principal não seja relativo ao adoecimento e vem a somar às propostas de atenção a essa clientela e às estratégias de aproximação da dupla mãe-bebê. Ao analisarmos as quatro pesquisas, evidenciamos que, apesar de três pesquisas estarem em um ambiente educacional e uma estar em um hospital, a mediação do 2 Esta pesquisa apresenta-se com ambas as palavras-chave bebê AND leitura / Criança pequena AND leitura. 20

22 literário, o encontro da criança pequena com o livro, acontece com a presença de um adulto. Para continuar a pesquisa nos bancos de dados, utilizamos a palavra-chave criança pequena AND leitura. Com ela, encontramos trabalhos, brasileiros, nos sites da BDTD e da CAPES. Selecionamos dez pesquisas que abordam a faixa etária das crianças de até três anos de idade, dos últimos seis anos, que tratam especificamente sobre o tema em questão. O Quadro 2, a seguir, mostra as pesquisas selecionadas com os respectivos títulos, autores e o ano de defesa. Quadro 2 - Demonstrativo das pesquisas encontradas no banco de dados da CAPES e da BDTD com o tema criança pequena AND leitura no período de 2011 a 2017 AUTOR PESQUISA PORTAL ANO Ana Carolina de Azevedo Mello Bibliotecas públicas e escolares da cidade de Cornélio Procópio - PR: desafios dos mediadores de leitura para a formação de leitores (Dissertação). CAPES 2016 Eritania Silmara de Brittos Priscila de Oliveira Dornelles Machado Renata de Almeida Torres Vilhena Gesiele Reis Daniela Gaspar Pedrazzoli Bagnasco Luciano Eiken Senaha Cinthia Silva de Albuquerque Keyla Andrea Santiago Oliveira Rosele Martins Guimarães A importância dos contos de fadas para o desenvolvimento psicossexual da criança: o que pensam, o que dizem e o que fazem as professoras? (Dissertação). A Creche UFF e sua Flor de papel: uma análise sobre a produção de conhecimento de uma Biblioteca Escolar Infantil (Dissertação). Literatura na Educação Infantil: práticas pedagógicas e a formação da criança pequena (Dissertação). Literatura para os pequenos: experiências de San Miniato (Dissertação). Leitura de histórias na educação infantil: como se desenvolve? (Dissertação). Quais as contribuições neurocientíficas para o letramento emergente na educação infantil em crianças de 0 a 5 anos de idade? (Dissertação). Os acervos, os espaços e os projetos de leitura em instituições públicas de educação infantil do Recife (Dissertação). A experiência estética na educação da infância: uma crítica no contexto da indústria cultural (Tese). Encontros, cantigas, brincadeiras, leituras: um estudo acerca das interações dos bebês, crianças bem pequenas e o objeto livro numa turma de berçário (Dissertação). Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados da pesquisa. CAPES 2016 CAPES 2016 BDTB 2014 CAPES CAPES 2014 BDTB 2014 BDTB CAPES 2013 BDTB 2012 BDTB 2012 BDTB 2011 Foi possível subdividir essas pesquisas em temas relacionados, a saber: políticas públicas, mediação de leitura, estética e espaços. Evidenciamos três pesquisas, sendo elas de Albuquerque (2012), Brittos (2016) e Mello (2016), as quais apontam políticas públicas de investimentos. 21

23 A pesquisa de Albuquerque (2012) - Os acervos, os espaços e os projetos de leitura em instituições públicas de educação infantil do Recife - aborda sobre os investimentos públicos nos espaços e nos acervos da Educação Infantil. Albuquerque (2012) evidencia a fragilidade do espaço da biblioteca nas instituições de Educação Infantil que foram analisadas, bem como poucos cantinhos de leituras nas salas de aula. A pesquisadora sinaliza que as instituições possuem livros de literatura infantil com qualidade, porém, pela ausência do espaço, os livros ficam guardados nos armários, dificultando o acesso das crianças aos livros. Quanto à mediação de leitura, a autora pontua que a mediação, pela grande parte das instituições, fica a cargo da professora de sala. A pesquisa apresenta três elementos fundamentais, que são as ações articuladas as quais envolvem [...] os espaços organizados para ler, o acervo e a mediação de leitura (ALBUQUERQUE, 2012, p. 8). Em seus resultados, a autora evidencia a importância dos investimentos públicos para [...] oferecer condições básicas para concretizar com qualidade a formação de crianças leitoras desde a Educação Infantil (ALBUQUERQUE, 2012, p. 8). Em se tratando de políticas públicas de investimentos para formação de professores, a pesquisa de Brittos (2016) - A importância dos contos de fadas para o desenvolvimento psicossexual da criança: o que pensam, o que dizem e o que fazem as professoras? - aponta que o trabalho com os contos de fadas possibilitou olhar para a primeira infância. Entretanto, a pesquisadora evidencia a necessidade de formação em educação sexual emancipatória para os professores de Educação Infantil do município de Francisco Beltrão (PR). Mello (2016), em seu trabalho Bibliotecas públicas e escolares da cidade de Cornélio Procópio - PR: desafios dos mediadores de leitura para a formação de leitores, investiga os mediadores de leituras que atuam nas bibliotecas públicas escolares da cidade de Cornélio Procópio. Os resultados apontam que existem dificuldades nas instituições analisadas. A autora sinaliza que poucos mediadores realizam práticas de leituras sistematizadas, suas ações são mais intuitivas. Mello (2016) evidencia que os profissionais que atuam nas bibliotecas não possuem conhecimento sobre a existência de políticas públicas na esfera municipal, estadual e federal, que possam orientar em suas ações para a formação de leitores. As palavras-chave criança pequena AND leitura levaram-nos a três trabalhos que evidenciam a importância da mediação de leitura proposta pelo professor para 22

24 que a criança pequena tenha contato com os livros. Guimarães (2011), em Encontros, cantigas, brincadeiras, leituras: um estudo acerca das interações dos bebês, crianças bem pequenas e o objeto livro numa turma de berçário, apresenta a mediação lúdica do professor como forma de aproximar as crianças, de uma turma de berçário, do objeto livro 3. Outra autora que aponta a ação do professor é Bagnasco (2014), em sua pesquisa Leitura de histórias na educação infantil: como se desenvolve? O estudo apresenta o papel importante do professor ao promover a prática de leitura de história com as crianças. Há evidencias da influência da ação das professoras quando as crianças desenvolvem as suas próprias leituras. Estas imitam as professoras fazendo gestos, bem como, segundo Bagnasco (2014, p. 8), [...] apropriam-se de forma inventiva das histórias e dos suportes, atribuindo a estes outros usos. A pesquisa de Vilhena (2014) trata do uso da literatura infantil nas práticas pedagógicas com as crianças pequenas. Em seus resultados, a autora evidencia a [...] importância do desenvolvimento de atividades de linguagem, oral e escrita, junto à criança pequena - inserida na primeira etapa da educação básica - e explicita-se o necessário cuidado e planejamento com o contexto, espaços e tempos destinados à implementação da ação pedagógica que, evidentemente, se dá em determinada cultura. (VILHENA, 2014, p. 8). O estudo busca contribuir com a prática de leitura, para que a criança pequena, desde cedo, interaja com o mundo letrado. A autora apresenta uma educação para a liberdade como ação pedagógica que possibilita as crianças pequenas exercitarem a [...] sua capacidade de análise de textos e contextos, de criatividade e de abertura para novos olhares (VILHENA, 2014, p. 8). A pesquisa de Senaha (2013), intitulada Quais as contribuições neurocientíficas para o letramento emergente na educação infantil em crianças de 0 a 5 anos de idade?, aponta a necessidade de novos estudos, novas reflexões e teorias que abordem e [...] fundamentem o encadeamento da perspectiva biológica às perspectivas culturais do letramento emergente, principalmente naquela que a investiga de forma multidisciplinar (SENAHA, 2013, p. 7-8). A pesquisa aponta para a fragilidade em estudos nessa área e que o tipo de abordagem teórica, baseada em evidências acadêmico-científicas, possibilita fundamentar a prática dos educadores das famílias e as políticas públicas. 3 O trabalho Encontros, cantigas, brincadeiras, leituras: um estudo acerca das interações dos bebês, crianças bem pequenas e o objeto livro numa turma de berçário também consta no Quadro 1. 23

25 Os espaços da biblioteca na Educação Infantil foram abordados por Machado, P de O. D. (2016) na pesquisa A creche UFF e sua Flor de papel: uma análise sobre a produção de conhecimento de uma Biblioteca Escolar Infantil. O estudo buscou investigar a relação da criança com o livro e a literatura, em espaços específicos como a biblioteca, pensada e organizada para receber crianças de um a cinco anos. A pesquisa apontou que a biblioteca escolar aproxima a criança da literatura infantil e é um espaço que produz experiências de infância e de culturas, de forma que as crianças [...] criam e recriam livremente suas vivências e interações com os livros, com seus pares e com os adultos além de afirmar a identidade da Biblioteca Flor de Papel como um ambiente da educação infantil que visa contribuir para a formação dos pequenos leitores e produz conhecimento sobre as crianças e a infância no contexto da leitura e da literatura infantis. (MACHADO, P de O. D., 2016, p. 8). Ao analisarmos as pesquisas mapeadas, identificamos que duas aparecem relacionadas à educação estética. Oliveira (2012), com a pesquisa intitulada A experiência estética na educação da infância: uma crítica no contexto da indústria cultural, busca evidenciar que a educação estética é possível. A autora discute que a educação estética proposta para o ambiente educacional infantil contrapõe a concepção de obra de arte. Ela salienta que a obra de arte é explorada no viés do comércio, com a [...] ideia de naturalidade, de fuga da existência do duro cotidiano, entretenimento barato. Nesse sentido, o estudo traz como proposta [...] o respeito pela arte, respeito que se estende às crianças, à infância e a uma educação estética possível. Outra autora que discute a temática na infância é Reis (2014) em sua pesquisa Literatura para os pequenos: experiências de San Miniato. A pesquisadora aponta que a literatura em San Miniato, Itália, não parte de projetos; são os projetos que partem da literatura. A literatura é possibilitada às crianças para que elas apreciem e sintam-se afetadas por ela, pelo viés estético. Os Quadros 1 e 2, mostrados anteriormente, apontam a fragilidade em número de pesquisas na área que envolvem crianças pequenas e leitura. Ao observarmos os anos das pesquisas, há uma ordem crescente, pois, no ano de 2011, havia uma pesquisa, a qual aparece com ambas as palavras-chave. Já, no ano de 2016, foram encontradas três pesquisas, o que evidencia um crescimento. Apesar desse crescimento, há necessidade de aprofundar os estudos. 24

26 Assim, nas pesquisas do Grupo Cultura, Escola e Educação Criadora, surgiu o assunto bebetecas, pouco discutido e que despertou nossa curiosidade. Decidimos, dessa forma, pesquisá-lo. Aceitamos o desafio em conhecer esse espaço destinado a leituras para a criança pequena. Com as pesquisas apontadas nos Quadros 1 e 2, selecionamos, principalmente, a dissertação de Reis (2014), pois a autora desenvolveu seu trabalho de pesquisa em um local que tem uma concepção de literatura. A autora discute sobre a experiência literária para os pequenos em San Miniato. A pesquisadora não aborda o tema bebeteca, mas evidencia a importância da literatura para os pequenos em sua rotina, da existência de projetos de formação de leitores e sobre a relação estreita entre criança, professores e, em especial, a família. Em seus resultados, Reis (2014) aponta-nos que a literatura em uma escola de San Miniato é experiência de ações do dia a dia da criança, sendo ela entrelaçada com outras atividades, tanto na esfera educacional como familiar. As crianças veem o livro como um brinquedo, o livro é percebido como um objeto estético, e os projetos da escola partem da literatura. A mediação é provocada pelos professores com vistas a envolver as famílias e as crianças na creche. O contato com o livro é permitido à criança de forma livre, a criança manipula a obra no momento que sente vontade, o que [...] contribui para o estabelecimento de uma relação afetiva com o livro e, consequentemente, na construção de um leitor. [...] em San Miniato há uma rotina transdisciplinar em que a literatura é um instrumento de apreciação inferindo a educação para o sensível (REIS, 2014, p. 7). A autora traz a presença forte da literatura no ambiente escolar e nas mais variadas possibilidades cotidianas em que as crianças lidam com o livro de forma espontânea, bem como a presença da família junto aos professores, envolvendo-se no processo de educação para o sensível. Outro critério para a escolha da pesquisa de Gesiele Reis (2014) foi a participação da autora no mesmo grupo de pesquisa do qual participamos. Existiu, desse modo, uma afinidade nas concepções e no aporte teórico. Além disso, as experiências da pesquisadora em San Miniato trouxeram reflexões importantes para o contexto desta pesquisa. Assim, apropriamo-nos delas para discuti-las nas próximas páginas. Partimos, então, em busca de trabalhos, já existentes no país, com a palavrachave bebeteca nos sites da BDTD, da CAPES e da Scientific Electronic Library 25

27 Online (SCIELO), nos últimos anos - entre 2008 e As pesquisas encontradas estão no Quadro 3 que segue. Quadro 3 - Pesquisas encontradas com a palavra-chave bebeteca Autores Título Ano Local de busca Mariana Senhorini Sueli Bortolin Bebeteca: uma maternidade de leitores (Artigo) CAPES Alessandra Barros Ana Paula Souza dos Santos Fernanda Rohlfs Pereira Fernanda Rohlfs Pereira Renata Junqueira de Souza Juliane Francischeti Martins Motoyama Incentivo da leitura e atividades lúdicas a crianças de 0 a 3 anos de idade: bebeteca e brinquedoteca uma oportunidade no desenvolvimento e hábito pela leitura (Artigo). Práticas de leitura literária na educação infantil: como elas ocorrem em turmas de uma UMEI em Belo Horizonte? (Dissertação) Práticas de leitura literária na educação infantil: como elas ocorrem em turmas de uma UMEI de Belo Horizonte? (Dissertação) Bebeteca: espaço e ações para formar o leitor (Artigo) CAPES 2014 CAPES 2014 BDTD 2016 CAPES Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados da pesquisa. Como podemos perceber, em nove anos, apenas cinco pesquisas sendo duas a mesma - foram encontradas envolvendo a palavra-chave bebeteca. Isso evidencia o pequeno volume de pesquisas brasileiras referentes ao tema em questão. Mediante esse dado, justifica-se o desenvolvimento desta pesquisa para dar mais visibilidade na necessidade de ampliar-se os espaços de leitura para crianças pequenas. Assim sendo, esta dissertação está organizada em cinco capítulos. No primeiro, O livro em minha vida, o percurso como pesquisadora, trouxemos a formação leitora da pesquisadora, as atuais pesquisas que sustentam o tema em questão, dentre os quais citamos Escardó i Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini e Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros e Santos (2009), que apresentam o conceito de bebeteca. Também abordamos a metodologia da pesquisa, no intuito de revelar o caminho percorrido da pesquisa e a questão problema que norteia toda a pesquisa: Como ocorre a mediação do literário nas bebetecas? No segundo capítulo, Contextos da pesquisa: bebeteca em ação, apresentamos os sujeitos e os espaços desta pesquisa, sendo um o CEI Darlan Dotto Wiersinski, na 26

28 cidade de Itajaí, Santa Catarina, e o outro o CMEI Padre Livio Donati, em Castro, Paraná. Não temos interesse em comparar os espaços de leitura, mas sim conhecer o perfil dos ambientes educativos nos quais foram coletados os dados para a análise da pesquisa. No terceiro capítulo, Por que ler para as crianças pequenas?, trazemos reflexões a respeito da literatura, cujo referencial está pautado em Eco (2003), que aponta as funções da literatura, entre elas a gratia sui, leitura para puro deleite. Buscamos, em Reyes (2010), entender como ela aborda os encontros com a leitura ao intitulá-los como triângulo amoroso (adulto, criança, livro). Em Barthes (2013), procuramos evidenciar o conceito de texto fruição que se difere do texto de prazer. Com Petit (2013b), procuramos entender sobre a importância da familiaridade precoce com os livros. O quarto capítulo, Encontros na bebeteca: CEI Darlan Dotto Wiersinski, apresenta a análise da bebeteca desse CEI, seu espaço, o projeto bebeteca, a qualidade do acervo e a mediação da professora. Para tal análise, contamos com autores como: Reyes (2010, 2012, 2013), Martins e Neitzel (2016), Reis (2014), Duarte Jr. (2010) e Martins (2012a, 2012b). No quinto capítulo, Encontros na bebeteca: CMEI Padre Lívio Donati, fazemos a mesma abordagem, mais focada no CEI. A intenção é debater o projeto da bebeteca, o espaço, a qualidade dos livros e como ocorrem as mediações na bebeteca. A análise está pautada nos autores: Reyes (2010, 2012, 2015, 2016), Martins e Neitzel (2016), Reis (2014), Duarte Jr. (2010) e Martins (2012a, 2012b, 2014). No sexto capítulo, trazemos algumas considerações a respeito do conceito de bebeteca que entendemos ser o mais próximo à realidade brasileira na intenção de formar leitores. Para entender como começou esse espaço de leitura, convidamos, você leitor(a), a conhecer as primeiras descobertas referentes ao tema bebeteca. 1.1 A PRIMEIRA DESCOBERTA: LITERATURA PARA A CRIANÇA PEQUENA E como iria reunir outras criancinhas à sua volta e tornar os olhos delas brilhantes e impacientes com muitas histórias estranhas, talvez até com o sonho do país das maravilhas de tanto tempo atrás. Lewis Carroll (2009, p. 149). 27

29 Pela pesquisadora ser professora de Educação Infantil, por apreciar os momentos vivenciados com as crianças pequenas, em que a literatura se faz presente, momentos como estes no conto de Lewis Carroll configuram a receptividade positiva das crianças pelas histórias. Passamos, assim, a pesquisar sobre esse espaço de leitura denominado bebeteca. Após lermos algumas pesquisas já existentes, selecionamos algumas para entender e discutir o conceito desse espaço. Segundo Escardó i Bás (1999), a bebeteca é um: Servicio de atención especial para la pequeña infancia (de O a 6 años) que incluye, además de un espacio y un fondo de libros escogidos para satisfacer las necesidades de los más pequeños y de sus padres, el préstamo de estos libros, charlas periódicas sobre su uso y sobre los cuentos, asesoramiento, y una atención constante por parte de los profesionales de la biblioteca hacia sus usuarios 4. (ESCARDÓ I BÁS, 1999, p. 10). Considerar que a bebeteca oferece um atendimento especial para a criança pequena que precisa de um espaço próprio já é um grande avanço, tendo em vista que, nem sempre, se considera que os pequenos necessitam de uma bebeteca, pois subestima-se a sua capacidade de compreensão. Especial significa que ela está focada na criança pequena de forma que ela se identifique com o material, que ela tenha mais acesso. Diante dessa concepção, evidencia-se que a bebeteca precisa de um espaço próprio e adequado na acolhida dos livros e das crianças pequenas, onde haja uma mediação, que pode ser dos bibliotecários, dos professores ou dos pais. A intenção é aproximar os pequenos dos livros, pelo manuseio livre das obras ao tocálas; pela escuta; pelas trocas ao compartilhar; pelo observar ao olhar; enfim, possibilitar aos pequenos afetar-se pelos livros. Em se tratando das pesquisas analisadas, Pereira (2014) apresenta o conceito de bebeteca discutido por Escardó i Bás (1999). Já Senhorini e Bortolin (2008, p. 129) conceituam bebeteca como [...] uma biblioteca especialmente destinada para os bebês, seus pais ou responsáveis em trabalhar todas as possibilidades de leitura e envolvendo a criança e o mundo lúdico, despertando primeiramente, o prazer e a paixão pela leitura. Esse conceito traz, dessa forma, a bebeteca como lugar especializado para os bebês, para os pais e para os responsáveis. Pontuamos a 4 Serviço de atenção especial à primeira infância (de 0 a 6 anos), que inclui, além de um espaço e uma coleção de livros escolhidos para atender às necessidades dos mais pequenos e seus pais, o empréstimo desses livros, conversações periódicas sobre as histórias, conselhos e atenção constante de profissionais de biblioteca aos seus usuários. (ESCARDÓ I BÁS, 1999, p. 10, tradução nossa). 28

30 importância em cultivar esse laço com a leitura em família, sendo a família também leitora e partícipe desse momento da mediação do literário com a criança pequena. As autoras relacionam o livro com o mundo lúdico, concepção que nos permite relacionar o livro com o brinquedo. Entretanto, sinalizamos que, para o livro ser visto pela criança pequena como um brinquedo, ele necessita ser explorado de forma livre, contínua e apreciativa. Defendemos, portanto, um explorar em que a criança pequena possa realmente construir uma relação de intimidade com o livro. Essa relação demanda toque, cheiro, sabor, brincadeira. Assim, evidenciamos a importância do brincar nesse processo, pois ele é inerente ao ser criança. A brincadeira é uma estratégia de trazer a criança para o livro, que pode dar-se pela exploração do momento de leitura em voz alta pelo adulto. Brincar e ler podem ser atos complementares presentes na rotina da criança, nos encontros na bebeteca, pois o manusear e o ouvir histórias são ações que aguçam o imaginário da criança, o faz de contas e são requisitos importantes para a formação do pequeno leitor. Senhorini e Bortolin (2008) apontam que cabe à bebeteca despertar o prazer e a paixão; assim como Pennac (2008, p. 108) que compara a leitura prazerosa com o ato de enamorar [...] eu, nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse. É nesse mesmo viés que defendemos que o livro seja possibilitado à criança pequena, não como obrigação, aprisionamento, mas que as crianças pequenas se sintam afetadas pelo livro, como elas são pelo brinquedo. Barros e Santos (2009) apresentam a bebeteca como [...] um local propício para crianças de oito a três anos iniciarem o primeiro contato com os livros. Um local pequeno, com livros adequados, almofadas pelo chão, com o objetivo de fazer com que as crianças se sintam bem, e a professora ou bibliotecária possa realizar suas atividades da melhor maneira possível, alcançando os objetivos desejados. (BARROS; SANTOS, 2009, p. 49). As autoras afirmam ser um espaço destinado às crianças pequenas, um espaço que tem a preocupação em desenvolver atividades com os livros. Essa compreensão implica em atividades de mediação que envolvem os livros e permitam que a criança pequena se sinta afetada. O Instituto Espantapájaros (2014), na Colômbia 5, entende que a bebeteca é 5 Projeto cultural que incentiva a leitura e a expressão artística, promovendo um encontro criativo com literatura e arte. Disponível em: <http://espantapajaros.com/>. Acesso em: 20 abr

31 [...] una biblioteca especializada en literatura para la primera infancia, del jardín infantil, de la librería y de los talleres para niños y adultos, construimos alternativas pedagógicas para que los niños crezcan como lectores, escritores y sujetos de lenguaje desde el comienzo de lavida 6. (INSTITUTO ESPANTAPÁJAROS, 2014, s/p). Nesse espaço da bebeteca, uma vez por semana, acontece o cuento em panãles (contos em fraldas) - uma oficina literária para os bebês a partir de oito meses. Os bebês vão acompanhados de sua mãe, de seu pai, de seus avós, para que possa [...] tocar, ver y morder libros de imágenes; escuchar y moverse al ritmo de poemas, rimas y canciones; sentir la arena y la grama entre sus deditos 7. É, também, uma definição que propõe a bebeteca como um espaço especializado para a criança pequena, mostrando a sua importância para aproximar a criança dos livros. Concordamos com a concepção do Instituto Espantapájaros de desenvolver mediações de leituras para a criança pequena no intuito de aproximarem os futuros leitores do material literário. Uma bebeteca precisa ser um espaço que acolha a criança pequena, desenvolvendo mediações de leituras, possibilitando que a família faça parte desse momento, pois ela conhece o pequeno leitor e tem uma relação de intimidade, o que lhe assegura confiança em estar em um ambiente social e cultural onde outras pessoas também fazem parte. As mediações de leituras desenvolvidas em cuento em panãles 8 possibilitam que a família esteja junto à criança pequena, momento que ambos ouvem e leem histórias e podem manusear as obras. São nesses encontros com o livro que são alimentados os sentidos dos pequenos. A bebeteca é conceituada, portanto, como um espaço de trocas e de manuseio de livros, de contação de histórias, de colo, de escolhas, de intimidade, de conversas e de balbucios, de olhares mútuos, onde o afeto ganha espaço e o pequeno leitor possa vivenciar e apreciar esteticamente o momento literário. Tendo em vista esses conceitos, sintetizamos as concepções apresentadas por meio de uma nuvem de palavras (Figura 1) organizadas por uma rede semântica de acordo com seis categorias, a saber: 6 [...] uma biblioteca especializada em literatura para a infância, do jardim de infância, da biblioteca e das oficinas para crianças e adultos, construímos alternativas pedagógicas para que as crianças cresçam como leitores, escritores e sujeitos de linguagem desde o início da vida (INSTITUTO ESPANTAPÁJAROS, 2014, s/p, tradução nossa). 7 [...] tocar, ver e morder os livros ilustrados; ouvir e mover-se ao ritmo de poemas, rimas e canções; sentir a gama de livros entre os dedos (INSTITUTO ESPANTAPÁJAROS, 2014, s/p, tradução nossa). 8 Disponível em: <http://espantapajaros.com/cuentos-en-panales/>. Acesso em: 10 maio

32 espaço sujeitos ações na bebeteca recursos e materiais provocações objetivos da bebeteca Figura 1 - Nuvem de palavras 1 Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Assim, buscamos conhecer e identificar espaços de bebetecas no território brasileiro. Embora pouco conhecida e apontada em pesquisas, a bebeteca é um campo que sutilmente está ganhando espaço em terras brasileiras, o que inspira novas pesquisas sobre a formação de leitores no viés da leitura literária para crianças pequenas. Dessa forma, antes de conhecer tais espaços, realizamos uma revisão de literatura para conhecer o que está sendo pesquisado e discutido sobre esse espaço de leitura. Para tanto, procuramos conhecer qual foi a primeira bebeteca a ser constituída. De acordo com Escardó i Bas (1999, p. 9), sobre a V Conferência Europea de Lectura, na cidade de Salamanca, em julho de 1987, [...] escuché por primera vez en francés, de la voz de Georges Curie, la palabra mágica: Bebètheque. Esta palabra y las explicaciones que la acompañaban disiparon todas mis dudas sobre los primeros intentos de acercar a los libros que realizábamos con niños que aún no habían empezado su aprendizaje de lectura. 9 (ESCARDÓ I BAS, 1999, p. 9). 9 [...] escutei pela primeira vez em francês, da voz de Georges Curie, a palavra mágica: Bebetheque. Essa palavra e as explicações que a acompanham dissiparam todas as minhas dúvidas sobre as 31

33 Outra autora que também comenta sobre essa conferência é Baptista (2012) que, em seu artigo Leitura literária na primeira infância: a experiência da bebeteca Can Butjosa em Barcelona, afirma que Georges Curie, palestrante, fez o uso do termo Bebétheque com o objetivo de discutir sobre a importância de aproximar os livros das crianças menores antes de elas aprenderem a ler e a escrever. Curie fez menção a práticas que promoviam a leitura para as crianças inicialmente em creches e não em uma biblioteca exclusiva para eles. Assim, da V Conferencia Europea de Lectura à prática, foi na Espanha, em 3 de maio de 1991, que surgiu o primeiro espaço denominado bebeteca, traduzido para a língua espanhola. Esse espaço foi estruturado junto ao ambiente de uma Biblioteca - a de Can Butjosa. A bebeteca foi organizada pela iniciativa da bibliotecária Mercè Escardó i Bas. Facchini (2010, p. 3) reflete sobre o significado da palavra espanhola bebeteca (Figura 2). Figura 2 - Demonstrativo da origem da palavra bebeteca beba ninã, chiquilla, criatura... beteca bibliotecário, biblioteca pública. Bebeteca - espaço de leitura para bebês na biblioteca Fonte: Facchini (2010, p. 3). Da Espanha para o território brasileiro, a primeira bebeteca (como aqui é denominada, mas cuja palavra ainda não está dicionarizada) a ser mencionada em sites brasileiros, 10 em espaço educacional, foi no ano de 2005, na cidade de Castro, no Paraná, no Centro de Educação Infantil Cavalinho de Pau 11. A Secretaria de Educação oferece esse espaço de leitura em todos os Centros Municipais de Educação Infantil, com a intenção de que as crianças tenham acesso aos livros desde a mais tenra idade. Nas primeiras leituras de Facchini (2010), Senhorini e Bortolin (2008), Baptista (2012), Barros e Santos (2009), percebemos que a Bebeteca é um espaço que vem primeiras tentativas de trazer livros que realizávamos com crianças que ainda não tinham começado a sua formação de leitura (ESCARDÓ I BAS, 1999, p. 9, tradução nossa). 10 Para conhecer mais sobre a primeira bebeteca em espaço educacional, no Brasil, acesse: <http://smedinfantilcastro-nanci.blogspot.com.br/2010/10/bebeteca.html>. Acesso em: 10 jan Para conhecer mais sobre a primeira bebeteca em espaço educacional no Brasil, acesse: <http://www.adeepra.org.ar/congresos/congreso%20iberoamericano/fomentolectura/r19 32FAcc.pdf>. Acesso em: 20 abr

34 auxiliando as instituições de Educação Infantil a empreender os seus primeiros gestos embrionários em leituras com crianças pequenas. Embora algumas bebetecas atendam crianças de até seis anos, o foco para este estudo são as crianças de quatro meses a três anos. Assim, nesta pesquisa, consideramos como crianças pequenas as crianças de quatro meses a três anos. Escolhemos essa etapa da infância por entender que oportunizar momentos de leitura às crianças pequenas é, antes de tudo, respeitá-las, isto é, possibilitar que elas tenham o direito de os livros fazerem parte de suas vidas, assim como as brincadeiras. Quanto mais cedo a criança pequena estiver em contato com os livros, quanto mais a leitura tenha espaço em suas vivências, maiores serão as chances de o livro repercutir em suas vidas, em aguçar sua vontade de ler, em terem experiências de leitura. Segundo Petit (2012), [...] as primeiras bolas que são lançadas à criança são fundamentais: delas dependerá, em grande medida, seu desenvolvimento. Todos os grandes especialistas nessa idade assinalaram a importância, para o despertar sensível, intelectual e estético das crianças, das trocas precoces com a mãe (ou a pessoa que representa) tem com o bebê. (PETIT, 2012, p. 52). Nessa perspectiva, para que essas experiências ocorram, as crianças pequenas necessitam das interações com o adulto. São nas interações, nas experiências vivenciadas pela criança que aos poucos ela constrói significados e se desenvolve. As experiências de manuseio livre que a criança possui com o livro junto ao adulto, quando mediadas de forma adequada, podem possibilitar que ela construa uma concepção do livro não apenas como objeto utilitário, de conhecimento, mas, sobretudo, como objeto artístico e estético, uma relação que se constrói pela afetividade e pela percepção sensorial. Por termos escolhido a criança pequena, muitas inquietações foram surgindo, entre elas: Como contar histórias para a criança pequena? Como pode ser o espaço de mediação do literário na bebeteca? Quais são os melhores livros literários que podem ser oferecidos à criança pequena? Como ocorrem os encontros literários nas bebetecas? Muitas perguntas surgiam, mas um questionamento se repetia: Qual a importância do contato com o livro na vida do homem desde criança? Petit (2012, p. 123) aponta [...] o quanto é importante, desde a mais tenra idade, propor aos bebês alimentos culturais, contar-lhes histórias e ler para eles. A autora afirma que ler é possível para as crianças pequenas, e elas têm potencialidades para receber esses 33

35 alimentos culturais. Tais inquietações permitiram que a pesquisa fosse sendo desenhada, com a proposta de refletir sobre a bebeteca, tendo como questão problema: Como ocorre a mediação do literário nas bebetecas? Mediante essa questão, delineamos o seguinte objetivo geral: Analisar como ocorre a mediação do literário nas bebetecas. Para alcançar esse objetivo, traçamos os seguintes objetivos específicos: Apresentar concepções de bebetecas. Identificar bebetecas no Brasil. Discutir sobre os acervos literários das bebetecas do Centro de Educação Infantil Darlan Dotto Wiersinski e do Centro Municipal de Educação Infantil Padre Lívio Donati. Identificar as condições dos espaços físicos das bebetecas dos Centros de Educação Infantil que são foco desta pesquisa. Identificar como as professoras interagem com as crianças durante os encontros literários nos dois Centros de Educação Infantil pesquisados. Esta é uma pesquisa que nasceu junto ao Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora. Em se tratando do aporte teórico, esta pesquisa traz Escardó i Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini e Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros e Santos (2009), que apresentam o conceito da palavra bebeteca. Petit (2012, 2013a, 2013b) discute sobre a mediação de leitura e o papel do mediador; Petit (2012), Reis (2014), Reyes (2010, 2012, 2013, 2015, 2016) e Martins e Neitzel (2016) ressaltam a importância de propor às crianças pequenas alimentos culturais que lhes permitirão construir uma relação estética com o livro de literatura, de forma 34

36 a apreciarem a leitura e afetarem-se por ela. Duarte Jr. (2010) aponta a importância de iniciar, desde cedo, a educação do sensível; Martins (2012a, 2012b, 2014) traz como ação propositora uma mediação provocada que gere experiências estésicas. Trazemos, também, as pesquisas de nosso Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora, que apresentam trabalhos direcionados sobre essa temática, entre elas: Borba (2016), com a pesquisa intitulada Mediação cultural em bibliotecas, discute como as bibliotecas se constituem em espaços de mediação cultural. A autora evidenciou a biblioteca como um espaço de encontros e mediação cultural para educação dos sentidos; Weiss (2016), com A leitura do literário e a sala de aula, mediações em/de leitura, apontou, entre seus objetivos, as estratégias de leituras mais adequadas na concepção de leitura fruitiva; Reis (2014), como já apontado, discute sobre a experiência literária para os pequenos em San Miniato Itália; Neitzel e Carvalho (2016), ao organizarem o livro Mediação Cultural, formação de leitores & educação estética, apresentam várias pesquisas que foram desenvolvidas pelo GP Cultura Escola e Educação Criadora sobre mediação, leitura e educação do sensível. A escolha por esses autores ocorreu por eles compreenderem a mediação cultural como fundamental no processo de ensino e aprendizagem. Por meio desse aporte teórico, compreendemos que a leitura pode ser proposta às crianças pequenas; que a bebeteca é um espaço de trânsito, que permite encontros sensíveis com a arte literária; e que os primeiros contatos com a obra literária ocorrem pela mediação de um adulto, que pode estar na família ou na escola. 1.2 EM BUSCA DE ESPAÇOS DE LEITURA Gostaria de não ter chorado tanto! Disse Alice, enquanto nadava de um lado para outro, tentando encontrar uma saída. Lewis Carroll (2009, p. 28). Como Alice, que tanto nadou em busca do caminho para a saída, não nadamos, mas muitas foram as andanças à procura de espaços de bebetecas. Iniciamos investigando por meio das secretarias de Educação da região do Vale do Itajaí e das bibliotecas públicas a existência desse espaço de leitura. Logo seguimos para outros estados na intenção de encontrar mais espaços. Muitos foram os desafios no que se refere às localizações, porém estas foram identificadas por meio dos sites e s 35

37 enviados às secretarias 12. Os Quadros 4 a 8 a seguir mostram as bebetecas encontradas em 5 estados. Quadro 4 - Bebetecas no estado de Santa Catarina ESTADO DE SANTA CATARINA BEBETECAS CIDADE NEI Sonhos de infância Balneário Camboriú CEI Darlan Dotto Wiersinski Itajaí Biblioteca Pública Dom Daniel Hostins Gaspar Fonte: Elaborado pela autora para fins de pesquisa. Quadro 5 - Bebeteca no estado do Rio Grande do Sul ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL BEBETECA CIDADE Núcleo de Educação Infantil Caic Luizinho De Grandi Santa Maria Fonte: Elaborado pela autora para fins de pesquisa. Quadro 6 - Bebetecas no estado do Paraná ESTADO DO PARANÁ BEBETECAS CIDADE CMEI Ciranda do saber CMEI Cavalinho de Pau CMEI Rivadávia de Gracia Lara CMEI Padre Lívio Donatti Castro Castro Castro Castro CMEI Rubens José Quintiliano Castro CMEI Pequeno Reino Castro CMEI Nosso Lar Castro CMEI Marly Rolim Castro CMEI Leda Maria Torres Pereira Castro CMEI João Paulo II Castro CMEI Elizabet Macedo Kugler Castro CMEI Turma do Pererê Castro CMEI Despertar para o mundo Castro Fonte: Elaborado pela autora para fins de pesquisa. Quadro 7 - Bebeteca no estado do Rio de Janeiro ESTADO DO RIO DE JANEIRO BEBETECA CIDADE Biblioteca Parque Estadual Rio de Janeiro Fonte: Elaborado pela autora para fins de pesquisa. Quadro 8 - Bebeteca no estado de Minas Gerais ESTADO DE MINAS GERAIS BEBETECA CIDADE 12 Realizamos buscas, no Brasil, em sites, blogs e aplicativos como Facebook, Instagram, com a palavra bebeteca. Encaminhamos s para algumas secretarias de educação da região (Florianópolis, Blumenau, Gaspar, Balneário Camboriú, Itajaí, Itapema) do estado de Santa Catarina. Como algumas secretarias não responderem aos s, também usamos o recurso do telefone para entrar em contato. 36

38 Faculdade de Educação da UFMG Belo Horizonte Fonte: Elaborado pela autora para fins de pesquisa. A partir desse mapeamento, selecionamos algumas para visitação. A seleção deu-se tendo em vista a aproximação das bebetecas com a região onde a pesquisadora reside. 1.3 OS ENCONTROS NAS BEBETECAS GERANDO DADOS Uma grande roseira crescia junto à entrada do jardim; suas flores eram brancas, mas três jardineiros estavam à sua volta, pintando-as de vermelho. Alice achou aquilo curiosíssimo e se aproximou para observá-los Lewis Carroll (2009, p. 92). Como no conto de Alice, a curiosidade foi o sentimento que caminhou junto aos momentos de observação, um movimento de perguntar, de conhecer e de compartilhar algumas horas ao lado das crianças e dos mediadores de leitura. Transitar por esses caminhos desconhecidos e ter a oportunidade de indagar e poder conhecer a prática e a teoria. Compartilhamos a sensação de contentamento em poder observar como é este espaço de leitura para pequenos e como ocorre a mediação do literário. Borba (2016, p ) afirma que, na mediação de leitura, [...] o objeto estético é a obra que incita os sujeitos e os leva a repercussões sensíveis por meio das relações estabelecidas entre a obra/o sujeito/o mediador e, posteriormente, podem ser alimentadas cotidianamente. Entendemos que, pela mediação do literário, nas interações, nas vivências com o livro, o mediador pode possibilitar à criança pequena sentir outras sensações, sentidos e percepções que potencializam a educação estética. Para observar o objeto de pesquisa, assim como fez Alice, tivemos de aproximarmo-nos dele, sendo necessário escolher alguns espaços para observação. Nessa etapa, selecionamos sete bebetecas, as quais fizeram, assim, parte do corpus desta pesquisa, tendo em vista dois critérios: a) Santa Catarina, por ser onde reside a pesquisadora e onde ela exerce a função de professora. Há facilidade, assim, quanto à entrada na rede e, também, oportunidade em conhecer a realidade de mediação do literário com crianças pequenas na região. 37

39 b) Paraná, em Castro, devido à cidade ser pioneira em duas situações: desenvolver espaços de bebetecas em Instituições de Educação Infantil; ser a primeira cidade no Brasil a oportunizar o acesso da criança ao jardim de infância. Segundo Cardoso Filho (2006, p. 1683), a professora Emília Faria de Albuquerque Erichsen iniciou [...] na cidade de Castro, Paraná, em 1862, o primeiro jardim de infância no Brasil, segundo métodos pedagógicos derivados das obras do educador alemão Frederich Froebel. Valemo-nos da Figura 3 a seguir para ilustrar as sete bebetecas escolhidas, com as datas das visitas e o número de horas passadas no espaço das bebetecas. Figura 3 - Corpus da pesquisa - as sete bebetecas NEI Municipal Sonhos de Criança ( Balneário Camboriú, SC) - 6/05/ /10/2016 CEI Darlan Dotto Wiersinski (Itajaí, SC) -22/09/ /09/ /10/2016-6/04/2017 Biblioteca Pública Dom Daniel Hostin (Gaspar, SC) 3/08/2016 CMEI Ciranda do Saber (Castro, PR) 13/09/2016 CMEI Rubens José Quintiliano (Castro, PR) 12/09/2016 CMEI Leda Maria Torres Pereira (Castro, PR) 13/09/2016 CMEI Padre Lívio Donati (Castro, PR) 14/09/2016 (8 HORAS) (12 HORAS) (2 HORAS) (2 HORAS) (3 HORAS) (2 HORAS) (4 HORAS) Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Após a seleção das sete bebetecas, a pesquisadora fez uma visita in loco para conhecer os espaços e decidir sobre quais bebetecas a pesquisa iria debruçar-se. Para coleta de dados, escolhemos uma bebeteca da cidade de Itajaí - o CEI Darlan Dotto Wiersinski, e a outra bebeteca da cidade de Castro - o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Padre Lívio Donati. A escolha dessas duas deu-se tendo em vista que ambas atendem crianças de quatro meses a três anos de idade, isto é, trabalham com a criança pequena. 38

40 As bebetecas possuem funcionamentos diferentes (a de Castro tem um professor contratado para mediação na bebeteca; e, em Itajaí, ela ocorre pela mediação do próprio professor regente da turma). Ambas possuem o projeto de bebeteca, os espaços diferenciam-se e há evidências em mediação do literário. 1.4 OS ENCONTROS DA PESQUISA Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? Depende bastante de para onde quer ir, respondeu o Gato. Não importa muito para onde, disse Alice. Então não importa que caminho tome. disse o Gato. Contando que eu chegue a algum lugar, Alice acrescentou à guisa de explicação. Oh, isso certamente vai conseguir, afirmou o Gato, desde que ande o bastante. Lewis Carroll (2009, p ). Alice intriga-nos com a não certeza do caminho para ir embora. Qualquer um para ela poderá ser, desde que a levem. O Gato afirma que não importa o destino que se tome, desde que caminhe bastante. A pesquisa inicia-se, assim, com muita caminhada. Temos uma temática que queremos pesquisar, mas o caminho parece incerto, por isso todo processo deve ser pensado e desenhado com cautela e objetividade, para que saibamos lidar com o previsto e os imprevistos na pesquisa. A escolha metodológica mostra-nos os caminhos a serem percorridos, as escolhas a serem feitas, os encontros a serem realizados e, com isso, os resultados obtidos. Optamos pela pesquisa qualitativa, pois, segundo Creswell (2010, p. 52), [...] uma das principais razões para se conduzir um estudo qualitativo é que o estudo é exploratório, pois ele permite observar os sujeitos envolvidos na pesquisa, e, com base nos sujeitos, desenvolver a sua compreensão para com o objeto pesquisado. Esse método possibilita ser flexível na escolha dos instrumentos que serão utilizados na coleta os dados. Silverman (2009, p. 51) afirma que [...] o ponto forte da pesquisa qualitativa é que ela usa dados que ocorrem naturalmente. Assim, a intenção foi observar as bebetecas, com vistas a tornar mais explícito o cenário, como um todo, seja o espaço arquitetural, com os elementos que o compõem, sejam as obras e a mediação que ocorre entre os sujeitos (criança pequena, professor, família) envolvidos nesse espaço de leitura. A pesquisa qualitativa permitiu coletar os dados do contexto, de forma aberta, de forma a verificar os detalhes ocorridos durante a observação. Também é possível os pesquisadores fazerem o uso de mais de uma forma de dados, entre elas a entrevista, observações e documentos (CRESWELL, 39

41 2010, p. 208). Nesta pesquisa, os instrumentos escolhidos para a coleta de dados foram: ü Observação, que possibilitou obter as reais informações do momento que elas aconteceram, no próprio campo da pesquisa. Investigamos vários pontos de observação, sinalizados na Figura 4 a seguir. Figura 4 - Pontos de observação Espaço Acervo literário Documentos Mediação literária Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. que segue. No espaço físico da bebeteca, observamos os pontos mostrados na Figura 5 Figura 5 - Pontos observados sobre o espaço da bebeteca O espaço permite o acesso livre das crianças pequenas? O mobiliário é acessível à altura das crianças pequenas? Quais as condições do ambiente (arejado, iluminado, há poluição visual nas paredes)? Como são as bebetecas? Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Quanto ao acervo da bebeteca, observamos os elementos apresentados na Figura 6 a seguir. 40

42 Figura 6 - Pontos observados sobre o acervo da bebeteca Quantidade de livros Estado de conservação Gêneros Materiais dos livros Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Em se tratando dos documentos, os escolhidos foram os trazidos na Figura 7. Figura 7 - Documentos analisados da bebeteca Projeto bebeteca Planejamento Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Nos encontros literários, procuramos observar como as crianças se relacionam com os livros e como as professoras medeiam as atividades literárias. Alguns questionamentos nortearam as observações, tais como: As crianças pequenas podem manusear livremente as obras? Durante a contação, as crianças pequenas se mantêm atentas? Conversam? Interagem com seus pares? Como as crianças pequenas se comportam durante a contação de história? Dividem descobertas com os colegas? Elas se mantêm em silêncio? Balbuciam imitando a contação da professora? Qual a frequência dos encontros? Ao contar histórias, as professoras fazem o uso de outro objeto ou recurso além do livro? Qual? Como as professoras fazem a roda de leitura 13? Como as professoras contam a história com o livro? Roda de leitura: momento que os livros estão à disposição das crianças pequenas para que elas manuseiem de forma livre. 14 Contação de histórias com o livro: é uma ação que envolve o contador que conta a história com a presença do livro para a criança pequena. 41

43 As professoras permitem as crianças pequenas participarem da história, a questionarem, a falarem durante a contação? Como as professoras medeiam a escolha dos livros? Além da observação, utilizamos outros instrumentos para coleta de dados: Fotografias: para registrar e recolher informações vistas durante o processo de observação nas bebetecas. Com elas, registramos os detalhes que foram percebidos, bem como as utilizamos para recordar informações que complementaram a análise dos dados. Diário de bordo: foram registrados fatos vistos, perguntas ou questionamentos de forma aberta que pudessem, no ato da observação, surgir. Em alguns momentos das observações, a pesquisadora fez algumas perguntas às professoras para melhor entender como realizam os encontros na bebeteca. Assim, os momentos dos encontros foram observados e registrados. Creswell (2010, p. 214) afirma que é possível o pesquisador realizar anotações sobre o comportamento e as ações desenvolvidas pelos sujeitos no campo da pesquisa. Entrevista: com a intenção de levantar informações que auxiliam a compreensão sobre como as professoras trabalham a literatura com as crianças pequenas. Entrevistamos as professoras no intuito de refletir sobre a sua concepção de literatura. Para a entrevista, foi enviado um às professoras das bebetecas com a seguinte pergunta: - Para que serve este bem imaterial que é a literatura? (ECO, 2003, p. 9). Outra característica relevante da pesquisa qualitativa é que permite coletar várias fontes de dados na pesquisa. Assim, a entrevista é mais um instrumento que agregou informações para a fundamentação e a discussão teórica do trabalho. Documentos (projeto da bebeteca e planejamento): possibilitou uma análise mais concreta do objeto de pesquisa, bem como contribuiu para conhecer ainda mais o retrato do corpus da bebeteca. Figura 8. Em síntese, os instrumentos para a coleta de dados foram os mostrados na 42

44 Figura 8 - Instrumentos para coleta de dados Fotografias Observação in loco Instrumentos Diário de bordo Documentos Entrevistas Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. 1.5 ANÁLISE DE DADOS [...] lera muitas historinhas divertidas sobre crianças que tinham ficado queimadas e sido comidas por animais selvagens e outras coisas desagradáveis, tudo porque não se lembravam das regrinhas simples que seus amigos haviam ensinado. Lewis Carroll (2009, p. 19). Para que não cometamos os mesmos erros de Alice, por não se lembrar das regrinhas básicas, é importante o registro cuidadoso e detalhado da coleta de dados, assim como uma análise rigorosa. Essa análise foi combinada com o entrecruzamento da observação, dos documentos e da entrevista. Para Creswell (2010, p. 236), [...] a análise dos dados é um processo contínuo durante a pesquisa, a qual envolveu analisar as informações coletadas pelos envolvidos. Escolhemos essa metodologia tendo em vista que ela permite ser realizada durante todo o processo do trabalho de pesquisa. O método de triangulação, que podemos chamar, segundo Silverman (2009, p. 261), de métodos múltiplos, é a [...] combinação de muitas teorias, muitos métodos, observadores e materiais empíricos, para produzir uma representação mais acurada, abrangente e objetiva do objeto de estudo. Os instrumentos da coleta de dados foram utilizados para que fosse possível, com a triangulação, analisar os dados coletados sobre o objeto de estudo no intuito de responder à questão problema que é: Como ocorre a mediação do literário nas bebetecas? 43

45 A seguir, fazemos um levantamento sobre as características das Instituições de Educação Infantil, onde as bebetecas estão inseridas, com o objetivo de conhecer como se configuram tais espaços e quem são os sujeitos que ali vivenciam o encontro com a leitura. 44

46 2 CONTEXTOS DA PESQUISA: BEBETECA EM AÇÃO A lagarta e a Alice ficaram olhando uma para a outra algum tempo em silêncio. Finalmente a lagarta tirou o narguilé da boca e se dirigiu a ela numa voz lânguida, sonolenta. Quem é você? perguntou a lagarta. Lewis Carroll (2009, p. 55). Como na fala da lagarta, no conto de Alice, o começo de uma conversa inicia-se por conhecer o outro, o desconhecido, o sujeito que está a sua frente - Quem é você?. Adentramos, como Alice, um campo desconhecido; neste caso, o cotidiano de dois ambientes educativos: o Centro de Educação Infantil Darlan Dotto Wiersinski e o Centro Municipal de Educação Infantil Padre Lívio Donati. Cada um possui suas próprias particularidades, mas ambos possuem o espaço da bebeteca, que é o tema desta pesquisa. Assim sendo, o intuito foi conhecer esse espaço de leitura e, sobretudo, como ocorre a mediação do literário na bebeteca. Os espaços escolhidos para o campo da pesquisa estão inseridos no ambiente educacional. Tanto um quanto o outro atendem crianças de quatro meses a três anos. Seus trabalhos envolvendo a leitura nas bebetecas iniciaram no ano de Ambas possuem um projeto de bebeteca, seus projetos são diferentes, mas o intuito da proposta é aproximar a criança pequena dos livros. Não estávamos interessadas em comparar os espaços de leituras, mas sim compreender a concepção das bebetecas, identificar como é seu espaço físico, discutir o acervo e perceber como as professoras interagem com a criança pequena durante os encontros literários. MELNICK, 5 anos. 45

47 2.1 CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL DARLAN DOTTO WIERSINSKI O Centro de Educação Infantil (CEI) Darlan Dotto Wiersinski (Imagem 1) está localizado na cidade de Itajaí, no bairro São Vicente. Sua inauguração foi em julho de Segundo a Secretaria Municipal de Educação de Itajaí, o município possui 57 Centros de Educação Infantil. Contudo, esse é o único que possui um espaço destinado à bebeteca. Esse espaço de leitura foi inaugurado no mês de junho do ano de Imagem 1 - Bebeteca CEI Darlan Dotto Wiersinsk Fonte: Acervo da autora. O Centro é situado em uma comunidade em que o comércio local é variado. Há várias lojas, supermercados, escolas públicas e privadas, entre outros estabelecimentos comerciais. Muitas famílias trabalham nesse comércio local ou se deslocam para outros bairros para exercer suas funções. O CEI é adaptado, não foi construído mediante um planejamento arquitetônico para uma instituição de Educação Infantil. Foi estruturado e organizado dentro de um projeto já concebido de uma casa, sua estrutura apresenta-se com um espaço físico pequeno. Ele é composto por uma sala de professores, uma cozinha, um refeitório - cujo ambiente é dividido pela bebeteca -, banheiros, quatro salas de aula, um parque de areia, um pequeno espaço coberto para brincar na parte interna, um pequeno jardim e uma sala de direção e coordenação pedagógica. O CEI atende cerca de cinquenta e três crianças pequenas entre a idade de quatro meses a três anos, que frequentam a unidade em período integral. Nessa 46

48 instituição, atuam uma coordenadora, uma secretária, cinco professoras e oito agentes de atividade de educação e mais quatro funcionários. As turmas são subdivididas em Berçário I, Berçário II, Maternal I e Maternal II. O próprio CEI é o responsável em realizar as matrículas das crianças, respeitando a data corte de trinta e um de março. O Centro possui um Projeto Político Pedagógico, que foi reestruturado em julho de Nele constam informações sobre o calendário anual, as ações desenvolvidas, os eventos realizados, as atividades com as crianças, o horário da alimentação e o cardápio, os profissionais que ali atuam, a filosofia, os objetivos propostos pelo CEI, entre outras informações. Salientamos que, no momento da coleta de dados, não constava no PPP o projeto Bebê também lê (ITAJAÍ, 2015), pois esse projeto foi organizado pelos docentes do CEI, após a reformulação do PPP. Segundo entrevista junto à professora, o movimento de início do projeto Bebê também lê iniciou-se tendo em vista o número de livros de literatura infantil que o CEI recebeu do Plano Nacional de Bibliotecas da Escola (PNBE) 15. Assim, o objetivo inicial foi construir um espaço no qual os livros pudessem ter destaque de forma que todos tivessem acesso aos livros. Logo houve a necessidade também em compartilhar os livros não só entre crianças pequenas e docentes, mas com a família também. Para a organização do espaço, o CEI teve o apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) 16, que é um programa de estágio para as futuros professores. O programa do PIBID contribuíu com suas ações, na organização do espaço - pintura das caixas, onde são colocados os livros, e confecção do tapete. Na bebeteca são os próprios regentes da turma que fazem as mediações do literário e levam as crianças pequenas até o espaço. Para analisar as ações desenvolvidas nesse CEI, com relação ao espaço da bebeteca, escolhemos uma turma de maternal II para observar os momentos de mediação do literário. A escolha por essa turma veio ao encontro da sugestão da própria coordenadora, devido à mediação do literário provocada pela docente para as crianças pequenas. 15 Desde o ano de 1997, o PNBE desenvolve ações que [...] tem por objetivo, promover o acesso à cultura e o incentivo à leitura nos alunos e professores por meio da distribuição de acervos de obras de literatura, de pesquisa e de referência (BRASIL, 1997, s/p). Ele atende a todas as escolas de Educação Infantil, porém desde que estas estejam cadastradas regularmente no censo escolar. Disponível em: <http://www.fnde.gov.br/programas/biblioteca-da-escola/biblioteca-da-escola-apresentacao>. Acesso em: 10 jan Para conhecer o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), acesse <http://portal.mec.gov.br/pibid>. 47

49 A professora trabalha quarenta horas semanais com o grupo. Sua carreira profissional na área educacional é de vinte anos. Formada no curso superior de Pedagogia, ela tem especialização em Ludopedagogia. Também é professora supervisora do PIBID da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). A turma de maternal II é formada por dezesseis crianças pequenas de dois a três anos, das quais quatorze são meninos e duas são meninas. Todos frequentam o CEI em período integral. Com essa turma, atuam a professora regente e uma agente de atividade de educação. A bebeteca está inserida no mesmo espaço do refeitório do CEI, não havendo uma sala destinada apenas para essa função. 2.2 CENTRO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL PADRE LÍVIO DONATI O CMEI Padre Lívio Donati (Imagem 2) é localizado na cidade de Castro, no estado do Paraná. Segundo a Secretaria Municipal de Educação de Castro, o município possui treze unidades de Educação Infantil, e, em todas, há uma sala destinada somente à bebeteca. Imagem 2 - Bebeteca CMEI Padre Lívio Donati Fonte: Acervo da autora. O CMEI Padre Lívio Donati atende cerca de cento e vinte e oito crianças pequenas de quatro meses a três anos, que frequentam o ambiente educativo em período integral. Está localizado em um bairro onde há muitos comércios, como: padarias, supermercados, unidade de saúde, lojas, farmácias, oficinas, entre outros. 48

50 Nesses comércios, alguns pais das crianças pequenas que frequentam o CMEI exercem suas funções profissionais. Houve reformas e sua inauguração ocorreu no dia 24 de maio de 2016, porém algumas obras continuam sendo realizadas. Estão sendo construídas mais seis salas de aula, mas o desenrolar dos trabalhos com as crianças segue normalmente. O espaço físico do CMEI é amplo, sendo composto por uma sala de professores, uma cozinha, um refeitório, uma sala de bebeteca, banheiros, seis salas de aula, um parque externo e um pequeno espaço para brincar na parte interna, uma sala de orientação, uma secretaria e uma sala de direção e coordenação pedagógica. As turmas são subdivididas em Creche I, Creche II e Creche III. A Secretaria Municipal de Educação é responsável em realizar as matrículas das crianças, respeitando a data corte de trinta e um de março. Além disso, as famílias normalmente escolhem o CMEI mais próximo de seus domicílios. Na Proposta Curricular do Município, consta o projeto Bebeteca berço de futuros leitores (2007), o qual é apresentado, também, no Projeto Político Pedagógico de cada CMEI. Contudo, cada um atende as suas peculiaridades que cada espaço requer, mas seguindo os objetivos nele propostos. Na Bebeteca, quem atua é apenas uma professora, exclusiva para essa função, a qual trabalha quarenta horas semanais, atendendo a todas as crianças pequenas do CMEI. Sua formação é em Magistério e, está cursando o curso superior de Pedagogia. Sua trajetória profissional é de dois anos. Outro projeto realizado pelos professores da rede é o projeto Valorizando Trajetórias. Esse projeto foi desenvolvido por toda Rede Municipal de Ensino. Ele consiste na apresentação de todos os projetos pedagógicos desenvolvidos no decorrer do ano letivo. O professor que atua na bebeteca também participa desse projeto. No ano de 2016, o projeto completou 10 anos. No próximo capítulo, discutimos por que ler para as crianças pequenas. O referencial teórico está pautado em Eco (2003), Reyes (2010), Petit (2013b) e Barthes (2013). Trazemos, também, extratos das entrevistas, referentes ao posicionamento das professoras que atuam nas bebetecas analisadas com relação à: Para que serve este bem imaterial que é a literatura? (ECO, 2003, p. 10). 49

51 3 POR QUE LER PARA AS CRIANÇAS PEQUENAS? Alice estivera olhando por cima do ombro dela com certa curiosidade. Que relógio engraçado! observou. Marca o dia do mês, e não marca a hora! Por que deveria? resmungou o Chapeleiro. Por acaso o seu relógio marca o ano? Lewis Carroll (2009, p. 87). O conto de Alice encanta-nos pela ficcionalidade nele entranhada, com seus personagens insólitos, como o Chapeleiro, mas, principalmente, pelos cruzamentos hipertextuais que poderão ser percebidos pelas conforme elas vão se ambientando com o texto literário. Essa percepção das crianças pequenas amplia-se à medida que ela mantém uma relação fruitiva com o livro, e este passa a ser percebido não só como um brinquedo, mas também como um objeto estético, para sua apreciação. Isso já responde à pergunta: Para que ler para os pequenos? No entanto, essa resposta não basta. Vamos, assim, buscar outras respostas a esse questionamento. Então, por que ler para a criança pequena? Essa foi uma das perguntas direcionadas à pesquisadora em uma visita informal à Biblioteca Pública Municipal de Itapema, por um profissional que atua nesse ambiente de leitura. Muitas respostas vieram à tona trazemos, aqui, uma delas: Ler para que as crianças sejam mais felizes, mais humanas!. Essa resposta traz à baila a concepção de que, por meio da literatura, pode-se promover momentos de prazer, de alegria, de experiências gratia sui. Eco (2003, p. 9) define uma das funções da literatura como gratia sui, colocando a leitura na esfera do deleite, um texto fruitivo que, além de informar, sensibiliza e possibilita momentos estéticos. Para começar a discutir sobre as concepções, trazemos o questionamento de Eco (2003): Para que serve este bem imaterial que é a literatura?. Endereçamos esse MELNICK, 5 anos. 50

52 questionamento as duas professoras que trabalham nas bebetecas selecionadas para coleta de dados. Para a professora do CEI Darlan Dotto Wiersinski: A literatura é alimento que energiza a alma com prazer, envolve a imaginação fazendo-a percorrer viagens únicas onde o mesmo enredo apreciado por pessoas diferentes leva cada uma delas a criar suas cenas particulares baseadas em referências já experienciadas. A literatura são devaneios registrados e compartilhados que levam leitores e apreciadores a submergirem nas mais surpreendentes histórias e assim de lucro, além do prazer envolvente, leitores e escritores ampliam seus vocabulários, aguçam seus gostos, desenvolvem a criatividade, elevam seus intelectos, ampliam suas capacidades comunicativas entre outros benefícios. A professora do CMEI Padre Lívio Donati afirma: As obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação, pois podemos viajar nas histórias, em seu tempo ou em outros, sem mesmo termos saídos do seu lugar. A literatura é um instrumento de comunicação e de interação social, ela conduz o leitor a mundos imaginários. As professoras defendem as obras literárias como forma de comunicação, de imaginação, de interpretação livre e de possibilidade de viajarmos nas histórias. Além disso, uma delas propôs que a literatura permite momentos de devaneio. As considerações das professoras permitem refletir um pouco mais sobre o por que ler para as crianças pequenas. Eco (2003), como apontado anteriormente, define que uma das funções da literatura é ser gratia sui. Contudo, a literatura ao adentrar os ambientes escolares, ao ser vivenciada pelo público mirim, ao ser contada, pode ser estabelecida uma postura que diferencie de uma leitura de um texto funcional (que só tem o objetivo de informar). Ambas as professoras das bebetecas do CEI Darlan Dotto Wiersinski e do CMEI Padre Lívio Donati, em suas reflexões, enfatizaram as funções da literatura - elas destacaram a literatura para informar, ampliar vocabulário e ser instrumento para comunicação. Entendemos que a literatura vai muito além de informar; ela sensibiliza, ela toca o leitor. Entretanto, para que o texto se diferencie de um texto informativo, ele precisa de um ritmo ao ser lido. Nesse sentido, o mediador de leitura, quando lê um texto literário para a criança pequena, precisa utilizar um ritmo ao narrar, tentando expor o encantamento do texto. Reyes (2013, p. 24) destaca que [...] ler um manual de instruções para instalar um forno, não é o mesmo que ler um poema. Segundo a 51

53 autora, se a escola não conseguir ter a delicadeza de ler um poema, todos os textos serão tidos com a mesma postura, serão vistos com o mesmo olhar, e a criança pequena não conseguirá sentir as ressonâncias que o texto literário tem a oferecer. As professoras das bebetecas mencionaram a literatura como forma de possibilitar a liberdade de interpretação. Concordamos com elas pois entendemos que a obra literária leva muito mais além do que perguntas sobre o enredo do texto, [...] a literatura trabalha com toda a experiência vital (REYES, 2013, p. 22), que não pode ser medida e calculada, ela reflete na subjetividade do sujeito leitor. Trazemos Eco (2003) que discute sobre o [...] exercício de fidelidade e de respeito na liberdade de interpretação. Para o autor, a leitura é passível de muitas interpretações, permitindo ao leitor certa autonomia em entrar no contexto da obra, interpretar e refletir sobre ela, compreender, dando sentido e se permitindo sentir o que talvez nem mesmo o autor pudesse ter pensado no momento da sua criação. Eco propõe que o texto literário permite várias interpretações, mas, mesmo existindo esse convite à liberdade de interpretação, em que para cada geração as leituras das obras literárias são lidas de modo diversificado, é necessário estar movido pelo profundo respeito à obra. Eco (2003, p. 13) chama esse respeito de intenção do texto. No texto literário, há marcas que indicam o que não podemos colocar em dúvida e adotar como interpretação livre. Isso nos faz refletir sobre a mediação do literário realizada na Educação Infantil. Em se tratando da criança pequena, ao ouvirem as histórias, podem ser mobilizadas pelo mediador na intenção de tentar decifrar e entender o texto contado, por meio das conversas, desafiando os pequenos a expor seus sentimentos, sejam em suas falas (balbucios), em seus gestos, em seus olhares; enfim, podem despertar a sua imaginação. Desse modo, a criança pequena experimenta nas histórias a fantasia, por meio da troca de papéis - ora a criança pequena pode imitar um rei, um dragão, um lobo, um pássaro, uma princesa, saindo da realidade vivida. Sobre esse envolvimento, Petit (2013b, p. 179) destaca ser importante, pois [...] o imaginário não é algo com que se nasce. É algo que se elabora se desenvolve, se enriquece, se trabalha ao longo dos encontros. São nesses encontros, com a arte literária, que a criança pequena envolve seu corpo, brinca, sente e dialoga expressando o que sente. As experiências literárias ajudam a ampliar essa dinâmica, ler e ouvir as histórias e brincar com a imaginação. [...] ler não nos separa do mundo. Somos introduzidos nele de uma maneira diferente (PETIT, 2013a, p. 55), o que permite que a criança pequena 52

54 aprenda a olhar a realidade, agregando-lhe novos sentidos a fim de conhecer um pouco mais de si. Com o passar do tempo, com as experiências vivenciadas com um mediador de leitura, elas passam a entender e a perceber o mundo. Para defender essa aproximação dos livros já com a criança pequena, trazemos Reyes (2010). Para a autora, os primeiros livros são aqueles sem páginas, aqueles que [...] escrevem na pele, no ritmo do jogo, nos olhares, na voz [...] (REYES, 2010, p. 41). Quando o adulto escolhe uma história para ser lida, ele incentiva a criança pequena ao prazer de ouvir e torna familiar esse momento de afetividade entre criança pequena e adulto. Reyes (2012) intitula esse momento de triângulo amoroso 17 (adulto, criança e livro). Nesse sentido, refletimos sobre esse momento de leitura, por tratar-se de crianças pequenas, pois elas possuem algumas particularidades que precisam ser respeitadas, dentre elas está a dependência dos cuidados de alguém, que oportuniza a segurança e o aconchego. No momento da leitura, isso não ocorre de forma diferente, pois, se o pequeno se sentir inseguro, se ele [...] não se sente acolhido em uma leitura ou em uma contação de histórias, pode sentir-se incomodado com esse momento e começar a chorar; então, o que era para ser um momento de interação, torna-se um incômodo para o bebê (REIS, 2014, p. 34). Para que isso não aconteça, o contador de histórias, além de planejar a escolha do título do livro que irá contar, precisa estar atento às crianças pequenas durante o processo da história narrada, dando ênfase à presença amorosa, ao aconchego no ato de contar a história e ao interagir com os pequenos. Neitzel e Carvalho (2016, p. 152) afirmam que o contador de histórias é aquele que [...] pode mobilizar o leitor a entrar no universo literário. As autoras evidenciam a possibilidade de enredar o leitor. Em se tratando de crianças pequenas, concordamos com as pesquisadoras, pois são nas vivências de leitura que o contador de histórias se utiliza da presença do livro em conjunto à oralidade, ao ritmo das palavras, da musicalidade, dentre outros elementos para envolver a criança pequena, seduzindoas, afetando-as no sentido de desejarem estar com os livros. Entendemos que o livro literário precisa circular nas mãos da criança pequena desde os primeiros anos de vida, pois o livro é percebido como um brinquedo, que a criança pequena manuseia, gira, folheia, observa as cores e as imagens, empilha uns 17 No link a seguir, há uma entrevista com a autora Yolanda Reyes. Nela a autora fala sobre o Triângulo amoroso na primeira infância: <http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=237>. Acesso em: 30 fev

55 sobre os outros, formando torres. Ela deita sobre eles, mostra as imagens apontandoas, esconde os livros e os mostra. Enfim, são inúmeras as possibilidades de brincar que nos apontam que o livro é um objeto que pode ser manuseado pelos pequenos. O livro é um objeto a ser apreciado, mas também tocado, uma aproximação que é possível. Essa aproximação depende da mediação do adulto quando possibilita o encontro da criança pequena com o livro. Assim, mais uma triangulação de Reyes (2012) é apontada. Muitas são as obras literárias existentes no mercado, e um tipo de obra que está ganhando espaço e abarca o público infantil de 0 a 3 anos são os livros chamados livros-brinquedos. Estes se diferenciam dos tradicionais devido ao seu formato, à sua textura e à sua sonoridade. Para Silva e Chevbotar (2016, p. 71), esses livros, ao ultrapassarem as barreiras da leitura, [...] convidam à experimentação, à vivência sensória e emocional, exatamente como os bebês e crianças pequenas necessitam em seus primeiros anos de vida. São livros que vão além da leitura, eles permitem que as crianças pequenas experimentem outra sensação pelo toque, justamente pelo tipo de material que possibilita a criança morder, molhar, encaixar (quando são compostos por peças), dobrar, ouvir os sons - são inúmeras as formas possíveis de aproximar e envolver o pequeno no brincar. Entretanto, é importante salientar que esses livros-brinquedos não substituem os livros tradicionais e os momentos ricos de contação de histórias narradas em voz alta por um adulto, mas se completam ao serem ofertados ao público mirim. Defendemos que o livro esteja nas mãos das crianças pequenas como um brinquedo; que ele não seja percebido como algo sagrado, que não pode ser tocado. Um livrobrinquedo não é um livro mais fácil ou com menor conteúdo. Ele é um conceito que utilizamos para lembrar a importância de a criança pequena brincar com o livro para manter uma relação estética com ele desde pequena. O livro como um brinquedo, conforme abordamos, é um conceito não um objeto. Como conceito, ele sinaliza que qualquer livro pode estar nas mãos das crianças, assim como o brinquedo está para a experiência. Petit (2013b, p. 140) reflete sobre a [...] importância da familiaridade precoce com os livros, de sua presença física na casa, de sua manipulação. É fundamental o movimento de folheá-lo, antes de ter o livro como um objeto de leitura, para que as crianças se tornem, mais tarde, leitoras. Nessa intimidade com o livro, no contato 54

56 precoce com o objeto estético, nos encontros com a cultura literária é que se vai construindo uma relação fruitiva, estética e sensível entre o livro e a criança pequena. A mediação do adulto nas leituras narradas e nas conversas tecidas possibilita nutrila emocional e cognitivamente, inserindo-a nas experiências de leitura. À medida que essa familiaridade com os livros acontece, ela percebe que junto aos livros está a presença de um adulto, que é possível envolvê-lo nas folhas dos livros, no ato de contar histórias, vozes que são repetidas infinitas vezes que tocam e envolvem a criança pequena. Uma relação de afeto vai sendo tecida e surge, então, o conte mais uma vez. Entendemos que as histórias narradas quando articuladas com a presença do livro contribui para a formação do leitor, visto que, nas histórias oralmente contadas, em que há ausência do livro, a criança pequena não experimenta o movimento do ler, mas sim apenas o ouvir. Neitzel e Carvalho (2010, p. 175) afirmam que um dos princípios da leitura do literário é que o livro esteja sempre à mão, mesmo que o texto tenha sido memorizado, para que, assim, o leitor visualize a origem da fonte, para que ele observe o livro. Com a criança pequena essa prática não se diferencia, visto a importância de os pequenos já estarem envolvidos com os contos narrados com a presença física do livro, para que possam entender que as histórias estão organizadas em um espaço, ou seja, neste caso nas páginas do livro. O adulto tem a virtuosa capacidade de convidar a criança pequena para esse encontro com a literatura, não com a intenção de destacar do texto as principais ideias, mas para oportunizar o acesso a uma linguagem artística. São esses momentos que possuem função estética. Essas experiências, se bem conduzidas esteticamente, possibilitam a educação do sensível. Duarte Jr. (2010) discute que isso necessita ser iniciado com os pequenos, incentivando as maneiras de sentir e conhecer o mundo, naturezas distintas, mas que se complementam e são essenciais. Para Duarte Jr. (2010), o sensível diz respeito a como sentimos o mundo, e o conhecer diz respeito ao conhecimento inteligível, que é a forma pela qual pensamos o mundo. É importante evidenciar que esses saberes andam juntos e, quando vivenciados desde criança, possivelmente repercutirão em um adulto mais sensível, perante os sentimentos e as percepções da realidade vivida. São nas experiências que são possibilitadas à criança pequena, com o contato com um vasto acervo literário que, possivelmente, se pode despertar o encantamento pela leitura. Esse acesso cabe 55

57 ao mediador de leitura. Para tanto, Reyes (2013) reflete sobre o papel do mediador, o que ela denomina de tarefa, propondo que [...] o objetivo fundamental de um professor é o de acompanhar seus alunos nesta tarefa, criando, ao mesmo tempo, um clima de introspecção e condições de diálogo, para que, em torno de cada texto, possam ser tecidas as vozes, as experiências e as particularidades de cada criança de cada jovem de carne e osso, com seu nome e sua história. (REYES, 2013, p. 28). Esse envolvimento com a leitura dependerá da forma com a qual ela é ofertada à criança pequena pelo mediador. Essa oferta depende da concepção que temos do texto literário. Esses encontros com o livro são com vistas a conceber a literatura como arte, explorar sua função estética implica em oferecê-la para deleite, fruição, sem compromisso com estratégias que visem a exploração do texto, ou seja, como pretexto para ensino de determinados conteúdos. O manuseio dos livros e a contação de histórias são, por si só, atividades, conteúdos que ensinam pelo viés artístico, que possibilitam aos pequenos momentos de puro deleite em que a sensibilidade e o inteligível não estejam separados da aprendizagem. Daí também se dá a importância de eleger obras de qualidade literária. Nessa dinâmica, os encontros para leituras, com obras de qualidade, oportunizam a criança pequena sentir a leitura, afetá-la pelas obras e mobilizá-la a perceber que o ato de ler faz parte de sua vida. Mello (2016, p. 45) afirma que [...] o amor aos livros, a necessidade da leitura são produtos da experiência vivida, ou seja, são apreendidos e formados socialmente. Carvalho e Neitzel (2008) discutem essa mesma relação da literatura pelo viés da experiência estética, pelo contato com a obra de forma fruitiva. As autoras afirmam que [...] não podemos pensar em uma literatura focada somente no aprender, a literatura ensina pela via da fruição; o aprender se dá através da experiência e na literatura não se dá de forma diferente (CARVALHO; NEITZEL, 2008, p. 769). A arte requer apreciação e sensibilização estética. Nesse sentido, quando um adulto faz a leitura de um conto a criança pequena, ao mediar, ao provocar o desejo e a curiosidade de conhecer, ele oferece possibilidades de entradas no texto e circular por diferentes lugares e contextos ao mesmo tempo. O texto literário possibilita a criança pequena aprender no devaneio, permitindo a ele deixar levar pela imaginação. Barthes (2013) conceitua fruição diferentemente do prazer. Para ele, a fruição é um texto [...] que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor 56

58 (BARTHES, 2013, p. 20). Um texto que desafia o leitor, que questiona, faz o leitor pensar e sair de sua zona de conforto, impulsionando-o a novas leituras, permitindo abrir novos horizontes e conhecer saberes diversos. Weiss (2016) questiona: Como a fruição pode acontecer?. A autora evidencia o papel do mediador nas escolhas da obra a ser trabalhada nos momentos de leitura literária, enfatizando que essa escolha é decisiva para o processo da fruição. Entendemos que a escolha por obras para serem lidas para a criança pequena certamente é fundamental para potencializar a fruição, visto que os textos precisam ser textos provocativos que estimulem a atenção, a curiosidade e a participação da criança pequena. Aqui mais um triângulo amoroso de Reyes (2012) é sinalizado: a criança, o livro e o adulto. Barthes (2013) evidencia o texto de prazer como aquele que o leitor lê de forma confortável, tudo está impresso nas linhas escritas, não permitindo novas aberturas ao leitor, pois tudo está ali, do início ao fim da história, ou seja, o texto é legível, com início, meio e fim, estruturados de forma linear, com poucas ou nenhuma abertura para leituras intertextuais, por exemplo. Barthes (2013, p. 20) afirma que esse texto [...] contenta, enche, dá euforia. Por tratar-se de criança pequena, não defendemos somente esses textos, mas sim todos os tipos de textos, que sejam oportunizados aos pequenos. Contudo, entendemos que, da gama diversa de textos que permeiam o cotidiano da Educação Infantil, a literatura que apresenta o texto fruitivo pode ter espaço, ser ofertada como leitura que ultrapasse os momentos de puro prazer, que leve a criança pequena à reflexão sobre si e o outro. Nossas crianças pequenas estão imersas em um cotidiano embrutecido, em uma cultura em que o tempo e o ritmo de vida são direcionados pela pressa. São poucas as oportunidades em encontrar um espaço e um momento de refúgio de pausa para si. Nesse sentido, defendemos esses momentos que podem significar uma pausa no ritmo frenético de vida e das instituições. Não entendemos esse momento de pausa como passividade, somente de escuta, mas de ação de interação com a obra, com o leitor...enfim, parada para reflexão, conexão, buscas de sentidos. Os encontros com textos literários, além de informar, movimentam todo o corpo, as formas de ser, de sentir, de fazer...com o que a vida oferece, com o que temos de potencial... afeta o interior do leitor, o que permite ao leitor de conectar-se consigo mesmo. [...] a literatura deve ser lida - vale dizer: sentida (REYES, 2013, p. 26). 57

59 Pensando nesse ritmo de vida que nossas crianças pequenas estão imersas, Pennac (2008, p. 130) discute que a leitura nos torna um pouco mais humanos, pois ela pode levar a preocuparmo-nos com nossos pares e ser um pouco menos embrutecidos. Essa leitura que tende a emancipar parte do princípio da potência que todos temos, especialmente nessa relação educacional na qual estamos inseridos. Larrosa (2016) aponta as discussões do Mestre ignorante (RANCIÈRE, 2013) como importante ponto de reflexão acerca das relações educacionais que embrutecem ou que emancipam os sujeitos por meio do diálogo e da igualdade da inteligência, ou seja, [...] a partir da potência comum de ver, de sentir, de falar e de pensar (LARROSA, 2016, p.160) dos sujeitos envolvidos. Petit (2012, p. 93) afirma que, em situação de crise, a literatura tem um papel privilegiado, um modo decisivo, pois ela permite [...] dar forma aos lugares onde viver, a se lançar e a abrir caminho. Pennac (2008) e Petit (2012) afirmam que a literatura possibilita ao leitor tornar-se ainda mais sensível; ela toca o leitor em seu íntimo, possibilitando-o estar mais atento aos sujeitos iguais ou opostos, que vivenciam conosco o elo da humanidade. Para Reyes (2004): De ahí que la experiencia del texto literario y el encuentro con esos libros reveladores que no se leen sólo con los ojos o con la razón, sino con el corazón y el deseo, sean hoy más necesarios que nunca como alternativas para ir construyendo esas casas o palacios interiores. 18 (REYS, 2004, s/p). Nesse viés, por meio da literatura, além de ser apreciada e sentida, pelas suas ressonâncias, podemos aprender a compreender o que está em nossa volta, a olhar para si e para o outro com mais sensibilidade, percebermo-nos como parte de um grupo, sermos mais sensíveis e humanos. Retornando à pergunta inicial - Por que ler para as crianças pequenas? -, dentre tantas finalidades e possibilidades que o texto literário abriga em suas linhas, a literatura permite a criança pequena estabelecer relações fruitivas, estésicas com o livro. Além disso, o que não observamos nas reflexões das professoras das bebetecas e que consideramos ser muito importante é que a literatura permite uma conexão emocional com o adulto, de troca, de colo, de afeto, de olhar, de voz; que pode potencializar a sensibilidade para com a vida - itens valorosos da literatura. Enfim, 18 Daí a experiência do texto literário e o encontro com esses livros reveladores que não são lidos somente com os olhos ou com a razão, mas com o coração e o desejo, são hoje mais necessários do que nunca como alternativas a fim de construir essas casas ou palácios interiores (REYS, 2004, s/p, tradução nossa). 58

60 refletir sobre a formação do leitor mirim é defender encontros estéticos da criança pequena com o objeto livro - encontros que exploramos no capítulo a seguir. 59

61 4 ENCONTROS NA BEBETECA: CEI DARLAN DOTTO WIERSINSKI Oh, Alice sua tola!, respondeu a si mesma. como vai poder estudar as lições aqui? Ora, mal há lugar para você, que dirá para os livros! Lewis Carroll (2009, p. 46). Ao conhecermos o espaço educativo, a primeira pergunta que nos veio foi: Como este lugar tão pequeno conseguiu organizar uma bebeteca? O desafio, as conversas, as trocas entre os envolvidos certamente foram muitas. O CEI Darlan Dotto Wiersinski, sem sombra de dúvida, é um caso a ser analisado, pela maneira com a qual organizou a sua estrutura de forma adaptada. O conto de Alice faz-nos refletir sobre as possibilidades de um espaço onde [...] mal há lugar para você, que dirá para os livros! (CARROLL, 2009, p. 46). Assim, iniciamos nossa conversa, questionando como esse espaço de leitura adaptado desenvolve seus encontros literários. Inseridas no mesmo ambiente do refeitório, já, de início, perguntamo-nos: É possível promover encontros com os livros no mesmo espaço no qual outras funções ocorrem? Será que o livro nesse espaço ganha destaque? Será que a crianças pequenas se interessam pelas obras? É o que discutimos a seguir. 4.1 O ESPAÇO [...] poderiam me dizer, perguntou Alice, um pouco tímida, por que estão pintando essas rosas? Lewis Carroll (2009, p. 93). Como Alice, fazemos muitas perguntas tentando desvendar os mistérios do conto de Lewis Carroll. Nesta pesquisa, esse movimento de inquietações surge como um MELNICK, 5 anos. 60

62 desafio a ser superado a cada nova etapa. Ao conhecermos o novo, muitas perguntas vêm à tona. Assim, ao pensarmos sobre a organização do ambiente de leitura, fomos em busca de referências na intenção de desvendar sobre como esse espaço interfere nas vivências literárias das crianças pequenas. Reyes (2012), ao falar do ambiente da casa, afirma que [...] não é só o espaço físico, embora ele ajude. O principal é a disponibilidade: ser um corpo que canta (REYES, 2012, s/p). López (2009, p. 3-4) defende a mesma proposta: Claro que también es importante la presencia de espacios especialmente diseñados para eso, pero creo que es muy valioso también aprovechar los contextos cotidianos de los bebés y niños pequeños, convirtiéndolos en sitios de encuentro con los libros. 19 (LÓPEZ, 2009, p. 3-4). As autoras concordam sobre a importância do espaço da bebeteca, mas evidenciam que eles não são primordiais para os encontros cotidianos com o livro. Perrotti (2015, p. 136) compartilha da mesma ideia, defendendo que o espaço de leitura pode ser [...] um canto ou uma pequena sala de leitura, seja uma biblioteca ampla, com diferentes e variados ambientes e recursos, há que se considerar, sempre, a qualidade estética do lugar. Sinalizamos que o espaço da bebeteca pode configurar-se em uma sala (apenas para finalidade bebeteca), um canto com livros ou um cesto com livros. Contudo, evidenciamos que, além do espaço físico, é importante ser um espaço que tire os livros do armário, um ambiente de aprendizagem que acolha, que os objetos estejam dispostos no intuito de levar a criança pequena à autonomia, tanto ao pegar o livro (segurar em sua mão), quanto na escolha dos livros (fazendo a sua própria seleção). Que seja um ambiente planejado, onde a criança pequena possa construir seus significados pela experiência vivida com os livros. É fundamental, portanto, que a bebeteca tenha um projeto que oriente as ações do mediador, tanto na organização do ambiente quanto nas mediações, as quais possibilitem, nas mais diversas formas, a criança pequena experimentar os livros. No espaço da bebeteca do CEI Darlan Dotto Wiersinski, a professora organiza, em seus encontros, momentos que são produtivos e geradores de grandes experiências. Por meio destas, é possível aferir a minimização da perda de um espaço apropriado, pois há certa fragilidade, com relação, por exemplo, às interferências 19 Claro que também é importante a presença de espaços especialmente concebidos para isso, mas acredito que é muito valioso, também, aproveitar os contextos cotidianos dos bebês e das crianças pequenas, convertê-los em locais de encontro com os livros (LÓPEZ, 2009, p. 3-4, tradução nossa). 61

63 acústicas (ruídos). Schafer (1991) fez um estudo referente aos sons agradáveis e desagradáveis. Para o autor, o [...] ruído é o som indesejável (SCHAFER, 1991, p. 68), pois este interfere no que estamos ouvindo, ou seja, no que queremos ouvir. Salientamos que, como as mediações que a professora opera são muito interativas e adequadas, apesar dos ruídos presentes no ambiente, o contato com o livro dá-se e a relação que a criança pequena estabelece com o livro é fruitiva e educa esteticamente. O CEI apresenta, na bebeteca, um pequeno espaço que abarca tantas outras funções que envolvem as rotinas vivenciadas na creche, como o lanche. Nesse espaço, muitas são as oportunidades possibilitadas às crianças pequenas para terem encontros estéticos com o livro literário. Nessas vivências, são envolvidos: a criança pequena, o docente e a família. Ao organizar uma bebeteca, é indispensável discutir sobre o seu projeto, visto ser este um planejamento que precisa ser pensado, sendo o espaço um dos elementos que aparecem no projeto analisado. Nessa perspectiva, entendemos que esse espaço não visa ser apenas aquele para guarda de livros, mas sim para encontros da criança pequena com o livro. Alguns detalhes, portanto, são pensados no intuito de compor um ambiente aconchegante e atrativo, com a intenção de ser um ambiente que oportunize experiências contemplativas, apreciativas e fruitivas. No projeto da bebeteca, destacamos um dos seus objetivos no que diz respeito a esse espaço de leitura: Tão importante quanto garantir que as crianças tenham acesso a bons livros desde bem pequenas, é organizar ambientes convidativos, aconchegantes e singulares para que elas possam usufruir das histórias em situações prazerosas de interação com os colegas, professores e famílias. A iniciativa de construir uma biblioteca itinerante bem como um espaço para as crianças fazerem leituras bem como a retirada pelo pais destes livros para levarem para casa, constitui-se uma excelente oportunidade para fomentar o contato das crianças com os livros, criar lugares mágicos, cheios de identidade, e realizar rodas de leituras. Projeto do CEI Darlan Dotto Wiersinski- Bebê também lê (2015, p. 1). 62

64 Um espaço convidativo, em que as crianças pequenas estejam envolvidas com os livros, os colegas, os professores e os familiares, é o pilar principal que poderia destacar do objetivo dessa bebeteca. As escolhas foram pensadas no intuito de melhor oportunizar o contato com as obras, atendendo às necessidades das crianças pequenas que requerem cuidados e atenção. São muitos os questionamentos que surgem quando se pensa em um espaço adequado para a criança pequena, que vão desde os móveis, à iluminação, à acústica, à temperatura e às cores. Todos eles são subsídios que complementam o espaço em conjunto à disposição dos objetos, com a finalidade de, nesse espaço de leitura, acontecerem encontros estéticos, pois é nesse espaço organizado pelo curador que se propõe potencializar o encontro da criança pequena com o livro. O espaço adaptado, dentro do refeitório, que configura a bebeteca, possui cento e vinte livros expostos na parede em caixas (Imagem 3). A exposição desses livros dá-se em um encostado no outro, com as capas escondidas, aparecendo apenas a lombada do livro. O ideal seria que os livros estivessem com as capas voltadas para a criança pequena, assim elas poderiam famililiarizar-se com os livros e poderiam melhor fazer suas opções. Imagem 3 Livros expostos na bebetecas Fonte: Acervo da autora. Essas caixas estão fixadas na parede, algumas estão no mesmo nível de visão das crianças, porém há algumas que não. Há, também, um carrinho (biblioteca 63

65 intinerante), com rodas para transportar os livros pelas salas ou por outro espaço (Imagem 4). É um espaço esteticamente organizado, simples, mas convidativo à exploração das crianças. Imagem 4 - Biblioteca intinerante Fonte: Acervo da autora. Há uma curadoria educativa que evidencia a possibilidade de levar às crianças a autonomia e a experimentação. Martins (2012b) afirma que os professores também podem ser curadores quando [...] ativam culturalmente as obras (MARTINS, 2012b, p. 63). A autora pontua o papel de curadoria exercido pelos professores. Martins aqui se refere à curadoria de uma exposição, mas a lógica do argumento pode ser também usada para a organização dos espaços. Um espaço que não venha apenas receber as crianças pequenas, mas ser um ambiente de aprendizagem que venha nutrir esteticamente os envolvidos. Essa postura de quem organiza o espaço tende a ser vista como um espaço para guarda de livros, mas não somente isso, ser também um espaço de encontros, de diálogos, de movimentos, de afetamentos e de trocas. No projeto Bebê também lê, dois objetivos iniciais foram propostos para a organização desse ambiente de leitura, no qual todos os docentes do CEI, o PIBID e algumas famílias organizaram a bebeteca. Compreendemos que muitos são os benefícios de ter-se um espaço apropriado, visto que ele permite o convite às crianças a se envolverem no ambiente e a possibilidade de as crianças aprenderem ainda mais. Apesar de ser um espaço pequeno, podemos inferir o interesse dos envolvidos na 64

66 organização, na disponibilização dos objetos, no intuito de possibilitar a aproximação da criança com os livros e para que esse espaço não seja apenas um ambiente organizado para expor os livros. As ações propostas no projeto que foram desenvolvidas pelos docentes e pelas famílias do CEI são: O grupo da escola organizará um lugar onde os livros ficarão expostos e acessíveis às crianças. Faremos um carrinho utilizando caixotes de madeiras com rodinhas, uma vez que poderão ser transportados de um lugar para outro. Projeto do CEI Darlan Dotto Wiersinsk - Bebê também lê (ITAJAÍ, 2015, p. 1). Construiremos um tapete com as crianças. O objetivo principal é fazer com que o tapete tenha "a identidade" delas, uma vez que servirá como um indicador dos momentos de leitura, iniciando assim um ritual próprio da turma. Projeto do CEI Darlan Dotto Wiersinsk Bebê também lê (ITAJAÍ, 2015, p. 1). O projeto Bebê também lê (ITAJAÍ, 2015) traçou algumas ações para envolver a família, uma delas foi a confecção de um tapete pelos pais e pelas crianças para ser usado em contação de histórias. Na escola, cada família recebeu um pedaço de tecido para desenhar junto ao seu filho. Essa ação que envolve trazer os pais para o ambiente escolar permitiu discutir sobre o espaço de leitura, sobre a importância do envolvimento dos pais em levar os filhos na bebeteca, sobre escolher um livro para ser levado para casa e sobre como as famílias também podem aproximar o livro da criança pequena. Como expemplo dessa experiência envolvendo a aproximação das famílias nas ações desenvolvidas no CEI Darlan Dotto Wiersinski, trazemos o trabalho de pesquisa de Reis (2014) intitulado: Literatura para os pequenos: experiências de San Miniato. A autora relata que a rede de San Miniato (Itália) propõe que [...] projetos envolvendo a leitura de textos literários terão um êxito ainda mais satisfatório se as famílias forem envolvidas, porque é evidente que não basta apenas o contato físico com o livro (REIS, 2014, p. 47). Essas ações possibilitam tanto ao CEI quanto à família compartilhar informações sobre as experiências com o livro vividas pela criança, bem como aproximam as famílias do ambiente educativo. Para tanto, San Miniato 65

67 desenvolve ações de empréstimo de livros, mas evidencia a importância de um trabalho com a família para que esta [...] reconheça o real significado desta ação (REIS, 2014, p. 47). Compreendemos que transmitir o conhecimento às famílias sobre a mediação do literário realizada no espaço educativo e a possibilidade de as famílias também serem mediadoras de leituras são requisitos que potencializam a aproximação da criança com o livro. Nesse sentido, Casanova e Ferreira (2015) afirmam ser [...] imprescindível registrar a responsabilidade da creche em revelar às famílias suas ações fundamentadas em conhecimentos. Tanto professores quanto familiares podem e precisam conhecer o porquê, como e para que as atividades existem dentro da creche e qual é o seu verdadeiro papel. (CASANOVA; FERREIRA, 2015, p. 89). Constatamos que o CEI Darlan Dotto Wiersinski desenvolveu ações que fortalecem a aproximação e a interação das famílias na bebeteca (Imagem 5). Imagem 5 - Encontro de pais no CEI Darlan Dotto Wiersinsck Fonte: Acervo do CEI Darlan Dotto Wiersinski. 66

68 No primeiro encontro entre pais, docentes e PIBID, foi possível revelar às famílias o espaço que estava sendo organizado e quais seriam as ações realizadas na bebeteca. A pintura do tapete e a discussão sobre a bebeteca evidenciam-nos que essas ações permitem às famílias conhecerem o motivo pelo qual o espaço está sendo organizado e sua finalidade. Em se tratando da finalidade desse espaço, Kupiec, Neitzel e Carvalho (2016, p. 25) propõem que a [...] experiência vivida dá-se no trânsito dos espaços e as relações pessoais são marcadas por essa transitoriedade. As autoras comentam sobre a possibilidade de possibilitar ao sujeito espaços que estimulem o contato com a arte, no intuito de estabelecer relações entre os sujeitos e o mundo em seu etorno. Concordamos com as autoras, visto que o movimento de encontro com o livro de literatura, no espaço da bebeteca desenvolvido no CEI, estimula o contato com a arte e permite que as crianças pequenas e seus familiares sejam tocados pela experiência vivida, desde que essa experiência possibilite o deslocamento, seja entre os espaços, entre as artes, entre as pessoas envolvidas nesse movimento. Enfim, as relações estabelecidas no espaço da bebeteca, nas ações de mediação do literário, que, aqui, também chamamos de encontro, tendem a provocar um movimento efêmero que corrobora com a compreensão de si e do outro. 4.2 O ACERVO [...] um gato pode olhar para um rei, disse Alice. Li isso em algum livro, mas não me lembro qual. Lewis Carroll (2009, p. 101). O livro no conto de Lewis Carroll é apresentado pela personagem Alice como fonte de outras histórias. Um gato pode olhar para um rei - revela o livro como poderosa ferramenta de interlocução com outras obras. A ideia de um livro dentro de outro livro mostra-se aqui, pois As aventuras de Alice no país das maravilhas apresenta características de uma literatura hipertextual, segundo o conceito apresentado por Martins e Neitzel (2016). Essa declaração de Alice coloca o livro em relevo e, assim, acontece no espaço da bebeteca - o livro ocupa espaço prioritário, sendo ele um objeto que ganha força pela própria mediação, por ser um objeto propositor. Para Martins (2012a, p. 26), [...] a obra, assim, é sua própria mediadora. Nesse sentido, o livro sendo um objeto propositor, estando nas mãos das crianças 67

69 pequenas, propõe a mediação, isto é, ele próprio medeia. Borba (2016, p. 48) afirma que, para o objeto propositor: Não há necessariamente a necessidade da presença física de um sujeito mediador, pois a relação entre obra e fruidor se constrói pelo afetamento que ocorre entre um e outro, e este com ou sem a presença do mediador. Em se tratando de crianças pequenas, a presença física do mediador no espaço é fundamental, uma vez que são pequenos e precisam de cuidados e atenção, do olhar do mediador. Contudo, é importante pontuarmos que a mediação entre criança pequena e livro pode ocorrer mesmo sem a interferência direta por parte do mediador, pois, como já afirmamos, o livro próprio medeia. No CEI Darlan Dotto Wiersinski, constatamos a real possibilidade de mediação com o manuseio livre dos livros pelas crianças pequenas. Nessa ação, os livros são manipulados, mordidos e sentidos com os cincos sentidos. São nas experiências com o livro que a criança pequena irá desenvolver saberes sobre o livro, podendo ele ser apreciado, tocado, ao invés de ser rasgado. Duarte Jr. (2010, p. 101) afirma que o toque com [...] as mãos parecem ser a extensão natural de nossos olhos, é com o toque que compreendemos o conhecimento inicial dos nossos olhos. O autor afirma que [...] o tato se compraz com a descoberta de formas e texturas, num complemento da visão, estabelecendo, de certo modo, uma relação amorosa com o objeto (DUARTE JR., 2010, p. 101, grifo do autor). Para que essa relação aconteça, o acesso às obras é fundamental para que as crianças pequenas as toquem, brinquem com elas, as sintam e as experienciem. O livro, dessa forma, é objeto propositor que faz a própria mediação na roda de leitura, sendo um momento que a criança pequena está livre para tocar o livro, trocar os livros com seus pares, imitar o professor e estabelecer uma relação com ele. Tendo em vista que o livro também medeia, é importante que a bebeteca seja composta por vários gêneros textuais. A bebeteca do CEI abarca vários gêneros textuais, entre eles: contos clássicos, mitos, fábulas, contos modernos, parlendas, advinhas, músicas. Os materiais dos livros caracterizam-se por: livros de pano, plásticos, papel cartonado, papel mais fino, EVA, entre outras texturas. O aspecto das obras estão com aparência de bem manuseados, pois muitos apresentam fitas adesivas. As obras são adquiridas pelos recursos do próprio CEI, principalmente os livros de pano e plástico, mas 68

70 recebem livros da Secretaria de Educação, do Programa Nacional de Bibliotecas na Escola (PNBE) 20, bem como do Programa do Banco Itaú 21 (Eu leio para uma criança). Muitos dos livros disponíveis na bebeteca são os livros-brinquedo, livros que possuem características que possibilitam a criança pequena explorá-los das mais variadas formas, permitindo intimidade entre a criança pequena e o livro. Silva e Chevbotar (2016, p. 72) afimam que esse tipo de livro convoca [...] os pequeninos a momentos de prazer, descoberta e aproximação. São um convite para pulsões, afetos, sentimentos e prazer sensorial dos pequenos. No entanto, é importante sinalizarmos que muitos livros-brinquedo esquecem que sua função se completa por meio da palavra ou da imagem e que um bom livro, que tem qualidade estética, é aquele que, além do seu layout atrativo e de material adequado, possui conteúdo que permita muitas provocações e produções de sentido a partir de sua leitura. Martins e Neitzel (2016) convidam-nos a ampliar essa discussão sobre a escolha das obras. Segundo as autoras, o livro é um objeto estético, é arte, e sua finalidade, que é a apreciação, já define sua característica estética: ele provoca sensações, os sentidos, e sua função pedagógica (que pode ser o ensino) se realiza pelo viés estético e artístico, desprovido de finalidade prática. Nessa lógica, um dos critérios na escolha do livro seria as possibilidades de abertura da obra, de ampliação de sentidos, mesmo quando o público são crianças pequenas. Uma boa história deve produzir efeitos mais impactantes na formação das crianças do que uma história previsível, que subestima a capacidade da criança. Com o tempo e mais idade, as crianças poderão perceber os hipertextos, entre outras funções possíveis que permeiam uma obra com características hipertextuais. Entendemos que a escolha possa partir dos textos que aguçam a curiosidade e o desejo de ouvir; textos que provoquem as crianças pequenas, que as levem a experimentar sensações diversas, não só pelo ouvir, mas com o corpo, pois as crianças pequenas ao experimentar nas ações com os livros entram em contato com o mundo simbólico, que favorece a apropriação de novos conhecimentos. Nesse sentido, a escolha dos títulos, a familiarização do mediador com as obras e o entendimento de que a literatura é arte, e que ela tem uma potência estética, como sinalizam Uriarte, Neitzel e Carvalho (2016, p. 187), são elementos fundamentais para 21 Para conhecer o Programa, acesse: <https://www.itau.com.br/crianca/pratique/>. Acesso em: 10 jan

71 quem organiza o espaço, seleciona os livros, bem como para quem atua na mediação de leitura. Weiss (2016, p. 64) afirma que o [...] livro pode ser uma porta a mais que se abre em busca da experiência estética, e das significações de vida. Porém a escolha deles pode ser atentamente acompanhada, mediada, sendo este o papel do professor, do bibliotecário, da família. Compreender que o livro de literatura é um objeto estético é possibilitar a entrada das crianças pequenas ao encontro com a obra. Um encontro que pode possibilitar o envolvimento pela curiosidade, pelo imaginar e fantasiar, descobrir prazer nas histórias e nos encontros, entre outros sentimentos e sensações possíveis de uma experiência estética. 4.3 A CRIANÇA PEQUENA E O LIVRO Conte-nos uma história!, disse a Lebre de Março. Conte por favor!, implorou Alice. E trate de ser rápido, acrescentou o Chapeleiro. Lewis Carroll (2009, p. 87). O conto de Lewis Carroll surge como um convite à contação de uma história. As personagens evidenciam o desejo por ouvi-la. Assim acontece com as crianças quando a história é bem contada. Uma história provocativa incentiva a aproximação com o livro. O encontro literário na bebeteca acontece com frequência - duas vezes por semana as agentes recebem as crianças nesse espaço quando chegam ao CEI no início da manhã. Além desses encontros com as agentes, as professoras regentes fazem as mediações de leituras em outros momentos da rotina. No planejamento da professora regente, a qual escolhemos para observar as mediações de leitura, consta ação de leitura a ser desenvolvida no espaço da bebeteca, como uma ação de rotina. Essa ação pode acontecer com o momento do conto, cuja história pode ser escolhida pela professora bem como pelas crianças, seguido do momento livre de experimentação das obras (Imagem 6). 70

72 Imagem 6 - Mediação do literário Fonte: Acervo da autora. Na hora do conto, as crianças são convidadas a ouvirem a história que, por vezes, é escolhida pela professora como também pelos próprias crianças, que, por conhecerem alguns títulos, dão suas sugestões. Ao contar a história, a professora oportuniza momentos de diálogo sobre a história lida, pois, no momento da história, é permitida a participação das crianças - elas fazem gestos, imitam as personagens, bem como conversam sobre a história a ser contada. A professora dialoga sobre o enredo e convida os leitores mirins para manusearem as obras em um processo de nutrição estética. Picosque e Martins (2012, p. 36) afirmam que a nutrição estética significa ela ser [...] ofertada para ser saboreada como um delicioso almoço que fazemos a alguém. Para as autoras, o importante é levar os aprendizes a saberperceber pela experiência do olhar, do ouvir, do tocar. Entretanto, para isso, podemos mostrar o objeto sem pressa, para que o [...] corpo possa coletar as impressões e ser levado a estesia, pelo saber sensível. A bebeteca ideal é aquela que permite um ambiente que perpassa as vozes da leitura. Um espaço em que a criança pequena possa se expressar, interagir e se 71

73 relacionar com o livro literário, sendo este um movimento que possibilita o desejo pela aproximação com a obra. Esse espaço de leitura indicou-nos que a mediação provocada pela professora ao envolver os pequenos na história desafia-os a entrar e sair da história, abrindo espaço para as falas das crianças. A contação empregada pela professora oportuniza que ela faça questionamentos dirigidos aos pequenos. Esse espaço para o diálogo convida as crianças a serem também contadores. Duarte Jr. (2010, p. 22) discute que é por meio da arte que o ser humano representa mais de perto o seu encontro primeiro com o mundo. Assim, defendemos a importância de a criança pequena ter encontros com a arte, em especial com o objeto livro, desde pequenas, no intuito de possibilitar sentir e perceber o mundo. Uriarte, Neitzel e Carvalho (2016, p. 191) afirmam que a [...] educação estética tem como elemento fundante o sensível a estesia. Nesse sentido, entendemos que a estética não está restrita a espaços como os museus, por exemplo. As vivências que envolvem o ato de um adulto ler, seja uma leitura para si ou uma leitura narrada, possibilitam a criança observar, sentir e conhecer as funções do livro. É nesse vivenciar o livro de forma apreciativa que a criança pequena tem experiências estésicas que são produtoras de sentidos, e a produção do eu é nutrida pela experiência no mundo vivido (DUARTE JR., 2010). Durante a contação da história, as crianças escolhem seus lugares, umas deitadas outras sentadas. Confortavelmente, elas encontram o melhor jeito de aconchegarem-se no espaço, para assim poderem ouvir. A cada folha sendo contada muitas falas vão surgindo, os pequenos demonstram gostar de ouvir, bem como têm afinidade com o enredo da história. A professora medeia a participação das crianças nas histórias, dando voz aos pequenos, bem como deixando-os se posicionar perante o texto. São nesses diálogos que percebemos as intertextualidades presentes nas conexões das histórias estabelecidas pelas crianças. Durante a contação da história do livro do Urso verde pequenos gigantes, as crianças fizeram conexões com a história dos três porquinhos, apresentando o lobo mal, bem como com outras histórias que permitem experiências vividas (Imagem 7). Duarte Jr. (2010) constitui como saber sensível a aprendizagem que ocorre pelo mundo vivido por meio da sensibilidade e da percepção. 72

74 Imagem 7 - Experiências com o livro Fonte: Acervo da autora. Uma história quando bem contada seduz a criança pequena, permitindo-a que participe desse momento, retornando a lembranças já ouvidas e vividas. Reyes (2013, p. 28) propõe que a função do professor de literatura é ser uma voz que conta, uma voz que evidencia as essências das linhas do texto, traçando nelas os caminhos entre o texto e o leitor. Para a autora, a função do professor é ler, e, nessas leituras, envolver-se com conversas que são tecidas entre as vozes das crianças e da professora durante as linhas lidas. A autora impulsiona-nos a pensar que [...] é urgente, sobretudo, aprender a conversar (REYES, 2013, p. 29). É visível os momentos ricos e privilegiados de conversação e de vivências entre os que ali vivem. Durante a contação, algumas crianças dispersam-se, se movimentam, levantando do espaço sem dar tanta atenção à história contada. Contudo, a professora segue contando a história sem criar situação de aprisionamento para a criança pequena. Garanhani e Nadolny (2014, p. 66) afirmam que o [...] movimento é um recurso utilizado pela criança, para o seu conhecimento e do meio em que se insere, para expressar seu pensamento e também experimentar relações com pessoas e objetos. Entendemos que são nessas situações em que a professora respeita a entrada e a saída das crianças pequenas que ela possibilita o aprender pelo brincar, pelo 73

75 movimentar, estabelecer outras relações, agregando novos significados a realidade da criança pequena pela fantasia vivenciada nas histórias. Na contação, algumas crianças saem, movimentam-se, experimentam, brincam, mas logo retornam para ouvi-la. O momento da contação de história é uma experiência empregada na mediação do literário. Pela experiência com o texto por meio do contador, possibilitase à criança pequena tecer relações com outras histórias, com os colegas, com o livro, com a vida, o que a nutre esteticamente e a educa a apreciá-la (Imagem 8). Um contador de histórias, para Neitzel e Carvalho (2016, p. 155), [...] é este sujeito que tocado pela literatura não se cala, sai a cantar e contar o que lê, porque acredita nisso. Imagem 8 - Diálogo durantes as histórias - A minha casa é marrom e é de madeira! -Tem lobo lá? - A minha casa é amalelo! - A minha casa é azul! Fonte: Acervo da autora. Evidenciamos que as falas de Neitzel e Carvalho ecoam no CEI, pois a professora desenvolve momentos de contação possibilitando que a criança pequena estabeleça uma relação de intimidade com os livros. Esses momentos de contação dão-se em vários espaços do CEI Darlan Dotto Wiersinski e em vários tempos, 74

76 inclusive durante o lanche. A professora senta para conversar com os pequenos e questiona sobre o que querem ler. Durante a observação, constatamos a participação das crianças na escolha das histórias, voltadas a alguns personagens já conhecidos por elas, bem como por títulos já lidos pela professora. Para Machado, M. Z. V. (2012, p. 19), os leitores mirins gostam muito de ouvir as mesmas histórias por diversas vezes, pois a história, para a autora, não é só a história, mas sim o momento de encontro comum ou compartilhado com alguém. Os pequenos demonstram já conhecer o enredo das histórias, o que comprova que a professora mantém uma rotina de contação. Outra forma de contato com a obra é a roda de leitura, uma oportunidade de as crianças pequenas vivenciarem experiências estésicas com o livro de literatura. É deixá-las explorarem os livros livremente, brincando, manuseando-os. Reis (2014) afirma: O manuseio do livro pelas crianças, que deve ser uma atividade cotidiana, é uma motivação à leitura, principalmente quando a criança vê e ouve um adulto ler uma história de um livro para ela, ou simplesmente quando a criança vê um adulto lendo silenciosamente um livro. (REIS, 2014, p. 34). O mediador é que dará espaço ao contato com o livro, para que as crianças pequenas possam sentir, interagir e aprender. Ao privilegiar a autonomia dos pequenos, por meio de ações propositoras de encontro contínuo com o livro, as crianças pequenas poderão se sentir à vontade para manipulá-los, conversarem sobre as histórias (uma conversa que pode ir além das páginas) e estarem mais próximas do livro. A ação propositora do professor mediador é vista [...] não como ponte entre quem sabe e quem não sabe, entre a obra e o espectador, mas como um estar entre (MARTINS, 2012b, p. 62, grifo da autora). Entendemos que esse estar entre demanda de muita observação e escuta do mediador para que ele consiga traçar ações que levem a criança pequena à apreciação estética. Reyes (2010, p. 47) afirma que, para que a criança pequena [...] possa entreter-se lendo sozinha, foi necessário que uma figura íntima lhe revelasse, não uma, e sim muitas vezes, o truque mágico de como olhar e interpretar os objetos planos e estáticos pinçados entre as páginas. Essa ação demanda do mediador, dessa figura íntima, que posssibilite à criança pequena, em suas ações contínuas, descobrir o prazer impresso nas páginas dos livros. O interesse da criança pequena em querer manusear, folhear, apreciar e brincar com o livro aponta que no CEI as crianças ouvem histórias e têm o livro como objeto presente em sua rotina. 75

77 4.4 A CRIANÇA PEQUENA, O LIVRO E A FAMÍLIA Alice! Recebe este conto de fadas E guarda-o, com mão delicada, Como a um sonho de primavera Que à teia da memória se entretece, Como a guirlanda de flores murchas que A cabeça dos peregrinos guarnece. Lewis Carroll (2009, p. 11). Alice recebe um conto de fadas, um sonho de primavera. São imagens dos livros que ficam na memória, são vividas na infância e podem ser relembradas na fase adulta. Uma lembrança de um momento feliz, de profundo contentamento. Assim como a pesquisadora que, em meio a muitas vivências da infância, relembra esse conto, As aventuras de Alice no país das maravilhas - um livro como objeto propositor, que promove um encontro feliz entre pesquisadora, livro e figura materna. A bebeteca como um espaço cultural abre portas às famílias para o encontro com a criança pequena e o livro. A criação de oportunidades, propostas pelo CEI, ao envolver os pais durante as sextas-feiras, quando as famílias junto aos seus filhos escolhem um ou mais livros para serem levados para casa (Imagem 9), geram desejos dos envolvidos a querer participar. Imagem 9 Crianças do CEI escolhendo seus livros Fonte: Acervo da autora. 76

78 Casanova e Ferreira ( 2011, p. 61), em uma pesquisa intitulada Famílias de crianças e escola: relações em foco, afirmam [...] que todos os estudos que tratam da relação família-creche carregam consigo a validade desta relação como indispensável para o desenvolvimento tanto da escola quanto das famílias, mas principalmente das crianças. Constatamos que essa ação, ao envolver a família e o CEI no intuito de compartilhar experiências com o empréstimo dos livros, reflete positivamente nas crianças pequenas, visto que foi possível ver a alegria dos pequenos ao escolher as obras e levá-las. As crianças pequenas sozinhas posicionavam suas mochilas no canto da parede e dirigiam-se rapidamente à bebeteca. Nela, pais e filhos estavam familiarizados com as obras, fizeram suas escolhas e conversavam sobre os títulos já levados para casa. Essa mediação proposta com a criança pequena ao escolher os livros (Imagem 10) incentiva a autonomia. Imagem 10 - Leitura livre Fonte: Acervo da autora. Mejiá (2010) afirma que [...] os espacios significativos deben interpretarse no sólo como los lugares físicos sino además como aquellas situaciones construidas por un agente educativo para propiciar experiencias potencialmente educativas. Podrían 77

79 tomarse como sinónimo de ambiente de aprendizaje estructurado, generador de experiencias. 22 (MEJIÁ, 2010, p. 875). É nessa perspectiva que entendemos ser um ambiente de aprendizagem, um ambiente que privilegie a autonomia das crianças pequenas para que elas possam se movimentar e aprender por si mesmas, estabelecendo relações com outras crianças, com adultos e com objetos, nesse caso o livro. Que esse espaço seja um ambiente que ofereça experiências significativas para as crianças pequenas, para que ele possa ser lembrado como um espaço feliz vivido entre os livros, e que os pequenos tenham vontade de retornar e poder vivenciar novas experiências. Mejiá (2010) afirma que o espaço é muito mais que um simples lugar físico, ele é mediador. Assim, é fundamental a escolha de sua organização para que ele permita que as ações de leitura e de manuseio dos livros aconteçam de forma natural, de maneira que as crianças pequenas consigam explorar o ambiente de forma autônoma. Este conjunto de condições favoráveis para a leitura necessita ser prioridade nas Instituições de Educação Infantil: o espaço para a bebeteca, um mediador leitor que faça mediações adequadas que estimulem os sentidos e os livros de qualidade, sendo eles os objetos propositores. Esse conjunto forma a tríade que envolve a criança na experiência literária, que contribuirá para a educação dos sentidos e a memória leitora das crianças pequenas. A professora do CEI Darlan Dotto Wiersinski relatou que as crianças costumam escolher as mesmas obras para serem levadas para casa. Esse relato provoca-nos a pensar sobre a releitura e a relação de intimidade que essa ação de escolher as mesmas obras podem promover entre os leitores mirins envoltos em projetos de leitura como estes em debate, por exemplo. Pennac (2008, p. 137) corrobora com essa reflexão quando propõe que [...] relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr a prova a intimidade. Reyes (2010), em sua pesquisa, aponta que as crianças têm preferências e as sinalizam de diferentes formas. Um fato curioso que a autora apresenta são os livros preferidos das crianças: os mais mordidos. Desse modo, quando pequenas, elas já sinalizam suas preferências. 22 Os espaços significativos devem ser interpretados não só como lugares físicos, mas também como situações construídas por um agente educacional para promover experiências potencialmente educativas. Eles poderiam ser tomados como sinônimo de ambiente de aprendizagem estruturado, gerador de experiências (MEJIÁ, 2010, p. 875, tradução nossa). 78

80 Esse movimento proposto pelo CEI possibilita, por meio da mediação empregada, a autonomia das crianças pequenas. As Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil (BRASIL, 2010, p. 26) propõem que se [...] possibilitem situações de aprendizagem mediadas para a elaboração da autonomia das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar. A intencionalidade do trabalho com a mediação do literário exercido ao propor a liberdade da criança pequena escolher as obras pode ser vista como uma nutrição infantil, oferecendo a criança pequena a possibilidade de fazer seus primeiros ensaios ao selecionar os livros. Essa nutrição e essa vivência contínua potencializam o desenvolvimento de sua autonomia. Os mediadores de leitura precisam estar abertos para dialogar e observar, atentos ao que os pequenos têm a dizer, respeitando, sobretudo, a escolha da criança pequena pelo livro. Ao mediar a intenção não é discursar, ou seja, explicar as crianças pequenas quais são os melhores livros, mas envolver e seduzir os pequenos em leituras encantando-os. Nessa dinâmica, o mediador lê com paixão e gosto e daí contamina os envolvidos, para que, assim, as crianças pequenas também queiram ler o livro. Essa obra torna-se, portanto, objeto de desejo dos pequenos que ampliam seu rol de leituras por meio do acesso aos livros. Para a professora do CEI, um dos objetivos desse momento é a aproximação do objeto estético livro com as famílias e as crianças: [...] ao ler para a sua criança estreita laços, ambos desfrutam de um momento de afeto, cumplicidade e de fantasia. O livro infantil ou narrativa pode ser destinado às crianças, mas os bons enredos envolvem leitores de todas as idades, mexendo com seu humor, sentimentos e lembranças, bem como despertando as mais diferentes sensações. A espera para a chegada da sexta-feira, a lembrança de ir até a bebeteca buscar um livro com a criança e o cuidado ao escolher um livro com ela é a mostra de que as famílias procuram formas de se aproximarem das ações do CEI e estão interessadas em fazer a diferença na educação dos pequenos. Isso me leva a refletir sobre a possibilidade de dialogar com as famílias para termos uma devolutiva e a sua visão em relação ao projeto. (Professora do CEI Darlan Dotto Wiersinski). O relato da professora sinaliza o compromisso da família com o projeto e as perspectivas dessa ação produzir desdobramentos, outras ações que podem ajudar a encantar as crianças pequenas, de forma a promover leituras fruitivas, estreitar o encontro com o livro e a criança pequena, tornar o CEI um espaço de trânsito, que valoriza o vínculo estabelecido com as famílias, um espaço de oportunidade de 79

81 diálogos. As vozes tecidas entre as crianças pequenas envolvidas durante as ações nas bebetecas demonstram como esse momento as nutre esteticamente. A seguir, tratamos dos encontros na bebeteca do Centro Municipal de Educação Infantil Padre Lívio Donati. 80

82 5 ENCONTROS NA BEBETECA: CMEI PADRE LÍVIO DONATI Como iria reunir outras criancinhas à sua volta e tornar os olhos delas brilhantes e impacientes com muitas histórias estranhas, talvez até com o sonho do País da Maravilhas de tanto tempo atrás... Lewis Carroll (2009, p.149). A epígrafe de Lewis Carroll surge como um questionamento ao papel do mediador. O que motiva as crianças a estarem com seus olhos brilhantes e impacientes com as histórias? O mediador que conta a história é um dos grandes responsáveis por essa motivação. Vale lembrar que o processo de contação de histórias, as possibilidades de trocas e de experiências entre pessoas dependem da concepção de leitura do literário do mediador. A mediação é dependente da concepção do literário, por isso, para entender como o professor medeia o literário, é preciso conhecer as concepções que fundamentam essa mediação. Em Castro (Paraná), adentramos um novo ambiente de leitura, um espaço que foi pensado segundo os princípios estabelecidos no projeto Bebeteca, berço de pequenos leitores. Rosa e Santos (2007, p. 2), autoras do projeto, justificam o seu objetivo: [...] expressar, antes de tudo, um convite a todos os profissionais envolvidos com a educação dos pequenos a refletirem e a experimentarem o espaço literário denominado bebeteca, sensibilizando-os da importância do contato com os livros a partir dos primeiros meses de vida para a formação de futuros leitores. Poderíamos elencar muitas outras questões quando pensamos em projetos sobre bebetecas, mas defendemos que, por meio deles, os profissionais que ali atuam tenham clareza de como as mediações de leituras adequadas são MELNICK, 5 anos. 81

83 fundamentais, questionando-se sobre o motivo pelo qual estão realizando ou como podem realizar as ações em um espaço de leitura. O projeto Bebeteca, berço de pequenos leitores consta na proposta curricular da Secretaria Municipal de Educação de Castro, bem como no Projeto Político Pedagógico do CMEI Padre Lívio Donati. Carvalho, C. da M. (2012, p. 82) sinaliza que [...] o importante é que a biblioteca esteja presente no projeto político- pedagógico da escola como lugar mais apropriado para o desenvolvimento de determinadas atividades de leituras. Para tanto, comecemos por analisar o objetivo quanto à organização do espaço da bebeteca explícito no projeto: A bebeteca deverá promover um ambiente físico e social adequado às crianças que possuem oito meses a cinco anos de idade e necessitam de cuidados específicos. Deve possibilitar o relacionamento com outros bebês, crianças, educadores e familiares. Todas as atividades desenvolvidas neste espaço deverão estimular o ato de ler, ouvir e contar histórias. (ROSA; SANTOS, 2007, p. 20). Esta ambientação pretende cativar o bebê e fazer com que as crianças ao entrarem na bebeteca, sintam-se familiarizadas com as cores, móveis, tapetes, almofadas, brinquedos e principalmente pela diversidade de livros. Com isto pretende-se que futuramente essas crianças sintam vontade e prazer ao frequentarem bibliotecas tornando-se usuários assíduos. (ROSA; SANTOS, 2007, p. 20). Esse objetivo do espaço, do ambiente organizado, aponta para a potência da literatura para a criança pequena, o de estimular a leitura por meio de ouvir e contar histórias, a importância de o espaço da bebeteca ser um espaço físico adequado às peculiaridades das crianças pequenas, ser um espaço de trânsito, um espaço de encontros que possibilitem mediações do literário entre professor, familiares e crianças, um espaço que eles tenham vontade de retornar. Isso nos auxilia a entender que essa bebeteca tem por finalidade não ser uma sala destinada somente para guarda dos livros. Nela há uma preocupação em ser um espaço adequado, um ambiente de aprendizagem que busca atrair os sentidos das crianças para o livro. 82

84 Assim, a finalidade é oferecer às crianças a oportunidade de experimentarem o livro, pelo ler, pelo ouvir e pelo contar histórias, alimentando os sentidos. 5.1 O ESPAÇO A essa altura havia entrado num quartinho bem-arrumado, com uma mesa à janela e, sobre ela (como esperava), um leque e dois ou três pares de minúsculas luvas brancas de pelica. Lewis Carroll (2009, p. 44). Alice apresenta o quarto do Coelho como um espaço bem-arrumado, com seus objetos dispostos como já se esperasse por ela. Assim é o espaço da bebeteca, que se apresenta com um ambiente organizado que possibilita momentos de encontros, dividido em dois ambientes: em um, há uma televisão e um DVD; e, no outro, a casa da Dona Benta. No primeiro ambiente, há um tapete grande e algumas almofadas, um armário baixo de fácil acesso às crianças para manusear os livros, o qual fica na parede da sala que dá acesso aos dois ambientes. No segundo ambiente, está a casa da Dona Benta, com tapete, almofadas, um pneu para as crianças sentarem e um painel decorativo com as personagens do sítio e uma gruta da cuca. O ambiente é bem arejado, com janelas que possibilitam a circulação do ar, a iluminação é bem clara, possui mais de uma lâmpada. É importante destacar que, em todas as unidades escolares da Rede Municipal de Educação Infantil de Castro, há uma sala destinada somente a essa finalidade. A organização do espaço é feita pela própria professora, que, no contexto da proposta do projeto Valorizando trajetórias, faz o entrecruzamento das obras e dos materias existentes no espaço. O projeto Valorizando Trajetórias, desenvolvido pela professora da Bebeteca, é referente ao tema: Sítio do Picapau amarelo viajando e encantando as crianças (Imagens 11 e 12 a seguir). Esse projeto é realizado com todas as turmas do CMEI Padre Lívio Donati. A sala é decorada pela professora, a qual utilizou a temática do projeto. Em se tratando de murais, Souza e Motoyama (2016, p. 30) propõem que estes [...] sejam sempre construídos com o auxílio das crianças pequenas para que aquilo tenha significado para elas. Para as autoras, essas experiências vividas no espaço para criança pequena tornam-se ainda mais significativas, quando há participação das crianças pequenas. Assim, em toda decoração e organização do espaço, o livro precisa ser visto como objeto principal do ambiente, pois [...] os livros são as estrelas (SOUZA; MOTOYANA, 2016, p. 30). 83

85 Imagem 12 - Casa da Cuca na Bebeteca Imagem 11 - Personagens do Sítio do Picapau amarelo Fonte: Acervo da autora. A curadoria educativa para a organização do espaço e a disposição dos objetos podem ser pensados para ampliar os sentidos da criança, sua formação estética, de forma a potencializar as experiências que exploram os sentidos. Assim, o espaço da bebeteca foi organizado com diferentes objetos propositores. É claro que o livro é o objeto principal e está em destaque, mas alguns outros objetos tornam esse espaço ainda mais aconchegante e atrativo. A bebeteca apresenta algumas peculiaridades para o público infantil, visto que, em sua composição, sinalizamos: mobiliário baixo, dispostos no campo de visão da criança pequena, com formas arredondadas nas pontas; tapete emborrachado (para melhor higienização); aparelho de som; prateleiras com livros expostos de forma que as crianças pequenas possam visualizar a capa, outros aparecendo apenas a lombada; pneu; televisão; almofadas; cestos com livros; bichos de pelúcia, entre outros (Imagem 13). 84

86 Imagem 13 - Alguns materiais que compõem o espaço da bebeteca Fonte: Acervo da autora. Martins (2014) discute sobre a ação propositora, que requer a quem atua no espaço uma ação de curadoria educativa. Essa ação envolve a escolha e a disposição dos objetos que fazem parte do ambiente. É importante, assim, a escolha dos elementos que compõem o espaço de forma a propor uma educação estésica (sem muita poluição visual, por exemplo), com móveis adequados à convivência das crianças pequenas, para que elas tenham a oportunidade de experimentarem situações diversas com o livro (para que elas possam se locomover, ter a autonomia para pegar os objetos), com luminosidade e aquecimento adequado, além da escolha das obras literárias. Apesar de evidenciar os benefícios que um espaço apropriado pode promover para a educação estésica, é fundamental que a mediação do adulto estabeleça vínculos com a criança pequena para que, nesse espaço, ela vivencie e experimente o processo de estesia, e que as relações e as interações sejam alimentadas continuamente, contribuindo para essa educação estética. A educação estética são os afetamentos vivenciados no dia a dia, as experiências no sentido atribuído por Larrosa (2002); assim, os espaços apropriados são fundamentais. Segundo Bachelard (1998, p. 62), [...] o espaço habitado transcende o espaço geométrico. Dessa forma, consideramos importante ter um 85

87 espaço apropriado, um espaço onde a criança pequena entre e tenha vontade de ficar, para ali ter a oportunidade de experimentar encontros sensíveis, não só com a arte, mas com a vida, que, possivelmente, poderão ser lembrados na fase adulta, como espaço vivido, espaço sentido. Partimos do pressuposto de que a organização do espaço é algo que enriquece a mediação do literário e a apreciação do livro para criança pequena. Soares e Paiva (2014, p. 14) apontam esse espaço de local de leitura, interação e experimentação como [...] referência de cultura e conhecimento para o leitor iniciante. As autoras mencionam na introdução no PNBE a palavra biblioteca, mas entendemos que o espaço da bebeteca também se configura como um ambiente cultural, um local de trânsito. O espaço é organizado a fim de possibilitar autonomia das crianças pequenas. Há uma intenção na disposição dos objetos, no intuito de provocar a curiosidade nos pequenos e a vontade de tocar e conhecê-los ainda mais, bem como para traçarem suas preferências delineando as escolhas pelas obras. Aí se dá a nutrição estética que é a [...] forma de aflorar as associações decorrentes da experiência particular de cada um, que vai apresentando novas formas de conhecer algo (MARTINS; PICOSQUE, 2012, p. 37). Um ato que alimenta os sentidos, nutrindo esteticamente pela experiência que o momento atribui, um encontro de interação e contato com a arte, nesse caso o livro de literatura. 5.2 O ACERVO Alice nunca estivera num tribunal antes, mas lera sobre eles em livros, ficando muito satisfeita ao descobrir que sabia de quase tudo ali. Lewis Carroll (2009, p. 127). Tamanha é a riqueza dos livros que eles nos levam a lugares imaginários. Alice deu-nos um belo exemplo de um caminho nunca antes visto, pois, mesmo sem ter saído do lugar, o conhecia por meio dos livros. Assim adentramos o espaço de leitura, no qual o livro literário é percebido como objeto estético, pois ele não só possibilita que o leitor mirim conheça novas existências e maneiras de ser, mas também os auxilia a nutrir seu olhar para com o mundo, inspirando-os a serem no futuro leitores mais conhecedores e quem sabe pessoas mais sensíveis. Senhorini e Bortolin (2012, p. 148) defendem o livro propondo-o como foco principal do espaço. As autoras 86

88 sugerem que o espaço seja organizado com uma [...] decoração discreta para que a atenção dos bebês esteja voltada exclusivamente para os textos ali comunicados, estando eles numa linguagem impressa, imagética, fílmica, cênica, midiática, etc.. O livro é o protagonista do espaço, e, por meio dos encontros, das leituras, das conversas tecidas, do manuseio das obras pelas crianças, pode-se ampliar a nutrição estética delas quando o acervo possui características hipertextuais. Martins e Neitzel (2016), em sua pesquisa sobre narrativas hipertextuais infantis, discutem a importância, desde cedo, de expormos as crianças a um acervo literário fruitivo. Para as autoras, a literatura infantil contemporânea apresenta, hoje, diversos recursos que ampliam a percepção do leitor mirim. Segundo as pesquisadoras, o livro de literatura quando posto em destaque, a sua qualidade estética pode ser um elemento artístico que auxilia no processo de formação estética. Por qualidade estética, as autoras compreendem um conjunto de fatores que envolvem o layout do livro, a ilustração, os materiais com os quais são feitos, assim como o conteúdo. As autoras evidenciam a importância de os livros serem selecionados pelos professores tendo em vista, principalmente, seu conteúdo, isto é, obras que instiguem e provoquem as crianças por meio das histórias abertas, plurissignificativas, que ofereçam possibilidades de questionamentos (em contrapartida às fábulas que são produzidas para moralizar, para uniformizar ideias). O acervo do CMEI Padre Lívio Donati é composto por, aproximadamente, cem livros de variados gêneros literários, que incluem: poesias, fábulas, contos modernos, lendas, cantigas, entre outros (Imagem 14). Eles foram adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação, com recursos próprios do CMEI, por meio do PNBE e do programa do Banco Itaú. O aspecto dos livros está em bom estado, mas com características de usados, pois alguns livros apresentam dobras e fitas coladas, sinal de que já foram restaurados. 87

89 Imagem 14 - Acervo da bebeteca do CMEI Padre Lívio Donati Fonte: Acervo da autora. A composição que abarca os variados gêneros textuais é um dos critérios que entendemos ser fundamentais para garantir a qualidade estética do acervo. Essa qualidade, segundo Martins e Neitzel (2016), também pode ser alimentada pela escolha de livros que não subestimem a capacidade da criança, textos provocativos, que estimulem a curiosidade delas. As autoras partem do princípio da narrativa hipertextual, pois, para elas, esse tipo de obra contribui para a formação do leitor mirim, visto ser uma obra inovadora, que convida o leitor para o texto, provocando-o e instigando-o. Uma obra que, por suas características, se aproxima do conceito de objeto estético, que foi construída pelo autor na intenção de ser uma obra aberta, a qual permite ao leitor fazer as suas interferências. Assim como Martins e Neitzel (2016), Reyes (2015) afirma: Eu gosto da complexidade. Me parece que as crianças vão crescendo em complexidade, que um bom leitor infantil, cultivado desde a primeira infância, é um leitor que acessa muitas possibilidades interpretativas e que não podemos subestimar os bebês. Martins e Neitzel (2016) discutem, também, sobre a escolha das obras que podem permear a mediação do literário para crianças pequenas, as quais devem ser desafiadoras, que 88

90 tenham uma estrutura hipertextual, multilinear e plural. No caso das crianças pequenas, é importante o papel do mediador. Um mediador que desenvolva experiências de leituras com livros de qualidade, que não se limite a escolher livros que não desafiem os pequenos, mas sim elegendo obras que agucem a curiosidade e gerem expectativas no intuito de motivar os leitores mirins a desejarem brincar com os livros, construindo sentidos. 5.3 A CRIANÇA PEQUENA E O LIVRO [...] todos para os seus lugares! esbravejou a Rainha, e foi um corre-corre de gente para todo lado, uns tropeçando nos outros, em um ou dois minutos, porém, estavam a postos e o jogo começou. Lewis Carroll (2009, p. 98). Diferentemente do conto de Alice, em que a rainha esbraveja solicitando que todos estivessem a postos para o jogo começar, acontece nos encontros na bebeteca. Ao chegarem à bebeteca, as crianças, com tranquilidade, sem tropeços e sem correcorre, circulam pelo espaço, escolhendo a forma mais confortável para se aconchegar e aproveitar os encontros literários. Esses encontros acontecem uma vez na semana com cada turma. Há um caderno de planejamento a ser seguido, no entanto a história escolhida é contada para todas as turmas. No planejamento, é registrado o título do livro, os objetivos propostos com a história e como será realizado, bem como se será utilizado outro objeto propositor para o momento da contação. Nos momentos dos encontros, a professora leva as crianças à bebeteca, dividindo as turmas em pequenos grupos, pois, conforme a proposta do trabalho aponta, faz-se necessário pequenos grupos 23. A professora relatou-nos que ela segue a proposta, envolvendo pequenos grupos, com a intenção de estabelecer vínculos entre a criança, o livro e a professora. Sinalizamos que a professora opera em suas mediações o que a proposta anuncia, o que configura que as ações seguem pautadas no projeto da bebeteca. Quanto ao número de crianças pequenas, compreendemos que a proposta possibilita um encontro mais íntimo, em que mediador e crianças pequenas podem compartilhar 23 Projeto Bebeteca, berço dos futuros leitores - Rosa e Santos (2007, p. 22) afirmam que [...] para eficácia deste trabalho, é preciso que o número de bebês e crianças seja limitado, a fim de atender à necessidade e característica individual de cada uma, bem como estabelecer um vínculo maior com os livros e a bebetecária. 89

91 do ambiente com mais tranquilidade, bem como a atenção do mediador para com a criança pequena pode ser ainda mais eficaz. Nos encontros, a proposta é a contação de histórias e o momento livre para o manuseio das obras (Imagem 15). Imagem 15 - Aproximação com o livro Fonte: Acervo da autora. Para contar histórias, por vezes, a professora apresenta-se sem nenhuma caracterização; por outras, ela faz uso de fantasias, adereços, chapéus, capas, óculos, entre outros (Imagem 16). A professora mencionou que [...] estar com algo diferente atrai ainda mais a atenção das crianças para o momento da contação da história. Os objetos propositores, neste caso os acessórios, são elementos que podem enriquecer o momento de contação, envolver as crianças pequenas e ampliar suas vivências com o livro, estabelecendo outras conexões, além das páginas dos livros. Segundo Souza e Motoyama (2016, p. 30), as [...] contações com adereços e objetos desenvolvem o simbolismo dos pequenos, pois o objeto usado para contar a história, pode trazer a eles outros significados. 90

92 Imagem 16 - Caracterização da professora Fonte: Acervo da autora. O contador de histórias desempenha o papel de afetar, sensibilizar e mobilizar a curiosidade dos ouvintes. Evidenciamos a importância do mediador criar este vínculo de afeto com as crianças pequenas para que, ao contar a história, além de aproximar para o momento da contação, consiga estreitar a relação da criança pequena com o livro. Pensando nessa aproximação do livro por meio da contação de história, Neitzel e Carvalho (2016, p. 153) afirmam que a ação do contador, antes de evidenciar a literatura como arte, seu valor literário, propõe que o contador seduza o leitor mirim pela obra, [...] colocá-lo frente ao texto para degustá-lo. Consideramos importante que o contador proponha o acesso à obra como jogo, que o livro não seja imposto como uma obrigação, mas que, no ato de contar, o contador consiga exprimir o que está impresso nos livros a fim de contagiar, de afetar 91

93 e de envolver os pequenos com o livro. Nesse mesmo viés, no projeto Bebeteca, berço de futuros leitores, Rosa e Santos (2007) afirmam que [...] a arte de contar histórias requer um profissional cuja doação seja intensa e conquiste seu público infantil sendo este seduzido pela sua linguagem artística. O professor deve estar sensibilizado a sensibilizar, seduzido para seduzir, portanto a história a ser contada deve primeiro apaixonar o narrador. (ROSA; SANTOS, 2007, p. 16). Conhecer o texto que será contado faz toda diferença, pois facilita ao contador estar mais envolvido com o texto bem como permite que ele consiga narrar com segurança, estreitando a relação do livro com a criança pequena. Assim sendo, como podemos contagiar as crianças pequenas para esse momento de contação de histórias? Caroline Carvalho, professora e atriz, em 20 de agosto de 2016, ministrou no Serviço Social do Comércio (SESC), no Departamento Regional de Santa Catarina, a oficina Contar Histórias: O livro e a formação do leitor. Dentre suas falas, Carvalho, C. ( 2016) destacou: A contação de histórias através do livro, enfatizando a postura do contador de histórias. Ela propôs, assim, algumas dicas para esse momento, dentre elas: ü o contador pode criar seu próprio convite, pois ele convoca a criança pequena e remete à lembrança dos pequenos para o momento de ouvir histórias e para a roda de leitura. Para Carvalho, C. (2016), um objeto ou uma música pode ser esse motivador [...] porque ele é aquele que motiva as crianças a se organizarem para o momento de ouvir histórias e a roda de leitura ; ü escolher uma posição para o contador ficar, que pode ser em pé ou mesmo sentado, posicionando o livro de forma que as crianças possam observá-lo; ü no momento da leitura, o contador pode posicionar o livro para si e depois mostrar as imagens para os pequenos; ü em alguns momentos, o contador pode fazer movimentos com braços e pernas, mas ter o cuidado para não ser o tempo todo, para não chamar mais atenção para os movimentos do corpo do que para a história do livro que está sendo contada; ü a criança pequena pode, também, sentar-se no colo do contador com as páginas do livro viradas para ambos. 92

94 Carvalho, C. ( 2016) pontuou a importância desse momento ser diário, que é o que efetiva o leitor, a compreensão de que a literatura é parte de seu dia a dia. Como também evidenciou que a contação de histórias é tão importante quanto a roda de leitura, que é outro momento após a contação. Ela é o momento que ocorre a leitura livre, pois, por meio da roda de leitura, a criança pequena passa a compreender que ela encontra no livro as mesmas histórias incríveis que acabou de ouvir. Pontuamos que a criança pequena se aproxima do livro quando vivencia o encontro em mediações contínuas, que podem ser pela contação de histórias, pela leitura, pela roda de leitura ou, simplesmente, pelo manuseio livre dos livros, entre outras mediações possíveis que possibilitem a criança pequena observar, ouvir, tocar, sentir, envolver-se com o livro. Na bebeteca do CMEI, o espaço é organizado para oferecer mais estesia às crianças. Há um tapete e almofadas. A professora mostra o livro, identifica o nome da história, seu autor e ilustrador. Ao ler, faz uso da voz fazendo ondulações e gestos em algumas situações. O rítmo de leitura é tranquilo, com uma voz suave que embala toda a história. Para Reyes ( 2010): A ênfase no ritmo e na prosódia e a carga melódica impressa pela voz adulta quando se dirige aos bebês demonstra que carregamos, como bagagem evolutiva da espécie, uma cadência que transcede o uso utilitário da linguagem e transmite uma experiência estética, além do significado literal das palavras. (REYES, 2010, p. 25). Pelo encantamento criado pela professora, as crianças ouvem todo o conto. Esse movimento de leitura, o qual envolve a contação e o manuseio livre do livro, feito em todas as bebetecas dos CMEIs de Castro, apresenta-se como ponto forte observado. Em se tratando de crianças pequenas, os mediadores de leituras oferecem as primeiras ações leitoras às crianças. Assim, são eles que possibilitam o encontro com o livro. Para Reyes (2012), um momento que oportunize um clima de introspecção é fundamental, permitindo às crianças condições de diálogo, para que, em torno dos textos, as vozes sejam tecidas, as experiências e as peculiaridades de cada criança sejam partilhadas (Imagem 17). 93

95 Imagem 17 - Encontros literários - No sítio vai ter pomba? - A dona Benta vai tá lá? Fonte: Acervo da autora. Nesse sentido, por meio dos encontros literários que evidenciem o momento estético, a relação estabelecida com o livro e com o mediador pode possibilitar à criança pequena experiências para que ela possa interagir, conversar e expor as suas emoções, que a leve à reflexão e à autonomia, ampliando, assim, a sua educação estética. Uriarte, Neitzel e Carvalho (2016, p. 191) afirmam sobre a educação estética que não é, portanto, [...] um sentir espontâneo ou involuntário, mas um ato contemplativo, reflexivo e, por isso, de empoderamento de sua própria posição no mundo. Essa tomada de consciência promove sua autonomia. Em visita ao Brasil, especificamente em Florianópolis, no evento organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado Seminário de Literatura Infantil e Juvenil, no dia 26 de setembro de 2016, tivemos a oportunidade de ouvir Yolanda Reyes, escritora e educadora, umas das fundadoras de Espantapájaros 24. É também diretora dessa instituição sobre a qual falou um pouco. Na roda de perguntas, foi apresentada a seguinte questão: Como trabalham a leitura na bebeteca, no Instituto Espantapájaros e [...] como os professores atuam como mediadores neste espaço de leitura?. A Professora respondeu: 24 Para conhecer o Instituto, acesse: <http://espantapajaros.com/>. Acesso em: 10 maio

96 Nos estudos, temos visto, nas conversas, todo o movimento da leitura constitui-se na primeira infância. Então o que fazemos com um bebê de oito meses? Nada de especial! Colocamos os livros para eles. Ensinamos os adultos a lerem para as crianças. Todos sabem que ler não precisa de muito esforço. E todo este trabalho é: escolher os livros, colocar na frente. E todas as crianças começam a subir no braço de alguém que está contando, começam a morder os livros, a movimentar as páginas e contamos contos e fazemos que os livros estejam sempre presentes na vida das crianças. (REYES, 2016, tradução nossa). Reyes evidencia, com sua experiência no Instituto Espantapájaros, que não há nada de muito especial para desenvolvermos um movimento de leitura, mas o importante é a presença do livro e as ações adequadas do mediador. As palavras de Reyes ecoam no CMEI Padre Lívio Donati, porque é assim que acontece nos encontros literários na bebeteca. A postura do mediador é vista como um estar junto às crianças;, em alguns momentos, ele apenas observa as crianças explorarem o ambiente de aprendizagem; já, em outros, a ele interage com as crianças. As crianças monstram-se muito à vontade no ambiente. Ao término da história e dos diálogos tecidos entre as crianças e a professora, as crianças ficam livres para brincar com os livros, folhearem as páginas, trocar os livros quantas vezes sentirem interesse. As crianças são bem livres no espaço, podem brincar na gruta da Cuca e na casa da Dona Benta. A professora medeia as crianças convidando-as a pegarem os livros e a escolher as obras do armário, bem como faz leituras individuais dos livros escolhidos por ela e pelos pequenos. Um momento no qual podemos identificar mais um triângulo amoroso apontado por Reyes (2012). No CMEI, as obras estão à disposição das crianças pequenas para manusearem. Segundo a professora, [...] sempre é destinado um tempo para livre acesso das crianças às obras. Elas têm autonomia para experimentarem os livros, além de sentirem-no ao morder, ao cheirar, ao tocar e ao folhear, brincam com o corpo em movimento, tendo o livro como um brinquedo. A roda de leitura promove uma experiência rica que vai refinando o gosto pessoal de cada criança pequena, uma oportunidade de estar mais próximo do livro e de construir com ele uma relação como objeto estético, mediadas pelo adulto que, nesse caso, pode ser o professor ou alguém da família. O contato dos pequenos com os livros constrói-se acompanhado da liberdade ao acesso, permitindo-os experimentarem as obras conforme o que já se é esperado pela idade, como: o morder, o rasgar, o jogar, o brincar, entre outros. Essas ações são percebidas pelo mediador como um movimento que pode acontecer pela idade das crianças, porque 95

97 estão respaldadas pela concepção do livro como um brinquedo, por isso é permitido que as crianças explorem o livro, brinquem com o objeto, sem se preocupar tanto com o CUIDADO. Nesse sentido, como afirmam Hasper et al. (2017), o importante é que o mediador nos encontros com a leitura promova uma [...] profunda relação de afeto dos envolvidos, o mediador tende a ser aquele que desafia o bebê ao alcance de novas etapas, pois tudo começa com um encontro, neste caso, que gerem afetamentos positivos e permitam avançar novas etapas (HASPER et al., 2017, p. 46). Assim, com o passar das novas experiências, ao ver o adulto lendo, a criança pequena passa a entender e perceber as funções do livro. Tudo isso só é possível se o mediador permitir encontros que possibilitem a criança pequena escolher a obra, manuseá-la e senti-la com os sentidos. Imagem 18 - Manuseio dos livros Fonte: Acervo da autora. As crianças pequenas demonstraram afinidade com a obra, mesmo sem saber ler convencionalmente. Fizeram uso da ponta dos dedos imitando a professora ao realizar a leitura, mostraram as imagens relatando e apontando, viraram as páginas, trocaram os livros entre os pares, bem como escolheram as próprias obras. Essas ações indicam que esse espaço de leitura oportuniza experiências fruitivas, que os permitirão perceber o livro de literatura como arte. No ambiente de aprendizagem as crianças pequenas movimentaram-se, respeitando os colegas, agindo de forma organizada. Elas selecionaram os livros e os colocaram novamente na estante. Borba (2016) afirma que 96

98 [...] as pessoas ao entrarem em uma biblioteca podem ser acolhidas por um espaço de desaceleramento, seja pelos profissionais que lá trabalham, pela arte, pelo ambiente esteticamente organizado, pelas ações que corroboram com o contato sensível do ser humano com a realidade, com sua cultura. (BORBA, 2016, p. 132). A autora evidencia o espaço da bibloteca como um espaço de desacelaremento. Isso propõe refletir sobre a bebeteca, visto que as ações realizadas na bebeteca convidam as crianças a outro tipo de atividade, em que o espaço, os objetos e o mediador corroboram para o encontro sensível entre a criança pequena e o livro. Ao interagir com o livro, as crianças pequenas partilham do mesmo ambiente com tranquilidade. São experiências vividas com o livro, em que são tecidas relações de afeto entre os envolvidos, que permitem os pequenos nutrirem os sentidos. 5.4 A CRIANÇA PEQUENA, O LIVRO E A FAMÍLIA Alice observou o Coelho Branco enquanto ele revirava a lista, muito curiosa para saber quem seria a próxima testemunha,...pois ainda não reuniram muitas provas, disse para si mesma. Qual não foi sua surpresa quando o Coelho Branco leu, forçando ao máximo sua vozinha esganiçada, o nome Alice! Lewis Carroll (2009, p. 136). Alice fica curiosa para saber quem será a próxima testemunha do julgamento. A curiosidade é uma das características das crianças pequenas, e ela as impulsiona a descobertas. Com o projeto, as professoras mantêm a curiosidade das crianças pequenas sobre os livros da bebeteca. Quem será o próximo colega que levará a bolsa de leitura para casa? A escolha pela criança pequena que levará o livro se dá pela sequência da chamada; assim, todos os dias, duas crianças pequenas de cada turma levam para casa um boneco personagem do Sítio do Picapau amarelo (Imagem 19) e um livro de histórias, no intuito de mediar a leitura. Junto ao livro vai um caderno de registro, no qual as famílias sinalizam aspectos da história lida e as percepções, sendo a professora a que escolhe o título das obras. 97

99 Imagem 19 - Bolsa de histórias Fonte: Acervo da autora. Em relação a essa atividade de leitura que envolve a família e a criança pequena em levar a bolsa de leitura para casa, temos o exemplo semelhante do trabalho de Reis (2014). A autora relata o projeto denominado Presta libro, o qual envolve as crianças e as famílias. A intenção do projeto é a criança levar o livro para casa. Sem data determinada, o livro vai para casa e retorna para a creche. Reis (2014, p. 55) aponta que o [...] importante não é o tempo que esse livro ficará em casa, mas o contato da criança e da família com a literatura e as relações que ela pode proporcionar entre a criança pequena e a família em casa. O livro vai para casa em uma sacola de tecido cru. Essa sacola foi confeccionada pelas avós costureiras, e as personalizações foram feitas pelos pais. Cada criança possui uma bolsa literária e são as próprias crianças que escolhem as bolsas. A autora evidencia a importância da autonomia, visto as crianças terem a liberdade para escolher as sacolas e o livro que será levado para casa. Reis (2014, p. 55) afirma que as [...] sacolas, assim como da escolha do livro que irá para casa com a criança dentro da sacola, instiga uma relação de carinho com o livro. As ações envolvendo a ida do livro para casa em Castro e em San Miniato acontecem de formas parecidas, mas algumas diferenças nos fazem refletir. Em Castro, a participação das famílias acontece quando os pais têm interesse em visitar o espaço, embora não ocorra nenhuma programação envolvendo as famílias nesse ambiente, além do empréstimo dos livros. Já, em San Miniato, Reis (2014) sinaliza 98

100 que há uma programação envolvendo as famílias, em um projeto no qual envolve: a apresentação do projeto, a formação com as famílias, a participação na confecção das bolsas de leituras, o momento do empréstimo do livro para casa e o cuidado com os livros. Outra diferença existente nas ações são o tempo em que o livro fica no ambiente familiar. Em San Miniato, o livro permanece com a criança o tempo que achar necessário. Já, em Castro, o livro vai para casa e, no outro dia, precisa retornar para o CMEI para que outra criança também possa levá-lo para casa. Como são apenas duas bolsas de leituras por turma, o tempo de espera para a criança pequena levar o livro novamente para casa é maior. Dessa forma, o ideal seria que cada criança pequena tivesse sua própria bolsa de leitura, para que as oportunidades de aproximação do livro com a família acontecessem com mais frequência. Em Castro, a bolsa de leitura é confeccionada pela própria professora, sua caracterização segue a representação dos personagens que envolvem o projeto o qual está sendo trabalhado no contexto da bebeteca. A mediação do literário desenvolvida na bebeteca envolvendo o empréstimo dos livros está em aproximar o livro da criança pequena. Nesse sentido, o livro passa a ser fruído como arte e uma relação estética vai sendo tecida. Essa parceria entre escola e família é fundamental, pois, apesar de os pais não estarem presentes nesse ambiente de leitura, a bolsa de histórias, hoje, é o recurso que as bebetecas de Castro escolheram para lançar o livro no ambiente familiar. A seguir, sinalizamos o conceito de bebeteca que compreendemos ser o mais adequado à realidade brasileira, a partir das pesquisas de Escardó I Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini e Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros e Santos (2009) e algumas considerações sobre as duas bebetecas investigadas. 99

101 6 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES [...] foi assim que, bem devagar, país das maravilhas foi urdido, Um episódio vindo a outro se ligar E agora a história está pronta, Desvie o barco, comandante! Para casa! O sol declina, já vai se retirar. Lewis Carroll (2009, p. 11). Chegamos à parte na qual o trabalho se apresenta como forma de fortalecer as forças e rever tudo aquilo que nos acompanhou durante todo o caminho percorrido. Os capítulos foram tomando forma, consistência, descobertas foram apresentadas e, na busca por desvelar inquietações, objetivos alcançados. Diferentemente do conto de Alice, em que a história foi urdida, esta pesquisa apresenta-se como forma de divulgar esse espaço de mediação do literário, dando início a outras pesquisas que possam vir a discutir sobre esse espaço de leitura denominado bebeteca. Uma das inquietações foi identificar as bebetecas no Brasil. Pensar em um espaço destinado à leitura para as crianças, em bebetecas, ainda é uma novidade, visto tratarse de um ambiente que, aos poucos, está ganhando espaço em terras brasileiras. Nesta pesquisa, encontramos dezenove bebetecas, mas, para análise, escolhemos duas: uma bebeteca em Itajaí (SC), o CEI Darlan Dotto Wiersinski; e a outra em Castro (PR), o CMEI Padre Lívio Donati. Como o objetivo principal pautou-se em analisar como ocorre a mediação do literário nas bebetecas, o estudo focou em conhecer os espaços educativos que possuem uma bebeteca. Para compreendê-las, foi necessário visitá-las, conhecer cada ambiente e acalmar as inquietações para dar lugar a outras. Nesse processo de desvelo de inquietações, surgiu a discussão sobre o conceito de bebeteca. Para entender um pouco esse conceito, pesquisamos trabalhos já existentes. MELNICK, 5 anos. 100

102 Sinalizamos as pesquisas de Escardó I Bás (1999), Instituto Espantapájaros (2014), Senhorini e Bortolin (2008), Pereira (2014), Barros e Santos (2009). A partir dos conceitos desses pesquisadores e dos dados coletados nas bebetecas analisadas, construímos um conceito de bebeteca que se adequa à realidade brasileira e ao objetivo da formação de leitores: a bebeteca como uma ação de aproximação da criança com o livro, independentemente do espaço físico, seja uma sala, um canto ou mesmo uma cesta de livros, desde que, nesse espaço, haja a intenção de aproximar os livros da criança pequena, isto é, que seja produto de um projeto que pode ser construído e que este seja de conhecimento de todos os docentes que fazem parte da Instituição. Outro aspecto importante trata-se da concepção do livro, que ele seja visto como um brinquedo, que possa estar nas mãos das crianças pequenas, para que elas possam entender sua função social. Compreendemos, dessa forma, que a mediação do literário proposta na bebeteca pode ser feita por objetos, por professores, pela família, entre as crianças pequenas e pelo próprio livro. Com os pequenos, a mediação do adulto tem algo especial que é a relação amorosa que está em volta, é um estar junto (MARTINS, 2014), é um oferecer a leitura, variada e diversa, um texto que alimenta os sentidos, um texto fruitivo que possa levar a criança pequena à autonomia e à reflexão. Esse encontro demanda do mediador um olhar especial em relação à criança pequena. O adulto compartilha de um mesmo livro que pode ser no colo ou não, sua voz como um convite para ouvir um conto, elucidando uma troca de livro que possibilita ampliar o repertório literário, de ter uma história preferida e o desejo de estar rotineiramente com os livros. Nesse sentido, defendemos que a bebeteca seja um ambiente de aprendizagem, um lugar de trânsito e de encontros, que possibilite a educação estética. Tendo em vista o conceito de bebeteca, a Figura 9 a seguir aponta questões que consideramos fundamentais para que a bebeteca se constitua como um espaço propício para a formação dos futuros leitores, de forma que ela impacte na formação estética dos pequenos. As palavras compõem uma rede semântica que sinalizam o conceito de bebeteca. Cada cor indica um aspecto que é essencial na formação desse conceito. 101

103 espaço sujeitos projeto educação estética livro mediação do literário Figura 9 - Nuvem de palavras 2 Fonte: Elaborada pela autora para fins de pesquisa. Dentre essas questões, evidenciamos a existência de um projeto. Ambas as bebetecas selecionadas para este estudo possuem um projeto que norteia as ações desse espaço cultural. Entendemos que a existência do projeto de bebeteca visa a ser um documento fundamental, norteador, pois fundamenta as reais intenções com o espaço e com as mediações de leitura que se pretende desenvolver, bem como esclarece e agrega conhecimentos aos docentes e à família sobre o papel desse espaço de leitura. Constatamos que os projetos em si são diferentes, porém o objetivo principal de ambos é aproximar a criança pequena dos livros no espaço da bebeteca. Organizar um projeto de bebeteca pode não ser uma tarefa fácil. Dentre as muitas dificuldades em sua realização, está o espaço disponível nas Instituições de Educação Infantil para essa finalidade, algo que pode limitar ou tirar os livros do armário. Dessa forma, faz-se necessário pontuar exemplos significativos de bebeteca: um espaço próprio, o que seria ideal ter em todas as Instituições de Educação Infantil 102