AÇÃO CIVIL PÚBLICA, COM PEDIDO DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR,

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1 AÇÃO CIVIL PÚBLICA, COM PEDIDO DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR Juliana Ferraz da Rocha Santilli Promotora de Justiça Adjunta Cristina Rasia Montenegro Promotora de Justiça Exmo. Senhor Doutor Juiz de Direito da Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal DF. O MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS, por seus Promotores de Justiça ao final assinados, com fundamento nos artigos 127, 129, III, e 225 da Constituição da República, na Lei nº 7.347/85 (Ação Civil Pública), na Lei n 9.985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação Ambiental), na Lei Orgânica do Distrito Federal, na Lei n 41/89 (Política Ambiental do DF), nas Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente, de nºs 01/86, 09/87 e 237/97, e demais legislação ambiental e urbanística pertinente, vem propor a presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA, COM PEDIDO DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR, contra o Distrito Federal, pessoa jurídica de direito público interno, a ser citado por intermédio da Procuradoria-Geral do Distrito Federal, que o representa judicialmente, nos termos do art. 111 de sua Lei Orgânica; e contra a Companhia Imobiliária de Brasília- TERRACAP, empresa pública integrante do Complexo Administrativo do Distrito Federal, criada pela Lei nº 5.861, de 12/12/72, pelos fundamentos de fato e de direito a seguir expostos. 286

2 DOS FATOS 1 O SETOR HABITACIONAL VERTICAL SUL 1. O Setor Habitacional Vertical Sul (SHVS-SOF-Park Sul) é um projeto de parcelamento do solo urbano, que pretende constituir um novo bairro residencial na Região Administrativa do Guará RA-X. Trata-se de um projeto da Terracap, a ser implantado entre a extremidade da Asa Sul e o Guará II, junto ao trevo do Park Shoppping, englobando duas áreas: a primeira com aproximadamente 16, 4 hectares e a segunda com 56, 1 hectares. 2. O Setor Habitacional Vertical Sul é um empreendimento voltado para a classe média alta, formado por diversos condomínios residenciais verticais, com dois padrões: 27 pavimentos com 85 metros de altura e 7 pavimentos com cobertura e altura de 26 metros. O projeto da Terracap prevê alta densidade populacional para o novo Setor: 518 habitantes por hectare para a primeira área, e 311 habitantes por hectare para a segunda área, sendo que os acessos à primeira área se darão por meio da Estrada Parque Indústria e Abastecimento EPIA e Estrada Parque Guará-EPGU. A segunda área está localizada entre o Setor de Oficinas, o metrô, a área da Radiobrás e a linha de alta tensão. É acessada pela Via GCV-5, que atravessa o Setor de Oficinas, a partir da EPIA, e também pela Via IA-SP01, que liga a área à Estrada Parque Taguatinga-EPTG. 3. Segundo o projeto da Terracap, deverão ser criados no Park Sul dois tipos de condomínio. O primeiro tipo (condomínios A e B) estará dividido em lotes de aproximadamente m 2, para implantação de torres de até 27 pavimentos, com altura máxima de 85 metros e taxa de ocupação de 20%. O segundo tipo (condomínios C, D, E e F) será formado por lotes de aproximadamente m 2, para implantação de prédios de até 7 pavimentos, com altura máxima de 26 metros. 287

3 2 DO NÃO ATENDIMENTO DAS REQUISIÇÕES DA PROMOTORIA DE MEIO AMBIENTE 4. A fim de implantar o referido empreendimento, a Terracap requereu à Secretaria de Meio Ambiente do DF licença prévia, tendo sido o referido pedido de licenciamento ambiental publicado no Diário Oficial do DF de 25/06/2001. Conforme consta expressamente do pedido de licença formulado pela Terracap, o projeto do Setor Habitacional Vertical Sul engloba duas glebas remanescentes do Parque do Guará. Diante da publicação, no Diário Oficial, do referido pedido de licença prévia, a Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, com fundamento no art. 129, inciso VI, da Constituição Federal, e no art. 8º da Lei Complementar nº 75/93, que lhe conferem poderes legais para requisitar informações, exames, perícias e documentos de autoridades da administração pública direta ou indireta, requisitou à Terracap e à Diretoria de Licenciamento Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente cópia do projeto de parcelamento do Setor Habitacional Vertical Sul (Park Sul). 5. Apesar de decorrido o prazo estipulado pela Promotoria de Justiça para atendimento das requisições de informações, a Terracap e a Secretaria de Meio Ambiente não deram qualquer resposta ao Ministério Público, simplesmente ignorando as requisições ministeriais, sem quaisquer justificativas, ou mesmo pedidos de prorrogação de prazo. 6. Deve ser salientado que, nos expressos termos do art. 7º, 2º, da Lei Complementar nº 75/93, nenhuma autoridade poderá opor ao Ministério Público, sob qualquer pretexto, a exceção de sigilo, sem prejuízo da subsistência do caráter sigiloso da informação, do registro, do dado ou do documento que lhe seja fornecido. Segundo o 3º do referido artigo, a falta injustificada e o retardamento indevido do cumprimento das requisições do Ministério Público implicarão a responsabilidade de quem lhes der causa. Também a Lei n 7.347/85 é claríssima quando estabelece, em seu art. 10, que: Constitui crime punido com pena de reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos, mais multa de 10 (dez) a 1000 (mil) Obrigações do Tesouro Nacional OTN, a recusa, o retardamento ou a omissão de dados 288

4 técnicos indispensáveis à propositura da ação civil, quando requisitados pelo Ministério Público.. 7. Finalmente, o 5º do art. 7º da Lei Complementar nº 75/93 estabelece que as requisições do Ministério Público serão feitas fixando-se prazo razoável de até 10 (dez) dias úteis para atendimento, prorrogável mediante solicitação justificada (o que jamais foi feito, seja pela Terracap, seja pela Secretaria de Meio Ambiente). DO PARQUE EZECHIAS HERINGER 8. Em face do não-atendimento das requisições ministeriais de informações, o Ministério Público não têve como realizar a plotagem das coordenadas geográficas do projeto do Setor Habitacional Vertical Sul, a fim de aferir a sobreposição de seus limites com os limites oficiais do Parque Ecológico Ezechias Heringer (conhecido como Parque do Guará). 9. Certo é, entretanto, que o próprio pedido de licenciamento ambiental do projeto do Setor Habitacional Vertical Sul, requerido pela Terracap à Secretaria de Meio Ambiente, e publicado no Diário Oficial do DF de 25/06/2001, afirma expressamente que o referido Setor engloba duas glebas remanescentes do Parque do Guará. Evidente, portanto, a necessidade de se aferir, por intermédio de perícia judicial, a sobreposição da área do projeto proposto para o novo Setor com as coordenadas geográficas do Parque do Guará, cujos limites só podem ser alterados por lei, nos expressos termos da Constituição Federal e da Lei n 9.605/98, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. 10. O Parque Ezechias Heringer, também conhecido como Parque do Guará, existe desde a década de 60, segundo o Relatório de Unidades de Conservação e Áreas Protegidas do DF e, ainda, o próprio Plano Diretor do Parque do Guará 1. Após a edição de sucessivos decretos promovendo a 1 Conforme o estudo denominado Parques do Distrito Federal, elaborado por Roseli Senna Ganem e Zita de Moura Leal, assessoras da Câmara Legislativa do Distrito Federal. 289

5 destinação de áreas para o Parque do Guará (Decreto 3.597/77, Decreto 7.910/84, Decreto n 7.969/84, Decreto n 8.129/84 e Decreto n /88), foi editada, em 13/01/98, a Lei nº 1.826, que cria o Parque Ecológico Ezechias Heringer, com área total de 306, 44 hectares. 11. Segundo a Lei n 1.826/98, referida acima, o Parque Ezechias Heringer foi criado com os seguintes objetivos: garantir a preservação dos ecossistemas remanescentes, com recursos bióticos e abióticos, promover a recuperação das áreas degradadas com espécies vegetais nativas da região, proporcionar à população condições para a realização de atividades culturais, educativas e de lazer em contato harmônico com o meio natural, disciplinar a ocupação da área e incentivar a pesquisa para possibilitar o repovoamento da área com a fauna do cerrado. 12. O referido Parque inclui trecho do Córrego do Guará, a mata ciliar de ambas as margens e áreas adjacentes. De acordo com o Plano de Manejo do Parque 2, a mata de galeria encontra-se interrompida em diversos trechos, mas ainda compõe, em conjunto com as árvores exóticas plantadas, um bom maciço arbóreo. O documento ressalta, também, a importância da mata pela sua diversidade florística, na qual foram encontradas 29 espécies arbóreas, entre as quais uma rara e ameaçada de extinção, o Podocarpus sellowii. Tal árvore é um pequeno pinheiro, cujo gênero é pouco conhecido, sendo representado, no Brasil, por apenas duas espécies. Até 1992, havia apenas dois registros da espécie no DF, um deles no Córrego do Guará, e na execução do trabalho de campo do Plano de Manejo, mais quatro espécimes foram encontrados. O Plano de Manejo do Parque do Guará ressalta a sua importância como corredor de fauna, uma vez que o Córrego do Guará deságua no Córrego Riacho Fundo, no Santuário de Vida Silvestre do mesmo nome. 13. Finalmente, deve ser salientado que o Plano de Manejo do Parque do Guará propõe um zoneamento da área, considerando os objetivos de conservação e de fomento ao lazer, e prevê a implantação de infra-estrutura para atendimento 2 O Plano de Manejo do Parque é citado no excelente estudo denominado Parques do Distrito Federal, realizado pelas assessoras da Câmara Legislativa do DF, Rosely Senna Ganem e Zita de Moura Leal. 290

6 a uma população estimada em pessoas. Prevê a implantação de museu, escola de educação ambiental, teatros, praças, quadras, ginásio de esportes, restaurantes, trilhas, estacionamento, viveiro de mudas e módulos de apoio e segurança. Entre as medidas de recuperação da área, é proposta a revegetação de uma faixa de cem metros ao longo de cada margem do Córrego do Guará. DO DIREITO 3 AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL SÓ PODEM TER SEUS LIMITES ALTERADOS POR LEI 14. A Constituição Federal dispõe expressamente que: art. 225 Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: III definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes, a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção. 15. Ou seja, a Constituição é de uma clareza meridiana, ao estabelecer que os espaços territoriais ambientalmente protegidos parques, reservas biológicas, estações ecológicas etc. só podem ser desconstituídas ou ter os seus limites alterados através de lei (em sentido formal e material, ou seja, aprovada pela Câmara Legislativa), o que não ocorreu no caso concreto. 16. Já a Lei n 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, dispõe expressamente, em seu art. 22, 7º, que: 291

7 A desafetação ou redução dos limites de uma unidade de conservação só pode ser feita mediante lei específica. 17. No caso concreto, os limites do Parque do Guará são estabelecidos pela Lei n 1.826/98, e só poderiam ser alterados por outra lei, o que não ocorreu. 18. Portanto, necessária se faz a requisição judicial, à Terracap e à Secretaria de Meio Ambiente, de cópia integral do projeto de parcelamento da área do Setor Habitacional Vertical Sul, com a sua exata delimitação geográfica (inclusive respectivas coordenadas), planta de localização do projeto e todos os estudos urbanísticos já realizados, o que ora se requer, com base no art. 8º, 2º, da Lei n 7.347/85. Desta forma, poderá ser feita a plotagem das coordenadas geográficas de ambos, e aferir a sua sobreposição. 4 DA NECESSIDADE DE ESTUDO PRÉVIO DE IMPACTO AMBIENTAL 19. Independemente da sobreposição dos limites do novo Setor com o Parque do Guará, a Terracap só pode dar início à implantação do projeto de parcelamento de solo após a realização de estudo prévio de impacto ambiental, também exigido constitucionalmente. 20. É a própria Constituição Federal que estabelece a obrigatoriedade de realização prévia de Estudo de Impacto Ambiental, e de seu respectivo Relatório, para a realização de quaisquer obras ou atividades potencialmente causadoras de significativa degradação do meio ambiente. 21. Com efeito, o art. 225 da Constituição Federal dispõe que: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendêlo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Par. 1º: Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: 292

8 IV exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade Já a Lei Orgânica do Distrito Federal estabelece que: Art. 289 Cabe ao Poder Público, na forma da lei, exigir a realização de estudo prévio de impacto ambiental para construção, instalação, reforma, recuperação, ampliação e operação de empreendimentos ou atividades potencialmente causadoras de significativa degradação ao meio ambiente, ao qual se dará publicidade, ficando à disposição do público por no mínimo trinta dias antes da audiência pública obrigatória. Par.1º - Os projetos de parcelamento do solo no Distrito Federal terão sua aprovação condicionada à apresentação de estudo de impacto ambiental e respectivo relatório, para fins de licenciamento. Par.3º - O estudo prévio de impacto ambiental será realizado por equipe multidisciplinar, cujos membros deverão ser cadastrados no órgão ambiental do Distrito Federal É de se salientar que, nos termos da Resolução do Conselho nacional do Meio Ambiente-CONAMA nº 01/86, o Estudo de Impacto Ambiental deve, entre outras exigências, definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto, considerando, em todos os casos, a bacia hidrográfica na qual se localiza. Deve, ainda, o Estudo de Impacto Ambiental, nos termos da já citada Resolução, desenvolver as seguintes atividades técnicas: diagnóstico ambiental da área de influência do projeto, completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto, considerando: 3 A Emenda à Lei Orgânica nº 22/97 acrescentou o 6º ao art. 289, abrindo a possibilidade de que, nos parcelamentos para fins urbanos, com área igual ou inferior a 60 hectares, e nos parcelamentos com finalidade rural, com área igual ou inferior a 200 hectares, o órgão ambiental possa substituir a exigência de apresentação de estudo de impacto ambiental por avaliação de impacto ambiental, referente, entre outros fatores, às restrições ambientais, à capacidade de abastecimento de água, às alternativas de esgotamento sanitário e de destinação final de águas pluviais. Entretanto, o Setor Habitacional Vertical Sul está sendo implantado em uma área superior a 60 hectares. 293

9 a) o meio físico o subsolo, as águas, o ar e o clima, destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d água, o regime hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas; b) o meio biológico e os ecossistemas naturais a fauna e a flora, destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de valor científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de preservação permanente; c) o meio sócio-econômico o uso e a ocupação do solo, os usos da água e a sócio economia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização futura desses recursos.". 24. Vê-se, portanto, que, entre as exigências legais, está a de que o Estudo de Impacto Ambiental defina os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelo projeto, bem como realize o diagnóstico ambiental de sua área de influência, considerando os meios físico, biológico e sócio-econômico. Além disso, o Estudo de Impacto Ambiental deve conter uma completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto. 5 A PRÓPRIA TERRACAP QUESTIONA A CAESB SOBRE SOLUÇÕES PARA O ESGOTAMENTO SANITÁRIO DO SETOR VERTICAL SUL 25. No caso presente, a necessidade de estudo prévio de impacto ambiental é particularmente relevante em face dos questionamentos que a própria Terracap já formulou, em ofício dirigido à Diretoria de Sistema de Esgotos da CAESB, em relação ao esgotamento sanitário para o novo Setor. 26. Com efeito, em ofício dirigido à Diretoria de Sistema de Esgotos da CAESB, a Terracap pede a avaliação sobre problemas identificados no esgotamento sanitário para o novo Setor, como existência de lençol freático superficial e capacidade de suporte de drenagens naturais, a interferência de redes com o empreendimento e a existência de alternativas de esgotamento sanitário. 294

10 27. Fundamental, portanto, que o estudo prévio de impacto ambiental esclareça tais questionamentos em relação ao esgotamento sanitário, ao próprio abastecimento de água para o novo Setor e à drenagem de águas pluviais. Além disso, evidente o impacto de um projeto de tais dimensões sobre a malha viária de toda a região do entorno do Park Sul, que passará a sofrer congestionamentos de trânsito advindos de um acréscimo populacional estimado em 26 mil pessoas!!! 28. Finalmente, a Lei n 9.985, de 18/07/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, estabelece, em seu art. 36, que: Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental, assim considerado pelo órgão ambiental competente, com fundamento em estudo de impacto ambiental e respectivo relatório EIA/RIMA, o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta lei. par.1º - O montante de recursos a ser destinado pelo empreendedor para esta finalidade não pode ser inferior a meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do empreendimento, sendo o percentual fixado pelo órgão ambiental licenciador, de acordo com o grau de impacto ambiental causado pelo empreendimento. par.2º - Ao órgão ambiental licenciador compete definir as unidades de conservação a serem beneficiadas, considerando as propostas apresentadas no EIA/RIMA e ouvido o empreendedor, podendo inclusive ser contemplada a criação de novas unidades de conservação. par.3º - Quando o empreendimento afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento a que se refere o caput deste artigo só poderá ser concedido mediante autorização do órgão responsável por sua administração, e a unidade afetada, mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser uma das beneficiárias da compensação definida neste artigo 4. 4 A Resolução do CONAMA nº 13/90 já estabelecia, em seus arts. 2º e 3º, que, nas áreas circundantes das unidades de conservação, num raio de dez quilômetros, qualquer atividade que possa afetar a biota, deverá ser obrigatoriamente licenciada pelo órgão ambiental competente, e o licenciamento só será concedido mediante autorização do órgão responsável pela administração da unidade de conservação. 295

11 29. Vê-se, portanto, que, ainda que os limites do Parque do Guará fossem legalmente revistos, e fosse realizado o estudo prévio de impacto ambiental, o empreendedor (no caso, a Terracap) teria a obrigação legal de destinar, no mínimo, meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do Setor Habitacional Vertical Sul para a manutenção do Parque do Guará, nos termos do art. 36, 3º da Lei n 9.985/ DA DOUTRINA E DA JURISPRUDÊNCIA ACERCA DA NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO PRÉVIA DE ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL 30. A doutrina e a jurisprudência brasileiras já se consolidaram acerca da necessidade de realização prévia de Estudo de Impacto Ambiental-EIA, e de seu respectivo relatório RIMA, para quaisquer obras ou atividades de significativo impacto ambiental, para que este possa ser avaliado e medidas de mitigação possam ser exigidas pelo Poder Público, responsável pelo licenciamento ambiental. 31. Vejamos a lição de Édis Milaré 5, em sua obra referencial de Direito Ambiental: O Estudo de Impacto Ambiental (EIA), como parte integrante do processo de avaliação do impacto ambiental, é hoje considerado um dos mais notáveis instrumentos de compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente, já que deve ser elaborado antes da instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação. Esse importante instrumento de planejamento e controle ambiental decorre do princípio da consideração do meio ambiente na tomada de decisões, e diz com a elementar obrigação de se levar em conta o fator ambiental em qualquer ação ou decisão pública ou privada que possa sobre ele causar qualquer efeito negativo. A obrigatoriedade desses estudos significou um marco na evolução do ambientalismo brasileiro, dado que, até meados da 5 MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: Doutrina, prática, jurisprudência e glossário. Revista dos Tribunais. 1. ed

12 década de oitenta, nos projetos de empreendimentos apenas eram consideradas as variáveis técnicas e econômicas, sem qualquer preocupação mais séria com o meio ambiente e, muitas vezes, em flagrante contraste com o interesse público. A insensibilidade do Poder Público não impedia que obras gigantescas, altamente comprometedoras do meio ambiente, fossem erigidas sem um acurado estudo de impactos locais e regionais, com o que se perdiam ou se comprometiam, não raro, importantes ecossistemas e enormes bancos genéticos da natureza. A incorporação pelo Direito brasileiro desse instrumento preventivo de tutela ambiental estimulou a participação da sociedade nas discussões democráticas sobre a implantação de projetos, contribuiu para o manejo adequado dos recursos naturais, o uso correto de matérias-primas e a utilização de tecnologia de ponta, evitando altos investimentos futuros em equipamentos de controle e monitoramento Mais adiante em sua obra, Édis Milaré salienta que: Dado o seu papel de instrumento preventivo de danos, é claro que para cumprir sua missão deve ser elaborado antes da decisão administrativa de concessão da licença ou de implementação de planos, programas e projetos com efeito ambiental no meio considerado. Daí o nomen juris que lhe dá a Constituição: estudo prévio de impacto ambiental. Integrando o processo de licenciamento, o EIA não pode ser enxergado como um documento cartorial, burocrático apenas. Seu objetivo maior é influir no mérito da decisão administrativa de concessão da licença. É claro que omitindo-se o órgão público do seu poder-dever de exigir o Estudo quando presente o risco de deterioração significativa da qualidade ambiental, cabe ao Ministério Público (ou qualquer outro legitimado por lei), como tutor dos interesses sociais e individuais indisponíveis, atuar no sentido de garantir, inclusive na via judicial, a sua realização. 6 6 MILARÉ, Édis. "Direito do Ambiente: Doutrina, Política, Jurisprudência e Glossário". Revista dos Tribunais. 1. ed.. São Paulo: Revista dos Tribunais,

13 33. Também a jurisprudência dos nossos Tribunais já se consolidou na matéria: "Meio ambiente. Obra e atividade causadora de degradação. Estudo prévio de impacto ambiental e relatório. Obrigatoriedade. Abertura de edital de licitação simultaneamente com a elaboração do projeto executivo e dos estudos ambientais Inadmissibilidade (TJMG) RT 739/376." Ementa: Para o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente e para a instalação de obra e atividade potencialmente causadora de degradação do mesmo é necessária a apresentação do estudo prévio de impacto ambiental (EIA) e da aprovação do relatório de impacto ambiental (RIMA), consoante disposições contidas no art. 225, 1, IV, da CF, art.12, VIII, e art. 7, I, c/c o art. 6 da Lei 8.666/93, com a redação dada pela Lei 8.883/94, e na Res. N 001/86 do CONAMA. E para que o projeto de execução possa ser elaborado, minimizando as conseqüências da execução da obra, os estudos sobre o impacto ambiental devem ser feitos antes do processo licitatório, não se admitindo a abertura de edital de concorrência quando elaborados, simultaneamente, os estudos ambientais e o projeto executivo, para se evitar o desperdício de dinheiro público, se, ao final, concluíssem os estudos pela inviabilidade do projeto. AGP 924/GO; Agravo Regimental na Petição; DJ 29/05/2000, relator: Ministro Antônio de Pádua Ribeiro; Corte Especial. STJ. Direito ambiental. Preservação ao Meio Ambiental. Liminar. I - A decisão vergastada fez-se ao pálido dos pressupostos ensejadores da liminar, eis que caracterizado o grave risco ao meio ambiente, consubstanciado na deterioração definitiva das águas do lençol termal. É de ser mantida a liminar uma vez atendidos seus pressupostos legais. II Questões relativas a interesse econômico cedem passo quando colidem com deterioração do meio ambiente, se irreversível. III Agravo Regimental desprovido." 7 DA NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DE AUDIÊNCIA PÚBLICA 34. Conforme já salientado acima, é a própria Constituição Federal que exige a realização de estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade (art. 225, 1º, IV). 298

14 35. Já a Lei Orgânica do Distrito Federal estabelece, em seu art. 289, que o estudo prévio de impacto ambiental, ao qual se dará publicidade,... ficará à disposição do público por no mínimo trinta dias antes da audiência pública obrigatória Já a Resolução do Conama nº 09/87 estabelece, expressamente, que a audiência pública tem por finalidade expor aos interessados o conteúdo do produto em análise e do seu referido EIA/RIMA, dirimindo dúvidas e recolhendo dos presentes as críticas e sugestões a respeito. Segundo a referida Resolução, o órgão ambiental, a partir da data do recebimento do Estudo de Impacto Ambiental/RIMA, fixará em edital e anunciará pela imprensa local a abertura do prazo que será no mínimo de 45 dias para solicitação de audiência pública, devendo a audiência pública ocorrer em local acessível aos interessados. O art. 2º, 2º, da Resolução estabelece ainda que: no caso de haver solicitação de audiência pública e o órgão ambiental não realizá-la, a licença não terá validade. 37. Tamanha a importância da realização da audiência pública, como instrumento de participação popular na tomada de decisões sobre projetos causadores de significativo impacto ambiental, que a própria licença ambiental perderá a sua validade, caso a audiência pública não seja realizada. 38. Urge salientar que, em sede de danos ao meio ambiente, a obrigação de repará-los decorre do mero exercício da atividade ou conduta idônea a provocá-los, independentemente de culpa do agente (responsabilidade objetiva), exigindo-se, tão-somente, a comprovação do nexo causal (atividade/resultado lesivo). 8 DOS PEDIDOS 8.1 DO PEDIDO DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR 39. É fundamental destacar que o Ministério Público pretende, com o ajuizamento da presente ação civil pública, é assegurar o cumprimento da legislação ambiental e urbanística do DF, e que a ocupação do solo urbano se faça de forma ordenada e criteriosa, em atendimento ao Plano Diretor de Ordenamento Territorial e à legislação ambiental e urbanística. 299

15 40. O anúncio, já publicado pela imprensa, de que a Terracap pretende dar início à implantação do Setor Habitacional Vertical Sul, com impacto direto, e possível sobreposição sobre os limites do Parque do Guará e sem a prévia realização de Estudo de Impacto Ambiental, torna evidente a possibilidade de que se concretizem danos irreversíveis aos padrões urbanísticos e ao meio ambiente. Afinal, o projeto prevê a implantação de torres de até 27 pavimentos, com altura máxima de 85 metros, e de prédios de até 7 pavimentos, com altura máxima de 26 metros. Evidentes os impactos ambientais provocados por um empreendimento de tais proporções!! Ademais, a população estimada para o novo Setor de 26 mil pessoas põe em risco todo o sistema de esgotamento sanitário e de abastecimento de água para a região, e produzirá irreversível impacto ambiental sobre toda a Bacia Hidrográfica do Paranoá, cuja capacidade de suporte encontra-se praticamente esgotada, conforme estudos técnicos já realizados pela própria CAESB. Para que se tenha uma idéia, o Setor Sudoeste tem população estimada em cerca de 20 mil pessoas, e o novo Setor Habitacional Vertical Sul tem população estimada em cerca de 26 mil pessoas!!! 41. A jurisprudência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal já se manifestou no sentido da necessidade de concessão de medida liminar em situações análogas. Vejamos: 1. Processual Civil Agravo de Instrumento Ação Civil Pública Insurreição contra Decisão Liminar Risco de Dano ao Meio Ambiente Condomínio. A decisão liminar concedida em ação civil pública, com o viso de evitar eventuais danos irreparáveis em prejuízo ao meio ambiente, impende ser mantida em razão de elementos existentes nos autos quanto à implantação de Condomínio em área ambiental que se quer proteger e que está sendo ameaçada pela ação predadora de ocupações irregulares. Decisão: Conhecer mas improver o agravo de instrumento. Unânime. (Classe do Processo: AGRAVO DE INSTRUMENTO AGI DF) Registro do Acordão Número: Data de Julgamento: 16/06/1997 Órgão Julgador: 5ª Turma Cível Relator: DÁCIO VIEIRA Publicação no DJU: 03/09/1997. Pág.:

16 (até 31/12/1993, na Seção 2; a partir de 01/01/1994, na Seção 3) 2. Ação Civil Pública. Liminar concedida. Prudente arbítrio do Juiz. Risco de dano ao meio ambiente. Merece ser mantida a liminar concedida em ação civil pública intentada pelo Distrito Federal, pois o prosseguimento das obras de implantação de Condomínio irregular representa ameaça de danos ao meio ambiente. Trata-se de cautela necessária até final julgamento da ação principal. Decisão: Conhecer e improver. Unânime. (Classe do Processo: AGRAVO DE INSTRUMENTO AGI DF) Registro do Acordão Número: Data de Julgamento: 07/03/1994 Órgão Julgador: 1ª Turma Cível Relator: JOSE HILÁRIO DE VASCONCELOS Publicação no DJU: 06/04/1994. Pág.: (até 31/12/1993, na Seção 2; a partir de 01/01/1994, na Seção 3) 3. Mandado de Segurança. Apreensão de máquinas em loteamento irregular. Concessão de Liminar. - Nos termos do artigo 9, parágrafo 2 da Lei n 6902/81 a execução de obras em Condomínio irregular, situado nas Áreas de Proteção Ambiental sujeita os infratores à medida cautelar de apreensão de máquinas e materiais usados nessas atividades. - In Casu, a cautelar encontra respaldo ainda no artigo 35 da Lei n 4771/65 (Código Florestal). - A concessão de liminar satisfativa, todavia, torna sem objeto a segurança, ressalvadas as responsabilidades legais que do ato puderem resultar. Decisão: Julgar prejudicada a impetração, por maioria. (Classe do Processo: MANDADO DE SEGURANÇA DF) Registro do Acordão Número : Data de Julgamento: 08/06/1993 Órgão Julgador: Conselho Especial Relator: HERMENEGILDO GONÇALVES Publicação no DJU: 01/09/1993. Pág.: (até 31/12/1993, na Seção 2; a partir de 01/01/1994, na Seção 3) Diante do exposto, sem prejuízo das penas previstas para o crime de desobediência (art. 330 do Código Penal) e sob cominação de multa diária no valor de R$ ,00 (cem mil reais), devida pela prática de qualquer ato em desacordo com a ordem judicial, multa esta que deverá reverter ao Fundo de 301

17 Reparação dos Interesses Difusos Lesados (art.13 da Lei n 7.347/85, regulamentado pelo Decreto n 1.306/94), requer-se: 1) Sejam judicialmente requisitados, à Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do DF e à Terracap, cópia integral do projeto de parcelamento da área do Setor Habitacional Vertical Sul, com a sua exata delimitação geográfica (inclusive respectivas coordenadas); planta de localização do projeto e todos os estudos urbanísticos já realizados, a fim de que possa ser feita a plotagem das coordenadas geográficas do referido Setor com as coordenadas geográficas do Parque do Guará, estabelecendo-se prazo de 72 horas para o atendimento da requisição judicial, o que se requer com fundamento no art. 8º, par.2º da Lei n 7.347/85, que expressamente prevê a possibilidade de que a ação civil pública seja proposta desacompanhada de alguns documentos, cabendo ao juiz requisitá-los, uma vez que as requisições do Ministério Público não foram atendidas; 2) A concessão de MEDIDA LIMINAR, inaudita altera pars e sem justificação prévia, para determinar aos réus: 1 ) Obrigação de não fazer, a ser imposta ao réu Distrito Federal e à ré TERRACAP, consistente em abster-se de executar quaisquer atos tendentes à implantação física do Setor Habitacional Vertical Sul até que seja realizado novo EIA e apresentado seu respectivo relatório-rima, que deverá contemplar soluções técnicas viáveis para o esgotamento sanitário e o abastecimento de água para o novo Setor, bem como para a drenagem de águas pluviais, e até que o órgão ambiental convoque audiência pública, a fim de que o projeto e o EIA sejam expostos à sociedade e os interessados tenham a oportunidade de se manifestar, conforme determina a Resolução do CONAMA nº 09/87; pública. 8.2 DOS DEMAIS PEDIDOS Pede-se, ainda, ao final, e com fundamento no art. 288 do Código de Processo Civil, a TOTAL PROCEDÊNCIA DO PEDIDO, para: 1 ) Uma vez realizada a plotagem das coordenadas geográficas do Setor Habitacional Vertical Sul com as coordenadas geográficas do Parque do Guará, com base nas informações e dados requisitados judicialmente, e caso seja 302

18 constatada a sobreposição dos referidos limites, sejam os réus Distrito Federal e Terracap condenados à obrigação de não fazer, consistente na proibição de implantação do referido Setor sobre os limites oficiais do Parque do Guará, uma vez que, nos termos do art. 225 da Constituição Federal e do art. 22, 7º da Lei n 9.985/2000, a alteração dos limites de unidades de conservação ambiental só pode ser feita por meio de lei, e não por atos administrativos; 2 ) condenar definitivamente os réus à obrigação de não fazer, consistente na proibição da implantação do novo Setor Habitacional Vertical Sul até que seja realizado novo EIA e apresentado seu respectivo relatório - RIMA, que deverá contemplar soluções técnicas viáveis para o esgotamento sanitário e o abastecimento de água para o novo Setor, bem como para a drenagem de águas pluviais, e até que o órgão ambiental convoque audiência pública, a fim de que o projeto e o EIA sejam expostos à sociedade e os interessados tenham a oportunidade de se manifestar, condições sine qua non para a concessão do licenciamento ambiental, nos termos da Resolução do CONAMA nº 09/87; 3 ) condenar a ré, Terracap, empreendedora do projeto, à obrigação de destinar, no mínimo, meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do Setor Habitacional Vertical Sul para a manutenção do Parque Ezechias Heringer (mais conhecido como Parque do Guará), que está na área de influência direta do novo Setor, conforme determina o art. 36, 3º da Lei n 9.605/98. Requer-se, por fim: a) a CITAÇÃO dos réus; b ) a produção de todas as provas admitidas em Direito, notadamente documentos, depoimento pessoal dos representantes legais do réu, oitiva de testemunhas, realização de perícias e inspeções judiciais; c) condenação dos réus ao pagamento de custas e demais despesas processuais; 303

19 d) a intimação da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, para acompanhar todos os atos do presente processo. Atribui-se à causa o valor estimado de R$ ,00 (quinhentos mil reais), para efeitos meramente fiscais. JULIANA FERRAZ DA ROCHA SANTILLI Promotora de Justiça CRISTINA RASIA MONTENEGRO Promotora de Justiça 304

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