Confeccionador de Bolsa em Couro e Sintético

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1 Confeccionador de Bolsa em Couro e Sintético

2 Corte e Costura de Artefatos de Couro e Sintéticos SENAI-SP, 2010 Trabalho organizado, revisado e editorado pela Escola SENAI "Maria Angelina Vicente de Azevedo Franceschini" para o Curso de formação Continuada. Coordenação Luiz Francisco Rovere Organização Maria José Carneiro Avancini Revisão Domingos Panzarini Escola SENAI Maria Angelina Vicente de Azevedo Franceschini Rua Antonio Marcondes, 285 São Paulo - SP CEP Telefax (0XX11)

3 Sumário Couro 7 Introdução 7 Origens e aplicações 7 Camadas da pele animal 8 Composição química da pele 10 Regiões de uma pele 11 Elasticidade das peles 14 Tipos de peles 15 Classificação de couros 20 Controle de qualidade no setor de corte 22 Armazenamento do couro 27 Condições adequadas de armazenamento 28 Tecidos 29 Introdução 29 Urdume e trama 29 Classificação das fibras e fios 32 Não-tecidos 34 Reforços 36 Introdução 36 Recuperado de couro 36 Entretelas 37 Espuma 37 Sintéticos 39 Introdução 39 Laminados sintéticos 39 Origens e aplicações 39 3

4 Linhas e fios 42 Introdução 42 Linhas e fios 42 Obtenção das linhas sintéticas 46 Obtenção das linhas naturais 46 Processos equivalentes para fibras naturais e/ou sintéticas 47 Torção de linhas 48 Titulagem de linhas 49 Procedimentos para identificação das fibras de uma linha de costura 52 Adornos 54 Introdução 54 Adornos habituais 54 Matéria-prima dos adornos 56 Tratamento e acabamento de peças de adorno 57 Adesivos 59 Introdução 59 Conceito de adesivo 59 O processo de colagem 61 Formulação de um adesivo 64 Tipos de adesivos 65 Vida útil e tempo de estocagem do adesivo 67 Preparação de superfícies 68 Aplicação de adesivos 69 Materiais acessórios 71 Tintas 73 Introdução 73 Conceito de tinta 73 Componentes 73 Composição básica da tinta 74 O verniz 80 4

5 Solventes 81 Teoria geral das cores 82 Aplicação de tintas manual e mecânica 85 Máquinas 89 Introdução 89 Ferramentas 89 Máquinas 94 Outros tipos de corte automatizado 97 Máquinas de costura 99 Tipos de máquinas de costura e pesponto 99 Outros tipos de máquinas 103 Partes componentes da máquina de costura 104 Motor e acionamento 114 Limpeza e lubrificação de máquinas de costura 115 A Qualidade e você 119 Qualidaade invenção de japonê 120 Globalização da economia 121 ISO Série Simplificando o Trabalho 128 Método no trabalho 129 Perdas 130 Refugo 130 Retrabalho 131 Acidente zero, prevenção dez 133 Introdução 133 Conceituação de acidente de trabalho 134 Acidente de tabalho x acidente no trabalho 136 Consequências dos acidentes 139 5

6 Prevenir Acidentes é dever de todos 142 Introdução 142 O efeito dominó e o acidente 143 Atividades prevencionistas 145 Proteção coletiva X individual 148 EPI 152 Referências 153 6

7 Couro Couro Introdução Aqui é apresentada uma visão geral sobre o couro e sua manipulação no ambiente de uma empresa que produz artefatos em que ele entra como matéria-prima. O couro é apresentado como a pele curtida de animais com que se confeccionam bolsas, sapatos, cintos, carteiras, etc. Inicialmente o texto informa sobre a relação entre o couro e a vida do homem. Expõe pontos a respeito da estrutura do couro e das regiões de uma pele - ou couro. Mostra que cada região do couro curtido presta-se à produção de diferentes objetos, dependendo da finalidade que cada um deles tenha. Para isso examina ainda os tipos de pele existentes no mercado, sua classificação, defeitos que possam apresentar e o modo de armazenamento, de modo a não se deteriorar e estar sempre disponível em bom estado de conservação para o processo de produção. Origens e Aplicações A relação entre o homem e a pele de animais é muito antiga. O homem primitivo usava pele de grandes animais para deitar-se nelas, fechar as entradas das cavernas e vestia-se com peles de pequenos animais. Posteriormente, era utilizado para construir carroças, armaduras, escudos e depois, cadeiras, luvas, cintos, calçados. 7

8 O couro é considerado atualmente a matéria-prima mais nobre utilizada na indústria de calçados. Tem alto custo e certas empresas têm dificuldades para sua aquisição. Por isso e também por causa da tendência da moda e das exigências de venda do mercado, desenvolveram-se tecnologicamente outros tipos de materiais para confecção de calçados, como: laminados sintéticos, misto de couros, tecidos, etc. O couro é uma pele de origem animal, transformada em um material estável e imputrescível através do curtimento, para a confecção de calçados, por exemplo. O produto para curtir curtente - mais usado é o cromo. É chamado de pele o couro que, mesmo curtido, mantém os pelos ou a lã. Chama-se também de pele a camada que recobre o corpo de animais de pequeno porte, como cabra, porco, rã, etc. O couro bovino também denominado vacum é o mais empregado pelas indústrias. Entretanto, tem crescido a procura de couros suíno, caprino, eqüino, ovino e de outras espécies de animais como o jacaré, cobra, avestruz, rã, etc. Em alguns casos, de acordo com utilização do calçado, têm-se usado também materiais alternativos para apliques e adornos como bucho de boi e pés de galinha. Camadas da pele animal A pele é o revestimento externo do corpo dos animais. É formada por várias camadas e exerce ação protetora, além de várias funções fisiológicas, como as de regular temperatura do corpo e mantê-la constante. A pele do animal pode ser dividida em três partes: Camada superior: epiderme; Camada intermediária: derme; Camada inferior: hipoderme. 8

9 Observe no esquema abaixo cada uma dessas camadas e, a seguir, leia a explicação sobre cada uma delas: Epiderme Corresponde a pequena porcentagem de espessura de pele e é formada por várias outras camadas sobrepostas. Na epiderme encontram-se ainda pelos, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas, que são eliminados nas operações anteriores ao curtimento, como a depilação. Quimicamente é constituído basicamente de queratina que é um tipo de proteína insolúvel encontrada nos corpos de animais.. Derme É a camada de pele que será transformada em couro. É constituída por um entrelaçamento de fibras que permanece até o produto final. Podemos considerar a derme constituída de duas camadas: Camada superior, chamada de termostática. É composta por glândulas sebáceas, glândulas sudoríparas e folículos pilosos. A camada superior é que define o desenho do couro. É submetida a tratamentos especiais, que vão dar suas características finais de acabamento. 9

10 Camada inferior, denominada reticular, por apresentar um entrelaçamento fibroso com aparência de rede. As fibras da derme são constituídas principalmente de colágeno mas nela estão também outras proteínas como elastina e a reticulina. Embora tenha resistência menor que a flor, pode receber tratamento e ser utilizada para a confecção de calçados ou artefatos. Hipoderme É o tecido subcutâneo que une a pele aos demais tecidos internos do animal. Na hipoderme encontram-se gorduras, vasos sangüíneos e nervos. Essa camada é eliminada durante o processo de produção do couro na etapa de descarne. Histologia É o ramo da biologia que estuda a estrutura microscópica normal de tecidos e órgãos. Composição química da pele A pele em vida, quando ainda está no animal, tem a seguinte composição química: 64% de água; 34% de fibras colágenas ( proteína fibrosa ); 2% de lipídios; 1% de sais minerais; 1% de proteínas globulares; 1% de outras substâncias. Quanto mais velho o animal, maior será a quantidade de proteína fibrosa e menor a de água. 10

11 Regiões de uma pele A pele foi dividida em regiões conforme suas características, quanto a: qualidade, espessura e elasticidade. Observe o esquema abaixo que mostra uma pele e sua divisão em regiões. Em seguida, leia a explicação sobre cada uma delas: Grupon É a região mais nobre de uma pele. É rica em fibras de colágeno, apresenta melhor entrelaçamento das fibras e consequentemente, menor elasticidade, melhor estrutura fibrosa e poucos defeitos. Nesta região devemos cortar as peças principais, visíveis da peça a produzir. Cabeça É a parte que no esquema encontra-se à esquerda e mostra a área correspondente ao pescoço. A cabeça da pele é formada pela cabeça do animal, seu pescoço e ombros. Apresenta menor espessura, maior rigidez e grande incidência de defeitos. Nessa região devem ser cortadas peças pequenas, não visíveis. 11

12 Flancos Flancos são os lados da pele. São compostos pelas patas, barriga e culatra. É a região mais pobre em fibras de colágeno e com menor entrelaçamento delas. Em geral, os flancos têm pouca espessua e necessitam de encorpamento com resinas específicas no recurtimento. Devem ser cortadas nos flancos, peças que não sejam solicitadas - forçadas - em seu uso. Consistência das fibras De modo geral, existe variação de espessura do couro em cada região de uma mesma pele por causa da variação da consistência das fibras. Nas regiões mais espessas, como grupon e culatra, existe maior consistência, ou melhor entrelaçamento das fibras. Observe na figura a seguir a variação de espessuras nas diferentes regiões da pele. Corte transversal de uma pele inteira Quando se planeja o corte de um artefato no couro, deve-se considerar a relação entre a função da peça e a resistência que a região da pele possui. Se houver necessidade de maior resistência, a peça deve ser cortada na região do grupon, por exemplo. Caso não haja necessidade de resistência, em outras regiões com menor entrelaçamento de fibras. As áreas de maior e menor resistência no couro dependem da tração exercida sobre ele devido à movimentação dos animais. 12

13 A figura abaixo apresenta regiões de uma pele sujeitas a diferentes níveis de tração. O número 1 indica a região de maior resistência. É a região que sofre menor tração - corresponde ao dorso do animal. Os números 3 e 4 são regiões de menor resistência pois sofre maior tração - correspondem a barriga e pernas do animal. Essas regiões num animal vivo distribuem-se do seguinte modo: 13

14 Elasticidade das peles Além da tração, outra característica do couro a ser considerada na fabricação de artefatos é o sentido da elasticidade de uma pele. A elasticidade varia de acordo com raça e idade do animal, tipos de curtimento, engraxe e acabamento. A elasticidade é um fator que influencia o aspecto e a qualidade de um produto com por exemplo as alças de uma bolsa. As peles, sejam de origem vacum, eqüina, caprina ou suína, têm o mesmo sentido de elasticidade. Observe na figura a seguir, como se orienta a elasticidade em cada parte da pele. O sentido da elasticidade relaciona-se com a movimentação dos animais: A elasticidade no couro varia em função da idade, da raça do animal e do manuseio da pele. Animais em fase de crescimento, por exemplo, fornecem couro de maior elasticidade, com o sentido de elasticidade disposto de maneira diferente. Observe o sentido de elasticidade no couro de um animal jovem: 14

15 É preciso sempre verificar os sentidos de elasticidade no couro para saber como orientar o corte de artefatos, coerente com sua função. Tipos de peles As peles de diferentes animais, que curtidas, são utilizadas para confeccionar calçados, bolsas, cintos, carteiras, etc, apresentam características específicas e estruturas próprias. As principais peles encontradas no mercado são: 1. Vacum; 2. Caprina; 3. Suína; 4. Eqüina; 5. Ovina; 6. Outras peles. 1. Vacum As peles vacum provêm de boi, vaca, touro, bezerro, terneiro etc. Este tipo de pele é mais utilizada em função de seu tamanho, propriedades físico-mecânicas - movimentação, além de seu baixo custo, em função de grande quantidade de cabeças de gado vacum espalhadas pelo mundo. As peles recebem diversas denominações conforme tratamento recebido. 15

16 Wet-blue: termo técnico oriundo do inglês, wet que significa úmido ou molhado; e blue que significa azul, que é a coloração de todo couro curtido ao cromo. A partir do wet-blue, o couro é transformado em semi-cromo, podendo receber qualquer tipo de acabamento. Os tipos de couro mais comuns derivados do wet blue, dependendo de seu acabamento, são: Atanado: é um couro curtido com taninos vegetais. Muito utilizado para confecção de artesanato, especialmente em produtos que tenham sua superfície ornamentada com pirogravura, perfuração e outros. Dentre as suas principais características estão: toque acartonado - com consistência de cartão, pouca resistência a rasgo, calor e luz, além de apresentar quase que exclusivamente acabamento anilina. Napa vacum: couro semi-cromo normalmente com acabamento anilina ou semi-anilina. É um couro macio, podendo receber várias estampas. Sua espessura é um pouco superior à napa vestuário. Anilina: denominação comum atribuída a couros semi-cromo com acabamento anilina. O acabamento é realizado sobre couros com flor integral, que recebem uma camada de corantes, que dão cor, deixando bastante visível a flor do couro. Semi-acabado: é um couro seco, que já passou por todas as etapas que envolvem fulões. No semi-acabado restam apenas as operações de préacabamento e acabamento. Semi-acabado pode ser tingido ou não independente do tipo de curtimento sofrido (cromo ou tanino). Nubuk: couro semi-cromo, tingido na cor, e que recebe um tratamento com lixas (primeiro lixa grão 220 para dar aspecto aveludado, e segundo: lixa grão 380 para homogeneizar o efeito escrevente). 16

17 Verniz: couro semi-cromo com grande intensidade de defeitos na flor, tendo assim sua flor corrigida através da lixa. Após pode receber uma película de PU com alto brilho, ou ainda receber uma densa camada de tinta pigmentada e lacas de poliuretano para conferir auto-brilho. Relax: couro semi-cromo que recebe uma forte estampa (tipo flor quebrada). Pode tanto receber acabamento semi-anilina, como pigmentado. Geralmente quando o acabamento é anilina, o efeito de flor quebrada é conseguido através de um intenso trabalho mecânico de fulão a seco, denominado então relax fulonado. Croco: couro semi-cromo, porém o mais acartonado. Pode receber qualquer tipo de acabamento, mas o que realmente o caracteriza é a gravação que pode ser feita nele e que imita a pele de jacaré ou crocodilo. Napa Vestuário: é um couro curtido ao cromo, que recebe um leve recurtimento ao tanino, podendo ter acabamento anilina ou semi-anilina. Apresenta espessura entre 0,8 a 1,2 mm, maior maciez e elasticidade que a napa vacum. Semi-anilina: denominação comum atribuída a couros semi-cromo com acabamento semi-anilina. Este acabamento é realizado sobre couros com flor integral, no qual recebe uma camada de corantes e pigmentos. Comparando com o couro anilina, não tem um acabamento tão transparente em função da adição de pigmentos à tinta. Estes pigmentos têm como função: uniformizar a tonalidade de toda a superfície, além de cobrir levemente a flor do couro. 2. Caprina As peles caprinas provêm de cabra, cabrito, bode, etc. Esta espécie de pele, em função de sua fina espessura e tamanho, excelente aspecto visual e alto custo, tem utilização em bolsas e calçados de primeira classe e confecção de pequenos artefatos. A pele de cabra também caracteriza-se por ter a camada flor ocupando a metade da espessura total da pele. 17

18 As peles caprinas recebem diversas denominações conforme tratamento recebido: Pelica: couro semi-cromo, com acabamento anilina de alto-brilho transparente. Este efeito é obtido por meio da aplicação final de emulsões de resinas protéicas com a caseína; Napa: couro semi-cromo de grande maciez e elasticidade, apresentando acabamento anilina ou semi-anilina; Camurça: diferencia-se dos demais tipos de couro e peles, pelo fato de ter valorizado seu lado carnal através de um tratamento especial com o uso de lixas que conferem um excelente aspecto visual. No entanto a camada flor ainda permanece intacta, o que proporciona maior resistência. 3. Suína As peles suínas provêm de porco, leitão, etc. Apresentam quase a mesma composição de fibras das demais peles. A diferença está no fato de que a raiz do pelo atravessa toda a pele, chegando até a carne. Em razão disso, é que até mesmo na raspa de porco, aparecem perfurações referentes aos folículos pilosos. As principais aplicações de pele suína são em: forro e vestuário. As peles suínas recebem diversas denominações, dependendo do tratamento recebido. 18

19 Porco flor: de cada pele suína é extraído um porco-flor, que é composto pela camada flor mais a parte externa da camada reticular. Em função disso, é de custo elevado. É utilizado quase que exclusivamente em calçados sociais e vestuário. Eventualmente essas peles podem receber um tratamento especial pelo lado carnal através de lixas, dando origem a camurça de porco. Raspa de porco: de cada pele suína extraem-se, em média, 3 raspas. As propriedades físico-mecânicas delas são inferiores às da porco flor, bem como o aspecto visual. A raspa de porco tem seu emprego dirigido à forração de bolsas sociais. 4. Ovina As peles ovinas provêm da ovelha, carneiro, cordeiro etc. É um tipo de pele que se caracteriza por apresentar a camada termostática com mais da metade da espessura total dela. Nessas peles também existe grande quantidade de tecido adiposo - gordura - situada abaixo da camada flor. Proporciona, deste modo, o desprendimento das duas camadas. As principais aplicações da pele ovina são em: pelegos, gamulã, chamois, encadernação. 5. Eqüina As peles eqüinas provêm de cavalo e égua. Esse tipo de pele apresenta estrutura semelhante à da vacum, porém na região das ancas a estrutura das fibras é compacta - fechada, dificultando a penetração de produtos químicos utilizados no seu beneficiamento. Essa região é denominada espelho. Observe na figura a seguir, a localização do espelho na área da pele. 19

20 Fonte: Tecnologia dos materiais. Formação Supervisores 1a linha CTC SENAI RS. As principais aplicações da pele eqüina são em calçados, vestuários e forros. 6. Outras peles Existem outras peles, que são utilizadas para detalhes em artefatos, artesanatos, bolsas e calçados, mas em escala comercial bem menor. Podemos citar, por exemplo, as seguintes peles e suas aplicações: Roedores (coelho e chinchila): peleteria, vestuário; Répteis (cobra e jacaré): artefatos, calçados; Anfíbios (rã): artefatos, calçados; Peixes (tilápia, cação): decoração, artefatos, vestuário; Aves (pé de galinha e avestruz): decoração, artefatos. Classificação de couros O processo de classificação de couros se inicia em alguns casos com o animal vivo, porém isto nem sempre é possível. 20

21 O que é feito geralmente como primeira atividade é uma pré classificação de acordo com a cor da pele. Peles com cores mais claras têm maior valor econômico para curtumes. Em seguida procede-se ao processo de conservação adotado em frigoríficos ou matadouros: salga à seco, salmoragem, salga e secagem, secagem ou resfriamento. Depois dessa primeira classificação as peles passam pelo processo de curtimento. O produto resultante desse processo é o couro denominado Wet blue. Essa denominação se deve às características do couro curtido, devidas ao cromo usado no processo, que são: seu tom azulado e sua manutenção sempre molhado. O Wet blue, é classificado novamente de acordo com espessura, tamanho, estado de conservação, etc. Dependendo da quantidade de defeitos que apresentar, recebe uma classificação que varia de 1a até 7a. Os couros de primeira já quase não são mais encontrados no mercado nacional. Essa classificação e o tipo de acabamento é que irão determinar o preço do couro depois de acabado. Existem empresas que trabalham com uma classificação intermediária. Usam o couro de 3a subdividido em 3a A, 3a B e 3a C, por exemplo. Em algumas indústrias é feita uma nova classificação assim que o couro chega ao almoxarifado. Essa classificação define a matéria-prima para uso em cada um dos produtos a serem fabricados. Em alguns casos pode até determinar a devolução de um lote comprado. As remessas de couros enviadas ao setor de corte são classificadas de acordo com o trabalho dos cortadores. A classificação é feita com a finalidade de agrupar couros com características semelhantes e assim obter melhor resultado quanto a aproveitamento do material e produtividade do cortador. Alguns dos critérios observados para essa classificação do couro em lotes individuais para cortadores são: 21

22 Espessura: A espessura do couro é controlada para verificar se está de acordo com as especificações estabelecidas; Aparência do couro: Num primeiro momento, deve-se verificar se a tonalidade do material recebido está em conformidade com as especificações do pedido. A seguir são verificados: a regularidade dos poros e o brilho do material. Então, o couro é agrupado em lotes de aparência semelhante para não haver diferenças de tonalidade; Tamanho do couro: Embora não ocorram grandes diferenças no tamanho dos couros de um mesmo lote, é aconselhável que a numeração maior da coleção de navalhas seja utilizada nos couros de maior área. Isso possibilita melhor aproveitamento do material; Defeitos: Os couros com maior incidência de defeitos devem ser distribuídos proporcionalmente nos conjuntos de couro de melhor qualidade. Nos couros com defeitos serão cortadas peças menores ou peças em que pequenos defeitos não tenham importância. Controle de qualidade no setor de corte O controle de qualidade, principalmente do couro, é feito durante todo o processo de produção - desde o setor de compras até a expedição do produto acabado. É uma tarefa necessária pois a qualquer momento podem ocorrer problemas com manuseio por pessoas ou com operações em máquinas. No setor de corte, por exemplo, o controle de qualidade é feito basicamente observando-se dois aspectos principais: Defeitos existentes na matéria prima e Técnicas inadequadas de operação. 22

23 Defeitos existentes na matéria prima Os defeitos apresentados nos couros geram grande depreciação deles e consequentemente dos produtos. Os defeitos normalmente são identificados na flor -parte superior - e não devem ser utilizados em locais visíveis nos produtos. Regiões do couro com defeito são utilizadas em partes do produto não visíveis como foles, interior de alças e lingüeta, como no caso de uma maleta como esta da figura a seguir: Observe, agora, no esquema a seguir, as diferentes regiões do couro e a incidência de defeitos sobre elas. 1º menor número de defeitos; 2º médio número de defeitos; 3º maior número de defeitos. Os defeitos que o couro apresenta podem ocorrer durante a vida do animal, oriundos da esfola mal conduzida, da conservação ineficiente ou inadequada, bem como de erros no processo de transformação das peles em couro pelo curtimento. 23

24 Dentre os principais defeitos encontrados nos couros, os mais comuns são: Cicatriz de Bernes; Riscos de arame; Carrapatos; Cortes de esfola; Veias e estrias; Marcas de fogo (identificação); Flor solta; Mosca do chifre; Material murcho; Flor trincando; Cores desiguais; Manchas; Espessuras desiguais; Queimados; Buracos; Granas desiguais (porosidade); Dobras e pregas; Flor ardida; Marcação de lote e classificação; Furos por aguilhões, espinhos, parafusos, lascas de madeira; Material ressecado; Flor enrugada. Cicatriz de Bernes: é causada por larvas que são depositadas na pele do animal, pela mosca berneira. Essas larvas desenvolvem-se no animal durante um período de 5 a 7 semanas. Causa lesões em forma de nódulos que podem ser vistas tanto na flor, quanto no carnal. A cicatriz de berne pode aparecer em qualquer tipo de couro. É um defeito que não desaparece durante os processos de fabricação. Carrapatos: são insetos artrópodes que sugam o sangue dos animais. Podem ser encontrados isolados ou em grupo, principalmente na região da barriga. Ele causa marcas semelhantes às do berne, porém suas marcas são visíveis somente na flor. É um defeito que não desaparece nos processos fabricação. Pode ser amenizado conforme o tipo de acabamento que o couro recebe. Mosca do chifre: deixam marcas semelhantes a um furo de agulha. São geralmente encontradas em grande quantidade nas áreas do lombo do animal são bastante freqüentes em animais provenientes das regiões do Paraná e Mato Grosso do Sul. Este tipo de defeito é visível somente do lado da flor do couro. 24

25 Veias e Estrias: marcas de veias correspondem a vasos sangüíneos aparentes no couro do animal decorrente do estresse antes do abate. Este problema é resolvido com o procedimento correto no momento do abate. Usase o banho gelado no gado para constringir os vasos sangüíneos e a sangria até o esgotamento de todo o sangue do animal. Marcas de estrias são mais comuns em peles de fêmeas e em animais com mais idade. São formadas por pequenos sulcos no couro. Esses defeitos podem ser notados tanto na flor como no carnal, principalmente na região da barriga. Riscos de arame, cortes de esfola e buracos: são decorrentes de procedimentos incorretos com o gado, tanto no pasto quanto no abate. Os riscos são causados principalmente pela utilização de arame farpado para a contenção do gado no campo, espinhos e galhos de árvore. Os buracos podem ser causados por: uso de grilhões pelos peões, ferimentos causados no transporte por parafusos e pontas de madeira, etc. Existem também marcas de cortes de esfola que são ocasionados por facas no momento de retirar a pele do animal e muitas vezes pode traspassar o couro. As marcas de corte de esfola quando não traspassam o couro deixam a região mais fraca. Por isso, deve-se evitar nessa região, o corte de peças que possam ser forçadas. Marcas de fogo: são utilizadas pelo proprietário para identificação dos animais. Esta marcação pode ser feita tanto com ferro quente como com ferro gelado - resfriado com nitrogênio, deixando uma cicatriz que pode ser vista tanto na flor como no carnal do couro. Geralmente é feita na região do grupon porque permite visualização. Isso, entretanto, contraria a legislação especifica que regula a marcação de gado porque danifica o grupon. Flor solta: é o desprendimento da camada flor da camada reticular, formando bolhas ou rugas. Pode ser causado por má conservação, por mau emprego de produtos químicos, ou ainda por excessivo trabalho mecânico em fulões ou máquinas de amaciamento. Outro fator que contribui para o surgimento da flor solta é a temperatura dos banhos, pois o calor diminui a resistência do couro. 25

26 Flor trincada: é o defeito causado por bactérias que durante a conservação enfraquecem a flor do couro. Pode ser ocasionado ainda por problemas decorrentes dos processos de secagem e amaciamento mecânico. Flor ardida: a flor do couro apresenta certa aspereza, causada por bactérias resistentes aos sais, que digerem a flor da pele já durante o processo de conservação. Pode ainda ser causada por depilação excessiva, pois além dos pelos a depilação começa também a dissolver a camada da flor. Flor enrugada: Este defeito é o mais comum em peles de animais velhos, devido a falta de elasticidade na pele. Também pode ser causado pela falta de estiramento da pele no processo de curtimento ou por uma secagem forçada em estufas. Dobras e pregas: são oriundos das etapas de processamento do couro que envolvem máquinas com cilindros como: rebaixadeiras, máquinas de enxugar, prensas, etc. Se o couro não passar por essas máquinas completamente esticado, sairá com dobras em sua superfície. Grana desigual: ocorre quando em uma mesma peça de couro são verificadas diferenças na porosidade: os poros têm tamanhos diferentes. Isso pode ocorrer durante o processo de estampagem do couro. Técnicas inadequadas de operação: os problemas mais comuns podem ser: 26

27 Modelos trocados; Peças com lados errados; Pinos e vazadores da navalha quebrados; Riscos de caneta; Piques nas navalhas; Corte chanfrado (manual); Navalhas com lâminas tortas; Sentido de estiramento da peça atravessado; Colocações inadequadas Aparelhamento de cores e grana (porosidade); Falta de peças; Riscos de caneta; Armazenamento do couro A guarda da matéria-prima na empresa para uso em momentos planejados para seu uso é trabalho da maior importância pois cuida de sua manutenção e preservação. Resguarda o couro de dano, decadência, deterioração, etc. Há setores na empresa que não têm grandes problemas com isso. O setor de corte de uma empresa, por exemplo, trabalha somente com quantidades de matéria-prima necessárias para cortar o que está definido numa ficha ou num plano de produção. Desse modo, esse setor não tem grandes problemas com armazenamento. Já no caso do almoxarifado, onde se deposita todo o couro para uso no momento devido, é necessário observar certos critérios de guarda e manutenção, de modo a evitar que a qualidade do couro acabado sofra danos e a empresa, prejuízos. Esses critérios dizem respeito a: Temperatura Oscilações na temperatura favorecem a migração de substâncias que não estejam muito bem fixadas no couro. Nessas condições de variação, as graxas por exemplo, são substâncias mais sensíveis a essa situação, vindo a depositar-se na superfície do material. Em caso de temperaturas mantidas altas pode ocorrer o ressecamento do couro dificultando o seu posterior manuseio no processo de produção. 27

28 Umidade Couros depositados em ambientes frios, quando transferidos para depósitos cujo ambiente tenha condições de temperatura e umidade mais elevadas, estão sujeitos à ocorrência de condensação da umidade sobre a superfície. Isso pode provocar ataque de fungos que produzem manchas no acabamento do couro. A ação dos fungos evolui até deixar a flor totalmente sem brilho. Ventilação Uma boa ventilação é sempre importante para homogeneizar a temperatura e principalmente a umidade. Luminosidade A iluminação proveniente de fontes luminosas diversas, pode provocar alteração nas cores dos couros, principalmente em couros de cor clara. Esta ação pode causar escurecimentos ou clareamentos, manchamentos e migrações. A fonte luminosa de ação mais forte, é sem dúvida, o sol. Outras fontes também atuam sobre a superfície do couro, mesmo que de forma mais branda. Deve-se evitar, na medida do possível, a incidência direta de luz sobre a superfície dos couros. Condições adequadas de armazenamento Para que o armazenamento seja satisfatório em termos de manutenção e conservação do couro, algumas condições básicas são necessárias. Nesse sentido, recomenda-se que: o couro seja acondicionado em prateleiras para evitar o contato com o solo; se evitem pilhas muito grandes. Isso amassa e marca a superfície do couro; os couros sejam sempre que possível, guardados em sua embalagem original. Quando não for possível, deve ser enrolado com o lado da flor - acabamento, para dentro, para evitar a ação da luz sobre suas cores. 28

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