UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE PSICOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE

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2 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE PSICOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO NO AUTISMO E SUA RELAÇÃO COM O OUTRO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO ROBERTA VERÔNICA FERREIRA COSTA 2005

3 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO NO AUTISMO E SUA RELAÇÃO COM O OUTRO ROBERTA VERÔNICA FERREIRA COSTA ORIENTADOR: LUCIANO DA FONSECA ELIA Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicanálise Rio de Janeiro, 30 de novembro de 2005.

4 COSTA, Roberta Verônica Ferreira. A constituição do sujeito no autismo e o olhar do Outro. Rio de Janeiro: Instituto de Psicologia, UERJ, Orientador: Luciano da Fonseca Elia. Dissertação (Mestrado). UERJ: Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, Autismo. 2- Sujeito. 3- Outro. 4- Responsabilidade. 5- Clínica. I- Título

5 Dedico esta dissertação de Mestrado a todas as crianças autistas e psicóticas que pude conhecer e para as quais pude ser um pouco Outro nessa experiência inesquecível. E também ao meu afilhado BRUNO HENRIQUE, meu anjinho: a criança que me faz acreditar em todas as outras.

6 AGRADECIMENTOS À KÁTIA ALVARES DE CARVALHO MONTEIRO, pela amizade, credibilidade, respeito e por todas as possibilidades... À ANGÉLICA BASTOS e ANA BEATRIZ FREIRE, por todo o incentivo e força em meus momentos acadêmicos, sobretudo os mais delicados... A toda a EQUIPE DO NAICAP, pelo precioso e inesquecível trabalho que fizemos juntas. À JEANNE MARIE DE LEERS COSTA RIBEIRO, por todas as supervisões clínicas. A NELSON CALDAS (HUCFF-UFRJ), pelo incentivo Você vai longe. Aos meus AMIGOS - em especial, ALEXANDRE, FERNANDA E HELENA - pela força no início, meio e fim de tudo isso... Aos PROFESSORES DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA UERJ, por toda a transmissão. Aos COLEGAS DE MESTRADO, por todo o intercâmbio e momentos compartilhados. À CAPES, pela bolsa de estudos e todo o apoio em outras oportunidades. À COMANDANTE MUIÁRA e colegas da MARINHA DO BRASIL, por todo o incentivo. Às professoras ANGÉLICA BASTOS e SÔNIA ALBERTI, componentes da banca examinadora, pela presença e pelos significativos apontamentos. A LUCIANO ELIA, pela valiosa orientação. Aos meus pais JOANA e JOSÉ PAULO e à minha irmã CLAUDIA, pela força de sempre. A DEUS, acima de qualquer coisa.

7 RESUMO Essa dissertação apresenta algumas questões sobre o sujeito no autismo e sua relação com o Outro, partindo de um histórico da literatura do termo autismo para, posteriormente, trabalhar mais profundamente o tema na teoria psicanalítica de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Apostamos na possibilidade de advento do sujeito autista e apresentamos os processos de constituição do sujeito descritos por Lacan (alienação e separação) e da intervenção da metáfora paterna na sua estrutura para defender sua posição como uma resposta ao Outro, tendo como ponto de partida a questão da responsabilidade de cada um por sua condição de sujeito para pensar as particularidades da relação da criança autista com o Outro e seus objetos. Finalmente, são apresentadas algumas possibilidades de trabalho clínico em instituição com crianças autistas. Neste trabalho, pensamos a relação do sujeito autista com o Outro e seus objetos a partir dos processos de constituição do sujeito, mas levantamos como temas para futuros trabalhos a possibilidade de pensá-la com a teoria dos quatro discursos de Lacan e com a definição de sujeito na estrutura R-S-I (uma articulação entre dimensões real, simbólica e imaginária).

8 RESUMÉ Cette dissertation pose la question du sujet autiste dans son rapport à l Autre, prenant comme point de départ un cadre historique de la littérature centrée sur le terme d'autisme. Ensuite, la question est plus profondémente travaillée dans les théories psychanalytiques de Sigmund Freud et Jacques Lacan. Nous faisons le pari de ce que sujet autiste puisse advenir à travers le travail analytique et nous présentons les procès de constitution de sujet décrits par Lacan (aliénation et séparation), en y précisant l'incidence de la métaphore paternelle dans la structure pous tenir sa position comme réponse à l Autre, ayant comme point de départ la question de la responsabilité de chacun de sa condition de sujet pour penser les particularités du rapport de l'autiste à l`autre et ses objets. Finalemente, nous présentons quelques possibilités de travail clinique en institution avec des enfants autistes. Dans ce travail, nous pensons le rapport de l enfant autiste à l Autre et ses objets à partir des procès de constitution du sujet, mais nous signalons comme thème pour des travails postérieurs la question de penser la position du sujet autiste à partir de la théorie des quatre discours de Lacan et de la estructure R-S-I, soit l'articulation des dimensions du réel, du symbolique et de l'imaginaire

9 SUMÁRIO Apresentação Capítulo Uma breve revisão da literatura sobre Autismo Capítulo A constituição do sujeito e o olhar do Outro Capítulo A questão da responsabilidade no autismo Capítulo Implicações para um trabalho clínico possível Considerações Finais Referências Bibliográficas... 61

10 (...) as crianças denominadas autistas inquietam e fascinam. Aparentemente, não se consegue ficar indiferente diante delas. Ana Elizabeth Cavalcanti Paulina Schmidtbauer Rocha

11 Ilustração: O BERÇO Berthe Morisot (1872)

12 APRESENTAÇÃO Eu olhei para ela mais uma vez. Já há algum tempo nos encontrávamos no mesmo horário, na mesma sala. Entretanto, cada olhar meu, cada palavra proferida, cada oferta era terminantemente recusada. Era preciso estar ali como se não estivesse. E como é difícil supor um sujeito ali onde ele parece insistir em não se apresentar. Mas naquele dia foi diferente. Ela já estava na sala, parecia à minha espera, no mesmo horário de sempre. Brincava com um bambolê no chão, nos giros intermináveis que parecem fascinar as crianças autistas. Eu me aproximei e peguei um outro bambolê. Naquele momento, não usei palavras, apenas rodei o bambolê em meu braço. Ela se aproximou e eu estendi-lhe a mão, ainda em silêncio, que ela segurou. Juntas, fizemos o bambolê rodar. Ela esboçou um sorriso e me olhou através do espelho. Somente a partir disso, pôde suportar que eu lhe dirigisse o olhar, a palavra, o ato. Somente a partir disso, parece ter se permitido comparecer 1. O fragmento clínico citado não soa estranho para aqueles que trabalham com crianças autistas ou que, de alguma outra forma, as conhecem. Crianças que têm uma maneira bastante particular de se fazerem presentes, como em uma presença ausente. Se, em alguns momentos, parecem não notar a presença das outras pessoas, em outros parecem resistir bravamente a qualquer tentativa de aproximação seja a voz, o olhar, o toque ou qualquer outro apelo do outro de forma arredia ou silenciosa, mas sempre marcante. Nesse momento, em que elas estão ali parecendo não estar e parecem exigir do outro a mesma postura, como pensar o status do sujeito no autismo? Assim, o primeiro capítulo ilustra um histórico da literatura do autismo, suas primeiras definições médicas e a literatura psicanalítica a respeito. A análise histórica mostra que as definições de autismo não levam em consideração a dimensão de sujeito: ainda que haja divergências teóricas, a grande maioria dos autores adere a correntes de pensamento desenvolvimentistas. 1 Fragmento de uma experiência durante estágio no NAICAP Núcleo de Assistência Intensiva à Criança Autista e Psicótica, serviço infantil do Instituto Municipal Philippe Pinel, Rio de Janeiro, que se propõe a atender crianças autistas, psicóticas e neuróticas graves.

13 Entretanto, apesar da notória divergência teórica entre algumas abordagens apresentadas, um fato em comum se mostra central: a relação particular dessas crianças com as outras pessoas, no sentido de uma recusa radical à sua presença e a seus objetos (voz, olhar, toque). Inicialmente, quando descreveu o autismo infantil precoce como doença (e não mais como um estado psicológico, como até então era descrito por Bleuler), Kanner supôs algum funcionamento lógico nos aspectos fenomenológicos que observou nas suas pesquisas com crianças autistas embora posteriormente tenha aderido a uma visão mais organicista desses fenômenos. Isso parece ter aberto espaço para que se apostasse na possibilidade de subjetivação dessas crianças, sobretudo a partir da abordagem psicanalítica sobre o sujeito, acreditando que ele não existe a priori, mas é constituído na relação com o Outro. Freud aponta a relação precoce da criança com o Outro quando descreve a participação deste como seu auxiliador, importante no momento de desamparo constitutivo de todo sujeito enquanto bebê, no sentido de atentar para as suas necessidades (fome, sede, etc) e promover ações para satisfazê-las. Quais seriam então as condições para o advento do sujeito? O que é uma estrutura que o designa como tal? O sujeito se constitui a partir da relação que estabelece com o Outro, por isso faz-se pertinente e imprescindível pensar a questão principal do autismo: a relação particular que a criança autista estabelece com as outras pessoas, sua posição de sujeito. Sabe-se que a nomeação de um bebê não garante por si só a sua presença subjetiva: a subjetivação, para a Psicanálise, não é natural, mas tem a linguagem, enquanto dimensão própria do humano, como condição promotora da passagem do ser vivo para o sujeito. Trata-se, pois, de uma causação do sujeito. Lacan apresenta a alienação e a separação como processos constituintes do sujeito, apontando uma relação intrínseca entre sujeito e Outro, uma vez que esses campos não subsistem isoladamente: o sujeito é marcado pelo Outro, pelos seus significantes, e é a partir disso que se constitui como tal.

14 A constituição do sujeito e sua relação como Outro será abordada no segundo capítulo, tomando como direção o referencial psicanalítico de Freud, no que se refere às primeiras relações do bebê com o mundo, e mais profundamente de Lacan, quanto aos processos de alienação e separação e à metáfora paterna, com a intenção de oferecer um embasamento teórico que sustente a reflexão que permeia o terceiro capítulo, a saber, como pensar as relações particulares estabelecidas pelas crianças autistas com o Outro. Partindo da questão da responsabilidade e da causalidade psíquica, serão levantadas reflexões psicanalíticas acerca de aspectos fenomenológicos observados nessa clínica. No que se refere aos processos de sua constituição enquanto sujeito, veremos que a criança autista não está aquém da alienação, mas é fato que, neste processo, ela não afaniza, tampouco avança para a separação. O autista estaria então petrificado no significante S 1? A problemática do autismo também concerne à intimação que o Outro (a mãe) faz em seu discurso, no que se refere à presença ou ausência da função invocante de que fala Lacan. Assim, trata-se de uma dupla questão: qual o estatuto da criança autista enquanto sujeito e que estatuto tem esse Outro diante do qual ela assume essa posição tão radical? Lacan, ao afirmar que por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis 2, aponta a responsabilidade do sujeito por assumir uma posição frente ao Outro. Isso sustenta que o autismo não é pensado pela Psicanálise como um déficit estrutural frente ao que seria um desejável desenvolvimento ideal, mas como uma resposta de sujeito frente ao Outro. Essa responsabilidade não se refere a uma culpabilização e/ou ausência de investimento, seja por parte da mãe ou da criança, como poderiam incitar algumas linhas de estudo dessa clínica. A relação das crianças autistas com a linguagem, na medida em que esta se refere ao Outro, também se mostra bastante particular. É comum no discurso das mães de crianças autistas o relato de que elas começaram a falar na tenra idade e pararam certo tempo depois. Sabe-se que, mesmo que não falem, algo se fala delas e para elas assim, como pensar a sua relação com a linguagem? No momento algumas dessas crianças falaram, teria sido essa fala tomada como apelo? 2 LACAN, Jacques. A ciência e a verdade ( ). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 873.

15 Se é nas faltas do discurso do Outro que o desejo deste é apreendido pelo sujeito, o que pensar a respeito do Outro no autismo? Teria ele feito a intimação furada 3 através da qual é apontado para a criança o enigma do desejo do adulto? Se é a partir do Outro que a mensagem retorna ao sujeito invertida, como se deu essa relação entre a fala uma vez apresentada por essas crianças e o seu lugar no discurso do Outro? Laznik-Penot 4 relembra a loucura necessária às mães sobre o que nos alerta Winnicott, no sentido de atribuir algum sentido aos sons aparentemente indecifráveis de seus bebês, o que já mostra um certo endereçamento das mães à singularidade da criança 5. Tal como sustenta Soler, a criança autista está na linguagem, embora não esteja no discurso. Ela entra no campo da linguagem, mas não a faz função, não toma um significante para se fazer representar. E se a linguagem e mais especificamente, a fala - comporta uma dimensão de falta, nossa hipótese é a de que, justamente por não dispor de uma simbolização primordial que a implique, essa falta não é suportada por essas crianças, que recusam terminantemente a fala enquanto função. Elia 6 aposta que o autista prova da fala para poder parar de falar; ou seja, o parar de falar é um efeito desencadeado pela própria experiência falante, promotora de um gozo que o sujeito precisou experimentar como insuportável para poder recusar a fala: Será que podemos formular a hipótese de que é necessário ao sujeito experimentar o efeito do ato de falar, e portanto, como propusemos no início de nossa argumentação, um efeito de gozo, experimentado como insuportável para o sujeito, na medida em que o lança no circuito da demanda para um Outro que precisamente a massacra, a reduz à necessidade? 7 3 Uma falta é, pelo sujeito, encontrada no Outro, na intimação mesma que lhe faz o Outro por seu discurso. Nos intervalos do discurso do Outro, surge na experiência da criança, o seguinte, que é radicalmente destacável ele me diz isso, mas o que é que ele quer? LACAN, Jacques. O Seminário Livro 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p LAZNIK-PENOT, Marie-Christine. Rumo à palavra: três crianças autistas em psicanálise. São Paulo: Escuta, Durante uma entrevista com a mãe de uma criança autista no NAICAP, seu filho de 4 anos brinca com um telefone de plástico. Pergunto a ele: Você vai telefonar pra quem?, ao que imediatamente a mãe reage: Não adianta, ele não sabe que isso é um telefone e para que serve, coloca tudo no ouvido assim mesmo. A criança então se levanta, traz o telefone até mim e, colocando-o no meu ouvido, diz: Alô. 6 ELIA, Luciano. Desenvolvimento, estrutura e gozo. In: MARRAIO. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, Id. Ibidem.

16 Um outro aspecto interessante observado na clínica do autismo é o número maciço de crianças autistas do sexo masculino em comparação ao quantitativo infinitamente menor de crianças do sexo feminino que apresentam essa problemática. Estudos mundiais apontam maior prevalência do autismo em homens que em mulheres, no sentido de que a predominância dos meninos, segundo as investigações feitas, varia de 2,5 a 4,3 meninos para cada menina 8. Tomando como referência uma pesquisa mais recente 9, os dados apontam a prevalência de 80% de crianças autistas e psicóticas do sexo masculino, quadro bastante significativo frente ao quantitativo de 20% correspondentes ao sexo feminino. Haveria aí alguma relação com a vivência do Édipo? Somam-se a esse quadro a dificuldade que essas crianças apresentam para dormir (muitas chegam a passar dias acordadas) e a capacidade analgésica que parecem ter, raramente sentindo dor ou adoecendo, independente das circunstâncias a que se submetem. Partindo da premissa de que o corpo da criança é constituído como tal a partir do corpo simbólico, da sua apreensão na cadeia de significantes, o fato das crianças autistas não alcançarem esse corpo de significantes justificaria a ausência de reações corporais como dor, choro, gripe, etc. A dificuldade de dormir, por sua vez, poderia estar associada à ameaça que o sono implica a esse corpo vivenciado como fragmentado, já que quando o ato de dormir impele que o sujeito abra mão de sua pretensa unidade corporal, inexistente no autismo. A relação dessas crianças com outros corpos também tem sua particularidade: não raro vemos que o corpo do Outro é tratado por partes, como pedaços de corpo, como por exemplo quando as crianças utilizam as mãos deste para pegar os objetos que desejam e enfiam seus dedos nos orifícios alheios (olhos, boca, orelhas, nariz). Neste momento, o Outro é apenas a mão, os olhos, a boca, as orelhas, o nariz. No fragmento citado no início desta apresentação, vê-se claramente um exemplo disso: o Outro é a mão que balança o bambolê, a mão que segura a outra mão, o olho que olha pelo espelho. 8 Dados epidemiológicos retirados de um estudo realizado numa ilha japonesa no ano de 1972, citados em AJUIAGUERRA, J. Manual de Psiquiatria Infantil. Rio de Janeiro: Editora Masson do Brasil, Referência à pesquisa Estudo da Demanda (2001), realizada no NAICAP, Núcleo de Assistência Intensiva à Criança Autista e Psicótica, do Instituto Municipal Philippe Pinel, serviço de referência no atendimento de crianças autistas e psicóticas no Rio de Janeiro.

17 Assim como essas crianças apresentam uma relação bastante particular com o seu corpo e com o corpo do Outro, também a têm com relação a seus objetos (fezes, saliva, secreções), mais particular ainda quanto aos objetos que presentificam o Outro (olhar, voz, toque), tomando-os como insuportáveis. Finalmente, após a discussão acerca da relação da criança autista com o Outro, o quarto e último capítulo apresenta implicações psicanalíticas para um trabalho possível com essas crianças. Se a teoria se fundamenta na clínica (e vice-versa) quais seriam as implicações desse estudo para um trabalho clínico com crianças autistas? A teoria, por si só, não aborda o autismo, até porque a psicanálise é clínica e não pode dispor de outro lugar para seu aprendizado que não este. A pesquisa em psicanálise tem como especificidade a experiência da palavra que, tal como a clínica, coloca o sujeito como baliza, ressaltando porém, a causalidade psíquica de sua condição, tal como afirma Bastos: Se o tratamento psicanalítico foi considerado equivalente à construção da história, isso ocorreu em uma configuração da história da psicanálise que tentaremos circunscrever como um movimento contrário à idéia de causalidade natural e empenhado no resgate do sentido. O sentido de que se trata, no entanto, não é aquele que se compreende; também não se confunde com a significação, nem se reduz a ela, desembocando no não-sentido 10. Pensar um trabalho clínico que tome o autismo como uma posição do sujeito frente ao Outro denota uma aposta neste sujeito, ainda que ele não apareça. É preciso dizer, sem vacilar, que há sujeito ali para que de fato ele possa existir, e tomar as suas produções sonoras e corporais como ato, atribuindo-lhes valor significante. É importante tomá-las como material de trabalho e não como mera estereotipia ou manias, já que se essas crianças podem estar apontando aí algo da ordem do sujeito: uma passa o tempo abrindo e fechando portas, outra se interessar em organizar metodicamente os objetos, outra brinca com líquidos (água, tinta) de forma intermitente, e mesmo duas crianças que repetem a fala do Outro incessantemente podem não repetir as mesmas palavras. 10 BASTOS, Angélica. As histórias e a história. In: A psicanálise e o pensamento moderno. Regina Herzog (org). Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 61.

18 A ausência da fala manifesta-se nela pelas estereotipias de um discurso em que o sujeito, pode-se dizer, é mais falado do que fala: ali reconhecemos os símbolos do inconsciente sob formas petrificadas, que, ao lado das formas embalsamadas com que se apresentam os mitos em nossas coletâneas, encontram seu lugar numa história natural desses símbolos 11. É essa aposta do advento do sujeito no autismo que sustenta a possibilidade de um trabalho clínico psicanalítico com crianças autistas, já que a psicanálise é uma clínica do sujeito. Tão paradoxal quanto a escolha forçada do sujeito que é paradoxal porque, se por um lado, precede seu advento, por outro, o obriga a responder, como sujeito, a partir dela é a psicanálise com crianças autistas. Assim como a psicanálise com crianças não é uma especialidade da psicanálise, não se trata de apostar em uma psicanálise de autistas, mas em um trabalho psicanalítico que, somente e por ser psicanalítico, aposta no sujeito. 11 LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 281.

19 CAPÍTULO 1 UMA BREVE REVISÃO DA LITERATURA SOBRE O AUTISMO Há aqueles para quem dizer algumas palavras não é tão fácil. Chama-se isso de autismo. É ir rápido demais. Não é de todo forçosamente isso 12. Jacques Lacan O que dizer sobre aquele que não diz? Desde a sua descoberta, o autismo fascina e intriga. Quem é essa criança autista que, ao mesmo tempo em que é descrita pela negativa ( não faz relação, não fala ) e se mostra tão alheia ao mundo e às pessoas, parece tão absolutamente imersa na linguagem? De que sujeito se trata quando se trata de autismo? É recente a abordagem sobre a constituição do sujeito no autismo porque a própria clínica do autismo é nova. Pode-se dizer que os analistas ainda estão na sua porta de entrada : ainda não há uma teoria clínica constituída para o autismo tal como aquela descrita inicialmente por Freud com relação aos neuróticos. Mas os autistas estão aí e impelem ao trabalho, a questionamentos, a experiências. Como a criança autista se constitui sujeito e para tal, que estatuto dá ao Outro? A partir disso, quais as possibilidades psicanalíticas de trabalho com essas crianças e que posição é dada ao analista para tal? O termo autismo foi introduzido por Bleuler, psiquiatra alemão contemporâneo de Freud e membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Bleuler foi reconhecido por definir a schizophrenia (1908), conhecida como dementia praecox, não como uma demência que envolvesse deteriorizações orgânicas, mas como um estado mental em que tendências contraditórias coexistiam. Em 1911, utilizou pela primeira vez o termo autismo para designar como principais sintomas da esquizofrenia no adulto a perda de contato com a realidade e a impossibilidade de comunicação interpessoal, apresentando uma equivalência deste termo ao auto-erotismo definido por Freud, no que se referia ao investimento libidinal em si mesmo. 12 LACAN, J citado por RIBEIRO, M. A. C. In: Revista MARRAIO. Formações Clínicas do Campo Lacaniano. No 2. Rio de Janeiro, p. 07.

20 Entretanto, foi através da sintomatologia descrita por Leo Kanner (1943) como distúrbio autístico do contato afetivo e, posteriormente, autismo infantil precoce, que o autismo adquiriu o estatuto de entidade nosográfica. No que se refere a seus aspectos clínicos, Kanner 13 descreveu alguns casos de crianças autistas que chegaram à instituição com suposições diagnósticas diversas, mas cujo quadro clínico não se enquadrava em nenhuma classificação psiquiátrica existente até então 14. Tomando como referência algumas descrições de Kanner a respeito da condição apresentada por essas crianças - Donald parece quase se fechar em sua concha e viver no interior de si mesmo 15 ; Richard parece bastar-se a si mesmo em suas brincadeiras 16 ; Bárbara é passiva a maior parte do tempo, mas às vezes passivamente obstinada 17 ; Virginia se mantém afastada das outras crianças 18 - o que se percebe é que, ao mesmo tempo em que elas parecem não se dar conta da presença das outras pessoas, as vozes e olhares provenientes destas são vividos como uma invasão. Comprovando a inexistência de déficits cognitivos e/ou auditivos (na grande maioria dos casos era levantada a hipótese de surdez, haja vista a ausência de resposta dessas crianças), como guardavam a grande maioria das suspeitas, Kanner afirmou como distúrbio mais surpreendente (...) a incapacidade destas crianças de estabelecer relações de maneira normal com as pessoas e situações, desde o princípio de suas vidas 19. No início de suas pesquisas, na década de 40, Kanner remetia essas observações clínicas ao saber da psiquiatria clássica e também acreditava na possibilidade de alguma lógica reger as produções (verbais ou não-verbais) dessas crianças. Entretanto, alguns anos depois, ele se afasta desta abordagem clínica e, aliando-se a linhas teóricas mais organicistas, justifica o autismo por razões congênitas ou mesmo genéticas mas uma questão se impõe: até que ponto o autismo é um estado fenomenológico ou pode ser pensado como atrelado a uma estrutura? 13 KANNER, Leo. Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo (1943). In: Autismos. SCHMIDTBAUER, Paulina (org). Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem. Recife: Editora Recife, Algumas classificações psiquiátricas da época: demência precoce, oligofrenia e esquizofrenia infantil. 15 Id. Ibidem. p Id. Ibidem p Id. Ibidem. p Id. Ibidem. p Id. Ibidem. p. 156.

21 Não tendo sido comprovadas quaisquer deficiências cognitivas no quadro de autismo, a quarta edição do manual publicado pela Associação Americana de Psiquiatria o inclui no diagnóstico das desordens mentais definidas primeiramente na infância e adolescência. Em 2000, o DSM-IV foi substituído pelo DSM-IV-TR 20, permanecendo essa classificação junto a outras entidades nosográficas desencadeadas na infância, tais como a Síndrome de Asperger (caracterizada pela procedência normal da linguagem e do desenvolvimento cognitivo, mas por um atraso na interação social), Síndrome de Tourette (cujas características mais notórias são tiques motores e vocais rápidos, recorrentes e estereotipados) e outros transtornos considerados desiderativos e globais do desenvolvimento inespecíficos. Assim como o DSM, o CID-X 21 não inclui a subjetividade como critério para suas classificações, mantendo o autismo dentro dos critérios diagnósticos utilizados para as psicoses infantis e inserindo-o na classificação de Transtornos Globais do Desenvolvimento. Desde então, muitos caminhos foram traçados para pensar as particularidades das crianças autistas. Particularidades contraditórias, relações intrigantes dessas crianças com a linguagem, o Outro, os objetos, o próprio corpo. Se a neurologia descrevia o autismo como uma síndrome de determinação puramente orgânica, e a psiquiatria o considerava um distúrbio psicoafetivo ou mesmo uma doença geneticamente determinada, no campo da psicanálise os autores apresentaram visões bastante controversas quanto à conceituação do autismo. Margareth Mahler, adepta a uma corrente de concepções evolucionistas, afirmava o autismo como sendo decorrente de bloqueios no desenvolvimento, acreditando que as psicoses na infância eram desencadeadas por distorções no seio das relações precoces estabelecidas entre a mãe e o bebê. Ela descrevera três fases do desenvolvimento que considerava normal: o autismo primário normal (do nascimento aos 3 meses de vida), a simbiose (na qual o bebê ainda vê a mãe como uma extensão de si) e finalmente, a separação/individuação (a partir da qual a criança passa a investir no mundo externo). 20 AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5a ed. Washington D.C., ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento: CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

22 Ao definir o autismo primário normal, tomou como referência a metáfora freudiana do ovo do pássaro 22, ilustrando um tipo de funcionamento psíquico em que o bebê, como o embrião das aves, satisfaz suas necessidades de forma auto-suficiente e sem a percepção de uma realidade externa. Corretamente objetar-se-á que uma organização que fosse escrava do princípio de prazer e negligenciasse a realidade do mundo externo não se poderia manter viva, nem mesmo pelo tempo mais breve, de maneira que não poderia ter existido de modo algum. A utilização de uma ficção como esta, contudo, justifica-se quando se considera que o bebê desde que se inclua o cuidado que recebe da mãe quase realiza um sistema psíquico desse tipo (...) Um exemplo nítido do sistema psíquico isolado dos estímulos do mundo externo e capaz de satisfazer autisticamente (para empregar a expressão de Bleuler, 1912) mesmo suas exigências nutricionais é fornecido por um ovo de pássaro, com sua provisão de alimento encerrada na casca; para ele, o cuidado proporcionado pela mãe limita-se ao fornecimento de calor 23. Ela apostava que fatores constitucionais da criança (no sentido de uma predisposição a uma inadaptação ao ambiente) e os efeitos de fatores ambientais seriam necessários para que se desenvolvesse um autismo patológico. Melanie Klein, por sua vez, afirmava que as primeiras angústias vivenciadas no desenvolvimento da criança seriam de natureza psicótica e as defesas organizadas contra elas caracterizariam a posição esquizo-paranóide, própria aos primeiros meses de vida. A psicose infantil seria não somente uma persistência nessa fase para além do período considerado normal, mas também uma exacerbação dos modos de defesa devido à intensidade das pulsões agressivas que não puderam autorizar o desenrolar satisfatório das pulsões libidinais. Se a prova de realidade e a emergência da organização simbólica são consideradas alguns dos acontecimentos responsáveis pela superação da posição esquizoparanóide, no caso da psicose, o objeto original e o símbolo não são diferenciados no pensamento o que entravaria o acesso e o manejo do mundo simbólico. 22 FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental (1911). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XII. RJ: Editora Imago, Op. cit. p. 239.

23 Francis Tustin, por sua vez, definiu o autismo como uma defesa ante um encontro prematuro e traumático com o mundo externo que leva a criança a um retraimento profundo, comprometendo de forma avassaladora todo o processo de constituição da vida psíquica 24. Inicialmente apoiada na teoria kleiniana, em um segundo momento, sua obra teve forte influência do pensamento de Margareth Mahler. Tustin distinguiu quatro tipos de autismo: o autismo primário normal, que seria o momento sucessivo ao nascimento em que a criança estaria em um estado de indiferenciação com o outro, o autismo primário anormal, caracterizado pela permanência no estado anterior devido a atropelos na relação do bebê com o meio ambiente; o autismo secundário encapsulado, correspondente à descrição de Kanner e no qual a criança recusa qualquer contato com o objeto não-eu por conta de dificuldades de separação; e finalmente, o autismo secundário regressivo, desencadeado durante o processo que chamou psicose simbiótica. O terceiro momento de sua obra data de 1986 quando, ainda tomando Mahler como referência, ela postulou uma fase de autismo normal, a que o autismo patológico seria uma regressão, ampliando o conceito de autismo ao propor a existência de seu núcleo em pacientes neuróticos. Também nessa linha de pensamento, Bruno Bettelheim (1987) caracterizava o autismo como um estado de fechamento e ausência de relações objetais possíveis, no qual a criança sofre de uma espécie de marasmo infantil 25 e não possui um mundo imaginário. Ele propôs que o autismo fosse encarado como decorrente de uma experiência do bebê durante três ou mais períodos críticos do desenvolvimento: o primeiro, podendo ocorrer nos primeiros seis meses, período caracterizado principalmente pelo reconhecimento das pessoas próximas e recusa a pessoas estranhas; o segundo, dos seis aos nove meses, quando o bebê descobre os outros e conseqüentemente, o eu, começando a relacionar-se de forma diferenciada; e o terceiro, dos dezoito meses a dois anos de idade, quando o autismo é mais facilmente detectado, uma vez que é a idade em que a criança parece optar definitivamente por aproximar-se do mundo ou evitá-lo sob a forma de um alheamento físico e emocionalmente. 24 CAVALCANTI, Ana Elizabeth & ROCHA, Paulina Schmidtbauer. Autismo: construções e desconstruções. São Paulo: Casa do Psicólogo, BETTELHEIM, Bruno. A fortaleza vazia. São Paulo: Martins Fontes, p.51.

24 Sigmund Freud 26 já apontava a importância do Outro para o sujeito em uma relação bastante precoce, quando abordou a questão do desamparo e da experiência de satisfação como sendo a primeira relação do sujeito com este Outro, que ali teria função de auxiliador. Tomando como exemplo a fome, mostrou que o bebê necessita de uma ação específica externa, promovida por um outro que atente para seu estado aflitivo e testemunhe um valor de mensagem neste grito/choro, intervindo com um olhar não anônimo para satisfazer suas necessidades. Essa ação introduz a criança no mundo do simbólico, na medida em que esse desamparo não se refere apenas a uma questão biológica, mas à questão da linguagem, já que é ela que a lança ao desamparo e é pelo endereçamento atribuído a uma mensagem que ela toma sentido, havendo algum tipo de comunicação. A demanda do sujeito é então constituída nos passos da necessidade, na medida em que seria a transformação desta por sua passagem pelo Outro. Todavia, desses primeiros e mais importantes de todos os vínculos sexuais, resta, mesmo depois que a atividade sexual se separa da nutrição, uma parcela significativa que ajuda a preparar a escolha do objeto e, dessa maneira, restaurar a felicidade perdida 27. A distinção entre desejo, demanda e necessidade se apresenta em uma relação de deslizamento. A necessidade é referida a questões de ordem biológica propriamente ditas (comer, beber, dormir). A demanda seria a formulação dessa necessidade; ou seja, a introdução desta na ordem simbólica - a demanda transforma a necessidade, a oblitera, a opacifica 28. O desejo aparece então como efeito dessa dependência gerada pela demanda, na medida em que é o que resta quando se subtrai da demanda a necessidade. O desejo é definido por Lacan como uma defasagem essencial em relação a tudo o que é, pura e simplesmente, da ordem da direção imaginária da necessidade necessidade que a demanda introduz numa ordem outra, a ordem simbólica FREUD, Sigmund. Projeto para uma psicologia científica (1895). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. I. RJ: Editora Imago, FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a sexualidade (1905). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XII. RJ: Editora Imago, p MILLER, Jacques-Allain. Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p LACAN, Jacques. O Seminário Livro 5: As Formações do Inconsciente ( ). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor:1992. p.96.

25 A demanda se coloca numa comunhão de registro e linguagem, sendo dirigida como entrega de um todo de si e de suas necessidades a um Outro de quem o próprio material significante da demanda é tomado como empréstimo 30, uma vez que se trata de um processo circular. Assim, é através do Outro que o sujeito ingressa no mundo da comunicação, na medida em que é este quem dará sentido às suas ações, dirigindo-lhe um olhar não anônimo, dotado de capacidade discursiva 31. Freud indica usualmente, a mãe 32 como aquela que dirigirá esse olhar para a criança, na medida em que a tratará com sentimentos que se originam de sua própria vida sexual, tratando-a como o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo 33. No texto sobre o narcisismo 34, Freud aborda mais precisamente a representação da criança pelo olhar dos pais e a conseqüência desta para sua constituição enquanto sujeito. Ele desmonta a definição 35 de Paul Näcke, em que a idéia de narcisismo é considerada uma perversão que se refere a um estado que pode ser encontrado em muitas perturbações, e define o narcisismo como uma condição inerente a todo sujeito, tendo para este um caráter estrutural. A força motriz para Freud trabalha esse conceito de narcisismo e, conseqüentemente, elaborar a idéia de narcisismo primário e narcisismo secundário - foi a descrição dos casos de esquizofrenia e demência precoce. Fez-se necessário pensar como esses quadros clínicos estariam relacionados à teoria da libido, já que em ambos, o investimento sexual parecia estar ausente do mundo externo e os interesses desviados para uma megalomania. Se no caso dos pacientes histéricos ou neuróticos obsessivos havia uma substituição pela fantasia, nos parafrênicos essa substituição era secundária. 30 Id. Ibidem. p ANSERMET, François. Clínica da Origem a criança entre a medicina e a psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, p FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a sexualidade (1905). Op cit. p Id. Ibidem. p FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XII. RJ: Editora Imago, O termo narcisismo deriva da descrição clínica e foi escolhido por Paul Näcke em 1899 com a seguinte designação: a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo da mesma forma pela qual o corpo de um objeto sexual é comumente tratado que o contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia até obter satisfação completa através dessas atividades in FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). Op cit. p.81.

26 A questão que se colocava então era: como pensar a libido afastada dos objetos externos na esquizofrenia? A resposta parecia estar apontada pela megalomania característica desses casos, na qual a libido, afastada dos objetos externos, era dirigida para o ego, dando margem a uma atitude de narcisismo sendo assim a manifestação mais clara de uma condição que já existia previamente. Isso implicava considerar que o narcisismo que surge desta retração da libido até então direcionada aos objetos externos era secundário, superposto a um narcisismo anterior, então definido como primário. Freud exemplifica com a atitude afetuosa dos pais para com seu filho, reconhecendo que através dela eles revivem e reproduzem seus próprios narcisismos 36, já que sua postura emocional para com a criança é constituída basicamente por uma supervalorização, considerada estigma narcisista no caso da escolha objetal. Primeiramente concebida como Sua Majestade O Bebê no olhar dos pais, a criança abarca sobre si o que Freud chamou EU ideal, dotado de atributos de perfeição e valor. Essa imagem seria constitutiva do narcisismo primário e caracterizada pelo investimento original da libido no EU. Parte desse investimento inicial persiste e é posteriormente transmitido a objetos externos (amor objetal), o que mostra que o EU é concebido inicialmente como objeto original de investimento libidinal e, quando estabelecida uma dinâmica da libido como deslocamento, tem a possibilidade de investimento em outros objetos. Freud estabelece então uma relação entre o narcisismo e o auto-erotismo, até então descrito como um estado inicial da libido 37. Assim, Freud rompe com a primeira teoria pulsional, fazendo do EU objeto da pulsão sexual. Parte do princípio de que o ego deveria ser desenvolvido e ainda que as pulsões auto-eróticas estivessem ali sempre presentes, somente a partir de uma ação psíquica o narcisismo poderia ser construído: antes dela, as primeiras satisfações sexuais auto-eróticas eram atribuídas às funções vitais que serviam à finalidade de auto-conservação e, depois dessa ação psíquica, as pulsões sexuais delas se separariam. 36 O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocadamente revela sua natureza anterior in FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). Op. cit. p Id. p.84.

27 O grande marco deste texto parece ser a constatação de que o EU não está ali desde sempre e que seu desenvolvimento consiste no afastamento do narcisismo primário e na constante busca de sua recuperação através da formação de um ideal. Para Freud, portanto, o EU é constituído a partir dessa ação psíquica acrescentada à dispersão auto-erótica para que o sujeito possa unificar-se em seu narcisismo. É o olhar do Outro (inicialmente encarnado pelos pais) através da projeção de uma imagem idealizada sobre a criança que funda esse narcisismo primário infantil. A queda desse ideal de perfeição (característico da Sua Majestade o Bebê ) se dá justamente quando, na formação desta imagem especular, opera um Outro barrado, com uma falta que nenhuma imagem idealizada deste bebê pode suprir. Em termos gerais, o que este Outro primordial faz é demandar que o sujeito demande, já que a perda que afeta o sujeito e o Outro permite a subtração de gozo com a coisa e intima ao desejo, que vem do Outro 38. É por esta razão que Lacan afirma que só há um lugar possível ao sujeito: no significante, que está no campo do Outro, ao qual ele confere o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito 39. É neste sentido que Lacan afirma que o sujeito é produzido dentro da linguagem que o aguarda, sendo seu efeito - e não seu agente. Lacan aposta no advento do sujeito (e não na sua existência a priori) e explora as condições necessárias para tal. Uma primeira referência é encontrada quando ele descreve o estádio do espelho como formador da função do eu. Lacan cita exemplos de animais que necessitam visualizar a experiência de congêneres para adquirir um reconhecimento e os diferencia do homem, afirmando que neste último, não se trata de uma experiência meramente mimética: o reconhecimento de sua imagem no espelho repercute na criança uma série variada de ações com relação ao seu corpo, às pessoas e aos objetos. Trata-se da identificação que se constitui matriz para todas as identificações subseqüentes. 38 VORCARO, Ângela. Crianças na Psicanálise Clínica, Instituição e Laço Social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, p LACAN, Jacques. O Seminário Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p

28 É essa captação pela imago da figura humana (...) que domina, entre os seis meses e os dois anos e meio, toda a dialética do comportamento da criança na presença de seu semelhante (...) Essa relação erótica, em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena, em si mesmo, eis aí a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu 40. Lacan atribui um fundamento simbólico à experiência do estádio do espelho, afirmando que, como identificação primordial, ele se apresenta como uma experiência mais constituinte do que constituída 41. É a palavra do Outro que vai permitir, a partir da constituição dessa primeira imagem, a confirmação do estatuto de sujeito, uma vez que a imagem por si só atesta essa diferenciação apenas no mundo visível, enquanto que o advento do sujeito necessariamente parte da dialética do sujeito com o Outro. É através da relação afetuosa da mãe que o corpo da criança é erogeneizado, não como uma conseqüência da satisfação de suas necessidades biológicas, mas referido a um olhar, tal como afirma Jerusalinski: há sem dúvida um olhar materno que (...) pode ser chamado de função no sentido descritivo do papel que cabe como primeiro objeto que se oferece a ser simbolizado 42. Lacan explicita essas funções da mãe e do pai para além da satisfação das necessidades afirmando que essa transmissão se dá no sentido de uma constituição subjetiva, implicando a relação com um desejo que não seja anônimo 43 : já que no início da sua vida o homem não está neurologicamente apto a fazer uma representação de sua unidade corporal, é o pensamento do Outro que dará à sua imagem no espelho a idéia desta unidade (seu próprio EU visto como outro). Trata-se do estádio do espelho, que Lacan descreve como aquele que reenvia ao sujeito uma imagem de sua unidade corporal à medida que o Outro dá o sentido 44, assim também prescindindo do simbólico. 40 LACAN, J. A agressividade em psicanálise (1948). In: Escritos. Op. cit. p LACAN, J. O estádio do espelho como formador na função do eu (1949). In: Escritos. Op. cit. p JERUSALINSKI, Alfredo. Psicanálise do Autismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984 citado por STEFAN, Denise Rocha in: O que a clínica do autismo pode ensinar aos psicanalistas. Salvador: Ágalma, p LACAN, Jacques. Notas sobre a criança (1969). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p NOMINÉ, Bernard. A questão do sintoma e a problemática do corpo no autismo. In: ALBERTI, Sônia (org). Autismo e psicose na clínica da esquize.rio de Janeiro, Marca D Água Livraria e Editora, p.237.

29 É um olhar que mostra, há aí a questão da mostração, o investimento desse Outro. O investimento ultrapassa os cuidados da necessidade, não é disso que se trata: o investimento tem a ver com essa palavra que se endereça a um sujeito e que mostra efetivamente que ele é desejado 45. O corpo é então constituído como efeito de um investimento pulsional, como lugar de inscrição de significantes. A junção do sujeito com o corpo se efetua sob a forma de corte, que Lacan destaca nas pulsões parciais como caráter de borda, em que são reconhecidas as zonas erógenas. Esse enodamento entre surgimento do sujeito e enlaçamento do circuito pulsional 46, é definido por Lacan em três tempos: o circuito começa na borda, dirige-se ao vazio do objeto faltoso e retorna após contorná-lo através da mediação com o Outro. (...) não há dois termos nessas pulsões, mas três. É preciso bem distinguir a volta em circuito de uma pulsão do que aparece mas também por não aparecer, - num terceiro tempo. Isto é, o aparecimento de ein neues Subjekt que é preciso entender assim não que ali já houvesse um, a saber, o sujeito da pulsão, mas que é novo ver aparecer um sujeito. Esse sujeito, que é propriamente o outro, aparece no que a pulsão pôde fechar seu curso circular. É somente com sua aparição no nível do outro que pode ser realizado o que é da função da pulsão NAZAR, Maria Teresa Palazzo. Tempos modernos. In: ALBERTI, Sonia. O adolescente e a modernidade. Congresso Internacional de Psicanálise e suas conexões. Tomo I. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, p LAZNIK-PENOT, Marie-Christine. Quando a alienação faz falta. In: O que a clínica do autismo pode ensinar aos psicanalistas. Op. cit. p Id. Ibidem.

30 Representação gráfica do circuito da pulsão 48 No caso da criança autista, essas zonas parecem não fazer borda, não serem tomadas num circuito pulsional. É como se os significantes se dispersassem no corpo, trazendo um gozo sem lei nem coordenação, não impedindo a criança de ser o corpo do Outro e de gozar de seu objeto na própria relação em que ele é objeto do Outro 49. Isto denota a diferença de posição do Outro na criança autista e o fato de que seu EU não se constitui como um EU corporal. (...) na posição autística o sujeito não se deixa representar por um significante junto ao Outro. É por isso que ele não utiliza a linguagem para cifrar seu gozo, ele não utiliza os significantes da demanda do Outro para recuperar essa parte perdida dele mesmo. Retomando a metáfora de Freud, é a boca que beija a si mesma. O que nos faz falar é que situamos o que nos falta do lado do Outro, é por isso que aceitamos endereçar-lhe nossas demandas. O autista não situa seu objeto no Outro, mas em contrapartida, ele considera a si mesmo como seu próprio objeto, e isso significa que ele não é objeto de ninguém mais (...) posição autística seria caracterizada por uma recusa primordial e radical do sujeito diante dessa posição de objeto do Outro LACAN, Jacques. O Seminário Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op cit. p NOMINÉ, Bernard. A questão do sintoma e a problemática do corpo no autismo. In: ALBERTI, Sônia (org). Autismo e psicose na clínica da esquize.rio de Janeiro: Marca D Água Livraria e Editora, p NOMINÉ, Bernard. O autista: um escravo da linguagem. In: MARRAIO. Formações Clínicas do Campo Lacaniano. n o 2. Rio de Janeiro, p.16.

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32 CAPÍTULO 2 SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO Uma vez reconhecida a estrutura da linguagem no inconsciente, que tipo de sujeito podemos conceber-lhe? 51 Jacques Lacan Freud tematizou a constituição do EU ao abordar o caso de psicose de Schreber 52 e o conceito de narcisismo 53, ressaltando em ambos a importância e a presença do Outro na relação com o EU. Seus trabalhos também alertaram sobre o simbolismo e a sobredeterminação significante, encontrados nos fenômenos que caracteriza como psicopatologia da vida cotidiana, a saber, sonhos, chistes e atos falhos, entre outros. Essa relação tão direta com o inconsciente parecem ter aberto caminho para que Lacan formulasse a questão a questão do sujeito referido ao inconsciente, não como algo empírico, mas contingente; ou seja, podendo não ser outra coisa senão aquela que se tornou depois que algo (significante) ali se inscreveu de alguma forma. Se o sujeito inevitavelmente encontra a questão de seu sexo e a de sua contingência no ser 54, isso mostra que ele não se refere à personalidade propriamente dita, mas a uma estrutura constituída a partir de identificações que, por ser passível de ter qualquer uma delas, não admite uma relação prévia de causa-efeito que determine sua existência como tal. Partindo da idéia de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Lacan propôs uma topologia sobre a constituição do sujeito, cuja dinâmica define, tal como Freud, em sua essência, de ponta a ponta, sexual 55 - portanto, referida à pulsão. A essência da pulsão é ser parcial e por não representar completamente a tendência sexual, ela só é manifestada no psiquismo através de seus representantes e equivalentes. 51 LACAN, Jacques. Subversão do sujeito e dialética do desejo (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p FREUD, S. Notas Psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (Dementia Paranoides) (1911). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XII. RJ: Imago, FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Op. cit. 54 ANSERMET, François. Clínica da origem: a criança entre a medicina e a psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, p LACAN, J. O Seminário Livro 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p. 193.

33 Entretanto, longe da sexualidade ser reduzida a fins de reprodução - o que a caracterizaria em um plano meramente biológico - não existe nada no psiquismo que defina para o sujeito o ser macho ou ser fêmea. Tal como Freud apontou 56, o objeto da pulsão é o que ela tem de mais variável, pois independente de qual seja, visa cumprir sua finalidade, a saber, a satisfação pulsional. Assim, a sexualidade não seria distinta como masculina ou feminina, mas teria como polaridades a atividade e a passividade, a que o sujeito responde independente de sua questão anatômica, como aponta Alberti: (...) se é a linguagem que determinará a sexualidade do sujeito, podemos dizer que um menino não se reconhece como menino porque biologicamente nasce com um pênis, mas sim porque, ao nascer com um pênis, normalmente é reconhecido como menino pelo Outro: há o desejo do Outro que dele faz um menino, mesmo que às vezes possa ocorrer o contrário 57. É a partir deste ponto que Lacan pensa o Outro para o sujeito como a única via que este dispõe para saber o que deve fazer, também como homem ou como mulher - a sexualidade se instaura no campo do sujeito por uma via que é a da falta 58 ; ou seja, o sujeito deduz sua sexualidade a partir de algo que não é ela mesma, mas seus representantes. Lacan aponta a existência de duas faltas: a primeira, uma falha central, estrutural por assim dizer, em torno da qual gira a dialética do advento do sujeito a seu próprio ser em relação ao Outro 59 : o sujeito, para constituir-se como tal, depende do significante, que está primeiro no campo do Outro. A segunda falta pode vir a ser recoberta pela primeira através do processo de separação e corresponde à reprodução sexuada, quando o vivo perde uma parte sua de vivo para constituir-se sujeito. Trata-se aí de uma falta real, porque se reporta a algo de real que é o que o vivo, por ser sujeito ao sexo, caiu sob o golpe da morte individual FREUD, S. As pulsões e seus destinos (1915). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, ALBERTI, S. Esse sujeito adolescente. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, p LACAN, J. O Seminário Livro 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p Id. Ibidem. p Id. Ibidem. p. 195.

34 A linguagem tem então uma dimensão que é de morte: a morte do ser para o advento do sujeito. O primeiro nascimento do sujeito é, então, na linguagem, o que atesta sua dependência significante 61 ao lugar do Outro. Evidentemente, não basta a existência do Outro por si só, é preciso que o sujeito tome o seu lugar nesta topologia que Lacan formula com as operações constituintes do sujeito, a saber: a alienação e a separação. Ele apresenta dois campos distintos: inicialmente, do lado do que poderá vir a ser sujeito, só há puro ser vivo; e do outro lado, há o Outro, definido como lugar do significante a partir da qual o sujeito poderá vir a se constituir. Enquanto puro ser vivo, ainda não é pulsional. É no lado desse vivo, quando chamado à responder pela intervenção do Outro, que a pulsão virá se manifestar. Esquema representativo da alienação 62 Lacan coloca o Outro como lugar onde se situam as coordenadas simbólicas que presidem e possibilitam a constituição do sujeito, e a linguagem que, na dimensão do Outro, preexiste e condiciona o seu advento: o significante, nesta dimensão, passa a ser não apenas o que governa o discurso do sujeito, mas o que governa o próprio sujeito 63. Assim, é no Outro que as palavras tomam sentido: o sujeito, como emissor, receberá do Outro (receptor) sua própria mensagem, de forma invertida. Neste sentido, admite a relação do sujeito com o Outro no processo de sua constituição como sendo marcada por um movimento circular, no qual o significante é produzido no campo do Outro e definido como aquilo que vai representar o sujeito para outro significante. 61 Id. Ibidem. p Id. Ibidem. p FERNANDES, Lia. O olhar do engano autismo e o Outro primordial. Op. cit. p.39.

35 O ser do sujeito está sob o sentido. Se a escolha for pelo ser, o sujeito desaparece, cai no não-senso. Se for pelo sentido, ele só subsiste decepado dessa parte do não senso, que é justamente o que constitui o inconsciente na realização do sujeito. Na medida em que é produzido no campo do Outro, o significante faz surgir o sujeito de sua significação 64. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a responder como sujeito. Entretanto, esse significante tem como efeito a afânise, ou seja, o desaparecimento do ser, na medida em que o faz desaparecer sob o significante que ele se torna. Assim, ao mesmo tempo em que o significante designa o sujeito (já que antes dessa representação ele inexiste), ele o anula, pois o sujeito não é o ser vivo, mas aquilo que o significante representa. Diante dessa mortificação do ser, promovida pelo advento do significante que o faz desaparecer, somente o segundo significante e a conseqüente articulação da cadeia significante - irá permitir que o sujeito apareça nesse intervalo, nessa fenda, por assim dizer, quando um primeiro significante reenvia a um segundo significante da cadeia. Entretanto, a união do sujeito com o Outro deixa sempre uma perda: ele não pode ser inteiramente representado pelo Outro e sendo assim, é definido por um significantemestre e tem parte de si deixada de fora desta representação. Se o sujeito, em um primeiro momento (lógico) se petrifica em um significante para vir a ser algo, ele deverá fazer um movimento de sair dessa petrificação, para que possa haver deslizamento de sentido e construir seu desejo, já que é do Outro, enquanto falta em seu discurso, que ele deriva enquanto sujeito. Sem essa falta, ele não tem outra alternativa a não ser ficar petrificado naquele significante primeiro de sua constituição. Trata-se aí do Outro sob dois aspectos: como tesouro de significantes, lugar primeiro para o sujeito; e como aquele que porta uma falta. É a afânise que permite ao sujeito salvar-se dessa petrificação no primeiro significante, fazendo-o aparecer de um lado como sentido e desaparecer de outro pelo non-sense. A alienação constitui então um momento de petrificação e um movimento de afânise. 64 LACAN, J. O Seminário Livro 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p.197.

36 (...) o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa para o sujeito, para um outro significante, o qual outro significante tem por efeito a afânise do sujeito. Donde, divisão do sujeito quando o sujeito aparece em algum lugar como sentido, em outro lugar ele se manifesta como fading, como desaparecimento. Há então, se assim podemos dizer, questão de vida e de morte entre o significante unário e o sujeito enquanto significante binário, causa de seu desaparecimento 65. O sujeito aparece então no intervalo entre os dois significantes (unário e binário), atestando a afânise como a essência alienante 66, já que é ela que permitirá a separação, onde o Outro é finalmente posto em evidência em seu próprio limite, na falta que também lhe é constituinte. A intersecção que constitui o sujeito surge do recobrimento das duas faltas: a que se encontra no Outro, na intimação que este faz ao sujeito por seu discurso, e naquela que surge na experiência da criança como a marca de uma falta primeira, referida ao desejo ele me diz isso, mas o que é que ele quer? 67. É questionando sobre o que este Outro quer dele, que o sujeito reconhece aquilo que lhe falta, veiculando a sua demanda à demanda do Outro, razão pela qual Lacan afirma que: os processos devem, certamente, ser articulados como circulares entre o sujeito e o Outro - do sujeito chamado ao Outro, ao sujeito pelo que ele viu a si mesmo aparecer no campo do Outro, do Outro que lá retorna. Este processo é circular, mas, por sua natureza, sem reciprocidade. Por ser circular, é dissimétrico 68. Lacan utiliza um losango para apresentar a alienação e a separação, e designar o que chama de processo de borda, processo circular 69 através de direções vetoriais apresentadas no sentido inverso aos dos ponteiros do relógio. 65 Id. Ibidem. p Id. Ibidem. p LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem (1953). Op. cit. p LACAN, Jacques. O Seminário Livro 11 Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p LACAN, J. O Seminário Livro 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Op. cit. p.198.

37 Algoritmo do gráfico lacaniano 70 O V da metade inferior do losango constitui o vel da alienação, na qual estariam a petrificação do sujeito no S 1 e seu processo de afânise, enquanto que o V da metade superior do losango constitui o processo de separação. Entre os dois campos delimitados por Lacan o campo do sujeito (ser) e o campo do Outro (sentido) a alienação e a separação seriam as operações constituintes do sujeito. O vel da alienação condena o sujeito a só aparecer nesta divisão em que ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante; e de outro como afânise. Trata-se de uma escolha que implica no seguinte: na reunião entre as duas dimensões (ser/sentido), há um círculo que comporta que, qualquer que seja a escolha que se opere, há por conseqüência nem uma, nem outra ; ou seja, a escolha é apenas a de saber se pretende guardar uma das partes fazendo a outra desaparecer. Trata-se de alguma coisa que concerne ao Outro, e que é aceita pelo sujeito de tal maneira que, se ele responder a respeito de uma coisa, sabe que, por isso mesmo, será acuado acerca de outra 71. Esse vel da alienação não é uma invenção arbitrária: ele está na linguagem. O sujeito como tal só pode ser reconhecido no lugar do Outro, submetido à primazia do simbólico, em que se situa a cadeia significante, que o precede. Se a alienação é o destino 72, uma vez que não se pode evitá-la, a separação, por sua vez, exige um movimento do sujeito, no que diz respeito à necessidade de deslizamento de sentido, já que ele não pode ser inteiramente representado no Outro. 70 Id. Ibidem. p LACAN, J. O Seminário Livro 5 as formações do inconsciente ( ). Op. cit. p.150.

38 A separação é, então, o momento em que o sujeito reconhece a sua falta a partir do que falta no Outro e entra na dimensão do desejo, o que denota sua responsabilidade por sua condição de sujeito, já que ele precisa tomar uma posição e sujeitar-se à linguagem, tal como afirma Santos: (...) o sujeito do inconsciente está necessariamente associado à idéia de responsabilidade subjetiva e a clínica psicanalítica está condicionada pela exigência de que, como efeito do trabalho inconsciente, um sujeito responsável deva operar, assumindo sua própria causalidade e respondendo por aquilo que o determina 73. Na constituição do sujeito, há uma relação com um resto: algo sobra e afirma sua relação com a libido, uma vez que, na medida em que nem todo o ser do sujeito convém à imagem narcísica. É esse resto que dá à imagem um valor libidinal, passível de investimento, graças ao qual o sujeito pode visar o desejo do Outro. Entretanto, é necessário que o sujeito, até então petrificado no Outro enquanto tesouro de significantes, pleno, possa reconhecer neste uma falta e com ela se instale; ou seja, é preciso que o Outro seja barrado, não completo, não todo, para que o sujeito se torne então desejante. Lacan propôs uma representação gráfica para analisar a constituição do sujeito nesta dialética da intersubjetividade com o Outro. No esquema L, reproduzido a seguir, o eixo A- S designa a relação inconsciente entre o Outro e o sujeito; enquanto o eixo a-a aponta a relação imaginária/narcísica acima referida, estabelecida entre o sujeito e seus objetos. As duas diagonais são articuladas, indicando que o campo das identificações é fundamentalmente estruturante. 72 Referência à lembrança freudiana do dito de Napoleão: A anatomia é o destino in FREUD, S. Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (Contribuições à Psicologia do Amor II). (1912). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, p SANTOS, Katia Wainstock Alves dos. O dispositivo psicanalítico na clínica institucional do autismo e da psicose infantil. Dissertação de Mestrado, UERJ-RJ, p. 35.

39 Esquema L O estado do sujeito (sua estrutura, posição) depende do que se desenrola no campo do Outro (A), na medida em que o que aí se desenrola articula-se com um discurso (que é o discurso do Outro). A ressalva de Lacan para a aposta no sujeito é a de que nesse discurso, como estaria o sujeito implicado se dele não fosse parte integrante? 74. No caso das crianças autistas, isso é reafirmado quando elas repetem a fala das outras pessoas, sem inversão pronominal e muitas vezes com a mesma entonação 75. Entretanto, quando se pensa que cada criança pode escolher repetir uma determinada fala do outro, não se poderia pensar há algo dela enquanto sujeito? O autismo poderia ser pensado como uma alienação que não afaniza; ou seja, em que há uma primeira referência a um significante a que se petrifica, mas sem que haja o movimento necessário que possibilite a separação. A causação do sujeito em Lacan, abordada a partir da linguagem, é pensada com relação ao parlêtre, ou seja, àquele que fala, que é falado antes mesmo de nascer - mesmo ainda não fale. Lacan afirma que quando uma criança tapa os ouvidos, ela está para alguma coisa que está sendo falada já não está no pré-verbal, visto que se protege do verbo 76, o que atesta sua relação com o Outro e permite afirmar que o sujeito autista está na linguagem, ainda que não fale. Bruno (1991) também compartilha desta posição: o autista, ao tapar os ouvidos, estaria plenamente na linguagem, protegendo-se dos significantes do Outro. 74 LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose ( ). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p Cito como exemplo uma criança autista que repetia a fala de uma técnica do setor, sem a inversão pronominal, com a mesma entonação e sotaque (já que essa técnica era maranhense): Pega o sabunete!. 76 LACAN, Jacques. Alocução sobre as psicoses da criança (1968). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 365.

40 Se há uma palavra que funda a fala como ato no sujeito, algo que confere autoridade ao que se articula no nível do significante (no texto da lei), Lacan literalmente o nomeia: é o Nome-do-Pai, à que concerne a metáfora paterna, a função central da questão do Édipo, que ele descreve em três tempos lógicos da experiência do Édipo. A primeira relação de realidade se dá entre a mãe e a criança, mas o Nome-do-Pai é mantido, enquanto função, no nível simbólico. A criança se posiciona junto à mãe, buscando identificar-se com o que supõe ser o seu objeto de desejo. Lacan afirma haver uma ligação metafórica entre o pai e o objeto específico de desejo da mãe (o falo), no vértice ternário da relação mãe-criança: a posição do significante paterno no nível simbólico funda a posição do falo no nível imaginário, ou seja, é o pai que aponta para a criança que o desejo da mãe é pelo falo. Uma vez que toda privação real exige uma simbolização, é na medida que a mãe é faltosa que esse objeto é projetado como símbolo e postulado como tal. A relação da criança com o falo só se estabelece dessa forma porque ela supõe ser este o objeto de desejo da mãe. Primeiro tempo. O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, to be or not to be o objeto do desejo da mãe (...) Neste caminho colocam-se dois pontos, este aqui, que corresponde ao que é ego, e, em frente a ele, aquele ali, que é seu outro, aquilo com que a criança se identifica 77. É o registro da privação que anuncia o segundo tempo do Édipo, no qual o pai aparece na configuração mãe-criança-falo como privador em duplo sentido: priva a mãe de seu objeto de desejo (objeto fálico) e priva a criança de ser esse objeto de desejo da mãe. Uma vez que é o pai suposto deter o objeto de desejo da mãe, a partir da sua intervenção a criança é forçada a não apenas deixar de ser o falo, como também a não tê-lo com a mãe. É justamente a partir do deslocamento do objeto fálico e do encontro criança com a lei do pai que a criança se depara com o fato de que o desejo de cada um é submetido à lei do desejo do Outro e se posiciona como sujeito frente ao papel desempenhado pelo pai no fato de a mãe não ter o falo. 77 LACAN, Jacques. O Seminário Livro 5: As formações do inconsciente ( ). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 197.

41 Criança-Mãe-Pai Criança-Mãe-Pai e o Falo Vale ressaltar que não se trata de relações interpessoais entre a mãe e o pai reais, mas de uma relação específica da mãe com a palavra do pai em suas três dimensões: função de intervenção, fala articulada e lei. Tal como nos alerta Lacan: o essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, a lei como tal 78. Ou seja, o pai aparece aí como pai imaginário, agente aceito ou não pela criança como aquele que priva a mãe do seu objeto de desejo (o falo). Da vivência imediata dessa dialética do ser ou não ser o falo, a criança dá lugar a um substituto e pelo processo de simbolização, ascende à dimensão do ter. A partir disso, ela se coloca como sujeito e não mais como objeto do desejo do Outro, referindo assim ao segundo tempo do Édipo. Ela se encontra então diante de um Outro barrado pela inscrição da castração. O terceiro momento do Édipo é caracterizado pelo declínio deste, a partir do fim da rivalidade fálica. O pai, tido até então como privador, é revelado em sua função como também submetido à castração. A simbolização da lei paterna promove a perda simbólica do objeto imaginário: o falo. É a condição da mãe como mulher na relação com o falo que inscreve o significante Nome-do-Pai, definido por Lacan como termo que subsiste no nível do significante que, no Outro como sede da lei, representa o Outro Id. Ibidem. p LACAN, Jacques. O Seminário livro 5 as formações do inconsciente ( ). Op. cit. p. 152.

42 O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja, e pode dar porque o possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra digamos que o pai é um pai potente. Por causa disso, a relação da mãe com o pai torna a passar para o plano real 80. A instância paterna aparece nos três tempos: primeiro de forma velada, reinando na lei do símbolo; depois com uma presença privadora (imaginária); e finalmente intervindo, real e potente, como aquele que tem o falo ao mesmo tempo em que não o tem (também é castrado e deseja a mãe). É o Nome-do-Pai que permite que a criança, até então sujeita à lei caprichosa da mãe, se veja submetida a uma lei maior, a que não só ela, mas também a mãe e o pai estão submetidos. É a partir do momento em que a criança sai de sua posição fálica, supostamente ideal para sua satisfação e de sua mãe, que ela torna-se outra coisa, identificando-se com o pai (no caso dos meninos) ou com a mãe, deslocando seu objeto de desejo (no caso da meninas), mas assumindo uma posição de sujeito frente à essa questão central do Édipo, que remete diretamente relação com seu desejo e objetos. O pai não é, pura e simplesmente, um objeto real (ainda que tenha que intervir como tal), tampouco um objeto ideal. Trata-se de uma metáfora: o Nome-do-Pai é o significante que funda o sujeito. Constitui, pois, uma função, uma vez que não é apenas um dos muitos significantes da cadeia, mas justamente aquele que vai promover a articulação de todos eles. Destacando a função a mãe a partir desse interesse particularizado e do pai, cujo nome atesta a encarnação a Lei no desejo, Lacan aponta o sintoma da criança como resposta, representante da verdade, ao que existe de sintomático na estrutura familiar. Quando a criança não dispõe da mediação assegurada pela função do pai, ela é implicada correlativamente a uma fantasia, torna-se objeto da mãe e realiza a presença do objeto a: 80 LACAN, Jacques. O Seminário Livro 5: As formações do inconsciente ( ). Op. cit. p. 200.

43 A distância entre a identificação com o ideal do eu o papel assumido pelo desejo da mãe, quando não tem mediação (aquela que é normalmente assegurada pela função do pai), deixa a criança exposta a todas as capturas fantasísticas. Ela e torna o objeto da mão e não mais tem outra função senão a de revelar a verdade desse objeto. A criança realiza a presença do que Jacques Lacan designa como objeto a na fantasia 81. Fernandes propõe que o autismo não se refere a uma situação concreta de abandono e/ou separação, mas a algo necessário à constituição do sujeito, referente ao acolhimento simbólico (...) lugar destinado a uma criança no desejo do Outro 82, na medida em que é o investimento de desejo que possibilita à criança a constituição de um lugar subjetivo. A criança autista, apesar de freqüentemente apresentar uma história institucional vasta, carece de uma história pessoal, por assim dizer, o que denota a dificuldade de instauração de seu lugar de sujeito. Pode-se pensar que não houve uma inscrição do Desejo da Mãe como significante, na medida em que o Nome do Pai não exerce sua função? Se a mãe não tem a marca da falta, o objeto que a criança é para ela não tem qualquer mediação na triangulação e na referência fálica e a criança ocupa o lugar de objeto na fantasia 83, condição até necessária para sua sobrevivência e para sua constituição enquanto sujeito, desde que não permanente. Mas será que o Desejo da Mãe, sem a metáfora subseqüente ao Nome do Pai, já produz esse estatuto que o Outro tem para o sujeito autista? Ao pensar as particularidades do Édipo, relembramos o que não raro está presente no discurso das mães de crianças autistas: muitas vezes elas passam a dormir com seus filhos na mesma cama e deslocam seus maridos para outros cômodos (ou até casas, decorrente de separações), justificando tal atitude pelo fato de que, por serem crianças que exigem muita atenção, esta não poder ser dada à relação conjugal. A separação parece não se instaurar entre a mãe e a criança, mas entre a mãe e o pai, no real. Isso não remeteria à questão edipiana? Não seria uma mostra particular dessa experiência, sem a presença do Nome-do-Pai? Lacan, ao apresentar o pai do Édipo, relembra que numa determinada tribo primitiva, a procriação era atribuída a outras coisas que não ao pai (fontes, pedras, ou outras 81 LACAN, Jacques. Notas sobre a criança (1969). In: Outros Escritos. Op cit. p Id. Ibidem. p MIRANDA, Elisabeth da Rocha. Uma esquizofrenia precocemente desencadeada? In: ALBERTI, Sônia (org). Autismo e psicose na clínica da esquize. Rio de Janeiro, Marca D Água Livraria e Editora, p.113.

44 coisas) e ressalta que a qualidade do pai como procriador e a significação do Nome-do-Pai são questões referidas ao nível simbólico. Ele admite que mesmo nos casos em que o pai não está presente e a criança é deixada com a mãe, o Édipo pode transcorrer normalmente o que atesta que não se trata do pai real, mas de algo que cumpre a função de Nome-do-Pai: a atribuição da procriação ao pai só pode ser efeito de um significante puro, de um reconhecimento, não do pai real, mas daquilo que a religião nos ensinou a invocar como Nome-do-Pai 84. Laurent (1999), ao questionar o que as psicoses poderiam ensinar à clínica das neuroses, admite que a identificação com o pai no Édipo é apenas uma forma possível de lidar com o gozo. O pai, enquanto função, é uma ficção entre outras: Há maneiras de lidar com o gozo que permitem faze-lo emergir no reconhecimento, que permitem dar uma representação do gozo sem passar pela identificação ao pai. O pai, como ficção jurídica, como ficção útil para um certo real, é um caso particular na série de ficções que não funcionam na psicose como ponto de ancoragem 85. Assim, se a neurose não é uma norma da vivência do Édipo, mas uma das formas de vivenciar essa experiência (que regula o gozo, mas não o exclui) onde a relação do filho com o pai é atestada como lei, sintoma, como pensar isso no que se refere ao autismo? Se o pai, diferente da identificação propriamente dita, é algo que designa uma função de gozo 86, outras coisas podem vir a servir de modelo a essa função, que não necessariamente um ser. Laurent lembra que a relação pai-filho aparece em Lacan como ápice da relação simbólica pela identificação edipiana nos anos da metáfora paterna 87, mas atesta que as relações possíveis entre pai e filho são passíveis de versões que atendem a modelos de função de gozo particulares. A partir disso, pode-se pensar, para o autismo, uma vivência particular do Édipo em que sua função como tal repercuta, de forma particular, em sua condição de sujeito. 84 LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose ( ). Op. cit. p LAURENT, Eric. O que as psicoses ensinam à clínica das neuroses? In: Curinga. Numero 14. Belo Horizonte: EBP-MG, p LAURENT, Eric. O que as psicoses ensinam à clínica das neuroses?. Op cit Id. Ibidem. p. 179.

45 Uma outra forma de se pensar a estrutura do sujeito a partir de sua constituição é referí-la a uma articulação das dimensões simbólica, imaginária e real, sob a forma de uma amarração que pressupõe uma relação de equivalência entre esses registros. Primeiramente, há a possibilidade desse entrelaçamento, atestada pelo universo simbólico a que a criança está submetida antes mesmo de nascer, ou seja, no campo discursivo que a aguardava, e pelo investimento imaginário de um outro. A superposição do organismo à posição simbólica investida imaginariamente produz uma certa regularidade entre a descarga orgânica de tensão e o apaziguamento promovido por uma resposta, tomada pela criança como uma experiência de satisfação. É nesta matriz simbólica que vai incidir o real, promovendo um primeiro enlace desses registros. É estabelecida uma certa descontinuidade e a alternância entre tensão e apaziguamento, articuladas pelo movimento anterior, não mais se mantém. Há, porém, a necessidade de superação dessa descontinuidade e a exigência de um retorno à situação de gozo pleno supostamente vivenciada antes, o que faz com que a criança situe o agente da privação na imagem materna, supondo nela o saber sobre seu gozo: essa é a incidência do imaginário no real. Entretanto, a mãe se mostra afetada em sua onipotência imaginária e demanda à criança o que esta não pode lhe dar, recobrindo aí reciprocamente duas faltas: a criança tentando realizar o desejo materno, acreditando que a mãe, por outro lado, possa restituir-lhe a experiência de satisfação. A posição fálica da criança não se sustenta e ela se depara com algo a que ambas estão submetidas e que as impede de tamponar essas faltas. O real então aparece como privador e interditor, atestando um obstáculo intransponível entre a criança e a mãe e promovendo um certo afrouxamento real do simbólico, que é seguido pela idéia da onipotência paterna pela criança: já que ela não pode ser o objeto de gozo da mãe, o pai é mitificado há aí novamente o recobrimento do imaginário sobre o real. Finalmente, diante da impossibilidade da criança vir a ser o falo materno, ela não mais se equivale a ele, mas supõe ao pai um saber e de certa forma o coloca como mediador desta relação. Trata-se, pois, de algo estrutural e circular, na medida em que somente através desses movimentos há uma amarração entre os registros real, simbólico e imaginário.

46 CAPÍTULO 3 A QUESTÃO DA RESPONSABILIDADE NO AUTISMO Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis 88. Jacques Lacan Na definição da Língua Portuguesa, o termo responsabilidade se refere ao fato do sujeito responder por um ato que o sobrevém, falar em nome próprio. Em sua carta 125, datada de 09 de dezembro de 1899, ao questionar-se Quando é que uma pessoa se torna histérica em vez de paranóica? 89, Freud parece, de certa forma, ter aberto o caminho para uma questão ainda mais ampla: que escolha faz o sujeito a respeito de sua estrutura clínica? De que responsabilidade se trata quando se trata de psicanálise? Que sujeito é esse que tem, diante de si, uma escolha que, ao mesmo tempo em que é prévia à sua estrutura, paradoxalmente o obriga a responder a partir dela? Se a ética da psicanálise pressupõe que há uma escolha na tomada de uma posição do sujeito frente ao Outro (enquanto alteridade radical), uma clínica, do ponto de vista da ética, é aquela que se formula em termos de responsabilidade. Se o status do sujeito em Psicanálise admite uma estrutura que dá conta de seu estado de fenda, Spaltung, motivada pelo reconhecimento do inconsciente, e se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, como pensar a relação do sujeito com o Outro através de seus significantes? Se, de nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis, em que sentido sou responsável pela minha psicose, minha perversão e por minha neurose? Que significa isso? Qual é essa responsabilidade? Isso poderia conduzir-nos a pensar o sujeito como causa de sua estrutura clínica, como se houvesse uma eleição livre de sua clínica por parte do sujeito. Quando, na realidade, o gozo é que elege o sujeito LACAN, Jacques. A ciência e a verdade ( ). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p FREUD, Sigmund. Carta 125 (1899). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, volume I. Rio de Janeiro: Imago, MILLER, Jacques-Allain. Patologia da Ética. In: Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 347.

47 Freud, em uma de suas conferências 91 sobre a teoria geral das neuroses, ressalta que os sintomas psíquicos acarretam um dispêndio mental para sua formação e, conseqüentemente, para se lutar contra eles. Ele atesta questão da causalidade psíquica quando afirma que a realidade psíquica é a realidade decisiva 92, definindo o sintoma como resultado de um conflito decorrente de um meio de satisfazer a libido que, amparado por forças opostas, teria como componente a libido insatisfeita que, repelida pela realidade, buscaria outras vias de satisfação: O sintoma emerge como um derivado múltiplas vezes distorcido da realização de desejo libidinal inconsciente, uma peça de ambigüidade engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradição mútua 93. Lacan também propõe a causalidade psíquica, situando a dialética do ser como ponto em que se situa o desconhecimento essencial da loucura. Admite que neste ponto, há uma identificação ideal que caracteriza um destino particular e que é admitida através de uma insondável decisão do ser 94. A identificação é, neste sentido, a própria causalidade psíquica, uma vez que a imago dela decorrente realiza uma identificação resolutiva de uma fase psíquica; ou seja, uma metamorfose das relações do indivíduo com seu semelhante 95. O primeiro efeito que apresenta da imago no ser é a alienação: tudo surge da estrutura do significante, produzido no campo do Outro. Neste primeiro momento, o significante só funciona como tal reduzindo o sujeito a não ser mais que ele. Não se trata de uma escolha sobre a qual o sujeito tem plena eleição, mas uma escolha forçada, uma primeira operação essencial em que o sujeito se funda. 91 FREUD, Sigmund. Conferência XXIII Os caminhos da formação dos sintomas (1917). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de S. Freud, volume XVI. Rio de Janeiro: Imago, Id. Ibidem. p Id Ibidem. p LACAN, Jacques. Formulações sobre a causalidade psíquica (1946). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p Id. Ibidem. p. 189.

48 O sujeito é produzido dentro da linguagem que o aguarda, é efeito (e não agente) desta, inscrito no lugar do Outro. O sujeito é então apontado na alienação e representado por esse significante mestre (S 1 ), e sua união com o Outro sempre deixa uma perda, na medida em que ele não pode ser inteiramente representado. A legitimidade da Psicanálise é

49 Soler parte da afirmação lacaniana de que o psicótico não está fora da linguagem, mas fora do discurso para sustentar que o autismo estaria num aquém da alienação, uma recusa de entrar, um permanecer na borda 99 o que sustentamos de forma diferente neste trabalho, uma vez que acreditamos ter havido uma entrada da criança autista na alienação (senão ela seria apenas um puro ser), mas não houve a afânise que permite o movimento de separação. Apesar de sua posição quanto à inexistência da alienação no autismo, Soler sustenta que a criança autista é sujeito, já que é tomada no significante quando se fala dela 100, e que ser efeito de sua fala é a primeira posição de todo sujeito. Ressalta porém que o tornar-se agente - entendendo agente como alguém que fala, que deseja implica necessariamente uma animação de libido. O que se percebe é que, ao contrário de receber do outro sua própria mensagem invertida, essas crianças não são sujeitos que enunciam, mas constituem puro significado do Outro. Soler afirma que ao mesmo tempo em que elas parecem perseguidas pelos sinais da presença do Outro, mostram uma aparente anulação deste Outro, através de uma ausência clara de demandas e respostas. Ela então caracteriza o autismo como uma doença da libido 102, diretamente ligada à questão do corpo, supondo uma perturbação onde a libido do sujeito parece ser também do Outro, atestando uma falha no balizamento das fronteiras entre o seu corpo e o corpo do Outro. É neste ponto que ela sustenta a impossibilidade de separação: se o Outro é parte de sua libido, não há como o sujeito dele se separar, tal como mostra a representação a seguir: 99 SOLER, Colette. Autismo e Paranóia (1990) in: ALBERTI, Sônia. Autismo e Esquizofrenia na clínica da esquize. Rio de Janeiro: Marca D água Livraria e Editora, p Lembro aqui o relato de duas mães de crianças autistas sobre seus filhos: a primeira disse Não sabia que estava grávida, enjoava muito e sentia minha barriga crescer, achei que tivesse comido alguma coisa estragada (sic) e a outra, uma estudante de Psicologia, afirmou: meu filho é o melhor estágio de psicologia que eu posso fazer na vida (sic). 101 SOLER, Colette. Autismo e Paranóia (1990) in: ALBERTI, Sônia. Autismo e Esquizofrenia na clínica da esquize. Op cit p Id. Ibidem. p.228.

50 Esquema representativo da relação do sujeito com o Outro no autismo, segundo Soler. Ao contrário de dispor da presença-ausência que permite um vazio estrutural para sua constituição, essas crianças parecem permanecer no limite da simbolização, necessitando de um corte no corpo, nos batimentos que contrastam os estados de inércia com os estados de animação. Para fins de ilustrar esse funcionamento, ela apresenta um trecho bastante interessante de uma novela de ficção científica, La ville au bord du temps: Quando os homens são enviados ao espaço, seus corpos são transformados de modo a se tornarem coextensivos à máquina. Eles perdem, portanto sua imagem, seus órgãos, suas funções; eles não perdem sua subjetividade, mas eles próprios tornam-se engrenagens da máquina. Essa transformação é de tal modo correlata aí está o ponto interessante a um gozo absolutamente especial que, ao retornarem para a terra e reencontrarem seu corpo, caem em uma nostalgia infinita do tempo em que tinham a mesma extensão da máquina, de modo que a maioria deles não chega a sobreviver 103. Algumas orientações teóricas e clínicas supõem uma estreita relação entre a atitude das mães no que se refere ao tratamento com essas crianças e as respostas obtidas por elas, indo em direção a uma via de culpabilização, atribuída ao excesso ou à carência de cuidados maternos a que René Spitz 104 chamou hospitalismo. Com o propósito de isolar e investigar os fatores responsáveis ou desfavoráveis, ligados ao desenvolvimento infantil em crianças internadas de até 2 anos e meio de idade, Spitz fez observações em um impecável orfanato para crianças enjeitadas e em um berçário de uma prisão de mulheres. 103 Id Ibidem. p MARCELLI, D. Manual de Psicopatologia da Infância de Ajuriaguerra. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

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