Deyve Redyson RESUMO ABSTRACT

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1 23 OU UMA COISA OU OUTRA: UM ESTÁDIO NA FILOSOFIA DE KIERKEGAARD ONE OR THE OTHER: A STAGE IN KIERKEGAARD S PHILOSOPHY Deyve Redyson RESUMO O presente artigo pretende fazer uma análise da obra Ou um Ou outro, A Alternativa do pensador dinamarquês Søren Kierkegaard onde se manifesta uma estética que percorre sua obra pseudonímica e seus estádios de vida entre o estético e o ético. Analisa também a sedução, o amor e a ironia presentes nos escritos que envolvem os anos de 1843 a Palavras-Chave: Estética; Amor; A alternativa. ABSTRACT The present article intends to do an analysis of the work Either/Or A Fragment of life, the thinker Danish's Søren Kierkegaard where shows an aesthetics that travels its work pseudonyms and its life stadiums between the aesthetic and the ethical. It also analyzes the seduction, the love and the irony presents in the writings that involve the years from 1843 to Keywords: Aesthetics; Love; Alternative. Doutor em Filosofia (Oslo, Noruega) Professor adjunto da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) onde atua nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e Ciências das Religiões.

2 24 1. Introdução A obra de Søren Kierkegaard Ou um Ou outro, A Alternativa 1 de1843, é sem dúvida um livro notável dentro da obra deste pensador dinamarquês, pois, inaugurou a obra pseudonímica e nos apresenta os estádios 2 Estético e Ético. A publicação desta obra, originariamente em dois volumes, chocou a sociedade dinamarquesa pela sua densidade e paradoxidade, pois os dois volumes juntos chegam a 800 páginas e é apresentada por pseudônimos diferentes que desenvolvem cada qual uma esfera de pensamento. Os dois tomos de Ou um ou outro foram publicados simultaneamente por Kierkegaard aos 29 anos de idade na cidade de Copenhague em fevereiro de 1843, após sua volta de Berlim onde se decepcionara com as aulas de Friedrich J. Schelling. A obra tem o prefácio de um certo Victor Eremita, que mais tarde escreverá um discurso no banquete In vino veritas publicado nos Estádios no caminho da vida de 1845 que, aparentemente, é uma quase continuação de Ou Ou, o livro segue com os papeis de A e os papeis de B. No prefácio de Victor Eremita, há a descrição de como estes escritos e apontamentos chegaram-lhe a mão, ele narra um episódio de que comprara uma 1 Enten-Eller. Et Livs Fragment in Søren Kierkegaard Skriffer (SKS) København. Gads Forlag, Bind 2 og 3. Utilizaremos aqui além da edição dinamarquesa as seguintes traduções: Either/Or. Princenton: Princenton University Press, 1987, 2 vols; Entweder/Oder. in: Gesammelte Werke. Düsseldorf/Köln, 1986 e O lo Uno o lo Outro: Um Fragmento de Vida I e II. Madrid: Trotta, Quando possível utilizamos algumas traduções ao português. 2 A palavra dinamarquesa é Stadier que por ser entendido (traduzido) como estágios, estádios, estações ou etapas; a tradução alemã usa Stadier a inglesa Stage a francesa Étaps e a italiana Stadi. Aqui utilizarei Estádios.Veja-se também GREVE, William. Kierkegaads maieutische Ethik. Von «Entweder / Oder II» zu den «Stadien». Frankfurt am Main. Suhrkamp Verlag escrivaninha em um antigo antiquário e descobriu que em uma de suas gavetas existia dois maços de papeis, que percebera serem redigidos por dois autores diferentes, daí os batiza de A e o outro de B. Os papeis de A se iniciam com um melancólico conjunto de aforismos intitulados de Diapsálmata redigidos ad se ipsum, isto é, para si mesmo, onde se vê a extrema essência de Goethe, Lichtemberg e outros, o pseudônimo A é o esteta, isto é, dá uma grande ênfase a fantasia, ao embelezamento das coisas e praticamente tem delírios, é dele a autoria de Os Estágios eróticos imediatos, ou o erotismo musical; O reflexo do trágico antigo no trágico moderno; Silhuetas; O Primeiro amor e o Diário do Sedutor. Os papeis de B são o segundo volume de Ou um ou Outro, este é o pseudônimo do pseudônimo Juiz Wilhelm que é o eticista, que nos exorta sobre o matrimônio e a personalidade, dele atribuise a autoria de Da validez estética do matrimônio e O equilíbrio entre a estética e a ética, na verdade estes ensaios são cartas de B para A, tentar convencê-lo de que a vida ética é mais verdadeira que a estética. 2. A representação do estádio estético e ético O Estádio estético é a forma de vida que existe. O esteta é aquele que vive poeticamente, que vive de imaginação e de reflexão. É dotado de sensibilidade delicada que lhe permite descobrir na vida o que ela tem de interessante e sabe tratar os casos vividos como se fossem obra da imaginação poética, isto é, num estado de embriaguez intelectual. A vida estética é protagonizada por Johannes o Sedutor no Diário do sedutor que sabe colocar o seu prazer, não na busca desenfreada do amor, mas na limitação e na intensidade da satisfação. Mas a vida estética revela sua insuficiência Todo o que vive esteticamente é um desesperado, tenha ou não consciência disso, o desespero é o último termo da concepção estética da vida

3 25 (REICHMANN, 1978, p. 125). A partir desse desespero entende-se o ato de se fazer a escolha. Quem desespera, escolhe de novo e escolhe a si próprio dentro de uma validade eterna. A vida ética nasce, portanto, dessa escolha. Ela implica uma estabilidade e uma continuidade que a vida estética, como incessante busca da variedade, exclui por si: a vida ética é o domínio da reafirmação de si, do dever e da fidelidade a si próprio: o domínio da liberdade pela qual o homem se forma ou se afirma por si. O elemento estético é aquele para o qual o homem é imediatamente aquilo que é; o elemento ético é aquele para o qual o homem se transforma no que se transforma (REICHMANN, 1978, p. 190). Na vida ética, o homem singular sujeita-se a uma forma, adequa-se ao universal e renuncia a ser exceção. Tal como a vida a vida estética é encarnada pelo sedutor, a vida ética é encarnada pelo marido. O matrimônio é a expressão típica da eticidade. Enquanto que na concepção estética do amor, duas pessoas excepcionais só podem ser felizes por força da excepcionalidade, na concepção ética do matrimônio todos os esposos podem ser felizes. A característica da vida ética é a escolha que o homem faz de si próprio. A escolha de si próprio é uma escolha absoluta porque não se trata da escolha de uma qualquer determinação finita, mas a escolha da liberdade (REICHMANN, 1978, p. 228). Uma vez efetuada esta escolha, o individuo descobre em si uma riqueza infinita, descobre que existe em si uma história onde reconhece a identidade consigo próprio. Ao se encontrar nesta escolha reconhece-se dentro destes aspectos e arrepende-se. O arrependimento é a última palavra da escolha ética, pois daí atrela-se a religião, no sentido absoluto do reconhecimento da própria culpa. Assim a esfera ética busca até alcançar a vida religiosa 3. No entanto, não existe continuidade entre vida ética e a vida religiosa. Entre eles existe um enorme e profundo abismo que Kierkegaard esclarece em Temor e tremor que se situa entre o estádio ético e o religioso (REICHMANN, 1978, p. 238) inaugurando a intitulada Religiosidade A direcionando a vida religiosa para Abraão. Na parte de Ou ou intitulada Silhuetas passa-tempo psicológico Kierkegaard descreve a história da três seduzidas que inspiram a intensidade da ideia do valor estético que culminará no matrimônio. As seduzidas seriam os personagens de Maria Beaumarchais, Dona Elvira e Margarida. Maria Beaumarchais é a personagem da obra de Goethe Clavigo. Clavigo abandona Maria, ela tenta se convencer de que não mais o ama por conta do sofrimento que a acomete, mais já é tarde demais, pois ela o ama intensamente, os outros que a vêem e a forma da qual sofre tentam convencê-la do contrário, mais é em vão. A personagem Maria fala da pena que é sofrer, seria uma primeira forma de se deixar seduzida, isto é, fazê-la sofrer por ter perdido. A segunda é Dona Elvira de Mozart, que é retirada do convento pela sedução de Don Juan, que a seduz e em seguida a abandona. Ao deixar o convento Elvira percebe que perdeu o céu e ao ser deixada por Don Juan perdeu o mundo, logo restam apenas três alternativas; voltar a religião, continuar amando Don Juan ou se consolar em outro homem. Elvira prefere continuar amando Don Juan e sofrer de outro modo, o estar sempre amando que não lhe ama. A terceira, Margarida, também personagem de Goethe, mais desta vez de Fausto. Fausto seduz Margarida de tal forma que a faz pensar que ele a ama muito, pois Fausto quer uma mulher que possa ser 3 Entre estes dois estágios conferir: Pulmer, K. Die dementierte Alternative. Gesellschaft und Geschichte in der ästhetischen Konstruktion von Kierkegaards «Entweder / Oder». Frankfurt / Bern: Peter Lang

4 26 instalada em sua imediatidade, a perda é terrível, a perda que Margarida sente quando é deixada por Fausto é necessariamente uma perda de si mesma, pois ela entende que só existia por que ele a fez existir, ele a fez se sentir como era, por isso esta perda é a mais terrível. Uma coisa é perder o seu amor por uma morte outra coisa é ser abandonada, enganada ou traída pelo seu amor. A dor neste caso é maior. O detalhe é que o admirável elogio ao casamento empreendido no volume II de Ou Ou confronta-se com alguns termos de Estádios no caminho da vida. Tal como no plano estético provêm em grande arte da presença da mulher, esse ser belo e caprichoso que é tão difícil de fixar numa relação definida. Dificuldade que atinge aqui o paradoxismo se é verdade, como Kierkegaard diz, que a mulher se situa ela própria na vida estética e só se revela plenamente na vida religiosa. Kierkegaard trata o amor, como algo necessário para o indivíduo, mas o amor tem artimanhas, isto é, engana, faz sofrer, liberta e realiza as pessoas. É efetivamente pelo fato de ter muitas divisões que Kierkegaard se propõe a investigá-lo. No texto A validez estética do matrimônio, que inicia o segundo volume de Ou Ou, Kierkegaard apresenta o amor em cinco partes: Os limites do amor romântico, o Exame do matrimônio cristão, Os porquês do matrimônio, O Mistério do matrimônio e o Matrimônio como categoria estética do amor. O amor é assimilado por Kierkegaard como o pensamento de matrimoniar-se, unir-se em amor, por isso que ele trata o amor como ponto fundamental do matrimônio, mais se questiona, qual matrimônio? Segundo Kierkegaard, o amor romântico baseia-se em uma ilusão e sua eternidade no tempo; que se bem que esteja intimamente convencido da constância absoluta de seu sentimento, o cavalheiro do amor romântico não tem, a seu respeito, nenhuma certeza, porque até agora o buscou nas vicissitudes de um meio totalmente exterior (KIERKEGAARD, s/d, p. 27). Kierkegaard também ironiza o amor romântico:... pelos quais um jovem, encostado a janela de sua noiva, vê uma moça passar na esquina, sente a flechada e se lança em se encalço. Porém, logo tropeça com outra e assim tudo se repete (KIERKEGAARD, s/d, p. 26). Estes são dois momentos do amor romântico, um representa o seu limite e outro a idéia de não o ter. Kierkegaard nos faz pensar que este amor é solitário até o momento de encontrar com o seu outro eu solitário, isto é, o amor é uma união de dois eus solitários, que resultado dará isso? A solidão, isso porque Kierkegaard afirma que o amor romântico baseia-se em ilusão. Ainda em A Validez estética do matrimônio de Ou ou, Kierkegaard aborda o matrimônio cristão, que não é romântico e sim Sob os olhos do Senhor, dando uma estrutura ética-religiosa a substância do amor, para que se questione se o amor nasce antes do casamento e ao matrimoniarse acaba? Ou a uma seqüência após o casamento. Segundo a Igreja Cristã a mulher tem um importante papel no matrimônio: A Igreja proclama logo a pena que cabe ao pecado, a mulher deve dar a luz com dores e ser submissa a seu marido... Parece-te bonito, e é conforme a estética, que o filho nasça entre dores? (KIERKEGAARD, s/d, p ). Logo em seguida, Kierkegaard tenta inverter o sentido estrito das sagradas escrituras, que avaliando a frigidez da mulher e sua atitude de submissão ao marido, segundo a Bíblia, deveria ser ao contrário, no lugar do texto bíblico ser o homem deixará seu pai e sua mãe e se juntará a sua mulher, deveria ser: a mulher deixaria seu pai e sua mãe e se juntaria a seu marido, porque é a mais frágil. A Escritura reconhece implicitamente o valor da mulher, e não há cavalheiro que possa ser mais galante (KIERKEGAARD, s/d, p.

5 27 88). Kierkegaard vai encerra este texto, apresentando o amor como o bom entendimento e o valor estético que acontecerá, isso o torna um grande mistério, que será resolvido mediante o matrimoniarse. O matrimônio é a expressão típica da eticidade. É um objetivo que pode ser comum a todos. 3. O caso do Diário do Sedutor (Forforerens Dagbog) Em Diário do Sedutor, também em Ou Ou, mas em sua parte I, Kierkegaard reúne uma série de cartas de Johannes 4 e Cordélia 5, que eventualmente se separam, sendo que Johannes faz Cordélia se sentir culpada e responsável por tudo de ruim que acontecera, isto é, ele inverte toda a situação e passa de culpado para vitima, é este o segredo do sedutor segundo Kierkegaard. A sedução significa isso, fazer com que o outro se sinta dependente, sem mais nenhuma força e que tudo que faça, o faça em prol do outro. Vejamos um dos trechos do Diário do Sedutor onde Johannes seduz a jovem Cordélia: Johannes! Havia um homem rico que possuía ovelhas e gado em grande quantidade; havia uma pobre rapariga que apenas possuía uma ovelha que comia do seu pão e bebia de sua água. Tu eras o homem rico, rico de tudo o que de mais de esplêndido existe sobre a Terra, eu era a pobre rapariga que apenas possuía o seu amor. Tomaste-o e regozijaste-te com ele; depois o desejo acenou-te e sacrificaste o pouco que eu 4 Não confundir com Johannes Climacus, este do Diário do sedutor é Johannes, O sedutor. 5 Lembrando que Cordélia é o nome de uma das filhas, a mais querida, (Gonereil, Regane e Cordelia) de Rei Lear, peça de Willian Shakespeare, por quem Kierkegaard tinha grande apreço. Esta peça de Shakespeare é como um jogo de xadrez, peças pretas e brancas. Pretas: Edmundo, Goneril, Regane e Cornwall. Brancas: Lear, Cordelia, Edgar, Glouceaster, Kent e Albany. possuía; mas das tuas próprias riquezas nada pudeste sacrificar; havia uma pobre rapariga que apenas possuía o seu amor. Tua Cordélia (KIERKEGAARD, 1979, p. 10). Minha Cordélia, Sou pobre és minha riqueza; sombrio és a minha luz. Nada possuo, nada necessito. E também. Como poderia eu possuir alguma coisa? Pois não será uma contradição pretender que aquele que nem a si próprio se possui possua alguma coisa? Sou feliz como uma criança, que nada deve possuir, pois a ti pertenço; não existo, cessei de existir a fim de ser teu.teu Johannes (KIERKEGAARD, 1979, p. 10). A carta de Cordélia, é espelhada na história bíblica do rei Davi; que desobedecera a Deus e por isso lhe foi enviado o profeta Natã (II Samuel 12, 1-14) que lhe conta a história semelhante, de um homem que tinha muitas cabeças de bois e ovelhas, e o outro pobre que só tinha uma ovelha, o rico recebeu uma visita e não matando de seus animais, foi e roubou a única ovelha do pobre. Assim o profeta Natã compara o homem rico com o rei Davi, que tinha cometido um homicídio, para casar-se com a mulher de um dos seus servos. Kierkegaard quer demonstrar o amor que Cordélia e Johannes sentiam, que resulta em seu afastamento e dor, levando o indivíduo a angústia que tornasse-á desespero. Em um outro trecho vemos coisa semelhante: Minha Cordélia! Lê-se nos velhos contos que um rio se enamorou de uma jovem. A minha alma é também um rio enamorado de ti. Tão depressa está calmo e deixa a tua imagem refletir-se nele, profunda e tranqüila, como logo imagina que captou a tua imagem, e as tuas ondas erguem-se para ti impedirem de escapar, para em segredo enrugar a sua superfície e brincar com a tua imagem, mas por vezes perde-a, e então as suas ondas escurecem e

6 28 desaparecem. É assim a minha alma: um rio enamorado de ti. Teu Johannes (KIERKEGAARD, 1979, p ). Como é belo estar apaixonado e como é interessante saber que se está (KIERKEGAARD, 1979, p. 26). Quando Cordélia está apaixonada por Johannes só resta a ele fazer uma coisa, acabar o noivado, mais que acabe de forma que seja um espetáculo prazeiroso. Johannes esta consciente sobre seu projeto. O rompimento não se deu por um acidente de percurso, mas, já estava previsto desde o começo. No início de As obras de amor de 1847, Kierkegaard nos diz: Enganar-se a si mesmo quanto ao amor, é o mais horrível, é uma perda eterna, para a qual não há reparação nem no tempo nem na eternidade (KIERKEGAARD, 2005, p. 19). O amor sucede ao mesmo tempo uma felicidade profunda e uma amargura furiosa entre os homens. Mesmo aquele que ao longo de toda sua vida foi enganado pela vida, pode receber da eternidade uma copiosa reparação; mas o que se enganou a si mesmo impediu a si mesmo de conquistar o eterno (KIERKEGAARD, 2005, p. 20). O amor tem suas armadilhas e segundo Kierkegaard liga-se diretamente com o eterno, pois tem implicações eternas, quem perde o seu amor terá que aceitar não mais amar enquanto amor. Ter que arder as conseqüências de ter perdido, amar somente uma vez, ter, dessa forma, vários amigos, poucas paixões e um único amor. Arder eternamente por ter perdido seu amor é uma condenação eterna a solidão 6. Ainda em As obras de amor: Pois é verdade que a vida do amor é cognoscível em seus frutos, os quais se manifestam, mas a vida, ela mesma é mais do que os frutos 6 Isso implica muito na vida de Kierkegaard, pois sua vida foi de um único amor (Regine Olsen), Kierkegaard acreditava realmente que só se ama uma vez na vida. Sobre a solidão e melancolia de Kierkegaard ver Reichmann, Ernani. Intermezzo Lírico-Filosófico: Como um melancólico poderia escrever tanto (REICHMANN, 1963, p. 110). particulares e mais do que todos os frutos tomados em conjunto, se te fosse possível enumera-los num só instante (KIERKEGAARD, 2005, p. 21). A árvore boa é aquela que dá bons frutos, o amor bom é reconhecido pelo que poderá produzir. Pois o paradoxo é a paixão do pensamento e o pensador sem um paradoxo é como um amante sem paixão (KIERKEGAARD, 1995, p. 61). O amor é a origem de tudo e, no sentido espiritual, o amor é o fundamento o mais profundo da vida espiritual [...] o amor é longânimo (REICHMANN, 1978, p. 320 e 323). O eterno também se faz no amor. Se faz de tal forma que rompe a ligação entre a filosofia que nasce num anseio de vontade e parte para a compreensão de uma esfera que não sendo reducionista é na clareza do ser uma conotação imbricada no eu que é formado pela amor e pela paixão. A verdade é que o mundo não compreende a eternidade... a eternidade afirma impertubavelmente que o mais importante é a misericórdia (REICHMANN, 1978, p. 326). Os Três discursos em ocasiões imaginárias são de mesma data dos Estágios do caminho da vida, cada um destes três discursos representa um dos estágios de modo de vida. Os discursos são: A Ocasião de uma confissão estética, A ocasião de um casamento ético e Junto a um túmulo religioso. Sobre a publicação dos Estágios no Caminho da Vida escreve Kierkegaard nos Diários Os Estágios não terá tantos leitores quanto Ou Ou (KIERKEGAARD, Journals, VI A 79) e depois Em Ou Ou o momento estético era um presente em luta com a ética. O momento ético era a eleição por meio da qual a gente se afasta do estético (REICHMANN, 1978, p. 40). 4. Conclusão Concluímos lançando nosso leitor a obra seguinte de Kierkegaard, onde

7 29 efetivamente realiza-se uma continuação: Os Estágios no caminho da vida compreendem três textos que resultam em 450 páginas: In Vino Veritas, Referências acerca do matrimônio em resposta a algumas objeções e Culpado Inocente. O livro se inicia com uma advertência do editor, um certo Hilário Encadernador (Bogbinder), que diz ter achado num canto um amontoado de manuscritos. Este texto na verdade é uma rememoração ao Banquete de Platão, é escrito pelo pseudônimo Wilhelm Afram que convida cinco pessoas para discursarem sobre o que é o amor, os cinco convidados foram: Um Jovem (que talvez seja A de Ou Ou), Constantin Constantino, Victor Eremita, O Modista e Johannes O Sedutor. O primeiro discurso é do jovem que tem medo do amor infeliz e que acabará por dizer que o amor é ridículo, acha cômico duas pessoas quererem se pertencer eternamente, quererem penetrar um ao outro (Cf. KIERKEGAARD, 2002, p ). Durante os discursos muito se comenta sobre o amor, a infelicidade de amar, como também a alegria de se ter um amor, textos e expressões nostálgicas que revelam uma determinada misticidade em relação a mulher e suas funções no amor e de como amar: Insistiu Johannes, porque não há coisa mais desagradável do que uns destroços a lembrar o que a gente já amou (KIERKEGAARD, 2002, p. 49). No discurso de Victor Eremita, a mulher é colocada como uma das causadoras de infelicidades e desastres, pois é dona de um belo sexo, que tem por finalidade atrair os homens, que dispõe de uma possibilidade inacreditável de enganar, coisa que, segundo ele, nenhum homem teria e conseqüentemente chega a conclusão de que ser mulher é uma desgraça, e que a maior desgraça ainda não é esta e sim o fato de descobrir que se é mulher (Cf. KIERKEGAARD, 2002, p. 105) 7. Por isso a Alternativa, ou uma coisa ou outra, a efetividade da realidade nos transporta a alternância do ser e das coisas que interagem sobre ele. Kierkegaard um mestre tanto da ironia como da beleza ainda tem muito a nos dizer. Referências FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. Petrópolis: Vozes, GREVE, William. Kierkegaads maieutische Ethik. Von «Entweder / Oder II» zu den «Stadien». Frankfurt am Main. Suhrkamp Verlag KIERKEGAARD, Søren. Søren Kierkegaard Skriffer. København. Gads Forlag, Either/Or. Princenton: Princenton University Press, 1987, 2 vols.. Entweder/Oder. u. hg. v. E. Hirsch, H. Gerdes u. H.M. Junghans 2.Teil, in Gesammelte Werke, Düsseldorf/Köln, O lo Uno o lo Outro: um fragmento de vida I e II. Madrid: Trotta, Textos selecionados. Curitiba, UFPR, O matrimônio. Campinas: Psy. S/d.. O Banquete. Lisboa: Guimarães, Estas palavras ficaram conhecidas quando Simone de Beauvoir utilizou-as como epigrafe em O Segundo Sexo.

8 30. Diário de um sedutor. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os pensadores).. Migalhas filosóficas. Petrópolis: Vozes, As Obras do Amor. Algumas considerações cristãs em forma de discursos. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, KOSKINEN, L. Tidoch evighet hos Sören Kierkegaard. En studiei Kierkegaards Livsåskådning. Lund: Doxa Press PULMER, K. Die dementierte Alternative. Gesellschaft und Geschichte in der ästhetischen Konstruktion von Kierkegaards «Entweder / Oder». Frankfurt / Bern: Peter Lang REDYSON, Deyve. A filosofia de Soren Kierkegaard. Recife: Elógica , Deyve; ALMEIDA, Jorge M; PAULA, Marcio Gimenes (Orgs.) Søren Kierkegaard no Brasil. João Pessoa: Idéia REICHMANN, Ernani. Intermezzo Lírico- Filosófico. Curitiba, UFPR, VALLS, Álvaro L. M. Entre Sócrates e Cristo: Ensaios sobre a ironia e o amor em Kierkegaard. Porto Alegre: Edipucrs, 2000.

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