O TRABALHO DA ENFERMAGEM COM POPULAÇÕES VULNERÁVEIS- INTERFACE ENTRE AIDS, CAMINHONEIROS E PROFISSIONAIS DO SEXO

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1 O TRABALHO DA ENFERMAGEM COM POPULAÇÕES VULNERÁVEIS- INTERFACE ENTRE AIDS, CAMINHONEIROS E PROFISSIONAIS DO SEXO KOLLER, Evely Marlene Pereira 1 RAMOS,Flávia Regina Souza 2 O Brasil conta com uma população de mais de caminhoneiros de carga intermunicipal população que de um modo geral, raramente acessa serviços públicos de saúde.avaliar contextos individuais, interpessoais, coletivos e sociopolíticos nos quais inserem-se os segmentos - risco e vulnerabilidade - implica no estabelecimento de propostas que estabeleçam mudanças em comportamentos individuais a partir de indicadores para a sensibilização sobre os riscos conhecidos, para o abandono de condutas de risco e para a consolidação de mudanças de comportamento. Não raro, caminhoneiros têm maior dificuldade em acessar os serviços de assistência e educação em saúde, constituindo-se num grupo à margem das intervenções. Assim como esforços individuais para a adoção de práticas seguras estão influenciados por opiniões ou atos de outras pessoas, de grupos sociais de referência e suas normas e pelo contexto sociopolítico-ambiental, incluindo-se as leis e regulamentações pertinentes ao tema. Definir políticas públicas de saúde para a promoção de mudanças capazes de se manterem estáveis nos diferentes níveis envolvidos, requerem: mudanças individuais de comportamento que estão diretamente vinculadas a estratégias globais de diminuição de riscos individuais e nos grupos de pares; à mudança de crenças e normas sociais; às ações de informação e prevenção destinadas à população em geral, com vistas na participação comunitária; e à diversificação e ampliação da oferta de serviços assistenciais e de insumos de prevenção. Face ao exposto entendemos que nossa missão enquanto enfermeiros é reconhecer essa problemática que tanto dificulta o andamento do processo de melhoria da qualidade da assistência a essas populações. A disponibilização desses serviços, por sua vez, implica na necessidade de se posicionar o indivíduo como protagonista no processo, objetivando o 1 Enfermeira, Doutora em Filosofia de Enfermagem, Professora da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI/Brasil),Curso de Graduação em Enfermagem e Programa de Mestrado Profissionalizante em Saúde e Gestão do Trabalho; pesquisadora do grupo de pesquisa PRAXIS, saúde, trabalho e cidadania 2 Enfermeira, Doutora em Filosofia de Enfermagem, Professora do Depto e Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina(UFSC/Brasil), pesquisadora do grupo de pesquisa PRAXIS saúde, trabalho e cidadania.

2 fortalecimento da sua colaboração com os cuidados à saúde e a inserção de formas de acolhimento dos serviços aos usuários, implicando, em sua maioria, numa ruptura com as formas de relação profissionais/usuários estabelecidas.esse conjunto de medidas tem o suporte de ações de intervenção que visam reduzir o impacto da epidemia sobre segmentos mais vulneráveis da população. São ações orientadas segundo critérios de abrangência populacional, epidemiológicos e de focalização, priorizando as ações dirigidas para populações de risco acrescido e populações mais vulneráveis. Essas ações são executadas pelos Programas Estaduais e Municipais, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e pelas organizações da sociedade civil, a partir do apoio a projetos específicos considerados estratégicos para o enfrentamento da epidemia no País. Assim esse trabalho visa analisar a relação entre vulnerabilidade e protagonismo a partir da experiência de profissionais do sexo e caminhoneiros frente a AIDS e utilizou como desenho metodológico a Análise Rápida e Pronta Resposta (RARE Rapid Assessment, Response and Evaluation), conforme descrito pela Organização Mundial da Saúde (Stimson et al., 2003; Stimson et al., 2001; Stimson et al., 1998; Stimson et al. 1998ª; Howard et al., 1998) e por Needle e colaboradores (2003). Esta metodologia vem sendo empregada para a obtenção de informações em um curto espaço de tempo e para produzir resultados que possam ser utilizados tanto para planejar como para desenvolver políticas e intervenções em saúde. Os achados fornecem base para recomendações específicas para estruturação de novas políticas públicas em saúde e intervenções voltadas ao controle da epidemia de HIV/Aids entre as populações vulneráveis e de difícil acesso, além de desenvolver capacidades locais para avaliar e responder a problemas críticos e pontuais em saúde. A metodologia RARE é útil para identificar os diferentes níveis de comportamentos vulneráveis de uma determinada população, em um determinado espaço social, cultural e geográfico, permitindo a identificação de intervenções adequadas, factíveis e direcionadas às necessidades da população estudada. Foram utilizadas as seguintes técnicas de coleta de dados:coleta de dados préexistentes e disponíveis sobre a população alvo da pesquisa, a partir de fontes documentais e bibliográficos e dados previamente coletados e publicados por pesquisadores participantes do estudo em questão Estes dados permitiram uma primeira descrição sobre a epidemia de HIV/AIDS em Itajaí-SC, sobre aspectos relativos à vulnerabilidade de populações móveis frente ao HIV/Aids e demais DST, 2

3 assim como apontou lacunas no conhecimento atualmente disponível sobre os caminhoneiros no Brasil.entrevistas em profundidade, semi-estruturadas com 05 caminhoneiros, 06 profissionais do sexo e 06 profissionais de saúde 3. Os roteiros prévios de entrevistas foram revisados no sentido de abordar novas descobertas ao longo da coleta de dados. grupos focais, sendo 01 com caminhoneiros e 2 com profissionais do sexo, conduzidos pela pesquisadora e assistente para procedimentos operacionais logísticos. Os temas abordados foram: cotidiano, acesso a serviços de saúde, conhecimento sobre HIV/Aids e demais ISTs, comportamento sexual, camisinha, uso de álcool e drogas Observações de campo, no total de 08, no Porto de Itajaí, pontos de parada de caminhoneiros, postos, restaurantes, bares, zonas de prostituição, bordéis, rodovias de acesso e saída da cidade e Associação de Prof. Do Sexo do Vale do Itajaí ( APROSVI). Estes dados foram coletados em três momentos da pesquisa: - no início do estudo, para Identificar e mapear áreas de pesquisa, estabelecer maneiras de acesso e identificar informantes chave, além de identificar comportamentos mais vulneráveis e obter uma melhor compreensão costumes e vocabulários próprios da população acessada; - no decorrer do estudo, para validar e checar achados de outros métodos, de outras fontes de dados e hipóteses de pesquisa, identificar novos achados e explorar de forma mais aprofundada assuntos chave; - na etapa final do estudo, para validar e avaliar a representatividade de achados emergentes, identificar problemas em potencial e possíveis soluções e/ou sugestões para intervenções futuras. Mapeamento utilizando dados pré existentes, atualizado ao longo do estudo, até uma descrição gráfica do ambiente, incluindo locais importantes, áreas de atividade ou fronteiras (rotas de entrada e saída da cidade, locais de parada de caminhoneiros, localização de serviços de saúde), localização das populações vulneráveis identificadas, comportamentos mais vulneráveis e condições associadas à adoção destes comportamentos.todas as gravações da coleta de dados foram ouvidas pelo coordenador e assistente, quando os dados transcritos eram conferidos e entrevistador e entrevistado eram avaliados. Os dados passavam pelo processo de triangulação e compunham relatórios. Durante a pesquisa, os roteiros de entrevistas foram revisados no sentido de abordar novas 3 Durante a execução da pesquisa não foi observado envolvimento dos profissionais de saúde com a problemática dos caminhoneiros, o que levou a realização de grupos focais com profissionais do sexo, cuja interface com os caminhoneiros é marcante. A coleta de dados com os profissionais de saúde resumiu-se a observações e a seis entrevistas. 3

4 descobertas e novas questões de pesquisa que fossem surgindo ao longo da coleta de dados. As definições quanto ao número de informantes e estratégias de coleta foram tomadas e revistas; conforme os resultados eram obtidos e sofriam uma préanálise. Em todos os passos do estudo, seguimos as determinações da Resolução 196/96. (CNS, 1996) e só foram colhidos e utilizados dados de informantes que manifestaram seu aceite de participação mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.Após a triangulação de dados os resultados apontam para a existência de deficiências no acesso dessas populações a serviços de saúde colaborando com a manutenção da vulnerabilidade social. A preferência de grande quantidade de caminhoneiros por relacionamentos com travestis expõe a bissexualidade e a necessidade de maior poder de barganha no sexo protegido da parceria fixa, bem como necessidade para os serviços de prevenção incluírem essa opção sexual como meta de prevenção, utilizando a abordagem de gênero. O número de caminhoneiros que pretende/realiza relações sexuais com profissionais do sexo sem proteção continua motivo de preocupação na disseminação da epidemia HIV/aids ; o uso de camisinha, embora relatado como freqüente e consistente, na prática ainda se configuram como elemento distante da prática sexual cotidiana. O consumo de álcool, rebites é freqüente entre caminhoneiros e estes se percebem sem liderança que promova seu empoderamento. O uso do Rebites é admitido pelos caminhoneiros e empresários do setor de transportes com uma certa naturalidade. Os tomadores de decisão em políticas públicas têm consciência da problemática, todavia não promovem encontros entre os diversos serviços que prestam assistência a essas populações, para o planejamento de políticas públicas adequadas, que acolham, promovam saúde, atendam as próprias populações móveis em suas reivindicações e diminuam os índices de contaminação ao HIV/aids, demais doenças infecciosas e agravos à saúde. Os profissionais do sexo na região estão organizados através da própria associação (APROSVI), que luta pelo próprio reconhecimento e afirmação envolvendo grande número de atores sociais além dos próprios profissionais do sexo. Apesar de inúmeras dificuldades o acesso a serviços de saúde pelos profissionais do sexo está melhor do que para os caminhoneiros na região do Vale do Itajaí. O estudo recomenda que sejam realizadas campanhas de conscientizarção para os profissionais do sexo, enfatizando-se o uso correto do preservativo, a necessidade de uso incondicional e a possibilidade de empoderamento para que consigam negociar o uso com os 4

5 clientes sem sofrerem as conseqüências da violência. A divulgação sobre locais de distribuição gratuita de preservativos carece de maior divulgação, ao longo das principais rodovias e nos postos de combustíveis de paradas mais freqüentados. A quota de preservativos distribuída necessita ser revista. Parcerias entre serviços públicos de saúde, centros formadores de profissionais de saúde, ONGs e demais segmentos da sociedade civil são desejadas afim de promover o protagonismo entre as populações vulneráveis. Palavras Chave : vulnerabilidade, protagonismo/advocacy, caminhoneiros e profissionais do sexo, aids. Área Temática: Regulação do Trabalho e práticas em saúde e enfermagem 5

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