Divisor de águas : uma etnografia sobre as trajetórias de alunos sobreviventes ao. primeiro ano do ensino médio em uma escola estadual carioca.

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1 Divisor de águas : uma etnografia sobre as trajetórias de alunos sobreviventes ao primeiro ano do ensino médio em uma escola estadual carioca. Mylena Gomes Curvello 9 período Faculdade de Educação UFRJ Orientadoras: Yvonne Maggie (IFCS) e Ana Prado (FE) Pesquisa: Ethos escolar e trajetórias estudantis no ensino médio do Rio de Janeiro: causas e consequências do abandono das salas de aula. Resumo: Meu objetivo nesse trabalho é descrever e refletir sobre as trajetórias escolares e pessoais que estimulam a permanência dos estudantes no ensino médio. Quem sãoos alunos, quais são as suas trajetórias, quais as suas relações com a escola, com a educação, com a família e suas perspectivas de futuro. Para entender essas relações a observação participante é a metodologia basilar, aliada também a entrevistas abertas. Este trabalho é resultado da observação participante em uma escola estadual carioca situada na zona norte da cidade. Mesmo com a existência de uma peneira... na escola, como foi dito por uma professora, há alunos que conseguem atravessar esse nível de ensino sem reprovações. Eles afirmam que as redes de sociabilidade criadas na escola influenciam positivamente seu desempenho e a continuidade dos estudos. Palavras-chave: Reprovação Permanência Ensino Médio Redes de Sociabilidade Introdução Esse projeto está inserido na pesquisa Ethos escolar e trajetórias estudantis no ensino médio do Rio de Janeiro: causas e consequências do abandono das salas de aula, desenvolvido pela professora Yvonne Maggie. Em março de 2012 me vinculei a esse projeto e comecei uma pesquisa com alunos do primeiro ano do Ensino Médio de uma escola estadual carioca, localizada na 1

2 Zona Norte da cidade. Inicialmente analisei os olhares produzidos pelos alunos sobre a escola, sua sala de aula, seus colegas e seus professores. Utilizei a metodologia clássica da antropologia, a observação participante para acompanhar os alunos em todas as suas atividades na escola e realizei entrevistas com esse grupo. Também elaborei um trabalho de produção fotográfica com os estudantes em que eles retrataram e refletiram sobre seu cotidiano, os símbolos e rituais existentes na escola. Ao longo de dois anos de observação participante pude me deparar como uma questão muito pertinente àquele contexto. Da turma de 55 alunos que ingressaram no ano de 2012 no primeiro ano do ensino médio, 13 passaram para o segundo ano. Os outros se transferiram, abandonaram ou ficaram reprovados. Uma professora fez uma reflexão sobre as peneiras existentes na trajetória escolar dos alunos. Segundo ela há uma primeira peneira na antiga quinta série, seguida pelo momento da saída do ensino fundamental e a terceira peneira ocorre no primeiro ano do ensino médio. Para ela, este período funcionava como uma espécie de divisor de águas nas escolas. Estudos já realizados indicam que essas peneiras não são algo exclusivo dessa instituição. A repetência é um fenômeno recorrente nas escolas de ensino médio do Rio de Janeiro. Schwartzman (2006) mostra que o grande funil do sistema educacional do Brasil não está mais no ensino fundamental como se acreditava até alguns anos atrás, mas sim no ensino médio. Ele aponta que no ensino médio, a taxa de reprovação do Rio de Janeiro, de 33.3% um em cada 3 alunos é uma das Piores do Brasil (SCHWARTZMAN; 2011:5). Mantém-se, portanto, a pedagogia da repetência, descrita em 1991 por Sérgio Costa Ribeiro. Este processo estudado por diversos pesquisadores e descrito por essa professora nos mostra um contexto de acentuada evasão, abandono e reprovação. Contudo há poucos trabalhos que se aprofundam no estudo dos alunos que sobrevivem a essas peneiras e continuam seu curso escolar, principalmente no ensino médio. É sobre esses alunos que trato em meu trabalho. Procuro descrever a trajetória dos treze estudantes que acompanho desde o primeiro ano do ensino médio: quem são, quais são as suas trajetórias, quais as suas relações com a escola, com a educação, com a família e suas perspectivas de futuro. 2

3 Neste trabalho busco apresentar os resultados de minha pesquisa ao longo desses dois anos. Primeiramente me atenho ao trabalho fotográfico, intitulado Projeto Autorretrato, que realizei com os alunos em seu primeiro ano no Ensino Médio. Depois analiso entrevistas feitas com os alunos que sobreviveram ao primeiro ano. Na última parte, faço um diálogo mais estreito entre os resultados e a teoria. Trabalho de campo: do autorretrato às redes de sociabilidade Em 2012 realizei um trabalho com os alunos do primeiro ano do ensino médio intitulado Projeto Autorretrato. Nele os alunos tiveram a oportunidade de fotografar, em seus celulares ou câmeras fotográficas, o que julgassem mais interessante na escola, o que mais os chamava atenção. Em uma dessas fotos foi retratado um grupo de alunos sentados em uma das escadas da escola. Como pedi para que descrevessem as fotos, eles disseram que aquela era a galera da escada. Assim como essa, houve outras fotos em que eles se retrataram junto ao seu grupo de amigos. Como nos diz Peixoto, a análise das imagens coloca à prova a capacidade de identificar o que há de antropológico nessas imagens e de reconhecer, na banalidade de alguns planos, as manifestações cristalizadas das relações sociais. (PEIXOTO 1998:7). Esse trabalho suscitou questões do tipo: como é ser aluno nessa escola? O que é importante nela? Quando vocês acordam de manhã para vir para a aula o que vocês esperam? Ao responderem a essas perguntas os alunos ressaltaram as redes de amizade como um dos fatores para a permanência na escola e o seu resultado nas aulas. O trabalho fotográfico possibilitou um novo olhar para o campo e comecei a analisar a influencia dessas redes de sociabilidade e os discursos que as permeiam. De que maneira elas influenciavam a vida escolar daqueles estudantes? Outros recursos como a observação participante e as entrevistas foram fundamentais para ler o que as fotos poderiam significar. No segundo ano de trabalho com esses alunos, mantive-me fazendo a observação participante e também realizei entrevistas com onze dos treze alunos que tinham feito parte da turma que acompanhei no primeiro ano da pesquisa. Eles foram os que passaram pela peneira do primeiro ano do ensino médio. Nas entrevistas perguntei sobre a Nela foram contemplados assuntos que dizem respeito à família, a 3

4 trajetória escolar, as opiniões sobre a escola, a discriminação, o trabalho, a repetência, a rotina, os relacionamentos, o lazer. Farei aqui uma opção por ressaltar aspectos que dialogam com a questão central neste trabalho que são as redes. A primeira informação que aparece no grupo de alunos pesquisados é que de treze alunos que passaram de série, onze são mulheres e dois são homens. No trabalho de campo frequentando as aulas em turmas de segundo ano, vejo que essa situação se mantém. Quando perguntados a respeito de sua escola falam que ela tem uma fama de desorganizada e é conhecida como escola de quem não quer nada. Na questão sobre o que seria uma escola ruim metade dos alunos citam a sua como exemplo. Além disso, afirmaram que essa escola não era a escola que queriam cursar o ensino médio. Perguntei então, se trocariam de escola. A resposta, na maioria dos casos, é que quando entraram sim, mas agora não, pois já haviam se enturmado criando amigos na escola. Sobre a escolha da escola, muitos falaram sobre terem sido influenciados pelas escolhas dos amigos. Eles combinaram previamente quais escolas tentariam. Contudo, mesmo com a influência de seus grupos, as mães aparecem com o ator que deu o veredicto sobre onde eles iam estudar. Essas mães são muito mais escolarizadas que os pais. Enquanto elas têm o ensino médio completo ou incompleto, os pais aparecem tendo apenas o ensino fundamental incompleto. São elas também quem acompanham os estudos desses jovens, enquanto os pais aparecem mais como figuras punitivas. Sobre os motivos pelos quais gostam de vir à escola, aparece fortemente a relação com os amigos. Muitos destacam a influência direta do grupo de amigos na sua aprovação e algumas vezes na sua reprovação. Destacam também o diálogo, o entrosamento, a atenção e o saber explicar, como pontos importantes para ser um bom professor. Conclusão Tendo em vista a relação enfraquecida que esses alunos demonstraram ter com a sua escola ao colocarem esta como exemplo de escola ruim, estes estudantes se utilizam de outros recursos para permanecerem naquele ambiente. 4

5 O conceito de capital social de Bourdieu (1980) é interessante para nossa análise na medida em que esse é visto como um conjunto de recursos vinculados ao pertencimento a um grupo. Para ele, essas redes de relações podem ser produtos conscientes ou inconscientes de uma ação direcionada a uma instituição com o intuito de transformar as relações em meios de garantir direitos, reconhecimento, respeito. Honorato (2005) usa o termo famílias de substituição para falar de um grupo em que se herda um ethos de ascensão pela escola. Nelas há uma solidariedade grupal que ajuda no processo escolar. Podemos citar aqui a influencia de certos professores no incentivo a permanência desses alunos na escola. Analisei alguns dos motivos da permanência desses alunos na escola. Um dos que mais me chamou atenção em suas falas e em seu cotidiano foram as redes de amizade. Os dados indicam que as redes influem em suas escolhas educacionais, em seus desempenhos e facilitam ou dificultam o fortalecimento de laços de pertencimento à escola. Bibliografia BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. In: NOGUEIRA & CATANI (Org.). 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, HONORATO, G. Estratégias Coletivas em torno da Formação Universitária: Status, Igualdade Mobilidade entre Desfavorecidos. Dissertação de Mestrado. UFRJ, IFCS, RJ: PEIXOTO, Clarice. Caleidoscópio de imagens: o uso das imagens e a sua contribuição à análise das relações sociais. In Feldman-Bianco B. e Moreira Leite M., Desafios da Imagem: fotografia, iconografia e vídeo nas CS. Ed. Papirus, 1998 (2001, 2a ed.) RIBEIRO, S. C. A pedagogia da repetência. Estud. av., São Paulo, v. 5, n. 12, Agosto SCHWARTZMAN, S. Melhorar a educação no Rio de Janeiro: um longo caminho. In: URANI & GIAMBIAGI. Rio A Hora da Virada. Rio de Janeiro: Elsevier,

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