INTRODUÇÃO AO PLANEAMENTO FINANCEIRO: Nota técnica sobre um método expedito de cálculo das necessidades de financiamento previsionais 1

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1 INTRODUÇÃO AO PLANEAMENTO FINANCEIRO: Nota técnica sobre um método expedito de cálculo das necessidades de financiamento previsionais. Importância do planeamento financeiro O planeamento financeiro é uma actividade essencial na gestão e nas finanças da empresa pois trata de identificar as necessidades de financiamento previsionais e de estudar as formas de financiamento mais adequadas. Para além de ser um instrumento essencial na gestão financeira e estratégica das empresas, tem também um papel importante na banca comercial e de investimento, nas actividades relacionadas com a concessão de crédito, com as reestruturações financeiras, com os aumentos de capital e com a avaliação de empresas e negócios. O planeamento financeiro é também parte integrante de qualquer plano de negócios ( business plan ). O plano de negócios é fundamental nos processos de criação de empresas, assim como em todas as reestruturações empresariais, nomeadamente, MBO 2, fusões, aquisições, cisões e outras reestruturações empresariais. Na avaliação de empresas é fundamental a estimativa dos fluxos de caixa previsionais pelo que as avaliações de empresas exigem sempre o recurso a técnicas de planeamento financeiro. 2. O plano de negócios e o plano financeiro Sendo o plano financeiro parte integrante do plano de negócios da empresa vejamos como se interligam. Os planos de negócios têm por base os objectivos estratégicos da empresa e da sua posição e competitividade. Além disso, com base no diagnóstico e na perspectiva de desenvolvimento da empresa estabelecem-se um conjunto de políticas de gestão. Muitas destas políticas são definidas por áreas funcionais como a área comercial e de marketing, produção e logística, pessoal, investimentos, financiamento, etc. Os objectivos e as políticas de gestão vão integrar o conjunto de pressupostos do plano financeiro que são fundamentais para a elaboração das previsões financeiras e/ou orçamentos. Produzem-se então os orçamentos e os documentos financeiros previsionais. Uma vez produzidas as demonstrações financeiras previsionais deve proceder-se à sua análise e verificação da conformidade com os objectivos inicialmente enunciados: João Carvalho das Neves, Professor Associado no ISEG, 200 Documento complementar ao ensino e à formação em sala como apoio ao desenvolvimento profissional de gestores e economistas. 2 MBO são Management Buy Out que corresponde à aquisição da empresa pelos próprios administradores e/ou directores.

2 Política de Gestão: Marketing e vendas Produção e Logística Investimentos Financiamento Pessoal Planeamento e orçamento de Recursos: Vendas Produção Investimentos Recrutamento Financiamento Ciclo de planeamento N Documentos previsionais: Fluxos de caixa Demonstração de resultados Balanços Análise Estratégica Objectivos Estratégicos Figura O ciclo de planeamento financeiro da empresa Isto significa que o planeamento financeiro segue um processo iterativo até que se alcancem os padrões considerados satisfatórios, tendo em consideração as restrições existentes. 3. Tipos de planeamento financeiro Como se referiu anteriormente o planeamento financeiro visa determinar as necessidades de financiamento previsionais e estudar as formas mais adequadas de financiamento no futuro. Pode alcançar-se este objectivo de três modos distintos: Método expedito Neste método privilegia-se a rapidez ao rigor. O centro das atenções é alcançar de forma rápida a estimativa das necessidades de financiamento previsional. Assim, as demonstrações financeiras são agregadas pelos seus elementos mais ou menos homogéneos e através da expectativa de evolução do volume de negócios e de mais 3 a 5 rácios, calculam-se as necessidades financeiras previsionais. Existem múltiplas formas de proceder a estas simplificações na prática. Na literatura das finanças de empresa existem duas formas padronizadas muito conhecidas. Um dos métodos mais conhecidos na literatura de finanças de empresa é o método da percentagem das vendas (Ross, Westerfield e Jaffe, 2000). Pelo seu excesso de simplificação este método parte de pressupostos que se tornam pouco realistas. Apresentaremos na última secção deste texto um modelo expedito mas mais realista que pode designar-se por Método expedito do fluxo de caixa e que também aparece na literatura das finanças de empresa (Brealey e Myers, 2000). Método directo Neste método as demonstrações financeiras são reproduzidas a um nível detalhado suficiente para tratar cada rubrica de forma como se prevê que seja a sua evolução. A projecção do volume de negócios é sempre uma base fundamental do planeamento financeiro. Identificam-se todas as rubricas que poderão variar de forma percentual com as vendas e estima-se a evolução de cada uma das outras rubricas que têm um comportamento distinto. Todas as rubricas depois de projectadas são levadas de forma directa aos documentos financeiros previsionais: balanço, demonstração de resultados e dos fluxos de caixa. Este método é muitas vezes usado pela direcção financeira na gestão dos recursos financeiros bem como para apresentação ao 2

3 exterior, nomeadamente, nos processos de obtenção de empréstimos. Este também é o método usado nos processos de avaliação de empresas; Método de consolidação orçamental Este método recorre ao processo orçamental da empresa, consolidando os orçamentos que foram produzidos para cada uma das áreas da empresa. Baseia-se, por isso, no processo orçamental da empresa que deverá ter a participação dos principais responsáveis da empresa. O método de consolidação orçamental O processo orçamental da empresa exige tempo pois deve ser descentralizado pelos principais responsáveis que irão orçamentar a sua área de responsabilidade. O planeamento financeiro neste caso irá proceder à consolidação de todos os orçamentos da empresa. Neste método de planeamento financeiro, os orçamentos subdividem-se em dois tipos: orçamentos operacionais que se relacionam com as decisões operacionais como sejam comerciais ou de produção; orçamentos de investimento onde se reflectem as previsões de investimento; orçamentos financeiros que produzem a síntese dos orçamentos operacionais. Como exemplo de orçamentos operacionais pode listar-se os seguintes: Plano e orçamento de volume de negócios; Plano e orçamento de produção; Plano e orçamento de aprovisionamento; Plano e orçamento de custos com pessoal pelas diversas áreas da empresa produção, comercial, administrativa e financeira; Plano e orçamento das despesas de produção; Plano e orçamento das despesas comerciais e de distribuição; Plano e orçamento das despesas administrativas gerais; A demonstração de resultados pró-forma significa a demonstração de resultados ainda sem os custos financeiros. Os planos de investimento identificam as necessidades da empresa por diversas áreas da empresa e os orçamentos de investimento reflectem as previsões de despesas com esta rubrica. A partir destes orçamentos estimam-se as respectivas amortizações. Os orçamentos financeiros incluem: A demonstração de resultados líquidos previsional; Os balanços previsionais; A demonstração de fluxos de caixa (tesouraria) previsional 3

4 Em síntese, o método de consolidação dos orçamentos acaba por se reduzir aos seguintes passos: Plano do volume de negócios e consequente previsão financeira; Previsão do volume de produção e respectivos custos de produção; Previsão das outras naturezas de custos: Consolidação das informações orçamentais nas demonstrações financeiras pró-forma: resultados, balanço e fluxo de caixa; Analise das necessidades financeiras e escolha das formas de financiamento mais adequadas; Elaboração das demonstrações financeiras previsionais. Para efeitos de planeamento e controlo da gestão da empresa a administração da empresa deve levar os principais responsáveis da empresa a participar na elaboração do plano, discutindo e definindo com eles os objectivos, as estratégias e as políticas de gestão para que estes possam elaborar planos de recursos coerentes com os objectivos globais da empresa e se mantenham empenhados no alcance dos mesmos. Para efeitos de planeamento financeiro pode aproveitar-se esta informação. Mas também é certo que muitas empresas não têm um processo de planeamento tão rigoroso e, muitas vezes são precisos planos urgentes para apresentação ao exterior, como sejam bancos, parceiros estratégicos, etc. Assim, os gestores e analistas financeiros recorrem com frequência ao método directo de planeamento financeiro. O método directo de planeamento financeiro No método directo de planeamento financeiro, por comparação com o método de consolidação orçamental, simplifica-se toda a fase de estimativa dos proveitos e custos e custos operacionais através rácios e pressupostos de evolução das despesas. Com base nessa informação seguem-se as seguintes fases: Projecção das demonstrações financeiras pró-forma: resultados, balanço e fluxo de caixa; Analise das necessidades financeiras e escolha das formas de financiamento mais adequadas; Elaboração das demonstrações financeiras previsionais A projecção das demonstrações financeiras pró-forma pode fazer-se da seguinte forma: Previsão do volume de negócios esta constitui uma das fases determinantes de um bom plano financeiro, pois muitas das outras previsões estarão com ela relacionadas. Os métodos de previsão do volume de negócios podem ser de diversa natureza desde os modelos baseados na mera observação das taxas de crescimento históricas e explicitação de expectativas de evolução até aos modelos baseados em técnicas estatísticas como a análise de tendência, análise de regressão simples e múltipla e análise de séries cronológicas que consistem em identificar as suas quatro componentes, nomeadamente, a tendência, a ciclicidade, a sazonalidade e a aleatoriadade. 4

5 Projecção dos custos variáveis como os custos variáveis são função do volume de negócios há que definir qual a tendência de evolução dessa relação, desde a manutenção da relação histórica até à reflexão das expectativas de introdução de eficiências operativas por cada uma das naturezas de custos. Entre estes custos destacam-se os custos das mercadorias e consumidas e diversas naturezas de fornecimentos e serviços externos; Projecção dos custos fixos por natureza estes custos são fixos e, por isso não têm uma relação proporcional com o volume de negócios. Há que reflectir sobre a expectativa da sua evolução face às necessidades de organização e desenvolvimento da empresa. Neste grupo de despesas estão uma parte importante das despesas com pessoal e muitas das rubricas de fornecimentos e serviços externos. Outro tipo de custo a considerar são as amortizações do exercício que são função dos activos fixos e das respectivas taxas de amortização. Estimativa do investimento esta estimativa deve ter em consideração o activo fixo necessário para suportar a evolução prevista para o volume de negócios. Colocam-se aqui aspectos relacionados com a capacidade produtividade e com as melhorias da qualidade, bem como com a protecção do ambiente e condições de trabalho. Em métodos de planeamento mais simplificados assume-se a evolução do activo fixo líquido em termos de objectivos para o rácio de rotação do activo fixo 3 ; Estimativa das necessidades em fundo de maneio esta estimativa tem por base a evolução do volume de negócios e as condições de funcionamento da empresa e da própria concorrência. Esta fase leva o analista a identificar no balanço as rubricas que variam em percentagem do volume de negócios. Entre estas estão os activos cíclicos (e.g. existências, clientes e outros devedores de exploração) e os passivos cíclicos (e.g. fornecedores, Estado de exploração e outros credores de exploração). O analista deve tomar em consideração a evolução histórica do ciclo financeiro de exploração e a expectativa futura de evolução; Estima de evolução de outras rubricas do balanço - As outras rubrica do balanço não directamente relacionadas com as volume de negócios, como seja o capital social, os empréstimos bancários, os empréstimos de accionistas, etc., são introduzidos de acordo com a expectativa da sua evolução, nomeadamente, do plano de reembolso da dívida, do plano de aumento de capital, etc. Os passos que acabámos de identificar são fundamentais para a elaboração das demonstrações financeiras pró-forma. Uma vez feitas estas projecções financeiras, o analista está em condições de elaborar os documentos financeiros pró-forma (ª aproximação) e identificar as necessidades de financiamento previsionais para a empresa. As necessidades de financiamento previsionais podem ser analisadas no balanço próforma ou no mapa de fluxos de caixa pró-forma: No balanço pró-forma O somatório dos activos projectados menos o total da projecção dos passivos identifica as necessidades acumuladas de financiamento previsional; 3 Rotação do activo fixo = Volume de negócios / Activo fixo 5

6 Nos fluxos de caixa pró-forma A diferença entre os recebimentos e pagamentos identifica as necessidades anuais de financiamento previsionais. É fundamental o domínio da interligação entre as rubricas das demonstrações financeiras previsionais pelo existem mais materiais de apoio às aulas na página da disciplina on-line, nomeadamente: Um modelo previsional simplificado pelo método directo com um processo iterativo de estimativa das necessidades de financiamento previsional; O caso Dinar, SA que descreve o processo e todos os pressupostos necessários à elaboração dos documentos financeiros previsionais; Um folha de cálculo auxiliar do caso Dinar onde estão introduzidos os pressupostos e forma criados documentos financeiros modelo que devem ser preenchidos pelos alunos. As aulas serão usadas para explicação teórica mais detalhada e para análise das dificuldades de aplicação. As necessidades financeiras previsionais pelo método directo O método da percentagem das vendas Este método é o mais simples de todos os métodos e, por isso, o mais rápido de cálculo, mas também o mais falível. Este método parte da forma mais agregada possível do balanço: A = P + CP em que: A Activo P Passivo CP Capital próprio Em termos de acréscimo tem-se: Ou seja: A = P + CP A P CP = 0 O método pressupõe que todas as rubricas do activo e passivo variam no futuro na mesma proporção da variação do volume de negócios e que os capitais próprios variam pelo resultado retido. Se destas variações o activo for superior ao passivo e capital próprio então tem-se uma necessidade de financiamento externo que terá de vir a ser suprida com mais capital alheio ou com aumento de capital social. 6

7 Em síntese a formulação será a seguinte: NFP A P = V V V V [ RLV V ( d )] em que: A/V Activos em percentagem do volume de negócios (rácio inverso da rotação dos activo); V Acréscimo previsto para o volume de negócios no ano ; P/V Passivos em percentagem do volume de negócios; RLV rendibilidade líquida do volume de negócios, isto é, os resultados líquidos em percentagem do volume de negócios; V Volume de negócios previsto para o ano ; d Taxa de dividendos, isto é dividendos em percentagem dos resultados líquidos. É evidente o significado dos valores apurados pela equação anterior: No primeiro parêntesis recto tem-se a previsão de acréscimo dos activos; No segundo parêntesis recto está a previsão de crescimento do passivo; No terceiro parêntesis recto tem-se os resultados retidos (isto é, resultados líquidos menos dividendos). Considerando a taxa de crescimento do volume de negócios a equação anterior pode ser apresentada da seguinte forma: NFP A P = V0 gv V gv V V 0 V 0 [ RLV V ( + g ) ( d )] em que: V 0 Volume de negócios do ano 0; g v Taxa de crescimento de vendas prevista para o ano ; Como se disse anteriormente, esta fórmula é de tal forma redutora da realidade que acaba por não ser muito utilizada na prática. Convém reter no entanto outras formas simplificadas para estimativa das necessidades de financiamento previsionais. O método expedito do fluxo de caixa previsional Um outro método expedito e talvez mais razoável quanto aos pressupostos de evolução é aquele que procura estimar as necessidades de financiamento previsional a partir de um modelo simplificado de fluxos de caixa. 7

8 O modelo mais simplificado de fluxos de caixa que pode encontrar-se para estimar as necessidades de financiamento previsionais é o seguinte: Necessidades de financiamento previsionais = + Autofinanciamento líquido - Investimento em necessidades em fundo de maneio - Investimento em activo fixo De referir que o autofinanciamento líquido corresponde à seguinte expressão: Autofinanciamento líquido = + Resultados líquidos + Amortizações e provisões - Dividendos Consequentemente as necessidades de financiamento podem deduzir-se através da seguinte expressão matemática: NF IAF = RLV V0 ( + g) η IAF 2 ( d ) + γ AFB0 + ( V NFM 0 ) em que: RLV Rendibilidade líquida do volume de negócios prevista para o ano ; V 0 volume de negócios no ano 0; g taxa de crescimento das volume de negócios no ano ; d taxa de distribuição dos lucros no ano ; γ taxa média de amortização do imobilizado no ano ; AFB 0 Activo fixo bruto no início do ano ; IAF Investimento em activo fixo bruto no ano ; η necessidades em fundo de maneio em% do volume de negócios no ano NFM 0 Necessidades em fundo de maneio no inicio do ano. Considere a seguinte informação da Portugal Telecom em 998 e 999: 8

9 Quadro Dados históricos síntese da Portugal Telecom Milhões de euros BALANÇO Activo fixo bruto,337 2,35 Amortizações acumuladas 4,575 5,24 Activo fixo líquido ,92 Existências Clientes Tesouraria activa Activo total Capital próprio 295 2,836 Dividas a M/L Prazo 93 3,963 Passivo Cíclico Tesouraria Passiva Total RESULTADOS Volume de negócios ,406 Resultado operacional Amortizações do exercício Resultado liquido Com base nesta informação calcularam-se os rácios históricos definidos na equação anterior e fizeram-se pressupostos de evolução para 2000: Quadro 2 Rácios históricos e pressupostos de evolução da Portugal Telecom Histórico Pressuposto RÁCIOS Taxa de crescimento do volume de negócios 0.7% 0.00% Rendibilidade líquida do volume de negócios 4.27% 4.50% 4.50% 40.00% Taxa de amortização 5.39% 5.27% 5.25% Investimentos Necessidades em fundo de maneio NFM% 2.02%.47%.75% Com base nos pressupostos de evolução da empresa procedeu-se à estimativa das necessidades de financiamento previsionais, isto é, de financiamento externo adicional ao que a empresa tem de momento: 9

10 Quadro 3 Necessidades financeiras previsionais da Portugal Telecom Milhões de euros Volume de negócios 3,747 Resultados líquidos 543 Resultados retidos 326 Amortizações 658 NFM 66 Variação NFM (6) Investimento em activo fixo (800) Necessidade de financiamento previsional 68 * Valores negativos significa saída de fundos, se positivo entrada de fundos. A este valor de 68 milhões de euros de excedentes financeiros gerados pelas operações da PT há ainda a considerar o eventual financiamento necessário para os reembolsos de empréstimos e variações de outras rubricas de tesouraria. Referências Bibliográficas: Brealey, R. e S. Myers, (2000), Principles of Corporate Finance, (6ª Edição), N.Y.: Irwin McGraw-Hill. Benninga, S., (2000), Financial Modeling, (2ª Edição), Cambridge, Mass.: The MIT Press. Damodaran, A. (997), Corporate Finance, N.Y.: John Wiley & Sons. Gitman, L. (2000), Principles of Managerial Finance, (9ª Edição), Reading, Mass.: Addison- Wesley. Ross, S., R. Westerfield e J. Jaffe (2000), Corporate Finance, (5ª Edição), N.Y.: Irwin McGraw- Hill. 0

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