O DE SEJO QUE (LHE ) RESTA. Adriana Grosman

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1 O DE SEJO QUE (LHE ) RESTA Adriana Grosman Pretendo tratar de um caso clinico que coloca em evidencia que não é só a questão fálica que está em jogo na maternidade se não o resto do desejo, algo que escapa o enquadre, e portanto, gerador de tanto mal estar. Escrava do olhar do Outro, esta paciente precisa ver tudo, e ver de verdade, a maternidade produz um abalo pra ela, desta vez não consegue enquadrar o objeto, vê algo de um horror, um estranhamento que abala o seu perfeccionismo.... O problema da quebra da imagem do ideal, é uma questão para todos, tão bem representado nos filmes de romance, quando algo ocorre e acaba com a felicidade do casal, com o encontro maravilhoso. Assim, aparece um culpado na historia, um terceiro que trai, um acidente que tira um da jogada, um fato que faz a historia andar justamente onde o romance claudica. E ai o que fazer com a imagem do outro tão perfeita no inicio, que sofre o atentado, a traição ou o acidente, a quebra da imagem do Outro? O sujeito vai fazendo várias manobras ao longo da vida para tentar dar nomes e recobrir esta falta, esta quebra da imagem do Outro. Freud chamou de solução de compromisso, este arranjo feito para dar conta deste horror, estranho, fazendo que este ganhe uma cara mais universal e assim menos monstruosa. De qualquer forma este horror parece ganhar espaço quando traz uma perda para o sujeito, um fracasso, um abalo, um encontro com o real ou com a tal indeterminação do reino desconhecido. Lacan ( ) fala disso muito bem, quando diz: esta imagem especular que tem diante de nós, que é nossa altura, nosso par de olhos, deixa surgir a dimensão de nosso próprio olhar, o valor da imagem começa a se modificar sobretudo quando há um momento em que o olhar que aparece no espelho começa a não mais olhar para nós mesmos. Initium, aura, aurora de um sentimento de estranheza que é a porta para a angústia. (p. 100).

2 Para a paciente que pretendo tratar, tiveram obstáculos difíceis por quais passou, perdeu o pai aos treze anos e assumiu um lugar de filha da irmã e da mãe, novo casal que fez suplência ao antigo e a sustentou na sua fantasia de filha deste, encobrindo o horror, mesmo que deixando pistas deste, uma intranqüilidade diária e uma insegurança brutal. Foi após a maternidade, com um início muito difícil e instável, que diante da fala da professora de sua filha que disse algo relacionado a psicose, quando esta tinha dois anos e apresentava um atraso de fala, provocando um horror para ela, que a trouxe para o tratamento. Podemos pensar que a psicanálise entra em jogo quando as armas fracassam, quando há um fracasso, uma caída. A partir dai, essa criança uma vez em cena traz uma turbulência, como um objeto estranho causador de desequilibrio. Segundo Eric Laurent (p.31) a questão é que a mulher vê surgir no real, com a criança, essa parte perdida dela mesma que surge na realidade e, quanto mais próximo isto esta do real, mais difícil esta realidade será para a intervenção do psicanalista. O Horror, resto do desejo, está ligado a aquilo que aparece relacionado ao objeto, aquilo que sobra. Essa paciente sintoma do casal mãe e irmã tenta a vida toda arrumar as relações e bolava explicações e justificativas p/ tudo, até que a sua filha apresenta um sintoma, que traz o horror, o apagamento, filha doente, significante que mais tarde vai ser associado ao apagamento ligado a sua posição de vítima. Tenta loucamente apagar a idéia que este significante lhe suscita e para se livrar do mal estar produzido faz de tudo para arrumá-la. Na análise queria consertá-la, identificada a filha, inclusive emprestando o seu corpo p/ ela usar como quisesse, o qeu chama muito a atençnao da analista. Um mundo simbólico restrito fazia-a cair sempre diante deste horror, se adiantava em responder ao Outro e começou a perceber como atropelava a filha, que não tinha espaço para ser. Essa situação com a filha apontava diretamente para a relação com a sua mãe, na sua falta de posição, sem desejar e aprisionada ao lugar de não ser para ser a filha para o casal. Precisava responder a todos com muita eficiência e tentava ser reconhecida pela sua mãe numa positividade, para isso passa a ser aquela criatura verdadeira, dentro da lei, protegida pelas certezas construídas. De novo, suas certezas são abaladas com o

3 sintoma da filha, aqui nada pode resolver, fica aparente o fracasso do encontro, não tinha o que fazer para a filha falar. Passou a falar, falar em análise, a questão da perda, da sua dor, da perda do pai, do medo da perda. Em vez de valorizar a perda em si, Lacan a desloca, ao destacar o quanto nela pode haver de um excesso traumatizante, e aborda o luto como trabalho em torno deste ponto traumático. Tal evolução clínica tem lugar em seu O Seminário, livro10, no qual a angústia abre caminho para que se destaque conceitualmente o incorpóreo do objeto seja no campo da perda, seja no da vida amorosa. Para situar em termos conceituais esse suplemento objetal que faz do objeto de nossa afeição algo perturbadoramente diferente de uma coleção de atributos, Lacan opera por redução. Esvazia-o ao máximo de sentido, para evitar que se de excessivamente corpo a um ser de essência tão paradoxal, reserva para ele apenas uma letra e o batiza, nesse seminário, objeto a. (Vieira, p 54). Uma reformulação de nossas certezas é fundamental ao revelar o quanto o desejo e o amor se sustentam em nada, e por ser nada ele pode ser horror e prazer, há uma separação tênue entre eles. A mudança do olhar causa uma abertura para esse invisível e é impressionante vista na clinica, para chegar a este ponto darei um salto de 4 anos na análise dessa paciente: A paciente conta a cena onde é fisgada pelo olhar do outro, mas algo diferente se instala ai vive uma coisa no corpo, um prazer, uma coisa física, corporal que não havia sentido antes, fica muito mexida com o olhar do personal e meio desconfiada do que seria isso, já que ele não faz nada o seu tipo, algo que ele falou elogiando-a, admirando-a causa isso, percebe que gostou de ser olhada desta forma. Em que momento entra este novo olhar e que diferença este produz subjetivamente? No momento que corta relações com uma amiga, amiga sem defeitos, que consideravam-se muito parecidas, uma relação como a percebe, que lhe ocupava bastante. Foi se misturando nessa relação até que não podia mais deixar de responder a amiga, dizia: era bom poder dar para o outro o que o outro precisava. A caída do ideal se dá quando assiste a uma briga desta com o marido e vê a amiga mentir e ser muito agressiva com o marido, se decepciona com ela. É duro o corte com esta amiga, mas desta vez, agüenta a angústia.

4 Esta cena põe em jogo o lugar da falta, primeira experiência que inclui em si levar em conta a falta como tal. Este fracasso, caída do grande Outro a faz ver o lugar que entra p/ satisfazer a fantasia de ser objeto de desejo do desejo do outro, o preço de gozar destas relações e ficar serva, ter que responder a demanda o tempo todo, não pode parar, percebe que como objeto de desejo se esconde, não pode causar desejo, se apaga, para manter intacta o lugar que ocupa na sua fantasia na relação com a mãe e irmã, uma filha que não pode crescer, como a sua filha doente. Sempre no mesmo malabarismo se apaga para manter a sua tese de que as relações podem ser maravilhosas, como imaginou um dia. Há uma renovação do ato de olhar, onde num primeiro momento a questão do olhar do Outro escraviza o sujeito ainda empobrecido e muito precisado da capa narcísica, para um segundo momento, de mudança deste. Esta é produzida a partir de uma questão trazida pela criança, ou seja, pela via da maternidade, não só pela questão fálica que está em jogo, se não pelo resto do desejo, algo que escapa ao enquadre, e portanto, gerador de muito mal estar. Esse invisível suprimido do olhar, nas palavras de Marcos Andre Vieira: No espelho do Outro vejo o mundo e me vejo nele como um todo, mas algo, como no paradoxo do catálogo que contém todos os catálogos, de Bertrand Russell(1903), sempre faltará no reflexo que o espelho me oferece, isto é, o próprio espelho. Alguém já viu a própria nuca? Vivemos como se a conhecêssemos de modo real, esquecendo que nosso único acesso a ela é o espelho do Outro. (p. 77). Esse novo olhar viu alguma coisa nela que ninguém viu, traz um mistério, vê o invisível que estava encoberto pela certeza, aquilo da essência do sujeito. Uma traição a lei, a sua verdade, instituída e construída na sua fantasia pelo Outro. O Desejo não vem reconhecer, deixa sempre um intervalo, ele vem questionar, seria uma demanda que não concerne a necessidade nenhuma. Uma possibilidade da construção em análise que leva à famosa pergunta: Che oi? Que o outro quer de mim? Já é a saída do aprisionamento, no sentido de ver a falta do grande outro, esta pergunta vai se estendendo e numa das diversas tentativas de sair da relação como submetida e escravizada, consegue escrever algo diferente.

5 A partir da ultima cena relatada e do corte produzido naquela relação, pôde entender de onde vinha a questão de ser nada, resto do Outro, identificada a filha, uma separação tênue entre o horror, que sempre sente ao falar da doença da filha e o prazer maravilhoso, gozo, do qual não pode se separar. Assim como o olhar sempre a capturou para algo do seja resto, posição masoquista; onde não se tratava de ser falo da mãe, e sim, sob a rubrica do pequeno a resto do desejo. Fica preso ao gozo como a, como resto, numa impossibilidade de simbolizar. Para a saída do impasse, do gozo, resta-lhe o desejo, não é um movimento para gozar mas o sujeito pode escrever o gozo no campo do simbólico. Um caminho de substituições e a construção da fantasia em análise deu um sentido possível para este lugar que se via. Gostaria de saber mais sobre isso, no início o porque da causa da filha doente, depois para um tempo onde pôde dizer mais coisa sobre aquilo, não tanto no horror do gozo mas como algo do mistério que lhe causa. Desenha a borda do desconhecido, cria uma escrita secreta, torna-se possível ler o ilegível. Do jeito certo, sem que seja compreensível, se não seria apenas mais um sintoma (Vieira,2008. p. 41). Ela começa a questionar sua posição em relação ao marido, é possível sentir-se desejada nesta relação? Pergunta-se. Só relembrando: O que damos no amor é essencialmente, aquilo que não temos, e quando isso que não temos volta para nós, com certeza há uma regressão e, ao mesmo tempo, uma revelação daquilo em que faltamos para com esta pessoa, para representar essa falta. (Lacan, p. 156).

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, Sigmund (1914). Sobre o Narcisismo: Uma Introdução. E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, V. XIV. LACAN, Jacques (1949). O Estádio do espelho como formador da funçåo do eu. In: Escritos; trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., ( ). O seminário, livro 10. A angústia. Trad: Vera Ribeiro. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., VIEIRA, Marcus André Restos: uma introdução lacaniana ao objeto da psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2008.

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