ABANDONO E VIOLÊNCIA CONTRA O IDOSO: REALIDADE DE UMA INSTITUIÇÃO. ¹ Silvestre, L.C; ² Almeida, J.B;³ Giaretta, V.M.A

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1 ABANDONO E VIOLÊNCIA CONTRA O IDOSO: REALIDADE DE UMA INSTITUIÇÃO ¹ Silvestre, L.C; ² Almeida, J.B;³ Giaretta, V.M.A 1,2,3 Faculdade de Ciências da Saúde, Curso de Enfermagem. Universidade do Vale do Paraíba, Brasil, CEP Fone: , Fax: Resumo- O envelhecimento populacional tornou-se um dos maiores desafios para a saúde publica, muitos países convivem com idosos de gerações diversas, os quais possuem necessidades variadas. Os idosos são vítimas dos mais diversos tipos de violência, insultos e agressões físicas causadas por familiares, maus tratos em transportes ou instituições públicas e privadas e as decorrentes de políticas socioeconômicas que reforçam as desigualdades presentes na sociedade. O presente estudo objetiva conhecer as formas mais comuns de agressão e violência sofrida por idosos em uma Instituição de Longa Permanência. Com esse objetivo, realizou-se uma pesquisa, descritiva exploratória e quantitativa, para analisar a freqüência e tipo de maus tratos descritos pelos idosos moradores de uma instituição. O estudo também confirma a existência de várias formas de violência familiar contra idosos, sendo a população feminina a mais afetada com 70,0% de abandono pelos familiares, a dependência total também foi fato visível em 45,0% dos casos, a população encontrada foi à feminina em 52,0%. Sugerindo a falta de informação e de capacitação adequada da família para o cuidado do idoso dependente. Palavras-chave: Violência, Abandono contra Idoso. Área do Conhecimento: IV Ciências da Saúde-Enfermagem Introdução Dentre os desafios da saúde publica citar-seá neste artigo a implementação da estratégia de educação em saúde, visando à manutenção da capacidade funcional do idoso, pois, com o aumento da expectativa de vida mundial, ocorre a convivência entre idosos de gerações diversas e com necessidades variadas, exigindo assim políticas assistenciais distintas para facilitar este convívio plurigeracional (SOUZA; FREITAS; QUEIROZ, 2007). Com o crescimento dessa população e o convívio multigeracional das famílias atuais pode gerar desconforto em níveis insuportáveis facilitando a ocorrência de violência, que se expressa em tradicionais formas de discriminação como exemplo o pensamento de que o idoso é descartável e um peso social. Esta se manifesta estruturalmente devido à desigualdade social representada pela pobreza, miséria e interpessoalmente nas formas de comunicação, de auxilio cotidiano ou institucional, na aplicação ou omissão na gestão de políticas sociais (FONSECA; GONÇALVES, 2003; SOUZA et al., 2004). A violência familiar contra o idoso é discutida nos estudos internacionais e nacionais como sendo a forma mais freqüente de abuso contra os idosos, dentre estas se constatou que a negligência é mais presente tanto no contexto doméstico quanto no plano institucional, resultando freqüentemente em lesões e traumas físicos, emocionais e sociais para o idoso. No Brasil esta discussão tomou força somente como Estatuto do Idoso, onde sugiram as denuncias de violência, mais ainda com dificuldade, por faltar local específico para tratar a denuncia exclusiva do idoso, fato importante para a construção da cidadania em um ambiente democrático (PASINATO; CAMARANO; MACHADO, 2006). Minayo (2004) em seu estudo coloca a definição de maus tratos da Rede Internacional de Prevenção aos Maus tratos de Idosos elaborada na Inglaterra em 1995 O maltrato ao idoso é um ato (único ou repetido) ou omissão que lhe cause dano ou aflição e que se produz em qualquer relação na qual exista expectativa de confiança ; baseada em estudo 1

2 nacionais e internacionais descreve ainda que as causas dos maus tratos são definidas em categorias e tipologias que designam em varias formas assim classificadas em: Violência ou Maus tratos físicos; Maus tratos psicológicos; Abuso financeiro ou material; Abuso sexual ; Negligência ; Abandono ; Auto-abandono ou auto negligência. Sendo o idoso muitas vezes uma pessoa frágil perante seus parentes e cuidadores, torna-se susceptível aos maus tratos, portanto, o instrumento que deve se utilizado para sua proteção é o Estatuto do Idoso, que regula os direitos às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com previsão de pena pelo seu descumprimento. De acordo com o este, prevenir a ameaça ou violação dos direitos dos idosos passa a ser um dever de toda a sociedade brasileira, tornando obrigatória a sua denúncia aos órgãos competentes de cada Município e Estado. (FONSECA; GONÇALVES, 2003). Para Souza; Freitas; Queiroz (2007), com a sanção da Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso assegura questões sobre a disponibilidade, às condições de funcionamento dos serviços de denúncia e proteção aos idosos e sobre a necessidade de criação de serviços específicos para este grupo populacional. Baseado nesta descrição pode-se perguntar aos cidadãos e profissionais de saúde se estão cumprindo com o seu dever de comunicar as formas de violência que têm contato? Que tipos de denúncias ocorrem com mais freqüência? Em situações que se confirmem os maus tratos, o Estado Brasileiro está aparelhado para exercer seu papel de mediador dos conflitos? O presente estudo objetiva conhecer as formas mais comuns de agressão e violência sofrida por idosos em uma Instituição de Longa Permanencia. responsável legal da instituição e guardião dos idosos residentes. A coleta deu-se por meio de visitas agendadas com antecedência por telefone, em dia e horário determinados pela Coordenadora, respeitando a disponibilidade dos participantes. Os dados coletados com os voluntários foram confirmados mediante as fichas de internação na instituição. Utilizou-se para esta pesquisa um formulário contendo perguntas fechadas e abertas sobre o tema dividido em duas partes, a Parte I que é referente à identificação do voluntário baseado em (Brasil, 2006 b1), e a Parte II que consta de perguntas direcionadas ao tema da pesquisa, (Brasil, 2006 b2) (Anexo 1). Parte I - Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa itens de 2 a 5 (2006) b1. Parte II - Formulário Avaliação de Violência e Maus-tratos Contra Pessoa Idosa" b2. Resultados Ao final obteve-se 48 (100%) prontuários dos internos da referente instituição pesquisada. O tratamento dos dados deu-se na forma de números inteiros, porcentagem e descritivo seguindo a ordem do instrumento da pesquisa. Objetivo Definir as Categorias e Tipologias mais comuns de Maus Tratos relatados pelos voluntários e confirmados em documento da referida Instituição. Metodologia P O P U L A ÇÃ O E S T U D AD A Estudo descritivo, exploratório, com abordagem quantitativa, seguindo-se os preceitos éticos da Resolução 196/96 e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIVAP sob o parecer nºh223 /CEP/2008. A pesquisa deu-se em uma Instituição de Longa Permanência (ILP) no Vale do Paraíba. A casuística foi idosos residentes nesta instituição, com 60 anos ou mais que aceitaram responder ao formulário. Todos os voluntários que concordaram em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido juntamente com o TOTAL DE INTERNAÇÕES FEMININO MASCULINO Figura1: Perfil sexual da População estudada. São José dos Campos (n = 48). Observando a Figura 1 pode se concluir que o número maior desta população estudada é do sexo feminino com uma porcentagem de 52,0 % sobre a masculina. 2

3 Tabela 1 - Caracterização dos fatores de abandono da população estudada. São José dos Campos (n= 48). Fatores citados que levaram ao abandono Qtd % Abandono pelos familiares 20 41,7 Violência domestica 11 22,9 Negligência e recusa familiar 9 18,7 Sem vinculo familiar 8 16,7 Total ,0 A Tabela 1 mostra que a população estudada foi para a ILP em 41,7% por abandono dos familiares,22,9% relacionado à violência domestica e somente 16,7% por falta de vínculo familiar. Tabela 2- Distribuição da população estudada segundo idade, sexo, dependência e condição socioeconômica Variáveis Abandono pelos familiares Fatores que levaram ao abandono Violência domestica Negligência e recusa familiar Sem vinculo familiar Total N % N % N % N % N % Idade ,0 7 63,6 5 55,6 6 75, ,2 Idade ,0 4 36,4 4 44,4 2 25, ,8 Sexo feminino 14 70,0 5 45,4 4 44,4 2 25, ,1 Sexo masculino 6 30,0 6 54,5 5 55,6 6 75, ,9 7 35,0 4 36,4 5 55,6 4 50, ,7 4 20,0 3 27,3 1 11,1 2 25, ,8 Sem Dependência semidependência Dependência total 9 45,0 4 36,4 3 33,3 2 25, ,5 Escolarida -de 0-4 anos 5-8 anos 18 90,0 9 81,8 8 88,9 7 87, ,5 2 10,0 2 18,2 1 11,1 1 12,5 6 12,5 + de 8 anos Recursos financeiro s baixo 2 10,0 3 27,3 2 22,2 1 12,5 8 72,0. A Tabela 2 mostra que os voluntários de 60 a 70 anos sofreram mais violência domestica que os de 71 a 80 anos, e estes foram abandonados pelos familiares com 60,0%. O sexo masculino foi para a ILP em 75,0% por falta de vínculo familiar, diferente do sexo feminino que em 70,0% foram abandonadas pelos familiares. Já para a variável dependência observa-se que 45,0% são totalmente dependentes quando abandonados pelos familiares, a escolaridade de até quatro anos leva ao abandono dos familiares em 90,0%, violência domestica em 81,8%, negligencia e recusa familiar em 88,9% e a falta de vinculo familiar em 87,5%, variável mais expressiva para desencadear o abandono neste estudo, ainda a falta de recursos financeiros e a escolaridade entre 5 e 8 anos são abandonados pelos familiares em 10,0%. Discussão Machado e Queiros (2002), referem que, no contexto de maus tratos e negligência aos idosos no âmbito intrafamiliar, existem fatores de risco, como a história de violência familiar, dependência do agressor ao idoso fragilizado, incapacidade funcional para o auto cuidado, estresse do cuidador, isolamento social do idoso e do cuidador, problemas na área da saúde mental, 3

4 presença de alcoolistas entre os membros da família, que são os cuidadores. Os resultados desse estudo estão em consonância com Machado; Queiros (2002) quando apontam grande parte dos idosos com algum tipo de dependência ou vivendo alguma situação de isolamento social. O isolamento da vítima facilita a agressão e o agressor tende a isolar sua vitima dos membros da família e dos amigos, evitando assim, que recebam ajuda para a desconstrução do ciclo da violência (SOUZA et al., 2004). Este fato acredita-se que esteja relacionado nesta pesquisa no sexo feminino, com idade entre 71 e 80 anos, co menos de 4 anos de escolaridade e dependência total para o auto cuidado. Nesse contexto, os idosos maltratados encontram-se muitas vezes inseguros e fragilizados, sem o apoio de familiares e sem amizades, torna-se difícil procurar sozinho os serviços de segurança pública especializados. Menezes, (1999) relata que na família as agressões contra os idosos são praticadas em geral pelos filhos homens, os cônjuges dos idosos ou responsáveis, que é caracterizada como uma mudança nos valores e na estrutura familiar com a diminuição do vinculo entre as gerações de uma família. Este fato foi bem demonstrado neste estudo onde os abandonos foram encontrados em maior porcentagem nos fatores de Abandono pelos familiares, Violência domestica e Negligência e recusa familiar, mostrando que as décadas passam, mas as agressões e o abandono dos idosos continuam sendo os mesmos. Pavarini e Neri (2000), afirmam que prestar cuidado a um familiar necessitado seja dever moral e ético, sendo aceito como papel normativo na vida da família, na prática tem-se mostrado problemático exercer essa solidariedade por parte da pessoa do cuidador, porque ela se choca com a sua individualidade. Por isso, entende-se que a dificuldade de cuidar do idoso com situação de dependência, faz com que muitas familiares busquem a institucionalização do seu idoso como uma opção aceitável, suprindo as diferentes realidades manifestadas no seu cotidiano, mas por outro lado levam a excluírem socialmente o idoso, como se o mesmo não tivesse mais vida própria. Alvarez (2001) destaca que há diminuição e deterioração da qualidade das relações interpessoais no interior da família, imperando um clima de estresse, tanto para o idoso cuidado quanto para a família cuidadora. Este fato esta cada dia mais atual, pois a mulher a cuidadora nata esta saindo para trabalhar fora, diminuindo assim o seu tempo e paciência para o cuidar, ainda pode-se discutir que a relação entre os membros das famílias esta cada vez mais complicada, sem respeito, carinho, compromisso e individualizado, fatores que contribuem para o abandono e a violência. Para Pereira; Curioni; Veras (2003), tem ocorrido não apenas no Brasil, mas também em muitos outros países, um dos fenômenos típicos da velhice ou seja a feminização, que também foi encontrada neste estudo com um porcentual de 52,0%, fato relacionado a falta ou pouca ocorrência de vícios entre as mulheres, o cuidar melhor da saúde e talvez ate a existência de programas de saúde voltados para as mulheres, o que já vem sofrendo alterações nos dias de hoje, com a implantação da saúde do homem pelo SUS. A feminização da população idosa também pode estar relacionado com a porcentagem maior de 70,0% para o abandono dos familiares e 45,4% de violência domiciliar encontradas neste estudo, já que a mulher fisiológica e anatomicamente é mais frágil que o homem, e notoriamente com menos estudo e sendo ainda mãe o seu coração esta acima da razão, facilitando a ocorrência de violência e abandono desta população. Sá (2004), diz que em relação à escolaridade o perfil da população idosa brasileira é analfabeta, os índices apontam para a existência de cerca de 5,1 milhões de analfabetos veteranos no país. Estes somados aos que têm ensino básico incompleto e são considerados analfabetos funcionais correspondem a 59%. Resultado semelhante foi encontrado por esta pesquisadora com 90,0% dos voluntários com menos de 4 anos de estudo e nem um com mais de 8 aos de estudo, resultado que pode estar relacionado ao fato de ser uma população em sua maioria feminina, ou pela idade estar com 60,0% entre 71 e 80 anos, onde a realidade de vida e de estudo era bem diferente de hoje, que o trabalho esta relacionado ao estudo. Conclusão Pode se concluir que a população feminina precisa ser melhor assistida visando a prevenção da violência e abandono, que as formas de agressões são as mesmas em décadas, levando a inferir que esta questão de violência e abandono dos idosos no Brasil continua sendo um tabu e precisa ser mais discutida, tanto no ambiente acadêmico quanto no interior da sociedade e das famílias, para amenizar e quem sabe sanar este mal. Considerações Finais 4

5 A criação de serviços e programas para maior suporte à família brasileira no cuidado dos idosos, como: instituições intermediárias de cuidado, centros dia ou programas intergeracionais e mais Instituições de Longa Permanência, podem ser uma das alternativas viáveis para conter a violência dentro da família e diminuir os índices de negligência e abandono das mesmas. Precisa-se ainda de ter melhor formação dos profissionais da área da saúde, que lidam diretamente com esta população para que o cuidado e a proteção sejam realmente eficazes na identificação de violência nos domicílios, nas instituições de saúde e nas ruas. É preciso ressaltar também que, a Constituição e o Estatuto do Idoso significaram um grande avanço na promoção dos Direitos dos Idosos, com previsão de penas para os casos de descumprimento às normas estatutárias e obrigatoriedade da denúncia de maus tratos por profissionais de saúde e todos os demais cidadãos, mais ainda não estão bem divulgados na mídia e nas instituições de saúde. Referências ALVAREZ, AM. Tendo que cuidar: a vivencia do idoso e de sua família cuidadora no processo de cuidar e ser cuidado no contexto domiciliar f. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde) - Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, FONSECA, MM; GONÇALVES, HS. Violência contra o idoso: suportes legais para a intervenção. Interação em Psicologia, v. 7, n. 2, p , MINAYO, MCS. Violência contra Idosos: O Avesso do Respeito à experiência e à sabedoria. Secretaria de Direitos Humanos, de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p MENEZES, MR. Da violência revelada à violência silenciada. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, PEREIRA, RS; CURIONI, CC; VERAS, R. Perfil demográfico da população idosa no Brasil e no Rio de Janeiro em Text. Envelhec. v.1, p , PASINATO, MT; CAMARANO, AA; MACHADO, L. Idosos Vítimas de Maus-Tratos Domésticos: estudo exploratório das informações levantadas nos serviços de denúncia. Rio de Janeiro, In: Ipea. Texto para Discussão PAVARINI, SCI; NERI, AL. Compreendendo dependência, independência e autonomia no contexto domiciliar: conceitos, atitudes e comportamentos. In: DUARTE, YA de O; DIOGO, MJD. Atendimento domiciliar: um enfoque gerontológico. São Paulo: Atheneu, SOUZA, AS et al. Fatores de risco de maustratos ao idoso na relação idoso/cuidador em convivência intrafamiliar. Ver. Textos sobre Envelhecimento, Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, SOUZA, JAV; FREITAS, MC; QUEIROZ, TA. Violência contra os idosos: análise documental. Rev. bras. enferm. May/June 2007, vol.60, n.3, p SÁ, JLM. Educação e envelhecimento. In: PY, L. et AL., Tempo de envelhecer percursos e dimensões psicossociais Rio de Janeiro: Nau Editora, MACHADO, L; QUEIROZ, ZZV. Negligência e maus-tratos. In: FREITAS, EV et al. Tratado 5

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