Integração regional. Por uma estratégia de cadeias de valor inclusivas

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1 Integração regional Por uma estratégia de cadeias de valor inclusivas

2 Integração regional: por uma estratégia de cadeias de valor inclusivas

3 Alicia Bárcena Secretária Executiva Antonio Prado Secretário Executivo Adjunto Osvaldo Rosales Diretor da Divisão de Comércio Internacional e Integração Ricardo Pérez Diretor da Divisão de Publicações e Serviços Web O principal responsável por este documento é Osvaldo Rosales, Diretor da Divisão de Comércio Internacional e Integração da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). A coordenação técnica esteve a cargo de Sebastián Herreros, Encarregado de Assuntos Econômicos da mesma Divisão. Na preparação e redação deste documento também participou José Durán Lima, Encarregado de Assuntos Econômicos da Divisão de Comércio Internacional e Integração. Os autores contaram com a colaboração de Nanno Mulder, Sebastián Castresana, Alicia Frohmann, Javier Meneses, Roberto Urmeneta e Dayna Zaclicever, da mesma Divisão. Contribuíram para a redação deste documento, com insumos ou comentários, os seguintes funcionários da CEPAL: Álvaro Calderón e Mario Castillo, da Divisão de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial, Joseluis Samaniego, Carlos de Miguel e Marcia Tavares, da Divisão de Desenvolvimento Sustentável e Assentamentos Humanos, Jorge Máttar, do Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planejamento Econômico e Social (ILPES), Ricardo Sánchez e Gabriel Pérez, da Divisão de Recursos Naturais e Infraestrutura, Sonia Montaño, da Divisão de Assuntos de Gênero, Daniel Titelman, da Divisão de Financiamento para o Desenvolvimento, Rodrigo Martínez, da Divisão de Desenvolvimento Social, Jorge Martínez, da Divisão de Estatísticas, Martín Abeles, do escritório da CEPAL em Buenos Aires, Jorge Mario Martínez e Ramón Padilla, da sede sub-regional da CEPAL no México, e Sheldon McLean e Kohei Yoshida, da sede sub-regional da CEPAL para o Caribe. LC/G.2594(SES.35/11) Maio de 2014 Nações Unidas Impresso em Santiago do Chile

4 ÍNDICE Prólogo... 7 Apresentação: a hora da integração produtiva... 9 Capítulo I A cambiante economia política da integração regional Capítulo II Uma conjuntura econômica mundial complexa A. Um modesto crescimento nos países desenvolvidos B. A desaceleração das economias emergentes C. O escasso dinamismo do comércio mundial D. Impactos do contexto mundial na América Latina e no Caribe E. Síntese F. Uma visão de médio prazo da conjuntura econômica internacional Elevada dívida pública nas economias industrializadas Ingovernabilidade dos fluxos financeiros Dificuldades crescentes com as projeções econômicas Déficits de governança da globalização Capítulo III Síntese das principais transformações em curso na economia mundial A. O desafio da mudança tecnológica B. O crescente peso da China e dos países emergentes na economia mundial C. A irrupção das cadeias de valor e dos acordos megarregionais de comércio e investimento Capítulo IV A necessidade da integração regional na América Latina e no Caribe ante as transformações mundiais em curso A. Forças e fraquezas da inserção econômica internacional da região B. A importância crítica do espaço regional Capítulo V O vínculo entre a integração e a industrialização A. Integração produtiva e comercial O papel de um mercado regional integrado numa maior articulação produtiva A centralidade da política industrial... 68

5 4 B. Dimensões complementares para a integração produtiva regional A cooperação financeira regional Por uma agenda regional de cooperação digital Infraestrutura física de transporte e logística Fortalecimento da integração energética Integração social Meio ambiente e recursos naturais Capítulo VI Os particulares desafios da integração no Caribe A. Breve diagnóstico B. Por uma maior cooperação latino-americana com o Caribe Capítulo VII Um decálogo para a integração regional A. O processo de integração deve ter uma vocação regional B. A integração deve ser construída levando em conta os componentes sub-regionais e vicinais C. A convergência entre os diversos esquemas de integração é necessária, mas será um processo gradual e não linear D. Não há um modelo único nem privilegiado de integração, pelo que se requer grande flexibilidade na formulação e na gestão do espaço regional emergente E. Um requisito indispensável deveria ser o compromisso e a vontade política de convergir a um espaço regional integrado F. As cadeias de valor e as políticas públicas para impulsioná-las podem constituir um poderoso instrumento de integração regional G. Uma agenda comum para o curto prazo é um bom ponto de partida Agenda regional O vínculo com a China e a região Ásia-pacífico Fortalecimento do diálogo e da cooperação com a União Europeia Projeção da região nos debates sobre a governança mundial H. A integração tem de apoiar-se mais na sociedade civil I. A igualdade deve ser um elemento distintivo da integração regional J. É necessário considerar a integração como uma política de Estado Bibliografia Quadros Quadro II.1 Mundo, regiões e países selecionados: crescimento do produto interno bruto, em médias anuais, com base em valores constantes, , , , Quadro III.1 Agrupamentos e países selecionados: participação no comércio mundial de bens e serviços, 2000 e Quadro III.2 Distribuição dos fluxos de investimento estrangeiro direto (IED) dirigidos aos países em desenvolvimento e originados nos países em desenvolvimento, Quadro III.3 Mundo, agrupamentos e países selecionados: pedidos de patentes, 1990, 2000 e Quadro III.4 Mundo e regiões selecionadas: população de classe média, 2009, 2020 e Quadro III.5 Agrupamentos selecionados: participação das exportações intragrupais nas exportações totais, Quadro IV.1 América Latina e Caribe e mundo: variáveis econômicas selecionadas, Quadro IV.2 América Latina e Caribe: 20 principais empresas exportadoras, Quadro IV.3 Países da América Latina e do Caribe: participação em cadeias de serviços mundiais Quadro IV.4 América Latina e Caribe: participação da produção mineral no total mundial, 1990 e Quadro IV.5 América Latina e Caribe: participação da produção de produtos agrícolas selecionados no total mundial,

6 5 Quadro IV.6 Distribuição da superfície agrícola mundial, por região, Quadro IV.7 América Latina e Caribe (países selecionados): número de produtos exportados a destinos selecionados, Quadro IV.8 América Latina (países selecionados): proporção do total de empresas exportadoras que exportam a destinos selecionados, em torno de Quadro IV.9 América Latina (14 países), orientação exportadora por tipo de empresas e participação no total, em torno de Quadro V.1 América Latina e Caribe: cobertura temática dos acordos comerciais entre países da região, março de Quadro V.2 Tipos de política industrial Quadro V.3 Países selecionados: participação nas exportações totais por tamanho da empresa, em torno de Quadro VI.1 Caribe: indicadores relativos ao produto interno bruto (PIB) e às exportações, Gráficos Gráfico II.1 Estados Unidos, China, Japão, Canadá e União Europeia (países selecionados): variação do produto interno bruto (PIB) per capita, Gráfico II.2 América Latina e Caribe: variação anual das exportações de bens, Gráfico II.3 América Latina (países selecionados): variação média da renda nacional bruta, e Gráfico II.4 América Latina e Caribe e países selecionados: variação da média do saldo em conta corrente do balanço de pagamentos, a Gráfico III.1 Agrupamentos selecionados: contribuição ao crescimento do PIB mundial, Gráfico III.2 Distribuição do PIB mundial, por países e agrupamentos selecionados, 2011 e Gráfico III.3 Distribuição das exportações mundiais de bens por grupo de origem e destino, Gráfico III.4 Fluxos mundiais de entrada de investimento estrangeiro direto, Gráfico III.5 Agrupamentos selecionados: participação das peças e componentes nas exportações intragrupais, Gráfico IV.1 Países selecionados: proporção de empresas exportadoras no total de empresas, em torno de Gráfico IV.2 América Latina (países selecionados): participação no valor exportado do primeiro percentil de empresas exportadoras, em torno de Gráfico IV.3 América Latina (10 países): distribuição das empresas exportadoras por número de mercados e produtos, em torno de Gráfico IV.4 Países e regiões selecionadas: participação do valor agregado importado nas exportações, Gráfico IV.5 Distribuição das reservas mundiais de água por região, Gráfico IV.6 América Latina e Caribe (países selecionados): proporção das exportações de manufaturas de média e alta tecnologia que se destina ao mercado regional, Gráfico IV.7 América Latina e Caribe: participação das exportações intrarregionais nas exportações a todo o mundo, Gráfico V.1 Dimensões de um fundo regional de reservas para 19 países da América Latina Gráfico V.2 América Latina (países selecionados): indicadores selecionados sobre banda larga, 2010 e Gráfico V.3 Evolução da carteira de projetos da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional (IIRSA), Gráfico VI.1 Grande Caribe e CARICOM: distribuição da população, Boxes Boxe III.1 Impactos prováveis das novas tecnologias até Boxe V.1 Espaços para a coordenação das políticas industriais na América Central Boxe V.2 O Plano Diretor de 2010 para Conectividade da Associação de Nações do Sudeste Asiático Boxe V.3 Algumas tendências recentes da migração internacional na América Latina e no Caribe Boxe V.4 Formação em tecnologias de informação e comunicação (TIC) para empresárias e empreendedoras de micros e PMEs na América Central... 91

7 6 Boxe V.5 O papel crítico do espaço regional na consecução dos objetivos de desenvolvimento sustentável Boxe V.6 A medição e a redução da pegada de carbono como fator de competitividade exportadora Boxe VI.1 Alguns exemplos recentes de integração e cooperação entre o Caribe e a América Central Diagramas Diagrama III.1 Políticas de cadeias de valor regionais ou mundiais a favor do desenvolvimento Diagrama V.1 Pactos regionais de desenvolvimento industrial para as cadeias de valor Diagrama V.2 O círculo vicioso da internacionalização das PMEs... 74

8 PRÓLOGO O presente documento constitui uma contribuição da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) às deliberações do seu trigésimo quinto período de sessões, que será realizado de 5 a 9 de maio de 2014 em Lima. A integração regional é um processo multidimensional cujas expressões incluem iniciativas de coordenação, cooperação, convergência e integração profunda e cujo alcance abrange não só as temáticas econômicas e comerciais, mas também as políticas, sociais, culturais e ambientais. O presente documento se concentra na dimensão produtiva da integração e em como ela pode contribuir à estratégia de mudança estrutural para a igualdade que a CEPAL vem propondo para a região desde Deste modo, retoma-se um tema que sempre esteve no centro das reflexões da CEPAL sobre integração e desenvolvimento. Além disso, procura-se contribuir a um debate atualizado sobre o papel da integração na América Latina e no Caribe, à luz das significativas transformações em curso na economia mundial. Entre estas, destacam-se a acelerada mudança tecnológica, o crescente peso econômico da Ásia e, em geral, das economias emergentes, a irrupção das cadeias mundiais de valor e a tendência à formação de macrorregiões integradas. Se a desigualdade é um dos traços distintivos da região, a promoção da igualdade deve ser um traço distintivo de sua estratégia de integração regional. Tratando-se de um desafio sistêmico, não parece viável abordá-lo exclusivamente via políticas sociais. Um primeiro vínculo evidente é o que se estabelece com a dimensão produtiva. A fim de avançar numa transformação produtiva que contribua para reduzir as desigualdades, é preciso haver mais e melhores empregos produtivos e uma maior presença das pequenas e médias empresas (PME) e de manufaturas e serviços nas exportações. Estas características estão mais bem representadas no comércio intrarregional do que em qualquer outro tipo de comércio. Portanto, existe um vínculo direto entre uma estratégia de crescimento com igualdade e o aprofundamento do espaço econômico regional. Da mesma forma, retomar o impulso à industrialização, diversificando as exportações e aumentando seu conteúdo de conhecimento e valor agregado, conduz prontamente a um maior compromisso com a integração regional. A proposição fundamental deste documento, situar a integração produtiva como eixo estratégico da integração regional, é plenamente coerente com o objetivo de imprimir-lhe um selo social mais acentuado. Com efeito, o papel essencial que as PME desempenham nesse contexto implica que o que aqui se propõe é a promoção de cadeias de valor inclusivas, em conformidade com as propostas recentes da CEPAL 1. Este enfoque é coerente com as preocupações tradicionais do estruturalismo latino-americano, que colocam a estrutura da produção, as características do mercado de trabalho, as diferenças de produtividade e o acesso ao progresso tecnológico como eixos da reflexão sobre o desenvolvimento e a distribuição da renda. Para levar adiante as estratégias nacionais de crescimento com igualdade, é decisivo complementar esse processo com avanços efetivos e de cobertura regional em matéria de infraestrutura, integração de cadeias produtivas, convergência de políticas regulatórias e apoio ao comércio intrarregional. A conjunção dos esforços nacionais e regionais melhoraria o atrativo e as perspectivas econômicas da região. Além disso, essa nova ênfase da integração regional possibilitará que a América Latina e o Caribe contem com uma voz unificada nos principais temas da agenda mundial. Alicia Bárcena Secretária Executiva Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 1 A respeito, veja CEPAL, Comercio internacional y desarrollo inclusivo. Construyendo sinergias. Santiago do Chile, 2013.

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10 APRESENTAÇÃO: A HORA DA INTEGRAÇÃO PRODUTIVA A integração regional é um processo multidimensional, que abrange não só as temáticas econômicas e comerciais, mas também as políticas, sociais, culturais e ambientais. A dimensão produtiva, em particular, foi central nas reflexões iniciais da CEPAL sobre a integração. Postulava-se a necessidade de ir além dos mercados nacionais para aproveitar as economias de escala e as vantagens de aprendizagem que o mercado regional podia oferecer. Isso, por sua vez, contribuiria a que as economias da região evoluíssem para modalidades de especialização produtiva mais sofisticadas e com maior conteúdo tecnológico. Tratava-se de avançar numa industrialização apoiada na complementaridade produtiva, que aumentaria o intercâmbio intrarregional de produtos manufaturados. Esta mudança na matriz produtiva, ao ampliar e diversificar a oferta de divisas e reduzir a dependência de uma estrutura exportadora demasiado ancorada em matérias-primas, então ajudaria a superar a clássica restrição externa que caracterizava o desenvolvimento regional. Os resultados se distanciaram desse prognóstico por várias razões econômicas e políticas. A proteção excessiva e prolongada dos mercados nacionais, a debilidade das políticas de inovação e progresso tecnológico e a escassa prioridade atribuída à construção de elos entre os recursos naturais e as atividades de manufaturas e serviços levaram, por um lado, a uma maior dependência das divisas geradas pela exportação de produtos primários e, por outro, a um desenvolvimento industrial demasiado dependente das decisões das empresas transnacionais. Por sua vez, a ação dessas empresas se orientou em geral a aproveitar as vantagens do mercado protegido, sem fortalecer as capacidades locais de aprendizagem e difusão tecnológica. Desse modo, o nível de atividade econômica em seu conjunto acabava apoiando-se na capacidade oscilante de financiamento externo do setor primário. Aproveitando as favoráveis condições de financiamento externo vigentes desde meados dos anos 70, a região, marcada pela presença de numerosos regimes militares, buscou complementar esse financiamento com um crescente e pouco responsável endividamento externo. O resto é conhecido: crises da dívida externa, dolorosos ajustes, elevada transferência líquida de recursos ao exterior, aumento da pobreza e, em suma, a chamada década perdida. Nos anos 90, no contexto da recuperação democrática, as economias da região reorientaram seu desenvolvimento, reduzindo os níveis de proteção, atualizando seus esquemas de integração e estabelecendo entre elas várias formas de acordos comerciais. Os temas de industrialização e transformação produtiva tenderam a perder presença na agenda dos governos, enquanto os ecos dos organismos internacionais que promoviam o ajuste estrutural no fim dos anos 80 seguiam atribuindo ênfase aos equilíbrios macroeconômicos, desregulamentação, abertura comercial e financeira e retirada do Estado das atividades produtivas. Por outro lado, vários países da região celebraram acordos de livre comércio com economias industrializadas. Com isso, buscavam obter acesso a mercados mais amplos e, por essa via, conseguir substitutos da ampliação do mercado regional que os esquemas de integração não pareciam oferecer. A irrupção da China no comércio mundial, impulsionada por sua incorporação à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, teve importantes repercussões no cenário regional. O elevado dinamismo da economia chinesa originou uma considerável demanda de recursos naturais, elevando os preços desses produtos e favorecendo significativamente várias economias da América do Sul. A interação entre o superávit comercial chinês com os Estados Unidos (resultado de um fluxo maciço de exportações manufatureiras de baixo custo) e sua contraparte na conta de capitais (compra de títulos do Tesouro) levou ao notável período de crescimento da economia mundial entre 2003 e Efetivamente, a economia americana pôde crescer acima de seu potencial, exibindo baixa inflação e baixas taxas de juros e contando com um abundante financiamento externo, que lhe permitiu financiar seus desequilíbrios. O crescimento da economia chinesa nesse período foi de dois dígitos, enquanto o dos Estados Unidos em alguns anos se aproximou de 4%.

11 10 Enquanto os principais parceiros comerciais da América Latina e do Caribe obtinham altas taxas de crescimento, a região já superava as condições mais restritivas da dívida externa (embora isso não tenha acontecido com a mesma intensidade no Caribe) e conseguia notáveis avanços em sua gestão macroeconômica. A convergência das reformas econômicas internas e um propício cenário internacional entre 2003 e 2008 levaram ao melhor período econômico da região em 40 anos: a taxa média de crescimento anual chegou a 4,7%%; a taxa de desemprego diminuiu de 10,7% para 7,3%; as contas fiscais e o saldo em conta corrente do balanço de pagamentos se traduziram em anos de superávits gêmeos. As exportações mostraram um crescimento de 18% ao ano, potenciadas pela melhora nas relações de troca derivada dos altos preços dos produtos básicos. No âmbito social, a pobreza caiu de 43,9% para 33,5% e inclusive a distribuição da renda melhorou ligeiramente. Nesse contexto favorável, de novo ficaram para trás as preocupações com a diversificação produtiva e exportadora e o atraso regional em matéria de inovação e competitividade. Ao apresentar-se a crise das hipotecas de alto risco, a região pôde reagir com firmes políticas anticíclicas, graças à solidez de suas contas fiscais e externas, seu alto nível de reservas internacionais e seus reduzidos índices de inflação. Esta reação foi favorecida por similares políticas expansivas adotadas em várias das principais economias mundiais, em particular os Estados Unidos e China. Deste modo, em 2010 a região recuperou, com rapidez, níveis altos de crescimento de sua atividade econômica e suas exportações. A crise posterior na zona do euro afetou menos a região, devido à gradual perda de importância que vem mostrando seu vínculo comercial e de investimentos com a Europa. Contudo, a desaceleração da economia chinesa cujo crescimento anual passou de uma média de 11% entre 2003 e 2010 a uma média de 7,7% entre 2011 e 2013 prejudicou seriamente as exportações da região e suas relações de troca. No início de 2014, as perspectivas de crescimento regional para o período compreendido entre este ano e 2018 parecem claramente menos favoráveis que as do quinquênio : ocorre uma forte desaceleração das exportações e do ritmo de crescimento; reaparece o déficit em conta corrente, num momento em que se prevê que o financiamento externo ficará mais caro; diminuem os superávits fiscais; e, em vários casos, as pressões de desvalorização poderiam se traduzir em maiores índices inflacionários. Esta rápida visão da evolução econômica da América Latina e do Caribe nas últimas décadas corrobora que a região não conseguiu superar sua restrição externa, quer dizer, não conseguiu desenvolver em grau suficiente motores endógenos de crescimento e mantém uma acentuada dependência dos ciclos externos. Quando as condições internacionais de financiamento e comércio são favoráveis, a região cresce acima de 4%; quando estas se deterioram, seu desempenho retorna a níveis de crescimento mais próximos de 3%. Portanto, parece chegado o momento de refletir com maior profundidade sobre a qualidade da inserção internacional das economias da América Latina e do Caribe e sobre o papel que a integração regional pode desempenhar. Hoje, as condições são muito distintas das que vigoravam no início da integração regional: as economias da região são mais abertas e mais interconectadas devido a uma série de acordos comerciais, a região adquiriu uma importante aprendizagem na gestão macroeconômica e em várias atividades e setores conseguiu desenvolver certa capacidade tecnológica. Ademais, vários países deram passos significativos na gestão dos recursos naturais e, em geral, a capacidade técnica dos governos cresceu de maneira notável. Além de alcançar uma maior maturidade econômica, a América Latina e o Caribe vieram consolidando seus avanços democráticos. A conjunção desses elementos encontra-se reunida em diversos relatórios internacionais que indicam uma favorável perspectiva de médio prazo para a região, por seus resultados econômicos, suas perspectivas de crescimento, sua ampla dotação de recursos naturais e a expansão de seus mercados internos e sua classe média. Esses são também os fatores por trás da maior autonomia econômica da região ao interagir com seus principais parceiros comerciais e permite afirmar que há condições para que a nova integração seja mais sofisticada que as tentativas precedentes.

12 11 Hoje continuam válidos os argumentos clássicos a favor da integração: o aumento da eficiência produtiva, o aproveitamento das economias de escala, a ampliação dos mercados e o maior espaço para a complementação econômica e a provisão de bens públicos regionais. Por outro lado, mantém sua vigência os benefícios da integração em termos de redução das situações de conflito, maior resistência aos choques externos e aproveitamento conjunto de oportunidades na economia mundial. Algo semelhante ocorre com a necessidade da ação coletiva para enfrentar os desafios da mudança climática e a gestão dos recursos naturais compartilhados. A irrupção das cadeias de valor na economia mundial deu origem a uma renovada atenção ao caráter central do espaço regional. Com efeito, as principais redes mundiais de produção se estruturam em torno de regiões específicas. Isso obedece em grande medida à importância da proximidade geográfica para organizar processos produtivos fragmentados entre vários países. Não obstante, a experiência da América do Norte, Ásia Oriental e Europa manifesta que a proximidade é condição necessária, mas não suficiente, para o desenvolvimento de redes de produção modernas. Estas se caracterizam por complexos fluxos de bens, investimentos, serviços, informações e pessoas. Este fato indica a necessidade de avançar para marcos normativos comuns, que incentivem as empresas de cada país a articular suas operações com outras situadas além das fronteiras nacionais. Igualmente importante é a existência de políticas explícitas de apoio à integração produtiva e de uma adequada infraestrutura de transporte, logística, energia e telecomunicações. Na ausência desses elementos, a integração produtiva torna-se mais uma aspiração que uma realidade. Tendo como base estas considerações, elaborou-se o presente documento, cujo objetivo é estimular a reflexão sobre a integração regional. Não se pretende abranger todos os âmbitos da integração, nem tampouco realizar um balanço dos diversos esforços realizados nesse plano. O documento se concentra especificamente na necessidade de alcançar uma maior articulação produtiva regional, num momento histórico caracterizado por acentuado ritmo de inovação tecnológica, recomposição dos pesos relativos dos diversos atores na economia mundial e tendência à formação de mercados regionais ampliados. O cenário descrito constitui o contexto em que se retoma a relevância e atualidade do desafio integracionista. Com efeito, é difícil pensar que a região possa obter um crescimento sustentável, reduzindo a pobreza e a desigualdade e avançando em matéria de inovação, sem diversificar sua estrutura produtiva e exportadora. Como é evidente, para isso é preciso melhorar a qualidade da inserção internacional, o que por sua vez exige apostas substantivas a favor da qualidade da educação e capacitação. Sem dúvida, a tarefa é complexa e de longo alcance, mas é ainda mais difícil imaginar que possa ser feita por um país isolado, sobretudo considerando a tendência à criação dos megamercados e as cadeias de valor de amplo alcance geográfico. Em suma, os presentes cenários atualizam a vigência da integração como um componente básico da transformação produtiva e das estratégias de crescimento com igualdade, pois a mudança estrutural que essa transformação produtiva supõe está fortemente ligada a oportunidades que a integração regional oferece. De fato, as cifras mostram que as possibilidades do intercâmbio de manufaturas, do comércio industrial, da internacionalização das pequenas e médias empresas (PMEs) e do aumento do número de empresas exportadoras e de bens exportados estão estritamente vinculadas às perspectivas do mercado regional. Se essas perspectivas viessem a ser reforçadas com políticas explícitas de apoio a este tipo de comércio, explorando opções de cadeias de valor sub-regionais e regionais, as possibilidades descritas poderiam converter-se em realidades promissoras. A partir destas considerações, o presente documento enfatiza a possibilidade de concretizar ações conjuntas em matéria de inovação, difusão tecnológica e redução da exclusão digital, de apoio à gestação de clusters e cadeias de valor internacionalmente competitivas e ambientalmente sustentáveis, e de iniciativas regionais ou sub-regionais que melhorem a presença das empresas e centros tecnológicos da região nas redes mundiais de conhecimento e tecnologia. O objetivo é construir vantagens comparativas dinâmicas que permitam que a região volte a posicionar-se em uma economia mundial em profunda reestruturação, cada vez mais concentrada em torno da atividade do Pacífico.

13 12 A transformação produtiva está ligada, por um lado, a uma educação para o século 21 e, por outro, a uma inserção internacional inteligente. Essa educação permite incorporar mais conhecimentos na estrutura produtiva, favorecendo as possibilidades de avançar nesse tipo de inserção, por meio da diversificação exportadora. Nesse contexto, os mercados regionais ampliados, a certeza jurídica e a gradual convergência de normas e disciplinas regulatórias, somados aos avanços na criação de bens públicos regionais, como infraestrutura, energia e conectividade, são requisitos para crescer com mais igualdade. A integração seria beneficiada por uma aproximação maior com o setor empresarial privado, mediante instâncias de coordenação em âmbitos específicos. Isto não reduz o espaço de ação das políticas públicas. Pelo contrário, permite que se aborde de melhor forma as falhas de mercado e de governo, reforçando a coordenação, resolvendo assimetrias de informação e estabelecendo condições para a necessária parceria público-privada, fatores decisivos nas experiências mais avançadas de integração. Hoje, em meados da segunda década deste século, a região, reencontrada com a democracia, mostra uma relevante aprendizagem macroeconômica, uma notória redução da pobreza (fruto do crescimento mais alto, do maior acesso ao consumo de amplos setores sociais e do compromisso mais profundo com políticas sociais focalizadas), melhorias nos salários, na qualidade do emprego e (em vários casos) na distribuição da renda. Estas importantes conquistas, porém, se traduzem logo em pressões políticas, pois os milhões de latino-americanos que deixam para trás a pobreza elevam com rapidez e legitimamente seu nível de aspirações. Isso se expressa em maior demanda de bens públicos (educação, serviços de saúde, transporte público, segurança urbana), combate à corrupção e maiores exigências de transparência, bem como uma mais alta representatividade e inclusão no sistema político. Estas demandas, junto com a importância de preservar um crescimento econômico elevado e a estabilidade macroeconômica, sublinham a necessidade de obter melhorias na distribuição da renda e na redução das desigualdades. Neste ponto, a focalização das políticas sociais começa a mostrar seus limites para abordar as demandas dos setores médios. Com efeito, estas demandas levam rapidamente a concentrar-se na qualidade da estrutura produtiva e ocupacional e na evolução da produtividade, já que se vinculam à evolução salarial, à dispersão de produtividades e, definitivamente, à distribuição funcional da renda. Aqui surge a relevância do vínculo com a integração, pois, como se explica mais adiante, parece difícil empreender esta transformação da estrutura ocupacional sem contar com a contribuição que o mercado regional pode dar à diversificação produtiva e exportadora. Estas tensões sobre a estrutura política e institucional, não muito distintas das que se observam nas economias industrializadas, não impedem que a região se perceba mais segura e com mais autonomia para definir sua orientação estratégica e suas principais alianças internacionais. É certo que, no curto prazo, estas expectativas estão ameaçadas por uma leve deterioração das condições externas. Contudo, a região pode enfrentá-las sem afetar suas favoráveis perspectivas de médio prazo. Deste modo, não é estranho que, num cenário internacional em que o crescimento nas economias industrializadas seguirá sua tendência de longo prazo, se observe um renovado interesse dos Estados Unidos, União Europeia e China em iniciativas que buscam melhorar a vinculação econômica, comercial e de investimentos com a América Latina e o Caribe ou com alguns países da região. O importante é que a região pode elaborar seu próprio diagnóstico e definir sua visão prospectiva, compartilhando um relato próprio que explicite o papel que aspira desempenhar no cenário internacional, o tipo de interlocução que deseja manter com os Estados Unidos, a União Europeia, a China e o resto da Ásia e a participação que quer ter no debate sobre os principais temas da agenda mundial. Como é evidente, esse relato deve atribuir um papel substantivo à integração regional. Por certo, defasagens acentuadas em matéria de integração continuarão limitando as possibilidades de que a região atue de maneira unificada nos temas da agenda global.

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