CURSO DE DIREITO JULIANA PESSOA MARQUES ANDRADE A NOVA REALIDADE DA UNIÃO HOMOAFETIVA NO BRASIL: ASPECTOS SOCIAIS E JURÍDICOS

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1 CURSO DE DIREITO JULIANA PESSOA MARQUES ANDRADE A NOVA REALIDADE DA UNIÃO HOMOAFETIVA NO BRASIL: ASPECTOS SOCIAIS E JURÍDICOS Fortaleza 2012

2 JULIANA PESSOA MARQUES ANDRADE A NOVA REALIDADE DA UNIÃO HOMOAFETIVA NO BRASIL: ASPECTOS SOCIAIS E JURÍDICOS Monografia apresentada pelo Curso de Direito da Universidade Christus como requisito parcial necessário à obtenção do grau de bacharel de Direito. Orientador: Prof. Nicodemos Maia. Fortaleza 2012

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4 Dedico este trabalho a toda minha família e, em especial, aos professores da Universidade Christus que me acompanharam e me apoiaram em toda minha trajetória na instituição.

5 AGRADECIMENTOS Dedico este trabalho, em primeiro lugar a Deus, que sempre esteve presente em minha vida, por sua bondade e misericórdia infinita. Agradeço ao meu querido orientador, o professor Nicodemos Maia, Procurador do Trabalho, pessoa de uma humildade e compreensão intensa para com seus alunos, e que sempre me encorajou a acreditar que com força de vontade e fé, que qualquer sonho pode se tornar realidade. A Mirna Moura, minha melhor amiga da faculdade, hoje advogada, e que durante todos os anos de estudos na Universidade Christus, sempre fez questão de me apoiar e incentivar nos meus estudos. A minha amada tia Simone Pessoa, bancária e escritora, que além de sempre me incentivar e apoiar em todos os momentos mais decisivos de minha vida me serviu, sobretudo, como exemplo de mulher de caráter e dignidade. A minha adorada avó Zenaide Pessoa, que sempre esteve torcendo por mim e acreditando na minha capacidade de ser uma pessoa melhor e mais humana. Aos meus pais, Cláudia Pessoa e Aristides Lopes, que além de serem responsáveis pelo que sou hoje, dedicaram todo seu amor e apoio durante toda a minha vida, em especial minha trajetória acadêmica, e que buscaram de forma brilhante me mostrar como olhar o mundo sob a ótica da humildade e das coisas simples da vida. Por último, e de forma especial, dedico minha monografia a meu avô Domingos Marques Pereira, que além de ter investido e acreditado no meu sonho, sempre foi meu ídolo, meu herói, meu paizão. Tenho muito orgulho de ser neta desse homem, e serei eternamente grata a ele todos os dias da minha existência.

6 RESUMO A presente monografia tem como principal interesse a análise e o estudo a cerca da união homoafetiva no âmbito da família, união que a cada dia vem ganhando força na sociedade, que por séculos tratava o assunto com preconceito e discriminação. Nesse contexto o Estado se abstinha de proteger esse novo instituto familiar, deixando-os a margem da sociedade, e expostos aos mais variados tipos de ofensas íntimas, que feriam a honra e a dignidade das pessoas que optavam por esse tipo de relacionamento. A relação sócio-jurídica inexistente antes do reconhecimento desse novo tipo de união julgava que tal relacionamento não poderia de forma alguma ser classificado como família, tendo em vista que culturalmente, onde o que seria socialmente aceito se resumia a família formada por pai, mãe e filhos, com intuito principal da fecundação e propagação da espécie humana. Atualmente, houve uma mudança nesse paradigma, onde o afeto surge como principal objetivo para a configuração da existência da família, tendo por base os novos princípios Constitucionais, presentes na Carta Magna de Assim, com essa nova visão trazida pelo ordenamento jurídico brasileiro, os tribunais passaram a solucionar o problema da lacuna a cerca da união homoafetiva, através de jurisprudências que reconhecem essa união como tento status de entidade familiar, e devendo ter a mesma proteção e direitos a serem garantidos que a união estável. Palavras-chave: União Homoafetiva. Afeto. Princípios Constitucionais. União estável.

7 ABSTRACT The current dissertation's main interest is the analysis and the study about homoaffective union within the family, union which is gaining strength every day in a society that, for centuries, has regarded the subject with prejudice and discrimination. In this context, the State refrained from protecting this new family institute, leaving them to the margins of society, exposed to all kinds of intimate offenses, which hurt the honor and dignity of the people who opted for this type of relationship. The nonexistent socio-legal relationship prior to the recognition of this new type of union would rule that such a relationship could not possibly be classified as family considering that, culturally, the "socially accepted" came down to a family consisting of a father, a mother and children, aiming at fertilization and the propagation of the human species. Currently, there has been a paradigm shift, where affection emerges as the main objective for the configuration of a family, based on the new Constitutional principles present in the 1988 Constitution. Thus, with this new vision brought by Brazilian law, the courts began to solve the problem of the gap around the homoaffective union through jurisprudence that recognizes that union as a family unit, entitled to the same protection and to the same rights secured to the stable union. Keywords: Homoaffective Union. Affection. Constitutional Principles. Stable Union.

8 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FAMÍLIA HOMOAFETIVA Origem da Homossexualidade A homossexualidade na Grécia antiga A homossexualidade no mundo romano O tradicionalismo Cristão A Igreja Católica moderna e a condenação dos homossexuais Origens e formas da Homofobia FAMÍLIA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE A Família no Direito Brasileiro Direito Comparado Vaticano Europa Ásia Américas Previsão Constitucional Princípios Constitucionais Aplicáveis à Família Princípio da Dignidade da Pessoa Humana Princípio da Liberdade...49

9 3.4.3 Princípio da Igualdade Princípio da Afetividade A FAMÍLIA HOMOAFETIVA E OS SEUS NOVOS DIREITOS ADQUIRIDOS A Família Homoafetiva como entidade familiar O Reconhecimento da Natureza Familiar das Uniões Homoafetivas pelo STF: ADPF 132/08 e ADIN 4277/ Contrato de União Estável Jurisprudência Brasileira sobre as Uniões Homoafetivas A Jurisprudência brasileira acerca das uniões homoafetivas Uniões homoafetivas como sociedade de fato Dos direitos patrimoniais aos direitos previdenciários Uniões Homoafetivas como Uniões Estáveis: a situação atual CONCLUSÃO...81 REFERÊNCIAS...83 APÊNDICE...88

10 9 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como principal foco a busca pela análise histórica e principiológica, que culminou com o paradigma atual sobre a relação entre casais do mesmo sexo. A complexidade e a importância desse trabalho traz a tona vários debates acerca desse tipo de relação, que remonta dos primórdios da sociedade, mas só nos dias atuais vem sendo objeto de estudo aprofundado em virtude das conquistas em torno proteção jurídica de direitos. O trabalho tem o objetivo de demonstrar como os aspectos culturais, sociológicos e jurídicos modernos afetaram na atual compreensão do significado real do que é família no mundo moderno, abrangendo os diversos tipos a ela pertinentes, como é o caso do estudo em questão, que diz respeito à união homoafetiva. Inicialmente, no segundo capítulo, será feito um esboço histórico acerca da homossexualidade nas sociedades mais antigas, demonstrando como os aspectos culturais e religiosos influenciaram na formação dos vários tipos de família e, ainda, na transformação progressiva da sociedade. O capítulo de número dois também abordará o tema da homofobia, que surgiu com o advento dos dogmas da Igreja Católica em Roma, em que os cristãos condenavam veementemente a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo, definindo-a como pecado mortal, e aqueles que praticavam tais atos deveriam ser devidamente punidos, muitas vezes até queimados na fogueira. Já no terceiro capítulo, será estudado o tema da influência do Direito nas relações homoafetivas na atualidade. O Direito brasileiro não acompanhou devidamente as mudanças trazidas pelas novas relações atuais, não tratando de forma específica esse novo tipo de família, a união homoafetiva. Sobre esse aspecto, o trabalho propõe expor doutrinas e jurisprudências em torno do tema central, enfocando a influência dos princípios fundamentais presentes na Carta Magna de 1988, especificamente aqueles principais, que são relacionados à união homossexual, como o princípio da dignidade da pessoa humana, o princípio da liberdade, o princípio da igualdade e o princípio da afetividade.

11 10 Ainda sobre a influência Constitucional sobre esse novo tipo de união, este estudo trata também da abordagem do que é família para o atual Código Civil de Como será analisado no decorrer do trabalho, o Código Civil teve um grande avanço em vários aspectos de proteção à família, sobretudo no que diz respeito aos novos direitos adquiridos a partir da valorização da mulher e de sua importância na sociedade e no seio da família. Entretanto, no que concerne a uniões homoafetivas, o Código não se manifesta. Interessante notar que referido Código, assim como a Carta Suprema, não tem previsão sobre a união homoafetiva e deixa uma lacuna em nosso ordenamento jurídico. Além dessa problemática, o Poder Judiciário vem sendo cada vez mais cobrado para regular e assegurar direitos para a união entre casais do mesmo sexo. O último capítulo tratará especificamente da união homoafetiva e das possíveis soluções que vêm sendo utilizadas pelos tribunais brasileiros para a proteção desse tipo de união. Tais decisões têm por base, principalmente, a prestação efetiva de justiça social e a aplicação dos princípios fundamentais da pessoa humana. O tópico aborda também a adequação da união afetiva no instituto das entidades familiares, além de tratar sobre o contrato de companheiros, particular ou privado, que propõe cláusulas específicas para a regulamentação da relação. É de suma importância que se tenha conhecimento do principal foco metodológico que será empregado no decorrer do trabalho, sendo este essencialmente bibliográfico. Por fim, um dos pontos principais deste trabalho diz respeito à decisão do STF, que reconheceu, por unanimidade, a união homoafetiva como tendo status de união estável. Assim, atualmente, os tribunais têm decidido, por analogia, tratar da proteção, direitos e garantias da união estável para o tratamento da união entre os casais pertencentes ao mesmo sexo.

12 11 2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA UNIÃO HOMOAFETIVA O presente capítulo tem como propósito um estudo sobre a homossexualidade, a união homoafetiva, e seu reconhecimento como entidade familiar. Será traçada uma breve análise sobre a origem histórica, até o contexto em que se encontram essas famílias nos dias atuais, que foram, e ainda são, marginalizadas e tratadas pela maioria com inveterada hostilidade. Tratar-se-á, também, da relação jurídico-social em que se encontram esse diferente, mas não atual, tipo de família, que se está fora do padrão comumente aceito pela sociedade, onde somente os heterossexuais são tratados de forma igual e justa. 2.1 Origem da Homossexualidade Desde a formação dos primeiros modelos de sociedades existiu a homossexualidade, e não se sabe o momento exato em que esse tipo de relação surgiu. Entretanto, somente na era contemporânea observou-se um maior interesse analítico sobre esse tema. O fato é que a homossexualidade, inversamente ao que se pensa, sempre existiu entre os homens, mas, no entanto, sempre foi tratada com indiferença ou em forma de repúdio, trazendo, com isso, uma série de hostilidades contra os atores envolvidos nesse tipo de relação. O poeta e pensador alemão, Goethe, afirmou, em um de seus versos, que a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade. Analisando o ponto de vista do poeta escritor, há de se entender que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo é tão antiga, que não se pode prever quando e onde ela se originou. Os primeiros escritos em torno da questão são datados de aproximadamente cinco séculos antes de Cristo. Em termos atuais, uma pessoa é considerada homossexual quando sente atração e carinho amoroso por outra pessoa do seu mesmo sexo. Acredita-se ser, a homossexualidade, um comportamento anormal, anticonvencional e não aceito comumente entre os demais entes heterossexuais da sociedade. Há, também, aqueles indivíduos que acreditam que o

13 12 homossexualismo é uma total aberração, devendo-se excluir, do convívio comum, aqueles que optam por esse tipo de relação. Em um primeiro momento deve ser analisado o sentimento que envolve as pessoas, tanto entre sexos opostos, quanto entre pessoas do mesmo sexo, segundo ensina a professora Liliane Sousa e o professor José de Lourival 1. O amor, que se traduz na atração sexual, por si só, é um dos sentimentos mais essenciais e profundos de todos, e é inerente a todas as espécies, não só à humana. Nesse contexto, observa-se que o mesmo sentimento que enlaça os casais heterossexuais, pode envolver também os casais do mesmo sexo, desencadeando outra série de sentimentos, como o respeito, a proteção, o carinho e o apego. Analisando essa propositura, há de se pensar que, por serem ambos os tipos de casais unidos pelo mesmo tipo de sentimento, não se poderia o próprio homem interferir e tentar mudar, ou questionar a natureza daquilo que se sente, pois esse sentimento se encontra intrínseco à raça humana e não se pode ser afastado ou ignorado. Outro ponto importante a ser abordado trata-se do sentido morfológico da palavra homossexual, que é formado por dois vocábulos, o primeiro deles é o vocábulo hómus, que significa semelhante, e tem origem grega; e o vocábulo sexu, trazido do latim, e que se relaciona ao sexo. Assim, com a união dessas duas palavras, observa-se que se trata das pessoas que compartilham do mesmo gênero sexual. Posto isso, como já relatado anteriormente, deve-se salientar que a união entre seres de sexos semelhantes existiu desde os primórdios da civilização, devendo, assim, tratar-se desse tema não como uma forma de oposição, ou de revolta, mas com o simples sentimento de que deve se aceitar a natureza e a humanidade de pessoas iguais a todas as outras, mas que, por sua vez, têm opções e gostos diferentes uns dos outros. 1 SOUSA, Liliane Cristina da Silva; OLIVEIRA, Lourival José de. A União Homoafetiva no Âmbito Jurídico Brasileiro: A Travessia que não se Completou. Revista de Direito Público, Londrina, v.3, n. 2, p , mai. 2008, p. 236.

14 A Homossexualidade na Grécia Antiga Para a abordagem desse tema, é interessante que se tenha em mente que a homossexualidade vem evoluindo com o passar dos anos, e concomitantemente ao crescimento da sociedade, como prevê o escritor Moreira Filho 2. Vale ressaltar que, em tempos remotos, a Grécia não era um país unificado, sendo dividida em várias cidades-estados. Observa-se o costume da prática homossexual da época, de forma geral, já que cada cidade-estado costumava ter suas próprias convicções políticas, culturais e de costumes diferentes umas das outras. Alguns escritores conceituados que tratam do estudo e abordagem das relações decorrentes da Grécia antiga relatam que o homossexualismo, apesar de não ter esse conceito definido na época, tinha consentimento da sociedade, de acordo com determinadas regras pré-definidas, como será visto a seguir. Na Grécia antiga, os amores masculinos eram reconhecidos oficialmente por todos os habitantes. A relação sexual entre os homens, conhecida como forma de pederastia, era tida como forma iniciatória e constitutiva. A Desembargadora Maria Berenice Dias 3 relata, em um de seus artigos, sobre o ponto de vista do privilégio da homossexualidade para os homens bem nascidos na Grécia antiga, aduzindo: Encaravam a homossexualidade como privilégio dos bem nascidos, onde estes faziam parte do cotidiano dos deuses, reis e heróis, tanto que em sua mitologia, estes retrataram casais homossexuais como Zeus e Gamimede, Aquiles e Patroclo. Isto ocorria pois a heterossexualidade era um ato reservado à procriação, sendo assim considerada como uma mera opção, pois se fazia como necessidade natural à relação homossexual, digna de ambientes cultos, e considerada como a legítima manifestação de libido. 2 MOREIRA FILHO, Francisco Carlos. A Homossexualidade e sua História f. Monografia (Graduação em Direito) Faculdades Integradas: Antônio Eufrásio de Toledo, Presidente Prudente, 2007, p DIAS, Maria Berenice. União Homossexual: o preconceito e a justiça. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p. 65.

15 14 O termo pederastia significava a união sexual e sensual entre o homem e um jovem, tendo um caráter de preparação para a futura vida matrimonial. O adolescente que participava do ato da pederastia era conhecido como Eromenos, e o homem por Erastes, como prevê Borrillo 4. Segundo conta, na pederastia, o homem mais velho deveria cortejar o mais jovem, lhe ofertando alguns presentes, vê-lo fazer exercícios em plena nudez, e fazer-lhe alguns favores, se assim o garoto desejasse. Para que a relação fosse aceita pela sociedade, o homem deveria cuidar da plena educação e do aconselhamento do jovem a quem estava interessado. Outro ponto importante a ser destacado é que o Eromenos, além de ter sempre que assumir a passividade da relação, jamais poderia demonstrar prazer por seu Erastes. Após completar 18 anos de idade, o jovem deveria manter somente uma relação amigável com o homem, e deveria casar-se formalmente com uma mulher e, em torno de completados 30 anos, deveria se tornar Erastes. É interessante que se saiba que a pederastia era fielmente regulamentada, e não era aceita a exclusividade dos parceiros, que significavam uma minoria não aceita pelos demais membros da comunidade. O adolescente deveria tratar o homem de forma cortez, mas se não o desejasse poderia recusá-lo de forma gentil. Embora a existência da pederastia fosse a relação mais aceita entre os antigos gregos, isso não impedia que existisse a prática homossexual entre homens adultos, sendo tida como uma necessidade. Na cidade-estado de Esparta, onde se valorizava muito a vida militar, influenciados pelas ideias de Platão, muitos casais homossexuais foram enviados para guerra juntos, onde a proximidade entre ambos traria o sentimento de força afetuosa para que cada um deles ansiasse pela salvação do bem amado. Essa estratégia traria coesão aos homens que participavam das tropas militares, tornando-os mais propensos à vitória. Nesse sentido, na cidade de Tebas, colonizada pelos espartanos, em que existia uma tropa elitizada conhecida por Pelotão Sagrado de Tebas, seus membros eram formados exclusivamente por casais de homossexuais. 4 BORRILLO, Daniel. Homofobia: História e Crítica de um Preconceito. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p. 45.

16 15 Já em Atenas, a principal cidade grega, o relacionamento homossexual entre homens adultos do mesmo sexo era considerado por muitos como anormal, pois um deles teria que ocupar a posição de passivo, o que, para os atenienses, era uma posição submissa e inferior, destinada somente às mulheres. Dessa maneira, a única relação comumente aceita pelos cidadãos de Atenas era a pederastia, como analisa o professor Liz Carlos Pinto Corino. 5 Um dos mais conhecidos filósofos Gregos, Sócrates, como está previsto na obra do autor Humberto Rodrigues 6, que abertamente declarava sua preferência pela homossexualidade, relatou, em uma de suas pregações, que o coito anal era a melhor forma de inspiração, e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar. Outro fator que merece registro correspondia ao fato de que a prática da pederastia e dos relacionamentos homossexuais não afastava os homens de suas vidas matrimoniais, em que eles tinham o dever de manutenção e cuidado com suas esposas e seus filhos, como um casamento normal previa. O escritor grego Luciano de Samósata 7 filosofou, em um dos trechos de seu livro, que: [...]O casamento é, para os homens, uma necessidade e algo de precioso se esse homem é feliz; por sua vez, o amor pelos efebos (adolescentes, geralmente de 16 a 18 anos) é, em minha opinião, efeito da verdadeira sabedoria. Assim, o casamento destina-se a todos, enquanto o amor pelos efebos é um privilégio reservado aos sábios. A citação acima confirma, de forma clara, a maneira de como os cidadãos da sociedade grega percebiam a relação homossexual e demonstra fielmente a forma de como os homens eram os únicos merecedores de tais benefícios e da sabedoria, como afirmou o escritor Samósata. Justifica-se, assim, a forma machista e patriarcal em que se encontrava a sociedade desde os tempos mais remotos. 5 CORINO, Luiz Carlos Pinto. Homossexualismo na Grécia Antiga: Homossexualidade e Bissexualidade, mitos e verdades, Rio Grande: Saraiva, 2006, p RODRIGUES, Humberto. Aventuras na História. Vale Tudo: Homossexualidade na Antiguidade. Guia do Estudante. Disponível em <http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/vale-tudo-homossexualidadeantiguidade shtml>. Acesso em: 01 mar SAMOSÁTA, Luciano. Como se deve escrever a história. Traduzido por: Jacyntho Lins Brandão. Ouro Preto: Tessitura, 2009, p. 134.

17 A Homossexualidade no Mundo Romano No início da República Romana, a questão da homossexualidade não era totalmente aceita pelos cidadãos. No entanto, pode-se dizer que eram concedidas determinadas práticas sexuais entre os homens, como, por exemplo, a relação sexual entre os senhores e seus escravos, em que esses senhores exerciam sempre o papel ativo na relação, demonstrando a sua superioridade, e consequentemente a subordinação de seus servos. Consta que, da metade para o final da República Romana, iniciou-se um novo conceito sobre a questão da homossexualidade. Influenciados pela cultura grega, os Romanos foram aderindo a várias das práticas gregas. Foi a partir dessa época que passaram a aderir aos mesmos valores dos gregos, tendo como foco principal a pederastia, que era reconhecida como uma relação pura. Um ponto bastante particular da história sobre a sexualidade entre homens em Roma é que, diferente do que ocorria na Grécia antiga, não era aceita a relação homossexual entre dois homens adultos. Os sujeitos que praticavam esses atos tornavam-se propensos a total desgraça de suas vidas, sendo encarados com desprezo por toda a comunidade, pois, os adultos que assumiam a passividade na relação eram tidos como inferiores, e ficariam, inclusive, impedidos de exercerem cargos públicos. Foi nesse período da Roma clássica que o professor argentino radicado na França, Daniel Borrillo 8, relatou em seu livro que, o relacionamento entre homens passou a seguir os seguintes termos: em primeiro lugar, o cidadão que mantivesse essas práticas não poderia afastar seus deveres para com a sociedade; segundo, não poderiam usar pessoas de status inferior ao seu como objeto de prazer e, por último, e mais importante, jamais assumir o papel passivo na relação sexual com seu subordinado. Para o cidadão romano, era de suma importância e primazia que o homem exercesse o papel de pater famílias, constituindo uma família formal, casando-se e responsabilizando-se por sua linhagem e pela renda econômica da família. 8 BORRILLO, op. cit., p. 46.

18 O Tradicionalismo Cristão Diferente do que ocorria na tradição greco-romana, a homossexualidade para a comunidade Judaico-Cristã assumiu uma visão completamente repulsiva. Para os cristãos, o relacionamento homossexual era visto como pecado e, alguns países chegaram ao extremo de adotar a pena de morte para o sujeito que pratica tais atos. Inicialmente, é necessário que se entenda que essa repulsa pela relação homossexual teve seu embasamento na interpretação textual dos escritos na Bíblia. A exemplo do que foi narrado anteriormente, um dos versículos pertencentes ao livro de Levíticos 9 dispõe: Se um homem se deitar com um homem, como se deita com uma mulher, ele deve ser morto, e seu sangue deve ser derramado. Cabe registrar que o contexto histórico foi um dos aspectos mais importantes para a influência da enorme repulsa que surgiu contra as práticas homossexuais. Após conseguirem se libertar do Egito, o povo de Israel, para dar continuidade à manutenção do ideal de uma sociedade patriarcalista, se viu obrigado a ditar normas escritas para que pudessem manter sua sobrevivência demográfica e cultural. Com essa forte influência do cristianismo, no fim do Império Romano, o doutrinador Arthur Virmond Neto 10 aduz que, com Justiniano, os romanos passaram a rever seus conceitos em relação à homossexualidade. Passou-se a acreditar que o único tipo de prática moral e aceita na sociedade seria a relação heterossexual-monogâmica. Nesse sentido, o Imperador Teodósio I, ordenou que os homossexuais que assumissem a posição passiva deveriam ser condenados à fogueira, haja vista que, segundo ele, a atitude passiva era associada à feminilidade, reservada exclusivamente às mulheres. Foi através dos fundamentos bíblicos que se justificaram a extrema torpeza e repressão com que se trataram as pessoas que não seguiam o tradicionalismo cristão, especialmente aqueles que praticavam a homossexualidade, com a afirmativa que esse tipo de relacionamento não era um ato aceito por Deus. 9 BÍBLIA SAGRADA. Levíticos, NETO, Arthur Virmond de Lacerda. História da Homossexualidade. Folha on line. São Paulo, 15 abr. 2007, Parte 1 e 2. Disponível em: <http://www.revistaladoa.com.br/website/artigo.asp>. Acesso em: 15. Ago

19 18 Sob o pretexto de se evitar a destruição e desintegração da humanidade, passou-se a ser condenado qualquer tipo de prática sexual que não tivesse como objetivo a fecundação. Sob o idealismo de filiação-biológica, o esperma passou a ser tratado como um elemento sagrado. Tal observação vem complementar a ideia de que a relação sexual entre pessoas de sexos semelhantes era vista como pecado mortal e aqueles que praticassem tais atos estariam condenados ao inferno. Uma das mais conhecidas e importantes passagens da Bíblia que pregam a condenação ao homossexualismo diz respeito à narrativa do Antigo Testamento de Sodoma e Gomorra 11. Segundo historiadores da época, Sodoma e Gomorra eram duas cidades habitadas por comunidades impuras, dominadas pelo pecado e pela prática de relações homossexuais, que tiveram suas terras completamente queimadas, e seus habitantes foram aniquilados por enxofre, sal e cinzas. É de bom grado que se ressalte que, em momento algum, Jesus mencionou a sodomia como sendo pecado, mas, mesmo assim, alguns de seus apóstolos fizeram questão de pregar a condenação dos amores sádicos. O apóstolo Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios 12, 6, 9-10, afirmou com clareza que: Não sabeis que os injustos não herdaram o Reino de Deus? Não vos iludas: os fornicadores, idólatras, adúlteros, depravados, sodomitas, assim como os ladrões, avarentos, beberrões, caluniadores ou estelionatários, nenhum desses herdará o Reino de Deus. De acordo com a observação descrita acima, Paulo deixou claro suas convicções, determinando aquele que era ou não pecador, trazendo com tal manifestação uma série de seguidores da sociedade romana, que passaram a crer e a pregar tais escrituras. Segundo consta, as primeiras formas de condenações formais contra os homossexuais foram feitas na Espanha, no Concílio de Elvira 13, em 305, onde houve a previsão de excomunhão para aqueles que não fossem heterossexuais, e o Concílio de Ancira, em 314, que determinou uma série de punições para os entendidos como pecadores. Vale ressaltar que o último Concílio condenava o chamado bestialismo, e não o homossexualismo, que foi posteriormente interpretado de tal maneira para abrangê-lo. 11 BÍBLIA SAGRADA, Gêneses, 19, Idem, Primeira Epístola aos Conríntios, 6, BORRILLO, op. cit., p. 52.

20 19 Não se deve deixar de mencionar o radicalismo exagerado do bispo Pedro Damião, no ano 1000, ao relatar em seu Livro de Gomorra que nenhum outro vício seria pior do que o homossexualismo, que deveria ser punido de forma mais feroz e eficaz do que qualquer outro crime. Para ele, o vício da homossexualidade traria basicamente a morte do corpo e da alma, que seriam tomados por influências demoníacas e os levariam para o caminho da mentira, da perdição e da não salvação. A despeito do que fora narrado neste tópico, deve-se concluir que a tradição cristã trouxe consigo a manifestação homofóbica em sua forma mais clara, fazendo surgir assim o pensamento da filosofia Escolástica, que tinha a sua frente São Tomás de Aquino. A Escolástica surgiu na Europa, no período da Idade Média, entre os séculos XI e XIV, como leciona Boehner 14, sendo definida como uma corrente filosófica, que teve por base o pensamento do radicalismo cristão. Os Escolásticos tentavam trazer uma harmonia entre os ideais de Platão e Aristóteles, com o pensamento tradicional da Igreja. Essa filosofia trouxe uma série de normas que tinham o intuito de regular as relações sociais e sexuais, onde foi pregado que somente seria aceito pela comunidade cristã o coito conjugal e heterossexual. Vale ressaltar que a relação sexual deveria ter o único objetivo de fecundação, nunca somente para satisfação de prazer e desejo entre os casais, que era entendido como pecado. O tratamento moral que São Tomás de Aquino 15 declarou sobre o aspecto relativo à sodomia: Um ato humano é um pecado, assinala Tomás de Aquino, quando é contrário à ordem estabelecida pela razão. Ora, essa ordem consiste na adaptação dos meios ao fim; portanto, não há pecado em utilizar, segundo a razão, as coisas para seu próprio fim, ao respeitar a ponderação e a ordem, contanto que esse fim seja um verdadeiro bem. Mas a conservação da espécie é um bem não menos excelente que o indivíduo; ora, do mesmo modo que este serve-se da alimentação como meio, aquela que utiliza a volúpia. O que os alimentos são para o homem, diz Santo Agostinho, o comércio carnal o é para a humanidade. Portanto, do mesmo modo que o uso dos alimentos pode ser isento de pecado, se ele é adequado para a saúde dos corpos, assim também o uso da volúpia pode sê-lo, se observar a ponderação e a ordem capazes de garantir seu fim que é a propagação humana. 14 BOEHNER, Ph.; ETIENNE, G. História da filosofia cristã: das origens a Nicolau de Cusa. Petrópolis: Vozes, 1988, p AQUINO, Tomás de. Hermenéutica bíblica de santo Tomás de Aquino. In Biblia y hermenéutica. VII Simposio internacional de teología. Pamplona, Disponível em: <http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/65291_7387.pdf>. Acesso em 13 jun

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