Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social

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1 Sônia Maria de Almeida Figueira Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social Adaptada/Revisada por Sônia Maria de A. Figueira

2 APRESENTAÇÃO É com satisfação que a Unisa Digital oferece a você, aluno(a), esta apostila de Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social, parte integrante de um conjunto de materiais de pesquisa voltado ao aprendizado dinâmico e autônomo que a educação a distância exige. O principal objetivo desta apostila é propiciar aos(às) alunos(as) uma apresentação do conteúdo básico da disciplina. A Unisa Digital oferece outras formas de solidificar seu aprendizado, por meio de recursos multidisciplinares, como chats, fóruns, aulas web, material de apoio e . Para enriquecer o seu aprendizado, você ainda pode contar com a Biblioteca Virtual: a Biblioteca Central da Unisa, juntamente às bibliotecas setoriais, que fornecem acervo digital e impresso, bem como acesso a redes de informação e documentação. Nesse contexto, os recursos disponíveis e necessários para apoiá-lo(a) no seu estudo são o suplemento que a Unisa Digital oferece, tornando seu aprendizado eficiente e prazeroso, concorrendo para uma formação completa, na qual o conteúdo aprendido influencia sua vida profissional e pessoal. A Unisa Digital é assim para você: Universidade a qualquer hora e em qualquer lugar! Unisa Digital

3 SUMÁRIO INTRODUÇÃO O NEOTOMISMO O que é o Neotomismo O que é o Tomismo A Retomada das Ideias de Tomás de Aquino O Neotomismo e o Serviço Social Resumo do Capítulo Atividades Propostas O POSITIVISMO O que é o Positivismo Principais Características do Positivismo O Positivismo no Brasil O Positivismo e o Serviço Social Resumo do Capítulo Atividades Propostas O MATERIALISMO HISTÓRICO DIALÉTICO O que é o Materialismo Histórico Dialético O Desenvolvimento do Pensamento Marxista As Leis Básicas da Dialética O Materialismo Histórico Dialético e o Serviço Social Resumo do Capítulo Atividades Propostas A FENOMENOLOGIA O que é a Fenomenologia Principais Ideias da Fenomenologia A Fenomenologia e o Serviço Social Resumo do Capítulo Atividades Propostas CONSIDERAÇÕES FINAIS RESPOSTAS COMENTADAS DAS ATIVIDADES PROPOSTAS REFERÊNCIAS... 41

4 INTRODUÇÃO Esta disciplina visa ao estudo das correntes filosóficas que fundamentam as bases históricas e teóricas da profissão em seu processo de desenvolvimento no Brasil, buscando apreender o Serviço Social enquanto processo histórico, resultado das determinações criadas pelas relações sociais e pelos projetos de sociedade. Tem como objetivo, ainda: possibilitar o conhecimento dos valores expressos na profissão, na sua emergência e trajetória histórica; contribuir para que se identifique e utilize os pressupostos filosóficos que fundamentam a análise das teorias sociais; apresentar as principais correntes filosóficas e suas influências no Serviço Social. Não podemos afirmar que existe uma filosofia do Serviço Social, porém esta profissão foi fortemente influenciada por algumas correntes filosóficas que embasaram e embasam sua teoria e sua prática nos diferentes momentos históricos. Neste texto, vamos falar de algumas dessas correntes: o neotomismo, o positivismo, a fenomenologia e o materialismo histórico dialético, que estão presentes nos diferentes momentos da história do Serviço Social e suas influências na formação e na prática dos Assistentes Sociais. O positivismo, a fenomenologia e o marxismo são as principais correntes teóricas do pensamento contemporâneo, que, juntamente ao neotomismo, servem como nosso guia, pois nos baseamos nos conceitos das mesmas em nossas intervenções e em nossas pesquisas. Pretendemos apresentar os conceitos fundamentais destas correntes do pensamento, analisando primeiramente o neotomismo, sua origem nas ideias de Santo Tomás de Aquino e de que modo marcou o Serviço Social. Em seguida, apresentaremos o positivismo, sua concepção e a influência que exerceu no pensamento do Serviço Social, bem como as marcas que ainda hoje persistem da linha positivista em nossa profissão. O marxismo é mais uma corrente a ser analisada, quando pretendemos destacar suas principais características e como esta linha de pensamento marxista acompanha o Serviço Social, desde o Movimento de Reconceituação até os dias atuais. A teoria marxista está comprometida com um projeto de transformação da realidade social muito próximo do que propõe o projeto ético político dos assistentes sociais. Abordaremos, ainda, a fenomenologia, procurando destacar seus aspectos importantes, contextualizando seu surgimento e influências que teve e ainda tem, até a atualidade, na prática dos assistentes sociais. Este texto tem, portanto, a intenção de demonstrar como essas correntes se constituem, destacando os traços fundamentais que as distinguem e como influenciam o Serviço Social ao longo de sua história. Sônia Maria de Almeida Figueira 5

5 1 O NEOTOMISMO A presença do neotomismo no Serviço Social marca profundamente a profissão desde a fundação da primeira escola de Serviço Social no Brasil. O Serviço Social, ao surgir atrelado ao projeto da reforma social da Igreja, a serviço de sua ideologia, carrega, além de sua prática, o seu ponto de vista teórico. Toda a visão de homem e de sociedade adotada na profissão se dará a partir da visão católica, tendo como sustentação filosófica o neotomismo. Saiba mais O Seminário de Araxá ocorreu em 1967 em Araxá (MG). Foi o primeiro Seminário de Teorização do Serviço Social e se constituiu em evento histórico no processo de teorização e reconceituação do Serviço Social brasileiro, propondo ações profissionais mais vinculadas à realidade social e política do país. Foi organizado pelo Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais e reuniu 38 assistentes sociais de vários estados brasileiros, produzindo o Documento de Araxá. Toda a visão de homem e de sociedade adotada na profissão se dará a partir da visão católica, tendo como sustentação filosófica o neotomismo. A formação cristã do profissional em Serviço Social foi objeto de estudo de alguns encontros de Assistentes Sociais. Segundo Aguiar (1982), até 1967, quando é realizado o Seminário de Araxá, houve 14 convenções da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS), atual Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) 1, onde o pano de fundo era a doutrina católica. Os encontros da ABESS comumente iniciavam-se com a celebração de uma missa e, por vezes, eram precedidos de um dia de recolhimento, aos moldes dos retiros espirituais promovidos pela Igreja a seus fiéis, tal era estreita a relação da profissão com a prática cristã católica. Na IV Convenção da ABESS, que ocorreu em São Paulo em 1954, o tema foi A formação cristã para o Serviço Social e a Metodologia de Ensino de Serviço Social de Grupo e Organização de Comunidade. Em 1959, em convenção realizada em Porto Alegre para discussão do currículo dos cursos de Serviço Social, foram reafirmadas como importantes para a formação integral do Assistente Social as disciplinas de Religião e Doutrina Social da Igreja. No discurso de encerramento deste evento foi salientada a missão dos Assistentes Sociais do seguinte modo: o cristianismo humanizante para a conquista da paz. E a exemplo de Maria, os assistentes sociais têm a tarefa de Anunciar a Redenção. (AGUIAR, 1982, p. 38). Em 1960, um novo encontro realizado em Fortaleza teve como tema Formação da Personalidade do Assistente Social em todos os Aspectos e os aspectos analisados foram: a formação psicológica, moral e 1 A ABEPSS foi fundada em 10 de outubro de 1946, sob a denominação Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social. Em dezembro de 1998, o estatuto sofreu reformulações, passando a designar-se ABEPSS. É uma entidade civil de natureza científica, de âmbito nacional, sem fins lucrativos, constituída pelas Unidades de Ensino de Serviço Social, por sócios institucionais, colaboradores e por sócios individuais. 7

6 Sônia Maria de Almeida Figueira espiritual. No que se refere ao aspecto espiritual, enfatizou-se que o Assistente Social deve buscar a perfeição e que esta busca da perfeição seja iluminada pelo espírito comunitário e pela doutrina do Corpo Místico de Cristo. Fica evidente, portanto, a importância dos ideais cristãos na formação dos primeiros Assistentes Sociais e a forte presença da postura humanista com base na doutrina social da Igreja e no neotomismo. Os princípios de dignidade da pessoa humana, do bem comum, explicitados por Santo Tomás de Aquino, predominaram no Serviço Social brasileiro até a década de 1960, e podemos afirmar que ela continua presente ainda hoje, através da ação de vários profissionais. Os princípios de dignidade da pessoa humana, do bem comum, explicitados por Santo Tomás de Aquino predominaram no Serviço Social brasileiro até a década de O que é o Neotomismo O neotomismo é uma corrente filosófica surgida no século XIX com o objetivo de reviver a filosofia de Santo Tomás de Aquino, do século XIII, o tomismo, a fim de atender aos problemas contemporâneos. A condição de exploração e miséria em que vivem os operários na Europa do final do século XIX, decorrentes da industrialização e do desenvolvimento do capitalismo, leva a Igreja a se posicionar, pois este momento era visto por esta como de crise e decadência da moral e dos costumes cristãos. A Igreja vê, então, no ressurgimento das ideias de Tomás de Aquino o caminho para o enfrentamento desta realidade. 1.2 O que é o Tomismo Se o neotomismo, que é a corrente que influencia o Serviço Social, é uma retomada do tomismo, então é preciso entender o que é o tomismo. O Tomismo é a doutrina filosófica cristã elaborada pelo dominicano Tomás de Aquino, estudioso do filósofo grego Aristóteles. Tomás de Aquino dedicou-se ao esclarecimento das relações entre a verdade revelada e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão. Segundo sua interpretação, tais conceitos não se chocam nem se confundem, mas são distintos e harmônicos. Segundo Aguiar (1982), Santo Tomás parte da reflexão feita por Aristóteles e a reinterpreta à Tomás de Aquino dedicou-se ao esclarecimento das relações entre a verdade revelada e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão. luz do cenário filosófico de sua época, marcado por questões como: as relações entre Deus e o mundo, fé e ciência, teologia e filosofia, conhecimento e realidade. Para Santo Tomás, a primeira realidade a ser explicada deve ser Deus, que é a fonte de todos os seres. Após analisar a existência de Deus, analisa o homem, a pessoa humana, entendendo que a pessoa humana é composta de duas substâncias incompletas: alma e corpo. É da transformação destas duas substâncias em uma substância única que resulta o ser humano, distinto de qualquer outro ser. Este ser dotado de razão é capaz de escolha, de saber, de vontade. Por ser inteligente, 8

7 Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social afirma Santo Tomás, a pessoa significa o que há de mais perfeito em todo o universo. (AGUIAR, 1982, p. 42). Esta perfeição se apresenta no aspecto físico e espiritual. Para Santo Tomás, o corpo humano é o mais perfeito, o mais funcional e o mais complexo e a pessoa humana tem também uma perfeição espiritual que se manifesta através da racionalidade. Esta racionalidade produz o princípio da consciência em si e da liberdade, que o distingue dos outros seres. Portanto, a liberdade e a capacidade de escolha é também manifestação da inteligência do homem. Mas o homem é também dotado de vontade, o que lhe permite a escolha dos caminhos a percorrer na busca da virtude, do bem e no alcance do fim último, que é Deus. O homem é, também, um ser social em decorrência da própria natureza humana. Como Aristóteles, Santo Tomás afirma que o homem é naturalmente um animal social e para desenvolver-se necessita viver em sociedade. Para Santo Tomás a sociedade é a união dos homens com o propósito de efetuar algo comum (COOK apud AGUIAR, 1982, p. 43). toda forma de governo, desde que garanta os direitos da pessoa e o bem-estar da comunidade é boa e o Estado deve respeitar a Igreja, assim não existe conflito entre fé e razão. Toda forma de autoridade deriva de Deus, respeitá-la é respeitar a Deus. (SCIACCA apud AGUIAR, 1982, p. 43). Esta visão com relação à autoridade e ao Estado, reafirmada posteriormente no neotomismo, explica a posição inicial do Serviço Social brasileiro de não questionamento da ordem vigente, buscando sempre reformar a sociedade. Quem foi Tomás de Aquino Figura 1 São Tomás de Aquino. Santo Tomás, assim como Aristóteles já o fizera, afirma que o homem é naturalmente um animal social e para desenvolver-se necessita viver em sociedade. Por ser um ser social, o homem é também um animal político. Sendo o homem um animal social, a sociabilidade natural já existia no Paraíso, antes da queda e da expulsão dos seres humanos. Após o pecado original, os seres humanos não perderam sua natureza sociável e, por isso, naturalmente organizaram-se em comunidades, deram-se leis e instituíram as relações de mando e obediência, criando o poder político. Para que haja o bem comum, é necessário o Estado e este supõe autoridade. Segundo Sciacca (apud AGUIAR 1982, p. 43), toda forma de autoridade deriva de Deus, respeitá-la é respeitar a Deus; 9

8 Sônia Maria de Almeida Figueira Saiba mais Tomás de Aquino viveu de 1225 a 1274 e teve uma vida dedicada aos estudos, inicialmente sob a orientação de monges beneditinos e, posteriormente, em Paris sob a orientação de Alberto Magno. Era um estudioso metódico, que se empenhou em ordenar o saber teológico e moral acumulado na Idade Média, produzindo uma extensa obra com mais de sessenta títulos. Nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais da França, da Sicília e de Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles. Depois de ter estudado artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, menos à ciência. Dedicou-se ao estudo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris ( ) e depois em Colônia. Em 1252, voltou à Universidade de Paris, onde ensinou até Em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para tomar parte no Concílio de Lião 2, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma, com apenas 49 anos de idade. Saiba mais Santo Alberto Magno, frade dominicano, foi bispo de Regensburg, na Alemanha e tornou-se famoso por seu vasto conhecimento e por sua defesa da coexistência pacífica da ciência e da religião. É considerado o maior filósofo e teólogo alemão da Idade Média e foi o primeiro intelectual medieval a aplicar a filosofia de Aristóteles no pensamento cristão. 1.3 A Retomada das Ideias de Tomás de Aquino A filosofia tomista marca a história da filosofia e do homem até o século XVIII e começa a ser retomada no final do século XIX e início do século XX. Através da encíclica Aeterni Patris, o papa Leão XIII propõe a restauração da filosofia tomista com a clara intenção de unir os pensadores católicos para a conquista do pensamento moderno tal é, ao que parece, o propósito da Igreja ressuscitando o tomismo. (THONNARD apud AGUIAR, 1982, p. 40). Curiosidade Aeterni Patris é uma Encíclica do Papa Leão XIII, de 1879, que se tornou um dos principais responsáveis pelo renascimento da filosofia de Tomás de Aquino. A Epístola leonina teve por objetivo reagir ao espírito laico provindo, sobretudo, do racionalismo iluminista e do materialismo positivista. Tais sistemas pareciam adentrar nas camadas católicas. Esta Encíclica gerou uma nova geração de pensadores católicos e conseguiu, uma vez mais, levar a filosofia escolástica para as cátedras universitárias. 2 O segundo Concílio de Lião, décimo-quarto concílio ecumênico do cristianismo, ocorreu na cidade francesa de Lyon em

9 Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social Para o neotomismo, toda a filosofia moderna a partir de Descartes se constituiria em erros e equívocos, responsáveis pela crise do mundo moderno. Entendida como um desvio metafísico e espiritual, essa crise só poderia ser superada com um retorno ao tomismo. Saiba mais O filósofo francês René Descartes foi um dos fundadores do movimento racionalista, que introduziu a dúvida como elemento primordial para a investigação filosófica e científica. A partir dele as ciências físicas e naturais liberaram-se da escolástica e da religião. É considerado o pai da filosofia moderna. Segundo Aguiar (1982), o retorno desta filosofia não servirá apenas para a formação dos padres, mas se estenderá também aos leigos, formando também magistrados, homens políticos, diretores de obras sociais etc. No campo social, a presença da filosofia de Santo Tomás de Aquino se fará fortemente presente e marcará profundamente o Serviço Social. Saiba mais A própria data definida para comemorar o dia dos Assistentes Sociais é a data de aniversário da publicação de uma importante encíclica papal, a Rerum Novarum. O site do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS-SP) por ocasião da comemoração do dia do Assistente Social, em 2009, publica: O mês de maio traz data muito especial para os Assistentes Sociais: o dia 15, quando se comemora o seu dia e marca a profissão desde o seu nascimento. Saiba mais Em 15 de maio de 1891, o Papa Leão XIII publicava a Encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas), apresentando ao mundo católico os fundamentos e as diretrizes da Doutrina Social da Igreja. Era a primeira Encíclica Social já escrita por um papa e marcava o posicionamento da Igreja frente aos graves problemas sociais que dominavam as sociedades europeias. Para os assistentes sociais europeus, a Encíclica publicada naquele dia 15 de maio trazia um conteúdo muito especial. Atônitos frente à complexidade dos problemas existentes e teoricamente fragilizados em consequência de sua formação ainda bastante precária, aqueles profissionais assumiam o documento e os ensinamentos ali contidos como base fundamental de seu trabalho. Desse modo se aproximavam cada vez mais da Igreja Católica europeia que, por sua vez, assumia progressivamente a sua liderança sobre o enfoque das práticas sociais daqueles profissionais. No Brasil, o Serviço Social foi criado em 1936, a partir das iniciativas dos grandes líderes da Igreja Católica no país, inspirados na Doutrina Social da Igreja, então enriquecida por uma nova Encíclica Social: a Quadragésimo Anno. 11

10 Sônia Maria de Almeida Figueira Saiba mais Desse modo gestada no seio da prática da Ação Social Católica, ou simplesmente Ação Católica, no Brasil a profissão cresceu sob a liderança da Igreja e, até o início dos anos 1960, recebeu a influência direta e decisiva da sua Doutrina Social. Seguidores das ideias de Santo Tomás de Aquino Alguns representantes do pensamento tomista influenciaram, especialmente, a formação dos Assistentes Sociais brasileiros, dentre eles destacamos os nomes a seguir. Leonardo Van Acker A Quadragésimo Anno foi redigida pelo Papa Pio XI, publicada no dia 15 de maio de 1931, em comemoração aos quarenta anos da Rerum Novarum. Discípulo de Santo Tomás de Aquino, nascido na Bélgica em 1896, doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Lovaine. Veio para o Brasil em 1921 e foi lecionar na Faculdade de Filosofia de São Bento. Segundo Aguiar (1982), esta faculdade é um foco de irradiação do tomismo em São Paulo e no Brasil, formando grandes nomes da filosofia e da cultura brasileira, inclusive alguns assistentes sociais que fizeram filosofia antes do curso de Serviço Social, como é o caso de Helena Junqueira. Van Acker foi também professor de Princípios da Doutrina Social na Escola de Serviço Social de São Paulo, evidenciando sua forte influência no Serviço Social brasileiro. Pe. Roberto Sabóia de Medeiros Pe. Sabóia, jesuíta, era conhecido como o apóstolo da Ação Social, desenvolveu um trabalho intenso junto aos patrões e aos operários em meados do século XX. Desenvolveu estudos na área social, sempre seguindo a doutrina social da Igreja, buscando a harmonia entre as classes sociais. O Serviço Social recebeu também o impulso de Pe. Sabóia através da Ação Social e do Assistente Social, como um elemento importante, como pode ser observado em um relato que faz a seu provincial, em 1941, apresentado por Aguiar (1982, p. 48): [...] ocupa-se no momento com uma intensa campanha entre os industriais paulistas para que cada um tome para as fábricas um assistente social. A medida é de alcance, porque os conflitos de trabalho que se amiúdam e que às vezes são propositadamente provocados, subindo às Juntas de Conciliação e Julgamento, têm recebido, na maior parte das vezes, soluções indesejáveis. O suborno vai de mãos dadas com a petulância. Aceitando tiradas ocas sobre a miséria de classes proletárias, vai-se espalhando entre os operários e a persuasão de que sempre tem direito contra os patrões, e se vai solapando o princípio da autoridade. Quando não, o dinheiro do patrão há de intervir para ter ganho de causa [...] Se há remédio parece este consistir em que o assistente social, penetrando na fábrica, eduque o operário, apazigúe os ânimos, seja intermediário dos conflitos, e os encaminhe a um Círculo Operário, onde ele possa achar o equilíbrio entre as suas exigências e as possibilidades sociais. 12

11 Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social Jacques Maritain Figura 2 Jacques Maritain. Jacques Maritain foi um grande filósofo cristão que retomou, com muita propriedade, no século XX, as ideias de Santo Tomás de Aquino. Um dos grandes discípulos deste filósofo no Brasil foi Alceu de Amoroso Lima, que afirmou, em artigo publicado em 1972, que os escritos de Maritain possibilitaram um reencontro entre a intelectualidade e a Igreja, visto que no final do século passado havia uma separação entre intelectuais e a religião. No Brasil, as posições de Maritain influenciaram diretamente no movimento por uma legislação social, que emerge em toda a América Latina; na Constituição Federal promulgada em 1934; e fundamentalmente nos partidos democrata- -cristãos que surgem neste período. Também foi fortemente influenciada pelas ideias de Jacques Maritain a Juventude Universitária Católica (JUC) e suas ideias chegarão ao Serviço Social através da Ação Católica. Sobre Santo Tomás de Aquino, Jacques Maritain (apud AGUIAR, 1989, p. 51) afirma: [...] não só transportou para o domínio do pensamento cristão a filosofia de Aristóteles na sua integridade, para fazer dela o instrumento de uma síntese teológica admirável, como também e ao mesmo tempo superelevou e, por assim dizer, transfigurou essa filosofia. Purificou-a de todo vestígio de erro [...] sistematizou-a poderosa e harmoniosamente, aprofundando-lhe os princípios, destacando as conclusões, alargando os horizontes, e se nada cortou, muito acrescentou, enriquecendo-a com o imenso tesouro da tradição latina e cristã. 1.4 O Neotomismo e o Serviço Social Como já dissemos, a repercussão do neotomismo na teoria e na prática profissional dos Assistentes Sociais pode ser percebida até hoje. A idealização de um projeto societário que contemple as duas dimensões do homem: o corpo e a alma, e a visão da sociedade como a instância na qual o homem pode completar-se e realizar-se como pessoa humana leva os Assistentes Socais a recusa, como sugeria a Igreja Católica, do comunismo e do liberalismo. O comunismo é interpretado, pelos primeiros Assistentes Sociais como uma teoria social refutável porque postula um projeto societário erigido por uma compreensão materialista do homem e era tido como uma doutrina totalitária com princípios dissonantes com o conceito de pessoa humana. O liberalismo, por sua vez, também era incompatibilidade com a natureza humana, pois era tido como uma doutrina individualista. Nesse contexto, o trabalho dos primeiros assistentes sociais dirigia-se, sobretudo, à classe trabalhadora, porém na perspectiva da conciliação das classes sociais. A visão de homem do Serviço Social era a pessoa humana, portadora de valor soberano, criado por Deus, único ser no universo capaz de se aproximar da perfeição. O objetivo do Serviço Social era moldar este homem, integrá-lo à sociedade, aos valores, a moral e aos costumes 13

12 Sônia Maria de Almeida Figueira de uma sociedade cristã, a fim de que ele alcançasse a perfectibilidade. Somente na década de 1960 estas ideias vêm a ser questionadas, porém ainda hoje pode ser observada a presença de princípios cristãos no discurso de profissionais e alunos de Serviço Social. Não é incomum o relato de alunos que buscaram o Curso de Serviço Social a partir de uma prática ligada à Igreja. 1.5 Resumo do Capítulo Vimos neste capítulo uma importante influência teórica na formação histórica do Serviço Social. O neotomismo marca profundamente o início da profissão. É importante apreendermos que o pensamento de São Tomás de Aquino influencia as bases teóricas do Serviço Social desde o seu início e, consequentemente, a Igreja Católica tem uma importante participação na constituição do pensamento e da prática dos Assistentes Sociais nesse processo. 1.6 Atividades Propostas 1. O que é o tomismo? 2. Como podemos refletir sobre a importância do neotomismo no Serviço Social? 14

13 2 O POSITIVISMO A presença do Positivismo no Serviço Social pode ser percebida quando a profissão passa a dar ênfase à instrumentalização técnica, ou seja, quando se soma à preocupação do o que fazer a preocupação de como fazer, embora esta preocupação tenha feito com que o Serviço Social caísse muitas vezes no metodismo. A presença do Positivismo no Serviço Social pode ser percebida quando a profissão passa a dar ênfase à instrumentalização técnica. O positivismo, no Serviço social, vem acompanhado do funcionalismo e adentra esta profis- são através da influência do Serviço Social norte- -americano, trazida, na década de 1940, pelos assistentes sociais brasileiros que foram estudar nos Estados Unidos. Esta influência vai marcar sobremaneira o Serviço Social brasileiro. Inicialmente temos a importação das técnicas norte-americanas para aplicação na realidade brasileira. Não é preciso dizer que isto causou alguns problemas, pois, segundo Aguiar (1984), a fundamentação do método e das técnicas não era analisada e traduzida para a nossa realidade, era tão somente transplantada. Nesta fase, o Serviço Social brasileiro ainda estava marcado pelo neotomismo e pela doutrina social da Igreja, havendo, portanto, uma junção dos pressupostos neotomistas e das técnicas vindas do Serviço Social norte-americano. 2.1 O que é o Positivismo O positivismo é uma corrente filosófica surgida na primeira metade do século XIX. Foi fundado por Augusto Comte, em contraposição às ideias que nortearam a Revolução Francesa no século XVIII. A doutrina de Comte parte do pressuposto de que a sociedade humana é regulada por leis naturais invariáveis, que independem da vontade e da ação humana. Para ele, as leis que regulam o funcionamento da vida social, econômica e política são do mesmo tipo que as leis naturais, logo, o que predomina na sociedade é uma organização semelhante à da natureza. Para o positivismo, a filosofia baseada nos dados da experiência é a única verdadeira. O conhecimento se afirma numa verdade comprovada, portanto, considera o método experimental o caminho para o pensamento científico e a verdade comprovada jamais é questionada. Quem foi Augusto Comte Figura 3 Augusto Comte 15

14 Sônia Maria de Almeida Figueira Saiba mais Isidore Auguste Marie François Xavier Comte nasceu em Montpellier, no sul da França, em 19 de janeiro de 1798 e morreu em 5 de setembro de Filho de um fiscal de impostos, teve sempre uma relação bastante conturbada com a família. Frequentemente acusava os familiares de avareza, culpando-os por sua precária situação econômica. Foi o fundador do Positivismo e da Sociologia. Aos 16 anos de idade, Comte ingressou na Escola Politécnica de Paris, fato que teve significativa influência em seu pensamento, a ponto de ele vir a considerá-la a primeira comunidade verdadeiramente científica que deveria servir como modelo de toda educação superior. Embora permanecesse por apenas dois anos nessa escola, ali Comte recebeu a influência do trabalho intelectual de cientistas como o físico Sadi Carnot ( ), o matemático Lagrange ( ) e o astrônomo Pierre Simon de Laplace ( ). Um ano depois de sair da Escola Politécnica, em 1817, Comte tornou-se secretário de Saint- -Simon 3 ( ), do qual receberia profunda influência. Essa ligação intelectual foi extremamente proveitosa para Comte, porém terminou de maneira tempestuosa quando Comte começou a sentir-se independente do mestre, discordando de suas ideias sobre as relações entre a ciência e a reorganização da sociedade. Comte não aceitava o fato de Saint-Simon, nesse período, deixar de lado seus planos de reforma teórica do conhecimento e dedicar-se às tarefas práticas. A separação entre os dois ocorreu em No mesmo ano, Comte casou-se com Caroline Massin e, não tendo mais os proventos de secretário de Saint-Simon, passou a ganhar a vida dando aulas particulares de matemática. Dois anos depois, exatamente no dia 2 de abril de 1826, iniciou em sua própria casa um curso, do qual resultou uma de suas principais obras: o Curso de Filosofia Positiva, em seis volumes, publicados a partir de Em 1842, separa-se da esposa e dois anos depois publica o Discurso sobre o Espírito Positivo. No mesmo ano, edita o volume do Curso de Filosofia Positiva, onde ataca os especialistas em matemática e afirma ter chegado o tempo de os biólogos e sociólogos ocuparem o primeiro posto no mundo intelectual. Curiosidade Em 1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, a mulher que iria transformar sua vida e dar nova orientação ao seu pensamento. Comte apaixonou-se perdidamente por Clotilde, que veio a falecer um ano depois. Comte transformou-a, então, no gênio inspirador de uma nova religião, cujas ideias se encontram numa extensa obra em quatro volumes, publicados entre 1851 e 1854: Política Positiva ou Tratado de Sociologia Instituindo a Religião da Humanidade. Os últimos anos da vida de Comte transcorreram em grande solidão e desencanto, sobretudo por ter sido abandonado por Littré, seu mais famoso discípulo, que não concordava com a ideia de uma nova religião. 2.2 Principais Características do Positivismo O positivismo rejeita o conhecimento metafísico e considera que devemos nos limitar ao conhecimento positivo, aos dados imediatos da experiência. Defende a ideia de que tanto os fenômenos da natureza como os da sociedade são regidos por leis invariáveis. A filosofia positiva se coloca no extremo oposto da especulação pura, exaltando, sobretudo, os fatos. 3 Saint-Simon, teórico francês e um dos fundadores do chamado socialismo cristão. 16

15 Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social O positivismo rejeita o conhecimento metafísico e considera que devemos nos limitar ao conhecimento positivo, aos dados imediatos da experiência. Os princípios fundamentais do positivismo são: a busca da explicação dos fenômenos através das relações destes e a exaltação da observação dos fatos, porém, para ligar os fatos, existe a necessidade de uma teoria, sem a qual é impossível que os fatos sejam percebidos. Desde Bacon se repete que são reais os conhecimentos que repousam sobre fatos observados, mas para entregar-se à observação nosso espírito precisa de uma teoria. (TRIVIÑOS, 1987, p. 34). O positivismo prega a submissão da imaginação à observação, mas isto não deve transformar a ciência real numa espécie de estéril acumulação de fatos incoerentes, porque devemos entender que o espírito positivo não está menos afastado, no fundo, do empirismo do que do misticismo. O positivismo proclama como função essencial da ciência sua capacidade de prever. O verdadeiro espírito positivo consiste em ver para prever. (TRIVIÑOS, 1987, p. 35). Para o positivismo, não interessa as causas dos fenômenos, isso não é tarefa da ciência. Isso é metafísico, e um dos traços mais característicos do positivismo é sua rejeição ao conhecimento metafísico, à metafísica. Para o positivismo, não interessa as causas dos fenômenos, isso não é tarefa da ciência e, sim, da metafísica. Há no positivismo uma recusa consciente a mergulhar naquilo que não tem existência empírica. A razão só pode conhecer verdadeiramente aquilo que pode ser verificado empiricamente, seguindo o exemplo das ciências naturais. Quando a razão procurar ir além da matéria empírica, ela se perde ou retorna para o terreno da metafísica. Portanto, a essência não pode, e nem deve, ser conhecida, porque ela está além das possibilidades de conhecimento do ser humano. Assim como com a essência, também acontece com os fins últimos da ação humana (os valores sociais), eles também não podem ser conhecidos racionalmente. Esta cisão entre meios racionais e fins irracionais aparece, por exemplo, na análise das formas de ação social em Max Weber e tem grande importância para o Serviço Social, como veremos adiante. O único objeto da ciência, na visão positivista, portanto, são os fatos que podem ser observados. A atitude positivista consiste em descobrir as relações entre as coisas. A busca científica não está a serviço das necessidades humanas para resolver problemas práticos. O investigador estuda os fatos, estabelece relações entre eles, pela própria ciência, pelos propósitos superiores da alma humana de saber, não está interessado em conhecer as consequências de seus achados. A ciência estuda os fatos para conhecê-los, e tão-somente para conhecê-los, de modo absolutamente desinteressado. (TRIVIÑOS, 1987, p ). O papel do investigador é exprimir a realidade, não julgá-la, considerando, portanto, o conhecimento científico neutro, visão esta que foi combatida, principalmente, por parte dos cientistas sociais que não podiam conceber que a ciência humana pudesse ficar à margem da influência do ser humano que investigava. Segundo Triviños (1987, p. 33), é possível distinguir três momentos na evolução do positivismo: A primeira fase chamaremos de positivismo clássico, na qual, além do fundador Comte, também se sobressaem os nomes de Littré, Spencer e Mill. Logo após o final do século XIX, o empiriocriticismo de Avenarius e Mach. A terceira etapa denomina-se de neopositivismo e compreende uma série de matizes, entre os quais se podem anotar o positivismo lógico, o empirismo lógico, vinculados ao Círculo de Viena (Carnap, Schlick, Frank, Neurath, etc.); o atomismo lógico (Russell, , e Witgenstein, ); a filosofia analítica (Witgenstein e Ayer, n.1910) 17

16 Sônia Maria de Almeida Figueira que acham que a filosofia deve ter por tarefa elucidar as formas da linguagem em busca da essência dos problemas; o behaviorismo (Watson, ) e o neobehavorismo (Hull, , e Skinner, n. 1904). O Neopositivismo, ou Empirismo Lógico ou Positivismo Lógico, foi fundado por um grupo de filósofos e cientistas, conhecidos como o Círculo de Viena, que, no decorrer da década de 1920, se reuniram em Viena, fundando uma das mais influentes correntes filosóficas e epistemológicas de nosso tempo. O Círculo de Viena foi ganhando cada vez mais influência, sobretudo nos países anglo-saxões, onde suas investigações não se limitaram ao campo da teoria da ciência, mas estenderam-se aos domínios da ética, da filosofia da linguagem e da filosofia da história (CARVA- LHO, 1997). Uma das principais aspirações dos positivistas é alcançar resultados na pesquisa social que possam generalizar-se e, para tal, utilizam-se de técnicas de amostragem, tratamentos estatísticos e estudos experimentais severamente controlados como instrumentos para concretizar estes propósitos. Mas, na visão de Triviños (1987, p. 38): a flexibilidade da conduta humana, a variedade dos valores culturais e das condições históricas, unidas ao fato de que na pesquisa social o investigador é um ator que contribui com suas peculiaridades (concepção do mundo, teorias, valores etc.), não permitirão elaborar um conjunto de conclusões frente à determinada realidade com o nível de objetividade que apresenta um estudo realizado no mundo natural. No positivismo procura-se utilizar o método científico das ciências naturais para analisar também a sociedade. Esta é uma das principais características do positivismo. Para isto, é necessário tratar a vida social da mesma forma que é tratada a natureza, ou seja, faz-se a naturalização, ou coisificação, da sociedade. O positivismo, sem dúvida, representa, especialmente através de suas formas neopositivistas, uma corrente do pensamento que alcançou, de maneira singular na lógica formal e na metodologia da ciência, avanços muito meritórios para o desenvolvimento do conhecimento (TRIVIÑOS, 1987). 2.3 O Positivismo no Brasil O positivismo, que teve origem no século XIX, expandiu-se no Brasil durante o Império, contrapondo-se a este e defendendo a República. O Brasil foi o país onde o positivismo teve grande penetração, sendo que o Rio Grande do Sul, sob a influência de Júlio de Castilho, chegou a ter uma constituição inspirada no positivismo. O positivismo no Brasil não é uma mera reprodução da filosofia de Comte, como esta se desenvolveu no cenário francês de sua origem, e sim uma versão temperada pelo ecletismo que marcava os pensamentos dos intelectuais da segunda metade do século XIX, formadores de opinião dentro dos partidos políticos e das famílias de prestígios da época. Segundo Vieira (1987), as ideias positivistas eram debatidas e divulgadas através de seus adeptos, congregados na primeira associação positivista fundada no Rio de Janeiro, em Os membros mais atuantes eram Benjamim Constant, Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Álvaro de Oliveira. Esta associação transformou-se, em 1881, na Igreja Positivista do Brasil. Devido a esta posição religiosa do positivismo, a Igreja Católica se coloca radicalmente contra as ideias positivistas, apesar dos pontos comuns entre o pensamento tradicional da Igreja e o positivismo, como o respeito à autoridade, à ideologia da ordem e à crença de que através das elites se educa o povo (RODRIGUES, 1981 apud VIEIRA, 1987). 18

17 Fundamentos Filosóficos para o Serviço Social 2.4 O Positivismo e o Serviço Social Segundo Brandão (2006), a vertente religiosa do positivismo foi a que mais progrediu no Brasil. O conservadorismo católico, que caracterizou os anos iniciais do Serviço Social brasileiro, especialmente a partir dos anos 1940, começa a ser tecnificado ao entrar em contato com o Serviço Social norte-americano. As propostas brasileiras de trabalho foram permeadas pelo caráter conservador da teoria social positivista. Esta reorientação da profissão, que exige a qualificação e sistematização de seu espaço sócio-ocupacional, tem como objetivo atender às novas configurações do desenvolvimento capitalista e, consequentemente, às requisições de um Estado que começa a implementar políticas sociais. Desse modo, a matriz positivista terá um importante papel na legitimação do profissional de Serviço Social brasileiro, na medida em que amplia os referenciais técnicos para a profissão. Iamamoto (1998) chama esse processo de arranjo teórico-doutrinário, que se caracteriza pela junção do discurso humanista-cristão, vindo do neotomismo com o suporte técnico científico na teoria social positivista. Segundo Tonet (1984), o positivismo não se interessa pelo o que é, julgando isto um problema irrelevante porque inatingível, mas apenas pelo modo como as coisas acontecem. A realidade social torna-se, nessa perspectiva, um aglomerado de dados, elementos, fatores justapostos sem uma razão essencial que os estruture. Não há contradições, na realidade social, há apenas diferenças, disfunções, desvios, problemas, sendo que a tendência normal da sociedade é a ordem harmônica. A história para o positivismo, enquanto intervenção do sujeito humano, não existe, porque a evolução da sociedade é regida por leis idênticas às leis naturais. O homem é o indivíduo, por sua vez, é o elemento irredutível, o menor fragmento, justaposto a outros fragmentos que vão compor a estrutura social. Ou seja, o positivismo descreve o homem não como um resultado produzido pelo sistema capitalista, mas simplesmente como O HOMEM. O conservadorismo católico que caracterizou os anos iniciais do Serviço Social brasileiro começa a ser tecnificado ao entrar em contato com o Serviço Social norte-americano. A partir desse fundamento, para o positivismo, o conhecimento torna-se uma descrição do dado empírico, colecionado e ordenado pelo sujeito, e esse sujeito é, ao mesmo tempo, quem elabora e quem conduz o conhecimento e, por se tratar de um ser limitado, não tem condições de apreender a integralidade, o objeto, mas apenas elementos superficiais deste. A posição do estranhamento em que se encontram sujeito e objeto é o fundamento da neutralidade social do conhecimento preconizada pelo positivismo. O sujeito só descreve, não toma partido. Quanto mais imparcial, mais objetivo e, quanto mais objetivo, mais científico, cabendo ao rigor metodológico garantir a obtenção da objetividade. Nesse sentido, a matriz positivista oferece ao Serviço Social o primeiro suporte teórico-metodológico necessário à qualificação técnica de sua prática e à sua modernização através da apropriação de um instrumental de trabalho. Segundo Brandão (2006), esta teoria social assentada no positivismo aborda as relações sociais dos indivíduos no plano de suas vivências imediatas, como fatos que se apresentam em sua objetividade e imediaticidade. Tal perspectiva restringe a visão de teoria ao âmbito do verificável, da experimentação e da fragmentação, tal qual propõe a leitura positivista da realidade. As mudanças apontam 19

18 Sônia Maria de Almeida Figueira para a conservação e preservação da ordem estabelecida, isto é, do ajuste. O Serviço Social absorveu esta orientação funcionalista e os assistentes sociais passaram a atuar com propostas de trabalho ajustadoras. Os profissionais dedicaram-se ao aperfeiçoamento dos instrumentos e técnicas de intervenção, buscando padrões de eficiência, sofisticação de modelos de análise, diagnóstico e planejamento. Enfim, houve uma considerável tecnificação da ação profissional, que por sua vez vem acompanhada de uma crescente burocratização das atividades institucionais (YASBEK, 1999). Uma visão mais crítica a respeito da questão social, neste período, fica impossibilitada principalmente devido aos referenciais teóricos que o Serviço Social utilizava para explicar a realidade social, ou seja, os fundamentos filosóficos da Doutrina Social da Igreja, o Neotomismo como já discutimos, a predominância do pensamento conservador e a perspectiva analítica hegemônica nas Ciências Sociais, embasada no Positivismo. A profissão, neste período, não questionava e aceitava, de certo modo, passivamente o significado de sua função social atribuído pelo Estado e pelo empresariado. A profissão, neste período, não questionava e aceitava, de certo modo, passivamente o significado de sua função social atribuído pelo Estado e pelo empresariado. Segundo Brandão (2006), as concepções de homem e de sociedade, legitimadas pela tríade Neotomismo Pensamento Conservador Positivismo, eliminavam, no âmbito da formação e do exercício profissional, a compreensão sobre: a desigualdade imposta pela sociedade capitalista, associada às condições de exploração do homem pelo homem e às relações sociais que sustentam o trabalho alienado; o caráter contraditório da prática profissional e sua participação no processo de reprodução social; e a dimensão ético- -política da prática profissional, em nome de uma neutralidade que, de fato, é afinada com a necessidade de legitimar a suposta face humanitária do Estado e do empresariado. 2.5 Resumo do Capítulo O Positivismo tem uma participação importante na história da formação da República brasileira; a sua influência no Serviço Social foi determinante no processo de teorização da profissão, bem como na busca de legitimidade. É com o positivismo que se introduz a sistematização técnica na prática do Serviço Social. Dessa forma, é importante entender o positivismo dentro do contexto histórico que debatemos anteriormente. 2.6 Atividades Propostas 1. O que é Positivismo? 2. Como podemos refletir sobre a importância do Positivismo no Serviço Social brasileiro? 20

19 3 O MATERIALISMO HISTÓRICO DIALÉTICO A partir da década de 1960, passamos a ter a forte influência de outra corrente de pensamento filosófico no Serviço Social brasileiro, o Materialismo Histórico Dialético. Os assistentes sociais neste período passam a fazer uma análise crítica da sociedade, a partir das contradições identificadas e da percepção da necessidade de mudanças. Vale dizer que persiste neste período a postura tradicional do Serviço Social numa linha conservadora, porém passam a surgir movimentos que defendem a intervenção do Serviço Social numa perspectiva crítica e que se somam a outros movimentos, naquele momento, em busca de mudanças estruturais na sociedade brasileira. Os assistentes sociais, a partir de meados da década de 1960, passam a fazer uma análise crítica da sociedade. Esta é a marca da influência do Materialismo Histórico Dialético no Serviço Social. Estes profissionais começam a rever suas posições e vão rompendo gradativamente com a visão tradicional do Serviço Social. Isto leva os assistentes sociais a levantar questionamentos, tais como: há serviço de quem está sua prática profissional? Do poder instituído ou do povo? Estes profissionais buscam firmar um vínculo com as classes trabalhadoras e se engajar na luta pela organização das mesmas, participando dos movimentos desencadeados na sociedade brasileira nesse período. A sociedade já não é mais vista como um todo harmônico, mas como uma realidade que carrega contradições e antagonismos resultantes das relações de dominação. Esta postura ganha força no Serviço Social brasileiro a partir da década de 1970, principalmente em algumas escolas de Serviço Social. Obviamente, esta não é uma postura unitária na profissão e é marcada por vários enfoques a partir de diferentes leituras marxistas. Os assistentes sociais entram em contato com teoria marxista, principalmente, a partir das leituras de Althusser, Gramsci e outros. Passa a haver na profissão, também, um esforço para conhecer mais apropriadamente as ideias de Karl Marx. Saiba mais Louis Althusser ( ) foi um filósofo francês, de origem Argelina, autor do livro Ideologias e Aparelhos Ideológicos do Estado, onde expõe sua teoria de que há uma ligação umbilical entre Estado e aparelhos ideológicos. Para ele, as instituições se comportam como aparelhos ideológicos do Estado, reproduzindo sua ideologia. Saiba mais Antonio Gramsci ( ) foi um pensador italiano, uma das referências essenciais do pensamento de esquerda no século XX, cofundador do Partido Comunista Italiano. Suas noções de pedagogia crítica e instrução popular foram teorizadas e praticadas décadas mais tarde por Paulo Freire, no Brasil. Gramsci se dispôs a estabelecer uma unidade entre a teoria e a prática do marxismo, criticou o elitismo dos intelectuais e exerceu profunda influência sobre o pensamento marxista. 21

20 Sônia Maria de Almeida Figueira 3.1 O que é o Materialismo Histórico Dialético O materialismo Histórico Dialético, ou seja, a filosofia marxista, foi desenvolvido por Karl Marx e Frederich Engels. É importante frisar que antes de Marx e Engels a doutrina socialista já existia, porém o avanço que estes autores apresentam consiste no fato de assegurar aos homens o conhecimento da ideia do desenvolvimento através da dialética e a interpretação materialista da natureza. Trata-se de um avanço com relação ao pensamento filosófico alcançado pela filosofia alemã em fins do século XVIII e início do século XIX, com o idealismo de Hegel e o materialismo de Ludwig Feuerbach. A grande contribuição de Hegel foi os ensinamentos que deram origem ao desenvolvimento da ideia e da consciência, interpretadas pela dialética. Por outro lado, a contribuição de Feuerbach consiste na interpretação materialista da natureza em confronto com o idealismo de Hegel e com a religião. A dialética teve sua origem na Grécia, porém por muito tempo ocupa uma posição secundária e vem ressurgir com força no Renascimento. Significa a arte do diálogo, da controvérsia, a evolução do pensamento a partir das contradições. Porém este termo não foi utilizado na história da filosofia com significado unívoco, recebeu significados diferentes, com diversas inter-relações, não sendo redutível a um significado comum. Dialética significa a arte do diálogo, da controvérsia, a evolução do pensamento a partir das contradições. Para Platão, dialética é sinônimo de filosofia, o método mais eficaz de aproximação entre as ideias particulares e as ideias universais ou puras. É a técnica de perguntar, responder e refutar, que ele teria aprendido com Sócrates. Platão conside- ra que apenas através do diálogo o filósofo deve procurar atingir o verdadeiro conhecimento, partindo do mundo sensível e chegando ao mundo das ideias, pois é pela decomposição e investigação racional de um conceito que se chega a uma síntese, que também deve ser examinada, num processo infinito de busca da verdade. Aristóteles define a dialética como a lógica do provável, do processo racional que não pode ser demonstrado. Kant retoma a noção aristotélica quando define a dialética como a lógica da aparência. Para ele, a dialética é uma ilusão, pois se baseia em princípios que, na verdade, são subjetivos. Hegel apresenta a dialética como um movimento racional que permite transpor uma contradição. Uma tese inicial contradiz-se e é ultrapassada por sua antítese. Essa antítese, que conserva elementos da tese, é superada pela síntese, que combina elementos das duas primeiras, num progressivo enriquecimento. A dialética hegeliana não é um método, mas um movimento conjunto do pensamento e da realidade. Segundo Hegel, a história da humanidade cumpre uma trajetória dialética marcada por três momentos: tese, antítese e síntese. Materialismo designa, em geral, toda doutrina que atribua causalidade apenas à matéria, vem a ser tudo que resulta da evolução da matéria, tendo, portanto, como elemento fundamental a realidade primária. Este termo foi utilizado pela primeira vez por Robert Boyle, em sua obra de 1674, porém Feuerbach é considerado o verdadeiro fundador do materialismo ao designar o homem como princípio real e fundamental dos seres e da teoria. Ele rompe com o idealismo de Hegel substituindo a ideia pela matéria, para ele a compreensão do pensamento parte do objeto e da interpretação da natureza. 22

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