A CULTURA HISTÓRICA ILUMINISTA: ENTRE O PROJETO POLÍTICO E O LIVRO DIDÁTICO PAULO ANDRÉ BATISTA MIRANDA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA A CULTURA HISTÓRICA ILUMINISTA: ENTRE O PROJETO POLÍTICO E O LIVRO DIDÁTICO PAULO ANDRÉ BATISTA MIRANDA Orientadora: Profa. Dra. Regina Célia Gonçalves Co-Orientadora: Profa. Dra. Vilma de Lurdes Barbosa Área de Concentração em História e Cultura Histórica Linha de Pesquisa em Ensino de História e Saberes Históricos JOÃO PESSOA PB Agosto/2011

2 A CULTURA HISTÓRICA ILUMINISTA: ENTRE O PROJETO POLÍTICO E O LIVRO DIDÁTICO Paulo André Batista Miranda Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em História, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba - UFPB, em cumprimento às exigências para obtenção do título de Mestre em História, Área de Concentração em História e Cultura Histórica. Orientadora: Profa. Dra. Regina Célia Gonçalves Co-Orientadora: Profa. Dra. Vilma de Lurdes Barbosa Linha de Pesquisa: Ensino de História e Saberes Históricos JOÃO PESSOA Agosto/2011

3 M672c Miranda, Paulo André Batista. A cultura histórica iluminista: entre o projeto político e o livro didático / Paulo André Batista Miranda. - João Pessoa, f. Orientadora: Regina Célia Gonçalves Co-orientadora: Vilma de Lurdes Barbosa Dissertação (Mestrado) UFPB/CCHLA 1. Livros didáticos - História ensino médio. 2. Cultura histórica. 3. Ensino de história. 4. Iluminismo. UFPB/BC CDU: 002(075)(043)

4 A CULTURA HISTÓRICA ILUMINISTA: ENTRE O PROJETO POLÍTICO E O LIVRO DIDÁTICO Paulo André Batista Miranda Dissertação de Mestrado avaliada em / / com conceito BANCA EXAMINADORA Profa. Dra. Regina Célia Gonçalves Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal da Paraíba Orientadora Profa. Dra. Vilma de Lurdes Barbosa Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal da Paraíba Co-Orientadora Profa. Dra. Regina Coeli Gomes Nascimento Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal de Campina Grande Examinador externo Profa. Dra. Cláudia Engler Cury Programa de Pós-Graduação em História Universidade Federal da Paraíba Examinadora interna Prof. Dr. Severino Cabral Filho Programa de Pós-Graduação em História - Universidade Federal de Campina Grande Suplente externo Prof. Dr. Severino Bezerra da Silva Programa de Pós-Graduação em Educação Universidade Federal da Paraíba Suplente interno

5 Aos meus familiares: Luíz (pai) e Lourdes (mãe), Mário e Diego (irmãos) e Jéssica (sobrinha).

6 i AGRADECIMENTOS Gostaria de fazer uma grande lista de agradecimentos se pudesse, mas como sou lacônico com as palavras sentimentais prefiro encurtá-las para não ficar sem saber o que expressar. Em primeiro lugar agradeço imensamente à UFPB e ao Programa de Pós- Graduação em História por ter me concedido a oportunidade de estudar, mais uma vez, nessa instituição como parte importante da formação da minha vida. Agradeço a paciência que os coordenadores do mestrado tiveram comigo: no primeiro momento com os Profs. Raimundo Barroso e Elio Flores, e principalmente, no segundo com as Profas. Carla Mary e Serioja. Muito obrigado mesmo. Agradeço também à CAPES, pela concessão da bolsa que foi fundamental para que eu tivesse acesso aos materiais necessários para a redação dessa dissertação. Um agradecimento fraternal a alguns amigos como Walber, que continua sendo a personificação do Dalai Lama e Lucas Espanhol. A alguns colegas de curso de mestrado como Bernardo, Alessandro e, principalmente, Jivago com quem tive a oportunidade de trabalhar. Jivago, muito obrigado pela chance e pela força, e vamos fazer aquela visita que ficamos devendo! Para minha namorada Nadine que tem uma história fantástica comigo nesses últimos vinte e quatro meses. Obrigado por ter aceitado minha renúncia quando precisei ficar longe de você para ficar perto dos livros. Obrigado por ter suportado, às vezes, minha indiferença e distância, e desculpe também por qualquer coisa que porventura a tenha magoado, mas eu precisava da solidão, ela é necessária em alguns momentos. A professora Claudia Cury que conheço de perto, desde o tempo em que fui seu monitor da disciplina Teoria da História II, ainda na graduação. Eu confio o meu trabalho para suas leituras e análises desde o começo do mestrado. Obrigado pelas críticas e por teimar para que eu deixasse a teimosia com que estava conduzindo meu trabalho. Obrigado, dama da História! Um agradecimento ao senhor Marcos William que cuidou e teve a paciência de escanear todas as imagens dos livros didáticos e formatar a versão final. Obrigado carioca gente fina! Agradeço também a gentileza do Samuel Filho pelo abstract.

7 ii E um agradecimento especial para as professoras Regina Célia Gonçalves (orientadora) e Vilma de Lurdes Barbosa (co-orientadora). Comecei a trabalhar com ambas desde 2005 com o projeto de História Local dos municípios paraibanos. Agora no Mestrado tem sido muito mais que orientadoras. Vocês têm noção o quanto estão me ajudando? Se não fosse vocês não sei como seria, se é que seria. Muito obrigado mesmo, por tudo. Desculpem-me por qualquer coisa que tenha feito de errado ou equivocado e agora vou deixar vocês em paz, não mais as perturbarei (risos). E um obrigado às pessoas que me ajudaram, direta ou indiretamente, nesse difícil, mas importante processo. Se esqueci de alguém foi por falta de espaço ou de memória, mas jamais por falta de gratidão. Muito obrigado! Até a próxima, se houver claro. Valeu!!

8 iii SUMÁRIO AGRADECIMENTOS...i SUMÁRIO...iii RESUMO...iv ABSTRACT...v LISTA DE ABREVIATURAS...vi EPÍGRAFE...vii 1. INTRODUÇÃO LIVRO DIDÁTICO E CULTURA HISTÓRICA Uma breve história do livro didático no Brasil A produção/reprodução da cultura histórica pelos livros didáticos Conceitos sobre cultura histórica Livro didático como um artefato cultural EDUCAÇÃO E MODERNIDADE: DO HUMANISMO AO ILUMINISMO Educação, Humanismo e Reformismo no Século XVI Os Humanistas Cristãos do século XVI A pedagogia da Reforma Católica (Contra Reforma Do utilitarismo empirista ao protótipo do homem burguês no século XVII O utilitarismo de Francis Bacon Ensinar tudo a todos : A utopia de Comenius A educação do gentleman burguês em John Locke A educação nas bases das luzes do século XVIII A laicização e o mundo dos livros para a formação A Educação Pública em Condorcet Considerações sobre a importância do livro no pensamento moderno O ILUMINISMO NOS LIVROS DIDÁTICOS Livro 1 História, de Divalte Garcia Figueira Livro 2 História: das cavernas ao terceiro milênio de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick Livro 3 A Escrita da História de Flávio de Campos e Renan Garcia Miranda Um olhar sobre as obras Problemas conceituais encontrados nos livros didáticos CONSIDERAÇÕES FINAIS FONTES E REFERÊNCIAS ANEXOS...169

9 iv RESUMO Este trabalho tem, como objeto de análise, livros didáticos de História para o Ensino Médio e o tratamento que seus autores conferem ao tema do Iluminismo. Partindo do princípio de que a sistematização e a divulgação do conhecimento científico na Modernidade se processaram inclusive através da organização de materiais didáticos voltados para os sistemas de ensino que começaram a ser montados a partir de então, consideramos o livro didático como um objeto cultural iluminista. Por sua vez, a historiografia contemporânea tem revisitado o tema do Iluminismo na Modernidade, a partir de uma abordagem que ultrapassa a associação estabelecida entre filosofia iluminista e o século das luzes como fenômeno francês. A nossa análise procura perceber como o Iluminismo é abordado nos manuais didáticos brasileiros contemporâneos, quais as perspectivas teóricas predominantes e como os conceitos centrais daquela filosofia são tratados. A análise de livros didáticos se justifica pelo fato de que, na nossa cultura, eles se constituem como um importante instrumento de veiculação do saber histórico, além de promoverem a formação docente e discente na área. Além disso, as idéias e as propostas dos pensadores modernos de extração iluminista ainda se constituem, na nossa perspectiva, em elementos fundamentais da cultura histórica e política contemporânea. Palavras chave: Iluminismo; Livro Didático; Cultura Histórica e Ensino de História.

10 v ABSTRACT This work has as its object of analysis high school History textbooks and the treatment their authors give to the Enlightenment. Assuming that the systematization and dissemination of scientific knowledge in the Modern age were carried on including through the organization of teaching materials designed to the education systems that began to be assembled at the time, we consider the textbook as a cultural object of the Enlightenment. In its turn, the contemporary historiography has revisited the theme of the Enlightenment in Modernity, from an approach that goes beyond the association established between Enlightenment philosophy and the Age of Reason as a French phenomenon. Our analysis aims to understand how the Enlightenment is addressed in Brazilian current textbooks, the predominant theoretical perspectives and how the central concepts of that philosophy are treated. The analysis of textbooks is justified by the fact that in our culture they constitute an important tool for conveying the historical knowledge, other than promoting teacher and student training on the subject. Furthermore, the ideas and proposals of the Enlightenment modern thinkers are still present from our point of view in basic elements of contemporary historical culture and politics. Keywords: Enlightenment; Textbook; Historical Culture and History teaching.

11 vi LISTA DE ABREVIATURAS CNLD Comissão Nacional do Livro Didático ENEM Exame Nacional do Ensino Médio FAE Fundação de Apoio ao Estudante IES Instituições de Ensino Superior LD Livro Didático LDB Lei De Diretrizes e Bases da Educação Nacional MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra PCN Parâmetros Curriculares Nacional PNLA Programa Nacional do Livro Didático para a Alfabetização de Jovens e Adultos PNLD Programa Nacional do Livro Didático PNLEM Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio PPGH Programa de Pós-Graduação em História PUC Pontifícia Universidade Católica RBH Revista Brasileira de História UniBH Centro Universitário de Belo Horizonte UFMG Universidade Federal de Minas Gerais UFPB Universidade Federal da Paraíba USP Universidade de São Paulo

12 Quanto mais os homens forem dispostos, pela educação, a raciocinar com justeza, a apreender as verdades que lhes são apresentadas, a rejeitar os erros dos quais se quer fazê-los vítimas, mais também uma nação, que veria dessa forma as luzes se ampliarem cada vez mais e difundirem-se num maior número de indivíduos, deve esperar obter e conservar as boas leis, uma sábia administração e uma constituição verdadeiramente livre. (Condorcet- 1791) vii

13 1 1. INTRODUÇÃO Este trabalho tem, como objeto, a análise de livros didáticos no que se refere ao tratamento dado ao tema do Iluminismo. Procuramos fazê-lo tendo, como pano de fundo, as abordagens sobre o tema que a historiografia de uma forma geral tem construído, tanto a clássica, quanto a que procedeu a uma intensa revisão nas últimas décadas do século XX. Em termos de apoio teórico para estudamos a ilustração, seja na concepção francesa ou inglesa, nos fundamentamos nos conceitos de Ilustração e Iluminismo. Segundo Rouanet (2005), a Ilustração 1 foi um movimento intelectual do século XVIII em que se propunha que o homem deveria basear seu conhecimento e ação no uso da razão e da crítica contra os valores tradicionais na sociedade européia marcados pelo matiz feudal. Por outro lado, o Iluminismo é uma tendência trans-epocal que cruza a história humana (p.26). Ou seja, segundo essa formulação, existiram, antes do século XVIII e depois dele, pensadores com uma perspectiva racional do devir histórico das sociedades humanas. Assim, podemos afirmar que a Ilustração moderna foi mais uma fase do Iluminismo. Atualmente, por exemplo, podemos identificar um neo-iluminismo que procura uma crítica da sociedade não colocando apenas a ciência e o progresso como forma de resolução dos problemas, mas também estabelecendo uma autocrítica quanto aos seus limites e excessos que podem ser fator de desequilíbrio econômico, social e ambiental. No século XVIII, a Ilustração foi um movimento que buscava, exclusivamente através do esclarecimento, fazer com que o homem superasse a ignorância e fosse dono de seu próprio destino através do conhecimento, tal como afirmava Kant (2008). A crença no progresso, na ciência e no esclarecimento o conduziria a um estágio de emancipação em que não sofreria mais coerções por parte das estruturas e das instituições do Estado e, assim, alcançaria a felicidade plena. A partir deste projeto ilustrado, podemos dizer que a história profana/civil começa a se desligar gradativamente do providencialismo medieval e, por conseqüência, 1 Segundo Sérgio Paulo Rouanet, o termo ilustração se reserva exclusivamente às correntes de idéias que apareceram no século XVIII, enquanto que o Iluminismo refere-se a uma tendência intelectual independente de época, com viés crítico sempre apoiado na razão.

14 2 a cultura histórica também é afetada e modificada. Surge, assim, um novo tipo de cultura histórica, baseada nas grandes realizações do homem no campo da ciência e tecnologia. Trata-se da tentativa de romper com os antigos e com a escolástica medieval. É nesse aspecto que se pauta a cultura histórica do Iluminismo - em uma ruptura com o passado, na busca de um progresso material através do devir histórico pautado na educação; razão e experiência concebidas como elementos para a vida prática e como projeto universal para o cidadão. Há diferença entre esses projetos, há particularidades históricas de cada nação. Isso é evidenciado na trajetória do Iluminismo na França e na Inglaterra. Nos dois países foram criadas bases para o conceito de progresso e, da mesma forma, espaços de circularidade cultural 2 para ele. Os ingleses lançaram as bases da tecnologia e da ordem pautadas na matemática; já os franceses as da ampliação das liberdades individuais. Da mesma forma, essas concepções se complementarão envolvendo os mesmos espaços de experiência e a previsão teleológica do futuro. Apresentados esses pressupostos teóricos, passamos a relatar a trajetória deste trabalho que começou a ser elaborado desde fins de 2007, com a monografia de conclusão do Curso de Licenciatura Plena em História, intitulada Ciência e Progresso: os dois vetores do Iluminismo Inglês. Ali procuramos localizar temporal, histórica e filosoficamente o Iluminismo na Inglaterra, assim como apontar as contribuições de quatro grandes nomes dessa produção inglesa para a construção da Modernidade: Francis Bacon, John Locke, Isaac Newton e David Hume. No entanto, vale ressaltar que o interesse pelo tema surgiu através de aulas de Teoria da História nas quais, a partir das discussões das contribuições de Edward Palmer Thompson e Christopher Hill, foi identificado um novo tipo de olhar sobre o Iluminismo. Com relação ao projeto de Mestrado essa temática continuou no campo da filosofia da história ao procurar responder certas questões que não haviam sido esgotadas na monografia, mas daí surgiu um novo elemento que se relaciona com a área 2 Para Ginzburg (2006), inspirado em Bakhtin, há uma permanente circularidade cultural na sociedade, que possibilita sua constante reprodução e renovação; a cultura é um campo de forças dividido e contraditório, entre hegemônicos e subalternos. As classes dominantes, por via de dominação e hegemonia, buscam apropriar-se das culturas subalternas (seus temas, motivos e elementos) e modificálas segundo os seus interesses, criando um consenso, para enquadrar os subalternos.

15 3 de concentração do Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba - PPGH/UFPB, Cultura Histórica, e com a linha de pesquisa Ensino de História e Saberes Históricos. A relação dessa temática com o livro didático como um dos elementos centrais da pesquisa surgiu durante o curso das disciplinas 3. Partíamos da idéia de uma suposta ausência de discussão teórica sobre o Iluminismo nesse tipo de artefato didático. Ao mesmo tempo, queríamos entender de que forma o Iluminismo inglês é apresentado nos livros didáticos, se é que isso acontece. E, se não acontece, como foi constatado em pesquisas com livros didáticos mais antigos, nos quais no máximo autores ingleses como Locke apareceriam como precursores de um pré- Iluminismo, a questão era o porquê disso? Enquanto aluno do Ensino Médio no fim dos anos 1990, não estudávamos Iluminismo como um fenômeno inglês tanto quanto francês. A referência continuava sendo a França. E, em outro momento, já dez anos depois, na condição de professor na rede estadual de ensino da Paraíba no Centro Experimental de Ensino Sesquicentenário, nos anos de chegamos à mesma constatação. Quando o assunto tratado nas turmas de 2º ano de Ensino Médio era Iluminismo, procurávamos começar as aulas com as primeiras ponderações a partir da Inglaterra para, depois, fazer uma contextualização da ilustração na Europa. Muitos alunos nem sequer compreendiam e indagavam: Existiu Iluminismo na Inglaterra? Os filósofos iluministas não eram franceses?. Em suma, desde o Ensino Fundamental a cultura escolar apresenta para os alunos o Iluminismo como um acontecimento exclusivamente francês. A perspectiva de um fenômeno inglês ou mesmo continental bem integrado na Europa, como aponta Jonathan Israel (2009), são questões que, se não são descartadas, pelo menos não são usuais no ensino de história e em grande parte dos livros didáticos. Desta forma, com aporte nos questionamentos teóricos da historiografia revisionista, e na própria experiência de vida como estudante secundário, universitário e professor de história, novos questionamentos surgiram. Isso ainda acontece? Se deve a que motivos? A responsabilidade seria dos autores de livros didáticos que, mesmo recebendo orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs para mudar os objetivos de ensino, considerar a renovação historiográfica e metodológica, e 3 Essa questão surgiu no decorrer da disciplina Tópicos Especiais em Historiografia do Ensino de História, cursada entre julho e outubro de 2008, pouco antes do processo de seleção de Mestrado do PPHG.

16 4 procederem a revisão de conteúdos, não o estariam fazendo? Será que os autores e as editoras não se aproximaram suficientemente das mudanças acadêmicas? Ou a razão estaria no professor que não teve formação suficiente para suprir essas mudanças e, portanto, não procura se atualizar com uma perspectiva diferente de ensino?a responsabilidade do ensino de história pode se resumir especificamente aos conteúdos veiculados nos livros didáticos? Se o problema for a formação, há uma dificuldade ainda maior, o agente formador. Ou seja, a própria academia e os docentes responsáveis pela produção do conhecimento durante a formação dos futuros professores. Interessados, portanto, nos livros didáticos enquanto documentos a serem analisados, estabelecemos alguns critérios de seleção: 1) serem livros destinados ao Ensino Médio na formatação de volume único; 2) terem sido analisados e aprovados pelo Ministério da Educação através do Plano Nacional do Livro Didático do Ensino Médio - PNLEM; 3) terem sido escolhidos pelos professores e adotados para o Ensino Médio da rede pública do estado da Paraíba, e, por fim, 4) terem sido utilizados em sala de aula na nossa prática docente. Em nosso estudo três livros didáticos foram escolhidos para a análise segundo o estabelecido pelos critérios acima mencionados. No entanto, foi realizada, na amostragem de material, uma pesquisa inicial 4 com 10 livros didáticos que foram aprovados no PNLEM, e um livro didático dos anos 1970 (História Geral de autoria de Armando Souto Maior) que serviu como base para mostrar a forma tradicional que o Iluminismo era apresentado nesse período e nos serviu como parâmetro se nos últimos anos os livros modificaram suas perspectivas.. Quanto à metodologia e às fontes, para a realização desta dissertação, a pesquisa se caracteriza, básica e essencialmente, por sua natureza bibliográfica. Um significativo arsenal de fontes bibliográficas foi utilizado: livros de autores que discutem as idéias 4 Foram os títulos da amostragem inicial: 1) A Escrita da História - Volume Único - Renan Garcia Miranda, Flavio de Campos - Editora Escala. 2)História - Volume Único - Divalte Garcia Figueira - Editora Ática. 3) História das cavernas ao terceiro milênio - Volume único - Patrícia do Carmo Ramos Braick, Myriam Becho Mota - Editora Moderna. 4) História Global - Brasil e Geral - Volume Único - Gilberto Vieira Cotrim - Editora Saraiva. 5) Nova História Crítica - Volume Único - Mario Furley Schmidt - Editora Nova Geração. 6) Rumos da História - Geral e do Brasil - Volume Único - Maria Thereza Didier de Moraes, Antonio Paulo de Morais Rezende - Editora Saraiva. 7) História Geral e Brasil - Volume Único - José Geraldo Vinci de Moraes - Editora Saraiva. 8) História - Volume Único - Gislane Campos Azevedo Seriacopi, Reinaldo Seriacopi - Editora Ática. 9) História para o ensino médio História Geral e do Brasil Volume Único Cláudio Vicentino, Gianpaolo Dorigo Editora Scipione. 10) História: uma abordagem integrada - Volume Único - Eduardo Aparecido Baez Ojeda, Nicolina Luiza de Petta, Luciano Emidio Delfini - Editora Moderna. Todas as edições foram dos anos 2005, 2006 e 2007.

17 5 acerca de características sociais, econômicas, científicas e culturais sobre o Iluminismo inglês, Rossi (1989), Soares (2001; 2003); Burke (1995); Thompson (1998; 2001); Hill (1987; 1992). Foram estudadas também as obras dos filósofos iluministas ingleses Francis Bacon (2006), David Hume (2003; 1999) e John Locke (1986; 2005; 2007) além de comentadores e artigos escritos em língua portuguesa, espanhola e inglesa sobre o tema. Há um grande acervo de periódicos sobre o Iluminismo inglês, em língua inglesa, em bibliotecas virtuais. Da mesma forma, foram utilizados filósofos franceses como Condorcet (2008) Diderot (2006); Rousseau (1979); e, comentadores como Cassirer (1994); Falcon (1982); Grespan (2003); Vovelle (1997); Weffort (2006). Nascimento e Nascimento (1998). Utilizamos, como documentos a serem analisados, três livros didáticos que atendem aos critérios acima mencionados, buscando neles a expressão do Iluminismo. Observamos de que forma a historiografia brasileira sobre o tema é por eles apropriada, uma vez que o livro didático tem sido se não o único, pelo menos o principal instrumento utilizado em sala da aula e, portanto, um dos principais veiculadores do saber histórico sistematizado pelos historiadores. Sendo assim, em nossa análise, procuramos dar conta de alguns elementos que envolvem os livros didáticos, especialmente aspectos relacionados à sua produção, sua materialidade e abordagem teórica. Optamos por não desenvolver, neste trabalho de dissertação, outro componente importante que diz respeito aos usos que são feitos deste material didático, pois entendemos que este pode ser estudado em continuidade aos estudos de pós-graduação. Para nossa análise, como já explicitado, procuramos verificar esses elementos a partir de um conteúdo específico o Iluminismo. Desta forma a dissertação teve sua estrutura delimitada de acordo com o que passamos a apresentar. Estrutura do texto Este trabalho será dividido em quatro partes. A primeira parte é composta por essa introdução, na qual, em linhas gerais, delineamos nossa proposta de estudo e pesquisa e, apresentamos a estrutura do texto. Na segunda parte procuramos fazer um breve histórico sobre o livro no Brasil e proceder a uma reflexão sobre o livro didático enquanto um artefato inserido na cultura histórica de uma época marcada pelas idéias iluministas e enciclopédicas. A partir de então, desenvolve-se uma cultura que passa a ter predominância laica e, ao mesmo tempo, a incentivar a leitura. Sua introdução no

18 6 Brasil foi um instrumento importante para a formação do Estado-nação no século XIX. Desenvolvemos a perspectiva de estabelecer uma relação entre cultura histórica e livro didático procurando questionar as posturas que vêem o último apenas como um reprodutor do conhecimento histórico acadêmico. Ao contrário, nele reconhecemos uma função didática que o caracteriza enquanto uma fonte de construção do conhecimento histórico escolar. Na terceira parte discutimos como a modernidade européia, desde o humanismo, contribuiu para a valorização do livro, e como alguns modelos pedagógicos foram fundamentais para a elaboração do livro didático que conhecemos hoje. Isso pode ser visto nos modelos educacionais de Comenius, John Locke, Condorcet e no próprio contexto histórico das Luzes. Procuramos apresentar, como pano de fundo para essa discussão, a historiografia, tanto a tradicional, que parte da concepção do Iluminismo como um fenômeno francês, alicerçada em autores como Cassirer (1994), Grespan (2003), Falcon (1982), como aquela que tem posições discordantes. Entre essas últimas vozes situamos as posições presentes nas obras de Burke (1995), Thompson (1998; 2001) e Israel (2009) que apontam características peculiares ao Iluminismo inglês e continental, além da própria antecedência da ilustração na Inglaterra em relação aos outros países. Enquanto, na Inglaterra, o Iluminismo surgiu e se difundiu dentro da ordem estabelecida, sem quebrar as hierarquias e tradições da sociedade inglesa, na França, por sua vez, foi necessária uma Revolução longa e de muitos desdobramentos para que tais idéias entrassem em prática. Outro aspecto de diferenças relevantes é que o Iluminismo Inglês se apresenta não meramente como uma teoria política de reforma do Estado, como foi na França, mas com uma grande preocupação quanto ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia representada por várias gerações de intelectuais, artesãos e mecânicos que trabalham de forma mais harmônica em academias não oficiais como a Royal Society 5. O quarto momento apresenta e analisa de que forma essa discussão da historiografia contemporânea, travada desde os anos de 1970, vem sendo implementada 5 Segundo Rossi (2001), a Royal Society é uma academia científica construída e inaugurada oficialmente em julho de 1662 pelo rei Carlos II. Apesar do nome do nome Royal (real), possuía total independência e praticamente não recebia investimento da coroa inglesa. Nesse espaço de saber e tolerância, homens de várias formações: matemáticos, astrônomos, químicos, filósofos, físicos e de diferentes religiões participavam. Dela fizeram parte Robert Boyle, John Evelyn, Robert Hooke, William Petty, John Wallis, Thomas Willis e Sir Isaac Newton.

19 7 e repercutida na historiografia didática, especialmente nos anos Sendo assim, realizamos uma comparação entre alguns livros didáticos, procurando analisar a sua abordagem sobre o Iluminismo. Algumas perguntas-chave permeiam nossa investigação: como os autores desses livros formulam o que os alunos da Educação Básica devem compreender acerca do Iluminismo? Como algumas tradições historiográficas sobre o Iluminismo são apropriadas e apresentadas nos livros didáticos? De que forma os livros didáticos expressam (se é que o fazem) a mudança de perspectivas que se constituiu, a partir dos anos , sobre a centralidade da razão e do progresso conforme a formulação dos pensadores iluministas do século XVII e XVIII?

20 8 2. LIVRO DIDÁTICO E CULTURA HISTÓRICA Neste capítulo, procuramos trabalhar as relações teórico-práticas entre livro didático e cultura histórica. O Iluminismo formulou, com a sua pedagogia social baseada nos direitos humanos, uma proposta para livrar o homem da ignorância medieval, levando-o ao esclarecimento. O que é esclarecimento? 6 Segundo Kant, em sua famosa resposta ao músico Mendelssohn, seria: [...] a saída do homem de sua menoridade, da qual o culpado é ele próprio. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu próprio entendimento, mas na ausência de decisão e coragem de servi-se a si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem a ousadia de fazer uso de teu próprio esclarecimento tal é o lema do Esclarecimento (2008, p. 115). No entanto, esse esclarecimento teve suas limitações ao se traduzir em ações práticas, pois, até o século XIX, foi reservado exclusivamente a uma parcela da sociedade, representada pela aristocracia conservadora e pela burguesia do capitalismo industrial. O livro, de uma forma geral, e o livro didático, de forma mais específica, foram responsáveis pela inserção dessa parcela da sociedade no mundo de um saber que procurava uma reposta racional, lógica, para as questões da existência humana e, por outro lado, exaltava os princípios e a origem do Estado, da nação, da cultura e dos costumes personificados em ícones heróicos. Nossa proposta é procurar observar o livro didático, a partir de um olhar histórico, para entender como ele se tornou não só um item de produção técnica e científica, mas um produto cultural também responsável pela difusão de uma determinada cultura histórica no Ocidente. Procuramos destacar que esse artefato cultural possui várias facetas que expressam sua posição como resultado da produção e da reprodução de conhecimento. O livro didático mudou ao longo dos séculos. Cremos que, quanto a essa afirmação não há qualquer discordância. No entanto, outras questões permanecem. Por exemplo, o conhecimento impresso nele, em termos teóricos, pode ser chamado de 6 O termo esclarecimento, etimologicamente, vem da palavra alemã Auflaklärung e se tornou uma importante discussão da filosofia de Imamuel Kant. A definição e compreensão de Iluminismo ou Esclarecimento podem ser encontradas em seu livro Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos, publicado em 1785.

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