EMPREGABILIDADE DA MULHER NO MERCADO ATUAL DE TRABALHO¹

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1 EMPREGABILIDADE DA MULHER NO MERCADO ATUAL DE TRABALHO¹ José Augusto Rodrigues Pinto* SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Empregabilidade: ligeiro perfil de um neologismo tecnológico. 3. Requisitos da empregabilidade tecnológica. 4. Perfil do empregado tecnológico. 5. Evolução do perfil social da mulher. 6. Causas do salto do trabalho feminino no século XXI. 7. Discriminação: conceito e fontes. 8. Conclusões. 1 INTRODUÇÃO O universo social se caracteriza por uma incessante mutabilidade, muito mais intensa do que a do universo simplesmente físico. Isso é explicado pelo poder da inteligência para reagir ao meio e aos interesses da convivência, levando o homem a criar novas e diferentes formas de desenvolvê-la. O trabalho sempre foi um fator estimulante de mutações sociais e tal atributo ganhou invulgar vigor com as rápidas mudanças impostas às respectivas relações, graças ao enorme potencial de multiplicação de riqueza e consumo de bens proporcionados pelos novos processos de produção da Revolução Industrial, atualmente acrescidos dos quase milagres da cibernética e da automação trazidas pela Revolução Tecnológica, que projetou a humanidade na era consagrada como a do conhecimento e a sociedade no estágio evolutivo identificado como pósindustrial. Em paralelo, interligando-se ao avanço da Revolução Industrial iniciada no século XVIII, também mudaram as concepções jurídicas sobre os direitos do homem, como bem evidenciam as Declarações Universais que se seguiram, em 1793, à Revolução Francesa e, em 1948, à II Guerra Mundial. Essas Declarações são autênticas balizas do avanço, nesta ordem, dos direitos políticos, sociais e fundamentais, em cujo interior o desenho do ser individual, como foi juridicamente moldado no século XIX, deu *Desembargador Federal do Trabalho da 5ª Região e Professor Adjunto IV da Faculdade de Direito da UFBA. Sócio Honorário do Instituto Goiano de Direito do Trabalho 30

2 lugar ao do ser social, que emerge com o novo milênio, valorizando minorias sociais, antes desprezadas pelas castas dominantes, e profligando todas as formas de discriminação e exclusão, antes aceitas como naturais da estrutura social. A mulher é um alvo particular dessas ondas de valorização coletiva destinada a eliminar desigualdades e, conseqüentemente, a entregar à dignidade a plena regência das relações humanas. Por isso, vimo-la crescer, sem interregnos, tanto como um valor econômico do trabalho quanto como um valor individual na família e um valor social no concerto das nações. A importância da mulher cresceu com mais vigor, nos últimos cem anos, justamente nos domínios do trabalho, para o qual voltamos, daqui por diante, nossa atenção, em vista de se prender a uma das questões mais aflitivas de nosso iniciante milênio, a empregabilidade. 2 EMPREGABILIDADE: LIGEIRO PERFIL DE UM NEO- LOGISMO TECNOLÓGICO Empregabilidade é uma palavra nova em nosso idioma, tanto que ainda não se incorporou aos dicionários brasileiros nem também, provavelmente, à maioria dos de outros idiomas. Urge, pois, lhe visualizar o perfil, e o melhor resultado que obteremos, nesse mistér, virá da perquirição de sua origem. Ela pode ser encontrada em três planos interligados, abaixo dispostos: a) espacial = países europeus mais industrializados; b) temporal = anos 80 do século XX; c) idiomático = employability. Será de grande ajuda, para compreender a origem do nome, a motivação da idéia, que foi, sem a menor dúvida, a precarização do emprego (um quase-neologismo) produzida pelos novos tipos de alianças da máquina com o capital e da máquina com o trabalho na era da automação tecnológica. Firmadas essas primeiras noções conceituais, podemos tentar definir sistematicamente a empregabilidade, usando três planos lógicos: 1) analítico: A empregabilidade é a aptidão adquirida pelo trabalhador, valendo-se de um aprendizado contínuo e diversificado, para desenvolver novas habilidades que o tornem profissionalmente necessário a múltiplas empresas de distintas atividades econômicas; 31

3 2) sintético: Empregabilidade é a capacidade de geração permanente de trabalho e renda; 3) doutrinário: Empregabilidade é a condição de ser empregável, isto é, de dar e conseguir emprego para os seus conhecimentos, habilidades e atitudes intencionalmente desenvolvidos por meio de educação e treinamento sintonizados com as necessidades do mercado de trabalho. (Minardelli, J.A.) Empregabilidade, o caminho das pedras, São Paulo, Gente, 1995). 3 REQUISITOS DA EMPREGABILIDADE TECNOLÓGICA Por sua origem, motivação e caracteres umbilicalmente presos à tecnologia contemporânea, emprestamos a esta aptidão para obter emprego a denominação de empregabilidade tecnológica. Observem-se, então, os requisitos para incorporá-la ao patrimônio profissional do trabalhador: Qualificação competitiva, assim entendido o domínio de uma variedade de aptidões que o tornem competitivo diante de seus concorrentes aos postos de trabalho tecnológico; Imaginação criativa, que o habilite a variar os modos de execução do trabalho e a se acomodar aos obstáculos que surgem naturalmente para perturbar a objetividade e perfeição dos resultados; Adaptabilidade a mudanças, que poderíamos colocar, linearmente, como a negação da rotina, inimiga figadal da moderna concepção de trabalho; Sensibilidade para agir, assim entendido o senso de oportunidade para solucionar qualquer problema que entrava o desenvolvimento satisfatório da atividade laboral; Equilíbrio na auto avaliação de desempenho, ou seja, espírito crítico ponderado do valor do próprio trabalho, de modo a não se imaginar o nec plus ultra entre os seus executores nem se deixar dominar por um complexo de inferioridade imaginária; Esforço permanente de atualização do conhecimento, indispensável para quem pretender sobrevida no que hoje se chama exatamente de setor do conhecimento da economia, fundado nas vertiginosas e diárias alterações tecnológicas que, além de exigirem permanente reciclagem do trabalhador, soem exigir incansável revisão analítica dos métodos de execução do trabalho; Sociabilidade e sintonia com o universo circundante, sabido que a filosofia toyotista de trabalho, contrariamente à da especialização indivi- 32

4 dual em tarefas da produção em série concebida pela filosofia anterior do fordismo, é de trabalho em equipe, cujo pressuposto tem que ser a facilidade de comunicação entre os trabalhadores e o cosmopolitismo do homem. 4 PERFIL DO EMPREGADO TECNOLÓGICO Assim como podemos falar numa empregabilidade tecnológica podemos, logicamente, identificar o que seja um empregado tecnológico, vale dizer, aquele que absorve em sua formação profissional os requisitos fundamentais de tal tipo de aptidão para a conquista do emprego. Seu retrato falado é possível com os seguintes traços básicos: segurança profissional baseada na contínua reciclagem do conhecimento; eficiência do trabalho, sustentada por uma visão aberta da atividade econômica e de seu contraponto profissional; competitividade, mantida com a autoconfiança no exercício do trabalho; familiaridade com o instrumental tecnológico moderno na maioria possível de suas versões. 5 EVOLUÇÃO DO PERFIL SOCIAL DA MULHER Tudo que vimos até aqui pode servir de premissas da análise central do estudo proposto, que é a empregabilidade da mulher, especificamente considerada no mercado de trabalho do nosso tempo. A essas premissas somamos uma última, logicamente indispensável, constituída pela evolução do perfil social feminino, linha de partida necessária para traçar o perfil específico da empregada tecnológica. Mantendo o cunho esquemático que escolhemos para o conjunto da exposição e atendo-nos, por outro lado, aos quatro séculos de influência da Revolução Industrial, agora Tecnológica, sobre as relações de trabalho, identificamos facilmente, em cada um deles, quatro pontos cardeais que, juntos, mostram uma trajetória de absoluta continuidade histórica da mulher na sociedade pretensiosamente auto proclamada de civilizada, a saber: No século XVIII: 1. Subalternidade ao homem; 2. Absorção pelo trabalho doméstico ou de intuito familiar; 3. Ausência de escolaridade; 4. Avaliação social como uma meia-força de trabalho industrial. 33

5 No século XIX: 1. Primeiras resistências à subalternidade (movimento feminista e sufragista); 2. Fixação na maternidade e na atividade familiar participativa; 3. Escolaridade direcionada às artes, humanismo e prendas do lar; 4. Inserção tímida no mercado de trabalho industrial de segunda linha. No século XX: 1. Início da emancipação política, jurídica e profissional em face do homem; 2. Compartilhamento do trabalho profissional com os encargos do lar; 3. Escolaridade direcionada para a formação de profissional de nível superior; 4. Inserção ascendente no mercado de trabalho de primeira linha. No século XXI: 1. Completa emancipação, sobretudo econômica, social e jurídica, em face do homem; 2. Predomínio do trabalho profissional sobre os encargos do lar; 3. Formação profissional superior competitiva com a do homem; 4. Inserção definitiva no mercado de trabalho de primeira linha. Os pontos cardeais do estágio mais recente, que corresponde ao século em curso e certamente terão complementos ainda não inteiramente discernidos, encontram fácil constatação nos dados estatísticos reproduzidos abaixo: 34 Participação global no mercado de trabalho, por sexo:² 1960 > Feminina:...30,9% 2000 > Masculina:... 41% Depreciação salarial em relação ao homem: Cargos de qualificação ordinária:... 30% Cargos de alta qualificação:... 22,8% Responsabilidade pelo sustento familiar...25% Taxa de fecundidade: Pós-guerra de 1945 :...6,3% Início do século XXI :...2,3%

6 6 CAUSAS DO SALTO DO TRABALHO FEMININO NO SÉCULO XXI O século XXI oferece um panorama de impressionante avanço da mulher no mercado de trabalho e, ainda mais, na preparação para concorrer dentro dele. Esse fenômeno, entretanto, vem do século anterior, cujos dois conflitos mundiais impuseram uma mudança quase cirúrgica à face e ao organismo da sociedade. De fato, o decidido ingresso da mulher no mercado de trabalho industrial, tanto quanto sua assunção unilateral da direção da família, se deveram, maciçamente, à absorção da energia masculina para os combates fora das fronteiras nacionais (estatísticas apontam a mobilização, somente pelos Estados Unidos da América, de onze milhões de soldados para as frentes exteriores no conflito de 1939/45). Por outro lado, o crescimento do peso econômico do sustento familiar estimulou no homem aceitar a participação da mulher na composição do respectivo orçamento. É evidente a contribuição decisiva dessas circunstâncias históricas para aprofundar a consciência da igual capacidade dos gêneros para o trabalho. Do ponto de vista particular da mulher, essas mesmas circustâncias foram fundamentais para fortalecer a percepção de que a conquista de espaços dentro do mercado de mão-de-obra, a depender somente de sua capacidade de conservação e ampliação da liberdade conquistada ao sexo oposto teria que acontecer, e aconteceu como, um passo irreprimível. Veja-se, então o conjunto das causas, em resumo: Consolidação da igualdade entre os gêneros. Pressão das dificuldades econômicas sobre a família. Substituição da mão-de-obra masculina nas duas grandes guerras mundiais (1914/18 e 1939/45). Mudança radical de costumes no pós-guerra de Vigorosa expansão do setor terciário (serviços), propício à atividade feminina. Habilitação profissional para ingresso no setor quaternário (do conhecimento) da atividade econômica. Quebra dos tabus sobre a inferioridade orgânica e intelectual para o trabalho. A esses fatores outros aderem trazendo à luz a afinidade da mulher com o emprego tecnológico. Alguns são decorrentes de sua própria conformação orgânica, outros, de sua conformação psíquica e da sedimentação de caracteres que lhe foram impostos pela sociedade, milenarmente, aproveitados depois da Revolução Industrial. Observando o mesmo critério esquemático assim os sintetizamos: 35

7 36 Dedicação prioritária ao preparo profissional. Habilidade nas ações de trabalho. Capacidade de orientação de outros executores. Receptividade ao trabalho em equipe. Sensibilidade perceptiva e absorvente de mudanças. Capacidade de concentração nas tarefas a realizar. Menor agressividade na competição. Senso de responsabilidade mais refinado. Melhor resposta ao quesito custo/benefício da mão-de-obra. Como é possível inferir destas e das anotações dos itens anteriores, há toda uma série de razões para se entender a posição vantajosa que a mulher é capaz de assumir na disputa pelo mercado de trabalho, sobretudo nas áreas de liderança e de funções tecnicamente mais sofisticadas e exigentes de maior concentração e dedicação, como, e.g., as de pesquisa e ensino, entre outras. Cremos ser possível afirmar que, inclusive no Brasil, a presença da mulher já se tornou majoritária na área da preparação profissional, como qualquer levantamento estatístico nas universidades patenteará. Entretanto, apesar de tudo isso, também estatisticamente ela ainda experimenta desvantagem na ocupação de cargos executivos de ponta e, particularmente, na valorização do trabalho para efeito remuneratório. Trata-se de dados evidentemente desconcertantes, mas seguramente explicáveis pela resistência do preconceito e conseqüente discriminação, que mostram a força de uma formação machista milenar da sociedade humana e, do ponto de vista brasileiro, extremamente peculiar ao temperamento latino. Dentro do método expositivo adotado, principiemos por estabelecer, sinteticamente, conceitos da figura da discriminação, certamente úteis para localização de suas fontes relacionadas com a mulher no mercado de trabalho. 7 DISCRIMINAÇÃO: CONCEITO E FONTES O conceito comum de fonte pode ser aberto em duas vertentes de alcance precisamente oposto, qualificando-a para lhe dar o respectivo caráter, que pode ser: 1. Virtuoso: Ato de discernir ou de classificar, individualizando. A virtude, neste conceito, resulta do propósito da discriminação: individualizar para analisar e valorizar os dotes de cada um.

8 2. Vicioso: Tratamento preferencial dispensado a uns em detrimento de outros. O vício, neste conceito, resulta de discriminar para perseguir e prejudicar o discriminado. Ao lado do conceito comum ou simplesmente léxico do substantivo, ele pode ser elaborado com vistas ao interesse do Direito sob os mais variados aspectos das relações humanas. Aqui o enunciamos de acordo com duas outras vertentes, no aspecto das relações de gênero ou, em dicção mais vulgar, entre os sexos que pode ser: 1. Legítima: É a que estabelece diferença de tratamento fundada em situação de fato que a justifique, v.g., vedação à mulher de acesso a trabalho moralmente ofensivo à sua dignidade. 2. Ilegítima: É a que estabelece diferença de tratamento não-justificável, v.g., a vedação à mulher de acesso ao trabalho esportivo. É facilmente perceptível, pelos conceitos formados, a pluralidade de fontes que alimentam a discriminação da mulher, predominantemente fundadas em resíduos de preconceito social, como, por exemplo, a condenação da prática esportiva de lutas marciais. Abaixo uma relação apenas exemplificativa e muito distante de esgotar a possibilidade de muitas outras variações: Resíduo estrutural da formação machista da sociedade. Impulso humano natural de dominação. Controle majoritário dos fatores econômicos pelo homem. Deformação cultural atávica. Influência religiosa. Absorção maternal e familiar da mulher. 8 CONCLUSÕES Este foi um modesto esboço destinado a estimular a curiosidade dos que desejam descerrar o véu de uma das mais importantes metamorfoses estruturais da sociedade, a do papel da mulher nas relações humanas, de gênero e de trabalho, arduamente ampliado ao preço de seculares sofrimentos e incompreensões, de alguns dos quais soube ela mesma tirar proveito para alçar-se à condição imensamente mais digna em que se encontra atualmente. 37

9 As conclusões que sugere, ainda com o propósito de compactação provocativa do aprofundamento, pretendem dar as pistas a serem seguidas pelos interessados em desenvolvê-lo: 1. Por milênios de civilização humana, a mulher ocupou, em face do homem, uma posição de subalternidade muito próxima de um estado de servidão doméstica. 2. Essa posição deu lugar a outra, em que a mulher passou a ser uma espécie de adorno familiar, mas afastada do processo político e econômico da sociedade, sendo preparada exclusivamente para os encargos da maternidade e do lar, sob severa liderança marital. 3. Nos seus primórdios, a sociedade industrial usou a mulher como meia-força de trabalho, no sentido depreciativo de desvalorização da energia e entrega dos postos mais sacrificados, mal-remunerados e hermeticamente presos à falta de perspectivas de ascensão profissional e social. 4. A expansão da sociedade industrial, os movimentos de emancipação política e profissional, somados à diferença de rumos da escolaridade, iniciaram o processo de inserção feminina no mercado de trabalho. 5. As grandes transformações econômicas da sociedade industrial retiraram progressivamente ao homem o papel de provedor único da subsistência familiar, abrindo um correspondente espaço para a participação feminina no mercado de mão-de-obra, ainda que inicialmente complementar. 6. As duas guerras mundiais do século XX, mormente a terminada em 1945, proporcionaram um enorme desvio da mão-de-obra masculina para as frentes de batalha, agravada pela necessidade de um gigantesco sobre esforço de produção industrial para fazer frente às perdas de material e equipamento, forçando substituí-lo pela mulher e abrindo a oportunidade prática de verificar a inexistência de diferença de valor do trabalho entre os gêneros, salvo aquele derivado da falta de qualificação profissional decorrente da segregação anterior da mulher. 7. O aprofundamento das dificuldades econômicas dos povos para manter um status quo superado de economia familiar e a adaptabilidade da mulher às atividades dos setores terciário (de serviços) e quaternário (do conhecimento) consolidaram o processo de empregabilidade feminina na atualidade. 8. A discriminação é, hoje, possivelmente, a última barreira a cair, permitindo a equalização de avaliação e oportunidades entre os gêneros, quiçá possibilitando um avanço de qualidade que proporcione à mulher superar o homem em competitividade em certos setores com os quais mantêm muita afinidade, por força de dotes naturais e maior aplicação 38

10 no preparo profissional. Notas ¹Palestra proferida no 2º Congresso Internacional Sobre a Mulher, Gênero e Relações de Trabalho, realizado em Goiânia, GO, de 20 a 22 de agosto de ²Dados da pesquisa Evolução da Mulher no Mercado de Trabalho, de Eliana Renata Probst, para o Instituto Catarinense de Pós-Graduação (ICPG), sob orientação do Mestre Paulo Ramos, professor de Metodologia Científica e Pesquisa. 39

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