A INSERÇÃO DA CULTURA AFRO-BRASILIRA NOS CURRÍCULOS ESCOLARES

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1 A INSERÇÃO DA CULTURA AFRO-BRASILIRA NOS CURRÍCULOS ESCOLARES Delydia Cristina Cosme e Silva 1 Resumo Este trabalho apresenta um panorama da inclusão da história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares. Embasados na Lei nº , é garantido o ensino nas escolas particulares e públicas, ensino fundamental e médio, deve-se incluir as temáticas da cultura afro-brasileira nos currículos nacionais de educação. PALAVRAS-CHAVES: Inclusão; Cultura; Conhecimento. INTRODUÇÃO Este artigo investiga sobre os traços da disseminação da cultura afro-brasileira nas escolas da rede pública ou privada. A minha própria bagagem de vida me impulsiona a discutir acerca desta questão, pois desde o início de minha trajetória escolar me impulsiona a discutir acerca desta questão. Tomar consciência de que o Brasil é um país multirracial e pluriétnico e reconhecer e aceitar que, nesta diversidade, negros e indígenas têm papéis da maior relevância para a sociedade identifiquem as influências, as contribuições, a participação e a importância da história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, de se relacionarem com as outras pessoas. 1 Graduada em Normal Superior pela Fundação Educacional São José; pós-graduada em Ensino Religioso da FIJ e complementando graduação em Pedagogia no Instituto Superior de Educação da Fundação Educacional São José.

2 1 A Lei nº , sancionada em janeiro de 2003, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gera resultados: milhares de jovens negros e brancos estão aprendendo sobre a cultura e a história afro-brasileira e a conviver e respeitar as diferenças. A lei é um avanço significativo por duas questões: ela permite que um assunto de tamanha relevância seja tratado da forma que merece. É o reconhecimento do estado brasileiro da necessidade de implementar políticas afirmativas para promover a igualdade racial. A lei não é boa só para o negro, ela é uma ferramenta para promoção da diversidade como um valor nacional. Num país plural como o nosso isso só nós obriga a não permitir que a educação seja dada somente pela matriz européia. Essa lei está pelo menos cem anos atrasada. 1. A INSERÇÃO DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NOS CURRÍCULOS ESCOLARES Até o final da década 70, os estudos sobre a situação dos negros no Brasil, ficavam concentrados basicamente em três áreas: medicina, psicologia e antropologia que tinha como foco principal o folclore e as religiões afro-brasileiras. Porém, no início dos anos 80, surge na universidade uma nova vertente teórica, elaborada quase que exclusivamente por pesquisadores militantes do Movimento Social Negro, que estrategicamente vem forjando espaços políticos para a inserção de suas propostas nas diferentes campos de conhecimento. A lei /03 foi criada para que as escolas públicas e particulares do Ensino Fundamental e Médio insiram a História e Cultura Afro-Brasileira no currículo escolar, alterando as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em seu parágrafo primeiro a nova Lei estabelece que o conteúdo programático a ser desenvolvido pela escola deverá conter o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. Salvador foi a primeira capital do Brasil a ter oficialmente o ensino da cultura negra, ainda ostenta uma realidade onde falta respeito e valorização à etnia que corresponde à maioria de sua 1

3 2 população pobre. Os temas ligados à cultura africana ainda não são tratados adequadamente em sala de aula e há muito o que fazer. A aprovação da Lei Federal 10639/03 modificou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) ao instituir a obrigatoriedade dos sistemas de ensinos municipal, estadual e federal que precisam incluir aulas sobre questões étnico-culturais em seus currículos. Antes da aprovação da lei, alguns municípios, como Salvador (1989), Belo Horizonte (1990), Porto Alegre (1991), Diadema e Belém (1994), São Paulo e Distrito Federal (1996), Criciúma (1997), Teresina (1998), Campo Grande (1999) e Campinas (2000), já haviam incluído em seu currículo o estudo das relações étnicoculturais ou raciais. No entanto, a promulgação da lei, embora represente um avanço no sentido da promoção da igualdade racial, infelizmente, não garante sua realização. Trabalhar as questões étnico-raciais e culturais com crianças pequenas pode trazer resultados positivos, uma vez em que passam a considerar as diferenças (não apenas as ligadas ao tom da pele) como algo presente e que não deve levar à exclusão. Conceitos como raça, racismo e preconceito tornam-se mais importantes quando refletimos a respeito de qual o impacto da discriminação sobre população negra e não negra e sobre o papel que a escola tem desempenhado para discutir situações de racismo e de discriminação envolvendo a população pobre e negra desse país. A questão é, também, social. O currículo escolar deve levar em conta a identidade dos negros, respeitar seu modo de ser e de pensar o mundo, considerar a imensa influência que a cultura africana sempre exerceu sobre o modo de ser do brasileiro. Professores e alunos passam a construir, a partir dos estudos sobre a África e o Brasil, e a constituição de seus povos e sua cultura, um novo currículo, vivo, embasado numa nova concepção de educação, pautada no respeito e promoção da igualdade étnica, cultural e racial. Adultos, jovens e crianças negras na condição de oprimidos, sofrem de uma dualidade que se instala na interioridade do seu ser. Querem ser, mas temem ser, tais pessoas introjetaram a sombra do opressor e seguem suas pautas. Sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos Entretanto, há-de-se considerar o grande número de negros que escapam a tais condicionamentos e que fazem oposição sistemática à ideologia do embranquecimento, buscando identificar-se com suas raízes culturais. 2

4 3 Paulo Freire (1987) argumenta que: a vocação natural de todo ser humano é ser mais e não ser menos. O sentimento de ser menos ocorre e, às vezes, se cristaliza, quando o oprimido se encontra em permanente situação-limite, na qual o dominador aparece (sempre) como o vencedor que detém todo poder sobre a produção econômica e cultural. A ausência de uma educação para a diversidade étnica-racial no espaço escolar é um problema que vem se perpetuando ao longo da História através das diversas práticas sociais e, principalmente, no âmbito educacional. No almanaque pedagógico afro-brasileiro (2007), diz-se assim:... quando a criança negra chega á escola, ela traz consigo uma série de indagações em relação ao seu pertencimento racial, à qual a escola irá responder de forma favorável ou não, através de suas práticas pedagógicas, atitudes, posicionamento e até mesmo de seus silêncios. O professor nem sempre se posiciona de uma forma positiva diante da diversidade racial existente no ambiente escolar. Vários pesquisadores como Gomes (1995), Paraíso (1999), Gonçalves (1985), entre outros, revelam através de suas pesquisas que a questão racial constitui-se em um campo de silêncio no currículo em ação dos cursos de formação de professores. O negro, muitas das vezes, só e lembrado no dia 13 me maio, em que apenas se revive a memória da princesa Isabel, como aquela que deu a liberdade aos negros. Não se fala em luta, em resistência ou em conquista dos povos negros. O que predomina é a visão do escravo à espera de que algo de bom lhe aconteça: a libertação. Segundo Gomes (2004), a formação do professor para a diversidade étnico-racial deve ser um processo de desestruturação dos mitos radicais. Essa formação precisa de uma maneira radical nos valores e representações que o próprio sujeito tem a respeito do negro. Os valores estão imbuídos nas práticas que precisam ser revistas para que se possam construir novos fazeres dentro da escola, fazeres que alcancem uma dimensão mais democrática no que se refere às diferenças raciais. Atualmente é muito comum ser visto em Bibliotecas Escolares a literatura afro-brasileira, ganhando um espaço de visibilidade social. Este tipo de literatura surge em função das populações 3

5 4 afro-descendentes presentes na escola, que, ao longo dos anos, não foi tratada como uma população que detém uma cultura e uma história dignas de valorização e respeito. As práticas pedagógicas que levam a serio o conteúdo dessa lei têm um compromisso ético com o fortalecimento e a construção de identidades. Implicam a construção do olhar de um grupo étnico-racial ou de sujeitos que pertencem a um mesmo grupo étnico-racial, sobre si mesmos, a partir da relação com o outro (GOMES, 2005). Uma alternativa que tem sido empregada nas Instituições Escolares são a leitura e a contação de histórias para as crianças que contribuem para a construção de uma auto-estima elevada, para uma auto-conceituação afirmativa de meninos e meninas negras, para a elaboração de identidade livres de estigmatizações e estereótipos manipulados ideologicamente como negação de certo grupo. Promover a implementação da Lei /03 depende de condições físicas, materiais, intelectuais e afetivas favoráveis para o ensino/ aprendizagem. Segundo o Parecer CNE/ CP 003/ 2004: todos os alunos negros e não negros precisam sentir-se valorizados e apoiados no ambiente escolar, bem como na sociedade. O professor deve buscar materiais didáticos para a sala de aula que contemplem os segmentos étnico-raciais e sócio-culturais representados pelos alunos, trabalhando a diversidade, a educação para as relações raciais, o fortalecimento e construção de novas identidades baseadas no reconhecimento da existência do outro. O uso da literatura é um caminho para a elaboração de novas práticas escolares e uma forma lúdica de ensinar valores e novas culturas. Combater os preceitos e os estereótipos pejorativos do negro é função de uma educação que se pretende democrática. Para Gomes (2004), a escola como espaço de sociabilidade constitui-se em um local privilegiado para a superação dos conflitos e preconceitos raciais. Sendo assim, o trabalho com a literatura infantil afro-brasileira pode ser um elemento potencializador das discussões e superações dos mitos raciais no âmbito escolar. Para tanto, deve constituir-se em ambiente educativo, acessível a toda a comunidade escolar, em que se respeita o outro, em que se dá visibilidade a todos, combatem-se as discriminações, busca-se eliminar os preconceitos e são desfeitos os estereótipos, em que se estimula a auto-imagem 4

6 5 e a auto-estima positivas, em que se promove a igualdade étnico-racial pela desconstrução das diferentes formas de exclusão. CONCLUSÃO Embasada no artigo 210 da Constituição Federal de 1988, onde: Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. De acordo com este artigo da Constituição Federal, há um entroncamento com a Lei /03 no quesito de incentivo a conhecer as culturas que compõem esta pluralidade de formação dos brasileiros, onde não podemos dizer que somos de origem ora européia, ora áfrica, ora asiática, mas sim, uma miscigenação de raças, culturas e saberes. Nesta pluralidade não há espaço para preconceito racial, cultural e qualquer outro tipo de pré-rotulação quanto ao próximo. Por mais bonito que seja este discurso, não é a realidade que vivenciamos em nossa sociedade. Através desta Lei /03 a qual fez com que os currículos escolares tenham sido ampliados para oportunizar o conhecimento da cultura afro-brasileira, pois afinal é parte de nossa história. Já que todos nós temos parte deste sangue correndo em nossas veias. A introdução de fatos que mantêm em destaque a cultura afro-brasileira devem ser colocadas nas aulas de História para que os alunos possam compreender melhor sua própria história e entender que o excesso de melanina que compreende a tonalidade da pele vai muito além dos traços que nos compõem. E deste modo, exterminar os preconceitos formulados por alguns de nós. Transpor continentes, conhecer histórias e tecnologias de outros povos é a proposta desta Lei nº /03 que inclui o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas, na tentativa de corrigir o pouco caso com a cultura africana que se reflete na sala de aula contemporaneamente. A África, o segundo maior continente do planeta aparece em livros didáticos somente quando o tema é escravidão, deixando carente a noção de diversidade de nosso povo e minimizando a importância dos afro-descendentes. Trazer para a contemporaneidade os problemas remotos de domínio dos europeus sobre os africanos é uma questão muito contemporânea nas salas de aulas, lembramos muito bem quando 5

7 6 relatamos a história do Brasil ao relatar sobre o tráfico negreiro, ao relatar a Lei Áurea, enfim, histórias tristes onde o negro está sempre subestimado em comparação ao branco. Assim, analisando a África como um continente e não como um país, daria uma excelente aula de Geografia, trazendo temas ilustrativos, introduzindo uma bela aula nas salas de informática da escola, enfim, uma simples temática proporciona uma aula expositiva de qualidade que gera muito conhecimento aos nossos alunos. Desta forma, podemos trabalhar em torno desta temática África em todos os conteúdos, tais como: atualidade (problemas existentes em todo o mundo fome e aids), história (A África existia antes dos europeus), ciências naturais (cada um de nós temos genomas africanos berço da humanidade), matemática (cultura egípcia através de simetria, geometria e cálculos), Língua estrangeira (reggae), Língua portuguesa (palavras, lendas e heróis característicos da cultura africana), artes (Dança, música e desenhos), educação física (jogos regionais africanos). Promover a integração através de disciplinas o qual chamamos de projetos interdisciplinar é uma solução muito integradora apara que toda a escola fale a mesma linguagem e assim, consigam corromper dentro de uma comunidade escolar o preconceito inter-racial que não é cabível em pleno século XXI, com a Era da modernidade em tantas esferas não é possível que existam este conceito pré-formado entre os cidadãos do Brasil. BIBLIOGRAFIA BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de Da Educação. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 4024/61 de 20 de dezembro de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394/95 de 20 de dezembro de Ministério de Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Diretrizes Curriculares Nacional da Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF,

8 7. Ministério de Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, DEPARTAMENTOS DE FORMAÇÃO PEDAGÓGICA-CULTURAL. Legislando a educação: Normas fundamentais. São Paulo: Gráfica Solução, maio/ FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, PRESENÇA PEDAGÓGICA. In: Literatura infantil afro-brasileira. V. 13. n. 74. março/ abril de REVISTA NOVA ESCOLA. In: África de todos nós. Ano XX. Nº 187. Novembro/ REVISTA NOVA ESCOLA. In: Currículo: com teorias, objetivos e conteúdos, é ele que aponta o rumo para uma Educação de qualidade. Ano XXIII. Nº 209. Janeiro/ fevereiro

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