Imaginação e protagonismo na Educação Infantil: construindo uma escola mais íntima da infância

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1 Imaginação e protagonismo na Educação Infantil: construindo uma escola mais íntima da infância Me. Tony Aparecido Moreira Denise Watanabe Dr. José Milton de Lima Comunicação Oral Pesquisa finalizada RESUMO EXPANDIDO Esta pesquisa foi desenvolvida dentro de duas instituições de Educação Infantil de dois municípios do oeste de São Paulo: Presidente Prudente (I) e Álvares Machado (II), de 2012 a A investigação surgiu como fruto de uma pesquisa-ação sobre a brincadeira, o jogo e as culturas da infância realizada há mais de sete anos na Instituição I e dois anos na Instituição II, com crianças de dois a seis anos. Um fato ocorrido durante esse estudo foi primordial para o desenvolvimento de um estudo mais profundo sobre a temática das fantasias das crianças nessas instituições de Educação Infantil. Uma das crianças procurou sua professora para dizer-lhe: - Eu sou um super herói! (DIÁRIO DE CAMPO, 2010). Esse menino demonstrava esperar uma atenção especial, contudo, sua professora sorriu artificialmente e antes de se distanciar dele disse-lhe: - Ha tá! Sei... agora vai fazer a atividade! (DIÁRIO DE CAMPO, 2010). Para a professora como para outros o fato não tinha a mínima relevância, já que era sabido que a criança estava fantasiando, mas para aquele menino era de suma importância que ela o escutasse e quem sabe o indagasse mais sobre sua fantasia, seria uma demonstração de interesse em dialogar com ele sobre suas histórias. Por diversas experiências, identificamos que muito precisava ser feito para diminuir a distância entre a abordagem pedagógica e os outros mundos das crianças. Durante as brincadeiras, as crianças dialogavam com seus 1

2 pares sobre diversos assuntos, tanto dos seus contextos de vida como de reinos distantes. Percebemos que estas falas não eram bem valorizadas e que além da falta de escuta, as atividades deveriam ser mais motivadoras, desafiadoras, caprichadas na busca de apresentar a diversidade de elementos do mundo. Esta investigação nasceu a partir destas contestações confirmadas pelas próprias professoras que não se sentiam preparadas para desenvolver uma abordagem pedagógica mais próxima das crianças e suas culturas. Este estudo teve como objetivo principal: alcançar uma maior compreensão da linguagem imaginativa das crianças por parte dos sujeitos das duas instituições investigadas e uma produção conjunta de conhecimentos sobre a linguagem imaginativa infantil como subsídio para práticas educativas mais próximas aos interesses e necessidades infantis. Como objetivos específicos: 1) A ampliação das experiências voltadas ao imaginário infantil por meio do desenvolvimento de brincadeiras e jogos de fantasia com as crianças participantes; 2) O levantamento de procedimentos para contemplar a linguagem imaginativa infantil nas abordagens pedagógicas das professoras realizadas com as crianças das duas instituições investigadas. A Sociologia da Infância foi o principal referencial teórico desta investigação. Neste campo do saber, a criança é compreendida como sujeito social ativo e a infância como categoria social do tipo geracional. Esses conceitos são inovadores, tendo em vista o longo período de ocultação da infância nos estudos sociológicos e antropológicos. Na perspectiva desse campo do conhecimento, entendemos a fantasia infantil como um eixo estruturador das culturas da Infância, que de acordo com Sarmento (2004), consiste em uma forma de inteligibilidade e um dos alicerces das manifestações infantis. Por meio da fantasia, a criança constrói sua visão de mundo e atribui significado aos elementos que encontra. Em contraponto a visão da fantasia como fase, esta pesquisa contempla as contribuições do Professor Paul L. Harris (Universidade de Harvard), que faz parte da renovação no campo da Psicologia acerca da imaginação na infância. Nessa perspectiva, as fantasias infantis não representam simples fingimento ou adaptação, mas permitem que a criança participe de diálogos que vão muito além de seus horizontes imediatos e aprendam sobre todos os tipos de entidades reais, visíveis, invisíveis e metafísicas. Ainda, de acordo com Harris (2005), o pensamento imaginativo permite que a criança entenda os fenômenos de forma particular, mas não significa que as crianças sejam ilógicas, já que a fantasia não representa uma fase de irracionalidade a ser superada, a 2

3 imaginação é uma linguagem primordial para o ser humano, desenvolvida ao longo da vida. Para implementar mudanças na realidade, a pesquisa teve a investigaçãoação como base metodológica, a qual Benavente, Costa e Machado (1990) consideram como uma análise sociológica, abordagem reflexiva sobre as relações sociais de intervenção, observação e produção de conhecimentos teóricos e operatórios, que são estabelecidas e modificadas durante o processo. A natureza empírica representa a possibilidade de transformar as realidades do contexto, e na perspectiva desta pesquisa foi situada dentro da preocupação de repercutir na prática pedagógica uma maior valorização da fantasia infantil assim como a concepção de criança como ator social e a infância como categoria social de estatuto próprio. Alicerçados nesse aporte metodológico, foram realizadas intervenções semanais, nas quais desenvolvemos brincadeiras baseadas no imaginário infantil, contar de histórias, atividades de escuta e criação junto das crianças e suas professoras. As intervenções oportunizaram experiências muito significativas para as crianças, assim como para todos os diferentes sujeitos participantes. As protagonistas da infância, sobretudo, foram as que mais bem expressaram o prazer obtido no processo, elas puderam vivenciar belas aventuras e construir histórias ímpares, além de usufruir de um maior espaço para suas fantasias tanto nas instituições escolares como nos lares. Os adultos participantes descobriram o prazer de viajar com as crianças e auxiliar nessas expedições. As profissionais encontraram um novo sentido para suas práticas e os pais e responsáveis, alcançados pelas crianças, se aproximaram mais de seus filhos e netos, qualificando o diálogo e suas concepções A partir das observações realizadas, das leituras e releituras dos diários de campo, análises dos dados em áudio, fotografia e vídeo, entrevistas, reuniões e conversas informais, foram identificados uma gama de resultados da investigação. Os sujeitos envolvidos das duas instituições investigadas concordaram com os seguintes apontamentos: ampliação e transformação na maneira de compreender a linguagem imaginativa infantil, especialmente por parte das professoras, pais e responsáveis; enriquecimento e diversificação da experiência imaginativa das crianças participantes; construção de práticas educativas mais próximas dos interesses e necessidades das crianças; maior interesse das crianças para com suas instituições escolares; maior participação e expressão das crianças durante as aulas comuns; maior criatividade das crianças expressa durante o desenvolvimento de diferentes 3

4 atividades dentro e fora da pesquisa, tantos nas instituições escolares quanto nos lares; aumento do interesse das crianças por atividades de criação; aumento do tempo das crianças destinado ao brincar de fantasiar; maior interesse das crianças por histórias; compartilhamento de atividades voltadas ao desenvolvimento da imaginação entre pesquisadores, professoras, pais e responsáveis; identificação de procedimentos para contemplar a linguagem imaginativa nas abordagens pedagógicas realizadas com as crianças, em especial, as histórias abertas (RODARI, 1982) e a criação de personagens imaginários; aproximação entre as crianças, as professoras, pais e responsáveis; maior participação dos pais e responsáveis nas brincadeiras de seus filhos ou netos; diminuição do tempo em que as crianças assistem televisão; produção e compartilhamento de diferentes saberes sobre a linguagem imaginativa infantil, seu desenvolvimento, o papel da escola e da família na educação para a imaginação (GIRARDELLO, 2005). Como numa fantasia infantil fomos além do que tínhamos e não queremos deixar de sonhar, vimos novos rostos se formando nos espaços, enxergamos mais as crianças do que as caricaturas de infância feitas pelos adultos. Fomos além das salas, saltamos em uma direção ousada, compartilhada pelo todo que nos aceitou. E ao desbravar tantas florestas, conseguimos construir pontes, e com essa proximidade aos mundos infantis percebemos que precisamos aprender a fazer de nossos mundos espaços mais permissíveis ao sonho, mais cheios de possibilidades, mais dobrados a escuta, mais desafiadores da imaginação, mais inspiradores à fantasia, mais plenos de vida, mais produtores de luz. Sustentamos o desejo de que esse estudo inspire novas expedições em prol de descobertas sobre os mundos das crianças, convencidos da necessidade de construirmos uma Educação Infantil mais íntima da infância. PALAVRAS-CHAVE: Crianças; Fantasia; Imaginação; Sociologia da Infância; Educação Infantil. REFERÊNCIAS BENAVENTE, Ana; COSTA, Antônio Firmino da; MACHADO, Fernando Luís. Práticas de Mudança e de Investigação: conhecimento e intervenção na escola primária. Revista Crítica de Ciências sociais, [s.l.], v. 29, p. 1-28, fev

5 GIRARDELLO, Gylka. A Imaginação Infantil e as histórias da TV. Construir Notícias, Recife, p , mar HARRIS, Paul L. El funcionamento de la imaginación. 1. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, p. RODARI, Gianni. Gramática da fantasia. 7. ed. São Paulo: Summus, p SARMENTO, Manuel Jacinto. As Culturas da Infância nas Encruzilhadas da Segunda Modernidade. In: SARMENTO, Manuel Jacinto; CERISARA, Ana Beatriz. Crianças e miúdos: perspectivas sociopedagogicas da infância e educação. Porto: ASA, p. 5

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