A Crise Econômica Mundial e as Economias Regionais

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1 A Crise Econômica Mundial e as Economias Regionais Gráfico 1 Efeitos da crise financeira sobre o emprego Dados dessazonalizados Abril = Abr Jun Mai Jun Jul Ago Emprego EUA Emprego formal privado Brasil Gráfico 2 Efeitos da crise financeira sobre o consumo Dados dessazonalizados Junho = Jul Ago Vendas varejo EUA Mar Mar Vendas varejo ampliado Brasil Fonte: U. S. Census Bureau/Retail total (excl udes food services);ibge/pmc O acirramento da crise financeira nos mercados internacionais provocou desvalorização acentuada de ativos em escala global, redução de liquidez nos mercados de crédito e deterioração das expectativas de consumidores e empresários, exercendo desdobramentos negativos sobre a evolução de variáveis reais importantes tanto em economias maduras quanto em economias emergentes. Nesse cenário, este boxe compara, inicialmente, a evolução na margem de indicadores relacionados às economias dos EUA e do Brasil, procurando identificar, em seguida, as distinções registradas em âmbito regional. O setor real da economia dos EUA vem registrando impactos menos acentuados do que os experimentados pelo setor financeiro daquele país. Nesse sentido, conforme observado no Gráfico 1, o nível de emprego dos EUA recuou 3,7% 1 de abril de, período em que atingiu o maior valor no ano, até março de, enquanto no Brasil a redução do emprego formal, considerados dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados Relação Anual das Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged-Rais 2 /MTE), situou-se em 1,6%, de novembro de, valor máximo no ano, até fevereiro de. A evolução do volume de vendas do comércio, outro indicador abrangente que evidencia as restrições de crédito e a deterioração da confiança dos consumidores, encontra-se no Gráfico 2. O índice relacionado à economia dos EUA, após 1/ Current Employment Statistics (CES)/Household Survey Data / Employment Level. 2/ Considera a série de estoques com dados dos meses de dezembro, obtidos da Rais, encadeada pelos fluxos do Caged. A última Rais divulgada refere-se a Abril Boletim Regional do Banco Central do Brasil 91

2 registrar valor máximo recente em junho de, recuou 11,5% até março de 3, enquanto o relativo à economia brasileira, considerados dados do comércio ampliado da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE, apresentou retração de 3,7% entre o valor máximo, em setembro, e o último disponível, relativo a fevereiro deste ano. Ressalte-se que, ratificando o fato de que o impacto do acirramento da crise internacional sensibilizou as variáveis financeiras da economia dos EUA de forma mais intensa do que as associadas ao setor real, enquanto as vendas do comércio recuaram 11,5% no período mencionado no parágrafo anterior, o índice S&P500, que registra o desempenho das ações de 500 empresas dos EUA, registrou perdas de cerca de 40% entre o início de julho de e o final de março de. Gráfico 3 Efeitos da crise financeira Índices de bolsa de valores (média móvel de 30 dias) S&P Ibovespa Ago Mar S&P500 Ibovespa Fonte: Bloomberg Adicionalmente, o comportamento das bolsas de valores dos EUA e do Brasil vem registrando trajetória distinta. Nesse sentido, conforme evidenciado no Gráfico 3, a tendência 4 de recuperação registrada desde o início de dezembro de pelo Ibovespa, não se repete no caso da S&P500. No Brasil, indicadores econômicos regionais apontam, de maneira geral, os últimos dois meses de, como momento mais crítico da crise. O comportamento recente do comércio ampliado, segmentado por regiões, encontra-se na Gráfico 4, onde são identificadas, adicionalmente, as trajetórias das produções industriais regionais. Os índices do comércio apresentaram, em todas as regiões, pontos de mínimo em novembro ou dezembro, acumulando, em relação a setembro, recuos de 13,1% no Sudeste; 10,9% no Sul; 9,8% no Nordeste; 9,4% no Centro-Oeste; e 8,3% no Norte. A partir de janeiro, os indicadores de todas as regiões passaram a apresentar recuperação, registrando, de setembro de a fevereiro de, retrações respectivas de 2,4%, 4,6%, 3,1% e 1,2% nas quatro primeiras regiões mencionadas. Ressalte-se que no Norte, o comércio ampliado registrou expansão de 0,6%, nessa última base comparação. 3/ U.S. Census Bureau/Advance Monthly Sales for Retail and Food Services/Retail Total (Excludes Food Services). 4/ Considerada a média móvel de trinta dias, a fim de eliminar ruídos de curto prazo. 92 Boletim Regional do Banco Central do Brasil Abril

3 Gráfico 4 Efeitos da crise financeira sobre a produção e o consumo Dados dessazonalizados Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Produção industrial Vendas varejo ampliado A trajetória da produção industrial nas distintas regiões mostra-se consistente com os prognósticos apresentados no boxe Efeitos da Crise Mundial Sobre a Economia Brasileira Uma perspectiva regional, na edição de janeiro de deste Boletim, onde se destaca que as regiões com (i) menor presença do setor público, (ii) maior participação da demanda externa e (iii) estrutura produtiva com demanda mais elástica à renda e mais dependente de crédito seriam mais afetadas pela crise. Nesse sentido, os recuos mais acentuados ocorreram nas regiões Sudeste, 22,2%, e Sul, 17,2%, ambos registrados de setembro a dezembro; enquanto as reduções correspondentes nas regiões Norte, 13,6%, e Nordeste, 12,9%, foram observadas de setembro a fevereiro e de setembro a dezembro, respectivamente. No Centro-Oeste, o recuo máximo da produção, observado em fevereiro, atingiu 3,6%. Ressalte-se que a trajetória declinante da indústria nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste apresentou reversão a partir de janeiro de, compensando parcialmente as retrações registradas no final de. Adicionalmente, o exame da evolução da produção industrial regional revela que o processo de retração do setor se seguiu à redução no ritmo de vendas no comércio, evidenciando a necessidade da indústria adequar seus estoques aos níveis desejados. Abril Boletim Regional do Banco Central do Brasil 93

4 Gráfico 5 Nível de emprego formal privado Variação % //Nov/ Dados dessazonalizados) BR N NE SE S CO -0,5-1,0-1,6-2,0-4,3 Fonte: MTE / Rais-caged; elaborado pelo Banco Central do Brasil -2,3 A evolução recente do nível de emprego regional, incorporando o período de novembro de, quando o emprego no país atingiu o patamar máximo, a fevereiro de, pode ser visualizada no Gráfico 5 e no Gráfico 6. O emprego formal na região Norte reagiu com maior intensidade à crise, recuando 4,3% em fevereiro em relação a novembro, como resultado da eliminação generalizada de postos de trabalho em todos os setores, em especial na indústria, em trajetória declinante na região desde janeiro de. A segunda retração mais expressiva no nível de emprego ocorreu no Centro-Oeste, 2,3%, com ênfase nos recuos assinalados nos setores industrial, em trajetória declinante desde julho de, agropecuário e comercial. A redução do emprego na região Sudeste, 2%, refletiu, igualmente, o desaquecimento da indústria, que concentra, na região, os principais pólos de produção de bens de consumo duráveis do país, cujas vendas foram atingidas intensamente nos últimos meses de. Gráfico 6 Contribuição setorial à redução no emprego formal privado (p.p.) Dados dessazonalizados (Mar//Nov/) Brasil Norte Nordeste -0,17-0,01-0,05-0,20-1,62-0,78-0,94-0,59-0,29-0,26-0,13-0,20-0,12-0,06-1,08 Indústria Const. civil Sudeste Comércio Serviços 0,00 Sul 0,24 0,44 Centro-Oeste 0,02-1,43-0,11-0,06-0,22-1,05-0,05-0,04-0,84-0,02-0,42-0,64 Fonte: elaborado a partir de dados do MTE/Caged, base RAIS (dez/2007) As reduções do emprego formal no Nordeste e no Sul atingiram 1% e 0,5%, respectivamente. Na primeira região, a retração concentrou-se no setor de serviços e no comércio, registrando-se recuo pouco significativo do setor industrial, cuja estrutura mostra-se mais dependente do mercado interno, favorecido pelo aumento do salário mínimo e pelos programas de transferência de renda do governo federal na região. A evolução do emprego formal na região Sul esteve condicionada pela geração de 94 Boletim Regional do Banco Central do Brasil Abril

5 empregos no setor de serviços, que compensou, em parte, a eliminação de postos registrada na indústria, afetada, no novo ambiente econômico, com intensidade relevante na região. O exame dos indicadores relativos ao mercado de trabalho e à industria revelam, portanto, que: (i) os índices de produção e consumo superaram os níveis críticos observados após o acirramento da crise, revelando recuperação na margem que se dissemina regionalmente, embora no Norte e no Centro-Oeste ainda persistam processos de retração na produção industrial, iniciados anteriormente a setembro de ; (ii) a retração do emprego formal observada no final de não se manteve nos meses seguintes. Adicionalmente, os desdobramentos da crise sobre esse indicador ocorreram com expressiva distinção entre as regiões, registrando maior intensidade no Norte e o Centro-Oeste, enquanto no Sudeste e no Sul os impactos concentraram-se no setor industrial e, no Nordeste, no setor de serviços e no comércio. Abril Boletim Regional do Banco Central do Brasil

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