DEPÓSITO. 1. Referência legal do assunto. Arts. 627 a 652 do CC. 2. Conceito de depósito

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1 1. Referência legal do assunto Arts. 627 a 652 do CC. 2. Conceito de depósito DEPÓSITO O contrato de depósito importa na guarda temporária de um bem móvel pelo depositário até o momento em que o depositante o reclame (art. 627 do CC). 3. Características gerais do contrato de depósito É um contrato intuitu personae, que decorre normalmente da confiança que o depositário merece do depositante, necessitando, para a sua perfeição, da entrega da coisa, salvo se esta já estiver na posse do depositário por qualquer outro título. A finalidade precípua do contrato é a custódia ou guarda da coisa, até o fim do prazo contratual ou até que seja reclamada pelo depositante, havendo assim sempre temporariedade do depósito, podendo ser por prazo determinado ou indeterminado. No direito brasileiro, só se admite o depósito de bens móveis, atendendo-se à tradição romanista, embora outras legislações latino-americanas permitam o depósito de imóveis e o próprio direito brasileiro conceba o depósito judicial ou seqüestro dos imóveis (arts. 666 e 822 a 825 do CPC).

2 Após tais considerações, podemos afirmar que o contrato de depósito implica a guarda temporária de móvel (infungível) pelo depositário, obrigando-se este à devolução de tal móvel quando exigido pelo depositante. O contrato de depósito é gratuito, salvo se a) as partes estipularem ao contrário; b) decorrer de atividade negocial ou c) o depositário o praticar por profissão. O depósito de bens fungíveis é considerado depósito irregular, pois, em virtude da natureza dos bens depositados, o depositante não pode exigir a devolução dos mesmos bens que entregou, mas sim de igual quantidade de unidades da mesma qualidade, ocorrendo, na realidade, uma transferência da propriedade dos bens fungíveis depositados ao depositário, e, por esse motivo, aplicam-se ao depósito irregular as disposições referentes ao mútuo (art. 645 do CC). Não obstante essa remissão legislativa, a doutrina e a jurisprudência assinalaram algumas distinções entre o mútuo propriamente dito e o depósito irregular, pois o primeiro visa atender ao interesse do mutuário, autorizando-o a utilizar as coisas mutuadas, enquanto no depósito a obrigação básica de custódia, que incumbe ao depositário, existe em favor e no interesse do depositante, ressalvadas as exceções que estudaremos oportunamente, podendo, inclusive, o depósito ser no interesse comum das partes. O depósito, pela sua finalidade básica de custódia da coisa, distingue-se do comodato, em que o comodatário recebe a coisa para a sua utilização, e da locação de coisa, que têm a mesma razão de ser, embora sendo onerosa. Normalmente, o depositário não pode utilizar a coisa depositada, salvo convenção em contrário das partes ou em decorrência da própria natureza do negócio (depósitos bancários). A utilização indevida da coisa depositada ou a sua entrega em depósito a terceiro, sem a autorização expressa do

3 depositante, implica responder o depositário por perdas e danos (art. 640 do CC). O legislador (art. 640, parágrafo único, do CC) especificou ainda a responsabilidade do depositário, mesmo quando devidamente autorizado pelo depositante, se agir com culpa na escolha do terceiro para quem o bem será dado em depósito. Também se diferencia o depósito do mandato, por haver no primeiro uma função relativamente passiva de vigilância, enquanto, no segundo, o mandatário tem deveres ativos para defender os interesses do mandante. O depósito, sendo ato de administração, pode ser contratado não apenas pelo proprietário do objeto, mas por qualquer pessoa que tenha a posse dele (locatário, comodatário, mandatário). O depósito voluntário exige forma escrita (art. 646 do CC), mas só se torna realizado o contrato com a entrega real ou simbólica (chaves do automóvel) da coisa depositada. Com relação ao depósito obrigatório, pode ser provado por todos os meios admitidos em direito, inclusive por prova testemunhal (art. 648, parágrafo único, do CC). Para valer contra terceiros, o depósito voluntário deve constar de instrumento registrado no ofício competente (art. 129, 2º, da LRP Lei n /73). 4. Espécies de depósito Depósito voluntário é o decorrente da vontade das partes; depósito obrigatório é o realizado em desempenho de obrigação legal (depósito legal) ou em virtude de calamidade pública (depósito miserável).

4 O depósito ainda pode ser de coisa litigiosa a fim de evitar que o desvio dos bens litigiosos venha prejudicar as partes em conflito, denominando-se então seqüestro, sendo admissível tanto em relação a móveis como a imóveis e funcionando como medida preparatória ou conservatória regulada pela lei processual civil (arts. 822 e s. do Código de Processo Civil). O depósito é regular quando de coisas infungíveis e irregular quando de coisas fungíveis. 5. Obrigações das partes contratantes Sendo o contrato de depósito normalmente unilateral, só cria obrigações para o depositário, pois o contrato, sendo real, considera-se celebrado no ato da entrega do bem pelo depositante ao depositário. As obrigações básicas do depositário consistem em guardar a coisa e restituíla quando exigida e pagar o valor estipulado, quando o depósito for oneroso. A diligência do depositário na guarda da coisa é a que costuma ter com as suas próprias coisas, aplicando-se um critério concreto (art. 629 do CC), não devendo, salvo convenção em sentido diferente, o depositário abrir o bem depositado se foi entregue fechado ou lacrado, nem utilizá-lo ou dar em depósito a outrem, sob pena de ter de indenizar os prejuízos decorrentes (arts. 630 e 640 do CC). A devolução da coisa abrange os seus frutos, produtos e acessórios. Mesmo sendo o contrato por tempo determinado, entende-se que o prazo existente é em favor do depositante, de tal modo que em qualquer tempo o depositário pode ser intimado a devolver a coisa depositada. Em determinados casos, o

5 prazo é em favor do depositário (depósito de dinheiro a prazo fixo em estabelecimento bancário), não se admitindo, nesta hipótese, a antecipação da exigência do depósito, sem pagamento de perdas e danos ou perda de parte ou de toda a remuneração convencionada entre as partes. A coisa deve ser restituída no local em que tiver de ser guardada, salvo estipulação em contrário, correndo as despesas para efeito de restituição por conta do depositante (art. 631 do CC). Admite-se que o depositário deixe de devolver o objeto quando: a) tiver direito de retenção do bem em decorrência da retribuição devida, das despesas realizadas com a coisa ou dos prejuízos provenientes do depósito; b) a coisa depositada for objeto de embargo ou execução por terceiros, tendo o depositário sido notificado para não abrir mão do bem, ou c) existir suspeita razoavelmente fundada de que o objeto foi dolosamente obtido (art. 633 do CC). Nesta última hipótese, deverá o depositário providenciar o depósito judicial da coisa, apresentando as razões da sua suspeita (art. 634 do CC). A perda ou destruição da coisa por força maior exonera de qualquer responsabilidade o depositário, devendo este, todavia, prová-los (art. 642 do CC). O depositário não poderá negar a restituição do objeto depositado alegando não pertencer este ao depositante, nem lhe cabe opor compensação, salvo se esta se fundar em outro depósito (art. 638 do CC). Se, em virtude de força maior ou de ato do Poder Público, a coisa depositada tiver sido perdida, mas o depositário tenha recebido outra em seu lugar (indenização pela desapropriação ou indenização paga pelo seguro), o

6 depositário deve entregar ao depositante a coisa recebida em substituição à outra, ou ceder-lhe as ações que tiver contra o terceiro responsável pelos prejuízos causados. 6. Depósito necessário Além do depósito convencional ou voluntário, a lei regulamenta o depósito necessário ou obrigatório, realizado em virtude de disposições legais (depósito legal) ou de circunstâncias especiais, como as calamidades públicas (depósito miserável), ou decorrente de uma outra relação jurídica existente entre as partes, como a hospedagem (depósito assimilado ou legal). O depósito necessário se distingue do voluntário por não necessitar, para a sua prova, de documento escrito, provando-se por todos os meios admitidos em direito, inclusive por testemunhas, mesmo sendo o valor do objeto superior a dez salários mínimos (art. 401 do CPC; art. 648, parágrafo único, do CC). Por estipulação legal (art. 651 do CC), o depósito necessário é presumidamente oneroso, entendendo-se, quanto às bagagens, que a remuneração pela sua guarda está incluída no pagamento estipulado no contrato de hospedagem. O depósito legal se distingue do seqüestro, previsto pela lei processual para os casos de bens litigiosos. Ocorre depósito legal propriamente dito nas hipóteses previstas pelo Código Civil, como as referentes à coisa achada (art do CC), ao depósito da coisa recebida quando o depositário se torna incapaz, recusando o depositante a recebê-la (art. 641 do CC) etc. O depósito miserável é o feito em caso de calamidade pública, como guerra, incêndio, inundação e revolução.

7 O depósito obrigatório se regula pela lei civil em geral e pelas disposições especiais, aplicando-se supletivamente as normas sobre depósito voluntário, na parte em que não tenham sido afastadas por regras especiais. O depósito de bagagens não é depósito legal propriamente dito, mas equipara-se a ele. A regulamentação legal estabelece, no caso, uma presunção de responsabilidade dos hospedeiros ou estalajadeiros, estendida pela jurisprudência aos donos de colégios e hospitais, por todos os danos ocorridos nas hospedarias, estalagens ou casas de pensão, respondendo os donos dos referidos estabelecimentos como depositários e respondendo também pelos atos ilícitos (furtos ou roubos) praticados pelos seus empregados ou por pessoas admitidas em seus estabelecimentos, somente podendo exonerar-se de qualquer responsabilidade provando a inevitabilidade do evento (arts. 649 e 650 do CC). 7. Extinção do contrato de depósito e prisão do depositário infiel O contrato de depósito se extingue pelo decurso do prazo, pelo distrato, pelo depósito judicial da coisa por parte do depositário, quando não puder continuar a guardá-la, ou quando suspeitar que se trata de coisa furtada ou roubada, pelo perecimento da coisa e pela morte do depositário, tendo o contrato sido realizado intuitu personae.

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