Gangues, Criminalidade Violenta e Contexto Urbano: Um Estudo de Caso

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1 Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) Conferencia Internacional Violencia en Barrios en America Latina Sus Determinantes y Politicas de Intervención Gangues, Criminalidade Violenta e Contexto Urbano: Um Estudo de Caso Autor: Luís Felipe Zilli do Nascimento

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6 Mapa II Concentração dos Crimes de Homicídio em São Paulo 2000/2008 Fonte: Sistema de Estatísticas Vitais / Fundação SEADE

7 O que os dados indicam Violência letal no Brasil perfil socioespacial específico: Vítimas e autores são: Jovens do sexo masculino, 15 a 24 anos, não-brancos (pretos ou pardos), baixo status socioeconômico, baixo nível de instrução formal, moradores de favelas, mortos com armas de fogo, em via pública, a poucos metros de onde vivem. Contradiz discurso da explosão de violência. Fenômeno se assemelha a implosão de violência. Aponta para importância de compreender fenômeno das gangues ou grupos armados ilegais e seus conflitos territorializados.

8 Contexto da Discussão Programa de estudos: compreender o problema da associação de jovens em gangues ou grupos armados ilegais por meio da identificação e da análise de suas estruturas fundamentais e não por meio do estudo de suas muitas formas emergentes. Hipótese Teórica: a formação de gangues constituiria uma espécie de resposta adaptativa e associativa diferencial que alguns jovens oferecem a contextos urbanos caracterizados por segregação e exclusão socioespacial (melhores condições para realizar transações financeiras, simbólicas, afetivas, morais, etc).

9 Contexto da Discussão Hipótese Empírica: muitas formas de manifestação seriam tributárias de diferentes contextos históricos, culturais, geográficos, econômicos, políticos, sociais, urbanísticos e criminais Proposta de Trabalho: tentar reconhecer, nas muitas formas de emergência do fenômeno, um conjunto de planos organizacionais que talvez possa ser encontrado, com outras ênfases e outros arranjos, em diferentes contextos. Proposta do Paper: compreender, empiricamente, o fenômeno da violência ligada à atuação de gangues e grupos armados ilegais na região metropolitana de Belo Horizonte (Minas Gerais - Brasil) Processos de Estruturação de Atividades Criminosas

10 Dados e Metodologia 40 entrevistas em profundidade: jovens entre 16 e 20 anos, em cumprimento de medida socioeducativa de internação por envolvimento com homicídios, tentativas de homicídio, tráfico de drogas, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e roubos (mar. de 2009 e out. de 2010) Dados do Grupo de Monitoramento de Gangues (GMG) sobre 16 favelas da RMBH (2007 a 2009)

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16 Processos de Estruturação de Atividades Criminosas: Parece não haver uma lógica única e universal norteando a estruturação de atividades criminosas entre gangues de favelas da RMBH. Modos como os grupos se envolvem com atividades criminosas decorrem de uma série de elementos locais, e seguem uma lógica mais adaptada àqueles contextos específicos. Diferentes configurações históricas, geográficas, comunitárias, culturais e associativas moldam diferentes tipos, intensidades, estruturas e formas de organização de atividades criminais. Envolvimento com dinâmicas de criminalidade parece se adaptar aos arranjos comunitários locais.

17 Processos de Estruturação de Atividades Criminosas: Tráfico de Drogas (Frouxamente Articulado): Não é todo lugar que tem patrão não. Tem lugar que é mais ou menos avulso. Lá mesmo não tem muito dono não. Eu cheguei para um cara lá que tem as parada dele e pedi. Aí eu comecei a vender pra ele. (...) Aí o esquema era que de cada R$300,00, R$100,00 era meu. (...) Até o dia que eu passei a ganhar meu dinheiro, aí eu passei a comprar a minha droga mesmo. (...) É porque as primeiras vez você pega a droga deles. Aí divide o lucro. Depois que tem dinheiro você compra a sua droga e fica lá vendendo. Cada hora um. (...) De vez em quando nós fazia vaquinha. Aí nós comprava uma quantidade maior e dividia. Aí cada um pegava a quantidade que comprou. (Informante 20)

18 Processos de Estruturação de Atividades Criminosas: Tráfico de Drogas (Rigidamente Articulado): O patrão é a voz. É o poder. É o cara que comanda. É o cara que faz as droga chegar, é o cara que cobra o vacilo. Se ele quiser alguém morto e mandar matar, tem que ir. É o cara que paga a polícia, é o cara que a polícia tem medo. É o mais falado, é o mais respeitado. (...) O que ele fala tem que acontecer. Se está dentro da cadeia, o que ele mandar, tem que fazer. Não pode matar sem avisar ele não. Se não cumprir, morre. (...) Eu mesmo já cumpri ordem dele porque eu sou soldado. Tenho que cumprir as ordem do patrão. Manda nós pra guerra, tem que ir. (Informante 27)

19 Processos de Estruturação de Atividades Criminosas: Alianças entre os Grupos: Contatos entre grupos para venda de drogas. Grupos compartilham fornecedores. Contatos feitos dentro de prisões e unidades de internação. Ocasionalmente, grupos se ajudam em conflitos com inimigos comuns. Envolvimento com atividades criminosas mais complexas e rotatividade nas prisões facilitam alianças.

20 Processos de Estruturação de Atividades Criminosas: Papel da Polícia nos processos de estruturação: Tem muita polícia corrupta, né? Tem polícia que pega dinheiro, tem polícia que bate. (...) Tem o polícia que entra na sua casa, pega 20 quilo de pedra e leva embora pra vender. 20 quilo de pedra é dinheiro demais... Um quilo de pedra é R$16 mil, R$17 mil. 20 quilo faz as conta aí. Ah, e é R$16 mil em barra, no quilo. Vendido em papelote dá muito mais. Dependendo do lugar o cara pica direitinho, faz os papel e faz é R$35 mil num quilo. Ele pega na sua casa e passa pra outra quebrada, na favela mesmo. (Informante 29)

21 Considerações finais Necessidade de consolidar um programa de pesquisas dedicado a identificar e analisar aspectos estruturais comuns ao fenômeno das gangues na América Latina. Deslocar foco de análise de suas muitas formas de manifestação para a compreensão de como se articulam suas estruturas em níveis locais. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, fenômeno das gangues se apresenta de forma fragmentada. Processos difusos e pouco articulados de estruturação de atividades criminosas. Caráter fortemente localizado e territorializado. Corrupção policial, rotatividade dentro das prisões e maior aporte de drogas são elementos que fortalecem maior estruturação dos grupos.

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