JORNALISMO CULTURAL E CRÍTICA DE ARTE NA WEB. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TEXTUAL E PARTICIPAÇÃO DO PÚBLICO EM SITES

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1 Revista Eletrônica Novo Enfoque, ano 2013, v. 17, n. 17, p JORNALISMO CULTURAL E CRÍTICA DE ARTE NA WEB. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TEXTUAL E PARTICIPAÇÃO DO PÚBLICO EM SITES AGUIRRE, Alexandra 1 BASÍLIO, Gisele Veríssimo 2 RODRIGUES, Juan 3 Palavras-chave: Novas tecnologias. Texto. Arte. Introdução Este artigo trata de como a internet, como outras mídias contemporâneas, abre para o senso comum o uso das mídias. Antes, só um pequeno grupo autorizado, especializado e profissionalmente podia produzir conteúdo para mídia, hoje, qualquer um pode ter uma emissora de televisão particular, uma gravadora pessoal, uma editora no escritório de casa. O conteúdo e formato midiático deixa de estar relegado em sua produção a uma pequena parcela da sociedade e com usos bem definidos para serem apropriados por qualquer pessoa que tenha interesse, condição financeira e disponibilidade para sua produção. Isto transforma a produção midiática num recurso comum e cotidiano, como a fala e a escrita, que pode ter diversos usos, não só o profissional, como os blogs que serviram de diário público e o Twitter eficaz para o conhecimento do trânsito. A mídia tem como matéria-prima a linguagem escrita, falada e a imagem estática, em movimento e seu uso pelos profissionais dos meios de comunicação foi já variadamente estudados. No entanto, os usos dados à linguagem e à imagem pelas mídias contemporâneas ainda estão se fazendo, a cada dia uma nova tecnologia surge e reorganiza todos os usos e agentes que dela se apropriam, assim como os agentes dão novos usos às tecnologias existentes. Neste sentido, acreditamos que cada objeto de análise deva ser estudado contextualmente, num período de tempo determinado, pois assim como os blogs deixaram de ser ferramenta de diário pessoal e passaram a ser utilizados por empresas pela facilidade de manejo e atualização, muitos recursos podem mudar de utilidade conforme o interesse dos agentes. Até bem pouco tempo, os chats, salas de bate-papo, eram recursos largamente disponibilizados por sites de empresas com o objetivo de criar interação Orientadora. Curso de Jornalismo da Universidade Castelo Branco (UCB), Campus Realengo, Rio de Janeiro, RJ (Vigência: Out/2012 a Out/2013). Participaram de parte da pesquisa os alunos. Aluna PIBIC&T/UCB (Vigência: Out/2012 a Out/2013). Curso de Jornalismo da Universidade Castelo Branco. Aluno PIBIC&T/UCB (Vigência: Out/2012 a Out/2013). Curso de Jornalismo da Universidade Castelo Branco.

2 entre os usuários, e hoje foram substituídos pelas redes sociais. As salas de bate-papo não deixaram de existir, mas perderam seu antigo uso. Os dois sites escolhidos como objeto de análise e foram compreendidos a partir das categorias tradicionais dos meios de comunicação de massa do jornalismo cultural. Ambos têm como conteúdo as artes plásticas e disponibilizam informações sobre aberturas de exposição, críticas sobre obras e matérias reproduzidas de jornais no formato online que se referem a financiamento, leis de incentivo fiscal e polêmicas relativas ao mundo da arte. No entanto, a categorização como jornalismo cultural é um anacronismo já que as mídias contemporâneas permitem apropriação e uso coletivo através de fóruns, redes sociais como Facebook, microblogs como Twitter, participação do público por envio de texto e crítica, crowdfunding, transmissão ao vivo de palestras e debates. Logo, o campo de atuação das mídias contemporâneas é muito mais amplo e extrapola em muito a produção profissional de texto e imagens e a recepção passiva do público, próprio do jornalismo tradicional. O conceito de cultura para o jornalismo tradicional, embora já englobe hoje gêneros que extrapolam as categorias modernas de pintura e escultura, como a performance e a instalação, tem a própria abordagem limitada porque é restrita aos profissionais da empresa de notícias. Perdem-se os embates produzidos pelo público, por artistas e especialistas, restando só o ponto de vista objetivo do repórter ou jornalista que reúne todas as perspectivas no formato tradicional do texto jornalístico, tendo cada agente uma fala de até 250 caracteres. Assim, as mídias contemporâneas conseguem reunir vários pontos de vista, sob formatos de imagens, críticas, matérias jornalísticas, de um modo rico e fluido como o cotidiano é. Procedimentos Metodológicos A escolha dos sites baseou-se na autoavaliação dos próprios sites, nos institucionais, de como percebem a utilização das novas tecnologias e sua inovação na divulgação das obras de arte. O site por exemplo, se autodenomina mediação cultural crítica, cujo objetivo é descentralizar a produção, informação e recepção da arte dos eixos Rio-São Paulo, enquanto o é uma comunidade digital, cuja finalidade é integrar produtores e receptores do mundo da arte. Sendo assim, ambos os sites utilizam recursos tecnológicos para transformar a forma tradicional de produzir e divulgar informação sobre arte. E a análise comparativa entre os sites tem como objetivo identificar a diferenciação de funções presentes em ambos os sítios. A metodologia escolhida para a análise inicial foi bibliográfica. A semântica e a pragmática foram estudadas e compreendidas como a relação entre o significado e seu objeto, e o significado e 2

3 sua relação com o grupo que o utiliza, seu uso, respectivamente. A pesquisa bibliográfica preliminar foi desenvolvida junto com os alunos sobre os temas com autores referenciais. A leitura e atualização bibliográfica implicou numa discussão orientada pelo professor e orientadores sobre os resultados da leitura e na categorização inicial dos dados a serem coletados. A coleta e a identificação das informações nos sites foram referentes a três meses do primeiro semestre de 2012, março a maio, e foi concluída a coleta do e os dados receberam uma análise preliminar à medida que foram sendo coletados. A semântica foi abordada a partir dos gêneros de redação jornalísticos tradicionais como o informativo, o opinativo e o interpretativo. O gênero informativo é tradicionalmente o texto jornalístico de abordagem dos fatos. A objetividade própria dos termos denotativos implica numa relação que evita a ambiguidade entre significados e seus objetos. Já o gênero opinativo contempla a crítica, a resenha, crônica, comentário especializado e artigo, e o foco recai muito menos sobre os fatos, do que sobre os autores de textos que, muitas vezes, são o público. A ambiguidade e a conotação dos termos são amplamente utilizadas no gênero opinativo. Para a análise pragmática preliminar, observou-se o uso dos textos para além de seu significado explícito, denotativo ou conotativo, e levou-se em consideração o tipo de linguagem utilizada, o contexto de emissão e recepção e os atores da ação. Análise de Dados A análise de dados preliminar baseou-se na coleta de dados e em sua observação inicial do site O site foi compreendido em duas categorias, a primeira referese à produção e disponibilização de informação pelas mídias não importando se os autores eram profissionais, público ou colaboradores. A outra categoria, ainda por ser coletada, estava reservada à participação direta do público através dos recursos de interatividade fóruns, redes sociais, blogs. Na categoria reservada à produção e disponibilização pelo site, observou-se a organização de cada mídia, com seus canais na barra de menu, e coletou-se as publicações entre os meses de março a maio de No site foram mapeados os seguintes canais: agenda (cursos e seminários, salões e prêmios), arte em ação (arte em circulação, como atiçar a brasa, quebra de padrão, tecnopolíticas) e e-nformes (blog do canal, arquivo). A agenda semanticamente responde ao gênero informativo, já que os textos têm função de remeter à factualidade do acontecimento cursos, seminários, salões e prêmios devendo ter preocupação com o serviço jornalístico de data, local, componentes. Os e-nformes não foram classificados conforme os gêneros jornalísticos de redação por se tratar de newsletters, ou edições periódicas que são entregues nos s do público cadastrado. Os e-nformes contém um resumo 3

4 das edições, e os arquivos referem-se a e-nformes antigos. O blog do canal contém textos mais extensos que podem variar entre descrições da produção artística de autores à análise crítica de exposições e obras, o que implicaria na categorização de informativo e opinativo. O gênero interpretativo, ou a reportagem, não foi reconhecida em nenhuma dos textos do site o que pode estar relacionado com a tecnicidade do gênero, e a exigência de profissionais do jornalismo, ou ainda com a inadequação de atribuir gêneros de redação do jornalismo tradicional à produção das novas mídias. No canal arte em ação, os textos são produzidos pelo canal e colaboradores, aí incluindo o público, e são informativos e opinativos. O objetivo é provocar o debate, introduzir temas polêmicos na discussão entre o público e relativizar questões tradicionais sobre a arte. Os textos são semanticamente de ordem denotativa e conotativa e obrigam ao leitor a rever a relação objetivada entre significado e objeto. Pragmaticamente, os canais agenda e e-nformes tem a função de convidar o leitor ou usuário do site a participar de concursos, salões, exposições ao valorizar nos textos as informações objetivas como data, local, horário de abertura, editais, já que são produzidos pelo canal e endereçados aos assinantes ou leitores do site. O contexto de produção e recepção, incluindo a identificação dos atores site e público nos leva a esta leitura, pois que muitas vezes os avisos de abertura de exposição ou edital são enviados por colaboradores ou leitores, mas são disponibilizados juntos à produção do site, estabelecendo, ou melhor, organizando uma diferenciação entre envio e recepção. Isto pode ser interpretado como um convite ao público de se unir àquele que convida, que, por assumir uma posição diferenciada, também pode exercer outra função. Já o canal arte em ação tem como pragmática, ou função, estimular a participação do público por meio de provocações e polêmicas. Muitos textos são de leitores, colaboradores, reproduções de outros artigos e implicam num embaralhamento maior das posições dos atores envolvidos. Diferente dos canais anteriores que organizam uma diferenciação e separação entre emissores e receptores, com o objetivo mesmo de que a informação de prazos e condições não se perca, este canal se organiza à medida que o fluxo de informação rende novas polêmicas e debates. Diferente de abertura de exposições e editais, as polêmicas não podem ser previstas, nem agendadas, o que gera a participação do público não num espaço previamente estabelecido e real, mas no espaço mesmo de interatividade da rede quando ele lê, envia material e estimula novas participações. Discussão de Resultados Os resultados observados mostram que há produções textuais muito relacionadas com o jornalismo tradicional e outras que se abrem para novas experiências. O mesmo se pode dizer das relações e atores envolvidos no processo de produção e recepção de mensagens. No material 4

5 coletado, pôde-se perceber que há participação do público no envio de textos e que estes se misturam aos textos de profissionais ou especialistas, o que pode implicar numa flexibilização dos papéis de emissor e receptor, já que leitores são muitas vezes os profissionais do material enviado pelo público, seja referente às polêmicas do arte em ação, seja dos informativos da agenda. Diferente dos blogs em que a participação do público se separa na seção comentários, o processo de reunir indiscriminadamente o material propõe uma democratização dos acessos à mídia. O fato de haver um canal com agenda para editais, exposições e concursos que ocorrem em sua maioria no mundo fora da web mostra como o mundo da arte ainda está predominantemente presente no mundo real, vinculado às instituições tradicionais como galerias para exposições e mercado, financiamentos de órgãos públicos e privados, e visibilidade por prêmios e nos salões. Os debates acerca de assuntos polêmicos do mundo da arte inova como lugar de discussão e posicionamentos acerca de políticas públicas, de seleção de artistas e curadores, de financiamento de exposições. O que significa uma abertura e espaço para debater assuntos que interessam aos atores em questão e que estavam carentes de um local de acesso. As categorias de redação de jornalismo tradicionais utilizadas para identificar a relação que os textos estabeleciam com seus objetos de análise serviram para testar o quão distante ou próximo está a produção textual relativa à cultura do jornalismo cultural. Em algumas situações, como no caso da redação interpretativa ou reportagem, parece haver forte anacronismo, em outras, foi possível identificar textos de caráter informativo e outros opinativos como o são a crítica. Considerações Finais A análise de produção textual sobre cultura nos sites e ainda estão por se desenvolver. Uma pequena parte foi coletada relativa à produção emitida pelo primeiro site, e cabe ainda um aprofundamento da análise deste material. Além da produção emitida, há as mídias interativas disponibilizadas pelo site e a participação do público nelas. O segundo site também tem canais e mídias interativas que devem passar pela coleta e análise a fim de serem comparados. O objetivo da comparação, como já comentado, é perceber as diferenças entre funções, e daí a eficácia de comunicação e participação do público nas mídias contemporâneas. Referências ARMENGAUD, Françoise. A pragmática. São Paulo: Parábola Editorial, ERBOLATO, Mario. Técnicas de codificação em jornalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, OLIVEIRA, Luciano A. Manual de semântica. Petrópolis, RJ: Vozes,

6 PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. São Paulo: Contexto, SEARLE, John R. Consciência e linguagem. São Paulo Martins Fontes,

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