A CRISE DO MODELO SOCIAL

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1 A CRISE DO MODELO SOCIAL EUROPEU ANTÔNIO PAIM Membro do Conselho Consultivo da Revista Ibérica, do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da UFJF. Professor Visitante da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa. Instituto Tancredo Neves Brasília. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO I. RECONHECIMENTO DA CRISE DO ESTADO PROVIDÊNCIA E ADOÇÃO DO MODELO JUPPÉ 1. O alerta de Rosanvallon 2. O modelo Juppé 3. Reformas recentes II. EXAME DOS EQUÍVOCOS EM QUE INCIDE O DEBATE ATUAL 1.Negação da existência de Welfare nos Estados Unidos 2. Negação da existência de modalidade diferente de financiamento 3.Atribuição indevida de méritos ao modelo europeu III. COMO PODEMOS TIRAR PARTIDO DO DEBATE EUROPEU IV. FINANCIAMENTO DAS APOSENTADORIAS E PENSÕES 1.O novo modelo alemão 2.Desempenho e papel dos fundos de pensões V. DESEMPREGO E POLÍTICAS BEM SUCEDIDAS PARA ENFRENTÁ-LO 1.Situação atual do desemprego 2.A experiência inglesa 3.A experiência holandesa 4. O caso espanhol 5. De que dependeria a relativa estabilização do emprego VI. COMO A EUROPA LIDA COM A REMANESCENTE POBREZA EXTREMA VII. EM BUSCA DE UMA FORMA DURADOURA DE ORGANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA MÉDICO-HOSPITALAR

2 1.Delimitação do objeto 2.Assegurar a sobrevivência, preservada a universalidade VIII. ALGUNS ASPECTOS TEÓRICOS RELEVANTES IX.Referências bibliográficas APRESENTAÇÃO Convencionou-se denominar de modelo social europeu ao sistema de seguridade social construído na Europa, basicamente no século XX. Ainda que haja diferenças marcantes entre os diversos países que a integram, o traço comum consiste no financiamento mediante contribuições correntes, denominado tecnicamente de pay as you go. Essa modalidade chegou a um impasse na medida em que os compromissos com aposentados e pensionistas avolumaram-se crescentemente, ao contrário do que ocorria com o contingente de contribuintes. Tratava-se de alteração irreversível na composição etária da população. Essa situação foi tornada clara por renomado intelectual francês, o social democrata Pierre Rosanvallon, em livro de 1981, intitulado A crise do Estado Providência. Soluções paliativas foram sendo aplicadas até que, em 1995, o então primeiro ministro francês Allain Juppé sistematizou uma política que, embora tenha provocado intensa reação, a ponto de resultar no seu afastamento do governo, acabou sendo adotada universalmente em todos os países. Em síntese, consiste no seguinte: 1º) aumentar a idade requerida para obtenção de aposentadoria 2º) reduzir prazos e valores do apoio a desempregados 3º) aumentar o valor das contribuições e incluir aos próprios aposentados na categoria de contribuintes; e, 4º) eliminar situações especiais em matéria de benefícios, sobretudo em se tratando de aposentadoria. Como o déficit do sistema amplia-se a cada ano, devendo ser atendido por impostos, o tema volta a ocupar o centro do debate na oportunidade da elaboração orçamentária. Tudo isto cria uma situação de insegurança generalizada. Sem apresentar soluções alternativas, as agremiações de esquerda batizam de neoliberal as iniciativas consideradas e acusam os governos (mesmo se os socialistas encontrem-se no poder) de pretenderem a liquidação do consagrado modelo europeu. Nunca se falou tanto em solidariedade. Em face do clima emocional criado, o debate permanente da momentosa questão incide em dois grandes equívocos: a) consideração de todos os temas englobadamente, sem atentar para a possibilidade de soluções parciais específicas; 2º) negação da existência de modalidade de financiamento diferente da que se encontra em crise na Europa; e, 3º) distorção grosseira do modelo social norte-americano, com o propósito de negar possa inserir experiências dignas de serem copiadas. No fundo trata-se de impedir alterações mais profundas, únicas capazes de debelar a crise. Os que, presentemente, se encontram em situação confortável adotam uma atitude que, sem exagero, corresponde à consigna depois de mim o dilúvio, revelando uma grande capacidade de mobilização da opinião pública, sobretudo na França. Contudo, em 2

3 que pese esse empenho, há experiências merecedoras de consideração. Acompanhá-las bem como ao próprio debate, de um modo geral pode proporcionar-nos valiosos ensinamentos. Ainda que em termos qualitativos a seguridade social brasileira nem de longe se compare à européia, apresenta não obstante problemas muito parecidos. Levando em conta o interesse despertado pela questão, dediquei o seminário anual que costumo realizar no Instituto de Estudos Políticos (IEP), da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, ao que denominei de A redefinição do modelo social europeu. Esses seminários são sempre muito concorridos e facultam o aprofundamento do tema através dos trabalhos de classe dos alunos. De modo que muito contribuiu no sentido de que pudesse dar conta do presente estudo. Mais uma vez agradeço ao prof. João Carlos Espada, diretor e inspirador do IEP -- que corresponde a uma das mais importantes iniciativas no contemporâneo ambiente cultural português--, essa oportunidade que me tem sido facultada. Pude contar ainda com a inestimável atenção do prof. José Manuel Moreira, da Universidade de Aveiro, destacado estudioso da problemática que considero, inserida no conjunto da presente conjuntura político-social européia. Por este valioso apoio, deixo aqui de público o meu agradecimento. Lisboa, Outubro de A. Paim I-RECONHECIMENTO DA CRISE DO ESTADO PROVIDÊNCIA E ADOÇÃO DO MODELO JUPPÉ 1.O alerta de Rosanvallon (1981) Existem na Europa quatro modelos de assistência social, a saber: I)continental; II) nórdico; III) mediterrâneo e IV) britânico. Todos têm ampla abrangência, compreendendo sistema de aposentadorias e pensões, amparo à velhice, desemprego e saúde. Distinguemse por incluir mais um ou outro plano (por exemplo, programas de estímulo à natalidade) ou na proporção em que participam o Estado, o empresariado e os trabalhadores. O traço relevante comum consiste em que o financiamento provém de recursos correntes, isto é, as despesas são atendidas por contribuições anuais. Ainda que uma ou outra modalidade seja designada como seguro, não se trata de que seja financiada por rendimentos resultantes de aplicações, atividade típica das seguradoras, que não intervêm no caso. Mais recentemente e nesta ordem --, Inglaterra, Holanda e Alemanha introduziram alterações substanciais nessa forma de financiamento, como alternativa à crise que se tornou patente nos anos setenta. O alerta quanto à nova situação criada adveio no livro La crise de l État-Providence, publicado em 1981, que se tornaria célebre. Seu autor, Pierre Rosanvallon, renomado intelectual, inclui-se entre os mais destacados sociais democratas franceses. Para o pensador francês, não pairam dúvidas de que, entre 1946 e 1970, o Estado Providência trouxe tranquilidade às sociedades européias, preocupadas, desde meados do 3

4 século XIX, com a chamada questão social. Contudo, cabe reconhecer que entrou em crise. A seu ver, essa crise apresenta aspectos distintos. Antes de mais nada, temos o aspecto financeiro. A partir da década de setenta, os gastos sociais, notadamente os correspondentes à saúde, continuaram crescendo no ritmo anterior (incrementos entre 7% e 8% anuais), enquanto que as receitas passaram a aumentar em proporções sempre menores, chegando a variar entre 1% e 3%. Como determinantes deste estado de coisas, tem-se, de um lado, a crise econômica que se instaurou a partir de meados daquela década. O cerne da questão proviria entretanto das alterações ocorridas na composição etária da população, de que resultou a sucessiva redução do número de contribuintes, que se fazia acompanhar da elevação do contingente de beneficiários. Apareceu o chamado fenômeno da terceira idade. Adicionalmente instaurou-se desemprego de grandes dimensões. As soluções paliativas que começaram a ser encaminhadas não alteraram substancialmente o quadro. Para comprová-lo, vejamos alguns dados da situação, ainda tomando por exemplo a França. Em 1996, o sistema de aposentadorias consumia 12,5% do PIB, enquanto equivalia a 5,1% em Aproximadamente num quarto de século, aumentou uma vez e meia. Algo de semelhante ocorreu com os dispêndios com pensões, assistência às famílias, desemprego e assistência médico-hospitalar, isto é, nas diversas áreas abrangidas pelo sistema. As medidas para tentar reverter o quadro tiveram início na própria década de oitenta. Até meados do decênio seguinte, as contribuições (universais) praticamente dobraram. Apesar disso, o déficit, atendido por recursos orçamentários, alcançou mais de dez bilhões de euros. Resultou basicamente dessa política que os impostos e contribuições correspondam em média a 56,6% dos rendimentos das pessoas, tornando impossível ulteriores aumentos de impostos. Num livro posterior, La nouvelle question sociale: repenser l État-Perovidence (1995) que viria a ser editado no Brasil pelo Instituto Teotonio Vilela Rosanvallon indica que a crise e o caminho empreendido para combatê-la tem suscitado novas questões. Uma delas é o desgaste experimentado pela burocracia tradicional, perante contingentes cada vez mais expressivos da opinião. Juntamente com os que se acham encastelados num sistema que clara e unilateralmente os beneficia, tem conseguido bloquear novo tipo de encaminhamento da questão 1. Vejamos, em síntese, qual tem sido a estratégia seguida pelos diversos países continentais, já que a Inglaterra, como indicaremos, encontra-se numa posição singular. 1 Esclareça-se que, no Caderno Liberal n. 12, editado pelo ITN Avaliação crítica da social democracia. O exemplo francês submete-se à crítica a solução preconizada por Rosanvallon (transferir todos os encargos para o Orçamento), na medida em que eterniza o sistema pay as you go, justamente o que se tem revelado insustentável. 4

5 2.O modelo Juppé Eleito em 1995, Chirac escolheu a Alain Juppé para Primeiro Ministro, que submeteu à Assembléia, em Novembro desse ano, um projeto de reforma do Welfare que se tornou modelo e referência na Europa. Não se trata de que haja inovado em relação às medidas em curso para enfrentar as dificuldades crescentes. Seu mérito consiste sobretudo em tê-las sistematizado. A principal opção do Modelo Juppé consiste em manter o sistema chamado de gastos correntes, isto é, a cobertura dos gastos é efetivada por contribuições anuais. Adicionalmente, adota o seguinte esquema de corte de despesas: -Elevação da idade para a aposentadoria e correspondente ampliação dos anos de contribuição -Redução dos prazos de recebimento de seguro desemprego no nível da remuneração obtida no trabalho -Eliminação de sistemas especiais Em matéria de fonte de recursos, tendo optado pela manutenção da modalidade tradicional, a única hipótese seria promover a elevação das contribuições. Nessa matéria, a grande novidade consistia em que os próprios aposentados passariam a ser tratados como contribuintes. O Modelo Juppé foi entendido como tentativa de liquidação do Welfare sem nada colocar em seu lugar. A França foi submetida a uma convulsão tremenda. As greves em 1995 bateram um recorde histórico: seis milhões de jornadas de trabalho perdidas, sendo 60% no setor público. Jacques Chirac viu-se na contingência se afastar o seu Primeiro Ministro. Alain Juppé, por sua vez, desde então afastou-se da vida política. Sendo professor, obteve transferência para escola implantada na zona francesa do Canadá. Em 2006, mais de dez anos depois, portanto, a imprensa sugeriu que poderia reaparecer na movimentação política de 2007, quando haverá renovação da Assembléia e do governo. O Parlamento conseguiu apenas aumentar as contribuições e introduzir mudanças no seguro desemprego, medidas essas que, sucessivamente, revelaram-se insuficientes. O déficit passou a ser atendido pelo Orçamento. Permaneceram os sistemas especiais. Contudo, as regras básicas desse modelo passaram a vigorar em quase todos os países da Comunidade. Jacques Chirac foi eleito Presidente em Maio de Presumivelmente devido à celeuma provocada pelas pretendidas alterações na seguridade social, dissolveu antecipadamente o Parlamento, tendo sido derrotado em Maio de Segue-se a coexistência entre Presidência liberal (Chirac) e Primeiro Ministro socialista (Jospin). Devido à circunstância de que o déficit do Welfare passa a ser atendido pelo Orçamento (situação generalizada na Europa), todos os anos o tema volta à discussão. 5

6 3. Reformas recentes (2005; relacionadas ao Orçamento de 2006) Duas reformas recentes, na Espanha e Portugal, continuam seguindo o Modelo Juppé.São as seguintes as medidas contempladas na reforma espanhola: -Prolongar a atividade dos 65 para os 70 anos - Fixar em 35 anos o período de contribuições necessário à obtenção de aposentadoria integral -Aposentadoria antecipada passa dos 60 para os 65 anos -Alterações no sistema de pensões Na reforma portuguesa fala-se em diversificação das fontes de receita mas tendo em vista impostos. O aumento do IVA é justificado nessa perspectiva. Fixam-se limites para as pensões. O governo pretendeu também eliminar sistemas especiais (dos militares e membros do Judiciário) provocando reações acirradas, com ameaças de indisciplina nas Forças Armadas e greve no Judiciário, o que por sua vez causou grande desconforto na opinião pública. Houve uma espécie de unanimidade na condenação à greve dos juízes. II. EXAME DOS EQUÍVOCOS EM QUE REPOUSA O DEBATE ATUAL 1.Negação da existência de Welfare nos Estados Unidos. O jornal El Mundo (Madrid), do dia primeiro de Setembro de 2005, publicou extensa matéria sob o título seguinte: A pobreza dispara nos Estados Unidos. Os dados apresentados são da repartição fazendária. Esclareça-se que, nos Estados Unidos, todos os maiores são obrigados a tornarem-se contribuintes, ainda que na declaração anual de rendimentos fiquem isentos de impostos. O ano fiscal abrange o segundo semestre de determinado ano e o primeiro do seguinte. De modo que, geralmente no mês de agosto, tornam-se públicos os dados relativos à distribuição da população segundo faixas de renda. As famílias com rendimentos inferiores a vinte mil dólares anuais formam um grupo à parte por uma razão que a matéria em apreço omite. São beneficiários de um programa de renda mínima, financiado pelo Social Security, fundo constituído por contribuições compulsórias universais. As famílias que não alcançam esse patamar recebem, do mencionado fundo, a correspondente complementação. No exercício fiscal 2004/2005, as famílias com rendimentos inferiores àquela quantia correspondiam a 12,7% da população. O autor da matéria não se dá conta da real magnitude dos números com que está lidando, e ainda que efetue a conversão em euros (pouco menos de 16 mil anuais; mais ou menos mensais) tenta apresentar o quadro como se correspondesse à situação de indigência. Tanto nos Estados Unidos como na Europa, rendimentos de euros mensais de modo algum configuram situação de indigência. Mais grave é a suposição de que o Social Security equivaleria ao Welfare europeu. O programa de renda mínima norte-americano corresponde a tema dos mais discutidos no país, sendo extensa a bibliografia correspondente. Não teria cabimento tentar resumi-la, 6

7 bastando referir que o objetivo é adotar iniciativas (cursos ou o que seja) que facultem aos integrantes dessa faixa de renda elevá-la de modo a prescindir dessa ajuda. Em 1982, as famílias pobres correspondiam a 15% da população. Nos meados da década baixou um pouco mas desde então não se verificaram alterações substanciais. Destacados estudiosos consideram que tal ocorreu devido à decisão de incorporar ao programa as mães solteiras. Alguns consideram mesmo que tal disposição que destoaria inteiramente da larga tradição anglo-saxônica da defesa intransigente da paternidade responsável estimularia esse tipo de opção existencial. O Social Security é constituído por contribuições obrigatórias. A alíquota é de 6,2%, incidente sobre a renda anual situada acima de determinado limite. No exercício fiscal de 1997/98, abrangia rendimentos superiores a US$ 65 mil. No mesmo exercício fiscal, a aposentadoria limitava-se a US$1.300/mês. A cada exercício, a família cuja renda anual não haja alcançado determinado patamar, recebe a complementação. No exercício fiscal de 2004/2005 esse nível de renda era pouco inferior a vinte mil dólares. Em 1996, o número de segurados que receberam benefícios era de 44 milhões, compreendendo não só a complementação de renda como às aposentadorias. Ainda em fins da década passada, o governo criou uma comissão independente para avaliar as perspectivas do Social Security. Os resultados dessa avaliação estão contidos na publicação intitulada It is time to reform social security?, de Edward M. Gramlich, professor da Universidade de Michigan, que presidiu a comissão (University of Michigan Press, 1998, 103 p.). A conclusão é de que não havia probabilidade de déficit no horizonte do estudo (2020). Apesar disso, o Partido Republicano insiste em que lhe sejam aplicadas as regras existentes para os fundos de pensões 2, que são a instituição garantidora da aposentadoria ao nível da renda que o associado haja alcançado no período anterior. São constituídos por contribuições voluntárias. Por sua relevância, voltaremos a esse tema dos fundos de pensões. Os recursos disponíveis pelo Social Secutity são significativos. Como proporção do PIB, tem evoluído como segue: Ano % , , , , ,9 Fonte: US Treasury Em conformidade com o balanço do primeiro trimestre do ano fiscal 2005/2006 (meses de Julho, Agosto, Setembro), o Social Security representou 6,9% do PIB. 2 Os argumentos utilizados são de índole moral. Afirma-se que num país em que existem tantas oportunidades de trabalho -- e de crescimento material --, nada justificaria que uma pessoa fique na dependência do Social Sucirity durante períodos dilatados. 7

8 Há um outro programa relacionado à renda mínima, o denominado medcare, que faculta assistência médico-hospitalar à camada populacional considerada pobre. Seus dispêndios têm crescido (2% do PIB em 1999/2000; 2,2% nos exercícios seguintes e 2,4% no primeiro trimestre do ano fiscal 2005/2006). Esse programa é de todo discutível, na medida em que presta-se à prática de burlas, tanto por usuários como prestadores de serviços. Assim, por exemplo, no governo Reagan verificou-se que o número de beneficiários permanecia estável enquanto se elevavam os honorários médicos. Sob vigilância e debaixo de críticas, tem sido mantido. Para que se disponha de um parâmetro de comparação, tenha-se presente que os dispêndios com a defesa, que era de 3% do PIB em 2000/2001, evoluíram no primeiro trimestre do exercício fiscal 2005/2006 para 3,9%. Em diversos estados há alguns programas específicos, com base em recursos orçamentários. Tal é o caso do amparo à velhice. No balanço que efetiva dos vários programas, Edward D. Berkowitz (America s Welfare State. From Roosevelt to Reagan, John Hopkins University Press, 1991) considera-os bem sucedidos. Mas prefere o que denomina de seguro social. Destaca que estes seguro médico e seguro desemprego beneficiam-se da concorrência entre empresas e aportam recursos às inversões, enquanto os programas assistenciais dos governos dependem da integridade de executores, nunca se podendo determinar, de modo rigoroso, as razões de eventuais fracassos ou sucessos. O fato de que um jornal como El mundo, considerado de direita, se permita distorcer a tal ponto a realidade - sem encontrar reprimenda de quem quer que seja -- é uma demonstração expressiva daquilo a que Jeal-François Ravel chamou de obsessão antiamericana, que, na Europa, parece corresponder a unanimidade. 2. Negação da existência de modalidade diferente de financiamento Na discussão das alterações introduzidas pelo governo português na segurança social, com vistas a reduzir o déficit orçamentário em 2006, o Ministro do Trabalho negou que houvesse outra forma de financiamento, isto é, aumento das contribuições ou dos impostos. O foco entretanto está errado. As despesas decorrentes da manutenção dos principais programas da seguridade social (com exclusão, apenas, dos que no Brasil se denominou de rede de proteção social, isto é atendimento a situações de indigência) configuram, em todas as circunstâncias, situações futuras. As pessoas somente se aposentam depois de muitos anos de trabalho. A pretensão de assistência em caso de enfermidade ou desemprego também equivale a situações que podem ou não apresentar-se no futuro. Sendo assim, não há nenhuma razão que justifique sejam atendidas como se se tratasse de gastos correntes, isto é, despesas a serem reembolsadas quando aparecem. Portanto, as situações contempladas pela seguridade social requerem seguro, isto é, poupança que assegure rendimentos suficientes para atendê-las quando se apresentem. O fato de que historicamente não se tenha conseguido estruturá-las nessa forma não significa, de modo algum, que não possam ser revertidas. 8

9 A modalidade consagrada de atender a encargos de seguro consiste em utilizar para pagamentos correntes os rendimentos auferidos de aplicações. Nos começos da segurança social, tanto no Brasil como em Portugal, além das contribuições dos associados, havia investimentos do Estado, com vistas a auferir receitas quando se tratasse de pagar as prometidas aposentadorias. Esses investimentos, de um modo geral, foram encaminhados para imóveis, sobretudo moradias. A experiência demonstrou que não assegurava o retorno requerido. De modo que, quando chegou a época de atender aos compromissos, introduziu-se a praxe de utilizar as contribuições para esse fim. A crise diz respeito precisamente a essa modalidade. Nos Estados Unidos o problema foi desde logo tratado como um seguro, mediante o estímulo à criação de fundos de pensões. Mas há outras formas, a exemplo da alienação de bens do Estado a fim de constituir fundos de que possam resultar, num dado prazo, certos níveis de rendimentos. A Noruega deu recentemente início a uma nova modalidade. O superávit orçamentário resultante dos royalties e dos lucros da atividade petrolífera (empresa estatal Statoil, que conta com 30% de participação privada) estão sendo encaminhados a Fundo de Investimentos destinado a fazer aplicações exclusivamente externas. Em 2002, esse Fundo dispunha de US$ 114 milhões para realizar investimentos. A suposição é de que as reservas de petróleo, de que o país dispõe, durariam vinte anos. O patrimônio assim acumulado destina-se, a longo prazo, a financiar o sistema de segurança social. 3. Atribuição indevida de méritos ao modelo europeu Na discussão dos problemas existentes no modelo social europeu e nas dificuldades encontradas para a sua reformulação, editorial do jornal O Público editado em Lisboa e que corresponderia ao Le Monde francês, isto é, dedicado à defesa de posições moderadas de esquerda -- suscitou a tese de que diria respeito aos valores sociais. Comparando os modelos europeu e norte-americano, alegou-se, em desfavor deste último, a existência de altos níveis de criminalidade. Invocou-se este exemplo: o sistema carcerário na Califórnia consome dispêndios idênticos aos encaminhados para a educação. Parece-me haver aqui um grande equívoco. Quando Jacques Delors 3 refere a Solidariedade como o princípio norteador no subsistema social obviamente não tem em vista a sociedade como um todo. Os dois outros subsistemas (economia de mercado e democracia) também dizem respeito à vida social. A solidariedade é o princípio norteador da proteção social. Permito-me lembrar que os especialistas estabelecem diferenciação entre solidariedade voluntária (equivalente, no âmbito em que a estamos considerando, à tradicional caridade privada) daquilo que temos em vista, por eles denominada de solidariedade obrigatória, porquanto pública e universal. Cumpre ainda distinguí-la da equidade. Finalmente, é de todo evidente que tem servido sobretudo para criar dependência. Levando em conta 3 Jacques Delors, conhecido líder socialista francês, foi presidente da Comissão Européia de 1985 a Num documento elaborado após o Tratado de Roma (1992)-- que definiu as dimensões do projeto da Comunidade indicou que o modelo social europeu, concebido a partir de enfoque sistêmico, deveria basearse neste tripé: no sistema político, Democracia; no econômico, Mercado; e, no social, Solidariedade. 9

10 balanços consistentes da experiência de aplicação dessas políticas que teremos oportunidade de apresentar aqui com o imprescindível detalhamento--, os socialistas britânicos entendem que o princípio da solidariedade, nas situações de que se trata, isto é, de políticas públicas, deve ser substituído pelo da reciprocidade. No sentido próprio e nos adequados limites em que é enunciado, o princípio em apreço aparece pela primeira vez no Poor Law Report, documento que instruiu a aprovação pelo Parlamento inglês, em 1834, do Poor Law Amendement Act. O novo estatuto distinguiu indigência ( estado da pessoa incapaz de obter, em retribuição ao seu trabalho, os meios de subsistência ) de pobreza ( estado daqueles que, para obter a própria subsistência, são obrigados a recorrer ao trabalho ). Esclareceu ainda que a indigência compreende, além dos incapacitados a manter-se por si próprios, os velhos e os enfermos. A lei determinou que o apoio a essas pessoas não deve ficar na dependência apenas da caridade privada, devendo resultar de um sistema público e legal de amparo, mantido por contribuições compulsórias. O estabelecimento de critérios objetivos para precisar em que consistia o mínimo necessário para a sobrevivência seria devido a Sheebohm Rowntree, que os apresentou no livro Poverty: a Study of Town Life (London, Macmillan, 1901). Louvou-se de medidas tomadas por um nutricionista norte-americano e do registro e observações feitas em prisões inglesas. A esse mínimo, que dizia respeito à alimentação, adicionou dispêndios com a manutenção da casa, chegando a um desembolso semanal. Todos os estudos posteriores tomaram por base a contribuição pioneira de Rowntree. Os países desenvolvidos, de um modo geral, eliminaram o problema da indigência desassistida. O padrão mais comum reside nos programas de assistência à velhice. Na França, o problema é contemplado ainda pelo programa de assistência às famílias. As pensões, a que fazem jus o cabeça da família, se transferem a dependentes sem renda, havendo ainda amparo às que não obtêm o mínimo necessário à sobrevivência. Acoplou-se a esse tipo de assistência, prêmios de fomento à natalidade. Com idêntico objetivo, alguns países mantêm programas de renda mínima. De modo que a redução da criminalidade ou outros indicadores que eventualmente possam traduzir padrões morais adequados à convivência social não podem estar compreendidos nos resultados esperados da observância, do princípio da solidariedade, na organização dos sistemas de proteção social. III. COMO PODEMOS TIRAR PARTIDO DO DEBATE EUROPEU A questão do Welfare não pode certamente ser dissociada do conjunto de aspectos suscitados pelo modelo econômico social vigente na Europa. Depois de Delors, Tony Blair propôs-se discuti-lo com toda a amplitude. Ao assumir a Presidência Rotativa da Comunidade apresentou o conjunto de providências que submetia à consideração da Europa, na sessão do Parlamento Europeu de 23 de Junho de Em seguida, convocou a Cimeira denominada HAMPTON COURT (nome do palácio em que teve lugar, na Inglaterra), levada a cabo a 27/10/

11 Numa abordagem com a máxima amplitude como não poderia deixar de ser --, o centro da discussão passou a ser qual o rumo a ser dado à economia. Enfatizou-se a circunstância de que, num mundo globalizado, a Europa não podia dar-se ao luxo de proteger-se da importação de produtos cujos custos decorressem, em grande medida, do emprego de mãode-obra. Ao invés de protecionismo, cabia privilegiar aquelas atividades exigentes de tecnologias de ponta, onde a região poderia concorrer com vantagem. Nessa mesma linha de raciocínio, o governo britânico investiu contra os subsídios agrícolas, de que a França não se dispunha a abrir mão. Desta vez, contudo, não obteve grandes apoios. Contudo, em que pese a importância para o nosso comércio exterior a posição que a Europa adote no que se refere ao protecionismo na importação de produtos industriais ou em relação aos subsídios agrícolas, no que se refere ao Welfare, se queremos aprender com as iniciativas que a presente crise vem exigindo, cabe evitar a abordagem global, que de certo modo tem sido imposta pelo encaminhamento resultante do Modelo Juppé. Entendo que os seus aspectos essenciais precisariam ser abordados de per-si. Nesse pressuposto, das questões levantadas por Blair consideraríamos apenas as que se acham diretamente associadas à estratégia de redução ou eliminação -- do desemprego. O tema da saúde também poderia ser discutido de forma autônoma, do mesmo modo que a questão das aposentadorias e pensões. Em síntese, vamos nos ater a estes aspectos: a) a questão do encontro de uma nova forma de financiamento das aposentadorias e pensões com base no novo modelo adotado na Alemanha b) reavaliação das políticas relacionadas ao desemprego c) a questão das remanescentes situações de pobreza extrema; e d) encontro de uma forma duradoura de organização da assistência médico-hospitalar. IV. FINANCIAMENTO DAS APOSENTADORIAS E PENSÕES 1. O novo modelo alemão O Parlamento alemão aprovou, em 2001, a nova legislação relativa ao financiamento das aposentadorias. O objetivo central consistia em adicionar ao atual sistema tecnicamente denominado de pay-as-you-go, isto é, os dispêndios são cobertos por contribuições correntes, anuais uma nova modalidade. Esta opera segundo o modelo das companhias seguradoras, isto é, as aposentadorias serão pagas pelos rendimentos provenientes de investimentos. A nova modalidade será voluntária, sendo que os principais sindicatos estabeleceram determinado padrão, consoante se refere adiante. Continuará sendo obrigatória uma contribuição destinada a assegurar aposentadoria mínima, vale dizer, aquela que seria requerida pela sobrevivência. Assim, o novo sistema diz respeito à renda adicional que possa assegurar, na aposentadoria, a manutenção de padrão de renda equiparável ao obtido na fase precedente. Espera-se que, no prazo de trinta anos, o novo modelo haja sido universalizado. Ainda que a lei faculte ao empregado a livre escolha do fundo em que fará aplicações, as maiores organizações sindicais optaram por organizar fundo próprio, em parceria com os empregadores. Em seguida apresento a indicação das características gerais do fundo 11

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