ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL: Subjetivação e consumo na cena de Natal-RN

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2 JÉSSICA DA SILVEIRA MESSIAS ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL: Subjetivação e consumo na cena de Natal-RN Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como exigência para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Alexsandro Galeno Araújo Dantas NATAL 2013

3 JÉSSICA DA SILVEIRA MESSIAS ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL: Subjetivação e consumo na cena de Natal-RN Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como exigência para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Aprovada em: / / BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Alexsandro Galeno Araújo Dantas (PPGCS/UFRN) Orientador Prof. Dr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior (PPGCS/ UFRN) Profª. Drª. Rosamaria Luiza de Melo Rocha (PPGCOM/ESPM)

4 AGRADECIMENTOS Inicialmente, gostaria de avisar àqueles que estão acostumados com agradecimentos de um parágrafo, ou que acham entediante lê-los, que eu costumo ser prolixa nessa parte, então, sintam-se à vontade para pulá-la. Escrever os agradecimentos que representam uma fase que se encerra agora, mas que durou dois anos, é algo muito prazeroso, pois traz à tona várias boas lembranças! Em primeiro lugar, acho que devo agradecer ao Heavy Metal e as Ciências Sociais, pelo papel importante que têm em minha vida e por terem se entrelaçado de tal maneira, possibilitando o surgimento desse trabalho. Minha família também merece lugar de destaque nesses agradecimentos. Meu pai, que detesta Heavy Metal, (assim como eu detesto o Nelson Gonçalves dele) por todo o apoio e carinho e por ser um pai orgulhoso, que sai espalhando aos quatro ventos que a filha dele, aos 23 anos, está terminando o mestrado. Meu irmão, que começou a ouvir Metal junto comigo. Geralmente, irmãos costumam brigar, mas nós não, nos amamos muito e não desgrudamos um do outro. Obrigada, Yuri, por ter lido o trabalho (meio a contragosto, no início, subornado com um pouco de videogame...) e por todo o apoio e carinho. E, finalmente, obrigada a minha mãe querida que, como eu falei nos agradecimentos da minha monografia, é meu anjo! Não tenho palavra melhor para defini-la! Meu anjo que sempre está comigo, me protegendo, cuidando de mim e que fala: Põe aquela música daquela banda que eu gosto. (Risos) Amo vocês! Agradeço à amiga Martha Isabelle, que sempre está lá quando eu preciso, seja para o que for! Inclusive, para ler minha dissertação, subornada com cookies e sorvete. Amigos de verdade são assim e eu espero que você saiba que pode contar comigo para

5 tudo, assim como eu também conto com você! Já que estou falando das pessoas que se deram o trabalho de ler minha dissertação, agradeço logo à amiga Larissa, que estará comemorando aniversário no mesmo dia que eu, na minha defesa. Obrigada por ter lido e me ajudado a revisar! Espero que tenha gostado de ser subornada com a comida da minha mãe! (Risos) Aproveito para agradecer ao chato do Gilson (brincadeira), por ter lido uma parte do terceiro capítulo e dado sua opinião. Mesmo que tenha sido aos trancos e barrancos... acho que você demorou a ler porque não teve suborno! (Risos) Agradeço as amigas Jacilda e Jossana que, mesmo não estando tão presentes durante o processo da escrita, por estarem ocupadas com suas graduações, sempre me apoiaram com sua amizade e carinho. Afinal, 8 anos de amizade, quase 9, não são pra se desconsiderar! Amo vocês! Aos meus amigos espalhados pelo país (principalmente em São Paulo) por tudo o que vocês representam pra mim! Valéria (morrr!), Dayt, Bimy, Maga, Yara, Grack, Victor, Douglas, Iris, Rafa (que nunca levou o famoso doce, pra eu provar!) e o Anderson. Gostaria também de agradecer a cidade de São Paulo, por ter acolhido tão bem essa carioca que vos fala. Todas as vezes que fui a São Paulo foram mágicas! Devo muito disso a Val, que facilitou demais todas as minhas estadias, me acolhendo em seu lar e se transformando em uma das pessoas mais queridas nesse mundo, para mim. Uma de minhas melhores amigas! Agradeço também ao meu Alexis Sawyer, sabor maçã verde, por tudo que houve e tudo que haverá! Amo todos vocês também! Os eventos que participei em 2012 também significaram muito para mim e para o meu trabalho. O II SIEP consumo, na PUC de São Paulo, o VI ENEC e II Encontro Luso-Brasileiro de Estudos sobre o Consumo, que ocorreram simultaneamente no Rio de Janeiro, organizados pela ESPM. E o I Encontro Nacional da Rede de Grupos de Pesquisa em Comunicação, organizado pelo Filocom, em São Paulo também, belíssimo

6 evento! (Parabéns mais uma vez, Lauren!) Em cada um desses eventos, eu pude perceber que o meu trabalho foi muito bem aceito. Tive a oportunidade de apresentá-lo e debater sobre ele com pessoas muito interessantes. Inicialmente, por ter escolhido estudar o Heavy Metal, imaginei que o trabalho não seria tão bem aceito como foi, preconceito bobo esse meu, não? Aos amigos Ericksen e Dayana, que sempre me acompanham nos shows de Heavy Metal e pelos quais eu tenho um grande carinho. Aos meus entrevistados, que colaboraram bastante com tudo. Ao artista, Allan Leal, que fez uma bela capa. Aos colegas da turma de mestrado, lembram-se do sufoco que enfrentamos juntos no seminário de dissertação? Agradeço também àqueles que tiveram uma participação não tão positiva na minha vida, durante esses dois anos de mestrado. Afinal, as más experiências também são engrandecedoras, a meu ver. Bom, gostaria de encerrar agradecendo a alguns professores que foram muito importantes na minha formação, desde a graduação. Primeiro ao meu orientador, Alex, que, para além da academia, se mostrou um amigo! Obrigada pelos puxões de orelha, pelos elogios e pelo processo de orientação, em geral. À professora Norma Takeuti e ao professor Eduardo Pellejero, por terem acompanhado meu trabalho desde a préqualificação, dando sempre conselhos valiosos e avaliando rigorosamente. Aos que fizeram parte da minha formação, na graduação: Alípio, Edmundo, Vitullo e Willington. Ao Orivaldo, que fará parte da banca e que é o professor do qual eu falo nas considerações finais. E também à professora Rose de Melo, por participar da banca. Espero não ter me esquecido de agradecer a ninguém, mas, se for o caso, perdoem minha memória!

7 RESUMO Nossa pesquisa visa compreender a configuração da resistência (Foucault) enquanto estilização da vida na contemporaneidade, tendo o Heavy Metal enquanto objeto de estudo específico. Acreditamos que o Metal se configure em um dispositivo ethopoiético possibilitador de práticas de liberdade frente aos hábitos morais reificados desde os primórdios da socialização do sujeito. Isso se reflete, principalmente, na criação de novas maneiras de estilizar a vida que são individuais e grupais, ao mesmo tempo. Sugerimos também uma ampliação do pensamento sobre o tema da resistência, em Foucault, tendo em vista a sociedade de consumo descrita por Zygmunt Bauman. Nossa hipótese é a de que o contato com o mundo underground do Heavy Metal é o possibilitador de novas formas éticas (Foucault), onde há a adesão e o comprometimento do sujeito com o Heavy Metal enquanto um modo de vida. A partir daí, o consumo se torna uma palavra chave, na medida em que, participar do underground do Heavy Metal - enquanto uma prática de liberdade, um modo de existência particular constitui também uma forma de consumo que foge às regras gerais do mercado, sendo um consumo diferenciado tanto na forma quanto na sua duração. Palavras-chave: Heavy Metal; Resistência; Consumo.

8 ABSTRACT Our research intends to comprehend the configuration of the resistance (Foucault) as the stylization of life in the contemporary world, taking Heavy Metal as the specific object of study. We believe that Heavy Metal is an ethopoietical device which admits practices of freedom withstanding the reified moral habits since the beginning of the socialization. This is reflected, mainly, in the creation of new individual and communal ways to stylize the life. We also suggest an expansion of Foucault s concept of resistance, considering the idea of consumer society described by Zygmunt Bauman. Our hypothesis understands that the contact with the underground of Heavy Metal provides new ethical manners (Foucault), where the individual take the Heavy Metal as a way of life. At this point, the consumption becomes a key-word since the participation in the underground of Heavy Metal is a way of consumption out of the rules of marketing a practice of freedom, a way of particular existence, being different in both mode and duration. Key-words: Heavy Metal; Resistance; Consumption.

9 SUMÁRIO Introdução Capítulo 1 Headbanger: Uma estilística de vida e resistência na contemporaneidade Resistência enquanto elaboração de novas éticas Heavy Metal: liberdade, escolha pessoal e ética Capítulo 2 Modernidade, solidez e liquidez Vida líquida e consumismo na sociedade contemporânea A experimentação de um consumo diferenciado a partir do Heavy Metal Capítulo 3 A Cena Heavy Metal, em Natal: O Heavy Metal para além dos shows Considerações Finais Anexos Referências Bibliográficas

10 Introdução Escolhi, para esta pesquisa, ter o Heavy Metal como objeto de estudo. Mais especificamente, a cena Heavy Metal na cidade de Natal RN. Faz-se mister, nesse espaço, explicitar as razões pelas quais se deu a escolha do meu objeto de pesquisa. Primeiramente, gostaria de me apresentar enquanto parte integrante dessa cena que pesquiso agora. Comecei a ouvir Heavy Metal por volta dos 14 anos de idade e, desde então, esse tipo de música, além de ter mexido comigo de uma forma diferente e mais intensa, me fez parar para observar certas idiossincrasias presentes em seus apreciadores. Eu estava diante de algo novo e de uma relação diferenciada com a música, a qual eu nunca havia observado anteriormente em outras pessoas e, muito menos, vivenciado eu mesma. Tratavam-se de pessoas singulares, de alguma forma, e isso era um fato fascinante e inegável para mim. Deu-se o primeiro contato o encantamento com a cena! A partir de então fui adentrando cada vez mais nesse universo e me apaixonando mais e mais por ele. O primeiro contato se deu no ensino médio. Posteriormente, me inseri no mundo das Ciências Sociais, outro universo peculiar e não menos fascinante. A partir do contato com esses dois mundos, que têm grande peso na minha formação, tive a ideia de uni-los, de alguma forma, abordando o Metal enquanto temática de pesquisa dentro da Sociologia. Este trabalho é uma forma de estudar algo que me fascinou, passando a limpo o porquê desse fascínio. E, mais do que isso, também é uma forma que achei de contribuir mais com a cena Heavy Metal, como terei a oportunidade de falar melhor no decorrer dessas páginas. Agora, que já coloquei sobre a mesa a minha relação com o que pesquiso, pois quem fala, fala sempre de algum lugar, ressalto o maior grau de dificuldade da proposta 9

11 de falar de algo que também faço parte. Parte importante da minha pesquisa se deu na forma de entrevistas semi-estruturadas e sempre ressaltava para meus entrevistados, que além de colaboradores, são meus amigos, o fato estranho de estar perguntando sobre coisas que eu já deveria saber, que qualquer um dentro da cena sabe, e a importância disso dentro da minha pesquisa, pois, por mais que todos sempre falem de algum lugar, deve haver um estranhamento em relação ao objeto de estudo. E perguntar coisas que parecem óbvias, mesmo para quem pesquisa, é uma tarefa sempre surpreendente, pois, com o ato de pesquisar, sempre descobrimos que o que parecia óbvio, nunca o é, pelo contrário, nos revela muitas surpresas instigantes. Essa é a sensação de fazer uma pesquisa dentro de um ambiente familiar ao pesquisador e acho que ela deve estar presente em qualquer pesquisa. O pesquisador sempre constrói um projeto para sua futura pesquisa e nele lança suas hipóteses. A atividade de pesquisar deve ser encarada como um caminho, de idas e vindas, um ensaio. 1 Aquele pesquisador que não constrói sua pesquisa durante esse caminho, mas que a pressupõe a partir de seu projeto fechado, não é um bom pesquisador. Muito curioso também foi o interesse, de todos os que contatei, em ajudar e contribuir para o meu trabalho, de fazerem parte disso. Explicitadas as razões da escolha do objeto e minha relação com o mesmo, se faz necessário introduzir o leitor minimamente no universo do Heavy Metal. O Estilo começa a tomar forma no final da década de 60, a partir de influências do Blues e tendo como contexto de surgimento o período logo após o ano de 1968, marcado por protestos da juventude contra o status quo. Há controvérsias acerca do seu surgimento, que giram em torno de qual seria a primeira banda de Heavy Metal da história. Existem duas 1 Aqui, faço claras referências a dois textos que fizeram parte da minha formação acadêmica: o primeiro capítulo de Educar na era planetária, de Edgar Morin, intitulado O Método; e O ensaio como forma, de Theodor Adorno. Os dois textos propõem o ensaio como uma forma de escrita mais rica, ao contrário dos textos científicos, que restringem e enquadram a escrita. 10

12 opiniões mais aceitas. Alguns dizem que foi o Led Zeppelin, outros, que foi o Black Sabbath. No geral, a versão mais aceita é a de que o Led Zeppelin trouxe muitos elementos importantes que viriam a contribuir para o surgimento do Heavy Metal, porém, que a primeira banda considerada realmente do estilo seria o Black Sabbath, com o lançamento da música que leva o mesmo nome da banda, no ano de Black Sabbath é uma música que traz um elemento novo: o peso. As notas graves e a afinação mais grave dos instrumentos traz o sombrio como uma característica nova. Weinstein divide a estratificação do gênero em cinco fases: erupção entre 1969 e 1972, com bandas apresentando características de um código em formação ainda sem a classificação do termo heavy metal, tais como a tríade britânica Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, e os norte-americanos Iron Buterfly e Blue Cheer; cristalização entre 1973 e 1975, com a adoção do nome de batismo; golden age entre 1976 e 1979; expansão de limites geográficos de público e aumento do número de bandas e de fãs, entre 1979 e 1983, com o florescimento da New Wave of British Heavy Metal, de bandas como o Iron Maiden e o Motorhead; crescimento, incorporação de novas influências e subdivisão em múltiplos subgêneros, depois de 1983 (2000:21), com o surgimento dos subgêneros thrash, death, black, power, gothic, prog e new metal entre outros. (LOPES, 2006, pág: 120) Falando especificamente sobre o Heavy Metal em Natal, podemos dizer que a cena é pequena e restrita, sem muita expressividade dentro de uma cidade onde predomina o gosto pelo forró, como em muitas cidades do nordeste do país. Muitas pessoas que habitam em Natal, quando souberam do meu objeto de pesquisa, fizeram o seguinte questionamento: Mas existe uma cena Heavy Metal aqui? Pois é, essa cena existe sim, apesar de pequena e não muito aparente. E o fato de esse estilo musical ter pouca expressividade aqui não significa que ele cumpra menos sua função ethopoiética 11

13 para aqueles que são amantes do Metal. Ter poucos adeptos implica numa maior dificuldade da manutenção desse estilo. Gostar de Heavy Metal e, mais ainda, vivê-lo, torna-se mais complicado em um lugar onde ele é um estilo marginal, por assim dizer. Se nos dias de hoje é complicado, quem dirá na década de 80, quando a cena começou a surgir. Porém, essa dificuldade inicial se traduzia também em um maior sentimento de união da cena, sentimento esse que, segundos os headbangers, se esvai a cada dia, principalmente com o advento da internet. A internet tem um papel fundamental no acesso a todo tipo de materiais e músicas, sem falar na comunicação com pessoas que estão distantes, o que é muito importante dentro do Heavy Metal, que é um estilo global. Porém, a internet também causou o distanciamento e uma mudança de hábitos no que se refere às formas de socialização dos ouvintes de Metal em Natal e nas formas de compartilhamento de material. Atualmente, temos uma cena em que a velha guarda do Metal coexiste com os mais novatos, algumas coisas mudaram desde os primórdios da cena e trataremos melhor disso no nosso terceiro capítulo. A hipótese central desse trabalho é a de que o Heavy Metal é ethopoiético, que é um dispositivo que cumpre funções específicas de subjetivação (Foucault), que forma novas éticas, novas estilísticas de vida e isso é visto por nós como uma forma de resistência na sociedade contemporânea. E, como estamos falando de sociedade contemporânea, incluímos Zygmunt Bauman nas nossas reflexões, pois esse autor nos dá um diagnóstico, que julgamos interessante, do mercado enquanto regulador social na contemporaneidade e dos efeitos disso nas relações sociais. Bauman fala de uma sociedade consumista, pois bem, temos como hipótese que o consumo, dentro do Heavy Metal é diferenciado, por não estar de acordo com os padrões de consumo dessa sociedade líquido-moderna descrita por Bauman. Os produtos consumidos são 12

14 diferentes, as razões pelas quais se consome são diferentes e a duração desse consumo se diferencia também, como falaremos no nosso segundo capítulo. No primeiro capítulo lançamos uma das bases teóricas do nosso estudo, que é construída a partir das reflexões de Michel Foucault. Bem como, apresentamos algumas partes das entrevistas que realizamos. No segundo capítulo, tratamos da outra base teórica do nosso estudo. Ela é composta principalmente pelas reflexões de Zygmunt Bauman sobre a contemporaneidade. Esse capítulo é encerrado com o antropólogo David Le Breton e suas ideias sobre o corpo como acessório. Em nosso terceiro capítulo discutimos de forma mais específica sobre a cena Heavy Metal de Natal, fazendo um pequeno resgate da sua história e tentando mostrar como ela funciona, o Metal para além dos shows, pois nem só de shows se faz o Heavy Metal. Demonstrar isso é uma das nossas propostas, fazer ver que o Metal é algo para além de um estilo de música que se ouve. Finalizamos nosso terceiro capítulo apresentando de forma mais detalhada perfis de alguns headbangers natalenses que foram entrevistados durante a pesquisa. Como forma de tentar imprimir alguma musicalidade em um trabalho escrito sobre a música, produzimos um DVD que acompanha o texto da dissertação, no qual exibimos um vídeo de cada uma das bandas de Natal que foram citadas no trabalho. Somente a primeira música do DVD é de uma banda de Black Metal sueca, que também aparece no decorrer do texto. Esperamos que este seja um trabalho que inicie aqueles que não têm contato com o universo do Heavy Metal e que, para os colegas e amigos headbangers, seja apreciado como fonte de conhecimento novo e de uma visão diferente daquilo que eles já conhecem tão bem. 13

15 1 Headbanger: Uma estilística de vida e resistência na contemporaneidade. Nessa pesquisa, tomamos como objeto de estudo a cena do Heavy Metal 2, na cidade de Natal RN, no entanto, apesar de termos escolhido um objeto bem específico, temos como objetivo, a partir desse recorte, falar de questões bem mais amplas, que dizem respeito à sociedade contemporânea em geral. Num primeiro momento, explicitaremos as bases teóricas do nosso estudo, bem como, apresentaremos essas questões mais abrangentes, que acabam, de certa forma, ultrapassando o nosso recorte. Deste modo, podemos afirmar que nosso objetivo geral com essa discussão é, a partir desse nosso objeto, suscitar questões que pensamos ser de suma importância na contemporaneidade. Este primeiro momento, representado nos dois primeiros capítulos, será, portanto, um escrito que refletirá o nosso caminho de pensamento 3, onde aparecerão os autores e as questões que norteiam nossa reflexão. As bases teóricas para essa pesquisa nos foram dadas a partir da leitura de, principalmente, dois autores: Michel Foucault, pensador francês, e Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. O conceito de resistência, de Foucault, associado a elaborações mais tardias deste autor, que dizem respeito ao tomar-se a si mesmo enquanto obra de arte, na construção de novas éticas, é de suma importância na composição de nossa reflexão, como também a sociedade líquido-moderna, descrita por Bauman, nos servirá de pano de fundo. 2 Utilizamos o termo Heavy Metal aqui, de forma geral, abrangendo com isso todas as ramificações associadas a esse estilo musical. O termo Heavy Metal também pode ser utilizado quando se fala especificamente do Heavy Metal clássico, que deu origem a incontáveis subdivisões, como, por exemplo, o Death Metal, o Thrash Metal, o Power Metal e assim por diante. 3 Expressão que tomamos emprestada de Heidegger, em seu ensaio A questão da técnica. 14

16 Ao longo do texto também explicitaremos nossa pesquisa empírica, que se deu na forma de entrevistas semi-estruturadas. Apesar de essa primeira parte ter um cunho notadamente teórico, nosso objetivo é fazer um trabalho que prime por uma boa relação entre teoria e prática. Então, tratar-se-á de um escrito mais teórico, onde aparecerão, também, as vozes de nossos interlocutores mescladas às vozes dos pensadores que sustentarão nossa caminhada. Primeiramente, gostaríamos de explicitar o uso do termo cena na denominação do todo que abrange os sujeitos e as práticas relacionadas ao Heavy Metal. Além de cena ser um termo amplamente utilizado pelos próprios headbangers 4, o sociólogo inglês Keith Kahn-Harris propõe a utilização do conceito de cena, em detrimento do conceito de subcultura, ou do conceito de tribo urbana, de Michel Maffesoli, sociólogo francês. Para Kahn-Harris, o Heavy Metal não pode ser descrito enquanto uma subcultura, pois este conceito designa algo mais voltado para um ajuntamento com objetivos políticos, no sentido de uma resistência política contra-hegemônica. O Heavy Metal, como discutiremos mais adiante, não é um ajuntamento com objetivos políticos, pelo menos, não no sentido usual do termo política. O movimento Punk, por exemplo, poderia entrar na classificação de uma subcultura, já que suas aspirações de cunho político e contra cultural são bem explícitas, ao contrário do Heavy Metal. Mais a frente, explicitaremos nossa proposição do Heavy Metal enquanto resistência na configuração de uma ética particular. O conceito de tribos urbanas, de Maffesoli, também é deixado de lado por esse autor, pois designa um ajuntamento que se dá 4 Headbanger é um termo que vem da língua inglesa e que traduzido literalmente significa: batedor de cabeça. Esse termo é amplamente utilizado na denominação dos fãs de Heavy Metal em geral. Está intimamente ligado ao ato de bater cabeça, ou seja, balançar a cabeça de acordo com o ritmo da música que se ouve. 15

17 somente na forma de alianças afetivas baseadas em sensibilidades temporariamente compartilhadas. 5 (KAHN-HARRIS, 2007, pág. 18, tradução nossa). A utilização do conceito de cena, segundo Kahn-Harris, seria no sentido de intermediar os conceitos de subcultura e tribos urbanas, já que esses dois conceitos tornam-se restritivos para falar acerca do Heavy Metal, pelos motivos descritos no parágrafo anterior. O ajuntamento proporcionado pelo Heavy Metal não se restringe a objetivos políticos, no sentido de constituir uma contra-hegemonia, tampouco baseia-se apenas em uma afetividade compartilhada. Apesar de ser constituído também das características que estruturam esses dois conceitos. As Alan Blum has shown, scene has rich connotations of the urban and of nightlife. John Irwin notes that the term can be used in two very different ways in everyday language. It can be used in the sense of that s not my scene, connoting vague notions of lifestyle. It can also mean something subcultural. However, the two senses of the term are not necessarily contradictory. They both connote something that is shared, something we choose or not to participate in. Scene can be both a public space and a more general way of living. 6 KAHN-HARRIS, 2007, pág. 18) O trecho citado acima, da obra Extreme Metal. Music and Culture on the Edge, de Kahn-Harris, nos traz uma definição rápida do conceito de cena utilizado pelo autor. Cena traz o elemento urbano, que é parte integrante do Heavy Metal, e pode significar 5 temporarily shared sensibilities, do original, em inglês. 6 Como Alan Blum nos mostra, cena tem ricas conotações do urbano e da vida noturna. John Irwin observa que o termo pode ser usado de duas formas diferentes na linguagem cotidiana. Pode ser usado no sentido de esta não é a minha cena implicando noções vagas de estilo de vida. Pode significar também algo subcultural. No entanto, os dois significados do termo não são necessariamente contraditórios. Os dois sugerem algo que é compartilhado, algo que escolhemos participar ou não. Cena pode ser os dois: um espaço público e um modo de vida mais geral. (Tradução nossa) 16

18 algo referente a uma subcultura porém, como falamos aqui, para o autor, esses dois conceitos são distintos ou algo relativo a um estilo de vida. O principal aspecto desse conceito, no entanto, é que ele traduz a noção de algo que é compartilhado e, como fala o autor nesse trecho citado, algo que nós escolhemos participar ou não. 1.1 Resistência enquanto elaboração de novas éticas. Foucault, geralmente, é mais conhecido por suas elaborações acerca do poder disciplinar, das relações de poder, da positividade do poder na construção de corpos dóceis. Porém, para fins didáticos, costuma-se dividir sua obra em três momentos. Primeiramente, os estudos da constituição do sujeito a partir do discurso científico e das relações entre sujeito, verdade e saber. Momento esse que tem como principal referência a obra As Palavras e as Coisas. Em um segundo momento, também o mais conhecido, Foucault irá se preocupar com o engendramento do sujeito pelos dispositivos disciplinares, onde ele vai se debruçar sobre a questão do poder, de forma mais específica, e sobre quais instituições estão produzindo o sujeito e de que forma elas o produzem. Uma obra representativa dessa segunda subdivisão do seu pensamento é Vigiar e Punir. Já em um terceiro momento, que não é tão conhecido quanto os outros dois anteriores, o qual nos interessa nesse trabalho de pesquisa, o pensador francês irá tomar com mais centralidade a questão do sujeito, que, segundo ele, sempre permeou suas discussões desde o início de sua obra, porém, não com a centralidade que é dada nesse terceiro momento. Nos últimos anos de sua vida, Foucault vai se preocupar com o 17

19 modo pelo qual o homem se torna sujeito de si através da insubmissão do pensamento, da estilização da vida, através da criação de novas éticas enquanto práticas de liberdade. Foucault, em O Sujeito e o Poder, escrito que pertence a esse terceiro momento do qual falamos, sugere uma nova forma de proceder com a investigação dos fenômenos sociais. Ele propõe ter como ponto de partida não somente as relações de poder, mas também as formas de resistência criadas pelos sujeitos contra as diferentes formas de poder. A partir do estudo das resistências nós poderíamos analisar as relações de poder e o modo como se dão os antagonismos na dinâmica social. E para compreender o que são as relações de poder, talvez devêssemos investigar as formas de resistência e as tentativas de dissociar essas relações. (FOUCAULT, 1995, pág. 234) A nossa proposta central aqui é a de que o Heavy Metal pode ser pensado enquanto uma ética, no sentido foucaultiano do termo. Desta maneira, o Heavy Metal pode ser visto enquanto uma forma de resistência, uma insubmissão do pensamento, uma prática de liberdade. Iremos falar de forma mais cuidadosa dessa questão no decorrer do texto. Estudar as formas de resistência significa estudar as formas tomadas pelas lutas antiautoritárias, que se constituem enquanto lutas de resistência a determinadas relações de poder. Segundo Foucault, as lutas antiautoritárias têm alguns aspectos em comum. Primeiramente, são lutas transversais, ou seja, são lutas globais. O Heavy Metal, enquanto forma de resistência, tem essa característica de ser global. O fenômeno do Heavy Metal não se restringe a um país, nem tampouco a um continente, esse estilo é escutado e executado em quase todo o mundo. O antropólogo canadense Sam Dunn produziu um documentário que fala especificamente dessa questão, denominado Global 18

20 Metal 7. O antropólogo se coloca como questão de pesquisa como esse estilo ultrapassou as fronteiras da América do Norte e Europa, onde ele tem grande peso, e afetou culturas em torno de quase todo o mundo. Dunn fez sua jornada de pesquisa pela Ásia, Oriente Médio e América do Sul, e passou por países em que ele, anteriormente, achava que não encontraria o Heavy Metal, principalmente, com a intensidade com a qual ele se deparou. Ele também produziu outro documentário sobre Heavy Metal, denominado: Metal: A Headbanger s Journey 8, no qual ele faz um resgate das raízes desse estilo, fala sobre algumas controvérsias existentes e conversa com fãs sobre o significado que a música tem na vida deles. A partir desse documentário, Dunn nos conta que teve a oportunidade de receber diversos s de várias partes do mundo agradecendo pelo belo trabalho feito por ele. Na ocasião, ele entrou em contato com pessoas de locais onde ele jamais imaginou que o estilo estivesse presente. Então, surgiu o interesse em fazer o segundo documentário falando sobre o aspecto global do Heavy Metal e questionando como as diferentes culturas assimilaram o Metal. O autor inicia seu documentário no Wacken Open Air, o maior festival mundial dedicado aos mais diversos gêneros e expressões do Heavy Metal. Segundo o autor, a cada ano, mais de sessenta mil pessoas do mundo inteiro acampam na pequena cidade de Wacken, ao norte da Alemanha, para prestigiar seus ídolos. Tendo explicitado o primeiro aspecto que as lutas antiautoritárias têm em comum, podemos agora passar ao segundo aspecto, que diz respeito aos objetivos dessas lutas. Elas têm como objetivo os efeitos de poder enquanto tais. Desta forma, o 7 Metal Global, em português. Referência do documentário na parte de referências bibliográficas. 8 Metal: Uma jornada headbanger, em português. 19

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