O Livro dos Mortos do Rock. Bob Dylan Pink Floyd

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1 Led Zeppelin

2 O Livro dos Mortos do Rock Bob Dylan Pink Floyd

3 Led Zeppelin Nigel Williamson Henrique Szolnoky

4 Copyright Nigel Williamson, 2007 Copyright Editora Aleph, 2011 (edição em língua portuguesa para o Brasil) TÍTULO ORIGINAL: CAPA: COPIDESQUE: REVISÃO: PROJETO GRÁFICO : EDITORAÇÃO: COORDENAÇÃO EDITORIAL: DIREÇÃO EDITORIAL: The rough guide to Led Zeppelin RS2 Comunicação Marcos Fernando de Barros Lima Entrelinha Editorial bounford.com RS2 Comunicação Débora Dutra Vieira Marcos Fernando de Barros Lima Adriano Fromer Piazzi Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. EDITORA ALEPH LTDA. Rua João Moura, São Paulo sp Brasil Tel.: [55 11] Fax: [55 11] Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

5 Agradecimentos entrevistas e websites citados no guia. Este livro se baseia, também, em entrevistas realizadas por mim com e com Jimmy Page. Agradeço, ainda, a Mark Ellingham Andrew Heritage e a Allan Jones, da revista Uncut, que frequentemente me contratou para escrever matérias à Magali, Adam e Piers. Espero que vocês tenham gostado da dieta non- stop de Led Zeppelin durante os meses em que escrevi o livro...

6 Sumário Introdução 9 Parte Um: 1. Pré-voo A ascensão do zepelim Do sucesso ao excesso Pompa e circunstância Martelo dos deuses Abuso e desgaste Pouso forçado Desembarque: os anos solo Depois de Parte Dois: A Música Os discos 151 Compilações 180 Pós-voo: carreiras solo 184 Page e Plant 184 Jimmy Page 186 Robert PLant 191 John Paul Jones 200 Raridades e bootlegs 201 As 50 maiores canções de Led Zeppelin 205 Parte Três: Zeppologia Cúmplices do Zep 231 Dez contos de excessos do Zep 241 Paradas Zeppelin: dez locações essenciais 245 Zeppelin na mídia 251 Impressa 251 Na tela 256 Websites 257 Legado Versões cover 258 Bandas-tributo 259

7 Introdução Em 1968, o mundo do rock era um lugar maravilhoso. Os Beatles tinham acabado de lançar White Album e os Stones haviam feito um retorno triunfante com Beggar s Banquet. Jimi Hendrix atingia sua apoteose, The Who estava prestes a lançar o álbum Tommy, e Cream era o grupo mais pauleira do momento. Logo, não é surpresa o fato de que poucos prestaram atenção em um novo grupo chamado Led Zeppelin, liderado por um um cantor sobre o qual ninguém tinha ouvido falar, vindo de uma banda obscura chamada Hobbstweedle, e por um guitarrista sem banda Na verdade, mesmo que não soubessem na época, o timing de Led Zeppelin foi perfeito. Dentro de dois anos, os Beatles haviam se separado, os Stones estavam perdidos no exílio econômico, Hendrix estava morto, Cream não existia mais e Pete Townshend penava para criar algo maior que a revolucionária ópera-rock do The Who. Zeppelin ocupou esse vácuo e foi a banda mais poderosa do mundo até 1980, quando decidiram parar, logo após a morte de John Bonham. Confesso que, nos meus tempos de fã adolescente de rock, fui um daqueles que inicialmente os ignoraram. Em 1969, eu tinha 15 anos e batalhava guerras diárias com as autoridades da minha escola por causa do meu cabelo comprido. Todas as tardes de sábado, encontrava caras como eu em Bromley High Street, em Kent, Inglaterra, para usar as cabines à prova de som da W. H. Smiths e ouvir os novos LPs que não podíamos comprar. Os funcionários eram gentis e geralmente permitiam que nós ouvíssemos os dois lados de um álbum, e, se a loja não estivesse muito cheia, talvez até um lado de outro disco. Quando abusávamos da paciência alheia Led Zeppelin e éramos expulsos, bebíamos café e dividíamos um maço de Senior Service na Lyon s Tea Shop, na praça do comércio, ou, se alguém tivesse dinheiro su- nos jardins da biblioteca municipal para fumar um baseado mal enrolado. Em um sábado de março, em 1969, eu estava com uns amigos aprontando lá pela Bromley High Street quando um aluno da Escola Politécnica local nos entregou um, que divulgava um show com Led Zeppelin naquela mesma tarde. Naquela altura, eu já era um entusiasta desses shows na faculdade e já tinha visto várias bandas, inclusive Jethro Tull. Mas não tinha interesse em ver Zeppelin. Tinha lido sobre eles na Melody Maker e concluí (de forma bastante estúpida, como descobri), que eram apenas uma versão nova e turbinada dos antigos Yardbirds, banda que eu considerava, com o desdém calculado da adolescência, nada além de um grupo pop que não derground. Meu melhor amigo, Pete Badham, teve uma visão mais ampla e acreditava que eles valeriam o preço do ingresso. Várias décadas depois, ele pôde escrever, em Led Zeppelin: the Concert File tiu privilegiado por poder testemunhar o início de algo especial. Eu não consegui vê-los até dois anos depois, no Royal Albert Hall, depois de reconhecer a babaquice da minha arrogância juvenil, e nunca me perdoei pela oportunidade perdida de ver um dos primeiros shows de uma das maiores bandas de todos os tempos, em um lugar que provavelmente não abrigava mais do que 300 pessoas. Desde então, entrevistei Jimmy Page várias vezes e Robert Plant em diversas ocasiões. É sempre perigoso, para um jornalista de música, dizer que 1 Introdução 9

8 mas gosto de acreditar que Plant tornou-se justamente isso. Na primeira vez que o encontrei, mais de uma década atrás, ele chegou duas horas atrasado, e desculpou-se profusamente. Então, acrescentou com uma piscadela que, quando Zep estava no auge, eu seria obrigado a esperar não por duas horas, mas sim por duas semanas. Afeiçoei-me a ele de imediato, e nos aproximamos ainda mais graças ao amor mútuo por música africana e árabe e à paixão por jardinagem que, em uma famosa situação não rock n roll, fez com que trocássemos dicas sobre plantação de morangos, para o desgosto das pessoas mente lisonjeado quando uma entrevista gravada em algumas cópias de seu álbum mais recente, The Mighty Rearranger. Ao fazer um dos rocks mais viscerais já ouvidos, tanto em estúdio quanto ao vivo, o Led Zeppelin atingiu status de mito no sentido mais literal da palavra. Em uma história de mais de 30 anos, tornou-se impossível distinguir quais das histórias ultrajantes sobre a banda são verdadeiras, quais cresceram conforme foram contadas e quais são totalmente fictícias. Este livro pretende separar os mitos da verdade. Pretende, também, analisar a música da banda e oferecer um guia sobre as carreiras solo de seus membros remanescentes. É uma história que assim como a inesquecível música de Zeppelin tem de tudo. Nunca veremos algo como eles novamente. Nigel Williamson Maio de

9 Parte 1:

10 Pré-voo

11 Os quatro músicos que acabaram se juntando para formar o Led Zeppelin eram um presente dos céus... Jimmy Page, 2005

12 Pré-voo Na mitologia do rock n roll, muitos dos grandes grupos têm um momento decisivo em que os principais integrantes se encontram por acaso ou por acidente; reconhecem, em um momento de brilhante ressonância poética, que compartilham um destino; e resolvem unir forças para dominar o mundo. O famoso encontro entre John Lennon e Paul McCartney em uma celebração da igreja em Woolton, Liverpool, em 1957, ou o esbarrão entre Mick Jagger e Keith Richards em uma plataforma da estação de trem Dartford, em 1961, vêm à mente. Mas a gênese do Led Zeppelin não seguiu exatamente o mesmo estilo. Da sofisticação londrina à Inglaterra provinciana O primeiro encontro entre Jimmy Page e Robert Plant foi quase cômico de acordo com Plant, Page e o renomado agente da banda, Peter Grant, confundiram o cantor com um roadie. Além disso, diferentemente dos Beatles e dos Rolling Stones (cujos membros compartilhavam background social, cultural e geográfico), os dois vieram de lados bem diferentes da cidade. Page morava nos subúrbios metropolitanos de Surrey, próxima da badalada Londres. Com 24 anos, já era uma estrela, um músico urbano experiente, que havia tocado em dezenas de hits que lideraram paradas e que tinha garantido status de lenda como o guitarrista dos Yardbirds. Plant era da apática região das West Midlands conhecida como com dois singles fracassados sob seu nome, algumas associações com bandas desconhecidas e que encarava o deprimente prospecto de largar a música para aceitar um emprego no escritório de um contador para sustentar sua esposa grávida e sua iminente prole. A mesma disparidade de passado e experiência existia entre o baixista John Paul Jones e o baterista John a agitada seção de ritmo. Jones era um sofisticado músico e arranjador sob demanda, cujos créditos incluíam trabalhos com os Stones, e que navegava pelos mesmos círculos modernos da indústria fonográfica de Londres dia entre tocar em uma série de grupos que não deram certo e trabalhar em uma obra como servente; sua filosofia para percussão era martelar a bateria até estourar os calos das mãos e acabar sangrando. Conforme Plant tinham uma linha de raciocínio, de ambições e de conhecimento sobre o que estava acontecendo muito mais ampla do que eu e Bonzo. Éramos apenas caipiras empolgados. Desses polos opostos nasceu a mais 15

13 1 16 Pré-voo ruidosa, mais pauleira e, muitos diriam, maior banda de rock n roll que o mundo conheceu. Na realidade, Plant estava longe de ser a primeira opção para vocalista do novo grupo que o guitarrista (Page) e o agente (Peter Grant) dos Yardbirds estavam montando. por isso nunca tinha ouvido falar dele, Page admitiu com sinceridade, alguns anos depois. No topo de sua lista de desejos estavam nomes como Stevie Winwood, Steve Marriott e Terry Reid. Este último recusou a posição e sugeriu o nome de seu amigo das West Midlands, Plant. Assim, em 20 de julho de 1968, Page, Grant e o baixista dos Yardbirds, Chris Dreja, acabaram viajando até Birmingham para ver Plant cantar em uma faculdade local, com a banda de nome pouco promissor Hobbstweedle. Todos os envolvidos dizem que o show não foi lá essas coisas; Page afirma que havia apenas uma dúzia de pessoas na plateia. Pior: as versões cover da banda para canções de Love, Buffalo Springfield e Moby Grape, além das viagens místicas da própria banda, influenciadas por O senhor dos anéis, não se encaixavam, nem de longe, na visão que Page tinha para o novo grupo. Ainda assim, Page ouviu algo na voz de Plant que chamou sua atenção e o fez convidar o músico para passar alguns dias em sua casa recém-reformada à beira do rio Tâmisa, em Pangbourne, Berkshire, 50 quilômetros rio acima do centro de Londres. Sua intenção era descobrir se havia elementos em comum suficientes para eles trabalharem juntos. O aspirante a cantor chegou à mansão do guitarrista carregando uma pilha de seus LPs favoritos e dinheiro suficiente para bancar apenas a volta de trem, caso tudo desse errado. Felizmente, conforme eles mostraram seus álbuns favoritos um ao outro e trocaram ideias, descobriram um vínculo musical. Foi dessa sessão de música que o Led Zeppelin, efetivamente, surgiu. Mas estamos nos adiantando cada um dos quatro membros do Led Zeppelin veio de um passado muito distinto e trouxe experiências bastante contrastantes ao grupo. Uma pré-história se faz necessária. Jimmy Page: o filho da música beat James Patrick Page nasceu em 8 de janeiro de 1944, em Heston, Middlesex, filho de uma família respeitável de classe média. Seu pai trabalhava no escritório de uma fábrica de aeronaves militares e sua mãe era secretária de um médico. Filho único, muitas de suas primeiras lembranças são de longos feriados na fazenda do tio-avô perto de Northampton, onde Page pescava e caçava borboletas. Quando o clima o impedia de sair de casa, sua coleção de selos ocupava a maior parte do tempo, e não havia nenhuma primeira indicação de talento musical. A família não tinha nem um piano. Em 1952, seu pai foi promovido e tornou-se gerente de RH da indústria e a família se mudou para uma confortável casa em Miles Road, Epsom, uma próspera e idílica cidade campestre em Surrey. A música não entrou Let s Play House, de Elvis Presley, e, enquanto muitos de seus contemporâneos (inclusive um jovem Robert Plant), eram atraídos pela voz e pela imagem de Presley, Page estava muito mais interessado no acompanhamento musical. Era fascinado, especialmente, pelo som do guitarrista Scotty Moore. Alguns meses depois, em seu 13º aniversário, seus pais o presentearam com uma guitarra acústica espanhola com cordas de aço. Sua mãe lembra-se de levá-lo a um professor de guitarra em Kingston, mas o ensino era rudimentar e Page acabou desistindo das aulas para aprender por conta própria. Um colega de escola o ensinou a afinar seu violão e ele comprou uma cópia do indispensável método Play in a Day, de Bert Weedon. Weedon havia ganhado fama como o solista convidado na orquestra de Mantovani e acabou se tornando

14 O imensamente influente manual básico de guitarra do herói da música inglesa Bert Weedon é publicado até hoje. o improvável pai da guitarra do rock n roll inglês. Na mesma época em que Page estava absorvendo as minúcias de Play in a Day e forçando seus dedos a formar os acordes desconhecidos, George Harrison, Eric Clapton, Jeff Beck, Brian May, Pete Townshend e vários outros que se tornariam grandes nomes estavam aprendendo que o bom da guitarra era o fato de não ensinarem na mesmo como tocar foi a primeira e a mais importante parte da minha educação. Diferentemente dos pais de Robert Plant, que estavam horrorizados pela atração do filho pelo e a mãe de Page apoiaram suas ambições, e seu pai foi fiador quando ele comprou, a prazo, sua primeira guitarra elétrica uma cópia barata de uma Fender Stratocaster, chamada Grazioso. Na escola, Page era bom em corrida de obstáculos, um artista decente e um aluno inteligente o suficiente para passar em todas as provas; mas, conforme sua paixão pela guitarra cresceu, rapidamente perdeu interesse na vida acadêmica, deixando a escola em 1961, contra a vontade de seus pais. Apesar dessa decisão e considerando que ele era bastante hábil com a guitarra e que tocava com bandas locais Pré-voo em Epsom, uma carreira musical ainda parecia um sonho distante e impossível. Por isso, foi atrás de uma vaga de assistente em laboratório. Antes de ter a chance de começar no novo emprego, foi visto tocando com um grupo local chamado Red-E-Lewis and The Redcats no Ebisham Hall, em Epsom, por um cantor e aspirante a agente chamado Neil Christian, que ficou impressionado o suficiente para oferecer um emprego em sua banda de apoio, Neil Christian & The Crusaders. Christian chegou até a ligar para os pais de Page para assegurá-los de que música pop não era uma área tão arriscada quanto eles temiam e que oferecia inúmeras oportunidades empolgantes para um jovem músico tão talentoso quanto seu filho. Ele foi cortês e persuasivo; a bajulação ajudou, e o consentimento dos pais foi garantido. Aos 17 anos, Page tornou-se um guitarrista profissional. The Crusaders tocavam versões rudimentares de músicas de Chuck Berry e Bo Diddley, mas ficou claro que havia o potencial de uma estrela em seu guitarrista principal, que adotou o nome artístico Nelson Storm. Logo, Page estava ganhando 20 por semana na época, o dobro do salário de um trabalhador comum e comprou uma guitarra Gretsch Country Gentleman laranja e um pedal, tornando-se um dos primeiros guitarristas de Londres com tal equipamento. Tanto sua expertise quanto seu equipamento contribuíram para o rápido crescimento de sua reputação; entre os que vieram conferir estavam Jeff Beck e o futuro baixista do Led você precisa ouvir Neil Christian & The Crusaders, eles têm esse guitarrista inacreditavelmente jovem, sobre Clapton ou Beck. Sua carreira em The Crusaders foi interrompida quando, em um show em Sheffield no final de 1961, o guitarrista novato desmaiou. Sempre muito magro 17 1

15 1 Pré-voo parecia que ele não tinha a constituição física requerida para a vida na estrada e o regime de comida podre e pouco sono que a acompanha. Mononucleose infecciosa foi diagnosticada e o guitarrista relutantemente voltou à casa dos pais, em Epsom. Depois que se recuperou, seus pais o persuadiram a se inscrever na faculdade de artes em Sutton, Surrey. Page era um artista talentoso. Insiste que levava os estudos a sério, e, durante algum tempo, quis se tornar pintor mas um pincel e um cavalete nunca substituiriam uma guitarra e um amplificador. Além disso, a faculdade de artes oferecia os meios convenientes para um fim totalmente diferente, como foi o caso de muitos músicos ingleses de sua geração. Primeiro, mantinha os pais felizes. Depois, ele recebia uma bolsa do governo. Em terceiro lugar, e isso era o mais importante, a vida de estudante garantia bastante tempo livre para ensaiar com a guitarra. Seus pais não poderiam tê-lo apoiado mais, transformando a sala de estar da casa da família em um recanto musical. Entre os visitantes que tocaram com ele naquele aposento estão Jeff Beck, que foi apresentado por sua irmã, Annetta, colega de Page no curso de artes. Jim a desenvolver um repertório sobre o chamado rock pesado. Descobri que tenho uma queda pelo assunto. Incorporação de Blues Page ficou aproximadamente 18 meses na faculdade até sentir mais uma vez o impulso de tocar em algum lugar maior do que a sala de seus pais. Durante seus estudos na faculdade de artes, frequentou o clube Marquee, em Londres, para apreciar shows do grupo Blues Incorporated. Liderados por Alexis Korner e Cyril Davies, eram a primeira banda séria de Blues na Inglaterra e uma grande influência para uma geração de jovens músicos, inclusive Mick Jagger, Brian Jones, Charlie Watts, Jack Bruce e Ginger Baker todos tocaram com a banda em algum momento. Page também foi chamado para juntar-se a eles quando estava nos Crusaders, convite que recusou, mesmo que tenha tocado com a banda em jam sessions. Foi em uma dessas e disse, Você toca como Matt Murphy, o guitarrista de Memphis Slim, relembra Page. Ele ficou impressionado com o afiado ouvido musical de Clapton, pois estilo de Murphy. Quando a Blues Incorporated se desfez, Korner logo transferiu sua lealdade a um concorrente, o Flamingo Club. Mas, conforme Page ressurgia nos shows da cena londrina, continuou a aparecer para tocar nos intervalos das apresentações de blues do Marquee, e tocava também em outros locais sagrados do início da cena R&B de Londres, o Crawdaddy Club, em Richmond, e Eel Pie Island. Repentinamente, parecia haver legiões de músicos com mentes parecidas jovens ingleses brancos da Korner (à direita) e Cyril Davies no The Crawdaddy, Richmond, com um jovem Charlie Watts na bateria. 18

16 Pré-voo alta sociedade, criados nos condados à volta de Londres em casas com cortinas de seda e obcecados pela música criada por trabalhadores rurais negros do delta do rio trancados com nossos discos de blues e então surgimos com algo realmente novo para oferecer à Grã-Bretanha. A partir daí, a coisa explodiu. Essa explosão estava acontecendo simultaneamente, por todo o país. Em Londres, produziu The Rolling Stones e The Yardbirds. Em Newcastle, originou The Animals. The Spencer Davis Group logo emergiria em Birmingham, e as ondas de influência atravessaram o Mar da Irlanda até Belfast, onde Van Morrison dava início a uma banda chamada Them. Porém, mesmo que Page tenha acabado por se juntar aos The Yardbirds, ele não faria parte da primeira leva de grupos ingleses de R&B que conquistariam os Estados Unidos graças aos Beatles. Em vez disso, uma oferta potencialmente muito mais lucrativa surgiu quando ele foi convidado para se juntar à elite dos músicos de sessão 1 de Londres. O convite inicial veio do operador de som Glyn Johns e uma das primeiras sessões de Page o colocou ao lado de Jet Harris e Tony Meehan, que havia acabado de deixar o The Shadows, topo das paradas e seus dias na faculdade de artes do direto, e tive que fazer uma escolha, lembrou-se das sessões eram ótimas e eu podia fazer os solos, o que descobri ser algo muito construtivo. Então, se resumiu a pintura ou guitarra. Não foi uma decisão difícil. Lewis & The Southerners, e Page ficou momentanea- mente tentado a se juntar a eles, antes de perceber que trabalhar em estúdios era muito mais lucrativo. Considerando que ele podia tocar em qualquer estilo e imitar qualquer guitarrista, a demanda por suas habilidades era alta, especialmente porque, na época, havia poucas opções. Na verdade, o único guitarrista de sessão sério em Londres além dele era Big Jim Sullivan, e, conforme o Beat Boom 2 inglês chegou à potência máxima, era certo que, se você precisasse de um guitarrista, mente ficou conhecido. Logo, estava tocando nas primeiras gravações de bandas como Them, The Kinks e The Who, pois produtores top, como Shel Talmy e Mickie Most, preferiam a virtuosidade conhecida de Page a apostar no talento desconhecido do guitarrista do grupo. Às vezes, eles estavam à altura da função, o que explica por que Page foi chamado para tocar apenas a guitarra-base por trás da The Who. Em outras ocasiões, como na primeira sessão do Them, não apenas o guitarrista, mas a banda toda foi achando que iam gravar e, de repente, encontram essas outras pessoas tocando em seus álbuns, relembra Page não terem substituído Van Morrison também. Uma autoridade norte-americana constatou que Page na Grã-Bretanha entre 1963 e É um exagero ridículo mas talvez não tão ridículo. A demanda por Page era imensa, e ele tocava em até uma dúzia de sessões por semana. Durante algum tempo, não parecia se importar com o que tocava, desde que fosse bem pago; além de seus clientes mais pops, ele tocou guitarra para Burt Bacharach, P. J. Proby, Herman s Hermits e 1 Músico de sessão ou session musician : instrumentista ou vocalista que não é até mesmo participando de shows. [N. do E.] 2 Beat Boom: beat década de 1950 e início da de [N. do T.] 19

17 1 Pré-voo Cliff Richard. Sua guitarra pode ser ouvida em vários jingles da televisão da época, e ele admite ter sido pago para gravar até música-ambiente para supermercados (confira o box na página 21). Finalmente, ficou cansado de prostituir seus talentos e, depois de algum tempo, passou a se referir ao período jar por aí. Saindo das sombras anônimas de acompanhamento sem crédito para ficar embaixo do holofote, Satisfies, em Lançado em Fontana, trazia o guitarrista em todos os instrumentos (com a exceção da bateria) e também no vocal, enquanto o lado B incluía vocal de apoio de sua namorada na época, a cantora e letrista norte-americana Jackie de Shannon. O single não entrou nas paradas, e Page decidiu rapidamente que vocais e carreira solo não eram para ele. De A. L. O. ao The Yardbirds Mas produção era outra história. Em algum momento do início de 1965, Andrew Loog Oldham, que, além de ser agente dos Rollings Stones, havia criado seu próprio selo, o Immediate, contratou Page e pediu a ele que convencesse Eric Clapton a participar da série inglesa de blues que estava pla- Eminência parda: Page (com lenço no colarinho, no centro) com (da esquerda para a direita) a queridinha do pop Lulu; Keith Relf, do Yardbirds; o produtor Mickie Most; e Derek Leckenby e Peter Noon (com sua famosa dentição estranha), da Herman s Hermits 20

18 Pré-voo As 20 maiores sessões de Jimmy Page nos anos 1960 Entre as dezenas (senão centenas) de gravações dos anos 1960 em que Page atuou como músico de sessão, estas estão entre os hits mais famosos em que Little Jimmy tocou. Diamonds, Jet Harris e Tony Meehan, 1963 (número um no Reino Unido) Twist and Shout, Brian Poole & The Tremeloes, 1963 The Crying Game, Dave Berry, 1964 (Page tocou a guitarra acústica, enquanto Big Jim Sullivan tocou a elétrica com fuzzbox*) It s Not Unusual, Tom Jones, 1965 (número um no Reino Unido) I Can t Explain, The Who, 1965 Diggin My Potatoes, Heinz, 1965 (diz a lenda que Page tocou também no sucesso Just Like Eddie, que Heinz lançou em 1965) I m Not Sayin, Nico, 1965 The Pied Piper, Crispian St. Peters, 1966 Time Drags By, Cliff Richard, 1966 You Really Got Me, The Kinks, 1964 (número um no Reino Unido) Terry, Twinkle, 1964 Walk Tall, Val Doonican, 1964 As Tears Go By, Marianne Faithfull, 1964 Shout, Lulu & The Luvvers, 1964 Tobacco Road, The Nashville Teens, 1964 Here Comes the Night, Them, 1965 * Fuzzbox: tipo de pedal para guitarras elétricas usado para distorcer o som. [N. do E.] Sunshine Superman, Donovan, 1966 Out of Time, Chris Farlowe, 1966 (número um no Reino Unido) (With) A Little Help from My Friends, Joe Cocker, 1968 (número um no Reino Unido) Little Arrows, Leapy Lee, 1968 Page tocou também em uma versão inicial de Heart of Stone, dos Rolling Stones, em 1965 mas apenas em uma fita demo, não na gravação final. Outras bandas menos conhecidas com as quais tocou incluem Carter-Lewis & the Southerners, The Lancastrians, The Primitives, The Factotums, Les Fleurs de Lys e The Fifth Avenue. the World (uma canção consagrada por Howlin Wolf que mais tarde se tornaria uma das favoritas do foi sondado para substituir Clapton nos Yardbirds. Mas a grana que estava fazendo nas sessões de gravação (na época, Page podia ser ouvido em nada menos que três singles no top 10 britânico) era boa demais para trocar por uma vida incerta com um grupo beat, e ele ainda estava cauteloso depois de seu desmaio na estrada com Neil Christian & The Crusaders. Então, Andrew Loog Oldham, não satisfeito de produzir e administrar apenas, os Rolling Stones, desejava criar um império R&B com o Immediate 21

19 1 22 Pré-voo recomendou seu amigo Jeff Beck, que, de qualquer maneira, já era a segunda opção do grupo. Gravou várias outras faixas com Clapton. Eram apenas jams de blues gravados na sala dos pais de Page; a intenção nunca foi lançá-los, mas elas apareceram lançadas pela Immediate em 1968, para a surpresa de Clapton. Mesmo que Page tenha negado qualquer culpa pela chegada das canções às lojas, o fato levou a uma ruptura na amizade entre os dois que nunca foi completamente curada. De qualquer maneira, a relação entre Page e Beck continuava a florescer. Page foi apresentado no estúdio, Your Love, e Beck emprestou-lhe sua fuzzbox para tocar nesta faixa. Um grupo de músicos indianos também havia sido agendado para a gravação e Page acabou comprando um sitar deles, tornando-se possivelmente o primeiro guitarrista de rock britânico a fazer experimentos com o instrumento, antes de George Harrison. Em maio de 1966, Page e Beck gravaram uma faixa ins- nos estúdios IBC, de Londres, na qual foram acompanhados pelo baterista Keith Moon, pelo baixista John Paul Jones e pelo tecladista Nicky Hopkins, todos do The Who. Apesar do nome e do fato de ter aparecido como o lado B do foi, em sua maioria, escrita e produzida por Page, que gostou tanto da experiência que, durante algum tempo, houve conversas sobre os dois guitarristas formarem um grupo. Nomes cogitados como possíveis membros incluíam John Entwistle no baixo (em vez de Jones, nesse estágio) e Steve Marriott, do Small Faces, ou Stevie Winwood, do Spencer Davis Group, no vocal. No final das contas, os planos não deram certo, mas ficou claro que Page estava cada vez mais frustrado e sentia sua criatividade reprimida pelo trabalho como guitarrista de aluguel. Na segunda vez em que foi convidado, em junho de 1966, Page aceitou se juntar aos Yardbirds. Inicialmente, era substituto no baixo de Paul Samwell- Smith, que abandonou o grupo repentinamente e seguiu para se tornar um aclamado produtor. Mas o combinado era que, quando o outro guitarrista da banda, Chris Dreja, tivesse aprendido os acordes do baixo, Page passaria para a guitarra, dando aos Yardbirds uma dupla invencível de guitarristas principais. Infelizmente, a formação Beck-Page dos Yardbirds nunca cumpriu sua imensa promessa e durou meros quatro meses. Em outubro de 1966, depois de apenas dois shows de uma turnê norte-americana, o cada vez mais errático Beck largou o grupo. Eles decidiram não substituí-lo e continuar como um quarteto. Page fez o melhor que pôde para guiar os Yardbirds a uma direção musical consistente, desenvolvendo pelo menos alguns dos elementos que exploraria mais para frente no Led Zeppelin. Mas seus esforços foram desviados pelo produtor Mickie Most, que buscava incansavelmente achar hits de grande sucesso e esnobava os álbuns, e cuja influência levou a covers verdade, Keith Relf foi o único Yardbird a participar). Por causa dele, as ideias interessantes que Page tinha para o LP de 1967 dos Yardbirds, Little Games, acabaram mal desenvolvidas. Logo no início de 1968, estava claro que o grupo caminhava para um final tumultuado, e o último show aconteceu em julho, em um baile de fim de ano na Luton Technical College. Ao lado de Dreja, Page começou a montar uma nova banda, e tentou recrutar o cantor Terry Reid e o baterista B. J. Wilson. Ambos recusaram, e Dreja também deixou a área para iniciar uma carreira em fotografia. Eis que surgem o companheiro de sessões John Paul Jones, um baterista selvagem das Midlands chamado John Bonham e um cantor jovem e pouco conhecido de West Bromwich, chamado Robert Plant...

20 Robert Plant: o Blues teve um filho... os mais íntimos nasceu em 20 de agosto de 1948 em West Bromwich, Staffordshire. Seu pai era engenheiro civil e a família logo se mudou para uma exuberante casa na nobre Hayley Green, na plácida cidade de Kidderminster, Worcestershire, famosa por sua produção de carpetes de alta qualidade. Plant era uma criança inteligente, que devorava livros e que, aos 11 anos, conseguiu uma vaga na King Edward VI Grammar School, na cidade próxima de Stourbridge apesar de que, na época, já havia se apaixonado pelo rock n roll e decidido que queria ser Elvis. Aos 13, gastava horas diante do espelho treinando o rebolado e os movimentos pél- uma voz trêmula e hesitante, que havia começado a desafinar por causa da puberdade. Sua paixão pelo rock n roll horrorizava seus pais puritanos de classe média, que, diz Plant, classificavam as melodias que vinham de Memphis, Nova Orleans Diabo. Em uma de suas histórias favoritas, seus pais cortaram o fio da tomada do toca-discos depois que ele em uma hora. Como seus estudos eram ignorados, Plant colocava sua mente inquisitiva para trabalhar em pesquisas sobre as raízes do rock n roll, e logo descobriu os Delta blues 3 e os sons elétricos que emanavam de Chicago, sob selos como Chess e Vee-Jay. Aos 14 ou 15, costumava sair não com seus colegas de escola, mas sim com um grupo boêmio da Stourbridge 3 Delta blues: estilo de blues surgido no início do século 20 na região conhecida como Delta do Mississippi, que compreende a área entre as cidades de Memphis, no Tennessee e Vicksburg, no Mississippi e os rios Mississippi e Yazoo. [N. do E.] Pré-voo Art School, e, usando o modesto salário que recebia por trabalhar aos sábados na Woolworth s, comprou o primeiro lançamento em LP das lendárias sessões de Robert Johnson, lançado na década de Ele começou, também, a cantar com um grupo da escola chamado Andy Long & Hist Original Jaymen. Em 1963, apesar da maciça reprovação dos pais, o pai de Plant dava carona ao filho de 15 anos todas as semanas até o clube Seven Stars Blues, em Stourbridge, sob a alegação de que assim, pelo menos, podia ficar de olho nas más companhias que seu filho mantinha. No clube, Plant tocava, feliz, uma tábua de lavar roupa e o kazoo com a Delta Blues Band, arruinando canções de Johnson, Muddy Waters, Howlin Wolf, entre outros. A Grammar School não exercia mais nenhuma atração sobre ele, e, naquele verão, ele a abandonou. Como ainda não conseguira se livrar dos grilhões impostos por seus pais, decidiu ingressar na carreira de contador. Soube, quase imediatamente, que havia cometido um erro e, naquele outono, matriculou-se em um colégio técnico local para conseguir um desempenho melhor. Ainda assim, independente de como enxergasse sua situação, a escola, a contabilidade e o colégio técnico eram desvios de seu maior desejo, conforme ele ia de uma banda fracassada de West Midlands à outra muitas delas batizadas em homenagem a suas músicas de blues prediletas, como Crawling King Snake (com um certo John Bonham na bateria) e Black Snake Moan. Além disso, experimentou, diversos estilos de figurinos, tornando-se em um autêntico mod depois de ver um concerto de The Small Faces e The Who em Birmingham. Quando, no final de 1966, uma de suas bandas fracassadas, The Tennessee Teens, transmutou-se para Listen e assinou contrato com a CBS, Plant fez sua estreia como cantor no primeiro e único single do grupo, um cover de fracassou, a banda foi rapidamente enviada de volta ao abandono das West Midlands, mas a CBS insistiu em 23 1

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