DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Dimensão Social

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1 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Dimensão Social Por Daiane Fontes 1 A preocupação da sociedade com relação aos temas ética, cidadania, direitos humanos, desenvolvimento econômico, Desenvolvimento Sustentável e inclusão social adquiriu novas formas nas últimas décadas. O aumento do número de debates, seminários, campanhas e publicações sobre estes assuntos tem feito com que muitas organizações redirecionem formas de conduzirem seus negócios, que transcendem a dimensão econômica. É notória a preocupação dos gestores das principais organizações empresariais em promover ações relacionadas com os sistemas socioambientais e culturais, buscando a obtenção dos melhores resultados pautados no comprometimento com todos os setores da sociedade na qual estão inseridos, bem como na expectativa de seus acionistas cada vez mais atentos à importância deste tipo de gestão. Segundo Lourenço & Schöder (2003), essa mudança de comportamento é consequência de uma série de fatos que contribuíram com as novas atitudes de responsabilidade social. Até a década de 60, as organizações privadas atuavam com foco na maximização de seus lucros. Nesta visão, o desenvolvimento socioambiental das comunidades era responsabilidade do Estado, igrejas ou ONGs. A ideia de que uma empresa, ao se inserir num determinado território, passa a ser responsável pelo meio ambiente e pela comunidade que está em seu entorno, pensando de uma forma regional e, a partir daí, sentir-se responsável também por um território mais amplo, começa no momento em que a sociedade passa a ter consciência do seu poder, questionando ações e exigindo transparência e ética empresarial. Além disso, a sociedade também começa a acordar para o fato de que o homem estava destruindo o seu meio sem ter consciência de que os recursos naturais são finitos e não infinitos, como se pensava. (LOURENÇO & SCHÖDER, 2003) Segundo Kreitlon (2004), [...] No mundo dos negócios, e das grandes corporações transnacionais em particular, os discursos e iniciativas relativos ao tema já chegaram mesmo a 1 Daiane Fontes é formada em Psicologia, pela Universidade Federal da Bahia, especialista e mestre em Desenvolvimento e Gestão Social, também pela Universidade Federal da Bahia. É Gestora de projetos socioculturais do Instituto Cultural Casa Via Magia, em Salvador/BA.

2 tornar-se lugar comum. Os governos veem na Responsabilidade Social Empresarial (RSE) uma oportunidade de maximizar os benefícios decorrentes da atividade econômica, reduzindo os impactos ambientais e sociais causados por ela. Para as chamadas organizações do terceiro setor, existe grande interesse em aproveitar a tendência e estabelecer parcerias com as firmas em todo tipo de projetos com alguma conotação social. Já no seio do movimento altermundista, que combate a globalização neoliberal, diversos grupos dedicam-se ao monitoramento e divulgação de atividades empresariais passíveis de crítica. Evidentemente, cada um desses (e outros) grupos de atores sociais, diretamente implicados na questão, e cujos interesses estejam em jogo, luta para estabelecer a sua própria conceituação do que seja a RSE - donde se deduz que a prevalência, no espaço social, de uma determinada definição indica a derrota de várias outras. (p. 2) Ainda de acordo com esta autora, as mudanças no campo empresarial referentes à ética estão ligadas a evolução do sistema econômico, pois o capitalismo possibilitou o surgimento de grandes conglomerados empresariais e multinacionais que trouxeram à tona o uso excessivo de poder e sem precedentes. Assim, a década de 60 foi marcada com o início de grandes reivindicações sociais e conflitos, contribuindo para a emergência na mudança de atitudes, principalmente sobre as questões voltadas para [...] poluição, consumo, emprego, discriminações raciais e de gênero, ou natureza do produto comercializado (p. 3-4). A partir de 1972, com a publicação do relatório do Clube de Roma, intitulado The limits of growth, as reivindicações começam a ganhar mais forças, dando início a debates que, mais tarde, possibilitaram reflexões sobre Responsabilidade Social e Empresarial (RSE) mais consistentes. As novas teorias organizacionais menos gerencialistas contribuíram para a mudança de percepção, substituindo a ideia de responsabilidade corporativa, como era anteriormente, para Responsabilidade Social Corporativa (RSC), transcendendo as responsabilidades meramente burocráticas e legais. (KREITLON, 2004) Por outro lado, conglomerados empresariais e as multinacionais na busca desenfreada por lucros acabam gerando antigos e conhecidos impactos negativos junto à sociedade se não acompanhados de projetos e programas de sustentabilidade. A exploração de recursos naturais excessiva ainda prevalece e a exclusão social não diminui, ou ocorre muito lentamente. De acordo com Lourenço & Schöder (2003), nos Estados Unidos a preocupação com relação à RSE começa entre as décadas de 70/80, com o despertar do interesse na ética no governo, devido ao escândalo de Watergate. A discussão tomou tamanha proporção que se espalhou pelos países da Europa, levando algumas empresas alemãs a começarem a fazer os primeiros balanços sociais. Apesar disso, foi a França quem deu o

3 primeiro passo para oficializar o assunto. Foi o primeiro país a obrigar as empresas a fazerem balanços periódicos de seu desempenho social com relação à mão de obra e condições de trabalho. (SUCUPIRA, 1999 apud LOURENÇO & SCHÖDER, 2003) No Brasil, este assunto começa a ser debatido ainda nos anos 60, quando a Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE) admite que as empresas têm funções sociais além de produzir bens e serviços. E a primeira empresa a publicar seu balanço social, em 1984, foi a Nitrofértil, uma empresa de fertilizantes absorvida, hoje, pela Petrobras. Mas o movimento só ganhou força a partir dos anos 90, com ações de ONGs, institutos de pesquisas e empresas que aderiram ou passaram a estimular este modelo de gestão. Hoje, o número de empresas que divulgam seu balanço social ainda é pequeno, entretanto, muitas já consideram a transparência a base para maior confiança dos stakeholders 2 e para a competitividade empresarial. (GONZALEZ, 2008) Essas ideias foram possíveis de serem difundidas, debatidas e transformadas em algumas ações graças ao desenvolvimento das novas tecnologias, principalmente nas áreas da comunicação, transporte e informática, pois da mesma forma em que elas ajudam no crescimento econômico das organizações, elas também influenciam na conduta destas, já que seus atos passam a ser cada vez mais públicos e sujeitos ao controle social. (FÉLIX, 2003) Com o avanço das comunicações, a luta de movimentos sociais no combate a questões inadequadas e historicamente existentes nas relações capitalistas passou a ser mais contundente e tempestiva. A utilização dos meios e recursos naturais sem a respectiva ação de sustentabilidade implica na possibilidade de reações mais imediatas por parte dos segmentos sociais dos territórios envolvidos. Nem sempre, contudo, empresários, gestores, ambientalistas e sociedade em geral chegam a resultados práticos e satisfatórios. Os desafios são permanentes e a responsabilidade não pode ser mais transferida a outros agentes sociais. Na medida em que há um crescente entendimento de que as empresas podem constituir-se em grandes agentes de transformações nas sociedades, revigora-se a importância de gestões focadas em compromissos de amplitude sociais o que, de certa forma, inclui ações diretas de sustentabilidade. Mas o que significa o termo Responsabilidade Social Empresarial? 2 Diversos públicos que interagem com as empresas, desde acionistas, funcionários, até a sociedade em geral. (LIGTERINGEN, 2010, p. 6-11)

4 De acordo com o Instituto Ethos (2010, s/p), Responsabilidade Social Empresarial é: A forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais. E, ao definir este conceito, afirma que [...] A questão da responsabilidade social vai, portanto, além da postura legal da empresa, da prática filantrópica ou do apoio à comunidade. Significa mudança de atitude, numa perspectiva de gestão empresarial com foco na qualidade das relações e na geração de valor para todos. Para o Banco Mundial (2002, apud Kreitlon, 2004, p. 3), RSE é o compromisso empresarial de contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável, trabalhando em conjunto com os empregados, suas famílias, a comunidade local e sociedade em geral para melhorar sua qualidade de vida, de maneira que sejam boas tanto para as empresas como o desenvolvimento. Este conceito está muito próximo ao conceito de desenvolvimento sustentável, mas os dois estão numa linha tênue do conhecimento, onde ainda há muita experimentação e muitos discursos baseados no marketing empresarial. (GONZALEZ, 2008) Por isso, sociedade, instituições governamentais e não governamentais, empresas e a academia não chegaram ao um consenso definitivo sobre RSE, havendo várias interpretações. Contudo, Kreitlon (2004, p.10) afirma que um consenso mínimo se chegou: Uma empresa socialmente responsável deve demonstrar três características básicas: a) reconhecer o impacto que causam suas atividades sobre a sociedade na qual está inserida; b) gerenciar os impactos econômicos, sociais e ambientais de suas operações, tanto a nível local como global; c) realizar esses propósitos através do diálogo permanente com usas partes interessadas, às vezes de parceiras com outros grupos e organizações. Ser socialmente responsável significa pensar para além da dimensão econômica, do cumprimento das leis e, principalmente, esperar que o Estado cumpra suas obrigações. É trabalhar conjuntamente com os diversos atores, buscando-se uma sociedade capaz de atender anseios e necessidades de sustentabilidade, com repercussão na melhoria da qualidade de vida de seus cidadãos. Um dos elementos que vem contribuindo para que empresas mudem suas

5 posturas de gestão é a obtenção de certificados de qualidade através das normas ISO 3 (Organização Internacional para Normalização). Ter um certificado através da ISO, por exemplo, é muito importante para a legitimidade do negócio, uma vez que o impacto das ações desenvolvidas pelas empresas no meio ambiente e na sociedade se tornou fator fundamental para [...] a avaliação de seu desempenho geral e de sua capacidade de continuar a operar de forma eficaz. Isso, em parte, reflete o reconhecimento cada vez maior da necessidade de assegurar ecossistemas saudáveis, igualdade social e boa governança organizacional. (ISO, 2010, p. 7) Nesse sentido, a ISO 26000, recentemente publicada, foi elaborada para fornecer, a todos os tipos de organizações, públicas, privadas e sem fins lucrativos, de grande, médio ou pequeno porte, que tenham atividades em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, [...] Orientações sobre os princípios subjacentes à responsabilidade social, os temas centrais e questões pertinentes à responsabilidade social e sobre formas de integrar o comportamento socialmente responsável com estratégias, sistemas, práticas e processos organizacionais existentes. (ISO, 2010, p. 7) Salienta-se, nessa Norma Internacional, que cabe a organização identificar o que é importante para abordar, a partir de suas especificações e do diálogo com os stakeholders. Isso não significa que ela substitui ou modifica as normas das organizações ou do Estado (no caso de organizações governamentais), mas estimula essas organizações, que desejarem-na, a se tornarem mais socialmente responsáveis. Além disso, ela poderá ser utilizada tanto por organizações iniciantes, que querem ingressar nesse universo, quanto pelas mais experientes, com a finalidade de aprimorar suas práticas. A ISO foi elaborada pelo Grupo de Trabalho de Responsabilidade Social da ISO (ISO/TMB WG), em que estavam envolvidos especialistas de mais de 90 países e 40 organizações internacionais ou organizações que desenvolvem trabalhos de responsabilidade social num território regional de forma mais ampliada, e que representavam alguns grupos de interesses - consumidores; governo; indústria; trabalhadores; ONGs; serviços, suporte, pesquisa e outros. Essa Norma Internacional foi desenvolvida por um processo multi-stakeholder [...]. Buscou-se um equilíbrio entre países em desenvolvimento e desenvolvidos, assim como um equilíbrio entre gêneros na elaboração dos grupos. (ISO, 2010, p. 6) 3 Normas Internacionais elaboradas de acordo com as regras estabelecidas nas Diretivas ISO/IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional) (ISO, 2010)

6 Ela é considerada também como um complemento a outros instrumentos e iniciativas referentes à responsabilidade social. Nela, é levada em consideração a diversidade social, cultural, ambiental, jurídica, organizacional e econômica, conectada com as normas internacionais de comportamento. Assim, a ISO tem como objetivo contribuir para que organizações reflitam sobre suas ações e comecem a se sentir responsáveis pela comunidade e meio ambiente onde se inserem, além de incentivar a sociedade ficar cada vez mais ciente de que precisa estar atenta às ações das organizações, e que estas precisam ser socialmente responsáveis em prol do Desenvolvimento Sustentável.

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