PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO: PERSPECTIVAS DE MUDANÇA

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1 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DOS PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO: PERSPECTIVAS DE MUDANÇA SANTOS, Lilian 1 NUNES, Célia 2 O presente trabalho tem como objetivo apresentar algumas considerações - feitas a partir de pesquisa que estamos realizando, intitulada A formação e o saber do professor de ensino médio - sobre as atuais práticas pedagógicas dos professores de Língua Portuguesa do Ensino Médio. Nos últimos anos, têm ocorrido inúmeras discussões acerca de como se deve ensinar a Língua Portuguesa nas escolas. O que se tem em pauta é a proposta de rompimento com a visão tradicional que considera que o ensino da Língua Portuguesa deve se reduzir à assimilação da gramática normativa e sua nomenclatura. Propõe-se a criação de uma nova maneira de se ensinar a língua nas escolas, que considere a produção de textos orais ou escritos como ponto de partida para o aprendizado da língua. Desta forma, o aprendizado da língua materna não mais se reduziria a um conjunto de regras que o aluno deve decorar e despejar na prova. Esta nova proposta pretende transformar o ensino de Língua Portuguesa em um aprendizado para toda a vida, uma forma de socialização, de otimizar a competência, que ele já possui, de se comunicar verbalmente. Assim, novas abordagens para o ensino da Língua Portuguesa têm surgido, trazendo novos enfoques e métodos de ensino, que são apresentados aos professores em exercício através de programas de formação continuada. Já os alunos dos cursos de Licenciatura em Língua Portuguesa, têm tomado conhecimento dessas metodologias em seus cursos de formação inicial. Esses novos métodos seguem as sugestões dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM), que trazem novas formas de se trabalhar Língua Portuguesa, dentre outras áreas de conhecimento, e refutam a prática tradicional ainda muito presente na escola básica. Os PCNEM (1998) trazem uma nova visão do ensino da língua e mostram novas formas de conduzir o aprendizado do aluno. Segundo o documento, o estudo da gramática deve ser uma estratégia para compreensão, interpretação e produção de textos. A unidade básica de significação e do processo de ensino-aprendizagem passa a ser o texto, em oposição a unidades menores da língua, como o fonema, a sílaba, a palavra ou a sentença. O professor deve incentivar o aluno a expressar-se verbalmente e também a conhecer as linguagens utilizadas em outros meios sociais, diferentes do seu. Assim, os professores são orientados a integrar o ensino da gramática à leitura, de forma que o aluno a interiorize e saiba usá-la sem necessariamente precisar decorar nenhuma regra. Nesta direção, alguns professores têm sido estimulados a modificar as práticas pedagógicas utilizadas que são muitas vezes baseadas no ensino da gramática normativa de forma isolada de um contexto. Por essa razão, decidimos que um dos enfoques do estudo em desenvolvimento deveria dizer respeito ao que os professores sabem sobre esses novos métodos de ensino, se 1 Aluna de Licenciatura em Letras (ICHS/UFOP) 2 Professora do Departamento de Educação (ICHS/UFOP)

2 estão conseguindo aplicá-los em sala de aula e de que forma isso está sendo feito. Como essas novas abordagens para o ensino da língua materna baseiam-se nos PCNEM (1998), estamos questionando os professores acerca do conhecimento destes. Essa investigação está sendo feita através da análise de entrevistas realizadas junto a professores de Língua Portuguesa que atuam no ensino nas cidades de Mariana e Ouro Preto. Até o momento, foram entrevistados seis professores. Ao serem questionados sobre o conhecimento dos PCNEM (1998), todos os professores afirmaram já terem sido apresentados a estes, seja em seu curso de formação inicial ou através de grupos de estudos nas escolas onde lecionam. Da mesma forma, todos os professores afirmaram estar seguindo as orientações dos PCNEM (1998) em suas aulas de Língua Portuguesa. No entanto, ao serem indagados sobre a forma como conduzem suas aulas de gramática, ficou claro que os professores recorrem ao ensino tradicional em sala de aula. Na fala dos participantes pudemos perceber que, já que a sugestão dos PCNEM (1998) é trabalhar a gramática dentro de um contexto, os professores começaram a levar textos a maioria de jornais ou revistas - para suas aulas e acreditam que analisar as categorias gramaticais dentro desses textos é trabalhar a gramática de forma contextualizada, como podemos ver na resposta de Marina 3 : Primeiro, antes de trabalhar a gramática dentro do contexto, eu pego o livro, olho a parte lá da gramática. Depois que eu já trabalhei a parte da gramática, eu pego o texto, pode ser de jornal ou revista, e vou trabalhar a parte da gramática dentro dele. O mesmo percebemos na resposta de Letícia: Você pode muito bem pegar um texto de revista e trabalhar concordância, trabalhar sujeito, predicado... Dentre os professores entrevistados, César parece ser o que menos se atém a conceitos gramaticais pois afirma trabalhar primeiramente com o texto e depois introduzir umas questões gramaticais, sem nomear para que os alunos criem familiaridade com o assunto. Entretanto, vemos que ele ainda se preocupa com o ensino da gramática tradicional, já que afirma que, depois de realizar esse trabalho, parte para as informações gramaticais mesmo. O que fica claro, portanto, é que todos os professores, com maior ou menor intensidade, levam o texto para sala de aula e dele retiram orações a serem analisadas gramaticalmente. Ou seja, eles utilizam o texto como pretexto para se trabalhar questões gramaticais e acabam lecionando de uma maneira que, de acordo com Neves (2003), tem sido questionada: ensinam a gramática como uma exposição e imposição de parâmetros, nos quais entidades isoladas retiradas de textos-pretextos devem simplesmente se enquadrar, segundo instruções mecânicas. (p.116). Para Neves (2003), essa catalogação irrefletida e mecânica das entidades é não só ineficiente, mas, ainda, contraproducente, porque leva a uma descrença final sobre a validade da investigação gramatical. (p.125). Além disso, segundo a autora, esse modo de ensinar implica que a gramática acionada pelo falante de uma língua, ao organizar a sua linguagem, se esgota na estrutura da oração. Outro problema é que, ao retirar orações de um texto e trabalhar as questões gramaticais de forma isolada nessas sentenças, os professores impedem que os alunos reflitam acerca do uso da língua. O que os PCNEM (1998) pretendiam, ao sugerir que se trabalhasse a gramática de forma contextualizada, tendo o texto como unidade básica de ensino, era que o professor 3 Foram criados nomes fictícios para os professores a fim de preservar suas identidades.

3 levasse o aluno a refletir sobre os recursos que a língua lhe oferece, que propiciasse uma reflexão sobre as escolhas que o falante faz ao construir um texto e sobre os resultados de sentido que cada escolha causa nesse texto. Assim, ao se trabalhar concordância verbal em um texto, por exemplo, a sugestão é não simplesmente pedir aos alunos que corrijam os erros de concordância e sim levá-los a refletir se a falta de concordância é simplesmente um erro ou está ali para causar determinado efeito de sentido. A orientação dos PCNEM (1998) não era, portanto, que apenas fossem retiradas orações dos textos para que nelas se encontrasse sujeito, predicado, erros de concordância, etc., como vem ocorrendo e como percebemos nas palavras de Marina: Por exemplo, se eu estiver estudando concordância verbal: Nesse parágrafo aqui a concordância verbal tá correta? O sujeito aqui tá concordando com os complementos? Qual que é o sujeito aqui? Quais são os complementos? Que tipo de verbo é esse? No entanto, devemos considerar as condições de trabalho dos professores na análise da forma como eles utilizam as sugestões dos PCNEM (1998) em sala de aula. Fatores como o programa que são obrigados a seguir, falta de orientação e de recursos para participar de atividades de formação continuada influenciam diretamente na prática que os docentes vêm desenvolvendo. Com relação ao programa da escola em que lecionam, todos os professores afirmaram que estes são muito tradicionais, como podemos ver das palavras do professor César: Ele (o programa) ainda é muito preso a conteúdo, ainda segue aquela linha. Você tenta fugir um pouco, porque não comunga muito com essas idéias, mas você não pode fugir tanto. Então, às vezes, ele te trava um pouco. Deveria ser reformulado. Esta também é uma queixa de Letícia, que afirma que a apostila da escola onde leciona traz exercícios de gramática não contextualizados e,na prática, ela precisa realizar tais atividades com os alunos. Essa influência dos programas curriculares na prática de sala de aula fica também clara ao lermos o programa que a professora Marina nos cedeu. Este afirma que o ensino de Língua Portuguesa na escola baseia-se nos PCNEM pois é necessário um plano de curso que atenda às expectativas dos docentes e discentes como um todo em busca de novas abordagens e metodologias para que o ensino da Língua Portuguesa seja aprimorado. No entanto, analisando o programa da escola, percebemos que ele vai contra as sugestões dos PCNEM (1998) à medida em que se divide em três tópicos: Português (e dentro desse tópico aparecem, em separado, a gramática e a produção de textos) e Literatura, enquanto a sugestão dos PCNEM (1998) é a de que o estudo da nomenclatura gramatical e história da literatura sejam deslocados para um segundo plano e que o estudo da gramática passe a ser uma estratégia para compreensão/interpretação/produção de textos e a literatura integre-se à área da leitura. (p.18) Dentro do tópico Português, encontramos ainda mais alguns problemas. O primeiro diz respeito aos tópicos gramaticais que serão ensinados já que vemos que o programa exige um ensino de Língua Portuguesa tradicional, com o estudo de classes de palavras, classificação de orações coordenadas e subordinadas, etc. Percebemos ainda o ensino tradicional da língua ao nos depararmos com os exercícios que são propostos pela professora Marina, pois aqueles a que tivemos acesso limitam-se a trabalhar os conceitos gramaticais em sentenças isoladas de qualquer contexto. Outro problema diz respeito a produção de textos, que, além de ser dada de maneira descontextualizada da gramática, fundamenta-se no ensino dos tipos de textos (narração, dissertação e descrição), o que contraria a sugestão dos PCNEM (1998) de se privilegiar o trabalho com os gêneros

4 do discurso. Essa adoção de gêneros do discurso em detrimento aos tipos de texto justificase pelo fato de que, segundo BARBOSA (2000), o trabalho com o s gêneros permite incorporar a situação de produção de um dado discurso (quem fala, para quem, lugares sociais dos interlocutores, posicionamentos ideológicos, em que situação, em que momentos histórico, em que veículo, com que objetivo, finalidade ou intenção, em que registro, etc.); abrange o conteúdo temático(...), a construção composicional sua forma de dizer, sua organização geral (...) que está disponível em circulação social e seu estilo verbal seleção de recursos disponibilizados pela língua, orientada pela posição enunciativa do produtor de texto. (p.153), enquanto a produção de textos baseada no ensino de tipos de texto restringe-se a orientar os alunos sobre o que deve estar presente em cada tipo de texto. Ensina-se, por exemplo, apenas que uma dissertação deve ter introdução, desenvolvimento e conclusão, não havendo preocupação em enfocar a situação de produção do discurso. Outra dificuldade relatada pelos os professores para seguirem a sugestão dos PCNEM (1998) é a falta de recursos financeiros que os impede de participar de atividades de formação continuada. Alguns dos professores entrevistados afirmaram que, embora gostassem muito desse tipo de atividade, como lecionavam em escolas públicas e recebiam um baixo salário, muitas vezes não tinham condições financeiras para participar desses cursos - que costumam apresentar novas abordagens para o ensino da língua, levando os professores a se atualizarem - como vemos nas palavras de Denise: Se eu tivesse condições econômicas, eu participaria, porque a gente vê muitos programas bons, mas a maior parte desses cursos de capacitação que a gente vê são caros para o que o Estado nos paga. Aí isso vai inviabilizando a gente. Além disso, alguns professores relatam sentir falta de uma pessoa, dentro da escola, que estivesse sempre atualizada em relação às novas tendências de ensino a fim de orientá-los. Embora tenhamos identificado alguns limites quanto ao emprego das sugestões dos PCNEM (1998), percebemos que as práticas pedagógicas dos professores estão sendo aperfeiçoadas a cada dia. Podemos ver isso quando todos os professores afirmam se importar muito com o ritmo de aprendizagem de cada aluno, preocupando-se quando vêm que estes não estão respondendo às suas expectativas. Nesses casos, os professores costumam buscar novos métodos de ensino, conversar com os alunos e até dar assistência extra-classe, se for o caso. Podemos perceber essa preocupação na afirmação da professora Maria: Se aquela estratégia que foi dada lá não está atendendo, você tem que mudar, partir deles. Às vezes, a gente dá um conteúdo que está muito além daquilo que o aluno sabe, então, você vai ter que buscar uma estratégia pra solucionar o problema, porque senão não vai atingir o objetivo. Você vai dar o conteúdo, mas o objetivo principal que é o aluno aprender a interagir com ele você não vai conseguir atingir. Outra mudança nas práticas dos professores, que é sugerida pelos PCNEM (1998), foi o fato de estes estarem procurando levar textos de jornais e revistas para a sala de aula a fim de promover debates. Esta é uma sugestão dos PCNEM (1998) à medida que estes afirmam que a Língua Portuguesa deve propiciar o diálogo para que o aluno aprenda a confrontar, defender e explicar suas idéias de forma organizada. Concluímos, portanto, com o estudo que estamos realizando, que ainda há um longo caminho a ser percorrido pelos professores para que estes atinjam os objetivos propostos pelos PCNEM (1998).Algumas mudanças na prática já começaram a ocorrer. Uma delas refere-se a importância que os professores têm dado à formação de seus alunos, em

5 detrimento de uma prática educativa preocupada com a simples transmissão dos conhecimentos de sua matéria sem a preocupação com o ritmo de aprendizagem de cada um. Os debates em sala de aula também são uma excelente prática que os professores adquiriram há pouco tempo e que leva o aluno a expor e justificar suas idéias, atendendo a uma sugestão dos PCNEM (1998). A inclusão de textos de jornais e revistas nas aulas de gramática, ainda que estes estejam sendo trabalhados de forma ainda limitada - por puro desconhecimento dos professores, deve-se enfatizar - também é um grande avanço, pois, há alguns anos, tinha-se apenas o trabalho com frases isoladas, muitas vezes criadas especialmente para a aplicação de determinado conteúdo. Os professores têm tentado melhor conduzir o aprendizado de seus alunos. Embora falte, talvez, um pouco de orientação, de informação, estes problemas podem ser superados pela existência de disposição e vontade de aprender por parte dos professores. Isso nos leva a crer que, em breve, atingirão seu objetivo: formar um aluno capaz de refletir e interagir com a linguagem.

6 Bibliografia: NEVES, Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? São Paulo: Contexto, BARBOSA, Jacqueline Peixoto. Do professor suposto pelos PCNs ao professor real de Língua Portuguesa: são os PCNS praticáveis? In: A prática de linguagem em sala de aula: praticando os PCNs / org. Roxane Rojo. São Paulo: EDUC; Campinas: Mercado de Letras, BRASIL, MEC. (1998). Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília, MEC.

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