Portugal está quase lá ENTREVISTA

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1 Pág: 12 Área: 19,00 x 26,00 cm² Corte: 1 de 6 ENTREVISTA DeF Portugal está quase lá Não somos os melhores na produtividade, na riqueza, na organização empresarial, na capacidade de confiarmos uns nos outros, no futebol, na cultura? Por que é que não haveríamos de ser melhores na educação? Quem se questiona é David Justino que, ao fazê-lo, destaca a inequívoca capacidade dos portugueses para se superarem. A educação é um desafio enorme para qualquer estado, para Portugal também. A Aprender Magazine falou com uma das mais notáveis figuras no domínio da educação e ensino do nosso País e deixa-lhe aqui um retrato do País e ideias para o futuro. Temos investido o suficiente na educação e ensino dos portugueses? O que dizem os números? Penso que o problema não estará tanto na quantidade de investimento, mas antes na qualidade de investimento na educação. Tenho defendido a tese de que mais despesa em educação não é necessariamente maior e melhor investimento. O grande desafio é o de podermos gerir melhor os recursos que temos à nossa disposição e aplicá-los onde eles podem ter melhores efeitos e resultados. Se isso se traduzir em mais investimento, que seja, mas temos de definir muito bem quais são as prioridades que pretendemos valorizar. Onde estamos face à Europa quando falamos de educação e ensino?

2 Pág: 13 Área: 18,25 x 26,00 cm² Corte: 2 de 6 Catarina G. Barosa Diretora Editorial No quadro europeu só lhe posso dizer que a educação nos últimos dez a quinze anos evoluiu mais e melhor do que a economia portuguesa. Até à década de 90 poderemos dizer que o sistema económico progrediu mais rapidamente e isso gerou um desequilíbrio na procura de qualificações. O sistema de ensino não teve capacidade de responder rapidamente a esse surto de crescimento de desenvolvimento tecnológico. Nos últimos dez anos a situação inverteu-se: houve um progresso assinalável na escolarização e na oferta de qualificações e foi o crescimento económico que não respondeu a essa evolução. Essa é uma das razões porque ao esforço de aumento do número de licenciados e de formação intermédias tal não correspondeu ao aumento de oportunidades no mercado de trabalho, daí o aumento do desemprego de jovens e também o aumento dos fluxos migratórios de jovens qualificados. O ensino superior é uma viagem com várias escalas, Licenciatura, Pós-graduação, Mestrado, Doutoramento, etc. Onde precisamos de investir mais? Neste momento teremos de investir mais nos cursos de 1.º ciclo e nos mestrados integrados, especialmente naqueles que têm maior empregabilidade. Mas esse investimento terá de ser orientado para o aumento das capacidades profissionais e não um mero aumento dos licenciados. Precisamos de mais qualidade e de melhor adequação das formações às necessidades identificadas no mercado de trabalho. Uma parte do problema do desemprego de licenciados é o facto de existir uma desadequação entre as formações oferecidas e as necessárias ao crescimento da economia. É possível e necessário desenvolver uma visão prospetiva sobre as profissões mais necessárias nos próximos anos de forma a corrigir uma parte da oferta do ensino superior. Alguns cursos continuam a mandar licenciados para o desemprego. Estas escalas são apenas um dos tipos de formação que a população pode fazer, depois há outras modalidades de aprendizagem cada vez mais em voga, refiro-me à formação informal e não-formal. Estas começam a ser uma tendência. Como vê estes novos tipos de formação? Na perspetiva da formação ao longo da vida as aprendizagens mais informais sempre existiram, o que se nota atualmente é uma diferenciação muito grande dos conteúdos, das plataformas de acesso ao conhecimento e do valor reconhecido a esse tipo de formações. Nunca houve tantos recursos disponíveis de formação como há agora com acesso via Internet. O problema está em saber qual é o real valor acrescentado dessas formações e em que é que elas contribuem para sermos melhores profissionais e pessoas mais cultas. Há também cada vez mais instituições de ensino que oferecem a possibilidade de o ensino superior ser feito a distância; o e-learning e o b-learning estão a crescer por essa razão. Como avalia esta nova realidade? Penso que é um novo campo de oportunidades de formação, mas constato que as instituições de ensino superior ainda não perceberam muito bem o que essas oportunidades proporcionam na formação de novos públicos. Tirando um ou outro caso ainda muito circunscritos, o ensino e formação a distância com a disponibilidade de recursos tecnológicos que existem pode ser um segmento decisivo na afirmação e internacionalização daquelas instituições. Olhe para o que as universidades americanas andam a fazer nesse domínio. Julgo que andamos um pouco distraídos. Continuamos centrados nas formas tradicionais de ensino e formação em que a sala de aula continua a ser o centro de todas as aprendizagens. Com base nos indicadores existentes podemos tirar alguma conclusão sobre o retorno do investimento em David Justino DeF Licenciado em Economia, pósgraduado em História Económica e doutorado em Sociologia, é atualmente Professor Associado com Agregação do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e investigador do CESNOVA Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. A sua reflexão tem incidido nos últimos anos sobre as temáticas da sociologia da educação e da sociologia histórica da modernidade em Portugal. Publicou recentemente Difícil é Educá-los, um ensaio sobre os problemas da educação e das escolas em Portugal, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. É coordenador dos cursos de Ciências da Educação do 2.º e 3.º ciclos da Universidade Nova de Lisboa onde leciona os seminários de História e Políticas Educativas e Educação, Sociedade e Desenvolvimento. Foi ministro da Educação do XV Governo Constitucional ( ). É consultor para os Assuntos Sociais do Presidente da República e preside ao Conselho Nacional de Educação.

3 Pág: 14 Área: 19,00 x 26,00 cm² Corte: 3 de 6 ENTREVISTA educação feito pelo Estado nos últimos anos? O retorno da educação tem sido positivo e não será maior porque continuamos um pouco à deriva sobre a estratégia de desenvolvimento económico a médio e longo prazo. Que setores é que se tornarão mais competitivos à escala global e quais são aqueles em que temos vantagens comparativas? Quais as profissões e as qualificações necessárias para garantir essas vantagens competitivas? É urgente definirmos um rumo e não ficarmos dependentes em exclusivo dos mecanismos de um mercado global que nem sempre compreendemos. Também não podemos cair na situação oposta, ou seja, pensarmos só no mercado interno que não nos garante uma boa integração na economia europeia e mundial. Seria bom encontrar uma estratégia em que uma larga maioria se pudesse rever e servisse de orientação para a concretização de metas de desenvolvimento a longo prazo. Vamos dar um exemplo: o Turismo. Sabendo que temos vantagens competitivas neste particular domínio, que tipo de qualificações é que vamos precisar nos próximos anos? Quando conseguirmos identificar essas oportunidades só teremos de reorientar o sistema de Tirando um ou outro caso ainda muito circunscritos, o ensino e formação a distância com a disponibilidade de recursos tecnológicos que existem pode ser um segmento decisivo na afirmação e internacionalização daquelas instituições. formação para a prossecução desses objetivos estratégicos. Os números da educação e do ensino em Portugal suscitam-lhe algumas dúvidas, perplexidades, angustias, constatações, desabafos? Nesse particular domínio os números que mais me angustiam são os do insucesso escolar: alunos ficam retidos todos os anos na escolaridade obrigatória, o que representa cerca de 13% da população escolar. Isto, para mim, é destruição sistemática de potencial de capital humano que muito útil poderia ser na criação de mais riqueza e mais bem-estar. Temos cada vez menos crianças e jovens e nem por isso as tratamos melhor. Essa é uma fonte de desperdício que é necessário limitar. Temos de encontrar soluções para fazer baixar esses números. A mantê-los é mais um motivo para nos envergonharmos, não pelo que fazemos, mas pelo que não fazemos. A formação para desempregados, em especial para os de longa duração, é um caminho para estas pessoas voltarem ao mercado. Como estamos em termos de reinserção de desempregados no mercado de trabalho? Não é pelo facto de proporcionarmos mais formação aos desempregados de longa duração que eles mais facilmente vão deixar de o ser. Teremos de analisar cada caso per si e ajustar o potencial de formação à existência de oportunidades de reinserção profissional. Em muitos casos a formação de desempregados de longa duração DeF

4 Pág: 15 ID: é feita mais a pensar no formador do que no formando. A formação não pode ser só um instrumento de política de emprego, nomeadamente para fazer baixar artificialmente as taxas de desemprego. Temos de pensar mais em políticas de qualificação e de requalificação em função das oportunidades existentes ou previsíveis no mercado de trabalho. Se não for assim não nos libertamos dos paliativos e em nada contribuímos para a dignificação do trabalho e dessas pessoas. Onde gostava que Portugal estivesse daqui a 10 anos no domínio da Educação e do Ensino? Bem acima da média da OCDE. Estamos cada vez mais perto, mas ainda falta esse último esforço que julgo estar ao alcance do País. Vamos ver como vai evoluir a economia e a sociedade portuguesas. Só precisamos de maior visão, espírito de compromisso, melhor organização dos nossos recursos e metas muito simples e muito claras para que todos se possam mobilizar para a sua concretização. Confessionário sobre Educação Área: 18,78 x 13,30 cm² Corte: 4 de 6 Um desabafo: Estamos consumidos pelo passado e pelo presente e temos medo de olhar para o futuro. Lidamos mal com a incerteza porque não a racionalizamos e continuamos a acreditar na nossa capacidade de improvisar e desenrascar. Uma dúvida existencial: Valerá a pena gritar com quem não nos quer ouvir? Um desafio: Construir um compromisso em torno das políticas estruturantes do sistema educativo e do futuro da educação. Uma ideia: Não somos os melhores na produtividade, na riqueza, na organização empresarial, na capacidade de confiarmos uns nos outros, no futebol, na cultura? Por que é que não haveríamos de ser melhores na educação? Um orgulho: Os jovens que tive oportunidade de ajudar a formar e que hoje são profissionais de grande gabarito, especialmente os investigadores. Um facto: Todos os dias sinto a necessidade de fazer um pouco melhor do que fiz no dia anterior.

5 Pág: 1 Área: 17,60 x 5,97 cm² Corte: 5 de 6 12 ENTREVISTA David Justino

6 Pág: -1 Área: 5,82 x 5,00 cm² Corte: 6 de 6 Entrevista David Justino Portugal está quase lá

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