A GESTÃO DA TECNOLOGIA NAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FATORES LIMITANTES E FORMAS DE SUPERAÇÃO

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1 A GESTÃO DA TECNOLOGIA NAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FATORES LIMITANTES E FORMAS DE SUPERAÇÃO

2 Maria Lúcia Melo de Souza Deitos A GESTÃO DA TECNOLOGIA NAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FATORES LIMITANTES E FORMAS DE SUPERAÇÃO Edunioeste Cascavel 2002

3 SUMÁRIO LISTA DE TABELAS... LISTA DE GRÁFICOS... LISTA DE FIGURAS... LISTA DE QUADROS... LISTA DE SIGLAS... LISTA DE ABREVIATURAS... INTRODUÇÃO... CAPÍTULO I A PROBLEMÁTICA DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FRENTE AOS DESAFIOS DA CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA As Pequenas e Médias Empresas A importância das Pequenas e Médias Empresas Características das Pequenas e Médias Empresas Principais dificuldades encontradas pelas PMEs no Brasil Inovação tecnológica e PMEs Capacitação tecnológica das Pequenas e Médias Empresas O processo de aprendizagem tecnológica Qualificação de recursos humanos Atitudes no gerenciamento das empresas que favorecem a capacitação tecnológica Acesso à informação tecnológica Fontes de informação tecnológica Pesquisa e desenvolvimento de tecnologia Transferência de tecnologia... CAPÍTULO II GESTÃO DA TECNOLOGIA A tecnologia Tecnologia, competitividade e empresa A importância da gestão da tecnologia Incorporação da gestão da tecnologia A estrutura para gestão da tecnologia Funções e ferramentas para a gestão tecnológica...

4 2.6.1 Inventariar Avaliar Monitorar Otimizar Enriquecer Proteger Proteção de conhecimentos e capacidades... CAPÍTULO III A GESTÃO DA TECNOLOGIA NAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS DO OESTE DO PARANÁ Apresentação e análise dos dados obtidos Caracterização dos respondentes da pesquisa Caracterização das empresas pesquisadas Quanto ao setor, porte, faturamento e atuação no mercado Quanto ao quadro societário Quanto ao quadro de pessoal Quanto ao processo de produção Quanto aos controles internos e às ferramentas de trabalho Fatores considerados relevantes para obter êxito no negócio Atividades de gestão existentes Posicionamento em relação à inovação tecnológica Processo de decisão e estrutura para desenvolver projetos que envolvam tecnologia Atividades de gestão da tecnologia existentes nas PMEs pesquisadas Conhecimento do patrimônio tecnológico existente na empresa Monitoramento das informações internas e externas Meios para incremento do patrimônio tecnológico Medidas de proteção do patrimônio tecnológico Identificação das necessidades das PMEs em relação à variável tecnológica Necessidades internas Necessidades externas... CONSIDERAÇÕES FINAIS... REFERÊNCIAS...

5 LISTA DE TABELAS TABELA 1 - Distribuição das empresas industriais, comerciais e de serviços por porte e setor Brasil (1994) TABELA 2 - Distribuição do pessoal ocupado, segundo o porte da empresa por setor Brasil (1994) TABELA 3 - Distribuição da receita/valor bruto da produção industrial, segundo o porte da empresa por setor Brasil (1994) TABELA 4 - Taxa de mortalidade das Médias e Pequenas Empresas (%) TABELA 5 - Grau de importância das fontes de informação para inovação Paraná (1999) TABELA 6 - Indicação, pelas empresas, das prioridades em investimento (2000) TABELA 7 - Distribuição das empresas inovadoras, segundo o grau de importância dos fatores que motivaram a realização de inovações Estado do Paraná (1999) TABELA 8 - Distribuição das empresas pesquisadas por setor de atuação TABELA 9 - Distribuição dos funcionários segundo o nível de escolaridade TABELA 10 - Capacidade dos funcionários para realizar múltiplas funções TABELA 11 - Objetivos em termos de estratégia competitiva TABELA 12 - Pretensão em implantar as atividades de gestão inexistentes TABELA 13 - Importância atribuída aos critérios para escolher um meio para melhorar o potencial tecnológico TABELA 14 - Distribuição das empresas pesquisadas, segundo o número de horas de treinamento oferecidas aos funcionários

6 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 - Distribuição das empresas pesquisadas por número de funcionários GRÁFICO 2 - Disponibilidade de ferramentas para o trabalho cotidiano GRÁFICO 3 - Importância de fatores que permitem alcançar êxito frente aos concorrentes GRÁFICO 4 - Atividades de gestão existentes nas empresas pesquisadas GRÁFICO 5 Indicadores de inovação tecnológica GRAFICO 6 - Fatores que mais dificultam a inovação tecnológica GRÁFICO 7 - Processo de tomada de decisões que envolvam tecnologia GRÁFICO 8 - Técnicas e ferramentas utilizadas para apoiar o processo de tomada de decisões na área tecnológica GRÁFICO 9 - Importância atribuída aos fatores indicados na análise de projetos de inovação tecnológica GRÁFICO 10 - Distribuição das empresas pesquisadas de acordo com o tipo de organização que utilizam para desenvolver projetos que envolvam inovações tecnológicas GRÁFICO 11 - Existência de um levantamento e da documentação das tecnologias presentes nas empresas pesquisadas GRÁFICO 12 - Posicionamento da tecnologia utilizada na principal linha de produtos GRÁFICO 13 - Freqüência com que as empresas pesquisadas utilizam as fontes de informação GRÁFICO 14 Formas de circulação das informações obtidas GRÁFICO 15 - Importância que as empresas pesquisadas atribuem aos meios para melhoria do potencial tecnológico GRAFICO 16 - Medidas que as empresas pesquisadas utilizam para renovar seus conhecimentos técnico-científicos GRÁFICO 17 - Itens adquiridos de outras empresas ou de institutos de P&D GRÁFICO 18 - Medidas que utilizadas para assegurar a troca de conhecimentos e experiências entre funcionários

7 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Como as empresas aprendem? FIGURA 2 Níveis de intensidade de esforço em P&D FIGURA 3 Etapas em um processo de transferência de tecnologia FIGURA 4 A cadeia de valores FIGURA 5 As tecnologias contidas na cadeia de valores da empresa FIGURA 6 Gestão da tecnologia e processos de inovação empresarial FIGURA 7 Modelo conceitual da função inovação tecnológica FIGURA 8 As seis funções da gestão da tecnologia FIGURA 9 Exemplo de matriz produto/processo FIGURA 10 Processo integrado de inventário e avaliação FIGURA 11 Curvas FIGURA 12 Matriz: impacto de P&D sobre a posição competitiva x conhecimento do mercado FIGURA 13 Matriz conhecimento do mercado x conhecimento da tecnologia FIGURA 14 matriz posição competitiva tecnológica x fase em que se encontra a indústria FIGURA 15 Sinais potenciais de mudança FIGURA 16 Uma outra visão da empresa, seus conhecimentos e seus produtos

8 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 Principais características das pequenas e médias empresas QUADRO 2 - Definição de pequenas e médias empresas industriais em alguns países da OCDE (1981) QUADRO 3 - Tipos de pequenas e médias empresas inovadoras QUADRO 4 - Vantagens e desvantagens das pequenas e médias empresas em relação à inovação QUADRO 5 Fontes primárias internas e externas, formais e informais à empresa QUADRO 6 - Matriz: produto x tecnologia QUADRO 7 - Matriz para o elemento indivíduo QUADRO 8 - Matriz para o elemento atividades QUADRO 9 - Matriz para o elemento processo QUADRO 10 - Matriz para o elemento produto QUADRO 11 - Diferentes tipos de benchmarking QUADRO 12 - Habilidades chaves para a transferência de tecnologia

9 APRESENTAÇÃO Este trabalho foi originalmente apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, como dissertação de Mestrado, na área de Inovação Tecnológica, em maio de O estudo tem como ponto de partida a observação das dificuldades com que se deparam as pequenas e médias empresas para manterem-se competitivas neste cenário de permanente avanço técnico-científico. Entendendo que estas dificuldades são uma preocupação comum a todos aqueles que, de alguma forma, estejam envolvidos com a gestão das empresas, procurei neste estudo, conhecer mais sobre este segmento de empresas e examinar procedimentos e mecanismos que possam ajudá-las a capacitar-se tecnologicamente. Os resultados alcançados, além de oferecer contribuição ao processo de gestão da tecnologia nas pequenas e médias empresas, também oferecem subsídios para este processo em todos os segmentos de empresas, independentemente do porte. Tornando o estudo acessível ao público em geral, espera-se que se converta numa contribuição a todos aqueles que se interessam pelas questões que envolvem a gestão da tecnologia e a problemática das pequenas e médias empresas.

10 INTRODUÇÃO Este trabalho teve como foco central o estudo das questões da gestão da tecnologia no cotidiano das Pequenas e Médias Empresas (PMEs). A atenção a este segmento de empresas justifica-se por considerar que elas representam uma parcela significativa e importante da economia nacional que, apesar da sua inegável importância para o contexto sócioeconômico, vêm encontrando muitas dificuldades para a manutenção de seus negócios e conseqüentemente para sua sobrevivência. Sendo a tecnologia um dos principais instrumentos de que dispõem as empresas para alcançar competitividade, o objetivo geral da pesquisa foi o de identificar elementos que possam contribuir com o processo de gestão da tecnologia nas PMEs. Porém, no transcurso do trabalho, pode-se constatar também outros desdobramentos no processo de gestão geral das PMEs que, além de causar impacto sobre o objeto de estudo, são altamente reveladores das carências e necessidades deste segmento de empresas. Estas constatações revelam-se na contradição entre aquilo que se acha importante para alcançar êxito e manter a competitividade e o que efetivamente se faz em termos de gestão, de modo geral, para alcançar este posicionamento. Percebeu-se que nas pequenas e médias empresas pesquisadas apesar de se enunciar facilmente os fatores que podem conduzir ao êxito é baixo o nível de emprego de técnicas de gestão sistematizadas (mesmo daquelas já amplamente divulgadas) que possam facilitar o seu alcance. Assim, partindo-se do pressuposto de que, em termos de gestão, existem PMEs que sabem o que é preciso fazer, mas não sabem como fazê-lo ou têm dificuldades para incorporar os conhecimentos em suas práticas de gestão, seja por questões culturais, financeiras, estruturais, etc., passou-se a examinar a questão da gestão da tecnologia dentro de um contexto mais abrangente, envolvendo também os aspectos relacionados à capacitação tecnológica. Esta abordagem guarda a convicção de que é importante saber o que precisa ser feito, mas é igualmente importante conhecer as técnicas e os meios possíveis para fazê-lo, saber selecionar aquelas que melhor se adaptem à empresa e direcionar esforços no sentido de realmente incorporálas às práticas cotidianas. É necessário conhecer mais sobre as características deste segmento de empresas, seus problemas e suas perspectivas e examinar procedimentos e mecanismos que possam ajudá-las a capacitar-se tecnologicamente, permitindo assim, criar um ambiente propício à efetivação da gestão da tecnologia na empresa. Há que se buscar, também, o entendimento da atividade de gestão da tecnologia e da sua importância para a competitividade da empresa, verificando formas de estruturação desta atividade, funções e ferramentas que

11 possam contribuir com a sua operacionalização. Dessa forma, a contribuição que se espera dar extrapola os objetivos iniciais e, embora a ênfase central seja a gestão da tecnologia nas pequenas e médias empresas, poder-se-á encontrar no trabalho subsídios que poderão elucidar outros aspectos do modo de operar destas empresas. A revisão da literatura e os comentários sobre gestão da tecnologia e capacitação tecnológica, também poderão oferecer contribuição para este processo em todos os segmentos de empresas, independentemente do porte. Num cenário em que as empresas se vêem cada vez mais expostas às leis do mercado, a busca por novas tecnologias e pela eficiência gerencial se transforma em requisito indispensável para a competitividade. Mas como, diante das deficiências internas e externas com que se defrontam, as empresas podem se manter competitivas neste contexto de permanente avanço técnico-científico? Esta é uma questão que causa inquietação em todos aqueles que, de alguma forma, estejam envolvidos com a gestão das empresas. Para Solow (2000: 24), a absorção de novas tecnologias é a única fonte que pode permitir o crescimento por um período maior de tempo (Solow, 2000: 24). Porém, para as pequenas e médias empresas, dadas as suas especificidades, a absorção de tecnologia pode apresentar algumas particularidades se comparadas às grandes empresas, o que deve conferir ao seu processo de gestão da tecnologia características adequadas ao seu porte e recursos. Tendo presente que a atividade de gestão da tecnologia, implica na existência de um processo permanente de capacitação tecnológica, bem como, na estruturação de determinadas funções e no uso de técnicas e ferramentas adequadas ao seu propósito, buscou-se contribuir com esta reflexão, através da realização do presente estudo, com ênfase central nas questões da gestão da variável tecnológica. Este estudo teve por objetivo geral examinar o processo de gestão da tecnologia, a partir da problemática das pequenas e médias empresas. Para tanto, procedeu-se a análise de funções e ferramentas básicas para a sua operacionalização e dos mecanismos e procedimentos que possibilitam o alcance da capacitação tecnológica necessária a sua efetiva incorporação. Buscou-se, também: contribuir com a reflexão sobre gestão da tecnologia nas empresas; conhecer a situação em que se encontram as PMEs, da região oeste do Estado do Paraná, com relação à gestão da tecnologia e; explicitar as suas necessidades com relação à variável tecnológica. Do exame destas questões, pôde-se extrair subsídios que permitem responder à seguinte pergunta de pesquisa: quais são os fatores limitantes na incorporação da gestão da variável tecnológica e quais são os meios que podem contribuir efetivamente para esta incorporação, nas PMEs da região Oeste do Estado do Paraná? Embora as questões que envolvem a gestão da variável tecnológica sejam comuns a todas as empresas, neste trabalho optou-se por dedicar especial atenção ao segmento das pequenas e médias

12 empresas. Esta opção deu-se por entender que as PMEs possuem especificidades próprias, que necessitam de abordagens diferenciadas em relação às grandes empresas. Tendo presente que o avanço dos conhecimentos acerca do ambiente organizacional e do Modus operandi das PMEs irá proporcionar a viabilização de propostas e soluções mais adequadas para os problemas enfrentados por este tipo de empresa, contribuindo para a diminuição da alta taxa de mortalidade da qual essas empresas são vítimas (Cândido, 1998), buscou-se apoiar as análises em uma pesquisa de campo junto às PMEs da região Oeste do Estado do Paraná. Os trabalhos de pesquisa foram realizados no período de fevereiro de 2000 à fevereiro de 2001, sendo que a coleta de dados junto às PMEs, deu-se no período de setembro de 2000 à fevereiro de Para tratar das questões a que se propõe, o estudo está organizado da seguinte forma: O primeiro capítulo, A problemática das pequenas e médias empresas frente aos desafios da capacitação tecnológica, busca caracterizar este segmento de empresas, verificar suas principais dificuldades e suas perspectivas em relação à inovação tecnológica e examinar os procedimentos e mecanismos básicos que permitem às PMEs capacitar-se tecnologicamente. No Capítulo II, Gestão da Tecnologia, define-se o entendimento de tecnologia no contexto do trabalho; discute a importância da gestão da tecnologia para a competitividade das empresas; aborda a necessidade de real incorporação da atividade no cotidiano da empresa; comenta aspectos da estrutura para a gestão da tecnologia e; examina funções e ferramentas básicas que permitem a implementação desta atividade pelas empresas. Finalmente, o Capítulo III, A Gestão da Tecnologia nas Pequenas e Médias Empresas do Oeste do Paraná, apresenta a análise dos dados obtidos na pesquisa de campo realizada junto às PMEs do setor industrial, localizadas na região Oeste do Estado do Paraná.

13 CAPÍTULO I A PROBLEMÁTICA DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FRENTE AOS DESAFIOS DA CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA Neste capítulo são abordados aspectos referentes às pequenas e médias empresas (PMEs) e ao seu processo de capacitação tecnológica, buscando fundamentar o problema de pesquisa, através do exame das principais necessidades e deficiências enfrentadas por este segmento de empresas, em relação a variável tecnológica. Assim, o texto inicia pelo delineamento do perfil das PMEs, examinando suas principais características e dificuldades, bem como, as relações que podem estabelecer com referência à inovação tecnológica. Na seqüência, são apresentados mecanismos e procedimentos que podem contribuir com o processo de capacitação tecnológica das PMEs. 1.1 As pequenas e médias empresas A Importância das Pequenas e Médias Empresas Durante o século XVIII, predominava a economia baseada em empreendimentos de pequeno porte. No período entre o final do século XVIII e durante o século XIX, com a evolução do capitalismo e o advento da Revolução Industrial, surgem as grandes empresas e parece que o lugar para os pequenos negócios sofre contenções, oriundas deste processo que já se consolidava. Porém, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a sociedade volta a perceber a importância das pequenas empresas para o equilíbrio sócio-econômico (Domingos, 1995: 44). Esta mudança de atitude, de acordo com Guilherme Afif Domingos, é motivada pela extraordinária capacidade de adaptação do capitalismo, ao identificar nas pequenas e médias empresas uma alternativa para um desenvolvimento mais equilibrado. Esta postura pode ser decorrente da percepção de que a concentração empresarial, somente em grandes conglomerados, não é interessante para o equilíbrio sócio-econômico. Entretanto, foi na segunda metade do século XX, que o potencial dos pequenos negócios passou a ser mais intensamente reconhecido. De acordo com Pedro Veiga e Ricardo Markwald:

14 A partir da década de 1980, a problemática econômica das pequenas e médias empresas sofreu importante transformação. De forma muito sintética, é possível dizer que se passou a atribuir às PMEs função econômica adicional ou oposta, em certos enfoques àquela que tradicionalmente lhes era conferida: gerar renda e emprego à margem do núcleo dinâmico da economia e em condições de produtividade e de trabalho (salários, qualificação de mão-deobra etc.) nitidamente inferiores às encontradas nas grandes empresas (Veiga; Markwald, 1998: 245). Assim, nos últimos anos, vem sendo crescente o interesse em torno das PMEs, em todos os níveis: sócio-econômico, industrial e político. Isto porque, em quase todo o mundo a participação de micro, pequenas e médias empresas na economia é altamente significativa; elas representam algo em torno de 90% do total de empreendimentos, e contribuem com porcentuais (sic) variados mas sempre expressivos na geração de empregos (Domingos, 1995: 44). Esse potencial de geração de empregos e de ocupação da mão-de-obra é altamente desejável num cenário em que o desemprego tornou-se um problema estrutural. Para Gesinaldo Cândido, o fortalecimento das PMEs constitui-se uma preocupação de todas as nações, devido a sua importância para o crescimento econômico regional e global, principalmente pela sua capacidade de absorção de mão-de-obra, num momento em que o maior problema político, econômico e social dos países a nível mundial tem sido o crescente aumento das taxas de desemprego (Cândido, 1998: 03). Este reposicionamento em relação às PMEs também teve como impulso a crise do modelo fordista de produção, dando espaço à especialização flexível que, entre outros fatores, trouxe em seu bojo novas e diversas formas de articulação entre PMEs e grandes empresas como, por exemplo, parcerias, terceirização, etc. Outra questão que favorece as PMEs é a sua flexibilidade, que consiste na capacidade de aproveitar as oportunidades que o mercado oferece e em adaptar-se rapidamente às mudanças ocorridas em seu entorno. Estas empresas também apresentam vantagens na exploração de certos nichos de mercado, que necessitam do fornecimento de pequenos lotes, ou de personalização de produtos. Dessa forma, as PMEs representam uma alternativa viável e concreta para o fortalecimento da economia de um país, além de terem papel extremamente relevante na geração de empregos inclusive da mão-de-obra pouco especializada -, na absorção das matérias-primas e atendimento dos mercados locais, na distribuição equânime da renda e na mobilidade social (Domingos, 1995: 46). No Brasil, as PMEs representam um importante segmento da economia. Em 1994, respondiam por 9,18% do número de empresas e, se a este percentual forem somadas as microempresas, chega-se a 99,35% do total de empresas, contra 0,65% de grandes empresas. Nesse período, as PMEs ocupavam 34,83% do pessoal e respondiam por 30,23% da receita bruta da produção industrial (Estes dados são apresentados nas Tabelas 1, 2 e 3).

15 TABELA 1 - Distribuição das empresas industriais, comerciais e de serviços por porte e setor Brasil (1994) Setor Composição Número de Empresas ME(1) (%) PE(2) (%) MDE(3) (%) GE(4) (%) Total (%) Indústria 17,00 85,26 11,11 2,96 0,67 100,00 Comércio 56,00 93,16 6,04 0,48 0,32 100,00 Serviço 27,00 87,18 10,25 1,24 1,33 100,00 Total 100,00 90,17 8,06 1,12 0,65 100,00 Fonte: SEBRAE (Elaborado com dados do IBGE Estrutura Produtiva Empresarial Brasileira 1994 ). Observação: (1) ME (Microempresa): na indústria até 19 empregados e no comércio/serviço até 09 empregados; (2) PE (Pequena Empresa): na indústria de 20 a 99 empregados e no comércio/serviço de 10 a 49 empregados; (3) MDE (Média Empresa): na indústria de 100 a 499 e no comércio/serviço de 50 a 99 empregados; (4) GE (Grande Empresa): na indústria acima de 499 empregados e no comércio/serviço mais de 99 empregados. TABELA 2 - Distribuição do pessoal ocupado, segundo o porte da empresa por setor Brasil (1994) Setor Composição Pessoal Ocupado ME(1) (%) PE(2) (%) MDE(3) (%) GE(4) (%) Total (%) Indústria 43,80 14,87 18,56 24,80 41,77 100,00 Comércio 25,81 44,17 23,88 7,25 24,70 100,00 Serviço 30,39 18,89 17,96 7,73 55,42 100,00 Total 100,00 23,66 19,75 15,08 41,51 100,00 Fonte: SEBRAE (Elaborado com dados do IBGE Estrutura Produtiva Empresarial Brasileira 1994 ). Observação: (1) ME (Microempresa): na indústria até 19 empregados e no comércio/serviço até 09 empregados; (2) PE (Pequena Empresa): na indústria de 20 a 99 empregados e no comércio/serviço de 10 a 49 empregados; (3) MDE (Média Empresa): na indústria de 100 a 499 e no comércio/serviço de 50 a 99 empregados; (4) GE (Grande Empresa): na indústria acima de 499 empregados e no comércio/serviço mais de 99 empregados. TABELA 3 - Distribuição da receita/valor bruto da produção industrial, segundo o porte da empresa por setor Brasil (1994) Setor Composição Receita/Valor Bruto da Produção Industrial ME(1) (%) PE(2) (%) MDE(3) (%) GE(4) (%) Total (%) Indústria 51,18 6,94 10,30 21,67 61,09 100,00 Comércio 32,70 23,04 22,30 9,53 45,13 100,00 Serviço 16,12 14,34 14,06 7,46 64,14 100,00 Total 100,00 13,4 14,82 15,41 56,37 100,00 Fonte: SEBRAE (Elaborado com dados do IBGE Estrutura Produtiva Empresarial Brasileira 1994 ). Observação: (1) ME (Microempresa): na indústria até 19 empregados e no comércio/serviço até 09 empregados; (2) PE (Pequena Empresa): na indústria de 20 a 99 empregados e no comércio/serviço de 10 a 49 empregados; (3) MDE (Média Empresa): na indústria de 100 a 499 e no comércio/serviço de 50 a 99 empregados; (4) GE (Grande Empresa): na indústria acima de 499 empregados e no comércio/serviço mais de 99 empregados. Pelos dados apresentados, as empresas de pequeno porte são de fundamental importância para a economia dos países, em especial para aqueles países em processo de desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Porém, apesar da importância econômica, tanto

16 em países altamente industrializados, quanto naqueles de recente industrialização, as PMEs ainda se ressentem, particularmente nas nações em desenvolvimento, de abordagens gerenciais mais eficazes (Kruglianskas, 1996: 08) Características das Pequenas e Médias Empresas As PMEs possuem características próprias que as distinguem das grandes empresas. Estas características referem-se tanto a sua forma de organização, quanto ao seu relacionamento com clientes, fornecedores, instituições governamentais e demais atores do seu entorno. O Quadro 1 ilustra as principais características deste tipo de empresa. QUADRO 1 - Principais características das Pequenas e Médias Empresas - Estrutura organizacional simples - Limitação de recursos humanos - Ausência de burocracia interna - Baixo grau de diversificação produtiva - Limitação de recursos financeiros - Produção para mercados locais ou especializados - Proximidade do mercado e do cliente - Rapidez de resposta - Flexibilidade e adaptabilidade à mudanças do entorno Fonte: Fundación Cotec, Estudios 7 [199-], p. 60. Algumas das características apontadas como: estrutura organizacional simples, pouca burocracia, rapidez de resposta, flexibilidade, etc., são altamente desejáveis, tendo em vista, que permitem uma reação mais rápida em um contexto de constantes mudanças. Já, características como: limitações de recursos humanos e financeiros representam obstáculos ao desenvolvimento das PMEs. Para Nilda Maria Leone as especificidades das pequenas e médias empresas podem ser apresentadas em três vias: especificidades organizacionais; especificidades decisionais e; especificidades individuais. As especificidades organizacionais dizem respeito à sua forma de gestão e de organização, onde existe uma tendência para as estruturas mais simples e menos formalizadas e à centralização da gestão na pessoa do proprietário-dirigente. As especificidades decisionais referem-se ao processo de tomada de decisão, normalmente baseada na experiência, no julgamento ou na intuição do proprietário-dirigente e marcada não somente pela sua racionalidade econômica mas também por sua racionalidade política e familiar. As especificidades individuais põem em foco a simbiose existente entre a pessoa física e a pessoa jurídica, entre o dirigente e o proprietário, assim, é necessário analisar as

17 competências, as atitudes, as motivações e o comportamento organizacional do proprietáriodirigente para que se compreenda o funcionamento de sua empresa (Leone, 1999: 92-93). Neste posicionamento, percebe-se uma clara influência das atitudes do dirigente da empresa, na forma de organização e atuação das PMEs, mesmo porque os donos das PMEs, costumam desempenhar múltiplas tarefas dentro e fora da empresa. Outra característica das PMEs refere-se ao investimento em pesquisa e desenvolvimento. Segundo Isak Kruglianskas, as PMEs desenvolvem produtos mas raramente realizam pesquisas de natureza mais básica. Sua vocação é aplicar tecnologia existente de forma original em novos produtos. As PMEs tendem a evitar áreas que exigem recursos consideráveis para P&D. Em geral, os dirigentes de PMEs são cépticos em relação à eficiência das equipes numerosas que atuam em grandes empresas (Krugianskas, 1996: 10). Em parte, este comportamento pode ser atribuído à tendência de não visualizar um horizonte de longo prazo. Porém, este comportamento em relação à P&D pode ser atribuído às PMEs de atuação em áreas tradicionais, pois, em PMEs de base tecnológica, onde o avanço técnico-científico ocorre de forma mais intensa, a P&D é uma área vital para a continuidade da empresa. Para o enquadramento como PMEs, não existe um critério universal. Sendo assim, cada país define seus próprios critérios, que poderão ser: número de trabalhadores, volume de negócios, total de ativos, balanço de resultados, etc. Entre estes critérios, o mais comumente adotado é a classificação segundo o número de empregados. Em alguns países da OCDE, são adotados os seguintes parâmetros: QUADRO 2 Definição de PMEs industriais em alguns países da OCDE PAÍS NO. DE EMPREGADOS Alemanha Austrália 1-99 Bélgica 1-50 Canadá 1-99 Dinamarca 1-50 Estados Unidos França Irlanda 1-50 Itália Japão Países Baixos Reino Unido Suécia Fonte: Wadley apud Fundación Cotec, Estudios 7, [199-], p. 58.

18 No Brasil, a forma mais freqüente de enquadramento das PMEs também é o número de empregados. Para o setor industrial o referencial é o seguinte: Microempresa - de 0 a 19 empregados; Pequena empresa - de 20 a 99 empregados; Média empresa de 100 a 499 empregados; Grande empresa acima de 499 empregados. No setor comercial e de prestação de serviços, considera-se o seguinte referencial: Microempresa - de 0 a 09 empregados; Pequena empresa - de 10 a 49 empregados; Média empresa de 50 a 99 empregados; Grande empresa acima de 99 empregados. Porém, estas classificações não representam uma regra geral. No caso brasileiro, em especial, devido à grande extensão territorial e a diversidade de contextos regionais, muitas vezes, é necessário buscar critérios que melhor se adaptem à região pesquisada e às condições sociais, econômicas e produtivas nela existentes Principais dificuldades encontradas pelas PMEs no Brasil Apesar de sua grande importância no contexto sócio-econômico, as PMEs encontram muitas dificuldades para a manutenção de seus negócios e conseqüentemente de sua sobrevivência. Tanto isto é verdade que, o índice de mortalidade destas empresas é alto. Dados do Sebrae para as MPEs, apresentam índices de até 61% Estado do Amazonas no ano de 1997 para a taxa de mortalidade no primeiro ano de vida. Os dados levantados pela pesquisa, para as MPEs, estão expostos na seguinte tabela: TABELA 4 -Taxa de Mortalidade das MPEs (%) ANO DE CRIAÇÃO AC AM MG MS RN PB PE PR RJ (1) SC (1) SE SP TO MÉDIA (2) Fonte: SEBRAE. Fatores Condicionantes e Taxa de Mortalidade de Empresas. São Paulo, Obs.: Foram excluídas as empresas que não chegaram a funcionar. (1) A taxa superior foi obtida agregando-se o percentual de empresas pertencentes aos cadastros de empresas extintas. (2) Coluna incluída com a finalidade de facilitar a análise do posicionamento de cada Estado. Nesta pesquisa observou-se que no universo das micro e pequenas, quanto maior a empresa, maiores são suas chances de sobrevivência (Bessone, 2000: 41). Assim, considerando que a pesquisa refere-se às MPEs, se a mesma fosse realizada em relação ao seguimento das PMEs, deduz-se que os índices poderiam ser menores. Destaque, também, deve ser dado aos números relacionados ao Estado do Paraná, referência deste estudo. O Paraná foi o Estado que apresentou os maiores índices nos anos

19 de 1995 e 1996 (73% e 68%, respectivamente), e apresenta o segundo maior índice no ano de 1997 (57%). Estes números revelam a necessidade de maior aprofundamento das pesquisas, para detectar as causas que levaram a índices tão elevados. Quanto às dificuldades, de modo geral, podem ser apontadas as seguintes: a) Falta de recursos financeiros A falta de recursos financeiros é apontada como uma das maiores dificuldades com que convivem as PMEs, a carência de recursos é um fator que limita os investimentos necessários para que estas empresas se desenvolvam ou, até mesmo, sobrevivam. Segundo Seminário Internacional realizado no México em 1993, sob o tema O Papel das Micro, Pequenas e Médias Empresas no Processo de Globalização da Economia Mundial, Os problemas de financiamento são comuns às micro, pequenas e médias empresas, e podem em alguns momentos, ser cruciais para o seu desenvolvimento. Isso ocorre na criação da empresa, durante suas fases de expansão, em sua reestruturação, na reconversão de atividades produtivas e quando se decide realizar pesquisas para desenvolver novos produtos e processos. Para enfrentar essas situações, a empresa deve ter estrutura financeira que permita investimentos sem atingir o capital de giro (SEBRAE, 1994: 42). Portanto, viabilizar políticas de financiamento em apoio a estas empresas é fundamental para a sua manutenção e desenvolvimento. b) Gerenciamento As PMEs têm problemas de gerenciamento decorrentes, normalmente, de duas situações: o tempo de dedicação do(s) sócio-gerente(s) à empresa e/ou a capacitação para gestão. A primeira situação ocorre quando o sócio-gerente assume tarefas dentro da organização e fora dela, não podendo desta forma dedicar-se inteiramente ao negócio, o que traz perdas em termos de gestão. Na segunda situação falta ao gestor capacitação empresarial, existindo o desconhecimento de técnicas básicas para gerir as atividades internas e externas à empresa. Neste sentido é necessário buscar soluções próprias para as características deste segmento de empresas, pois a transferência de conceitos e ferramentas adotadas pelas grandes organizações é problemática, quando tratamos de pequenas empresas de setores tradicionais (Kruglianskas, 1996: 04). c) Carga tributária elevada A carga tributária vigente no país é apontada pelos empresários como uma das maiores dificuldades das empresas. 1 Uma alta carga tributária contribui para o comprometimento da competitividade das empresas, pois sobrecarrega os preços de venda,

20 num momento em que oferecer produtos com qualidade e a preços baixos é fundamental para concorrer em um mercado globalizado. d) Infra-estrutura A infra-estrutura disponível entendida como a existência de um sistema de transporte, universidades, institutos de pesquisa, parques tecnológicos, serviços de apoio, telecomunicações, etc. é um dos fatores que podem favorecer as PMEs, quando são de boa qualidade e de acesso facilitado. A existência de infra-estrutura de qualidade, beneficia o conjunto das empresas o que, por sua vez, impulsiona o desenvolvimento da região, criando um círculo propício ao crescimento que favorece as empresas, no conjunto e individualmente. Segundo Isak Kruglianskas, para que uma empresa seja competitiva, não é suficiente que apenas ela seja competitiva; é necessário que haja no País ou região uma infra-estrutura também competitiva e que a cadeia produtiva na qual está inserida esta empresa seja, por sua vez, competitiva (Kruglianskas, 1996: 24). No Brasil, os problemas relacionados à infra-estrutura, diferem de uma região para outra. Regiões mais industrializadas, pelo seu próprio processo de desenvolvimento histórico, tendem a ter melhores condições em pesquisa e desenvolvimento, formação de recursos humanos, transporte, telecomunicações e em instituições de apoio tecnológico e empresarial. Assim, as dificuldades em relação à infra-estrutura estão fortemente vinculadas à região onde está localizada a empresa, não devendo ser estudadas fora deste contexto. e) Recessão econômica Na Pesquisa Fatores Condicionantes e Taxa de Mortalidade de Empresas, realizada pelo SEBRAE (2000), uma das principais dificuldades apontadas é a recessão econômica do país, já que ela gera instabilidade, inibe investimentos, aprofunda os problemas financeiros, diminui a demanda por produtos e serviços e aumenta o número de inadimplentes. Todas estas situações são prejudiciais às PMEs e às empresas de modo geral. As dificuldades enfrentadas pelas PMEs do Brasil, não se esgotam nestas quatro categorias citadas, mas envolvem muitos outros fatores. Parece inclusive, que alguns deles são negligenciados ao não aparecerem de forma explícita nas pesquisas, como é o caso do acompanhamento do avanço tecnológico. Note-se também, que a maior parte das dificuldades é atribuída às questões decorrentes do contexto sócio-econômico e político, mais fáceis de serem apontadas, inclusive porque justificam os fracassos de gestão (Rocha, 1996: 111).

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