DA INEXIGIBILIDADE DE O PREPOSTO SER EMPREGADO DA PREPONENTE NA JUSTIÇA COMUM

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1 DA INEXIGIBILIDADE DE O PREPOSTO SER EMPREGADO DA PREPONENTE NA JUSTIÇA COMUM Sérgio Augusto Santos Rodrigues Advogado em Belo Horizonte/MG Mestrando em Direito Empresarial pela Faculdade de Direito Milton Campos/MG Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara BH/MG 1. Intróito Causa celeuma nas Varas Cíveis e Juizados Especiais a exigência feita por alguns magistrados de ser o preposto empregado da preponente, não admitindo somente a Carta de Preposição como documento capaz de legitimar a representação da empresa. Tal afirmação é corroborada pelo Dicionário Jurídico de Deocleciano Torrieri Guimarães 1, que define o preposto como: aquele que, por nomeação, delegação ou incumbência recebida de outro, dirige negócio ou presta serviço ao preponente, em caráter permanente, como o administrador, o gerente etc. A CLT faculta ao empregador fazerse substituir pelo gerente ou qualquer outro preposto que tenha conhecimento do fato, e cujas declarações obrigarão o preponente. Embora a lei não exija a condição de empregado para o preposto representar o empregador, prevalece na jurisprudência a afirmação de que ele deve ser empregado da empresa; mas há também pronunciamentos contrários, além de encontrar resistência na doutrina. Nesta seara, necessário se faz, portanto, tecer alguns comentários sobre a controvertida matéria, objetivando alcançar uma conclusão correta, que coadune com o ordenamento jurídico pátrio e pacifique a discussão de forma não prejudicial aos jurisdicionados. 1 in Dicionário Técnico Jurídico. 6 a ed. rev. e atual. São Paulo: Rideel, p. 437

2 Segundo o dicionário Larousse Cultural 2, preposto é o indivíduo que executa um ato ou dirige um serviço por delegação de outra pessoa; delegado, representante. No âmbito jurídico, ensina o Prof. Arnold Wald que o vínculo de preposição há pois de ser entendido como relação funcional, sendo preposto todo indivíduo que pratica atos materiais por conta e sob a direção de outra pessoa 3. Das conceituações acima colacionadas, apresentam-se duas importantes observações: i) não existe em nosso ordenamento jurídico qualquer determinação legal de que o preposto seja empregado da preponente e, ii) há divergência na doutrina e jurisprudência acerca dessa obrigatoriedade. De tal sorte, crucial analisar essas correntes e confrontá-las com o fito de se buscar a melhor interpretação legal. 2. O preposto na Justiça do Trabalho Ao afirmar que na jurisprudência prevalece o entendimento de que deve o preposto ser empregado, acredita-se que o citado Deocleciano Torrieri Guimarães estaria referindo-se tão somente ao âmbito trabalhista, esfera na qual o C. Tribunal Superior do Trabalho, através da Orientação Jurisprudencial da SDI I no. 99 de 30/05/ posteriormente confirmada pela Súmula n.º 377 do TST - determinou: Preposto. Exigência da condição de empregado. Exceto quanto à reclamação de empregado doméstico o preposto deve ser necessariamente empregado do reclamado. Inteligência do art. 843, 1o da CLT. Considerando que a referida OJ se baseia no art. 843, 1º, da CLT, tornase pertinente a transcrição do referido dispositivo, in verbis: Art Na audiência de julgamento deverão estar presentes o reclamante e o reclamado, independentemente do comparecimento de seus representantes salvo, nos casos de Reclamatórias Plúrimas ou Ações de Cumprimento, quando os empregados poderão fazer-se representar pelo Sindicato de sua categoria. 2 Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo:Universo, p in Obrigações e Contratos. 14 a ed. p. 605

3 1º - É facultado ao empregador fazer-se substituir pelo gerente, ou qualquer outro preposto que tenha conhecimento do fato, e cujas declarações obrigarão o proponente. Conforme se nota da leitura do dispositivo em questão, não há qualquer indicação expressa de que o qualquer outro preposto que tenha conhecimento do fato, e cujas declarações obrigarão o proponente deve, necessariamente, ser empregado do representado. Ainda que se entenda correta a interpretação atribuída pelo TST, é sabido que uma orientação jurisprudencial da Suprema Corte Laboral não tem aplicação efetiva sobre o processo civil, não podendo, portanto, estender seus efeitos às Varas Cíveis e Juizados Especiais. Mesmo porque, importante frisar, a Orientação Jurisprudencial no. 99 da SDI I do TST encontra forte resistência até mesmo na doutrina e jurisprudência trabalhista 4, que pode ser exemplificada pelas palavras de Eduardo Gabriel Saad 5 : Os tribunais deveriam orientar-se no sentido da aceitação de qualquer preposto empregado ou não da reclamada que tenha conhecimento do fato e cujo mandato o autoriza a fazer quaisquer declarações que obriguem o proponente. O Ilmo. Juiz do Tribunal Regional do Trabalho da 9a Região, Dr. Luiz Eduardo Gunther, em seu artigo intitulado O preposto no processo do trabalho e a exigência de ser empregado (aplicabilidade do Novo Código Civil) 6, assim resume seu entendimento sobre o dispositivo em análise: O 1o do art. 843 da CLT não exige, expressamente, que o preposto, representante do empregador em audiência trabalhista, detenha a condição de empregado; Perante o E. TRT da 9a Região prevalece posição contrária à OJ 99 da SDI I do C. TST; 4 Na Jurisprudência: Preposto. À luz do artigo 843, 1º da CLT, o empregador pode ser representado em audiência por qualquer pessoa, inclusive autônoma, como preposta. A lei não alude à necessidade de que o preposto seja sócio, diretor ou empregado do representado. A exigência legal concerne tão-somente a que o preposto esteja inteirado dos fatos controvertidos. Recurso ordinário a que se dá provimento para anular o processo, por vício procedimental, determinando a reabertura da instrução processual. (TRT 9ª R. RO n /94 Rel. Juiz Oreste Dalazen DJPR p.45). 5 in Direito Processual do Trabalho. São Paulo: LTr, 1994, p; Acesso em

4 10.9. Se o art , parágrafo único, do novo Código Civil, ao tratar da responsabilidade dos prepostos, fixou que os gerentes, ou não, se responsabilizam pessoalmente, perante os preponentes, pelos atos culposos, e, perante, terceiros, solidariamente com o preponente, pelos atos dolosos, é possível ter por superada a OJ 99 da SDI I do C. TST, entendendo-se que o Código Civil, agora, impõe ao Direito do Trabalho admitir que o preposto pode ser permanente (gerente, com vínculo empregatício), mas, também, pode ser temporário (colaborador, sem vínculo), obrigando-se, em ambas as hipóteses, por suas declarações. De tal sorte, restou demonstrado que, inclusive no âmbito trabalhista, inobstante a OJ 99, a matéria gera discussões, motivo pelo qual não há que se falar em entendimento solidificado sobre o assunto nem mesmo nessa esfera. 3. O preposto na Justiça Comum Se na Justiça Laboral é possível identificar uma certa prevalência do entendimento de ser cabível a exigência de vínculo empregatício do preposto, entende-se que na denominada Justiça Comum, ou no âmbito cível, a tendência é de se aceitar prepostos sem vínculo empregatício. Todavia, este entendimento encontra resistências, tanto que é comum magistrados, mormente de Juizados Especiais, exigirem a comprovação de que o preposto de determinada pessoa jurídica seja empregado desta, chegando até mesmo a decretar sua revelia caso não haja a comprovação do vínculo empregatício. Antes de se adentrar ao aspecto legislativo, antecipa-se o posicionamento tido como dominante invocando um excerto da monografia do Prof. Natal Nader, publicada na Revista Forense 7 : Quanto à relação de preposição, não importa, para a sua caracterização, que o preposto seja ou não salariado, e nem se exige que as relações entre preponente e preposto sejam permanentes podendo elas ser meramente eventuais. Assim, o serviço pode consistir numa atividade duradoura ou num ato isolado, tanto material quanto intelectual. O Código Civil de 2002, nos artigos a 1.171, dispõe sobre os prepostos, sem, todavia, indicar a necessidade de existência de vínculo empregatício entre estes e a pessoa jurídica ou firma individual que representam. 7 Revista Forense, vol. 299, p. 41

5 A Lei n.º 9.099/95, em seu art. 9 o, 4 o, preconiza: O réu, sendo pessoa jurídica ou titular de firma individual, poderá ser representado por preposto credenciado. Novamente, não é feita menção acerca da necessidade de vínculo empregatício, deixando-se crer, portanto, que não há qualquer empecilho legal para a utilização de prepostos não empregados. Nesse sentido, crucial citar o Projeto de Lei no , de 2005, de autoria do Deputado Bernardo Ariston e relatoria do Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, aprovado por unanimidade pela Comissão de Constituição e Justiça de Cidadania da Câmara dos Deputados, em 13/12/2005, e remetido ao Senado Federal em 21/12/2005 (aguardando designação de Relator na CCJ deste órgão desde 30/01/2006). O referido projeto substitutivo pretende alterar o transcrito art. 9, 4 o, da Lei n.º 9.099/95, para que passe a apresentar a seguinte redação: O réu, sendo pessoa jurídica ou titular de firma individual, poderá ser representado por preposto credenciado, munido de carta de preposição com poderes para transigir, sem haver necessidade de vínculo empregatício. Espera-se, assim, acabar com as eventuais discussões acerca do tema objeto deste trabalho, já que, nas palavras do Autor do projeto,...da forma como está redigido o dispositivo, permite-se que os juízes tomem decisões diversas a respeito da comprovação do credenciamento do preposto, razão pela qual se faz necessária a padronização, via carta de preposição ainda que livre a forma como a mesma poderá se apresentar, em atenção à informalidade que deve presidir os juizados especiais. O i. Deputado Relator também é preciso e conclusivo em seu voto, favorável ao projeto de lei, ao afirmar que: Tudo deve ser impregnado de simplicidade e da informalidade, que é a marca principal dos juizados especiais. O princípio da simplicidade busca a finalidade do ato processual pela forma mais simples possível. O princípio da informalidade imprime ao processo um ritmo sem formalidades inúteis. Ora, se o próprio artigo 2 o da Lei 9.099/95 reza que o processo orientarse-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, não há razão para impedir que o preposto sem vínculo empregatício represente a pessoa jurídica ou firma individual. Ater-se a esses detalhes é fugir ao escopo da lei. Se o preposto está munido da carta que lhe dá poderes para agir em nome da pessoa jurídica ou firma individual, é indiferente a existência de vínculo empregatício entre representante e representado.

6 Ademais, vale lembrar que o risco em nomear preposto inapto para exercer a função é todo do preponente, que responderá pelos atos daquele, não havendo razão para interferência do Poder Judiciário nessa definição. Realmente, é de se supor que os magistrados que pugnam pela necessidade do vínculo empregatício entre preposto e preponente querem somente a certeza de que aquele está apto a contribuir com a justiça, caso se torne necessário o fornecimento de informações. Todavia, há de se pensar que, caso uma pessoa jurídica ou firma individual nomeie como preposto um individuo inapto para o cargo, os únicos prejudicados serão aqueles. Por outro lado, o simples fato de ter o preposto vínculo empregatício não é garantia de sua aptidão à efetiva contribuição em relação a todos os casos que envolvam seu empregador e que sejam apreciados pelo Poder Judiciário. Sendo assim, o primordial é que o preposto esteja pronto para representar a preponente de forma plena e capaz, tendo conhecimento dos fatos que o levaram em juízo para, se for o caso, prestar depoimento e, assim, atender às necessidades do judiciário e contribuir para o efetivo seguimento do processo, sendo irrelevante sua condição de empregado celetista em relação ao preponente. 4. A jurisprudência em relação ao preposto na Justiça Comum manifestou: Sobre a matéria em discussão, o Egrégio Superior Tribunal de Justiça já se RESPONSABILIDADE CIVIL. USINA. TRANSPORTE DE TRABALHORES RURAIS. MOTORISTA PRESTADOR DE SERVIÇO TERCEIRIZADO. VÍNCULO DE PREPOSIÇÃO. RECONHECIMENTO. - Para o reconhecimento do vínculo de preposição, não é preciso que exista um contrato típico de trabalho; é suficiente a relação de dependência ou que alguém preste serviço sob o interesse e o comando de outrem. Precedentes. Recurso Especial não conhecido. (REsp SP. Relator Ministro Barros Monteiro. 4 a Turma. julg. 25/09/2001). A decisão supra, assim como outras daquela Colenda Corte 8, bem resume o entendimento da matéria na esfera cível e deixa claro que o contrato típico de trabalho 8 AgRg no Ag 54523/DF; REsp /RJ

7 não é necessário para o preposto. Acompanhando a instância superior especial, muitos Juizados Especiais também adotam essa postura, conforme demonstra o seguinte precedente: PREPOSTO VÍNCULO EMPREGATÍCIO DESNECESSIDADE CERCEAMENTO DE DEFESA. No Juizado Especial Cível a preposição não exige vínculo empregatício entre preposto e preponente; indicado o preposto, a preposição tem validade plena. Quando houver irregularidade, no ato de preposição, deve o Juiz conceder à parte um prazo razoável para sana-la, sob pena de cerceamento de defesa, com a conseqüente nulidade da aplicação da revelia. (Turma Recursal de Ipatinga/MG Rec. 303/03 Juiz Carlos Roberto de Faria 16/12/03 Boletim no. 72). A Juíza da 2 a Turma Recursal da Comarca de Porto Alegre, Dra. Maria José Schmitt Santanna, ratificando a corrente ora defendida, asseverou que o preposto nada mais é do que uma pessoa indicada pela própria empresa para representá-la em juízo e com poderes determinados. Se a empresa escolhe bem ou mal a pessoa que traz ao Judiciário, o ônus recai sobre si mesma 9. Dessa opinião também compartilha o i. Magistrado da 3 a Turma Recursal da Comarca de Porto Alegre, Dr. Eugênio Facchini Neto, que afirmou: Entendemos que não há base legal ou racional para tal exigibilidade, concluindo que não se infere a obrigatoriedade do preposto ser empregado Conclusão De tal sorte, seja porque a jurisprudência na matéria cível abarca essa tese, seja porque é fato que orientações jurisprudenciais trabalhistas não se aplicam ao processo civil, conclui-se que não há necessidade do preposto possuir vínculo empregatício com a pessoa jurídica ou firma individual para representá-la. Se na legislação trabalhista existe dispositivo que permite a interpretação concedida pelo TST à matéria, está claro que o mesmo não ocorre em relação à legislação cível. Como esposado, vários juristas, magistrados e até mesmo legisladores caminham nessa direção. 9 Acesso em Acesso em

8 Sendo assim, enquanto o projeto de lei mencionado neste texto não é aprovado, faz-se necessário que os juízes que entendem pela necessidade do vínculo empregatício para prepostos cedam à razoabilidade da maioria, sob pena de restar prejudicado o bom andamento dos processos e se impedir a almejada celeridade processual. Tal conclusão se apresenta ainda mais pertinente em relação aos Juizados Especiais, nos quais a tramitação processual deve se pautar, nos termos da lei, pela informalidade e simplicidade. Com o acúmulo de processos que aflige o Judiciário nacional como um todo, espera-se que esse formalismo exacerbado seja substituído pelo objetivo final do processo, que é encerrar a lide e dar a efetiva prestação jurisdicional aos cidadãos em vez de arrastar os processos por anos, fato que só gera desconfiança em relação à efetividade da justiça.

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