UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA MACHADO DE ASSIS E O GÊNERO FANTÁSTICO: UM ESTUDO DE NARRATIVAS MACHADIANAS Darlan de Oliveira Gusmão Lula Dissertação de Mestrado 2005

2 DARLAN DE OLIVEIRA GUSMÃO LULA MACHADO DE ASSIS E O GÊNERO FANTÁSTICO: UM ESTUDO DE NARRATIVAS MACHADIANAS Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Universidade Federal de Juiz de Fora MG, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Teoria da Literatura, do Curso de Pós- Graduação em Letras, Instituto de Ciências Humanas e Letras, UFJF, sob orientação da Professora Doutora Teresinha Vânia Zimbrão da Silva. Juiz de Fora 2005

3 Exame de dissertação LULA, Darlan de Oliveira Gusmão. Machado de Assis e o gênero fantástico. Dissertação de Mestrado em Letras (área de concentração: Teoria da Literatura), apresentada à Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF, 2º semestre de 2005, 76 páginas. BANCA EXAMINADORA Professora Doutora Teresinha Vânia Zimbrão da Silva (Orientadora UFJF MG) Professor Doutor Edimilson de Almeida Pereira (Presidente UFJF MG) Professor Doutor Marcos Rogério Cordeiro Fernandes (Membro Titular UFV MG) Examinada a dissertação: Conceito: Em:

4 A Míriam e Pedro Henrique, pelo amor, carinho, e a vida que me proporcionam: repleta de luz. Aos pais Geraldo e Neuseli, pelos amores que renderam frutos.

5 AGRADECIMENTOS A professora Teresinha Vânia Zimbrão da Silva, pelo diálogo enriquecedor e pela compreensão em momentos difíceis. Ao amigo Rogério Cordeiro, por onde tudo começou. Aos amigos Édimo de Almeida e Odirlei Costa, cujo constante convívio e troca de idéias reforçam a cada dia a amizade e o carinho sinceros. Aos colegas e professores do Curso de Mestrado, pela convivência acadêmica e pelos momentos enriquecedores de trocas de experiências. Ao professor Antônio Pereira Gaio, sempre solícito e pronto a ajudar, o meu carinho especial. A todas as pessoas que, direta ou indiretamente, colaboraram nessa caminhada.

6 Machado, bastante influenciado por Poe, é um dos nomes maiores do conto fantástico nas literaturas em língua portuguesa e figura dentre os grandes nomes mundiais do gênero. Djalma Cavalcante Crês em sonhos? Há pessoas que os aceitam como a palavra do destino e da verdade. Machado de Assis em Um sonho e outro sonho

7 RESUMO Esse trabalho busca estudar o gênero fantástico nas narrativas de Machado de Assis ( ), partindo do princípio de que o escritor conhecia o gênero quando designou um texto seu intitulado O país das quimeras (Futuro, 1862) de conto fantástico. Nosso trabalho também se inspira em um livro organizado por Raymundo Magalhães Júnior cujo título é Contos fantásticos: Machado de Assis. Propomo-nos a analisar algumas narrativas machadianas, sublinhando a originalidade do autor ao se apropriar do gênero. Nossa pretensão maior é despertar o interesse dos estudiosos da obra de Machado de Assis para a relevância de se estudar a ocorrência do fantástico em suas narrativas, relevância até hoje pouco considerada.

8 ABSTRACT This work looks for to analyze the fantastic genre in the Brazilian writer Machado de Assis ( ) narrative, by considering that he knew this literary genre when he called one of his texts O país das quimeras (in Futuro, 1862) as a fantastic short story. Our study is also based on a book, organized by Raymundo Magalhães Júnior, named Contos Fantásticos: Machado de Assis (Fantastic short-stories: Machado de Assis). Our proposal is to analyze some of the Assis narratives by emphasizing the originality of the writer when he takes over the genre. Our main intention is to call the attention of the researchers of the Machado de Assis works for the importance of the studies on the fantastic ocurrence in his narratives, which researches are not so explored even nowadays.

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO O GÊNERO FANTÁSTICO O FANTÁSTICO TRADICIONAL O FANTÁSTICO E A PSICANÁLISE O FANTÁSTICO MODERNO O FANTÁSTICO TRADICIONAL EM MACHADO DE ASSIS ANÁLISE DOS CONTOS: O FANTÁSTICO TRADICIONAL Decadência de dois grandes homens Sem olhos O capitão Mendonça A vida eterna O anjo das donzelas INTERSECÇÕES O FANTÁSTICO MODERNO EM MACHADO DE ASSIS: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 73

10 INTRODUÇÃO Aquela moça era o único laço que havia entre mim e o mundo, porque tudo naquela casa me parecia realmente fantástico, e eu já não duvidava do caráter purgatorial que me fora indicado pelo capitão. Machado de Assis em O capitão Mendonça Se voltarmos nossos olhos para os últimos quarenta anos do século XIX, veremos uma figura preponderante no cenário cultural brasileiro: Machado de Assis ( ). Tido como unanimidade em sua época, revelou uma produção de grande valor e suscitou estudos cujos interesses variados mostram a complexidade da sua obra. À semelhança de vários críticos que se perfilaram em torno dos textos do bruxo do Cosme Velho, estamos aqui, neste estudo, para propor mais uma análise que, esperamos, auxiliará na recepção do já consagrado escritor brasileiro. Um trabalho que nos inspirou na escolha da temática a ser estudada foi a publicação pela Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora do 1º volume de Contos Completos de Machado de Assis 1, organizado por Djalma Cavalcante. Nesse volume, figuram 38 contos do escritor que vão de 1858 a Dentre estes contos, interessou-nos em particular o seguinte: O país das quimeras, publicado originalmente no jornal O Futuro em E interessou-nos por conta da classificação que lhe foi dada pelo próprio Machado de Assis: a de conto fantástico. Djalma Cavalcante, ao final da narrativa, referenda a classificação dada por Machado quando nos diz que o título já nos remete à idéia de fantástico, pois a palavra quimera significa monstro fabuloso com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão; em sentido figurado significa coisa impossível e só imaginada 1 Citaremos esta obra no texto, com a abreviatura CCMA, seguida do ano de publicação e da indicação da página.

11 (CCMA, 2003, p. 58). Cavalcante nos lembra que a primeira obra brasileira dentro desse modelo literário foram os contos de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo (Ver PIMENTEL, 2001). Também nos informa que Machado leu e apreciou esses contos, e que seu contato com esse tipo de gênero não se restringiu aos escritores locais, sendo leitor também de Ernst- Theodore-Amadeus Hoffmann ( ) e Edgar Allan Poe ( ). Cavalcante chega a nos dizer que Machado de Assis é um dos nomes maiores do conto fantástico nas literaturas em língua portuguesa e figura dentre os grandes nomes mundiais do gênero (CCMA, 2003, p. 60). Dar crédito a esta afirmação nos leva à indagação seguinte: como Machado de Assis pode ser afirmado dentre os grandes nomes mundiais do gênero do conto fantástico sem que se saiba haver um criterioso estudo sobre o assunto? Ao pesquisarmos, descobrimos dois fios condutores para guiar o nosso estudo. O primeiro deles é um livro organizado pelo crítico Raymundo Magalhães Júnior ( ) e originalmente publicado em 1973 e relançado pela editora Bloch em 1998 com o seguinte título: Contos fantásticos: Machado de Assis. Ora, nada mais animador do que esta antologia. Isso nos coloca na trilha certa, pois se há uma coletânea com esse título é sinal de que não passou desapercebido, pelo menos para Magalhães Júnior, essa faceta da obra de Machado de Assis. Nele estão organizados onze contos do escritor: O anjo Rafael (Jornal das Famílias, 1869), A vida eterna (Jornal das Famílias, 1870), O capitão Mendonça (Jornal das Famílias, 1870), Decadência de dois grandes homens (Jornal das Famílias, 1873), Os óculos de Pedro Antão (Jornal das Famílias, 1874), A chinela turca (A Época, 1875), Um esqueleto (Jornal das Famílias, 1875), Sem olhos (Jornal das Famílias, 1876), A mulher pálida (A Estação, 1881), O imortal (A Estação, 1882) e A segunda vida (Gazeta Literária, 1884).

12 O segundo fio condutor, que nos coloca em definitivo na rota de nossa proposta de estudo, é uma dissertação de mestrado escrita por Marcelo José Fonseca Fernandes, defendida em novembro de 1999 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e intitulada Quase-macabro: o fantástico nos contos de Machado de Assis. Nela, ele nos diz que há em Machado a ocorrência de um fantástico mitigado, diferenciado, quase sempre ambientado em sonhos e, na maioria das vezes, explicável (FERNANDES, Cita o livro organizado por Magalhães Júnior, fala-nos da influência sofrida por Machado vinda dos grandes escritores desse gênero. Além dos já citados, inclui Théophile Gautier ( ), e ainda acrescenta quatro contos aos já classificados como fantásticos por Magalhães Júnior. São eles: o já mencionado O país das quimeras (O Futuro, 1862), O anjo das donzelas (Jornal das Famílias, 1864), Marianna (Jornal das Famílias, 1871) e Um sonho e outro sonho (A Estação, 1892). Ao longo de sua explanação, ele retoma Tzvetan Todorov que define o fantástico como o terreno fronteiriço entre o estranho e o maravilhoso. Sublinhamos de Todorov a seguinte definição de fantástico: dura apenas o tempo de uma hesitação: hesitação comum ao leitor e à personagem, que devem decidir se o que percebem depende ou não da realidade, tal qual existe na opinião comum. [...] Se ele [leitor] decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos, dizemos que a obra se liga a outro gênero: o estranho. Se, ao contrário, decide que se devem admitir novas leis da natureza, pelas quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no gênero do maravilhoso (TODOROV, 1975, pp ). 3 Fernandes nos diz que o modelo proposto por Todorov em 1968 é passível de verificação/aplicação em Machado, ressaltando que nos contos fantásticos machadianos o fantástico é interrompido, quase sempre, pelo simples despertar do personagem. Nesse caso, 2 Essa dissertação teve como orientador o professor Doutor Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira e está disponível na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 3 Aprofundaremos a definição do gênero fantástico no capítulo primeiro.

13 os sucessos extraordinários (= extra-ordem, fora de ordem) estão justificados/explicados no espaço onírico: o fantástico opera no plano inconsciente, exatamente na fresta crepuscular entre a vigília e o sono. A retomada do equilíbrio inicial coincide com a própria retomada de consciência. Fernandes termina por fazer uma proposta de tipologia dos contos fantásticos machadianos, traçando as semelhanças entre Machado de Assis e seus influenciadores, principalmente o escritor francês Théophile Gautier. Fernandes acha conveniente a denominação conto gautieriano para a modalidade de fantástico onírico, vertente usual em Machado, e como não-gautierianos os demais. A característica comum às narrativas não-gautierianas é a estrutura de causo, quer dizer, uma história dentro de outra, contada por um narrador-personagem, que assume uma experiência inverossímil, quer como testemunha, quer como protagonista. Já os contos do fantástico onírico são, segundo Fernandes: Decadência de dois grandes homens, A chinela turca, Capitão Mendonça, A vida eterna, O anjo das donzelas, O país das quimeras, Marianna e Um sonho e outro sonho ; e os contos não-gautierianos são: Um esqueleto, O imortal, O anjo Rafael, A mulher pálida, A segunda vida, Os óculos de Pedro Antão e Sem olhos. Há, ainda, um ponto importante a acrescentar. Em 2003, o escritor e compositor Bráulio Tavares organizou um livro intitulado Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros, onde estão inseridos dezesseis contos de dezesseis escritores brasileiros, e Machado de Assis figura entre os escritores com o conto As academias de Sião (1884). Apesar de Tavares hesitar em definir o conceito do gênero fantástico a ponto de dizer que não se deve esperar destas páginas sequer uma tentativa de estabelecer uma teoria unificada do fantástico (TAVARES, 2003, p. 7), a referência torna-se importante, pois reconhece Machado de Assis como um dos principais expoentes do fantástico no Brasil.

14 Assim sendo, citamos até o momento dezesseis contos fantásticos machadianos. Dentre estes, encontramos facilmente O imortal, A chinela turca, Um esqueleto, A segunda vida, Marianna e As academias de Sião, por estarem inseridos na Obra Completa de Machado de Assis da Editora Nova Aguilar. O anjo Rafael, O capitão Mendonça, A vida eterna, O país das quimeras e O anjo das donzelas foram encontrados no livro já citado, organizado por Djalma Cavalcante: Contos Completos de Machado de Assis. Os óculos de Pedro Antão e A mulher pálida estão, respectivamente, em Contos Avulsos e Contos sem data, livros organizados por Raymundo Magalhães Júnior. Os três restantes Decadência de dois grandes homens, Sem Olhos e Um sonho e outro sonho só encontramos disponibilizados para leitura pela internet (ver Podemos notar o quão ainda é difícil o acesso irrestrito aos contos machadianos, já que ainda não possuímos uma publicação que contemple plenamente, através do meio impresso, toda a obra do nosso contista brasileiro. Tendo em vista o desenvolvimento de nosso estudo, teremos a seguinte conformação nos capítulos que se seguem. No primeiro capítulo, faremos o estudo do fantástico convocando três figuras reconhecidas no mundo literário pelos seus trabalhos críticos no gênero. Uma delas é Tzvetan Todorov com seu estudo clássico sobre a recorrência do fantástico na literatura: Introdução à literatura fantástica. As outras são Irlemar Chiampi e Selma Calasans Rodrigues, que sublinham ter surgido no gênero fantástico uma nova variante a partir do século XX. No segundo capítulo, veremos como no Brasil da segunda metade do século XIX havia um clima propício para o desenvolvimento do gênero fantástico. E faremos a análise dos seguintes contos de Machado de Assis: O anjo das donzelas (Jornal das Famílias, 1864), A vida eterna (Jornal das Famílias, 1870), O capitão Mendonça (Jornal das Famílias, 1870), Decadência de dois grandes homens (Jornal das Famílias, 1873) e

15 Sem Olhos (Jornal das Famílias, 1876). Resolvemos selecioná-los por serem textos da chamada primeira fase machadiana (levando-se em conta a data de suas publicações) 4, e, portanto, há pouco envolvimento da crítica especializada em torno deles. A seleção também privilegiou os contos cuja temática é o fantástico onírico, já que é a vertente mais comum em Machado de Assis. No terceiro e último capítulo vamos sugerir que Memórias Póstumas de Brás Cubas 5 (1881) pode ser interpretado dentro dos parâmetros do fantástico do século XX. Resolvemos enquadrá-lo em nosso estudo para explicarmos, através de um texto da fase madura machadiana, como o escritor se diferenciou do fantástico tradicional empregado no século XIX, aproximando-se já do fantástico do século XX. Tomando como ponto de partida a organização de Magalhães Júnior e as afirmações de Marcelo Fernandes e Djalma Cavalcante, pretendemos discutir aqui questões de influência e originalidade. A nossa pretensão maior é fazer com que esse trabalho desperte o interesse dos estudiosos da obra de Machado de Assis para o gênero fantástico nas narrativas machadianas, sejam elas curtas ou não. 4 Há um certo consenso da crítica em apontar convencionalmente duas fases, ou momentos, na carreira literária de Machado de Assis, sendo a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) a divisora de águas entre elas. 5 Citaremos esta obra no texto, com a abreviatura MPBC, seguida do seu respectivo capítulo.

16 1. O GÊNERO FANTÁSTICO Podemos nos perguntar até que ponto uma definição de gênero que permitisse a obra mudar de gênero por uma simples frase como: Neste momento, ele acordou e viu as paredes de seu quarto... se sustenta. Mas, primeiro, nada nos impede considerar o fantástico precisamente como um gênero sempre evanescente. Tzvetan Todorov Há, bem da verdade, uma variedade de opiniões acerca do nascimento do gênero fantástico. Em consagrada antologia, Ítalo Calvino considera o seu nascimento entre os séculos XVIII e XIX (ver RODRIGUES, 1988, p. 17 e CALVINO, 2004, p. 9): É no terreno específico da especulação filosófica entre os séculos XVIII e XIX que o conto fantástico nasce: seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda (CALVINO, 2004, p. 9). Isso quer dizer que o gênero fantástico leva expressivamente em conta as relações entre literatura e realidade, ou seja, o fato de se questionar o caráter verossímil de um episódio narrado em um texto fantástico é que faz com que o gênero se instaure, pois provoca a dúvida do que é ou não real. Sendo assim, falaremos um pouco sobre como a arte elabora o real. E para isso, vamos recorrer a dois filósofos da Antigüidade: Platão (427? 347? a.c.) e Aristóteles ( a.c.), que foram os primeiros a discutirem, a partir do conceito de mimese, este assunto. Para Platão, a mimese é apenas verossímil e não visa à essência das coisas, nem à verdadeira natureza dos objetos particulares, ela é falsa e ilusória, sendo prejudicial e

17 perigosa ao discurso ideal do filósofo. Portanto, a arte de imitar está bem longe da verdade, e se executa tudo, ao que parece, é pelo fato de atingir apenas uma pequena porção de cada coisa, que não passa de uma aparição (PLATÃO, 2001, p. 296). A mimese foi depreciada por Platão que privilegiava a verdade e considerava as imagens miméticas como imitação da imitação, já que elas imitavam a própria pessoa e o mundo do artista, os quais, por sua vez, já eram imitação (sombra e miragem) da verdadeira realidade original. Dessa forma, o imitador [...] nada entende da realidade, mas só da aparência (PLATÃO, 2001, p. 300) 6. Aristóteles, por sua vez, recebeu de Platão a palavra mimese. Refutou, contudo, o conceito platônico, enaltecendo o valor da arte justamente pela autonomia do processo mimético face à verdade preestabelecida. Imitar significa muito mais do que a simples reprodução ou fotografia do real, já que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade (ARISTÓTELES, 1993, p. 53). De ontológica, a arte passa a ter, com ele, uma concepção estética, não significando mais imitação do mundo exterior, uma vez que a atitude de determinada personagem justifica-se à luz de um aparato estético, ou seja, ainda que a personagem a representar não seja coerente nas suas ações, é necessário, todavia, que [no drama] ela seja incoerente coerentemente (ARISTÓTELES, 1993, p. 79). Desse modo, há o fornecimento de possíveis interpretações do real através de ações, pensamentos e palavras de experiências existenciais imaginárias. A mimese afirma-se como a representação do que poderia ser e o critério do verossímil, que merecera a crítica de Platão por ser apenas ilusão da verdade, torna-se, com Aristóteles, o princípio que garante a autonomia da arte mimética. Nesse caso, temos que a mimese consiste numa atividade produtora de intrigas que transpõe ações e as representa nas obras artísticas. Esse caráter dinâmico da operação mimética não se completa, porém, no término da produção do objeto 6 Para isso, ver livros III (páginas 84,86, 87) e X (páginas 293 a 300) de PLATÃO (2001).

18 estético pelo autor, mas necessita ainda da atividade também dinâmica do receptor, que, através da leitura, refigura e avaliza o representado. Esses ditames clássicos foram de certo modo abandonados pela Idade Média cristã. No alvorecer das estéticas do Renascimento, dos séculos XVII e XVIII há a retomada vigorosa do conceito de verossimilhança como ideal artístico. Isso se estende até o século XIX quando o Romantismo libera o gênio criador das restrições da poética clássica de modo geral, mas garante ainda o lugar da verossimilhança. 1.1 O FANTÁSTICO TRADICIONAL O verdadeiro tema do conto fantástico oitocentista é a realidade daquilo que se vê: acreditar ou não acreditar nas aparições fantasmagóricas, perceber por trás da aparência cotidiana um outro mundo, encantado ou infernal. Ítalo Calvino Tendo em vista esse preâmbulo em torno de questões ligadas à verossimilhança em textos literários, voltemos ao fantástico. Como a verossimilhança opera no gênero, já que no fantástico o inverossímil se instala freqüentemente? Neste ponto, o que mais nos interessa discutir são as fronteiras entre o sonho e a realidade, uma vez que o sonho foi usado constantemente como explicação verossímil para experiências inverossímeis em textos fantásticos e particularmente nos que vamos analisar. O que determina a fantasticidade deste tipo de narrativa é exatamente a brecha deixada ao se inserir o questionamento: é ou não sonho?

19 Lembremos que, segundo Todorov, o gênero fantástico antes parece se localizar no limite de dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, do que ser um gênero autônomo. De forma resumida, temos que no gênero maravilhoso: os elementos sobrenaturais não provocam qualquer reação particular nem nas personagens, nem no leitor implícito. Não é uma atitude para com os acontecimentos narrados que caracteriza o maravilhoso, mas a própria natureza desses acontecimentos (TODOROV, 1975, p. 60). Já nas obras que pertencem ao gênero estranho: relatam-se acontecimentos que podem perfeitamente ser explicados pelas leis da razão, mas que são, de uma maneira ou de outra, incríveis, extraordinários, chocantes, singulares, inquietantes, insólitos e que, por esta razão, provocam na personagem e no leitor reação semelhante àquela que os textos fantásticos nos tornaram familiar. [...] O estranho não é um gênero bem delimitado [...]; mais precisamente, só é limitado por um lado, o do fantástico; pelo outro, dissolve-se no campo geral da literatura (os romances de Dostoievski, por exemplo, podem ser colocados na categoria do estranho) (TODOROV, 1975, p. 53). Em seu texto O estranho (1919), Freud se apropria de um conto fantástico chamado O homem da Areia do escritor alemão E. T. A Hoffmann (conto classificado também como fantástico por: CALVINO, 2004, p. 49) para tecer considerações psicanalíticas em torno de questões que envolvem os seres humanos da vida real, os seus medos, as suas repressões, os seus complexos. Em seu texto, Freud compara o estranho literário e o real: O estranho, tal como é descrito na literatura, [...] é um ramo muito mais fértil do que o estranho na vida real, pois contém a totalidade deste último e algo mais além disso, algo que não pode ser encontrado na vida real (FREUD, [200-], 1 CD). E continua:

20 Em primeiro lugar, muito daquilo que não é estranho em ficção sê-lo-ia se acontecesse na vida real; e, em segundo lugar, que existem muito mais meios de criar efeitos estranhos na ficção, do que na vida real (FREUD, [200-], 1 CD). É o que, de uma certa forma, Todorov estava querendo dizer quando comparou o seu conceito de estranho com o de Freud: não há coincidência perfeita entre este emprego do termo e o nosso (TODOROV, 1975, p. 53), já que Freud o utiliza para fazer uma análise psicanalítica de fatos que acontecem na vida real, e Todorov o descreve e o conceitua no âmbito estrito da literatura. Porém, se pensarmos que o medo do desconhecido (monstros, figuras demoníacas e etc.) é uma provação para o leitor de um texto fantástico, já que ele - o leitor - é motivado pelo seu próprio desejo de preservar seus conhecimentos prévios da realidade, veremos que o sentimento do Unheimliche (estranheza inquietante), que Freud descreveu, aplica-se com justeza ao efeito de fantasticidade (CHIAMPI, 1980, p. 68), pois o leitor teme o não-familiar, o novo, enquanto signos que ameaçam a sua ordem de valores já estabelecida. Ainda segundo Todorov, teríamos o gênero maravilhoso como o sobrenatural aceito e o gênero estranho como o sobrenatural explicado. Então, se o gênero fantástico se localiza no limite desses outros dois gêneros, ele ocorre na incerteza: Ao escolher uma ou outra resposta, deixa-se o fantástico para se entrar num gênero vizinho, o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural (TODOROV, 1975, p. 31). O fantástico pode, portanto, se desvanecer a qualquer instante. Todorov estabelece, então, alguns parâmetros para a sua consolidação. O primeiro é a hesitação. Porém, quem hesita no fantástico? Segundo Todorov:

21 é ele [o personagem] quem, ao longo de toda a intriga, terá que escolher entre duas interpretações. Mas se o leitor fosse alertado sobre a verdade, se soubesse em que terreno está pisando, a situação seria completamente diferente. O fantástico implica, pois, uma integração do leitor no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitor dos acontecimentos narrados. É necessário desde já esclarecer que, assim falando, temos em vista não este ou aquele leitor particular, real, mas uma função de leitor, implícita no texto. A percepção desse leitor implícito está inscrita no texto com a mesma precisão com que o estão os movimentos das personagens (TODOROV, 1975, p. 37). O leitor implícito materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. Designa uma construção textual que antecipa a presença do receptor. O leitor implícito dará pistas ao leitor real e poderá conduzi-lo a uma compreensão e interpretação adequadas da obra. Nesse caso, o fantástico comporta inúmeras indicações a respeito do papel que o leitor irá representar, pois esse gênero produz um efeito particular sobre o leitor medo, ou horror, ou simplesmente curiosidade, que os outros gêneros ou formas literárias não podem provocar (TODOROV, 1975, p. 100). Será essa função de leitor que irá fazer com que se instaure a percepção ambígua no texto, e a hesitação do leitor, um elemento necessário à concepção do gênero fantástico. Outro parâmetro importante do fantástico é a irreversibilidade do tempo de leitura, ou seja, é necessário ler o texto do começo ao fim, sem pular a ordem. Não se está querendo dizer aqui que com outros textos seja diferente, contudo o fantástico é um gênero que acusa esta convenção mais claramente, uma vez que se precisa respeitar a ordem da narrativa (que parte de uma situação perfeitamente natural para alcançar o sobrenatural) para gerar a hesitação necessária ao estabelecimento do gênero. Por isso que a primeira e a segunda leitura de um conto fantástico dão impressões muito diferentes: na segunda leitura, que se torna inevitavelmente metaleitura, ressaltam-se os procedimentos do fantástico (TODOROV, 1975, p. 98).

22 Um outro ponto a se considerar é o grupo de obras em que o efeito de fantástico se produz somente durante parte da leitura, ou seja, somente antes de se receber uma explicação para os fatos representados, e, quando se recebe, o fantástico desvanece. Pois se considerarmos o fantástico como um gênero sempre evanescente, poderemos incluir este grupo de obras como também pertencendo ao gênero fantástico, mas só se o fantástico, no caso, for relevante de fato, como é o caso do fantástico onírico. Relembremos a definição de Todorov: no universo evocado pelo texto, produz-se um acontecimento uma ação que depende do sobrenatural (ou do falso sobrenatural); por sua vez, este provoca uma reação no leitor implícito (e geralmente no herói da história): é esta reação que qualificamos de hesitação, e os textos que a fazem viver, de fantásticos (TODOROV, 1975, p. 111). É necessário lembrar, ainda, que os textos fantásticos proliferaram no século XIX, principalmente em sua segunda metade, em um momento de Positivismo quando o homem ambicionava explicações racionais para os supostos fatos sobrenaturais. 1.2 O FANTÁSTICO E A PSICANÁLISE A Psicanálise substituiu (e por isso mesmo tornou inútil) a literatura fantástica. Tzvetan Todorov A literatura fantástica surgiu para introduzir certos temas caros à sociedade da época que proibia a abordagem de determinados assuntos. Machado de Assis, por exemplo, no conto O anjo das donzelas afirma decoroso: Descanse leitor, não verá neste episódio fantástico nada do que não se pode ver à luz pública. Eu também acato a família e respeito o decoro (CCMA, 2003, p. 66). O respeito do escritor pelo decoro faz com que este apresente o

23 indecoroso sob as vestes decorosas do fantástico. A opção pela vestimenta fantástica evita a condenação social. Com o surgimento da Psicanálise, a literatura fantástica, nos moldes tradicionais, torna-se obsoleta porque desde então não se tem mais necessidade de recorrer ao diabo para falar de um desejo sexual excessivo, nem aos vampiros para designar atração exercida pelos cadáveres, nem aos sonhos para descrever certas atitudes sociais condenáveis, pois a Psicanálise provocou o levantamento da censura social que proibia abordar certos temas. O escritor contemporâneo, nesse caso, não precisa mais da vestimenta fantástica, já que agora a Psicanálise e a própria literatura passam a tratar disso tudo em termos indisfarçados: os temas da literatura fantástica do século XIX são retomados pelas investigações psicológicas do século XX. A literatura fantástica tradicional recebeu com isto um golpe fatal; mas desta morte, deste suicídio nasceu uma nova literatura (TODOROV, 1975, p. 177) : o fantástico moderno. 1.3 O FANTÁSTICO MODERNO Resta-nos agora, para finalizar esta reflexão, fazer uma comparação entre o fantástico tradicional e o moderno. [...] No fantástico tradicional há a apresentação de várias alternativas: Sobrenatural ou delírio? Ou sonho? No fantástico atual, não há reconstrução; nenhuma explicação é dada ao acontecimento estranho, permanecendo na total ambigüidade. Selma Calasans Rodrigues Se abordarmos a narrativa fantástica moderna com as categorias anteriormente elaboradas, veremos que ela se distingue fortemente das histórias fantásticas tradicionais. Comentamos que estas partiam de uma situação perfeitamente natural para alcançar o

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