A Crise e a Saúde dos Portugueses em Conversa

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1 A Crise e a Saúde dos Portugueses em Conversa Escrito por Carla Mateus, Pedro F. Pina e Sofia Teixeira terça, 11 junho :20 Getty Images O Saúde em Conversa é um espaço que privilegia um olhar transversal e multidisciplinar onde vários especialistas respondem a perguntas sobre o mesmo tema. Saiba mais sobre a crise e a saúde dos portugueses através das respostas de um médico de família, um cardiologista, um oncologista, um psiquiatra, um psicólogo e dos diretores executivos da Associação para o Planeamento da Família (APF) e da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD). 1. Há alguma patologia cujo número de casos tenha aumentado devido à crise? A Organização Mundial de Saúde (OMS), já em 2008, alertara para a crise financeira global e para o risco da produção de uma onda de problemas mentais e de suicídio, enquanto consequências do crescimento da pobreza e do desemprego. A precipitação na pobreza, digamos assim, tem efeitos terríveis no equilíbrio individual, primeiro e familiar depois. No plano social, à pobreza associam-se ou podem associar-se a fome, a violência e a exclusão social, a emigração em massa. As patologias diretamente ligadas ao foro da saúde mental têm aumentado nos últimos anos, nomeadamente no que diz respeito à ansiedade, aos estados depressivos e casos de suicídio, relacionando-se este aumento com o agravamento dos fatores de incerteza e insegurança do ponto de vista económico-social.

2 O empobrecimento do ponto de vista psíquico tem a sua expressão maior na depressão. A impossibilidade de usar as competências próprias de cada ser humano num adequado contexto social, valorativo e compensador tem como consequência a depressão e conduz a uma situação limite de ansiedade, quando a mudança desejável não está ao alcance. São de assinalar neste contexto, o risco de perca de referência identitária associada à situação de desemprego, ao desenraízamento e isolamento resultante da tendência à destruturação dos laços familiares e sociais, as quais são algumas das causas apontadas para o crescente agravamento da situação de saúde mental em Portugal e na Europa. Responde Cláudio Moraes Sarmento, psiquiatra Existe uma ligação direta entre a crise e a saúde mental. A prevalência da depressão e de patologias da ansiedade aumenta. Sabemos também que a taxa de suicídio aumenta em proporção direta com o desemprego. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), por cada 1 por cento de aumento da taxa de desemprego existe um aumento de 0,8 por cento da taxa de suicídio. Deste modo, existem muitos pacientes deprimidos cujo fator de precipitação da crise atual é sobretudo desemprego do próprio ou de familiares diretos, seja cônjuge ou descendentes. 2. E quais as respostas que o nosso sistema de saúde tem apresentado para lidar com estes aumentos? Responde Cláudio Moraes Sarmento, psiquiatra Existe um Plano Nacional de Saúde Mental que aborda esse assunto. O Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (PNPS), apresentado recentemente, esteve em discussão pública até 30 de abril e pode ser consultado na Internet. Os seus objetivos até 2014 são: - Uniformizar a terminologia e os registos dos comportamentos autolesivos e atos suicidas; - Iniciar a caracterização da situação de forma rigorosa, nomeadamente no que se refere a uma mais correta identificação dos comportamentos autolesivos e atos suicidas; p>- Aumentar os níveis de bem-estar psicológico; - Aumentar a acessibilidade aos cuidados de saúde; - Reduzir o acesso a meios letais; - Melhorar o acompanhamento após alta de internamento hospitalar; - Melhorar a informação e educação em saúde mental; - Diminuir o estigma em torno da depressão, ideação suicida, comportamentos autolesivos e atos suicidas; - Sensibilizar os media para a necessidade de aplicação dos princípios definidos para a informação/descrição de comportamentos autolesivos e atos suicidas; - Monitorizar e avaliar o PNPS. Na apresentação recente do Plano Nacional para a Saúde Mental, a Direção-Geral de Saúde (DGS) alertou para uma estimativa de aumento real das doenças mentais e da taxa de suicídio. Reforça-se até a necessidade de envolvimento de profissionais não médicos nos programas terapêuticos, se quiser, por exemplo pelo investimento em psicólogos, num esforço de colocação que procura já cobrir todos os ACES (Agrupamentos de Centros de Saúde) na ARS (Administração Regional de Saúde) do Norte.

3 Mas quero sublinhar um aspeto fulcral relativamente a esta questão: a OMS não deixa de lembrar que os distúrbios psiquiátricos afetam um quarto da humanidade, em algum momento da sua vida. 3. Alguns estudos defendem que com a crise aumentaram os comportamentos de risco. Que explicação lhe parece estar na origem desta relação? Responde Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família (APF) No campo da saúde sexual e reprodutiva, este facto pode-se prender com duas ordens de questões. A primeira tem a ver com mudanças na vida das pessoas, nomeadamente mudanças no quotidiano, novos horários e às vezes mudança de local de residência (ida para outra cidade ou outro país). Estudos em que estivemos envolvidos mostram que estes fatores podem provocar a descontinuidade de hábitos de vida, incluindo hábitos de saúde e, dentro destes, o uso de contraceção (com especial ênfase para a toma diária da pílula contracetiva). Outra questão tem a ver com dificuldades financeiras que podem estar na base de deixar de comprar contracetivos, por exemplo para quem compra a pílula diretamente na farmácia, ou para quem compra regularmente preservativos. Por outro lado, temos mesmo testemunho que em determinadas situações de maior pobreza, pode não haver dinheiro para a própria deslocação ao centro de saúde onde se podem obter gratuitamente contracetivos. Todos estes fatores podem originar um aumento das gravidezes não desejadas. Em 2011 o número de abortos realizados manteve-se estável. Vamos ver como evolui a situação em Que implicações lhe parecem ser evidentes do ponto de vista do planeamento familiar? Responde Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família (APF) É muito importante que o Serviço Nacional de Saúde reforce a sua atividade, nomeadamente disponibilizando a tempo e horas os contracetivos e não deixando que haja ruturas nos stocks existentes. Infelizmente, temos tido notícias de que em algumas regiões do país há falta de algumas pílulas e de outros métodos hormonais. Por outro lado, o Ministério da Saúde, em conjunto com as organizações da sociedade civil deveriam reforçar as ações de educação e prevenção, procurando chegar aos grupos sociais mais vulneráveis, nomeadamente à população desempregada. Neste campo, a APF tem estado envolvida numa parceria com o IEFP no desenvolvimento de um projeto de educação sexual e contracetiva para grupos em formação profissionais. Cerca de 90% dos destinatários estão atualmente desempregados ou à procura do primeiro emprego. 5. E que consequências tem tido esta crise na sexualidade? Como contornar este facto? A sexualidade dos casais é perturbada pela emergência de níveis de stress incomportáveis, pela perturbação da vida social e familiar determinada pelo deslocamento, pelas consequências do isolamento, pela baixa de autoestima nos casos de desemprego, pela crescente mercantilização e banalização do sexo com produto. A sexualidade, no seu sentido amplo e fator determinante do desenvolvimento saudável, é profundamente afetada pela crise, através de um estado depressivo que atinge severamente o dia a dia das pessoas. 6. De acordo com a sua experiência, como é que a crise económica afetou os doentes crónicos? Responde Nuno Bonito, oncologista Penso que as principais dificuldades verificam-se ao nível dos transportes e da aquisição da medicação de apoio, nomeadamente no suporte nutricional. Responde João Freitas, cardiologista

4 A crise afeta sobretudo o acesso aos cuidados médicos e a toma dos fármacos adequados, sendo contudo de realçar que a crise também ajudou na baixa acentuada de preços dos fármacos. Os doentes crónicos são cidadãos que sofrem como todos os portugueses com uma certa deterioração da condição global de vida. Natural e infelizmente com um forte handicap adicional. É por isso que medidas de boa e correta gestão dos recursos públicos se tornam indispensáveis, garantindo o apoio aos que dele necessitam verdadeiramente. A disciplina orçamental, a eficiência de gestão e o comportamento ético dos profissionais e gestores da saúde são por isso vetores obrigatórios! 7. Quais as soluções existentes atualmente para lidar com esta situação? Quais propõe? Julgo honestamente que quando formos capazes de ter estratégias abrangentes melhoraremos os nossos resultados. As Nações Unidas e o jornal médico The Lancet iniciaram uma grande campanha, culminada em setembro de 2011, com a Reunião sobre Doenças Não Transmissíveis em Nova Iorque. Aí concluíram por 5 intervenções prioritárias: controlo do tabagismo; redução da ingestão de sal, dietas melhoradas e atividade física, redução da ingestão de álcool e tecnologias e medicamentos essenciais. Se largamente adotado e seguido, tais intervenções alcançarão a meta global de redução das mortes por doenças não transmissíveis em 2 por cento ao ano! Talvez este seja um momento único de oportunidade Que impacto considera que tem tido a crise na saúde oral dos portugueses? Responde Laredo de Sousa, diretor executivo da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) (...) O que se vive hoje é uma diminuição muito acentuada da procura e uma alteração do próprio padrão de atuação dos nossos pacientes. Esta diminuição é transversal pois não se verifica apenas no doente particular, mas também nos doentes protegidos por seguros ou convenções que de certa forma amenizam o valor cobrado pelas consultas. Hoje é (infelizmente) normal o aumento do espaçamento entre consultas de doentes de tratamentos continuados, o adiamento sucessivo de tratamentos mais onerosos e as consultas de prevenção deixaram de ser semestrais para passarem a anuais ou deixaram mesmo de ser feitas. E aqui entramos no segundo nível de consequências, mais profundas: as pessoas que precisam de tratamento, só fazem o que é prioritário e mais urgente. Este fator leva a que apenas consultem o médico dentista em situações de urgência e dor. Todo o trabalho que os médicos dentistas vinham a fazer ao longo de anos e com sucesso, diga-se de educação das populações para a adoção de bons hábitos de saúde oral sofre aqui um percalço que exigirá de nós um grande esforço e inteligência para recuperar e ultrapassar esta situação. (...) 9. Que mecanismos têm a OMD e os dentistas encontrado para tentar minimizar o impacto negativo da crise e da austeridade? Responde Laredo de Sousa, diretor executivo da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) O papel da OMD é um papel mobilizador para a causa da saúde oral. Tal, implica liderar um esforço de manter atuantes todas as entidades, públicas ou privadas - o governo e as suas agências, as seguradoras, os médicos dentistas - para todas as questões da saúde oral e não permitir que esta crise nos paralise e nos obrigue a retroceder. (...) O cheque-dentista é hoje uma realidade já conhecida por um grande número de portugueses e tem vindo a alargar-se. Através deste instrumento, muitas crianças, grávidas e idosos têm a possibilidade de aceder e receber tratamentos dentários. O cheque-dentista vai alargar-se a outros grupos da nossa sociedade. Temos, também, denunciado quer publicamente, quer junto das autoridades competentes todos os casos que de prática ilegal e concorrência desleal, salvaguardo desta forma a qualidade dos cuidados de saúde prestados à população. O incentivo a um envolvimento mais proactivo dos médicos dentistas com a sociedade tem sido, de igual forma, relevante. Para além de marcarmos presença em iniciativas de promoção da saúde, fomentamos a participação dos nossos associados. Para tal, desenvolvemos vários instrumentos de comunicação, como folhetos informativos sobre temas específicos de saúde oral, que apoiam essa participação. Iniciamos também uma campanha

5 de dois meses na Rádio Renascença e na RFM que explica, de forma pedagógica, as melhores práticas para uma boa saúde oral e o efeito que ela pode ter na saúde em geral, incentivando a necessidade da visita regular ao médico dentista. 10. Que consequências tem tido esta crise na saúde das crianças? O stress e a sensação de insegurança transmite-se às crianças através dos comportamentos e linguagem dos adultos. As crianças não entendem as causas da crise mas sofrem os seus efeitos mais ainda do que os adultos. As consequências são de uma gravidade incomensurável nomeadamente através de severos problemas de desenvolvimento, perturbações ao nível da personalidade (do ponto de vista da identidade), com perda de relações estruturantes determinadas por graves limitações na disponibilidade dos pais para proporcionarem uma relação afetiva saudável. 11. Como continuar a apostar na prevenção numa altura que muitas pessoas só vão ao médico quando se sentem realmente doentes? Responde João Freitas, cardiologista Sempre que possa ser útil e os doentes me procurem - e como já disse além de incentivar a mudança para estilos de vida mais saudáveis - procuro reduzir os fatores de risco cardiovasculares (diabetes, hipertensão tabagismo e dislipidemia) utilizando as terapêuticas com melhor relação custo/eficácia. 12. Como se deve proceder quando uma pessoa prova não ter condições económicas para tomar a medicação que lhe foi receitada? Que soluções ou alternativas pode o médico encontrar? O exercício da atividade médica pressupõe a compreensão da pessoa que se tem pela frente. Desde logo, da condição económica, sobretudo em tempos de crise social e financeira. A opção por medicamentos genéricos, de custo muito baixo, pode ser uma via. A repartição de receitas, implicando uma menor quantidade de fármacos a aviar em um único momento, na farmácia, pode ser outra ajuda. Tal como a escolha de terapêuticas mais económicas para um mesmo objetivo. Um ponto que questiono e que pode ou não ter alguma coisa a ver com a Crise e as consequências de desajustamentos alimentares é o crescendo da prevalência da diabetes em Portugal, quando nos aproximamos já dos 13 por cento Neste contexto de crise, que problemas se evidenciam no interior de Portugal face aos dos centros urbanos? Raramente alguém, com seriedade, indaga pelo interior do país, para além do envelhecimento e do despovoamento ou dos incêndios florestais no verão. Os problemas são claramente o da falta de condições para atrair profissionais qualificados que, sem obrigação de estagiar nessas paragens, como aconteceu no passado com o Serviço Médico à Periferia, resistem à colocação nos sítios mais distantes dos grandes centros urbanos. Outro ponto que os nossos autarcas deveriam avaliar e entender é que, cada vez menos, também na medicina, o trabalho individual vale. Ou seja, nenhum jovem médico se imagina a ir trabalhar para uma pequeníssima unidade, sem mais nenhum colega ao lado Há que pôr as autarquias e repensar a rede de extensões existente e até as vantagens de assegurar às populações um upgrade assistencial, por exemplo, através duma viatura de transporte de passageiros capaz de, a exemplo do que sucedeu com as escolas, dar dimensão às unidades de saúde do interior.

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