A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL HOSPITALAR

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1 A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL HOSPITALAR Sarah Christina Rodrigues Meira Camilla Aparecida Silva de Oliveira SANTA LUZIA 2010

2 A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL HOSPITALAR THE IMPORTANCE OF THE PARTICIPATION OF THE DENTIST IN THE HOSPITAL MULTIPROFESSIONAL TEAM RESUMO O paciente hospitalizado, freqüentemente, apresenta saúde debilitada, demandando cuidados especiais. Sua recuperação está diretamente relacionada à atuação de uma equipe multiprofissional capaz de atendê-lo de forma integral, respeitando suas especificidades. A atuação da equipe hospitalar multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, dentre outros, visa oferecer ao paciente internado uma assistência completa, evitando que ocorram agravos do quadro clinico inicial, impedindo a propagação de infecções para outros órgãos e sistemas. Entretanto, nem todas as equipes hospitalares dispõem de cirurgião dentista, embora a literatura comprove que doenças bucais podem gerar alterações sistêmicas e vice-versa. O objetivo desse trabalho é, através de uma revisão de literatura, apontar as diversas possibilidades de atuação do dentista

3 em ambiente hospitalar, reforçando sua contribuição na atenção integral do paciente. Concluiu-se que é de extrema importância a inclusão do dentista na equipe multiprofissional hospitalar, visto que se trata de um profissional apto a atuar em várias frentes de atenção hospitalar. Faz-se necessário a conscientização da classe médica sobre os benefícios advindos da incorporação deste profissional à equipe hospitalar. PALAVRAS CHAVE: Odontologia hospitalar, cirurgião dentista, hospital, atenção integral, equipe multiprofissional, paciente hospitalizado. ABSTRACT The hospitalized patient often presents weakened health that demands some special cares. His recuperation is directly related to the performance of a multiprofessional team capable of assisting him in an integral way, respecting his peculiarities. The hospital multiprofessional team performance is composed by doctors, nurses, physiotherapists, dentists, psychologists among others, seeking to offer to the interned patient a complete assistance, avoiding the occurrence of some offences from the initial clinic condition, impeding the propagation of infections to the other areas and systems. However, nor all the hospital teams dispose of a dentist surgeon although the literature proves that the buccal diseases can generate systemic alterations and vice and versa. The goal of this paper is, through a literature review, to appoint the several

4 possibilities of the dentist s performance in the hospital environment, reinforcing his performance contribution in the patient's integral attendance. It can be concluded that is extremely important the inclusion of the dentist in the hospital multiprofessional team since it is a professional capable of acting on several modalities of hospital care. It is necessary the understanding of the medical class about the benefits from the incorporation of this professional to the hospital team. KEY WORDS: Hospital dentistry, surgeon dentist, hospital, integral assistance, multiprofessional team, hospitalized patient. 1. INTRODUÇÃO De acordo com o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), no mês de janeiro/2010, foram realizadas, no Brasil, internações, com média de permanência hospitalar de 5,9 dias e cerca de óbitos (3,7%). 1-2 Esses dados instigam uma reflexão sobre a qualidade da assistência hospitalar brasileira. Será esta uma assistência integral sedimentada no trabalho sincronizado de diversos profissionais, focados na prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde? A boca é parte integrante do corpo e interfere, decisivamente, no aparecimento e disseminação de um rol de patologias. Na cavidade bucal existem mais de 300 espécies bacterianas responsáveis por patologias bucais como a cárie e

5 doença periodontal e/ou patogênicas quando atingem sítios como coração, pulmões, articulações e sistema vascular periférico. 3-4 A infecção hospitalar é um grande dificultador no restabelecimento do paciente internado. Seu difícil controle reside na rápida transmissão e disseminação de agentes patológicos em organismos susceptíveis. 5-6 A maioria dos pacientes hospitalizados apresenta defesa diminuída, devido às múltiplas doenças subjacentes ou terapêuticas depressoras do sistema imune. 5-6 A debilidade geral, associada ou não a intervenções cirúrgicas, quimioterapia, cateterismo ou uso indiscriminado de antibióticos, favorece o aparecimento de mutantes resistentes que contribuem para aumento da incidência de infecção hospitalar. 7-8 Assim, percebe-se a importância do cuidado bucal na abordagem integral dos indivíduos, em especial dos que se encontram hospitalizados. O objetivo desse trabalho é, através de uma revisão de literatura, apontar as diversas possibilidades de atuação do dentista dentro do ambiente hospitalar, reforçando sua contribuição na assistência integral do paciente hospitalizado. Realizou-se busca ativa de artigos científicos nas principais bases bibliográficas (Medline, Bireme, Lilacs e Scielo). As palavras chave utilizadas foram Odontologia Hospitalar, cirurgião dentista, hospital, atenção integral, equipe multiprofissional e paciente hospitalizado.

6 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Atuação Multiprofissional em Ambiente Hospitalar SAÚDE é o estado do mais completo bem estar físico, mental, social e não apenas ausência de enfermidade. 9 A palavra saúde tem raízes na língua grega, com o significado de intacto, inteiro e integral, sugerindo uma abordagem holística do sujeito (FIG.1). 10 Desta forma, quando um indivíduo apresenta problemas em uma ou mais vertentes da saúde, produz-se uma desarmonia, favorecendo o aparecimento de enfermidades. Muitas vezes, o próprio indivíduo não consegue resolver suas dificuldades, necessitando de auxílio multiprofissional. 11 Biológico Social Psicológico Espiritual Figura 1: Abordagem integral do indivíduo Pacientes hospitalizados, freqüentemente, apresentam saúde debilitada, demandando maior dedicação da equipe profissional e cuidados especiais que

7 vão desde a utilização de tecnologias capazes de melhorar ou prolongar a vida, até a criação de ambientes mais confortáveis e seguros. 12 A diversidade de situações clínicas apresentadas por pessoas hospitalizadas exige condutas imediatas por parte da equipe multiprofissional, sob pena de colocar em risco a vida do doente Tendo em vista a complexidade do ser humano, em especial a do indivíduo hospitalizado, verifica-se que um único profissional não consegue fazer de forma concisa e segura nem o diagnóstico nem o tratamento de um paciente hospitalizado, indicando que nenhuma categoria profissional detém, isoladamente, o saber necessário para atender às demandas desse indivíduo Dessa forma, para que a assistência esteja livre de riscos, torna-se fundamental a integração entre as diferentes categorias profissionais e os vários ramos do conhecimento. Dentro desse pressuposto, os hospitais deveriam dispor de equipe multiprofissional capaz de atuar de forma articulada em um mesmo ambiente de trabalho A persistência do modelo biomédico produz uma abordagem fragmentada do paciente focada no ato médico e em suas especialidades, o que desvaloriza a integração de outros profissionais à assistência à saúde. 14 O trabalho em equipe vem sendo veiculado como estratégia visando o enfrentamento do intenso processo de especialização em saúde, no entanto, muitas vezes, é

8 adaptado para uma organização de trabalho que induz à competição entre especialidades gerando conflitos. 13,15 De acordo com a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar (SBPH), uma equipe de saúde hospitalar é composta por profissionais que mantêm contato direto com o paciente (médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes sociais) e por profissionais que atuam de forma indireta (equipe de higienização, técnicos em radiologia, anestesistas, dentre outros). 16 A incorporação do cirurgião dentista à equipe hospitalar contribui para o bem estar e dignidade do paciente, prevenindo infecções, diminuindo o tempo de internação e uso de medicamentos. No entanto, sua inclusão às equipes multidisciplinares hospitalares, principalmente dentro das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), ainda não é uma realidade, sendo negligenciada pela maioria dos hospitais brasileiros. 17 Em estudo, conduzido no estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de verificar a adoção de medidas de controle de infecção bucal, antes de procedimentos cirúrgicos, foi constatado que somente 32% dos hospitais realizavam tal procedimento. Destes, apenas 15% faziam o monitoramento do acúmulo de placa dentária Odontologia Hospitalar - Breve Histórico

9 O conceito de atendimento odontológico hospitalar surgiu em 1901 quando o Comitê de Serviço Dentário da Associação Dentária Americana criou o 1º Departamento de Odontologia dentro do Hospital Geral da Philadelfia. 18 A primeira proposta de criação de um serviço de Odontologia Hospitalar foi da Associação Americana Odontológica no ano de No entanto, sua aprovação pelo Comitê de Serviço Hospitalar ocorreu somente após No Brasil, a Odontologia Hospitalar foi legitimada em 2004 com a criação da Associação Brasileira de Odontologia Hospitalar (ABRAOH). 20 No ano de 2008, foi apresentado à Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro o Projeto de Lei nº 2776/2008 que estabelece como obrigatória a presença do dentista nas equipes multiprofissionais hospitalares, atuando inclusive dentro das UTIs Atuação do Cirurgião Dentista em Ambiente Hospitalar O código de ética odontológico assegura ao cirurgião dentista o direito de internar e assistir pacientes em hospitais públicos e privados, com e sem caráter filantrópico, desde que sejam respeitadas as normas técnicas administrativas das instituições. Informa que as atividades odontológicas exercidas em hospitais devem obedecer às normas do Conselho Federal de Odontologia e que, mesmo em ambiente hospitalar, não é permitido ao dentista executar intervenção cirúrgica fora do âmbito da Odontologia. 21

10 Dentro deste contexto, o cirurgião dentista está apto a atuar como consultor de saúde bucal e/ou como prestador de serviços, tanto em nível ambulatorial quanto em regime de internação. Este profissional encontra-se preparado para executar ações no âmbito da atenção primária e complexa, realizando prevenção e tratamento de doenças bucais, capacitando pacientes e profissionais para execução de adequada higiene bucal, provendo cuidados bucais à pacientes especiais e executando procedimentos cirúrgicos de alta complexidade dentro de sua área de atuação. 8,22 O simples exame da cavidade bucal é capaz de detectar doenças bucais préexistentes, possibilitando tratamento precoce. Conseqüentemente, elevada porcentagem de pacientes com doença bucal poderiam ser tratados em ambiente hospitalar, diminuindo a incidência de infecções e desconforto. 19 O tratamento odontológico contribui para o restabelecimento da função dentária necessária à adequada mastigação dos alimentos, indispensável para uma boa nutrição. A equipe odontológica também está apta para ofertar tratamento dentário curativo e preventivo aos pacientes em situações especiais como aqueles que estão ou serão submetidos à radioterapia na região de cabeça e pescoço, cirurgias cardíacas; que têm ou tiveram histórico de febre reumática ou doenças congênitas do coração; aos transplantados renais ou sobre hemodiálise. 19

11 A atenção odontológica contribui para aumento da auto-estima do indivíduo, na medida em que melhora sua estética, favorecendo as relações sociais e o aparecimento do sorriso. 19 Em estudo científico conduzido por HALLET (1984), pacientes relatam que uma cavidade bucal limpa propicia sensação de bemestar, facilitando as relações sociais. 22 Simultaneamente, a equipe de saúde bucal capacita pacientes e profissionais da saúde para a execução de adequada higiene bucal, prevenindo o aparecimento ou agravo de doenças bucais comuns que podem levar à piora do quadro clínico do paciente. 8 Sabe-se que uma condição bucal precária altera a evolução e resposta do paciente ao tratamento médico e que determinados tipos de tratamentos ou interações medicamentosas podem comprometer a saúde bucal Atendimento de Urgência e Atenção Bucomaxilofacial O termo Odontologia Hospitalar é fortemente associado a serviços de urgência odontológica e traumatologia bucomaxilofacial. Mundialmente, os traumatismos faciais são destaque entre os atendimentos de emergência hospitalar, tendo os mais variados fatores etiológicos que vão desde acidentes automobilísticos até agressões físicas. 24 No entanto, os atendimentos odontológicos hospitalares não devem se restringir apenas à traumatologia bucomaxilofacial, uma vez que a população hospitalar tem necessidades de tratamentos resultantes da doença cárie e de seus agravos, como a dor de dente e abscessos dentários. 24

12 2.3.2 O Dentista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) As UTIs foram criadas com objetivo de atender pacientes em estado crítico que necessitam de assistência e observação contínuas de médicos e enfermeiros, como também maior concentração de recursos materiais. 25 Os pacientes das UTIs apresentam higiene bucal comprometida que, associada à internação prolongada, contribui para aumento da quantidade e complexidade da placa dental, favorecendo a interação entre bactérias indígenas da placa e patógenos respiratórios. 22,25-26 Tais microrganismos, em especial os respiratórios, podem ser fonte de infecção nosocomial, conceituada como toda infecção adquirida após a admissão hospitalar do paciente que se manifesta durante sua internação ou após alta. Pacientes de UTIs são, freqüentemente, acometidos por esse tipo de infecção, visto que, na grande maioria dos casos, apresentam alteração do nível de consciência, favorecendo aspiração de secreção bucal. As bactérias presentes nestas secreções, principalmente as envolvidas na doença periodontal, podem causar pneumonias de aspiração. 22,25-27 Os pacientes submetidos à intubação orotraqueal, comumente, apresentam a orofaringe colonizada por microrganismos Gram-negativos nas primeiras 48 a

13 72 horas de UTI. Tais bactérias alcançam os pulmões através das secreções bucais que vazam pelos lados dos balonetes do tubo traqueal. 26 A intubação impede o fechamento da boca, favorecendo seu ressecamento e elevando o nível de colonização no biofilme. 25,27 Pacientes intubados podem apresentar alterações bucais como xerostomia, lesões nos lábios, língua e mucosas. O uso do ventilador mecânico dificulta a higienização bucal devido ao fato do tubo e de seu material de suporte impedirem a visualização completa do interior da boca. Sendo assim, é de grande importância que a equipe de enfermagem auxilie o dentista durante a assepsia bucal, manipulando cuidadosamente este artefato indispensável à manutenção da respiração. 26 Alguns recursos, como saliva artificial, escovas dentais elétricas, raspadores de língua, sugadores e anti-sépticos bucais, podem ser utilizados no cuidado bucal destes pacientes. Dentre os antissépticos, a solução de gluconato de clorexidina (0,12%) é a que apresenta melhores resultados no controle da colonização bacteriana ao longo do trato respiratório, devendo ser utilizada diariamente para limpeza da cavidade bucal de pacientes intubados. 22 O conhecimento das técnicas de higienização e do arsenal disponível para melhora da condição bucal de pacientes internados em UTIs é de domínio de toda a classe odontológica, devendo, portanto, estar sob responsabilidade de um dentista. A falta deste profissional na equipe intensivista faz com que tais cuidados fiquem a cargo de outros profissionais que, muitas vezes, não tiveram

14 acesso a informações e treinamentos específicos, o que pode comprometer a qualidade da assistência ofertada. 26 O cirurgião-dentista enfrenta muitos obstáculos na tentativa de participar de equipes multidisciplinares em UTIs, já que a prioridade do procedimento odontológico é baixa, diante dos numerosos problemas apresentados pelo paciente. Em contrapartida, trabalhos científicos demonstram redução (60%) na incidência de pneumonia e de taxas de mortalidade em grupos de pacientes que recebem cuidados odontológicos, quando comparados a grupos controle. 22, Pacientes Oncológicos A dor orofacial pode ser um sintoma inicial do câncer, o que faz com que muitos pacientes busquem, em primeira instância, o auxílio do dentista o qual deve estar preparado para fazer o diagnóstico diferencial. 28 Pacientes portadores de leucemia aguda apresentam com freqüência alterações bucais como hiperplasia gengival, petéquias, hemorragias e ulcerações na mucosa. Crianças com leucemia podem apresentar alterações de desenvolvimento das criptas dentárias, destruição da lâmina dura, deslocamentos dentários e alterações na densidade óssea. Sendo assim, o dentista pode colaborar para o diagnóstico precoce desta moléstia

15 Métodos tradicionais de tratamento oncológico incluem procedimentos cirúrgicos, radioterapia e quimioterapia Tanto a radioterapia quanto a quimioterapia podem gerar efeitos colaterais na cavidade bucal como xerostomtia, gengivite, candidíase, trismo, lesões cariosas, osteorradionecrose, celulite, mucosite e disfagia As complicações associadas ao tratamento anti neoplásico podem provocar desconforto, dor severa, nutrição deficiente, alterações do protocolo de tratamento, aumento do tempo de internação e septicemia, ameaçando a vida do paciente ,30,32 Por isso, recomenda-se que pacientes oncológicos sejam avaliados pelo cirurgião dentista antes da radio ou quimioterapias para que todas necessidades odontológicas sejam sanadas, evitando-se que reações advindas do tratamento oncológico potencializem problemas bucais pré existentes. 32 O planejamento integral odontológico de pacientes oncológicos deve priorizar atividades de educação em saúde bucal, visando prevenir e controlar as doenças cárie e periodontal. Na fase de adequação do meio bucal, deve-se eliminar as fontes de traumas como aparelhos ortodônticos, restaurações e dentes fraturados, restos radiculares e outros focos de infecção. As lesões de cárie cavitadas devem ser escavadas e seladas provisoriamente. No caso de lesões com comprometimento pulpar, realiza-se o tratamento endodôntico, desde que o paciente apresente boas condições sistêmicas. Na presença de

16 infecção, deve-se optar pela antibióticoterapia. Caso não haja remição dos sinais e sintomas de infecção, o dentista precisa executar a exodontia do dente comprometido. Dentes com mobilidade grau I, com bolsas periodontais com profundidade maior que 4 mm, parcialmente impactados e próximos a tumores devem ser removidos antes do tratamento radioterápico. Todas as restaurações devem ser polidas e as defeituosas substituídas, sendo contraindicado o uso de amálgama em pacientes que irão se submeter à radioterapia, devido à emissão de radiação secundária Medidas de educação em saúde bucal com pais e/ou responsáveis de pacientes oncológicos infantis devem ser enfatizadas, visto que diminuem o risco de complicações bucais decorrentes do tratamento. Orientações sobre dieta também são de grande importância, já que muitas crianças voltam a tomar mamadeira devido à dificuldade de deglutição ou por regressões emocionais. 29,32 O cirurgião dentista desempenha papel fundamental no manejo do paciente oncológico, contribuindo para melhora da qualidade de vida antes e após terapias antineoplásicas. Esses profissionais fazem intervenções próprias de suas áreas de atuação, assegurando uma boca mais saudável, livre de infecções e dor Pacientes Gestantes

17 As alterações hormonais/imunológicas, comuns ao período de gestação, associadas a mudanças nos padrões alimentares e descuido para com a higiene bucal favorecem o aparecimento da gengivite gravídica e lesões cariosas. Consequentemente, gestantes precisam ser esclarecidas sobre a importância da higiene bucal e da ingestão racional de alimentos Uma vez que há forte relação entre diabetes mellitus e gengivite, gestantes diabéticas ou que desenvolveram diabetes gestacional precisam de monitoramento odontológico freqüente, sendo essencial a manutenção da glicemia em níveis satisfatórios. 36 Pesquisas científicas comprovam relação entre doença periodontal, ocorrência de parto prematuro e nascimento de bebês com baixo peso, reforçando a importância da educação em saúde bucal e controle de placa junto às gestantes Todo tratamento odontológico essencial pode e deve ser executado durante a gravidez desde que seja realizado de forma multiprofissional após avaliação risco/benefício. É imprescindível a comunicação entre dentistas e médicos, com vistas ao melhor planejamento odontológico Pacientes Diabéticos Pacientes diabéticos apresentam alta prevalência de problemas bucais como candidíase, xerostomia, halitose, cáries e periodontopatias. Durante a hospitalização desses pacientes é fundamental a implementação de cuidados bucais para evitar o surgimento de doenças locais e/ou sistêmicas decorrentes

18 do acúmulo do biofilme dentário, visto que algumas doenças bucais dificultam o processo de compensação do paciente diabético Pacientes Portadores de Distúrbios Neuropsicomotores Os pacientes portadores de distúrbios neuropsicomotores apresentam desvios dos padrões de normalidade e necessitam de atenção especial por um período de sua vida ou indefinidamente. 39 Apresentam alto índice de cárie, gengivite e periodontopatia devido à higienização deficiente e falta de conscientização dos responsáveis sobre a importância dos cuidados bucais. 40 O tratamento odontológico desses pacientes deve ser feito em ambiente hospitalar, em nível ambulatorial, somente em situações específicas como presença de problemas sistêmicos e/ou alta complexidade do procedimento a ser executado. 41 O uso da anestesia geral é indicado apenas para pacientes com dificuldade intelectual severa, problemas sistêmicos graves, anomalias congênitas e alergias ao anestésico local, devendo ser realizado sob monitoramento de um médico anestesiologista, visando maior segurança Pacientes Idosos Em 2001 o SIH-SUS registrou internações hospitalares. Nesta época, os idosos, que representavam 8,5% da população brasileira, responderam por 18,3% das hospitalizações. A maior utilização dos serviços hospitalares pela população idosa vem em decorrência de uma maior

19 incidência de doenças e condições crônicas nessa fase da vida, muitas vezes em maior intensidade e gravidade. 43 Assim sendo, o trabalho com a terceira idade exige a formação de uma ampla rede de conhecimentos. 44 Os idosos requerem uma atenção diferenciada com o envolvimento de uma equipe multidisciplinar, com o propósito de melhorar a qualidade de vida desses indivíduos, proporcionando-lhes um envelhecimento saudável. 45 O envelhecimento causa modificações fisiológicas na cavidade bucal do idoso. Dentre elas podemos citar a diminuição da espessura do epitélio e maior lisura da mucosa bucal, o que ocasiona sensação de ardor, quando o idoso ingere alimentos quentes ou frios, interferindo diretamente na preferência por determinados tipos de alimentação. 46 Na terceira idade a saúde bucal ancora-se na possibilidade da manutenção de uma dentição saudável, essencial para adequada fonação, mastigação e estética. Hábitos prejudiciais e higienização deficiente, aliados às mudanças fisiológicas inerentes aos idosos, causam alterações bucais que podem dificultar seu tratamento. 45 Um grande problema que afeta os pacientes idosos é o edentulismo. As principais causas de ausência de dentes e de uso de próteses totais na terceira idade são decorrentes de cáries não tratadas e periodontites Existe também uma preocupação com a higienização das próteses e cuidados com a detecção de lesões de mucosa que, em alguns casos, podem sugerir presença

20 de câncer bucal. O dentista pode orientar os pacientes geriátricos e seus cuidadores a realizarem adequada higiene bucal, incluindo orientações sobre limpeza de próteses dentárias. Tem papel fundamental no tratamento de alterações bucais decorrentes de interações medicamentosas e na detecção precoce do câncer bucal Pacientes Transplantados Pacientes submetidos a transplante de órgãos podem apresentar várias lesões bucais decorrentes da imunossupressão induzida por medicamentos. Essas lesões incluem leucoplasia pilosa, candidíase, infecções virais por herpes vírus simples ou citomegalovírus, neoplasias malignas (linfomas, Sarcoma de Kaposi, câncer de pele e lábios), hiperplasia gengival causada por uso prolongado de ciclosporina e problemas periodontais. O cirurgião dentista deve intervir a favor do bem estar do paciente, indicando medicação e tratamentos que visem melhorar a qualidade de vida do paciente transplantado Pacientes com Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) Os pacientes portadores da AIDS apresentam deficiência do sistema imunológico, determinando o aparecimento de manifestações bucais, como: candidíase, leucoplasia pilosa, gengivite úlcero necrosante aguda, periodontites, infecções por vírus e neoplasias como o sarcoma de Kaposi. O

21 dentista tem papel fundamental no tratamento sintomático dessas alterações. 33, Pacientes com Distúrbios Cardiovasculares Existe forte associação entre doença periodontal e doenças cardiovasculares, visto que pesquisas científicas identificaram material genético de bactérias periodontais em placas de ateroma. Acredita-se que a presença de infecção periodontal crônica na cavidade bucal seja responsável pela liberação de produtos bacterianos na corrente sanguínea, estimulando o sistema imunológico a produzir citocinas inflamatórias, favorecendo a formação dos ateromas. 33,35,54 Além disso, pacientes com periodontite em fase aguda têm o aumento dos níveis sanguíneos da Proteína C Reativa e de fibrinogênio o que aumenta o risco para doenças cardiovasculares. 35 A bacteremia de microrganismos da cavidade bucal pode favorecer a infecção de órgãos importantes como o coração (válvulas cardíacas), provocando a endocardite bacteriana Ação de Medicamentos na Cavidade Bucal O tratamento de doenças sistêmicas pode provocar efeitos indesejáveis na cavidade bucal. Existem medicamentos que causam alteração do fluxo salivar como os anti-histamínicos, hipotônicos, antidepressivos, tranqüilizantes, anticolinérgicos, neurolépticos, reguladores de apetite, antiparkinsonianos, anti-

22 hipertensivos e os diuréticos. Outros como os laxativos, anitoxígenos e tônicos apresentam, em sua composição, a sacarose, aumentando o risco de desenvolvimento de lesões cariosas. 2 O dentista tem condições de alertar pacientes e equipe de saúde hospitalar sobre a ação de medicamentos na cavidade bucal, contribuindo para a prevenção de enfermidades bucais. 2.5 Equipe Auxiliar A saúde bucal é um importante fator para a manutenção do bem estar geral, visto que existem diversas associações entre doenças bucais e doenças sistêmicas, como alterações cardiovasculares e respiratórias. Em pacientes hospitalizados estas associações são ainda mais relevantes, tendo em vista quadros de debilidade sistêmica, co-morbidades, redução do fluxo salivar e higienização bucal dificultada. 54 É essencial a manutenção de uma higiene bucal satisfatória durante todo o período de internação do paciente, visando seu pronto restabelecimento. 55 As complicações decorrentes da falta ou inadequação do procedimento de higiene bucal podem aumentar o tempo de internação do paciente de 6,8 a 30 dias. Diante do exposto há necessidade de medidas adjuntas ao controle mecânico da placa bacteriana (escovação e uso de fio ou fita dental) como, por exemplo, o uso de substâncias químicas. 56 No ambiente hospitalar os cuidados diários de higiene geral e bucal são atribuições da equipe de enfermagem. O cirurgião dentista tem importante papel na capacitação da equipe auxiliar hospitalar para realização de uma

23 higiene bucal eficaz e adequada às particularidades apresentadas por cada paciente. Cabe também ao dentista o monitoramento e avaliação das medidas preventivas instituídas como rotina hospitalar CONCLUSÃO Um atendimento hospitalar de qualidade demanda a participação de uma equipe multiprofissional capaz de oferecer assistência integral ao indivíduo hospitalizado. Grande parte dos hospitais brasileiros ainda não conta com a participação de um cirurgião dentista em seu corpo clínico, o que é lamentável, visto que o dentista pode atuar em várias frentes dentro do ambiente hospitalar, contribuindo para o bem estar e dignidade do paciente, prevenindo infecções e diminuindo o tempo de internação. Faz-se necessário a conscientização da classe médica sobre os benefícios advindos da incorporação deste profissional à equipe hospitalar. 4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1- Ministério da saúde. Disponível em: Acesso em: 12 mar/ LIMA, L.S. Fatores associados à condição de saúde bucal de pacientes internados em hospitais públicos do município de Natal-RN. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Programa de pós-graduação em odontologia MEURMAN, J.H., PAJUKOSKI, S., SNELLMAN, S., ZEILER, S., SULKAVA, R. Oral infections in home living elderly patients admitted to an accute geriatric ward. J.dent.Res. Chicago, v.76, n.6, p , June,1997.

24 4- SOUTO,R. et al. Prevalence of non- pathogenic bacteria in subgengival biofilm of subjects with chroonic periodontitis. Braz. J. Microbiology. V37. p , MUNDIM, G.J.; DEZENA, R.A.; OLIVEIRA, O.C.S. et al. Avaliação da presença de Staphylococcus aureus nos leitos do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Escola da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, em relação à posição no colchão antes e após a limpeza. Rev Soc Bras Med Trop, 36(6): , nov.-dez./ Pelczar Junior MJ, Chan ECS, Krieg NR. Microbiologia: conceitos e aplicações. São Paulo (SP): Makron Books; MENDONÇA, C.P. et al. Infecções hospitalares no município de Araraquara, SP ( Brasil). Rev. Saúde públ., S. Paulo, 10:239-52, JÚNIOR,A.M. ALVES,M.S.C.F. NUNES, J.P. COSTA, I.C.C. Experiência extramural em hospital publico e a promoção de saúde bucal coletiva.revista Saúde Pública,v.39, n.2, p , ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Disponível em: Acesso em: 20 mar/ Nunes EV A questão da interdisciplinaridade no estudo da saúde coletiva. In Canesqui AM (org.). Dilemas e desafios das ciências sociais na saúde coletiva. Hucitec-Abrasco, São Paulo-Rio de Janeiro. 11- JUVER,J. RIBA, J.P.C; Equipe Multidisciplinar em cuidados paliativos. Prática Hospitalar. Ano XI, n. 62, mar/abr, CECILIO, L.C.O.; MERHY, E. E. A integralidade do cuidado como eixo da gestão hospitalar. Campinas, mar., RIBEIRO, C. ARAÚJO, D. et. al. Interdisciplinariedade no contexto hospitalar. Revista Científica, ano IV, v.1, Salvador, ALVES, M; RAMOS;F.R.S; PENNA; C.M.M; O trabalho interdisciplinar: aproximações possíveis na visão de enfermeiras de uma unidade de emergência. Texto Contexto Enferm 2005 Jul- Set; 14(3):

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