Rede Jovem de Cidadania, programa de TV de Acesso público. Alexia Melo. Clebin Quirino. Michel Brasil. Gracielle Fonseca. Rafaela Lima.

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1 Rede Jovem de Cidadania, programa de TV de Acesso público Alexia Melo Clebin Quirino Michel Brasil Gracielle Fonseca Rafaela Lima Satiro Saone O projeto Rede Jovem de Cidadania é uma iniciativa da Associação Imagem Comunitária e nasceu em 2003 com a proposta de articular uma rede junto a centenas de jovens participantes de movimentos sociais e culturais de Belo Horizonte e regiões metropolitanas. O projeto foi criado no intuito de que grupos com poucas oportunidades de visibilidade participassem da construção do espaço midiático e do debate público. Os meios de comunicação são elo fundador e elemento combustível dessa rede. Diversas experiências comunicacionais ao redor do mundo têm frisado a importância de utilizar os meios de comunicação para promover uma cultura de direitos, que respeite diversidades de distintas naturezas e fomente debates sobre questões de interesse público. Desde 2004, a Rede Jovem de Cidadania exibe semanalmente suas produções em uma TV Pública de Minas Gerais, a Rede Minas de Televisão, colocando em prática a idéia de acesso público e democratização dos meios de comunicação, com base no direito constitucional de que todos os cidadãos são iguais perante a lei e têm o direito à livre expressão. O acesso público extrapola o paradigma emissor e receptor e faz com que sujeitos e grupos que são pouco representados pela grande mídia possam assumir o lugar da fala, tornando-se protagonistas na cena pública. Por meio do acesso público à comunicação, busca-se possibilitar que os jovens saiam da tradicional posição de objetos das narrativas midiáticas, para que se tornem autores de discursos.

2 A visão tradicional acerca dos meios, muitas vezes passa pelo caráter instrumental e tecnicista, baseado em modos de produção hierarquizados e formatos pré-definidos. A aposta da Rede Jovem de Cidadania é entender um processo comunicativo como espaço de diálogo, participação e desenvolvimento de temas de interesse coletivo, a partir de outras formas e abordagens acerca dos discursos presentes na mídia tradicional. A proposta é promover novos olhares sobre as juventudes, os quais sejam capazes de desconstruir estereótipos e maneiras equivocadas de pensar os universos juvenis. Além disso, o trabalho coletivo fomenta a potencialização do exercício democrático nos grupos e fortalecimento das suas próprias redes. A proposta editorial da iniciativa é guiada pelo princípio da cidadania midiática. Cidadania é entendida, aqui, não simplesmente como um conjunto de direitos e deveres, mas como a própria participação dos sujeitos na construção política do mundo em que vivem. Por causa disso, a Rede Jovem de Cidadania sempre instigou os jovens que fazem parte da rede a opinarem, contribuirem e decidirem as questões que fossem pertinentes a serem discutidas no programa de TV. O espaço de discussão coletiva foi criado em 2006 e foi chamado de Conselho Editorial da RJC, lugar onde os jovens sugeriam pautas e avaliavam os produtos que estavam sendo produzidos pelos grupos participantes deste Conselho. Este espaço se transformou ao longo do tempo, suas discussões foram ampliadas para outros projetos da AIC e houve envolvimento dos grupos e jovens em outras ações, para além da sugestão de pautas e avaliação dos produtos que iam ao ar. Dessa forma, os temas que estão presentes nas produções variam de acordo com as propostas que são apresentadas. Entretanto, a Rede Jovem de Cidadania prioriza aqueles que tragam questões de uma parcela da juventude brasileira que se encontra, de certa forma, à margem dos meios de produção cultural e simbólica. Para acessar essa rede de produção coletiva, o primeiro passo é preencher um formulário, onde o proponente explicita o trabalho de seu grupo e apresenta sua proposta. Este formulário foi criado a partir da necessidade de organizar o fluxo das demandas, que chegam através de diversas propostas, assim como a apresentação das mesmas. A partir do momento que a equipe da Rede Jovem de Cidadania recebe uma proposta, procura-se criar processos formativos de produção, onde os jovens possam se apropriar das ferramentas e expressar suas idéias no espaço público. Nestes processos formativos, eles lidam com os elementos que compõem a linguagem audiovisual, refletem sobre os diversos pontos de vista a respeito do assunto e sobre a atuação do grupo que representam. Além

3 disso, criam uma maneira de se expressarem através da linguagem audiovisual e escolhem as formas de abordagem do tema, a partir da articulação com outros interlocutores, da pesquisa de referências e da possibilidade de dar visibilidade a diversos espaços da cidade, inclusive a bairros, vilas e favelas que, normalmente, são representadas de maneira muito estigmatizada pela mídia tradicional. Dessa maneira, os grupos são autores do processo e não se utilizam de uma fórmula a priori para produzirem. Assim abre-se a possibilidade de apropriação e reinvenção da linguagem audiovisual em variados contextos, onde cada grupo pode se representar de acordo com sua singularidade. As maneiras de se conduzir esses processos são várias, pois cada grupo tem desejos, demandas específicas e idéias que querem expressar, trazem diversas maneiras de pensar e podem ter distintas disponibilidades de tempo de dedicação ao trabalho proposto. Assim, a equipe procura criar maneiras de possibilitar a participação ativa dos jovens através de processos formativos flexíveis: alguns grupos apresentam uma proposta para a Rede Jovem como se fosse sugestão de tema; outros têm a necessidade e vontade de se envolverem com a linguagem audiovisual para além da decisão dos temas e escolha das abordagens ao longo do processo. A maioria dos jovens não tem disponibilidade para um grande numero de encontros e dessa forma podem espaçar temporalmente a produção e os encontros; alguns podem ter interesse em se aprofundar nas questões técnicas ou em algumas partes do processo, como por exemplo, o momento da montagem do material. Outros já tem alguma experiência com audiovisual e nos demandam orientação e empréstimos de equipamentos ou suporte metodológico para realizarem as produções de modo mais independente. Porém, tão importante quanto cada processo de produção em si é a possibilidade de continuidade e trabalho de novas propostas. A Rede Jovem de Cidadania trabalha no sentido de ser perfeitamente possível que, ao terminar um vídeo, o grupo faça outra proposta e produza outro vídeo, dando continuidade no processo de formação. Os vídeos produzidos a partir desses processos são veiculados no programa da Rede Jovem de Cidadania. Jovens engajados em experiências coletivas são nosso principal alvo. Além dos jovens diretamente envolvidos na produção midiática, é preciso considerar um segundo público-alvo da iniciativa: a sociedade, de um modo geral, e os jovens, de forma mais específica, do Estado de Minas Gerais, que interagem com os programas. Esse universo de pessoas é confrontado com produtos comunicativos que buscam construir um novo olhar sobre as juventudes de Minas Gerais. Em vez das tradicionais narrativas por meio das quais essas juventudes são mostradas, a audiência se depara, aqui, com narrativas formuladas pelos

4 próprios jovens, com seus elementos inovadores tanto na dimensão estética como na dimensão do conteúdo. Paralelamente aos processos formativos, acontecem outros processos de produção, onde a própria equipe da Rede Jovem de Cidadania produz programas colaborativamente e articula outros grupos e temáticas, no sentido de garantir diversidade e pluralidade dos discursos presentes no espaço público. Tal diversidade é evidente no programa de televisão, pois a cada semana, a história muda. Não existe um padrão estético a ser seguido e copiado. Existem sim, alguns preceitos éticos que são respeitados e que explicitam a maneira como a AIC trabalha e enxerga a comunicação. Dessa maneira, os jovens da equipe da Rede Jovem de Cidadania, responsáveis pela articulação audiovisual desta rede, não se entendem como uma equipe que somente produz um programa de televisão, pois o modo de funcionamento não se encaixa no modelo tradicional e hierárquico da produção cinematográfica, mas sim no compartilhamento e intercâmbio de responsabilidades e funções entre os participantes da produção. A tentativa é de criar espaços para as possibilidades inventivas que podem ser construídas através do diálogo e da pesquisa conjunta, onde tanto a equipe da Rede Jovem, quanto o grupo que propôs a produção, contribui e se sente representado. Além disso, a equipe procura instigar os jovens participantes de grupos a utilizarem os meios de comunicação como ferramenta mobilizadora dentro do seu campo de atuação. Dentro dessa perspectiva dialógica, a Rede Jovem de Cidadania busca a troca de experiências com outras entidades, coletivos juvenis, projetos sociais e ONGs que também produzem audiovisual, no sentido de dar visibilidade e fortalecer a rede, e assim trazer outras visões e pensamentos da juventude, outros sotaques, influências, culturas e assuntos que não são acessados diretamente pela equipe, nem são publicizados pela mídia tradicional. Os movimentos da sociedade civil - muitos deles sequer formalizados em instituições - não tem acesso, na sua grande maioria, à possibilidade de criar materiais para distribuição à imprensa e muitas vezes acabam excluídos deste circuito. A tentativa é expandir a rede para além da região metropolitana de Belo Horizonte ou do Estado de Minas Gerais e agregar força política a ideia de acesso público. Pode-se sintetizar a proposta da iniciativa como uma busca pela promoção de uma visibilidade plural acerca das juventudes. Essa visibilidade se pauta pelo fomento à cidadania, pela valorização das manifestações culturais e pela promoção do respeito às diversidades.

5 Destaca-se, por fim, que as diversas linguagens e a aposta na estética do deslocamento se adequam aos públicos jovens, geralmente, ansiosos por novidades, rupturas e mais abertos à experimentação. As produções empregam, muitas vezes, termos, formatos narrativos e princípios de estruturação dos elementos simbólicos pouco usuais na mídia de massa, mas que cumprem sua função de comunicabilidade.

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