ENSINANDO DIREITOS HUMANOS NA EJA: LIMITES E DESAFIOS DE UMA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

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1 ENSINANDO DIREITOS HUMANOS NA EJA: LIMITES E DESAFIOS DE UMA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA Maria Elizete Guimarães Carvalho 1 Resumo Discute as experiências vivenciadas no Projeto de Extensão Educando Jovens e Adultos em Direitos Humanos: uma Proposta de Intervenção na Escola Pública (PROLICEN/UFPB), desenvolvido em uma Escola pública de João Pessoa/PB, utilizando os círculos de diálogo para discutir temáticas em direitos humanos coletadas no cotidiano dos educandos. O trabalho contribuiu para uma vivência de respeito à dignidade e aos direitos humanos. Palavras-chave: Educação em Direitos Humanos, Círculos de diálogo, EJA. Introdução As dificuldades de educar em direitos humanos estão vinculadas a questões contextuais e históricas, a fatores de dominação e exclusão que contribuem para a perpetuação ou promoção de condições de subsistência sem dignidade e sem cidadania. adultos. Oficina Histórias de Vida e Direitos Humanos Fonte: Arquivos do Projeto PROLICEN/UFPB Tais condições, alimentadas por políticas discriminatórias e por idéias massificadas, geram sentimentos de insatisfação, alicerçados por visões e concepções absoletas e sem fundamento, como é o caso da existência dos direitos humanos para bandidos. Essa constituise a primeira e mais forte dificuldade encontrada no desenvolvimento de uma proposta de educação em direitos humanos direcionada para jovens e 1 Maria Elizete Guimarães Carvalho Professora da Universidade Federal da Paraíba. Membro do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB. Advogada civilista. Pesquisadora dos Grupos de Estudos e Pesquisas História da Educação da Paraíba HISTED-PB e Cidadania e Direitos Humanos, UFPB.

2 Porque, enquanto adultos, os educandos já vivenciaram inúmeras situações de agressão e violência aos seus direitos, sendo necessário, desconstruir essa idéia, fazê-los acreditar na possibilidade de uma vida com dignidade, igualdade e cidadania. Considerando tais questões, baseadas em relatos de experiências dolorosas, percebe-se a urgência de ações e intervenções na Educação de Jovens e Adultos - EJA -, tomando a educação em direitos humanos como ferramenta primordial para a realização de um trabalho de conscientização e mudança. É nesse sentido que foi desenvolvido o Projeto Educando Jovens e Adultos em Direitos Humanos: uma Proposta de Intervenção na Escola Pública, tendo em vista a necessidade de orientar/ensinar jovens e adultos sobre seus direitos. Tal projeto, que se desenvolveu em uma escola pública municipal de João Pessoa, utilizou os círculos de diálogo como metodologia de trabalho, orientando-se pelas etapas da experiência freireana com adultos nos anos 1960, trabalhando as experiências cotidianas de agressão aos direitos humanos narradas pelos participantes. Suas falas denunciaram vivências sem proteção, fadadas ao abandono, discursos que afirmam convicções preconcebidas, estereótipos já formados sobre a situação do analfabeto em uma sociedade letrada, a ausência de proteção ao pobre, a negligência no cumprimento dos direitos das populações excluídas. Educando em Direitos Humanos: Uma Experiência com Círculos de Diálogo Após estudos teóricos, coleta de dados sobre a EJA e a discussão do projeto com os docentes da escola campo de pesquisa e extensão, teve início a experiência com os alunos. Utilizando-se da metodologia dos círculos de diálogo, o grupo promoveu o debate sobre temas do cotidiano dos educandos, vinculados aos direitos assegurados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de A equipe coletou as situações geradoras, abordando os conteúdos dos direitos humanos, possibilitando a percepção da realidade e uma postura crítica frente a ela, buscando construir uma prática pedagógica fundamentada no diálogo e na troca de experiências. Foram realizados dois círculos de diálogo e uma oficina, que abordaram os temas: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Direitos dos Presidiários e Histórias de Vida e Direitos Humanos, respectivamente, surgidos a partir das inquietudes e dos questionamentos dos alunos da EJA em relação à proteção que é concedida à criança e ao adolescente, aos direitos dos presidiários e às violências sofridas em suas vidas.

3 Os círculos realizados a partir de situações geradoras como relatos de experiências traziam questionamentos mesclados de descrença e de falas da mídia. Destacando o primeiro círculo, uma aluna narrou uma experiência com seu filho de doze anos de idade. Disse que, certo dia, tentando punir uma desobediência, chegou a dar-lhe umas palmadas, fato presenciado por alguns vizinhos que condenaram sua atitude e denunciaram a Polícia. Esta, no dia seguinte, bateu a sua porta. A aluna defendeu sua atitude dizendo: Se não bater em meu filho agora, mais tarde quem vai tá batendo é a Polícia. Estará correta a atitude da mãe que bate no filho, apenas como punição a uma desobediência? Foram discutidas questões como punição e desobediência, seu significado, sua contextualização, havendo necessidade de trabalhar a história da infância e a proteção à criança. Então, o círculo de diálogo discutiu os direitos e deveres defendidos pelo ECA, relacionando suas diretrizes com a prática dos direitos humanos, propiciando uma leitura de imagens da realidade, forma encontrada para facilitar a leitura de todos os alunos(as), até mesmo dos que ainda estavam sendo alfabetizados. Um dos alunos da alfabetização se identificou com uma das imagens: a de uma criança com a enxada nas mãos, trabalhando, o que gerou o diálogo acerca do trabalho infantil, motivando relatos do tipo: Quando eu era criança, trabalhei com a enxada na mão ; o senhor quando era criança trabalhou? (pergunta de uma aluna), meus meninos ia comigo trabalhar e deram tudo pra gente. Após a apresentação de slides, iniciou-se a discussão, ficando os alunos bem à vontade para que evidenciassem suas experiências e opiniões. No decorrer do debate, foram abordadas pelos alunos algumas situações polêmicas: o certo é a criança trabalhar, o governo está pagando pra que as mulheres tenham mais filhos, a mãe que coloca a criança pra pedir esmola na rua, que existe muita criança na rua e que vai demorar pra fazer valer os direitos humanos pra elas. O grupo juntamente com um professor da escola esclareceu todas estas questões, destacando o histórico da infância no Brasil e no mundo, a concepção de criança, os trabalhos que é obrigada a executar, e que não condizem com sua fisiologia. Nesse ponto, foram abordadas as teorias de Henri Wallon e de Piaget, enfatizando-se a importância da infância, o respeito às etapas de desenvolvimento da criança, à maturação, importante para adquirir a noção de responsabilidade individual, indispensável para sua autonomia. Foram enfatizados o dever e o direito da criança ser tratada como criança. Partindo desses pressupostos, foi esclarecido e explicado o quanto é fundamental o respeito à criança enquanto ser dotado de desejos, interesses e anseios, devendo ser respeitado o desenvolvimento de suas fases, tendo em vista que ela não possui capacidade de

4 discernimento, sendo considerada inimputável perante a Lei, devendo ser protegida pela família e pelo Estado. Considerações Finais A experiência realizada com a Educação em Direitos Humanos tem despertado os jovens e adultos para o diálogo, para a reflexão sobre suas vivências cotidianas, como formas de compreender a realidade em que estão inseridos e a situação de exclusão que os tem vitimado. Inicialmente percebeu-se muita descrença em relação ao trabalho, devido ao tema - Direitos Humanos -, em um momento em que a própria comunidade ressentia-se de experiências marcantes 2, mas a forma de abordar as questões, a utilização dos círculos de diálogo, contribuiu para um desempenho positivo da equipe e o desenvolvimento do projeto, o que significa afirmar que os objetivos foram alcançados. A comprovação desse fato está na participação e no interesse dos jovens e adultos, trazendo suas experiências em direitos humanos para debate, reivindicando mudanças e melhoria para suas vidas, tentando compreender e praticar uma vivência cidadã. A Educação em Direitos Humanos é um processo contínuo e permanente que deve ser cultivado/praticado por toda vida, resgatando os valores de dignidade, tolerância e paz. Tais valores foram incentivados pelo Projeto Educando Jovens e Adultos em Direitos Humanos: uma proposta de intervenção na escola pública, que buscou despertar o público de educandos da EJA para a amplitude dos Direitos Humanos, considerados ensinamentos fundamentais para essa modalidade educativa, tendo em vista a contribuição para o desenvolvimento da cidadania e construção da humanidade desses alunos. Referências BRASIL. Ministério Público da Paraíba, Procuradoria Geral de Justiça, Curadoria da Infância e Juventude. Estatuto da criança e do adolescente. João Pessoa-PB, DANTAS, Heloysa. A infância da razão: uma introdução à psicologia da inteligência de Henri Wallon. São Paulo: Manole, A cidade de João Pessoa vivenciou, em agosto de 2009, a chacina do Rangel, violência extrema ao direito à vida. O Rangel é um bairro situado vizinho à escola onde se desenvolveu o projeto.

5 BOBBIO, Noberto. A era dos direitos. Rio de janeiro: Campus, CARVALHO, Maria Elizete Guimarães. A educação entre os direitos humanos: de direito natural a direito humano fundamental. In: Conferência Internacional de Sociologia. João Pessoa, CD-ROM. CARVALHO, Maria Elizete G. (Org.). Educação e direitos humanos: estudos e experiências. João Pessoa: Editora da UFPB, COMPARATO, Fábio K. A afirmação histórica dos direitos humanos. 5. ed. São Paulo: Saraiva, DALLARI, Dalmo de Abreu. Um breve histórico dos direitos humanos. In: CARVALHO, José Sérgio. Educação, cidadania e direitos humanos. Petrópolis, RJ: Vozes, FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, LIBERATI, Wilson D. (Org.). Direito à educação: uma questão de justiça. São Paulo: Malheiros, PIOVESAN, Flávia. Concepção contemporânea de direitos humanos. In: HADDAD, Sérgio; GRACIANO, Mariângela (Orgs.), A educação entre os direitos humanos. Campinas, SP: Autores Associados; São Paulo, SP: Ação Educativa, TAVARES, Selma. Educar em direitos humanos. In: SILVEIRA, Rosa Maria G, et al. (Orgs.). Educação em direitos humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Editora Universitária, 2007.

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