Janette Brunstein Arilda Schmidt Godoy Helio Cesar Silva. (Organizadores)

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3 Janette Brunstein Arilda Schmidt Godoy Helio Cesar Silva (Organizadores) São Carlos 2014

4 2014 dos autores Direitos reservados desta edição RiMa Editora Capa: Emmanuel Augusto de Andrade Rodrigues - Design Gráfico E21e Educação para sustentabilidade nas escolas de administração / organizado por Janette Brunstein, Arilda Schmidt Godoy e Helio Cesar Silva São Carlos: RiMa Editora, p. il ISBN e-book 1. Administração. 2. Ensino. 3. Sustentabilidade. I. Autores. II. Título COMISSÃO EDITORIAL Dirlene Ribeiro Martins Paulo de Tarso Martins Carlos Eduardo M. Bicudo (Instituto de Botânica - SP) Evaldo L. G. Espíndola (USP - SP) João Batista Martins (UEL - PR) José Eduardo dos Santos (UFSCar - SP) Michèle Sato (UFMT - MT) Rua Virgílio Pozzi, 213 Santa Paula São Carlos, SP Fone/Fax: (16)

5 Sobre os autores Organizadores Janette Brunstein Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. Professora Pesquisadora do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Arilda Schmidt Godoy Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. Professora Pesquisadora do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Helio Cesar Silva Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Pesquisador de Administração com foco em Sustentabilidade do Centro Universitário Senac. Colaboradores Ana Augusta Ferreira Freitas Doutorado em Engenharia de Produção na Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Titular do Curso de Mestrado Acadêmico em Administração da Universidade Estadual do Ceará. Ana Silvia Rocha Ipiranga Doutorado em Psicologia do Trabalho e da Organização pela Università Alma Mater Studiorum di Bologna. Professora do Curso de Mestrado Acadêmico em Administração da Universidade Estadual do Ceará. Andreza Sampaio de Mello Doutorado em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

6 VI EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO Carla Vanessa Pinto de Macedo Graduada em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará. Empresária e Consultora Organizacional. David Bevan PhD Management, King s College London. Professor at the Europe-China Centre for Leadership and Responsibility (CEIBS), Shanghai, PRC. Delyse Springett Doctor of Philosophy, Durham University. Director, Centre for Business and Sustainable Development, Massey University, New Zealand. Diego de Queiroz Machado Doutorando em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza. Diego de Sousa Guerra Mestrado em Administração pela Universidade Estadual do Ceará. Professor na Universidade Federal do Cariri. Eliete Carina de Melo Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professora do Senac/SP e do Instituto Sumaré de Educação. Emmanuel Raufflet PhD Management, McGill University, Montréal, Québec, Canada. Associate Professor, Management, HEC Montréal. Evelize Welzel Doutorado em Administração pela Friedrich-Schiller-Universität Jena, Alemanha. Professora do Departamento de Ciências da Administração da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Estratégia, Gestão e Sustentabilidade da UFSC.

7 Sobre os autores vii Fátima Regina Ney Matos Doutorado em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco. Professora do Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade de Fortaleza. Germana Ferreira Rolim Mestre em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará. Professora da Universidade Federal do Ceará. Herbert Kimura Doutorado em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo e Doutorado em Administração de Empresas pela Escola de Administração do Estado de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Professor Titular da Universidade de Brasília. Jamille Barbosa Cavalcanti Pereira Doutora em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professora do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Kátia Lene de Araújo Lopes Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará. Coordenadora e Professora da Faculdade Lourenço Filho. Ladislau Dowbor Doutorado em Ciências Econômicas pela Escola Superior de Estatística e Planejamento. Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica. Leonardo Fernando Cruz Basso Doutorado em Economia pela New School for Social Research. Professor Titular do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

8 VIII EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO Luiz Carlos Beduschi Filho Doutorado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo. Professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades e do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo. Marta Fabiano Sambiase Doutorado em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professora do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pedro Jaime Doutorado em Antropologia Social pela USP e em Sociologia & Antropologia pela Université Lumière Lyon 2. Professor Pesquisador do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Administração do Centro Universitário da FEI e Professor da ESPM-SP. Pedro Roberto Jacobi Doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Professor Titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo/Instituto de Energia e Ambiente. Rafaella Alves Medeiros Alvarenga Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza. Professora da Faculdade CDL. Rodrigo Augusto Prando Doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista. Professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sandra Lays Gathás Carvalho Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

9 Sobre os autores ix Sumário Introdução...1 Parte I Tendências em Educação para Sustentabilidade...5 Capítulo 1 Luta ideológica: o desenvolvimento sustentável no currículo de Administração...7 Delyse Springett Capítulo 2 Formas de integração da sustentabilidade ao ensino de Administração...16 Emmanuel Raufflet Capítulo 3 Integrando o conceito de aprendizagem social pelas perspectivas da sustentabilidade e da aprendizagem organizacional Andreza Sampaio de Mello e Arilda Schmidt Godoy Capítulo 4 O MBA One Planet...55 David Bevan Capítulo 5 Um panorama das discussões sobre educação para a sustentabilidade no ensino superior e nos cursos de Administração Sandra Lays Gathás Carvalho, Janette Brunstein e Arilda Schmidt Godoy Parte II Educação para Sustentabilidade: Aspectos Curriculares e de Ensino-Aprendizagem Capítulo 6 Gestão ambiental e o ensino de Administração Pedro Roberto Jacobi e Luiz Carlos Beduschi Filho Capítulo 7 Representações sociais e sustentabilidade: o significado do termo para alunos do curso de Administração Fátima Regina Ney Matos, Ana Silvia Rocha Ipiranga, Diego de Queiroz Machado, Germana Ferreira Rolim, Rafaella Alves Medeiros Alvarenga e Kátia Lene de Araújo Capítulo 8 Abordagem socioambiental nos cursos de Administração de Empresas: uma escala para mensurar a importância percebida pelos docentes Carla Vanessa Pinto de Macedo, Ana Augusta Ferreira Freitas e Diego de Sousa Guerra

10 X EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO Capítulo 9 Afinal, quem são os gestores da responsabilidade social corporativa (RSC)? Implicações para a formação dos administradores Evelize Welzel Capítulo 10 Experiências docentes em educação para a sustentabilidade em escolas de negócios: uma análise à luz dos conceitos de reflexão crítica e aprendizagem transformadora Eliete Carina de Melo, Janette Brunstein e Arilda Godoy Capítulo 11 Sustentabilidade & formação de administradores: diálogos cruzados e a contribuição do ensino-aprendizagem de Sociologia Pedro Jaime Capítulo 12 A gestão das diferenças humanas nas organizações sob as perspectivas de alunos do curso de Administração Jamille Barbosa Cavalcanti Pereira Capítulo 13 O ensino da sustentabilidade e o diálogo interdisciplinar com as humanidades Rodrigo Augusto Prando Capítulo 14 Marketing e sustentabilidade: novos desafios para a formação dos administradores Helio Cesar Silva Capítulo 15 O debate sobre a sustentabilidade no ensino de finanças Herbert Kimura e Leonardo Fernando Cruz Basso Capítulo 16 Ensino-aprendizagem de estratégia para sustentabilidade Marta Fabiano Sambiase Capítulo 17 Entender a Rio+20: balanços e compromissos para a nova geração de administradores Ladislau Dowbor

11 Introdução A legitimação do ideário da sustentabilidade no campo da Administração A questão da educação para a sustentabilidade em escolas de Administração e a reflexão sobre a prática docente em favor da formação de uma nova geração de profissionais dos negócios que coloquem na mesma hierarquia de valor e importância aspectos de cunho social, ambiental, político, territorial e cultural tanto quanto os econômicos é o debate central deste livro. Um repertório de pesquisas e de experiências práticas está em curso em nosso país e no exterior, e merece atenção e espaço para que a iniciativa de reposicionar o que é e o que não é de interesse e responsabilidade dos negócios ganhe força motriz, capaz de fomentar uma nova mentalidade e ação empresarial. O convite desta coletânea é partilhar parte desse repertório, provocando o leitor para uma discussão que não é desprovida de tensões e inquietudes. Na mesma proporção que a ideia âncora do desenvolvimento sustentável se espalha e ganha adeptos, é também cotidianamente refutada, tanto no âmbito das ações individuais, nas microdinâmicas, quanto nas macrodinâmicas sociais, na política, no governo, na economia e, como não, nas organizações empresariais. Tal qual o ideário da democracia, da justiça, da igualdade prescindem de um esforço diário que garanta sua existência, sustentabilidade também exige impulso contínuo. Não se trata de uma meta a ser atingida em um dado momento, mas de um propósito em moto perpétuo. Se este debate pode parecer familiar nas salas de aula das escolas de sociologia, filosofia, ou mesmo em áreas afins como nas ciências biológicas, nas escolas de Administração discussões dessa natureza soam ainda estranhas e, por vezes, até mesmo inadequadas, incompatíveis com o que o universo da gestão representa em nossa sociedade. E aqui termos, então, um ponto central pelo qual toda a discussão desta coletânea perpassa: a legitimação do debate da sustentabilidade no campo da Administração. Qual é, de fato, a demanda por profissionais de administração que atuem em uma perspectiva sustentável? Qual a oferta de trabalho? Estão esses profissionais em cargos e posições estratégicos nas empresas? Qual o espaço que propostas socioambientais ocupam nas organizações? Com que frequência e amplitude são financiadas e levadas a efeito? Além disso, podemos ainda questionar qual o lugar do administrador neste cenário? Ele não é o engenheiro, não é o assistente social, mas terá de lidar com questões

12 2 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO que envolvem novas tecnologias e atendimento a demandas de ordem social. Qual é a porção que cabe a esse profissional nesse contexto? E nas escolas de negócios, as salas de aula estão abrindo espaço para questões de sustentabilidade? Em que medida? Com que frequência? Em que matérias? Com qual intensidade? De que forma? Com qual propósito? Mas se essas perguntas provocam inquietações, e até podem despertar certo ceticismo, é importante lembrar que ao redor do mundo há educadores e pesquisadores preocupados em endereçar respostas e apresentar caminhos viáveis e interessantes. Os capítulos desta coletânea são um exemplo disso. A despeito do quanto já avançamos ou não na tentativa de repensar a formação do administrador, considerando aspectos que não somente o de maximização do lucro, não se pode negar que vivemos um momento histórico e social muito favorável à construção de novos fundamentos da educação gerencial. Da mesma forma, se a legitimação no campo ainda é um terreno arenoso e não sabemos muito bem até onde vamos conseguir chegar, temos uma certeza: a de que assistimos ao fortalecimento da reflexão acadêmica e das experiências práticas de educação para a sustentabilidade em salas de aula e em cursos de Administração, que paulatinamente crescem em quantidade e densidade. Os leitores encontrarão aqui visões e experiências distintas, de autores brasileiros e estrangeiros. Alguns capítulos apresentam discussões de ordem mais teórica, outros estão mais ancorados em pesquisa empírica. Encontrarão também textos escritos em formato de relato de experiências de docentes, além de trabalhos que ora são mais focados em debater o projeto pedagógico e o currículo de Administração, ora se dedicam a olhar para a sala de aula, os docentes e os discentes. Essa diversidade dará ao leitor a chance de pensar a educação para a sustentabilidade em escolas de Administração sob diferentes enfoques. Embora o livro esteja organizado em duas partes uma que congrega textos e autores que estão tratando de tendências em educação para a sustentabilidade, outra que foca os aspectos relativos às questões educacionais envolvidas no currículo e processo de ensino-aprendizagem de sustentabilidade, a apresentação que faremos dos textos nesta introdução seguirá outra lógica, buscando articulá-los em alguns grandes temas. Esta organização temática poderá, inclusive, auxiliar o leitor a decidir sua rota de leitura, que poderá ser diferente daquela traçada pelos organizadores. Dois capítulos privilegiam abordagens teóricas distintas sobre educação para a sustentabilidade: o da pesquisadora neozelandesa Delyse Springett, que traz uma perspectiva crítica sobre as disputas ideológicas que atravessam o debate sobre desenvolvimento sustentável no currículo de Administração, e o de Andreza Sampaio de Mello e Arilda Schmidt Godoy, que examinam o tema a partir da perspectiva da aprendizagem social, explorando o entendimento do mesmo segundo os autores do campo da sustentabilidade e da

13 Introdução 3 aprendizagem organizacional. Embora esses textos abordem a educação para a sustentabilidade por meio de diferentes enfoques, apresentam ideias que podem ser complementares e instigar articulações entre elas. Outros dois capítulos apresentam o estado da arte da educação para a sustentabilidade nos cursos de Administração: o de Sandra Lays Gáthas Carvalho, Janette Brunstein e Arilda Schmidt Godoy traz uma revisão da literatura sobre educação para a sustentabilidade nas instituições de ensino superior, com especial atenção aos cursos de Administração, e o de Eliete Carina de Melo, Janette Brunstein e Arilda Schmidt Godoy sumariza experiências de sala de aula em escolas de negócios com o propósito de fomentar reflexão crítica e aprendizagem transformadora. Três capítulos destacam questões curriculares na graduação e pós-graduação. O trabalho de Pedro Roberto Jacobi e Luiz Carlos Beduschi Filho descreve duas experiências concretas desenvolvidas na Universidade de São Paulo (USP) discutindo os desafios e as perspectivas da educação para a sustentabilidade no ensino superior, considerando o conceito de aprendizagem social. O de David Bevan traz uma experiência curricular internacional suportada por uma pesquisa-ação em um curso de MBA. Outro colaborador internacional, Emmanuel Raufflet, mapeia quatro formas de integração da sustentabilidade na administração, apontando desafios e ambiguidades no âmbito dos currículos e instituições. Cinco capítulos apresentam experiências de sala de aula focadas em explorar as questões de sustentabilidade em disciplinas específicas do curso de Administração de empresas em nível de graduação. Rodrigo Augusto Prando promove uma reflexão sobre o papel da disciplina Sustentabilidade e Responsabilidade Social na estrutura curricular de um curso de Administração e sua relação com as demais disciplinas que compõem o rol de formação humanística do curso. O capitulo de Pedro Jaime traz uma experiência de ensino-aprendizagem de sociologia no curso de Administração, examinando questões relativas à sustentabilidade, sobretudo em sua dimensão sociocultural. Marta Fabiano Sambiase oferece um relato de experiência no qual desenvolve e compartilha com o leitor a trajetória de construção da disciplina Gestão Estratégica para a Sustentabilidade, a qual envolveu também uma discussão no campo das teorias de estratégia. Helio Cesar Silva apresenta uma discussão teórica sobre marketing sustentável e relata sua experiência ao lecionar disciplinas de marketing, que enfatizem a sustentabilidade, em cursos de Administração. Por fim, Herbert Kimura e Leonardo Basso analisam a relevância da sustentabilidade no contexto da teoria de finanças e, indo além da visão simplista de maximização de riqueza do acionista, apresentam propostas de dinâmicas de sala de aula que incentivem os alunos a pensarem além das fronteiras da teoria tradicional de finanças.

14 4 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO Quatro capítulos discutem a educação para a sustentabilidade a partir de pesquisas empíricas. A pesquisa de Evelize Weizel em empresas alemãs buscou identificar o perfil do profissional que atua na gestão da responsabilidade social corporativa e verificar como os mesmos adquirem conhecimento para o exercício de suas funções. A partir desses resultados, a autora desenvolve uma reflexão sobre a formação de administradores de empresas que vão atuar no campo da responsabilidade social corporativa. Jamille Barbosa Cavalcanti Pereira discute teoricamente o conceito de gestão da diversidade nas organizações e relata as percepções, concepções, sentimentos e significados que alunos de administração de empresas atribuem a esse tema. Aponta, a partir dos resultados da pesquisa que realiza, implicações para uma prática de ensino que valorize a gestão das diferenças humanas nas organizações. Fatima Regina Ney Matos, Ana Silva Rocha Ipiranga, Diego de Queiroz Machado, Germana Ferreira Rolim, Rafaella Alves Medeiros Alvarenga e Kátia Lene de Araújo analisam os significados da palavra sustentabilidade para alunos do curso de Administração de uma Instituição de Ensino Superior pública com o propósito de evidenciar as representações sociais que a ela subjazem ou dela decorrem, relacionando-as às dimensões sociais, econômicas, ecológicas, espaciais e culturais. Já o estudo de Carla Vanessa Pinto de Macedo, Ana Augusta Ferreira Freitas e Diego de Sousa Guerra teve por objetivo a construção e testagem de uma escala para mensuração da importância da abordagem socioambiental nos cursos de Administração de empresas na percepção dos docentes. No fechamento do livro contamos com o texto de Ladislau Dowbor, que nos convida a pensar os balanços e compromissos da Rio + 20 como desafios para as escolas de negócios. Além disso, o texto de Dowbor oferece um conjunto de indicações que poderão enriquecer nossa reflexão a respeito do papel da sustentabilidade na educação de administradores. Por fim, é importante contextualizar os leitores de que o esforço empreendido nesta coletânea nasceu do projeto Gestão social, comunidades de aprendizagem e educação para a sustentabilidade: contribuições para a formação da nova geração de administradores, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e que atende ao edital Pró- Administração, cujo propósito é estimular a realização de projetos conjuntos de pesquisa e apoio à capacitação docente para ampliar e consolidar o desenvolvimento de áreas de formação consideradas estratégicas no país, como a gestão social e ambiental. Assim, este livro está alinhado às reflexões feitas no nível desse projeto, mas incorpora também autores convidados, nacionais e internacionais, cuja experiência e expertise consideraram-se relevantes. Janette Brunstein, Arilda Schmidt Godoy e Helio Cesar Silva (Organizadores)

15 PARTE I TENDÊNCIAS EM EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE

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17 Capítulo 1 Luta ideológica: o desenvolvimento sustentável no currículo de Administração Delyse Springett Resumo Este capítulo discute a luta ideológica que a educação para o desenvolvimento sustentável nos estudos de administração representa. Foca-se, primeiramente, as perspectivas críticas adotadas e as escolhas pedagógicas de minha atividade de ensino na pós-graduação. A segunda parte do texto debate a práxis, ou seja, como estimular os alunos a perceberem que eles próprios podem ser agentes de mudança. O objetivo é prover uma educação que faça diferença por meio de uma teorização crítica que contextualize os objetivos, a estrutura, o conteúdo do currículo e as escolhas pedagógicas feitas, ou seja, uma teorização que contextualize o processo inteiro de planejar e agir, monitorar e refletir (SPRINGETT, 2005). Defesa de uma teorização crítica Uma abordagem para a educação para o desenvolvimento sustentável que seja robusta o suficiente para motivar os professores a ensinar sobre negócios e sustentabilidade demanda uma teorização crítica, e há dificuldade justamente nessa questão. Perspectivas críticas sobre sustentabilidade e desenvolvimento sustentável revelam os pilares teóricos da racionalidade corporativa que têm colaborado para a relegação das questões ambientais e sociais ao nível de externalidades, enquanto a responsabilidade do próprio ensino tradicional de administração no apoio dessa hegemonia é exposta. Portanto, introduzir questões estruturais e a política da sustentabilidade no currículo dos estudos de administração continua sendo problemático: é uma luta ideológica que tenta contestar a legitimidade e o legado da teoria ortodoxa da administração (SPRINGETT e KEARINS, 2001). Como a própria sustentabilidade, essa perspectiva afasta-se da ortodoxia convencional. No entanto, pode-se argumentar que a plataforma mais importante para os estudos da sustentabilidade seria ensinar nossos futuros líderes e gerentes corporativos a se tornarem agentes dessa mudança de direção voltada para a sustentabilidade, um papel que às vezes é atribuído a eles (HAWKEN, 1993).

18 8 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO Parte do problema de se introduzir uma teorização crítica do currículo é o fato de ela ser abertamente ideológica. Entretanto, isso não significa que a intenção é cooptar os alunos a uma perspectiva em particular. Os objetivos do programa são emancipadores, voltados para o estímulo de um ceticismo saudável e de um hábito de questionamento crítico que impedem essa cooptação. O objetivo é fazer os estudantes refletirem sobre temas pessoais e temas societais mais amplos, estender um espelho para o mundo e mostrar a realidade e como ela tem sido produzida e formada em sua própria natureza (O CONNOR, 1998, p. 52). Para isso, é necessário prestar atenção em vozes que raramente são empoderadas e escutar perspectivas relacionadas à sustentabilidade e desenvolvimento sustentável que não reflitam somente as visões dos administradores (SPRINGETT e FOSTER, 2005). Essa educação tem um objetivo político : ela não alega ter a suposta neutralidade do currículo ortodoxo, que auxilia na consolidação da hegemonia social para manter os valores e a ideologia dos grupos sociais dominantes (APPLE, 1979; FIEN, 1993; HUCKLE, 1996; O CONNOR, 1998; SPRINGETT, 2005) nem perpetua uma imagem sanitizada do mundo (WILLMOTT, 1994). O objetivo do curso aqui descrito tem sido emancipar a capacidade dos alunos de se engajarem em questionamentos críticos, e essas reflexões são incluídas no próprio curso, em seu conteúdo e em seu ensino. Os alunos cresceram cercados por um ambiente e uma cultura que a máquina corporativa de relações públicas ajudou a criar; como Beder (2009) demonstrou graficamente, a cultura corporativa tem tomado e comoditizado amplamente a infância, ajudando a criar cidadãos sem sentido crítico. A educação para o desenvolvimento sustentável, portanto, apresenta valores e visões de mundo que ajudam os estudantes a questionarem o mundo em que vivem (SPRINGETT, 2005). É necessário especificar com clareza os objetivos e propósitos do curso: a meta não é ensinar um curso sobre teoria crítica per se nem produzir teóricos críticos. Em vez disso, um conjunto de ferramentas baseadas no bom senso tem servido como lente para que o mundo seja visto como ele é, ajudando a erguer o espelho da teoria crítica que, como O Connor (1998) observou, mostra a natureza circunstancial do mundo que conhecemos. Para os próprios educadores de administração, isso pode resultar em um dilema do tipo a galinha e o ovo, levando à questão de como eles devem se preparar para ensinar perspectivas críticas sobre administração e sustentabilidade se em geral eles próprios não aprenderam essas perspectivas. Também há dificuldades políticas e possíveis consequências para as carreiras dos educadores de administração que promovem uma agenda crítica (SPRINGETT e KEARINS, 2001). Os acadêmicos devem buscar oportunidades de publicação em periódicos respeitados e competir por promoções e recursos para pesquisa, a fim de que haja incursões fora dos limites disciplinares tradicionais

19 Cap 1 Luta ideológica: o desenvolvimento sustentável no currículo... 9 que representam um risco. Não surpreendentemente, os currículos de administração que começaram a focar no desenvolvimento sustentável têm promovido mais comumente a retórica do ecomodernismo e das mudanças incrementais em vez de adotar uma perspectiva radical: muitas vezes, o foco é a gerência da agenda do desenvolvimento sustentável (SPRINGETT, 2006, p. 53). Há outras consequências importantes para o papel do professor. Que tipo de papel devemos assumir, se é para refletirmos os objetivos de uma teorização crítica? E que tipo de escolhas pedagógicas devem ser feitas? Aqui, defende-se que as escolhas pedagógicas que envolvem professores e alunos em métodos de ensino baseados na ação são abordagens eficazes que ajudam a moldar os próprios papéis deles não por uma definição limitada, mas por prover uma aprendizagem experiencial e por ajudar a criar contextos de aprendizagem democráticos. Os métodos pedagógicos que envolvem ação podem ser vistos mais como um paradigma do que como um conjunto de métodos (NORTON, 2008) eles dão aos alunos um grau maior de controle sobre seu próprio aprendizado e fornecem uma base para uma tomada de decisões responsável. Em termos do papel do professor, sugere-se aqui que o professor que combina métodos de ação com uma abordagem baseada em teoria crítica é semelhante à classificação de intelectual orgânico de Gramsci. O objetivo é permitir que as pessoas vejam o mundo de uma nova maneira, por meio de uma participação ativa na vida prática (GRAMSCI, 1971). Como Huckle observou (1996), tal processo torna-se um questionamento crítico em seu próprio direito. Ele permite-nos explorar as complexidades e consequências da sustentabilidade, levando em consideração as forças econômicas, políticas, culturais, técnicas, sociais e ambientais que promovem ou impedem seus objetivos. Obviamente, o problema não é somente o currículo dos estudos de administração: a dificuldade de se introduzir uma agenda crítica de sustentabilidade é consideravelmente maior. Talvez espere-se que o setor de educação superior, enquanto espaço de conscientização e de crítica da sociedade, assuma o papel de liderança no discurso sobre negócios e sustentabilidade. No entanto, já se salientou que grande parte dessa liderança é cedida a poderosas organizações empresariais em virtude da mudança de rumos cada vez mais reducionista da agenda do ensino superior, caracterizada por competição e valores ditados pelo mercado (ver, por exemplo, CAPRA, 1983; TRAINER, 1990; ORR, 1992; HUCKLE, 1996; COLLINI, 2003). Um resultado disso é a comercialização e comoditização do ensino superior que Slaughter e Rhoades (2004), ao revisarem as mudanças nas universidades dos Estados Unidos, identificaram como capitalismo acadêmico. No Reino Unido, o relatório do Higher Education Funding Council for England [Conselho de Financiamento de Educação Superior do Reino Unido] (HEFCE,

20 10 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE NAS ESCOLAS DE ADMINISTRAÇÃO 2008), o Browne Report on Higher Education and Student Finance [ Relatório Browne sobre Educação Superior e Financiamento Estudantil] (2010) e o relatório Higher Education: Students at the Heart of the System [Ensino Superior: Estudantes no Cerne do Sistema] (2011) destacam o crescente controle burocrático do ensino superior, que é visto como um mercado em que a demanda do consumidor (e também os requisitos dos negócios) será soberana (COLLINI, 2010; MCKIBBIN, 2010; COLLINI 2011). Essas tendências não incentivam uma perspectiva crítica nem um foco em sustentabilidade. Entretanto, demonstram a necessidade de os acadêmicos de diferentes disciplinas trabalharem mais proximamente mesmo enquanto são levados para silos disciplinares concorrentes para desenvolverem abordagens interdisciplinares críticas à pesquisa e ao ensino da sustentabilidade. Da teoria à práxis Essas são algumas das implicações ontológicas e epistemológicas de uma teorização crítica do ensino de sustentabilidade nos currículos de estudos de administração que foi adotada em dois cursos de pós-graduação que desenvolvi e ministrei. Aqui, focam-se a práxis e as escolhas pedagógicas feitas para estimular a autorrealização dos estudantes. Meu foco é o curso condensado de dois dias que ensinei na Universidade de Hong Kong, de 2005 a Para envolver os alunos no debate sobre negócios e sustentabilidade, são preferíveis métodos de ação, pois eles permitem uma aprendizagem experiencial e ajudam a criar contextos de ensino democráticos. Como foi observado, a abordagem dos métodos de ensino baseados na ação pode ser considerada um paradigma para o ensino e a aprendizagem em vez de um mero conjunto de estratégias de sala de aula. Ao mesmo tempo, após vivenciar uma gama de métodos de ação voltados à tomada de decisões e à aprendizagem experiencial, tanto os estudantes quanto os professores tornam-se mais competentes na exploração de questões, bem como no esclarecimento e solução de problemas. Estudantes passam a ter maior grau de controle sobre o próprio aprendizado e uma base para uma tomada de decisões responsável. As idades dos alunos do segundo curso variavam de 20 e poucos anos a 50 e poucos anos; alguns já eram gerentes intermediários ou seniores de empresas. Participar da tomada de decisões a respeito da própria aprendizagem, portanto, tem sido bem recebido. O conteúdo do currículo do curso começa e termina com valores os alunos esclarecem quais são seus próprios valores, compreendendo as mudanças de valores e visões de mundo que levaram ao dilema da sustentabilidade, e os valores que possibilitam a concepção de um futuro mais sustentável para poder abordar a crise. A perspectiva crítica é empregada com o propósito de incitar a capacidade dos estudantes de fazer um questionamento crítico, e

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