UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS. Francine Freitas Fernandes

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS Francine Freitas Fernandes IMPLANTAÇÃO DE UM CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NO MUNICÍPIO DE CAXAMBU-MG COM SETOR DE ATENÇÃO FARMACÊUTICA Alfenas MG 2006

2 Francine Freitas Fernandes IMPLANTAÇÃO DE UM CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NO MUNICÍPIO DE CAXAMBU-MG COM SETOR DE ATENÇÃO FARMACÊUTICA Monografia apresentada ao Curso de Especialização Lato Sensu em Atenção Farmacêutica da Universidade Federal de Alfenas como parte dos requisitos para conclusão de curso. Orientador: Luciene Alves Moreira Marques. Alfenas MG 2006

3 Ao Antônio Marcos, meu grande amor e companheiro, que sempre me incentivou a buscar o que acredito. Aos que padecem das enfermidades da mente, que um dia possam ser compreendidos e tratados com a dignidade que merecem.

4 AGRADECIMENTOS Aos funcionários e pacientes do CAPS de Alfenas que tão carinhosamente me receberam, durante um período, a fim de que eu pudesse conhecer e compreender o trabalho realizado. À Secretaria Municipal de Saúde de Caxambu, nas pessoas do Secretário de Saúde, Paulo César Carvalho Fernandes, que autorizou o levantamento dos dados necessários, e Maria Bernadete Bortoni de Souza que tão prontamente disponibilizou as informações que possibilitaram a realização deste trabalho. Às farmacêuticas do município, Nicolle e Ana Cristina, que cederam as informações acerca dos medicamentos da UAF e Farmácia Básica. Ao Departamento Pessoal, Secretaria de Obras, Serviço de Controle, Avaliação e Auditorias da Prefeitura Municipal de Caxambu que também contribuíram com informações relevantes. A todos os funcionários da Prefeitura Municipal de Caxambu que contribuíram de maneira direta ou indireta para que este trabalho fosse possível.

5 É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática. Paulo Freire.

6 SUMÁRIO RESUMO 1. INTRODUÇÃO A ATENÇÃO FARMACÊUTICA NO CAPS O Centro de Atenção Psicossocial A Atenção Farmacêutica Atenção Farmacêutica em Patologias Psiquiátricas Aspectos Gerais Patologias psiquiátricas Esquizofrenia Depressão Transtorno Bipolar Alzheimer e outras doenças MATERIAL E MÉTODO O município de Caxambu O CAPS a ser implantado RESULTADOS E DISCUSSÃO CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...47

7 RESUMO Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são os dispositivos estratégicos do movimento de Reforma Psiquiátrica que consiste no progressivo deslocamento do centro do cuidado para fora do hospital. Propõe-se a implantação de um CAPS I no município de Caxambu - MG, pois este não possui nenhum programa de acompanhamento aos pacientes com transtornos psiquiátricos apesar de dispensar uma grande quantidade de medicamentos destinados a estes beneficiários. O CAPS proposto apresenta como diferencial um Setor de Atenção Farmacêutica. A prática da Atenção Farmacêutica constitui a solução para evitar a utilização inadequada dos medicamentos por parte dos pacientes e garantir a efetividade e segurança da farmacoterapia. A prática da Atenção Farmacêutica direcionada aos pacientes com enfermidades psiquiátricas como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, Alzheimer e outras doenças, pode trazer inúmeros benefícios tanto para os enfermos quanto para os seus familiares e/ou cuidadores. Os custos quanto aos recursos humanos, ao espaço físico e aos equipamentos necessários para a implantação do CAPS foram avaliados e apresentados. Observa-se que os custos necessários podem ser viabilizados e que são irrelevantes ao se considerar as mudanças que tal empreendimento pode provocar tanto nos pacientes quanto na saúde pública municipal. A importância do farmacêutico fica comprovada dentro do CAPS, uma vez que este profissional contribui com a adesão ao tratamento, orienta os familiares e é o responsável pelo acompanhamento da farmacoterapia do paciente psiquiátrico.

8 1. INTRODUÇÃO A doença mental, objeto construído há duzentos anos, implicava o pressuposto de erro da Razão. Assim, o alienado não tinha a possibilidade de gozar da Razão plena e, portanto, da liberdade de escolha. Neste contexto surge o asilo alienista ao qual era devotada a tarefa de isolar os alienados do meio ao qual se atribuía a causalidade da alienação para, por meio do tratamento moral, restituir-lhes a Razão, portanto, a Liberdade. Entretanto, o asilo, lugar da liberação dos alienados, transformou-se no maior e mais violento espaço da exclusão, de sonegação e mortificação das subjetividades (AMARANTE, 1995). Essa conduta que prescrevia o asilamento sofreu alterações ao longo do tempo. É a partir da Segunda Guerra Mundial que a desospitalização surge como elemento de assistência psiquiátrica e desencadeou, em vários países, um processo de construção de uma nova política de saúde mental (MACHADO et al, 2005). Nas décadas de 50 e 60 o Brasil vivia sob regime dos governos militares e este período foi marcado por uma política de privatização dos hospitais psiquiátricos e um movimento de internação indiscriminada, que foi caracterizado como indústria da loucura (MACHADO et al, 2005). Somente em 1978, no contexto da redemocratização, surge no Rio de Janeiro, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental. Este movimento constrói um pensamento crítico no campo da saúde mental que permite visualizar uma possibilidade de inversão desse modelo a partir do conceito de desinstitucionalização. Este conceito significa tratar o sujeito em sua existência e em relação com suas condições concretas de vida. Isso significa não lhe

9 administrar apenas fármacos ou psicoterapias, mas construir possibilidades (AMARANTE, 1995). Em dezembro de 1987, no encontro dos trabalhadores em saúde mental, em Bauru, surge uma nova e fundamental estratégia. O movimento amplia-se no sentido de ultrapassar sua natureza exclusivamente técnico-científica, tornando-se um movimento social pelas transformações no campo da saúde mental (AMARANTE, 1995). Assim, as novas políticas de saúde mental impulsionaram, embora de forma localizada, os tradicionais serviços de assistência psiquiátrica a acompanhar os modelos técnicos e teóricos propostos mundialmente. A partir de então, a preocupação em impedir novas cronificações e o trabalho de reabilitação social passaram a orientar o atendimento nesses serviços (MACHADO et al, 2005). É neste contexto, de busca pela melhoria da assistência aos portadores de transtornos mentais no Brasil, que surgem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O primeiro CAPS do Brasil foi inaugurado em março de 1986, na cidade de São Paulo (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). O CAPS é um serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). É um lugar de referência e tratamento para pessoas que sofrem de transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Os CAPS e outros tipos de serviços substitutivos que têm surgido no país são atualmente regulamentados pela Portaria nº 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002 e integram a rede do Sistema Único de Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004).

10 Este novo cenário, ainda em construção, apresenta os transtornos mentais como agravos prevalentes na população brasileira em grande parte do território (SILVEIRA et al, 2003). A extensão de cuidados de saúde mental às populações é uma tendência verificada nas políticas de saúde de diversos países e refletem os esforços que têm sido implementados para a promoção de tratamentos humanizados, compromissados com direitos humanos e com as necessidades das comunidades em seus diferentes contextos (SILVEIRA et al, 2003). O município ao qual se propõe a implantação de um Centro de Atenção Psicossocial, Caxambu Minas Gerais, possui uma população estimada em 01/07/2005 de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao índice de desenvolvimento humano (IDH), segundo a Prefeitura Municipal, está situado na 50ª posição entre os 852 municípios de Minas Gerais. Caxambu possui quatro estabelecimentos de saúde públicos sendo uma Policlínica, uma unidade de Vigilância Sanitária, uma unidade de Saúde da Família e um Ambulatório de Unidade Hospitalar Geral que disponibiliza 58 leitos ao SUS. O município conta também com a Unidade de Assistência Farmacêutica (UAF) e desenvolve todos os programas propostos pelo Ministério da Saúde dentro da Atenção Básica, segundo afirmação da secretaria de saúde. Entretanto, não possui nenhuma ação destinada à saúde mental, além da medicação dispensada aos portadores de transtornos mentais e das viagens de encaminhamento destes aos Hospitais psiquiátricos da região. O CAPS que se propõe implantar neste município apresentará como diferencial um setor de Atenção Farmacêutica. Assim, a presença do farmacêutico passará a ser obrigatória

11 dentro deste modelo, uma vez que, a equipe de profissionais preconizada pelo Ministério da Saúde para desenvolver esse tipo de assistência não o contém. Segundo o Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica, esta consiste em um modelo de prática farmacêutica, desenvolvida no contexto da Assistência Farmacêutica. Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e coresponsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a integração direta do farmacêutico com o usuário, visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados definidos e mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções dos seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades bio-psico-sociais, sob a ótica da integralidade das ações de saúde (IVAMA et al., 2002). Embora existam diferenças fundamentais nos sistemas de prestação e atenção sanitária entre os países, o conceito de Atenção Farmacêutica é considerado aplicável a todos eles mesmo levando em consideração diferenças como a situação socioeconômica (OMS, 1999). O futuro da Farmácia Psiquiátrica é incentivador e promissor, se levarmos em consideração que a Organização Mundial da Saúde, em 1996, declarou que o problema dos transtornos psiquiátricos tem sido subestimado e que cinco das 10 causas que mais causam incapacidades no mundo são: depressão, abuso de álcool, transtorno bipolar, esquizofrenia e transtorno obsessivo compulsivo (FRIDMAN, 2001). O farmacêutico não pode e não deve ficar à margem da farmácia psiquiátrica, deve estar preparado para enfrentá-la com a quantidade de conhecimentos necessários para melhorar a qualidade de vida destes pacientes (FRIDMAN, 2001).

12 Levando em consideração os distintos perfis das patologias psiquiátricas, o conselho farmacêutico é dirigido não apenas ao paciente, mas principalmente aos familiares deste (FRIDMAN & FILINGER, 2002). 2. A ATENÇÃO FARMACÊUTICA NO CAPS 2.1. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Os CAPS são instituições destinadas a acolher os pacientes com transtornos mentais, estimular sua integração social e familiar, apoiá-los em suas iniciativas de busca da autonomia, oferecer-lhes atendimento médico e psicológico. Sua característica principal é buscar integrá-los a um ambiente social e cultural concreto (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). O objetivo do CAPS é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercícios dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Os CAPS visam prestar atendimento em regime de atenção diária; gerenciar os projetos terapêuticos oferecendo cuidado clínico eficiente e personalizado; promover a inserção social dos usuários através de ações intersetoriais que envolvam educação, trabalho,

13 esporte, cultura e lazer, montando estratégias conjuntas de enfrentamento dos problemas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). As pessoas atendidas pelo CAPS são aquelas com transtornos mentais severos e/ou persistentes, ou seja, pessoas com grave comprometimento psíquico, incluindo os transtornos relacionados às substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e também crianças e adolescentes com transtornos mentais (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Os usuários dos CAPS podem ter tido uma longa história de internações psiquiátricas, podem nunca ter sido internados ou podem já ter sido atendidos em outros serviços de saúde. O importante é que essas pessoas saibam que podem ser atendidas e saibam o que são e o que fazem os CAPS (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Quando uma pessoa é atendida em um CAPS, ela tem acesso a vários recursos terapêuticos, como: Atendimento individual, atendimento em grupo, atendimento para a família, atividades comunitárias, assembléias ou reuniões de organização do serviço (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Estar em tratamento no CAPS não significa que o usuário tem que ficar a maior parte do tempo dentro dele. As atividades podem ser desenvolvidas fora do serviço, como parte de uma estratégia terapêutica de reabilitação psicossocial, que poderia iniciar-se ou ser articulada pelo CAPS, mas que se realizará na comunidade, no trabalho e na vida social. Assim, o CAPS pode articular cuidado clínico e programa de reabilitação psicossocial (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004) A Atenção Farmacêutica

14 A Atenção Farmacêutica é um conceito de prática profissional em que o paciente é o principal beneficiário das ações do farmacêutico. Esta prática compreende as atitudes, os comportamentos, os compromissos, as inquietudes, os valores éticos, as funções, os conhecimentos, as responsabilidades e as destrezas do farmacêutico na provisão da farmacoterapia com o objetivo de obter resultados terapêuticos definidos na saúde e na qualidade de vida do paciente (OMS, 1993). Para que a Atenção Farmacêutica seja praticada é necessário estabelecer uma relação entre o farmacêutico e o paciente, que permita um trabalho em comum com o objetivo de prevenir, identificar e resolver os problemas que possam surgir durante o tratamento farmacológico desses pacientes (FAUS, 1999). A Atenção Farmacêutica não é praticada independente de outros serviços assistenciais, mas em colaboração com os médicos, o pessoal da enfermagem e outros dispensadores de atenção sanitária (OMS, 1993). O método de trabalho em equipe é vital para que se obtenha um rendimento ótimo de recursos limitados, tanto humanos como financeiros, para atender as necessidades assistenciais de qualquer país (OMS, 1993). O objetivo da Atenção Farmacêutica com relação ao paciente é a resolução ou melhora de seu problema de saúde, para o qual em muitas ocasiões o trabalho do farmacêutico deverá integrar-se com o do médico que trata este paciente, a fim de complementar e ajudar no propósito de superar o problema de saúde (FAUS, 1999).

15 Existem várias ações que configuram a prática da Atenção Farmacêutica aos pacientes, ao serem aplicadas em sua totalidade ou em parte, essas ações vão contribuir, provavelmente, ao uso seguro e mais econômico dos medicamentos produzindo resultados positivos e uma melhora na atenção a saúde (OMS, 1993). Os elementos constitutivos da prática da Atenção Farmacêutica, segundo Ivama et al. (2002), são: 1. Educação em saúde (incluindo promoção do uso racional de medicamentos); 2. Orientação farmacêutica; 3. Dispensação; 4. Atendimento Farmacêutico; 5. Acompanhamento/seguimento farmacoterapêutico; 6. Registro sistemático das atividades, mensuração e avaliação dos resultados. Termos e conceitos relacionados à prática da Atenção Farmacêutica foram propostos no Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica, assim como esclarecimentos quanto ao seu entendimento e aplicação (IVAMA et al., 2002). Segundo IVAMA et al. (2002), problema relacionado com medicamento (PRM) é um problema de saúde, relacionado ou suspeito de estar relacionado à farmacoterapia, que interfere ou pode interferir nos resultados terapêuticos e na qualidade de vida do usuário. O PRM é real, quando manifestado, ou potencial na possibilidade de sua ocorrência. A identificação de PRMs segue os princípios de necessidade, efetividade e segurança, próprios da farmacoterapia (IVAMA et al., 2002). O Acompanhamento/seguimento farmacoterapêutico configura um processo no qual o farmacêutico se responsabiliza pelas necessidades do usuário relacionadas ao medicamento, por meio da detecção, prevenção e resolução de PRMs, de forma sistemática, contínua e documentada, com o objetivo de alcançar resultados definidos, buscando a melhoria da qualidade de vida do usuário (IVAMA et al.,2002).

16 A promoção da saúde também é componente da Atenção Farmacêutica e ao fazer o acompanhamento é imprescindível que se faça também à promoção. Entende-se por resultado definido a cura, o controle ou o retardamento de uma enfermidade, compreendendo os aspectos referentes à efetividade e à segurança (IVAMA et al., 2002). O Atendimento Farmacêutico é o ato em que o farmacêutico, fundamentado em sua práxis, interage e responde às demandas dos usuários de sistema de saúde, buscando a resolução de problemas de saúde, que envolvam ou não o uso de medicamentos. Este processo pode compreender escuta ativa, identificação de necessidades, análise da situação, tomada de decisões, definição de condutas, documentação e avaliação, entre outros. O Atendimento Farmacêutico é mais amplo e pode ou não gerar uma intervenção farmacêutica (IVAMA et al., 2002). A Intervenção Farmacêutica é um ato planejado, documentado e realizado junto ao usuário e profissionais de saúde, que visa resolver ou prevenir problemas que interferem ou podem interferir na farmacoterapia, sendo parte integrante do processo de acompanhamento/seguimento farmacoterapêutico (IVAMA et al., 2002). A Atenção Farmacêutica é uma das entradas do sistema de Farmacovigilância, ao identificar e avaliar problemas/riscos relacionados à segurança, efetividade e desvios da qualidade de medicamentos, por meio do acompanhamento/seguimento farmacoterapêutico ou outros componentes da Atenção Farmacêutica. Isto inclui a documentação e a avaliação dos resultados, gerando notificações e novos dados para o Sistema, por meio de estudos complementares (IVAMA et al., 2002). O ato de dispensação dos medicamentos pelo farmacêutico é de fundamental importância para a saúde e para a vida do paciente, pois caso não ocorra uma Atenção

17 Farmacêutica adequada, todas as dúvidas a respeito da medicação serão transferidas ao tratamento (FRIDMAN & FILINGER, 2002). As responsabilidades do farmacêutico, somente no que diz respeito à terapia com medicamentos, pode-se dizer que são: garantir a aquisição segura dos medicamentos, assim como seu adequado armazenamento; prover informações ao paciente; revisar as receitas a fim de identificar reações adversas a medicamentos (RAM), reações alérgicas, contra-indicações, interações prejudiciais; contribuir com a elaboração e revisão dos planos terapêuticos em colaboração com os médicos e outros profissionais da saúde; considerar, a pedido do paciente, os problemas relacionados com os medicamentos e as inquietudes que este tenha a respeito; assessorar ao paciente a respeito da seleção e uso de medicamentos de venda livre; informar as RAMs detectadas as autoridades sanitárias; prover e compartilhar informações e assessoramento relacionados com medicamentos; manter um alto nível de conhecimento sobre as terapias medicamentosas (FRIDMAN, 2001). Reconhece-se que existem diferenças fundamentais nos sistemas de prestação de atenção sanitária entre os diversos países. Entretanto, considera-se que o conceito de Atenção Farmacêutica é aplicável a todos os países apesar das diferenças de desenvolvimento socioeconômico (OMS, 1993). Uma farmacoterapia apropriada permite obter uma atenção à saúde segura e econômica, por outro lado, o uso inadequado de fármacos tem importantes conseqüências tanto para os pacientes como para a sociedade em geral. É necessário assegurar uma utilização racional e econômica dos medicamentos em todos os países, independente do seu nível de desenvolvimento. Os farmacêuticos têm um papel fundamental a desempenhar no que se refere a atender as necessidades dos indivíduos e da sociedade a este respeito (OMS, 1993).

18 A maioria das falhas na farmacoterapia pode ser atribuída a uma má utilização dos medicamentos por parte dos pacientes. A solução para este importante problema é a implantação de programas de Atenção Farmacêutica, com o objetivo de assegurar uma farmacoterapia apropriada, segura e efetiva para todos os pacientes (FAUS, 1999) Atenção Farmacêutica em Patologias Psiquiátricas Aspectos gerais A implantação de um programa de Atenção Farmacêutica em pacientes psiquiátricos implica em gerar uma boa relação interdisciplinar entre o médico prescritor e o farmacêutico dispensador (FRIDMAN & FILINGER, 2002). A interdisciplinaridade, neste caso, é a colaboração entre os profissionais da equipe de saúde, respeitando cada um os limites de sua profissão (FRIDMAN & FILINGER, 2002). O farmacêutico é um profissional com amplos conhecimentos farmacológicos e farmacotécnicos, capacitado para manejar o atual arsenal terapêutico e informar sobre a potência de novas drogas e, por sua vez, relacionar-se com o médico de igual para igual (FRIDMAN & FILINGER, 2002). Assim, há a necessidade de uma estreita colaboração entre os profissionais da área de saúde, uma vez que nenhum possui a universalidade de todos os conhecimentos, e cada profissional é especialista em uma área de sua profissão (FRIDMAN & FILINGER, 2002).

19 As enfermidades psiquiátricas estão em primeiro lugar entre os transtornos aos quais resulta uma abordagem particularmente complexa na ausência de uma participação integrada (CARRANZA, 2001 apud FRIDMAN & FILINGER, 2002). Na Psiquiatria, a interdisciplinaridade é uma necessidade inquestionável, devido à existência de tantos fatores inespecíficos que podem conspirar contra o tratamento. Assim, esta prática melhorará indiscutivelmente a saúde e a qualidade de vida do paciente (FRIDMAN & FILINGER, 2002). Segundo Fridman & Filinger (2002), a interação médico-farmacêutico frente aos pacientes psiquiátricos deve basear-se em alguns pontos como: 1- Comunicação profissional-paciente-familiares: As palavras esquizofrênico ou paranóico, não são bem aceitas culturalmente pela sociedade, por isso os médicos especialistas as utilizam com cuidado, e a falta de coordenação com o profissional farmacêutico pode interferir no cumprimento da terapia. 2- Medicação: Cuidar das interações juntamente com os efeitos colaterais, neste ponto é dever de ambos profissionais desmistificar o poder do comprimido salvador que tantos problemas ocasionam. 3- Troca ou ajuste na medicação: Este tema é crítico nestes pacientes. Ao existir qualquer problema, por exemplo, medicamentos que saíram do mercado ou mudança na cor de comprimidos ou cápsulas, o médico deve ser comunicado para que fale com o paciente a fim de evitar dúvidas e desconfianças que podem surgir. 4- Reuniões científicas: É aconselhável realizar encontros entre os profissionais da saúde, a fim de buscar temas de estudo, discutir a atenção de cada paciente do ponto de vista

20 de cada uma das profissões, obtendo conclusões concretas, fixando parâmetros de abordagem terapêutica e educando sobre as incumbências e limites de cada profissão. Hoje em dia é inconcebível o trabalho isolado nas ciências da saúde. A Atenção Farmacêutica deve ser integrada a equipe básica da saúde se pretende ser assistencial. Trabalhar em equipe resultará em benefício não apenas ao paciente, mas também a todas as profissões individuais (FRIDMAN & FILINGER, 2002). A Atenção Farmacêutica aos pacientes com problemas neuropsiquiátricos deve enfocar os seguintes aspectos concretos, segundo Fridman (2001): 1. RAMs freqüentes: Como os efeitos extrapiramidais produzidos por muitos fármacos, dano neurológico produzido por benzodiazepínicos, taquicardias com o uso de psicoestimulantes, efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, retenção líquida, visão borrada, etc.), aumento de peso por uso de antipsicóticos, etc. 2. Enfermidades concomitantes: Cardiopatias, hipo e hipertireoidismo, gripe, problemas gastrointestinais, certas interações como: potenciação do efeito tóxico de Digoxina com Diazepam, diminuição da absorção de Benzodiazepínicos (BZD) com antiácidos orais (distanciar as administrações), potenciação do efeito hipoglicemiante dos Hipoglicemiantes orais e Insulina por IMAOs (Inibidores da Monoaminoxidase), risco de arritmias do Lítio com Verapamil, diminuição da ação de Levodopa com Clonidina, etc. 3. Cumprimento dos Tratamentos: Advertir sobre efeitos colaterais, sobre a cronicidade do mesmo, levar ao conhecimento de familiares e/ou pessoas encarregadas, etc. 4. Interações Medicamentosas: Uso concomitante de IMAOs e Tricíclicos (causa delírio, coma e convulsões); uso de preparados homeopáticos para emagrecer; aceleração

21 do metabolismo hepático por Barbitúricos; diminuição do metabolismo hepático de Barbitúricos por IMAOs com o aumento de sua toxicidade; uso de Fluoxetina ou Fluvoxamina (inibidores altamente seletivos de serotonina) com Triptofano; Lítio ou IMAOs podem produzir síndrome serotoninérgica caracterizada por hipertermia, tremor e convulsões; Fenitoína (cuidado com quase toda a medicação); o Diazepam diminui o efeito de certas drogas antiparkinsonianas (L-Dopa); sinergismo de Benzodiazepínicos com outros depressores do SNC, etc. 5. Cuidados específicos: Uso de álcool, tabaco e infusões psicoestimulantes (café, chá, mate, diminuem a eficácia de drogas como Lítio e Haloperidol). Dietas: Do queijo com IMAOs; para diminuir ou eliminar alguns sintomas desagradáveis como a constipação ou secura bucal; aumento da excreção renal de Lítio com sais de sódio; aumento da biodisponibilidade do Lítio com a alimentação; diminuição da absorção de Levodopa com alimentos protéicos, etc. 6. Grupos de Risco: Gravidez, Lactentes, Idosos, Crianças, etc. 7. Uso de medicamentos de Venda Livre. 8. Monitoramento e Seguimento: Existem várias formas de realizá-lo, perguntas aos médicos que os tratam, aos familiares do enfermo, utilizar os testes diagnósticos padronizados para as distintas patologias ou utilizar valores de laboratórios que embora sejam muito onerosos são válidos. 9. Fatores Farmacotécnicos: Necessidades de trocar a via de administração, a forma farmacêutica, impossibilidade de preparação de certa forma farmacêutica, etc. 10. Educação.

22 Devido ao fato do farmacêutico não estar habilitado a prescrever medicamentos, a conduta adequada frente a um caso de problemas psiquiátricos e/ou neurológicos é recorrer ao médico com a maior rapidez possível (FRIDMAN, 2001). Assim, os objetivos que devem ser alcançados com a Atenção Farmacêutica a este tipo de paciente estão orientados na melhora da qualidade de vida do mesmo. Para isso é fundamental: detectar e informar os PRMs; melhorar a colaboração com o médico; observar e analisar as possíveis complicações das diferentes patologias neuropsiquiátricas; enfatizar ao paciente tudo aquilo que irá melhorar a eficácia do tratamento (FRIDMAN, 2001). Um objetivo fundamental da Atenção Farmacêutica é promover o Cumprimento Terapêutico ou conseguir que o paciente se ajuste ao plano de tratamento estabelecido. A importância deste conceito é óbvia, pois de nada servirá o diagnóstico correto junto a um plano terapêutico bem desenhado, se o paciente não cumpri-lo. Além do que, o farmacêutico é geralmente o último profissional sanitário que está em contato com o paciente ou seus familiares antes de se iniciar o tratamento (NIETO & MANRIQUE, 2005). É importante que o paciente e/ou seus familiares entendam a natureza da enfermidade e que saibam o que devem esperar dos medicamentos; muitos enfermos que tomam antidepressivos manifestam a atitude de suspender o tratamento porque não têm conhecimento dos efeitos adversos que podem aparecer ou não são informados de que podem transcorrer algumas semanas antes que apareça alguma melhora (NIETO & MANRIQUE, 2005). As causas de mau cumprimento do tratamento são variadas; em princípio, fatores como viver sozinho, situação socioeconômica baixa, regime posológico complexo, atitude negativa do enfermo diante de sua patologia e seu tratamento são as principais condições de cumprimento errado do tratamento (FRIDMAN, 2001).

23 Outros fatores influenciam o cumprimento do tratamento como a relação entre o enfermo e o pessoal de saúde, e o grau de educação sanitária que eles recebem (FRIDMAN, 2001). Segundo Fridman (2001), para melhorar o cumprimento do tratamento algumas atitudes devem ser tomadas: - É recomendável que o paciente conheça e compreenda a importância do cumprimento do tratamento e as vantagens que representam para ele e para a sociedade. - É importante que o paciente conheça o prognóstico de sua enfermidade e os efeitos benéficos e colaterais que podem apresentar a administração do medicamento. - A boa relação profissional entre paciente, farmacêutico e outros profissionais da equipe de saúde, é uma excelente ferramenta de trabalho para favorecer o cumprimento dos tratamentos. - Devem ser feitos esquemas terapêuticos adequados aos hábitos de vida do paciente, sobretudo em pacientes polimedicados. A utilização de novos fármacos que permitem menos doses ou outras formas de administração faz com que os pacientes cumpram melhor o tratamento; assim, as formas parenterais dos fármacos aos esquizofrênicos e aos que apresentam transtornos bipolares tem permitido obter um melhor cumprimento terapêutico (NIETO & MANRIQUE, 2005). É importante avisar ao paciente sobre a melhoria sintomática e a necessidade de continuar o tratamento mesmo que os sintomas tenham cessado. Muitos pacientes afirmam desconhecer o fato de que teriam que voltar ao tratamento posteriormente (NIETO & MANRIQUE, 2005).

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