Análise Gráfica de Rótulos de Vinho

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1 Análise Gráfica de Rótulos de Vinhos Análise Gráfica de Rótulos de Vinho Visual Analysis of Wine Labels Ranzolin, Michele; Universidade de Caxias do Sul Vieceli, Liliane; Universidade de Caxias do Sul Marx, Ângela Maria; Ms; Universidade de Caxias do Sul Resumo Um rótulo bem elaborado é fundamental para o sucesso comercial de um produto, revelando suas características e promovendo diferenciação no ponto de venda. Este estudo apresenta uma análise dos rótulos de três vinhos produzidos na Serra Gaúcha, com o objetivo de verificar suas características visuais, especialmente em relação aos conceitos de harmonia, contraste e equilíbrio visual. A análise demonstra que os rótulos analisados apresentam alguns problemas gráfico-formais que poderiam ser evitados com o adequado emprego de técnicas de composição visual. Palavras Chave: análise gráfica; rótulos de vinhos e composição visual. Abstract The label is important to the commercial success of a product, as it reveals its characteristics and promotes differentiation at point of sale. This study presents an analysis of the labels of three wines, with the objective of verify their visual characteristics, particularly in relation to harmony, contrast and balance. The results show that the analyzed labels have some visual problems that could be avoided with appropriate use of visual composition techniques. Keywords: visual analysis; wine labels and visual composition.

2 Análise Gráfica de Rótulos de Vinho INTRODUÇÃO A Serra Gaúcha apresenta um grande número de vinícolas, sendo a cidade de Bento Gonçalves considerada a capital nacional do vinho. Essa diversidade de produtores resulta em uma grande variedade de vinhos, cuja diferenciação nos pontos de venda deve-se, em grande parte, a seus rótulos. Considerando a importância dos rótulos para a correta caracterização dos produtos e diferenciação no mercado, este trabalho apresenta uma análise das características gráficoformais de três rótulos de vinhos. REFERENCIAL TEÓRICO A harmonia, o contraste e o equilíbrio são conceitos fundamentais na composição visual. Segundo Dôndis (2003), a harmonia é uma condição que o ser humano busca, como uma necessidade natural de ordenar os estímulos percebidos. Uma disposição harmônica é aquela que apresenta integração e coerência formal articuladas com perfeição, no todo ou nas partes que o formam. Para Gomes Filho (2003), os fatores de equilíbrio, ordem e regularidade permitem uma leitura simples e clara, que por esta razão se tornam predominantes para uma composição ser harmônica. Quanto ao contraste, Wong (2001) e Gomes Filho (2003) consideram-no uma importante técnica visual que realça a visibilidade e age como uma contra-força ao equilíbrio absoluto. O contraste pode se apresentar por meio de luz e tom, cor, verticalidade versus horizontalidade, movimento, dinamismo, ritmo, passividade, proporção, escala e agudeza (DÔNDIS, 2003; GOMES FILHO, 2003; LUPTON; PHILLIPS, 2008). Dôndis (2003) caracteriza o equilíbrio como sendo a influência mais importante, tanto física quanto psicológica, sobre a percepção humana. Gomes Filho (2003) apresenta uma definição física do equilíbrio como sendo o estado em que forças se compensam mutuamente, como duas forças iguais em resistência mas em direções opostas. Assim, o equilíbrio pode ser obtido por meio de variações de peso, simetria e assimetria (DÔNDIS, 2003). METODOLOGIA Para este estudo, três rótulos de vinho produzidos na Serra Gaúcha são selecionados para análise, denominados Rótulo 1, Rótulo 2 e Rótulo 3. A escolha desses produtos justifica-se exclusivamente por apresentarem rótulos com formatos diferenciados. Os rótulos selecionados são analisados individualmente, de acordo com os conceitos de harmonia, contraste e equilíbrio apresentados no referencial teórico. Em seguida os resultados são graficamente comparados e as conclusões apresentadas. ANÁLISE DOS RÓTULOS DE VINHOS A seguir, são apresentadas as avaliações individuais dos rótulos dos vinhos, seguidas de uma comparação dos principais resultados. Rótulo 1 O Rótulo 1 (Figura 1) apresenta cantos arredondados, duas reentrâncias nos cantos superiores, e um semi-círculo ao centro da borda superior, onde está localizada a marca do vinho, em uma elipse amarela. Abaixo, encontra-se a especificação seguida pela marca do fabricante. Próxima à borda inferior está a indicação da região onde o vinho é produzido, destacada em um retângulo de cantos arredondados e borda vermelha, como a do rótulo.

3 Análise Gráfica de Rótulos de Vinhos Figura 1: Primeiro rótulo analisado, denominado Rótulo Ao fundo há um arabesco que remete à videira, e cujas cores estão em harmonia com as do logotipo. No entanto, há desarmonia nas cores do rótulo como um todo, pois os tons bege do fundo e da marca da vinícola sugerem refinamento e tradição, enquanto o vermelho das bordas e o amarelo da elipse são demasiado vivos, comprometendo a sobriedade e elegância esperada de um vinho fino. Os contrastes apresentam-se comprometidos também pelo efeito de luz e tom usado para a identificação da marca, pois o mesmo amarelo usado na elipse é aplicado ao nome do vinho, dificultando a legibilidade. Por outro lado, os arabescos transmitem movimento e ritmo, embora sejam um pouco conflitantes com as bordas vermelhas que circundam o rótulo. A composição apresenta um equilíbrio mediano, pois a marca do vinho localizada no topo tem peso superior ao da marca da indústria produtora e do destaque da Serra Gaúcha, utilizados para equilibrá-la. Informações específicas do produto, bem como o código de barras não interferem na composição, pois estão localizadas no verso da garrafa, em um rótulo secundário. Rótulo 2 O Rótulo 2 (Figura 2) apresenta uma curva iniciada no centro da lateral esquerda que segue até o canto superior direito, acompanhada por grafismos roxos e dourados, sendo o dourado rebatido diagonalmente para baixo, criando uma forma semelhante a uma folha, dentro da qual está o verde mais escuro. Entre as informações e o fundo, preenchido com dois tons de verde, estão as iniciais do nome do vinho trabalhadas como um arabesco. Não há uma hierarquia clara, mas excesso de informações e ausência de espaços de respiro que permitam descansar o olhar. O centro do rótulo é ocupado por um brasão, sobre o qual está o nome da linha de vinhos e, abaixo, o nome do fabricante. A verticalidade do rótulo cria a ilusão de alongamento da garrafa.

4 Análise Gráfica de Rótulos de Vinho Figura 2: Segundo rótulo analisado, denominado Rótulo 2 Os grafismos em dourado estão em harmonia com o texto também dourado e com o brasão. No entanto, esses elementos destoam do restante da composição, que apresenta outras três cores (dois tons de verde e branco) que contribuem para uma desarmonia interna. A utilização da cor roxa contribui, ainda, para uma desarmonia externa por se tratar de um vinho branco, e esta cor estar relacionada ao vinho tinto. Os três cantos pontiagudos do rótulo causam desconforto visual, pois contrastam negativamente com a curva do lado esquerdo e com os grafismos e fontes orgânicas. Há pouco contraste de claro-escuro entre o fundo e os textos e confusão no contraste entre vertical e horizontal, além uma interrupção diagonal representada pelos grafismos dourados. Estes, somados aos demais grafismos, à fonte manuscrita e a faca de corte conferem um bom contraste por movimento e ritmo. Próximo à borda inferior encontra-se ainda um último contraste de proporção entre o nome da marca, em um corpo maior e em fonte sóbria, e as informações logo abaixo em uma fonte orgânica em corpo reduzido. Encontra-se desequilíbrio de pesos na disposição das informações, em excesso em ambos os lados. A faca de corte reduz a área do rótulo, comprimindo as informações próximas a ela, região que concentra dois dos elementos de maior peso. O posicionamento dos textos e do código de barras próximos à base inferior não têm peso adequado para equilibrar esta composição, além de disputar o mesmo lugar na hierarquia, também comprometida pela disposição e aplicação de cores dos elementos. A assimetria causada pelo eixo diagonal criado pelo grafismo dourado e as extremidades curva de um lado e pontiaguda do outro, causa desequilíbrio pela mesma razão dos pesos. Rótulo 3 O Rótulo 3 (Figura 3) é caracterizado por cortes diagonais irregulares na parte superior e inferior, que lembram um papel rasgado. O nome do vinho está localizado em uma tarja preta mais larga que o restante do rótulo, em sua metade superior, destacando-se e atraindo a atenção para o nome, que se impõe como peça mais importante na hierarquia, seguido pela especificação do tipo de uva especial utilizado, e a região onde é produzido. As informações principais são destacadas pela mesma cor preta da tarja, enquanto as secundárias estão em um

5 Análise Gráfica de Rótulos de Vinhos tom de cinza. O fundo do rótulo é bege, e apresenta um mapa da região da Serra Gaúcha, com a cidade de Bento Gonçalves (onde se localiza a vinícola) no centro do rótulo. Informações adicionais são encontradas em um rótulo secundário, menor, no verso da garrafa. Figura 3: Terceiro rótulo analisado, denominado Rótulo 3 Os elementos gráficos, cores e fontes formam uma composição harmônica, sendo agradável à visão por não apresentar excesso de informação e uma mesma linguagem, transmitindo um aspecto elegante, sofisticado e ao mesmo tempo descontraído. A cor preta remete ao refinamento e à sofisticação, enquanto a fonte alongada, utilizada em caixa alta e sem serifas confere, ainda, certa descontração. A composição apresenta alto contraste interno entre a cor clara do fundo e a escura da tarja e letras das informações principais, e médio contraste entre o fundo e o cinza das informações secundárias. O fundo claro causa ainda um contraste externo atraente e harmônico com a garrafa escura. O rótulo verticalmente alongado, interrompido pela tarja horizontal, interfere positivamente no equilíbrio da composição, valorizando-a ao torná-la mais dinâmica. O equilíbrio é mantido pela disposição das informações na metade inferior, bem como pelas áreas de respiro, apesar dos elementos do mapa ao fundo. Comparação dos resultados A Tabela 1 apresenta os principais resultados das análises individuais previamente apresentadas, permitindo sua comparação.

6 Análise Gráfica de Rótulos de Vinho Tabela 1: Comparação dos resultados da análise dos rótulos de vinho RÓTULO 1 RÓTULO 2 RÓTULO 3 Harmonia Contraste Equilíbrio - Harmonia entre a marca do vinho e o fundo do rótulo - Desarmonia geral - Baixo contraste de luz e tom - Contraste médio de movimento - Desarmonia geral - Harmonia geral - Contraste inadequado entre elementos verticais, horizontais e diagonais - Contraste de movimento - Equilíbrio razoável por peso - Desequilíbrio por peso - Baixo equilíbrio por assimetria - Contraste adequado entre elementos verticais e horizontais - Contraste de cores - Bom equilíbrio de pesos CONCLUSÃO Os rótulos analisados neste estudo deveriam transmitir elegância, requinte e tradição, porém apenas o Rótulo 3 atinge este objetivo de forma satisfatória. Isso pode ser explicado, em parte, pela utilização dos fundamentos de harmonia, contraste e equilíbrio em sua composição. Os demais rótulos apresentam conflitos que causam desarmonia e desequilíbrio, não representando plenamente as características dos respectivos vinhos. A análise apresentada neste trabalho demonstra a importância do projeto gráfico, em especial da aplicação de técnicas visuais na composição de um rótulo de vinho. O rótulo de um vinho deve não apenas ser agradável aos olhos, mas também ser condizente com o conteúdo da garrafa, transmitindo uma sensação próxima àquela que o consumidor espera sentir ao provar o produto. Embora a pesquisa descritiva realizada neste trabalho se mostre importante para a avaliação de produtos gráficos, os resultados apresentados não devem ser considerados absolutos, uma vez que a análise se restringiu a uma avaliação gráfico-formal. Seria importante verificar se esses resultados são corroborados por uma pesquisa de percepção junto ao consumidor, uma vez que a experiência de uso de um produto pode ser mais relevante do que a sua aparência. No caso dos vinhos, a degustação do produto nas vinícolas ou em lojas especializadas, por exemplo, pode ter um papel mais relevante para o consumo do que outras características estéticas. Referências DONDIS, D.A. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, GOMES FILHO, J. Gestalt do Objeto: Sistema de Leitura Visual da Forma. São Paulo: Escrituras, LUPTON, E.; PHILLIPS, J.C. Novos Fundamentos do Design. São Paulo: Cosac Naify, WONG, W. Princípios de Forma e Desenho. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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