Projeto Qualidade de Vida CONCEITO DE QUALIDADE DE VIDA

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1 CONCEITO DE QUALIDADE DE VIDA Na antiguidade, Hipócrates e Galeno afirmavam que o equilíbrio sustenta um corpo saudável. (GORDON, 2002). A idéia de qualidade de vida é antiga, iniciou-se com Sócrates entre a.c., que acreditava que a felicidade vinha de levar uma boa vida, escolhendo entre o que é bom e ruim. Os filósofos pós-socráticos continuaram a preocupar-se em como ter uma vida com qualidade. Em 336 a 264 a.c. dividiram-se em grandes escolas, o Estoicismo e o Epicurismo. Zenão fundou o estoicismo que tina como raízes os ensinamentos de Sócrates e baseava-se numa vida virtuosa, vivida sem excessos físicos e emocionais. O epicurismo foi criado por Epicuro e também buscava melhorar a qualidade de vida, porém deferiam dos estóicos por acreditar que o prazer era bem maior, tinham uma vida simples e evitam qualquer tipo de dor. (WEATE, 1999). Epicteto seguidor do Estoicismo, que viveu no Império Romano entre 55 e 135 d.c., influenciou grandes pensadores com suas obras que buscam respostas de como viver uma vida com qualidade, tranqüilidade e sabedoria. Epicteto admitia que a vida cotidiana é repleta de dificuldades nos mais variados graus, e que a filosofia teria por função auxiliar as pessoas a enfrentarem positivamente seus desafios. Seus preceitos para uma vida de qualidade consistiam em: dominar os desejos, desempenhar as obrigações e aprender a pensar com clareza a respeito de si mesmo e de seu relacionamento com a comunidade; fundamentos da moderna psicologia de autogerência. (LEBELL, 2000). No século XVII Comênio já demonstrava a vinculação entre saúde, higiene e educação e o prolongamento da vida. Ressaltava os riscos decorrentes dos excessos cometidos contra corpo. Além de preocupações sobre como fazemos uso da vida. Atualmente o esforço não visa somente prolongar os anos de vida, mas vivê-la integralmente. (MOREIRA, 2001). O interesse nos conceitos padrão de vida e qualidade de vida é partilhado por ciências sociais, ciências humanas, biológicas e política, no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, diminuição da mortalidade ou aumento da expectativa de vida. (FLECK, 1999). Bullinger (citado por FLECK), considera que o termo qualidade de vida é mais geral e inclui uma variedade potencial maior de condições que podem afetar a percepção do indivíduo, seus sentimentos, comportamento e seu funcionamento diário, incluindo, mas não se limitando a sua condição de saúde e as intervenções médicas. Damineli (2000), afirma que qualidade de vida é um tema tão amplo, que qualquer opinião emitida a respeito está correta: todas as concepções dão conta da parte da verdade, mas nenhuma é tão abrangente que dê conta do todo. 1

2 Corroborando com essa idéia Moreira (2001), declara que a expressão Qualidade de Vida assume aos olhos de cada observador os contornos da sua sensibilidade, sua cultura, seus meios econômicos e frustrações. Lipp (2001), Entende por qualidade de vida o viver que é bom e compensador em pelo menos quatro áreas de abrangência: social, afetiva, profissional e a que se refere à saúde. Walton, citado por Rodrigues (1994), afirma que a expressão qualidade de vida descreve também valores ambientais e humanos, negligenciados pelas sociedades industriais em favor do avanço tecnológico, da produtividade e do crescimento econômico. A constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1946 tentou estabelecer os códigos éticos-médicos modernos para benefício do indivíduo definindo saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência da doença e de enfermidade. Tal definição para o filósofo sueco Nordenfelt (2000), vale para felicidade plena ou alta qualidade de vida, demonstrando a preocupação do OMS com a promoção da saúde global, devendo os cuidadores dar conta de outros aspectos da vida do indivíduo além da sua saúde física. Segundo Nordenfelt, a saúde não é apenas um conceito biológico ou bioestatístico, mas também um conceito psicoemocional e antropológico; sendo a saúde plena em ideal utópico. Para esse autor, a constituição da Organização Mundial da Saúde não conceitua especificamente qualidade de vida nem indica o nível mínimo que deveria ser garantido, apenas identifica que a qualidade de vida tem dimensões físicas, mentais, sociais e existenciais. Tais dimensões podem ser consideradas extremamente básicas para uns, enquanto para outros não fazem parte de seus objetivos vitais. Esse autor sugere ainda a avaliação de qualidade de vida ser pessoal, visto que a pessoa é quem melhor conhece seu estado de saúde; porém nem sempre essa avaliação é confiável frente a um falso julgamento pessoal, necessitando assim o auxílio de um observador externo. Novo (1998) diferencia os conceitos de "nível de vida" e "qualidade de vida", onde o nível de vida de uma população consiste numa estimação quantitativa que permite conhecer o grau de acesso a bens de consumo e a serviços, ou seja, mede o poder aquisitivo e, ou serviços públicos gratuitos e benefícios. Já a qualidade de vida inclui outros aspectos além de econômicos, que constituem a trama afetiva, cultural, religiosa, biológica e ecológica, que rodeia o ser humano, cuja medida não se restringe a indicadores quantitativos; que meçam além dos níveis de renda e acesso a serviços, os níveis de bem estar, e se tais bens e serviços estão adequados aos padrões culturais e objetivos de determinada comunidade. 2

3 Petrone (1994), define qualidade de vida no sentido de satisfação, realização das aspirações e desejos, externalização de impulsos, consciente ou não, superando de modo positivo os obstáculos da vida, nas suas diferentes fases. Esse autor relaciona qualidade de vida com autoconhecimento, afirmando que o indivíduo que se conhece sabe definir o que é sua qualidade de vida, avalia melhor sua escolha, seu comportamento, evitando circunstâncias que favoreçam o aparecimento de doenças ou assume estratégias mais úteis a fim de limitar danos, criando um projeto de vida envolvendo outras pessoas, favorecendo o crescimento pessoal. A doença nessa perspectiva corresponde a uma denúncia de desconforto existencial e baixa qualidade de vida. Qualidade de vida não pode ter um conceito universal,porque se baseia primariamente na percepção individual e subjetiva da posição do indivíduo na vida, inserido numa cultura e num conjunto de valores além de um retrato de seus objetivos e preocupações. (Organização Mundial de Saúde, 1946). Poli e Romano (2000), apresentam uma evolução histórica de conceito de qualidade de vida. - Índice que agrupa segurança, auto-estima e capacidade intelectual e física (Engquist, 1979). - Grau de satisfação das necessidades físicas, psicológicas, sociais, relacionais, materiais e estruturais. (Hornquist, 1989). - Sensação de bem estar, advinda da satisfação na vida cotidiana. (Ferrans, 1990). - Índice que mede as condições de saúde, através das taxas de morbidade e mortalidade. (Revicki, 1993). Simões (1996), enfoca como manifestações de qualidade de vida: o acréscimo de experiências relevantes após satisfeitas às necessidades básicas, oportunidade de praticar atividades físicas regulares, consumo de produtos e serviços culturais; e a construção de um novo estilo de vida, com vivências que se constituem fator de satisfação e felicidade. Atualmente, deve-se considerar qualidade de vida ainda no âmbito da conservação e prevenção da biodiversidade do planeta, na melhoria das condições de vida das pessoas, com base na construção de valores, economias e sociedades diferentes. Valorizando as idéias de Capra (1999), da inter-relação de vida humana e não humana numa visão ecocêntrica da qualidade de vida. Corroborando com Capra, María Novo (1998) sugere que a concepção de qualidade de vida deve superar o antropocentrismo e estender-se num sentido mais amplo de qualidade de vida humana em seu conjunto ambiental, que inclui estimativas de grau de conservação e equilíbrio dos ecossistemas naturais. Existe atualmente um grande número de escalas de avaliação de Qualidade de Vida e Adequação Social. É dificuldade comum entre elas o tempo de aplicação, a exigência de entrevistadores treinados e a ausência de estudos 3

4 confiáveis de validação de suas propriedades psicométricas. Devido a esses fatores, não existe um instrumento universal para avaliar a qualidade de vida em si, programas de promoção da saúde e seus resultados. Os instrumentos de avaliação de qualidade de vida devem conter indicadores sociométricos, demográficos, ocupacionais, bem-estar psicológico, sintomas mentais, saúde física, relações de suporte social, finanças e atividades cotidianas. Esses questionários podem ser auto-aplicáveis, onde o entrevistado determina o peso de cada item na sua vida, baseado na sua própria percepção, os resultados dentro das subescalas se agrupam formando o escore final. A fim de aumentar a confiabilidade desses instrumentos os questionários devem ser adaptados a cada grupo de estudo. (PITTA In GORENSTEIN, 1999). Lipp e Roch (1995), propuseram um inventário de qualidade de vida com perguntas no quadrante social, afetivo, profissional e de saúde, sendo as respostas computadas pelo próprio entrevistado, o que propicia uma autoavaliação. A vida tem duas dimensões qualitativa e quantitativa assim a qualidade de vida não deve ser a medida somente por instrumentos quantitativos, mas também avaliada qualitativamente baseando-se na percepção individual e subjetiva. Critérios qualitativos sólidos podem ser alcançados através de entrevista, observação do cotidiano, da resolução de problemas reais, conhecendo os sonhos, as aspirações e ideais do indivíduo. (PATRICIO, CASAGRANDE E ARAUJO, 1999). O aspecto de bem estar físico se pode avaliar de duas maneiras: por exame clínico com diagnóstico objetivo da saúde e do estado funcional; ou através da quantificação subjetiva analisando questionário, diagnosticando assim a saúde perceptiva do indivíduo e sua qualidade de vida. (POLI e ROMANO, 2000). Petrone (1994), no seu instrumento de avaliação de qualidade de vida busca valorizar aspectos da história de vida do entrevistado e os relaciona com o aparecimento de doenças e distúrbios psicossomáticos, demonstrando que além do aspecto de mensuração individual da qualidade de vida, deve-se avaliá-la sob o aspecto temporal. Corroborando com ele, Silva (2001), afirma que a qualidade de vida pode variar no mesmo indivíduo no decorrer do tempo, conforme seu estado de humor e percepção, o que num momento significa uma boa qualidade de vida pode não significar em outro. Houve na última década, uma proliferação de instrumentos de avaliação de qualidade de vida, a maioria desenvolvida nos Estados Unidos, porém com tradução e aplicação em outras culturas. Tal aplicação transcultural através de tradução é controversa. No entanto, para outros autores a avaliação da qualidade de vida independe da nação, cultura ou época; sendo importante que a pessoa sinta-se bem psicologicamente, tenha boas condições físicas, sintam-se 4

5 socialmente integradas e funcionalmente competentes. A Organização Mundial da Saúde buscando avaliar qualidade de vida numa perspectiva internacional desenvolveu em projeto multicêntrico um instrumento de avaliação denominado WHOQOL-100 e o seu resumo o WHOQOL bref. (www.ufrgs.br/psiq/whoqol.html) eles: WHOQOL-100 possui 100 questões distribuídas em seis domínios, são Domínio I Domínio físico 1. Dor e desconforto 2. Energia e fadiga 3. Sono e repouso Domínio II Domínio Psicológico 4. Sentimentos positivos 5. Pensar, aprender, memória e concentração 6. Auto-estima 7. Imagem corporal e aparência 8. Sentimentos negativos Domínio III Nível de independência 9. Mobilidade 10. Atividade de vida cotidiana 11. Dependência de medicação ou de tratamentos 12. Capacidade de trabalho Domínio IV Relações sociais 13. Relações pessoais 14. Apoio social 15. Atividade sexual Domínio V Ambiente 16. Segurança física e proteção 17. Ambiente no lar 18. Recursos financeiros 19. Cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade 20. Oportunidade de adquirir novas informações e habilidades 21. Participação e oportunidade de recreação / lazer 22. Ambiente físico: poluição / ruído / trânsito / clima 23. Transporte Domínio VI Aspectos espirituais / Religião / Crenças pessoais 24. Espiritualidade /religião / crenças pessoais As questões do WHOQOL foram formuladas para uma escala de respostas do tipo Likert, com uma escala de intensidade (nada extremamente), capacidade 5

6 (nada completamente), freqüência (nunca sempre) e avaliação (muito insatisfeito muito satisfeito; muito ruim muito bom). A mensuração de qualidade de vida gera dificuldade, pelo seu conceito amplo, envolvendo moradia, ambiente, família, trabalho, escola, relacionamentos, lazer, ecologia e sociedade, aspectos não estreitamente ligados ao estado de saúde, mas que apóiam sua manutenção. Para Novo (1998) a mensuração Qualidade de Vida de uma comunidade deve integrar numerosos parâmetros quantitativos e qualitativos, sendo subjetivos os critérios que norteiam tal análise, assim como os limites máximo e mínimo que definem a qualidade de vida. Segundo Silva (2001), um instrumento de medida da qualidade de vida deve conter perguntas relacionadas aos aspectos de capacidade funcional, funções fisiológicas, comportamento afetivo, emocional e interações sociais, trabalho, família, situação econômica; centradas na avaliação subjetiva dos indivíduos. Patrício e colaboradores (1999) afirmam não ser possível compreender e avaliar toda complexidade da qualidade de vida de um ser humano, mesmo em um estudo prolongado devido as suas interconexões, sua diversidade, dinamicidade e mutabilidade constante. O crescente interesse na mensuração de qualidade de vida surgiu da necessidade de indicadores sociais complementarem indicadores econômicos brutos na comparação entre países. Tais indicadores sociais não respondem às questões individuais a cerca da qualidade de vida, gerando interesse na qualidade de vida subjetiva. Outro fato que justifica o interesse na medida da qualidade de vida é saber como alcançar uma boa vida devido ao aumento da longevidade e diminuição da prevalência de doenças crônicas ; além de oferecer subsídios para políticas de promoção de saúde. (SILVA, 2001). 6

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