Questões de gênero. Masculino e Feminino

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1 36 Questões de gênero Masculino e Feminino Pepeu Gomes Composição: Baby Consuelo, Didi Gomes e Pepeu Gomes Ôu! Ôu! Ser um homem feminino Não fere o meu lado masculino Se Deus é menina e menino Sou Masculino e Feminino... Olhei tudo que aprendi E um belo dia eu vi... Que ser um homem feminino Não fere o meu lado masculino Se Deus é menina e menino Sou Masculino e Feminino... Olhei tudo que aprendi E um belo dia eu vi Uh! Uh! Uh! Uh... E vem de lá! O meu sentimento de ser E vem de lá! O meu sentimento de ser Meu coração! Mensageiro vem me dizer Meu coração! Mensageiro vem me dizer... Salve, salve a alegria A pureza e a fantasia (...) 229

2 230 O termo gênero é usado para explicitar diferenças culturais entre homem e mulher. As denominações de sexo masculino e sexo feminino referem-se à diferenciação biológica. Portanto, o conceito de gênero está relacionado ao que se diz e ao que se faz em relação aos aspectos que são valorizados ou não das características sexuais. As características atribuídas ao que é ser homem ou mulher são produzidas e modificadas por meio do contexto histórico e dos grupos culturais nos quais fomos educados e em um determinado momento. Nascemos pertencentes, biologicamente, a um determinado sexo, mas será pela convivência com os valores culturais de uma determinada sociedade, em uma determinada época, e do grupo social do qual fazemos parte que nos identificaremos como homem ou mulher. Os comportamentos e as expectativas sobre o que é adequado a cada sexo mudam ao longo dos anos e das localidades. Ser mulher nos anos 1920, por exemplo, significava ser preparada para assumir o lugar de dona de casa e mãe. As mulheres aprendiam a bordar, costurar, cozinhar, limpar a casa, lavar e passar, assim como a cuidar dos filhos. Ao homem cabia trabalhar fora de casa, não sobrando tempo para cuidar das crianças. As tarefas eram divididas: os pais ficavam com a responsabilidade de manter a casa e sustentar a família, e as mães, com os cuidados dos filhos/família e as tarefas domésticas. Embora existisse a ideia de que o lugar da mulher era o ambiente doméstico, isso vinha sendo questionado e quebrado pelas mulheres das classes populares, pois elas já haviam ingressado no mercado de trabalho. Portanto, se o que é considerado adequado a cada sexo transforma-se ao longo dos anos e das regiões, a educação e a família, principalmente, desempenham um papel importante na formação dos sujeitos expressos pelas relações de poder e pelos aspectos afetivos. Hoje, avançamos em alguns aspectos como, por exemplo, o cuidado com a criança. Esse trabalho tem sido, cada vez mais, dividido entre o pai e a mãe. Outro exemplo de mudanças sociais relativas às questões de gênero é o

3 direito à licença-maternidade e à adoção de crianças por dois homens que convivem maritalmente. 36 Os preconceitos relativos ao gênero ainda existem. Muitos ainda pensam que um menino dançar balé é sinal de homossexualidade. Outro exemplo de preconceito foi a situação que aconteceu em uma instituição educativa onde um pai recusou que seu filho levasse para casa um boneco construído pelas crianças na sala o combinado era que cada dia uma criança ficasse responsável pelo personagem. Podemos citar também a situação em que um pai questionou o gênero de uma menina que era a goleira do time adversário e ganhador. Observamos nesses exemplos uma concepção de gênero engessada, como se o feminino se caracterizasse como oposto ao masculino. Por trás desses preconceitos há a concepção da presença e legitimação da heterossexualidade como a única via de expressão da sexualidade, o que pode ajudar a produzir ojeriza em relação aos gays e às lésbicas, vendo-se essas opções como um desvio. Desse modo, para evitarmos cair na armadilha dos preconceitos e das discriminações, temos que submeter nossas crenças e falas a uma constante análise. Precisamos desconfiar de nossos gestos e nossas palavras em relação às diferenças e desigualdades sexuais e ao modo como são produzidas e fixadas, embora essa seja uma tarefa bem difícil. Um exemplo de discriminação sutil é a situação de uma creche onde o choro dos meninos era atendido rapidamente, diferentemente do tempo levado para atenderem às meninas. Ou situações como a ocorrida em uma instituição educativa na qual os meninos assumiam, pelo modo de falar, uma posição de autoridade diante das meninas e, entre eles, havia uma competitividade. O processo de constituição da identidade dos sujeitos, isto é, seus modos de ser, pensar, agir e sentir, é determinado a partir daquilo que as pessoas vivenciam e com o que interagem. A sociedade também expressa os valores dominantes sobre o ser homem ou mulher pelos meios de comunicação, como a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, o cinema, os games etc., assim como pelas indicações 231

4 232 e propagandas de brinquedos e roupas, que passam um determinado modo de educar os filhos. As ideias e crenças do que é ser menino ou menina começam desde o útero, com a descoberta da gravidez. Ao bebê são atribuídos sonhos dos familiares sobre o seu futuro, uma determinada profissão, assim como certas condutas. Antes de nascer, ao saber o sexo do bebê, expectativas já são criadas, como, por exemplo, as cores do quarto da menina ou do menino, das roupinhas, dos brinquedos etc. Esquecemos que o bebê que vai nascer construirá sua própria identidade ao observar o mundo que o rodeará. Nas revistas direcionadas às futuras ou recentes mães, aparecem indicações dos brinquedos adequados a cada sexo e faixa etária. Você já observou as propagandas ou a decoração de lojas que vendem móveis para o quarto dos recém-nascidos? Os quartos dedicados às meninas têm lençóis rosa, são pintados com imagens como paisagens, flores, borboletas e varais de roupas penduradas, enquanto nos quartos dedicados aos meninos aparecem personagens em situações como dirigir carros, andar de skate, subir em árvores, soltar pipa, jogar bola etc. Você já experimentou perguntar às crianças de ambos os sexos que brinquedos elas gostariam de receber? Provavelmente, se for menino, ele dirá que deseja o boneco de um personagem musculoso, armado, ou automóveis, bola etc. As meninas, diferentemente, diriam bonecas, de preferência a Barbie, bichos de pelúcia, carrinhos de bebês, cozinhas, casinhas de boneca etc., ou seja, objetos apropriados para o exercício da maternidade e de cuidados domésticos. Até mesmo as bicicletas apresentam características diferentes se são produzidas para os meninos ou para as meninas. Embora os meninos apresentem curiosidade pelas bonecas e casinhas, logo são encaminhados a exercerem a função de pai. As contradições presentes em nossa sociedade são fruto de discussões que possibilitam atitudes de estranhamento ou concordância diante das ideias dominantes. Nós não repetimos apenas os valores sociais que predominam na sociedade, mas também duvidamos, questionamos e os transformamos. Por exemplo, quando uma criança indaga se, realmente, é adequado a um menino ou a uma menina um

5 determinado comportamento, brincadeira ou brinquedo, ela está questionando algo que ouviu ou viu. Os modos de ser menino e menina também podem variar em razão do pertencimento a uma dada classe social. Por exemplo, um menino pode ocupar seu tempo, fora da instituição educativa, andando de carrinho de rolimã, soltando pipa, jogando bola, tomando conta de estacionamento de carros ou vendendo doces na rua, ou, por outro lado, frequentando o curso de Inglês e fazendo aulas de judô. Em relação às meninas, o tempo pode ser ocupado com aulas de balé, Inglês e natação ou acompanhando a mãe para ajudá-la a colocar a comida na mesa e tomar conta dos irmãos menores, além de outras tarefas domésticas. Existem vários modos de ser menino e menina, de ser homem e mulher. Hoje, mulheres trabalham fora e, muitas vezes, são elas quem sustentam as famílias. E o que falar das profissões? Mulheres motoristas de táxi, pedreiras... homens educadores de creche, professores de crianças: essas atividades, atualmente, são encaradas com mais naturalidade. 36 Tudo se transforma quando sentimos o desejo e a necessidade. Tudo se transforma quando nos esforçamos para entender a perspectiva do outro, seus desejos e talentos e sua identidade. Que tal pensar um pouco sobre isso? Como você compreende essa questão de gênero? Você costuma achar que há uma grande diferença entre meninos e meninas? Como eles são diferentes? No seu dia a dia, como você lida com seus filhos? Diferenciando-os como meninos ou meninas, ou diferenciando-os como pessoas com propostas de brincadeiras, leituras e atividades diversas? Pense nisso! 233

6 234 Anotações

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