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1 Pº R. Co. 22/2009 SJC-CT. Recorrente: Clube de Futebol. Recorrida: Conservatória do Registo Predial/Comercial de.. Registo a qualificar: Constituição da sociedade. Futebol SAD com designação dos membros dos órgãos sociais, requisitado pela Ap. 1, de 25 de Junho de Relatório: Em 24 de Junho de 2009 o ora recorrente e outros declararam constituir entre si uma sociedade anónima desportiva com a firma. Futebol SAD, com sede no Estádio., com o capital social de , representado por acções do valor nominal de 5 cada. O ora recorrente subscreveu o capital de , integralmente realizado em espécie através da transmissão dos direitos desportivos do jogador., correspondente a acções de 5 cada da categoria A (o relatório do ROC elaborado nos termos do art. 28º do CSC, que instruiu a escritura, utilizou a expressão cedência do passe do jogador ( ). Do contrato social (artigo 3º) consta que a sociedade tem por objecto a participação, na modalidade de futebol, em competições desportivas, a promoção e organização de espectáculos desportivos e o fomento ou desenvolvimento de actividades relacionadas com a prática desportiva da referida modalidade. O respectivo certificado de admissibilidade (nº 2009 ) contém exactamente o mesmo objecto social, mas com a seguinte condição de validade: o presente certificado é válido para efeitos de personalização jurídica de equipa do CLUBE DE FUTEBOL, titular do NIPC 5, nos termos do disposto no art. 3º, alínea b) do Decreto-Lei nº 67/97, de 03 de Abril. Pela Ap. 1, de 25 de Junho de 2009, foi pedido o registo de constituição da sociedade e de designação dos membros dos órgãos sociais, mas a Senhora Conservadora lavrou despacho de qualificação do registo como provisório por dúvidas, porque: 1

2 a) O objecto social não está redigido de acordo com o disposto no art. 2º do D.L. nº 67/97, de 3 de Abril, faltando a menção de que a modalidade desportiva em causa será desenvolvida em competições desportivas de carácter profissional; b) Não obstante terem sido solicitadas em sede de suprimento de deficiências, não foram apresentadas as declarações, subscritas individualmente por cada um dos administradores, em como não se encontram nas situações de incompatibilidade previstas no art. 14º do referido diploma legal; c) Apesar de terem sido igualmente solicitados, não foram apresentados documentos comprovativos de que o Clube de Futebol tem a sua situação tributária regularizada, nomeadamente no que diz respeito ao pagamento de impostos e contribuições para a segurança social, em obediência ao estatuído no nº 4 do art. 6º da Lei nº 103/97, de 13 de Setembro. De direito invocaram-se os art.s 47º, 49º e 50º, nº 1, do CRCom. Do despacho de qualificação foi interposto o presente recurso hierárquico, com base na seguinte fundamentação: a) É lícita a constituição de sociedades anónimas desportivas para a participação em competições desportivas de natureza não profissional, não sendo exigível a expressa referência no pacto social à natureza da competição, sendo certo que a respectiva inclusão no objecto social inviabiliza a participação noutra competição de outra natureza em que a sociedade venha a ser inserida em função da promoção ou despromoção obtidas nos resultados desportivos ; b) Nenhum dos administradores exerce ou exerceu funções em outras sociedades desportivas ou em federações ou associações, para além de nenhum deles ser praticante profissional, treinador ou árbitro da modalidade, além de que no processo de registo se encontram as declarações assinadas pelos administradores; c) Inexiste nulidade da constituição da sociedade anónima desportiva, em função da violação do nº 4 do artigo 6º da Lei nº 103/97, de 13 de Setembro ( ), porque este normativo não tem aplicação ao caso em apreço já que os activos susceptíveis de garantir os direitos dos credores não foram transferidos para a sociedade anónima desportiva, sendo certo que a impossibilidade de constituir uma sociedade anónima desportiva no caso de existirem dívidas fiscais ou à segurança social apenas se verifica no âmbito dos processos de reorganização que dão origem à transferência da generalidade dos activos dos clubes e que ( ) não é possível afirmar que o clube que deu origem à recorrente não tem a situação tributária regularizada. Com a petição de recurso hierárquico o recorrente juntou 1) duas declarações sem data de Futebol SAD, subscritas pela Administração (três assinaturas), de que 2

3 os Órgãos da Administração que a constituem não ocuparam, no ano anterior, quaisquer cargos sociais em outras Sociedades Desportivas constituídas para a mesma modalidade e 2) certidão do Serviço de Finanças 3, de 1 de Julho de 2009, comprovativa de que Futebol SAD tem a sua situação tributária regularizada. A qualificação do registo foi sustentada em novo despacho, cujos termos aqui se dão por integralmente reproduzidos. Pronúncia: O processo é o próprio, as partes legítimas, o recurso tempestivo, e inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito. A posição deste Conselho vai expressa na seguinte Deliberação 1- A Sociedade desportiva constituída ao abrigo de certificado de admissibilidade emitido com a condição de validade de ser utilizado para efeitos de personalização jurídica da equipa de futebol de um clube desportivo terá que ter como objecto a) a participação na modalidade de futebol, em competições desportivas de carácter profissional, b) a promoção e a organização de espectáculos desportivos, e c) o fomento ou desenvolvimento de actividades relacionadas com a prática desportiva profissionalizada dessa modalidade, pelo que não pode ser definitivamente registado o contrato de sociedade desportiva em que na definição do objecto é omitida a referência ao carácter profissional das competições desportivas e da prática desportiva daquela modalidade de futebol O regime jurídico das sociedades desportivas (RJSD) consta do D.L. nº 67/97, de 3 de Abril, alterado, por ratificação, pela Lei nº 107/97, de 16 de Setembro (e ainda pelo D.L. nº 76-A/2006, de 29 de Março, quanto ao art. 15º). O art. 2º dá-nos a definição de sociedade desportiva, entendendo-se como tal a pessoa colectiva de direito privado, constituída sob a forma de sociedade anónima, cujo objecto é a participação numa modalidade, em competições desportivas de carácter profissional, salvo no caso das sociedades constituídas ao abrigo do art. 10º, a promoção e organização de espectáculos desportivos e o fomento ou desenvolvimento de actividades relacionadas com a prática desportiva profissionalizada dessa modalidade. 3

4 Como refere José Manuel Meirim, in Regime Jurídico das Sociedades Desportivas, 1999, pág. 103, o art. 3º do RJSD apresenta-nos «as formas possíveis de constituição, melhor dizendo, de criação de sociedades desportivas». De acordo com a al. b) deste artigo, a sociedade desportiva pode resultar da personalização jurídica das equipas que participem ou pretendam participar em competições desportivas profissionais. Nesta hipótese, de personalização jurídica da equipa, «passamos a contar com duas realidades verdadeiramente distintas: o clube desportivo, que se mantém na sua individualidade, e a nova sociedade desportiva centrada na gestão da participação em competição desportiva profissional» (cfr. José Manuel Meirim, ob. cit., pág. 104, com sublinhado nosso). Ainda nesta hipótese, de personalização jurídica da equipa, «são obrigatoriamente transferidos para a sociedade desportiva os direitos de participação no quadro competitivo em que estava inserido o clube fundador, bem como os contratos de trabalho desportivos e os contratos de formação desportiva relativos a praticantes da modalidade profissional que constitui objecto da sociedade» (cfr. art. 33º, com sublinhados nossos, que no dizer de José Manuel Meirim, ob. cit., pág. 105, prevê expressamente a sucessão desportiva ). Resulta, a nosso ver, do exposto a bondade da conclusão do texto. Não cremos sequer pertinente o argumento do recorrente (para nós o recorrente não pode deixar de ser o Clube de Futebol, dado que a SAD ainda não existe juridicamente cfr. art.s 5º e 166º e segs. do CSC e art. 14º do CRCom, e art.s 5º, 15º e 16º do RJSD) de que a inclusão no objecto social da referência à natureza (profissional ou não profissional) das competições desportivas participadas pela SAD inviabiliza a participação noutra competição de outra natureza em que a sociedade venha a ser inserida em função da promoção ou despromoção obtidas em resultados desportivos. Se bem ajuizamos, o máximo que se poderá sustentar é que, a verificar-se tal cenário, a participação em competições de outra natureza dependerá da prévia alteração do contrato social (como aliás acontece na hipótese prevista no nº 2 do art. 7º do RJSD), se o clube desportivo fundador da SAD não quiser recuperar o seu estatuto jurídico originário (cfr. José Manuel Meirim, ob. cit., pág. 107). Mas esta matéria não está aqui em tabela. No caso dos autos parte do capital social da SAD foi realizado em espécie, com a cedência do passe de um jogador do clube desportivo fundador. Acresce que o recorrente, ao atacar o terceiro motivo da qualificação minguante do pedido de registo a que adiante nos referiremos -, afirma que a SAD foi constituída fora do contexto de reorganização previsto na Lei nº 103/97, de 13 de Setembro. Esta factualidade causa-nos perplexidade. Não negamos que o capital social subscrito pelo clube desportivo fundador pode ser realizado em espécie (cfr. art. 31º do RJSD). Mas já questionamos se o capital social pode ser realizado com um bem (direito desportivo) que, se bem pensamos, deve ser objecto da transferência obrigatória prevista no já anteriormente citado art. 33º. Parece que não pode. Por outro lado, surge-nos a dúvida sobre se os direitos desportivos dos restantes jogadores do clube desportivo fundador da SAD foram (a nosso ver, deveriam sê-lo imperativamente) transferidos para esta. A concretizar-se este cenário, a matéria revelar-se-á de bem maior complexidade, porquanto terá então sido tentada a criação de SAD fora do quadro previsional do art. 3º do RJSD. 4

5 2- O princípio da legalidade consagrado no art. 47º do CRCom não demanda a comprovação no processo registal da não verificação das incompatibilidades previstas no art. 14º do D.L. nº 67/97, de 3 de Abril, pelo que só no caso de resultar do processo a existência de incompatibilidades é que se justificaria a qualificação minguante do pedido de registo de designação dos administradores por elas afectados A regularização da situação tributária do clube desportivo onde está integrada a equipa de futebol, cuja personalização jurídica se pretende efectivar através da constituição da sociedade desportiva, é pressuposto desta constituição, pelo que o registo definitivo do contrato social depende da comprovação da verificação deste pressuposto O art. 14º do RJSD consagra um conjunto de incompatibilidades para os administradores de sociedades desportivas. Os estatutos da SAD e a escritura pública que os incorpora nada dispõem sobre a inexistência de incompatibilidades dos administradores designados. A lei, designadamente o RJSD, não exige que o processo registal seja instruído com documentos comprovativos da não verificação de incompatibilidades. No entanto, a Senhora Conservadora entende que cada administrador deve declarar que não se encontra em qualquer situação de incompatibilidade. Salvo o devido respeito, não cremos que a posição assumida pela recorrida tenha arrimo no art. 47º do CRCom, que consagra o princípio da legalidade no âmbito da qualificação dos pedidos de registo comercial, nem descortinamos qualquer outra norma ou princípio que fundamente tal exigência. Aliás, se não erramos, tem constituído prática registral pacífica a não exigência de comprovação da aceitação do administrador para o registo comercial da sua designação. Luís Brito Correia, que defende a necessidade da aceitação, parece admitir tal prática (cfr. a obra Os Administradores de Sociedades Anónimas, 1993, págs. 460/463). Seja qual for a teoria que se adopte quanto à natureza da relação entre a sociedade e o administrador (cfr. Luís Brito Correia, ob. cit., págs. 303 e 375º e segs.), não cremos que caiba ao conservador averiguar da inexistência de incompatibilidades dos administradores designados (no caso em apreço, no próprio contrato de sociedade cfr. art. 391º, nº 1, do CSC). Aliás, como é bom de ver, a declaração do administrador designado de que não padece de incompatibilidades não comprova o facto negativo (a não existência de incompatibilidades). Apenas no caso de ser manifesto, através do processo registal, que o administrador estava em situação de incompatibilidade é que se justificaria a qualificação minguante do pedido de registo da sua designação, assim se evitando que do registo resultasse a presunção de que existia a relação entre a sociedade e o administrador designado (cfr. art. 11º do CRCom e Alexandre Soveral Martins, in Os Poderes de Representação dos Administradores de Sociedades Anónimas, 1998, págs. 142 e segs.). 3 - Como assinala José Manuel Meirim, ob. cit., pág. 73, o RJSD «não curou de acautelar os créditos públicos perante os clubes desportivos». Tal prevenção só terá ocorrido com a Lei nº 103/97, de 13 de Setembro, que em disposição transitória (nº 4 do art. 6º, cuja génese vem explicada por José Manuel Meirim, ob. cit., pág. 38) veio dizer que «a opção pelo regime jurídico das sociedades desportivas não pode ser feita enquanto os 5

6 provimento. Nos termos expostos, é entendimento deste Conselho que o recurso não merece Deliberação aprovada em sessão do Conselho Técnico de 19 de Novembro de João Guimarães Gomes de Bastos, relator. Esta deliberação foi homologada pelo Exmo. Senhor Presidente em clubes desportivos não tiverem a respectiva situação tributária regularizada, nomeadamente no que diz respeito ao pagamento de impostos e contribuições». Parece resultar do exposto que só a partir da entrada em vigor da Lei nº 103/97, em 14 de Setembro de 1997 (cfr. art. 9º), é que a opção pelo RJSD não pode ser feita enquanto os clubes desportivos fundadores não tiverem a respectiva situação tributária regularizada. Portanto, entre 4 de Abril de 1997 (data da entrada em vigor do RJSD cfr. art. 47º do D.L. nº 67/97) e 13 de Setembro do mesmo ano, a opção pelo RJSD não estava condicionada à regularização da situação tributária do clube desportivo fundador (neste sentido parece alinhar José Manuel Meirim, ob. cit., págs. 38 e 103). A nosso ver, porém, do exposto não pode retirar-se qualquer argumento contra a exigência de prova da regularização da situação tributária do clube desportivo fundador de SAD criada após 14 de Setembro de Naturalmente, a regularização da situação tributária comprova-se por certidão fiscal. Três breves comentários se nos afiguram tecer às alegações do recorrente. 1º. Se não erramos, a recorrida não invocou a nulidade da constituição da sociedade anónima desportiva (cfr. art. 14º da petição de recurso). A propósito, é nossa opinião (plasmada aliás no texto da conclusão) que o pressuposto (regularização da situação tributária do clube desportivo fundador da SAD) tem que estar verificado no momento do registo (constitutivo) do contrato social, pelo que da omissão na escritura pública que titulou este contrato sobre a verificação deste pressuposto não retiramos consequências jurídicas. 2º. Ninguém (do lado da recepção do pedido na relação de conhecimento registal) afirmou que o clube desportivo fundador da SAD não tem a situação tributária regularizada (cfr. art. 21º da p.r.). O que foi afirmado é que não estava comprovada tal regularização, o que é bem diferente. 3º. Reiteramos o que afirmámos na nota (1), a propósito da afirmação do recorrente de que a SAD foi constituída fora do contexto de reorganização prevista na Lei nº 103/97. 6

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