Pº R.P. 12/2009 SJC-CT-

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1 Pº R.P. 12/2009 SJC-CT- Recusa do pedido de registo com base em culpa leve do serviço de registo Restituição do emolumento - descrição do caso em especial. Relatório: DELIBERAÇÃO Pela Ap. 45, de 11 de Novembro de 2008, foi pedido na Conservatória recorrida o registo de aquisição a favor da ora recorrente de 1/65 da fracção autónoma A do prédio descrito na ficha nº 1163, da freguesia de, com base em escritura de , onde figurava aquela mesma descrição predial. O registo foi recusado, porque a descrição nº 1163 estava inutilizada, dado que o prédio havia sido anexado ao prédio da ficha nº 1450/ para formar o prédio descrito na ficha nº 1451/ Pela Ap. 6, de 27 de Novembro de 2008, foi pedido o registo do mesmo facto, agora na ficha nº 317-A, da freguesia de, com base na mesma escritura contendo um averbamento de rectificação de , no sentido de ficar a constar que o prédio é descrito sob o nº 317, da freguesia de. O pedido foi acompanhado de ofício da «apresentante» (A Senhora Notária que lavrou a escritura) em que solicitava nova apresentação por suprimento de deficiências ( ) assim como, nos termos do número 7 do art. 73º do CRP, transferência do emolumento pago com a apresentação recusada ( ) Mas a apresentação foi rejeitada por não ter sido enviada para pagamento a quantia devida pelo acto requerido, nos termos do art. 66º, nº 1, e) do CRPredial. Pela Ap. 40, de 3 de Dezembro de 2008, foi mais uma vez pedido o registo do mesmo facto, com base no mesmo documento que serviu de base ao pedido de registo da anterior Ap. 6, de Foi pago o emolumento de 250. O registo foi efectuado definitivamente. 1

2 Em 30 de Dezembro de 2008, a «apresentante» deduziu nos termos do disposto no art. 147º-C do C.R.P. impugnação da conta a que se refere a Ap. 40, de 3 de Dezembro de 2008 (conta nº 32499). A recorrente alega que o número 1163 constava na ficha do prédio mãe a que respeita a fracção autónoma objecto do registo peticionado conjuntamente com o número 317. E questiona se será possível que o legislador estabeleça a possibilidade de transferir o emolumento em caso de falta de título e não o permitisse no caso do título do registo ter sido apresentado, embora portador de uma mera irregularidade ou de falta de um elemento necessário à identificação do prédio e do registo, quando no caso em epígrafe se verificava clara e inequivocamente que se tratava de uma simples inexactidão e que até era oriunda de uma imperfeição parcial/registral. Termina pedindo a devolução da quantia paga de 250. A Senhora Conservadora recorrida sustentou a posição assumida nos procedimentos registais descritos. Explica que de facto, da ficha do prédio nº da freguesia da consta o número da descrição predial (00317/070586), a fracção a que se refere, e por baixo desses dados (em carimbo a óleo) constam uns números sequenciais que terão sido apostos numa série de fichas aquando do seu recebimento na Conservatória, mas que não correspondem a nenhum dado. Assim, do prédio mãe consta o número 1163 e da primeira página da descrição da fracção A consta o número Saneamento: Afigura-se-nos líquido que a recorrente, com a impugnação deduzida, pretende tão somente a restituição da quantia de 250, que no seu entender indevidamente pagou (a mais) pelo registo do facto titulado pela escritura de 10 de Novembro de 2008, com averbamento de rectificação de 26 do mesmo mês e ano. Não impugna a qualificação do pedido de registo a que se refere a Ap. 45, de 11 de Novembro de

3 Nem impugna a rejeição da apresentação pedida pela Ap. 6, de 27 de Novembro de Podemos, assim, afirmar com segurança que não está em causa a prioridade do registo do facto, sobre este ponto não existindo controvérsia. Também podemos afirmar que, naturalmente, a recorrente não fará questão que o objecto da restituição seja o emolumento cobrado pelo acto pedido em 3 de Dezembro de 2008 (Ap. 40), tal como formalmente pediu, ou antes o emolumento cobrado pelo acto pedido em 11 de Novembro de 2008 (Ap. 45), porquanto, tratando-se da mesma quantia, ser-lhe-á absolutamente indiferente a determinação da conta a rectificar. O processo é o próprio, as partes legítimas, a recorrente está devidamente representada, e inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito. Pronúncia: A posição deste Conselho vai expressa na seguinte Deliberação 1- Tendo o serviço de registo, ainda que com culpa leve, dado origem à recusa do pedido de registo, o emolumento devido pelo acto deve ser restituído ao apresentante Enquadra-se na fattispecie da conclusão anterior a aposição em determinada ficha de registo, por baixo do rectângulo onde figura o número de ordem privativo dentro de cada freguesia, seguido dos 1 - Pelo Despacho nº 74/2008, de 18 de Julho de 2008, do Ex.mo Presidente do IRN, I.P., foi fixada a regra interpretativa de que em caso de recusa, salvo excepção que agora não importa considerar, o emolumento devido pelo acto não é restituído. Não cremos que no pensamento do autor do citado despacho tivesse sido considerada a hipótese de na origem da recusa do pedido de registo estar uma qualquer deficiência do serviço de registo, ainda que de reduzida gravidade. Daí que se nos afigure que a conclusão do texto não atenta contra a aludida regra interpretativa. Sem grande esforço se aceitará que perderá legitimidade para cobrar o emolumento devido pelo acto o serviço de registo que, ainda que com culpa leve, deu azo à recusa. 3

4 algarismos correspondentes à data da apresentação de que depende [cfr. art. 82º, nº 1, a), do C.R.P.], em carimbo a óleo, de um conjunto de quatro algarismos (1163), com que o prédio que integra a fracção autónoma objecto da relação jurídica registanda veio a ser identificado no título e ulteriormente no respectivo impresso de registo 2. Nos termos expostos, é entendimento deste Conselho que o recurso merece provimento, devendo ser restituído o emolumento cobrado pelo acto a que se refere a Ap. 45, de 11 de Novembro de É ainda entendimento deste Conselho que os referidos algarismos (1163), e outros que também indevidamente constem das fichas de registo, devem ser truncados, com a devida ressalva (cfr. art. 371º, nº 2, C.C.). Fevereiro de Deliberação aprovada em sessão do Conselho Técnico de 27 de João Guimarães Gomes de Bastos, relator. Isabel Ferreira Quelhas Geraldes, com declaração de voto em anexo. 2 - No caso concreto dos autos, não podemos deixar de reconhecer que a ficha de registo contém uma menção que, objectivamente, contribuiu para a deficiência cometida na identificação do objecto mediato do contrato no título e no pedido de registo. Afigura-se-nos incontroverso que se aquele conjunto de algarismos não constasse da ficha de registo aquela concreta deficiência não teria ocorrido, e isto tanto bastará, a nosso ver, para afastarmos a cobrança do emolumento devido pelo acto de registo recusado. Admitimos que a Senhora Conservadora tenha razão quando afirma que aquele conjunto de algarismos que no seu próprio dizer não correspondem a nenhum dado não era motivo para que a Senhora Notária tivesse sido induzida em erro, porque se trata de uma Notária experiente. O ponto, salvo o devido respeito, não é este. O ponto está em que os suportes documentais do nosso sistema registral no caso, as fichas de registo obedecem a modelos muito técnicos, em que os dizeres são carregados de significado e com conteúdo substantivo muito preciso. De tal sorte que a errada menção do número de descrição do prédio pode constituir fundamento de recusa do registo como aliás aconteceu no caso dos autos -, com perda do efeito (substantivo) da prioridade do registo (do que decorre a nossa perplexidade pela afirmação da recorrente de que in casu se tratou de simples inexactidão ). Importa, assim, evitar a todo o custo a introdução na ficha de menções que, por muito irrelevantes que à primeira vista pareçam, possam constituir elementos perturbadores da plena compreensão do seu conteúdo. No caso concreto, não ocorreram efeitos substantivos perversos. O que apenas está em causa é o emolumento devido pelo registo do facto, que a recorrente, efectivamente, pagou duas vezes, porque numa delas o pedido foi recusado. Atendendo ao circunstancialismo descrito, achamos de elementar justiça que à recorrente seja restituído o emolumento cobrado aquando da recusa do pedido de registo. 4

5 Esta deliberação foi homologada pelo Exmo. Senhor Presidente em

6 Proc.º R.P. 12/2009 SJC-CT Declaração de voto Consabidamente, o extracto da descrição deve conter, inter alia, o número de ordem privativo dentro de cada freguesia, seguido dos algarismos correspondentes à data da apresentação de que depende cfr. o disposto na alínea a) do n.º 1 do artigo 82.º do CRP. Por seu turno, da descrição de cada fracção autónoma deve constar não só o número que coube à descrição genérica como ainda a letra ou letras da fracção segundo a sua ordem alfabética, por força do prescrito na alínea a) do n.º 1 do artigo 83.º do mesmo Código. Ora, o conjunto de algarismos que figura imediatamente abaixo do espaço reservado ao número da descrição genérica o 1163, e o conjunto de algarismo que figura na descrição subordinada o 1164 (que, aliás, nem foi o número indicado no título e que segundo a lógica de pensamento da recorrente teria de ser), não preenchem os requisitos básicos exigíveis por lei para as descrições, sendo insusceptíveis de confusão com estas. Daqui se extrai que a descrição da fracção subordinada objecto da relação jurídica em causa só podia ser identificada com o número da descrição genérica acrescido da letra correspondente. Tal equivale a dizer que, no caso em apreço nos autos, a descrição a indicar na escritura só podia ser a correspondente ao n.º 00317/ A, da freguesia da. Acresce, ainda, que todos os documentos apresentados para instrução da aludida escritura referem expressamente a descrição 00317/070586, a saber: uma certidão emitida pelo serviço de registo pedida em relação à fracção A, do prédio descrito sob o n.º 00317/070586, da freguesia da ; a caderneta predial da qual consta que o prédio está descrito sob o n.º 317; e a licença de utilização n.º 3616, de 24 de Outubro de 1986, respeitante ao mesmo prédio e que foi anotada à descrição genérica em 3 de Dezembro de

7 Em face do exposto, parece-me de concluir que não existe, in casu, um nexo de causalidade adequada 3 entre a existência daquele conjunto de algarismo e o erro praticado pela Senhora Notária, que não usou da diligência que qualquer outro destinatário normal teria perante as circunstâncias do caso concreto (a prová-lo a existência de trinta e uma inscrições incidentes sobre a referida fracção sem notícia de recusa de qualquer registo). Nestes termos, considerando que a situação configurada nos autos não é imputável ao serviço de registo, parece-me que o recurso hierárquico não devia merecer provimento. Lisboa, 27 de Fevereiro de Isabel Ferreira Quelhas Geraldes 3 Cfr., sobre o ponto, ANTUNES V ARELA, in Das Obrigações em Geral, Vol.I, 10.ª edição, págs. 526 e segs., ALMEIDA C OSTA, in Direitos das Obrigações, 1979, págs. 383 e segs., e MARCELO R EBELO DE S OUSA e ANDRÉ S ALGADO DE M ATOS, in Direito Administrativo Geral, Tomo III, 2007, págs. 417 e segs., e, ainda, o acórdão do STA, de 28 de Maio de 2002, disponível em 7

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