O gibi como técnica de ensino

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1 O gibi como técnica de ensino Rosângela Delage Professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental O gibi, uma pequena história ou revista em quadrinhos. Em 1939, o jornal O Globo publicou O Globo Juvenil e surgiu a revista Gibi. Gibi era o nome de uma revista que contava histórias em etapas transmitidas por meio de quadrinhos. Desde então, gibi passou a ser sinônimo de revista em quadrinhos (esse contexto só existe na cultura brasileira). Gibi é, portanto, um formato de banda desenhada, diferente dos álbuns europeus porque é pequeno. Na Europa, o pioneiro foi do francês Hergé. Na América, os pioneiros foram Superman e Capitão Marvel. No Brasil, o primeiro gibi de sucesso foi A turma do Perequê, criado por Ziraldo, em Depois disso, muitos outros vieram, mas o personagem preferido de todas as idades é a Mônica, criada por Maurício de Souza. Há algum tempo, não muito distante da nossa atualidade, levar revista em quadrinhos para a classe era sinônimo de repreensão e castigo e o aluno ainda se arriscava a perder o gibi. Pois os professores devem fazer exatamente o contrário: usar o material preferido dos alunos como aliado na hora de ensinar. 1

2 Os quadrinhos são considerados veículos extremamente atraentes para as crianças, sua utilização em sala de aula é bastante oportuna. Além disso, a experiência se enquadra tanto nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil quanto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Ambos falam da importância do trabalho com diferentes tipos de texto, entre eles os quadrinhos. Brincar faz parte do processo de desenvolvimento da criança. Brincando ela não apenas se diverte, mas recria e interpreta o mundo em que vive, se relaciona com este mundo. Brincando, a criança aprende. Antes mesmo de estar alfabetizada, a criança tem a possibilidade de visualizar os quadrinhos e criar sua própria história, narrando aos amigos da turma. Além de exercitar a criatividade, constrói o hábito da leitura, pois com essa prática está realizando a leitura de imagens, tão importante quanto a leitura de frases e textos. Entre as vantagens de utilizar esse recurso na alfabetização está a possibilidade da turma ler textos só em letras maiúsculas. Isso permite exercitar a autonomia da leitura recém-conquistada. Enquanto as crianças são alfabetizadas, aprendem as características desse tipo de linguagem e no final do ano desenham e escrevem histórias com melhor desempenho. Considerando o hábito da leitura como um processo contínuo de aprimoramento da escrita, desenvolver tal hábito valendo-se do gibi é mais rico e prazeroso e seu incentivo em sala de aula torna o momento da leitura ainda mais agradável. O gibi tem a particularidade de unir duas formas de expressão cultural: a literatura e as artes plásticas. Ao criar a história, o aluno está desenvolvendo a escrita preocupando-se não apenas com as características do texto, mas também com a forma de expressão que dará aos personagens criados por ele. A importância das histórias em quadrinhos, ao contrário do que pensamos, é fundamental para o aprendizado dos nossos alunos. Ao ler as histórias 2

3 devemos prestar atenção em cada detalhe: cenários, roupas, época e costumes. Geralmente, o aluno que lê gibis dedica sua concentração à leitura dos quadrinhos, pois necessita compreender a história para que esta se torne interessante. Esse exercício desenvolve o hábito de concentração na realização de tarefas. Uma vez o hábito desenvolvido, pode ser utilizado para a leitura de outros materiais, como livros e textos que são aplicados em outras disciplinas. A criança que lê bastante tem maiores chances de escrever corretamente, pois o inconsciente funciona como máquina de registros e tudo que a criança visualiza fica guardado em algum lugar do cérebro e quando sente necessidade passa a utilizar essa informação. Ao ler as histórias, o aluno, na maioria das vezes, se identifica com determinado personagem, colocando-se desse modo no lugar dele em alguns momentos da situação. Dessa forma, é capaz de analisar a conduta do personagem, concordando ou não com a atitude apresentada na história. Esse processo auxilia na formação de valores, e de forma natural o aluno consegue encontrar soluções com mais facilidade quando usa o personagem como espelho. Afinal, é mais fácil opinar quando estamos do lado de fora da situação. Um item do gibi que chama muito a atenção dos alunos é o balão utilizado para registrar a fala e a expressão dos personagens. É por meio dos balões que os alunos são capazes de perceber o estado de espírito demonstrado pelo personagem nos diversos momentos que compõem uma história. É importante observar os vários tipos de balões, como os de fala, pensamento, sonho, amor, grito, cochicho e uníssono. Em seguida, estudar o que mais trazem: onomatopéias ou mesmo um simples desenho. Tudo deve ser socializado com os colegas nas discussões em sala. 3

4 O personagem preferido das crianças é o Chico Bento, personagem da Turma da Mônica que representa o mundo rural. Com seu jeito de falar tipicamente caipira, não se importando com regras básicas de concordância verbal, o garoto da roça é peça importante para os professores desenvolverem seu trabalho. Dicas de Metodologia Ao trabalhar com gibis em sala de aula deixe claro para seus alunos o seguinte: 1 - Não é necessário fazer desenhos e textos maravilhosos. Os quadrinhos têm uma linguagem própria e o mais importante é entender seus códigos; 2 - nas etapas envolvidas na confecção de um gibi, a base de qualquer tira é a idéia. O desafio é passá-la para o desenho, distribuindo a informação pelo espaço disponível; 3 - no princípio, os alunos devem copiar os desenhos das revistas em papel vegetal e mudar apenas o texto. Essa foi à técnica utilizada pelos primeiros desenhistas no Brasil e os alunos devem ter acesso a esse tipo de informação. O aprendizado histórico é importante para que o aluno conheça bem o gênero de linguagem com que está trabalhando; 4 processo de produção: instigar a turma a criar personagens com características próprias; construir a história baseada nos personagens criados; alertar a turma para a necessidade de respeitar o perfil que eles mesmos deram aos personagens. 4

5 Sugestão de atividades Na fase de alfabetização, algumas escolas propõem como exercício apagar as falas dos balõezinhos dos personagens e pedir às crianças que interpretem a seqüência de desenhos e criem sua própria história. O professor pode ainda recortar uma história e separar os quadrinhos pedindo aos alunos que montem uma nova seqüência organizando os fatos e produzindo uma nova história. Apresentar uma tira com os balões vazios e pedir que os alunos criem o texto a partir dos desenhos. Apresentar uma história pronta e pedir que os alunos mudem o final. Depois, os alunos devem conhecer os finais elaborados pelos colegas. Cada um deve apresentar para o grupo o final que criou. Transformar o gibi em texto. Os alunos devem ler a história e recontá-la, utilizando como recurso a narração. Transformar um texto em gibi. Os alunos devem ler um texto e desenhar os personagens, considerando suas características próprias e a linguagem dos balões. Na utilização de outras disciplinas que não a língua portuguesa, as histórias devem apresentar assuntos voltados ao que for proposto: Matemática - criar uma história explicando a conta de dividir ou de multiplicar. Geografia - o texto pode ressaltar clima, vegetação ou relevo. História - montar um gibi com a história pessoal de cada aluno. 5

6 Ciências - abordar a conservação do planeta, enfocando terra, água, preservação etc. O Brasil sempre enfrentou a produção de quadrinhos internacionais, principalmente dos heróis que desembarcaram por aqui na década de 1940, como Batman, Fantasma, Mandrake e Flash Gordon. Depois disso, as grandes editoras americanas, a Marvel (dona de Homem-Aranha e X-Men) e a DC Comics (Super-Homem e Batman) acabaram por dominar o mercado nacional de gibis. Recentemente, outro tipo de HQ também começa a fazer um tremendo sucesso por aqui: são os mangás, gibis baseados em quadrinhos japoneses com pouco texto e muita ação. Normalmente, há desenhos animados baseados nas histórias, como Dragon Ball Z e Transformers. voltar 6

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