INTRODUÇÃO OBJETIVO METODOLOGIA

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1 Impacto da implantação da legislação ambiental relativa às áreas de preservação permanente - APP e reserva legal - RL em sistemas de produção familiares de leite no Sudoeste do Paraná Márcio Miranda 1 RESUMO No debate acerca da legislação ambiental no que tange às áreas de preservação permanente (APP) e reserva legal (RL), é notória a falta de informações consolidadas para subsidiá-lo. Este trabalho teve como objetivo avaliar o impacto da aplicação da legislação ambiental vigente no período do estudo relativa à APP e reserva legal RL em sistemas de produção familiar de leite no Sudoeste do Paraná. Indicadores de eficiência técnica e econômica referentes ao ano agrícola 2.005/2.006, levantados em estabelecimentos familiares diferenciados segundo tipologia adotada pelas Redes de Referências, projeto em andamento na região desde 1.999, foram comparados com as referências validadas nas Redes ou com os melhores dados apurados no levantamento. Os dados permitiram constatar que para 86,8% dos estabelecimentos pesquisados havia como se implantar APP e RL sem comprometer a viabilidade do estabelecimento, desde que se utilizassem processos produtivos melhorados, já validados nas Redes de Referências para a Agricultura Familiar ou pelos agricultores mais eficientes. Para os 13,2% estabelecimentos restantes haveria redução de renda com a implantação da APP e RL. Palavras chaves: Estabelecimentos familiares; Indicadores de eficiência técnica; Viabilidade do estabelecimento, Redes de referências; Redução de renda; ABSTRACT There is a notorious lack of consistent information for the debate about the permanent preservation areas (APP) and Legal Reserve (RL) in the environmental legislation. This study objective was to assess the impact of the implementation of APP and RL legal rules in familiar farming systems in the Southwest of Paraná State. Indicators of technical and economic efficiency in dairy productions systems obtained in a survey in 1 Engenheiro Agrônomo, MSC, IAPAR, atualmente no Centro Paranaense de Referência em Agroecologia CPRA, Estrada da Graciosa, Pinhais PR. CEP

2 small farms differentiated according to typology adopted in the Net of References project, for the growing season 2.005/2.006, were compared with the Net of References data or with the best indicators collected in the survey. The data showed that 86.8% of establishments surveyed could apply APP and RL rules without compromising their economical viability, since they use improved production system validated in the Net of References. For establishments remaining there would be no reduction of income with the introduction of APP and RL. INTRODUÇÃO Os impactos que as atividades humanas trazem ao ambiente têm sido causa de preocupação à sociedade. A constatação de que muitos dos benefícios que novas tecnologias trazem na satisfação de necessidades e desejos vêm acompanhados por ameaças à sustentabilidade das condições ambientais, ameaçando o futuro próximo e distante da humanidade, resultou na formulação de leis que regulam o uso dos recursos naturais. A agricultura, por ser uma atividade que se desenvolve em direta integração com o ambiente, está submetida à rigorosa legislação ambiental. Esta é uma realidade relativamente nova, com a qual a maior parte dos agricultores ainda não está acostumada. Porém é inquestionável que não há como se pensar em praticar agricultura, ou qualquer outra atividade, sem levarem-se em conta os reflexos que ela pode produzir no ambiente. Como se trata de um tema relativamente recente e por existir interesses em jogo, ainda há muitas indefinições que não permitem que se alcance posição consolidada e consensual. São notórias a falta de dados e informações para subsidiar debates mais consistentes e a desinformação entre muitos dos atores envolvidos, especialmente os agricultores familiares. OBJETIVO Avaliar o impacto da aplicação da legislação ambiental vigente no período do estudo relativa à área de preservação permanente (APP) e reserva legal (RL) em sistemas de produção familiar de leite no Sudoeste do Paraná. METODOLOGIA 2

3 A seleção da amostra de estabelecimentos para o levantamento de campo foi realizada a partir do trabalho Caracterização e diagnóstico dos sistemas de produção do Sudoeste do Paraná. (ASSESOAR, DESER, IAPAR, 1994) (quadro 01), que identificou dez sub-regiões distintas levando em conta características dos recursos naturais e dados socioeconômicos. Para assegurar boa distribuição espacial da amostra buscaram-se estabelecimentos em cada uma das sub-regiões. Para a escolha foram consultados técnicos dos escritórios locais do Instituto Emater de Barracão, Capanema, Chopinzinho, Cruzeiro do Iguaçu, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Marmeleiro, Pato Branco, Realeza, Vitorino; secretários municipais e/ou técnicos das Prefeituras de Francisco Beltrão, Cruzeiro do Iguaçu, Saudade do Iguaçu, Pato Branco, Vitorino; e diretores do Sistema de Cooperativas de da Agricultura Familiar do Sudoeste do Paraná SISCLAF, da Cooperativa de da Agricultura Familiar CLAF de Dois Vizinhos e da Associação de Suinocultores de Itapejara do Oeste. Quadro 01: Sub-regiões no Sudoeste Caracterização e diagnóstico dos sistemas de produção do Sudoeste do Paraná. ASSESOAR, DESER, IAPAR, Sub-Região Municípios 1 Capanema, Pérola do Oeste, Planalto 2 Nova Prata do Iguaçu, Pranchita, Realeza, Santa Izabel do Oeste 3 Ampere, Flor da Serra do Sul, Francisco. Beltrão, Marmeleiro, Pinhal de São Bento, Santo Antônio do Sudoeste 4 Barracão, Salgado Filho 5 Enéas Marques, Nova Esperança do Sudoeste, Salto do Lontra 6 Boa Esperança do Iguaçu, Cruzeiro do Iguaçu, Dois Vizinhos, Itapejara d Oeste 7 São Jorge do Oeste, Sulina, Saudade do Iguaçu 8 Bom Sucesso do Sul, Coronel Vivida, Chopinzinho, Pato Branco, São João 9 Mariópolis, Renascença, Vitorino 3

4 10 Honório Serpa, Mangueirinha A relevância da produção de leite entre a agricultura familiar na região fez com que o estudo focasse sistemas de produção que tivessem esta atividade dentre as mais importantes na composição da renda. Estudo do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social - IPARDES e Instituto Emater de caracterização socioeconômica da atividade leiteira no Paraná mostrou que em 2007, 25,4% dos produtores e 18,1% da produção no Estado estavam no Sudoeste (Ipardes, Emater, 2008). Foram visitados 90 estabelecimentos. Destes 20 eram atípicos, não se enquadravam nos sistemas de produção predominantes e foram descartados nas análises quantitativas. Os 70 restantes foram classificados segundo critérios utilizados no trabalho das Redes de Referências para a Agricultura Familiar. A definição dos sistemas é resultado da combinação de duas variáveis: a classificação social do agricultor (quadro 02), que reflete a disponibilidade de recursos, e a(s) atividade(s) mais importante(s) na geração de renda. A figura 01 apresenta os sistemas e a frequência que ocorreram na amostra estudada. Quadro 02: Variáveis classificatórias para definição dos sistemas de produção. Capital Variáveis/ Área Participação da mão Benfeitorias Equipamentos Categorias (há) de obra familiar produtivas (R$) agrícolas (R$) PSM , ,00 80 PSM , ,00 50 PSM , ,00 50 EF/ER > 50 > ,00 > ,00 50 Figura 01: Sistemas de produção do levantamento e frequência de ocorrência Grãos + Grãos Grãos + 18,6 % 27,1 % 24,3 % 8,6 % 2,8 %

5 O levantamento de campo foi realizado em janeiro e fevereiro de Os dados coletados foram referentes à safra 2005/2006; as produções ainda não realizadas quando das entrevistas foram estimadas pelos agricultores. A precipitação pluviométrica em 2005 foi de mm, semelhante à média histórica de mm (IAPAR, 2010). No entanto as chuvas foram mal distribuídas e afetaram negativamente as produções. Nos meses de novembro e dezembro de 2005 os índices pluviométricos foram respectivamente de 71 e 44 mm., enquanto que em janeiro e fevereiro de 2006 foram de 192 e 57 mm. A média mensal em 2005 foi de 170 mm. Os indicadores de eficiência econômica por unidade de superfície agrícola útil destas propriedades foram comparados com os obtidos nas Redes de Referências (Perin et al, 2006) ou no terço superior das unidades levantadas, para os sistemas não estudados nas Redes. Em 32 estabelecimentos foram realizados levantamentos com GPS para definição mais precisa da situação em relação ao atendimento da legislação no que tange às APPs e RLs. Este estudo permitiu verificar o passivo ambiental destas propriedades, ou seja, a área que deveria ser retirada da produção para servir como APP e/ou RL. RESULTADOS Dos seis sistemas de produção identificados na amostra (figura 01), o Grãos + não foi estudado porque apareceu com frequência muito baixa. Para comparação dos outro cinco foram utilizados os parâmetros gerados pelo trabalho das Redes de Referências para a Agricultura Familiar para os sistemas PM3/EF e Grãos + e os indicadores do terço superior da amostra para os sistemas, + Grãos e + Grãos. 5

6 O quadro 03 apresenta as medidas de dimensionamento da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências dos sistemas estudados. A consistência dos valores maiores de capital entre a amostra e as referências, sugere que este fator pode estar associado às diferenças de desempenho que se verão adiante, embora não se possa afirmar isto de forma categórica a partir dos dados. Nos demais parâmetros, de maneira geral, não há diferenças significativas entre a amostra pesquisada e as referências. Quadro 03: Medidas de dimensionamento da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. Sistema Área SAU* Mão de obra Capital (ha) (ha) (Eq.H**) (mil reais) Amostra/Referência A R A R A R A R 18,48 20,45 15,17 16,55 2,12 1,81 48,9 77,2 33,97 25,00 29,05 19,50 2,29 2,00 115,0 159,8 + Grãos 18,59 20,67 15,23 18,25 2,12 2,37 47,4 57,4 + Grãos 39,71 46,87 27,16 26,82 2,19 2,50 74,5 64,1 Grãos + 44,16 28,00 35,52 22,00 2,54 2,33 118,3 152,9 * SAU: Superfície Agrícola Útil = Área total (áreas com matas nativas e plantadas áreas inaproveitáveis áreas com benfeitorias áreas com estradas); **Eq.H: Equivalente-homem = uma pessoa trabalhando 300 dias por ano. A análise da renda bruta dos sistemas estudados (quadro 04) permite constatar maiores valores entre os sistemas com mais recursos, os dos tipos PSM3 e EF. Os sistemas em que a produção de era a atividade mais importante alcançaram melhor desempenho, o que pode ser conseqüência da maior sensibilidade da produção de grãos à falta de chuvas nos últimos meses de 2005 e primeiros de A importância da produção de leite na geração de renda ficou evidenciada pela sua relevância na 6

7 composição das receitas que variou de 34,1%, nos sistemas em que o foco principal é a produção de grãos, a 93,8% nos estabelecimentos em que o é praticamente a única atividade. Outras rendas, referentes principalmente à aposentadoria ou serviço fora, apareceram em quase metade dos estabelecimentos pesquisados. Embora não tenham guardado relação direta com os sistemas aparecendo em todos, elas surgiram com maior frequencia e/ou maior valor em relação à renda bruta, nos sistemas PSM1 e PSM2. Quadro 04: Renda Bruta da Produção, outras Rendas e Renda Bruta Total da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. Renda Bruta da Produção Outras Rendas Participação Renda Bruta Total Sistema % na (R$) do R$ (R$) amostra (%) Amostra/ Referência A R A R A A A R , ,03 93,8 96, ,33 69, , , , ,00 87,4 90, ,21 36, , ,00 +Grãos , ,85 71,5 76, ,00 41, , ,85 +Grãos , ,00 54,6 53, ,00 33, , ,00 Grãos , ,00 34,1 47, ,71 53, , ,00 A figura 02 (página 07) mostra graficamente os indicadores econômicos médios dos estabelecimentos em relação às referências de cada sistema. Em todos há potencial de acréscimo na renda, margens de progresso possíveis já que as referências foram obtidas nas condições concretas de um conjunto de propriedades representativas dos sistemas. Os aumentos foram de 16,7% no sistema Grãos + até 88% no. 7

8 O quadro 05 apresenta os custos variáveis das amostras pesquisadas e das referências. A maior intensificação da tecnologia utilizada nas unidades referenciais resultaram numa aumento do custo variável que variou de 24,3% no sistema Grãos + até 77,1 % no. Quadro 05: Custos variáveis totais e participação do na amostra de estabelecimentos pesquisados e nas referências de cada sistema. Custo Variável Sistema Participação do Total % Amostra/Referência A R A R , ,70 76,9 80, , ,36 70,4 89,7 +Grãos , ,47 64,3 85,1 +Grãos , ,61 52,5 45,5 Grãos , ,94 27,2 36,9 As margens brutas, diferenças entre as rendas e os custos variáveis, mostraram os maiores avanços, na comparação das referências com a amostra pesquisada, nos sistemas e + Grãos onde as diferenças foram em torno do dobro (quadro 06). Os menores valores nos sistemas, + Grãos e Grãos + podem ser resultantes, no primeiro caso pelo grande aumento no custo de produção, e nos outros pelas condições climáticas que não permitiram a expressão total da tecnologia mais intensiva no uso de insumos. Nestes sistemas também a produção de grãos é mais importante na formação da renda e ela parece ter sido mais prejudicada pela falta de chuva. No sistema Grãos + as diferenças entre a média da amostra e as referências em todos os parâmetros estudados foram menores demonstrando menor variabilidade entre os estabelecimentos deste grupo. Como este estudo tem como foco o uso do solo, indicadores que expressam a intensificação em seu uso merecem destaque. O quadro 06 e a figura 03 mostram que as referências oferecem boas condições para o uso mais eficiente do solo. 8

9 Quadro 06:, por Superfície Agrícola Útil e Renda Líquida Global por Superfície Agrícola Útil da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. Sistema Participação MBT / ha RLG* / ha Total (R$) do (%) Amostra/ A R A R A R A R Referência 18708, ,33 108,4 108,5 1275, , , , , ,64 99,7 90,7 1406, , , ,75 +Grãos 12178, ,38 81,6 67,8 871, ,49 585, ,63 +Grãos 26987, ,39 56,6 59,3 1328, ,03 984, ,71 Grãos , ,06 40,7 59,6 710, ,68 461,20 747,77 RLG Renda Líquida Global = Renda total Custos variáveis Depreciação Custos Fixos 9

10 Figura 02: Indicadores econômicos da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. Renda Bruta R$ % AMOSTRA Custos Variáveis R$ % R$ % 88,0% REFERÊNCIAS Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % 45,7% Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % + Grãos Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % 67,7% Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % + Grãos Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % 37,3% Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % 10

11 Grãos + Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % 16,7% Renda Bruta R$ % Custos Variáveis R$ % R$ % Figura 03: e Renda Líquida Global por ha de SAU da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. /SAU (R$/ha) RENDA LÍQUIDA GLOBAL/SAU (R$/ha) AMOSTRA REFERÊNCIAS AMOSTRA REFERÊNCIAS ,7% 107% ,4% 101% Grãos ,2% % Grãos ,8% 75,3%

12 Grãos ,0% ,1%

13 A comparação da eficiência das referências em comparação com a amostra pesquisada no uso do solo é marcante. As margens brutas por ha foram 50,8% a 91,7% maiores nas referências. Se considerarmos a Renda Líquida Global por ha as diferenças são ainda maiores, de 62,1% a 108%. Sendo o leite a atividade mais importante na formação da renda nestes sistemas, só não é o mais destacado no Grãos +, é de se esperar que esteja na produção leiteira a razão da melhor performance das referências em relação à amostra pesquisada demonstrada nos dados econômicos gerais dos estabelecimentos. Os dados do quadro 07 mostram indicadores técnicos da atividade leiteira evidenciando os melhores resultados naqueles sistemas mais especializados ( e ), seguidos daqueles em que o leite supera grãos ( + Grãos e + Grãos ) e finalmente aquele em que a produção de grãos é mais importante ( Grãos + ). Para quase todos os indicadores há significativa diferença entre a amostra e as referências. A única exceção é a produção por vaca no sistema. Este indicador deve ser considerado com reservas porque não está levando em conta a proporção das em lactação em relação ao total e o tamanho das vacas, evidenciado com a transformação em unidades animais, por dificuldades de tomada destes dados no levantamento. O melhor desempenho expresso pelos indicadores técnicos se traduz na maior eficiência no uso do solo destacada pelas diferenças na margem bruta por há de área destinada à produção animal. A margem de progresso possível foi de 20,4% no sistema até 117,9% no Grãos +. A figura 04 apresenta mais claramente o crescimento da margem bruta por há de área utilizada na produção de leite das referências em relação à amostra de estabelecimentos pesquisados em cada sistema. 13

14 Quadro 07: Indicadores técnicos e margem bruta da atividade leiteira por há de área destinada à produção de leite dos estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. Sistema l/dia Margem Área l/ha/ano Vacas l/vaca Bruta/ha (ha) (R$ha) Amostra/ Referência A R A R A R A R A R A R ,4 15, ,8 14, ,6 14, ,9 11, Grãos ,3 9, ,5 13, Grãos ,5 13, ,2 10, Grãos ,0 14, ,2 7,

15 Figura 04: Margem bruta por ha de área utilizada na produção de leite da amostra de estabelecimentos pesquisados e das referências de cada sistema. AMOSTRA REFERÊNCIAS ,4% ,4% Grãos ,7% Grãos ,2% Grãos % O quadro 08 mostra a presença de benfeitorias, equipamentos e uso de suplementação alimentar nos estabelecimentos. As melhores condições são observadas no sistema especializado e mais capitalizado. Nos demais se percebe menor emprego destas tecnologias refletindo provável falta de recursos financeiros nos sistemas menos capitalizados () e/ou menor importância da atividade leiteira frente a produção de grãos. De maneira geral há ainda o que melhorar na 15

16 estrutura de produção. Estas melhorias podem proporcionar maior produção, com o uso de suplementação ou redução de perda por problemas sanitários decorrentes de benfeitorias e/ou equipamentos impróprios, como também podem trazer melhor qualidade ao leite produzido. Note-se que o levantamento só levou em conta a presença destes itens, não chegando a avaliar sua qualidade. Quadro 08: Ocorrência de benfeitorias, equipamentos e uso de suplementação entre os estabelecimentos pesquisados em cada sistema. Benfeitorias (% de ocorrência) Equipamentos (% de ocorrência) Suplementação (% de ocorrência) Sistema Est. e/ou Sala Ordenhadeira Estábulo S. Resfriador Ração Farelo Ordenha Ordenha 69,3 23,1 84,6 69,2 46,2 76,9 46,2 79,0 31,6 89,5 89,5 73,7 94,7 42,1 +Grãos 64,7 29,4 82,4 64,7 52,9 64,7 76,5 +Grãos 66,7 16,7 83,3 83,3 66,7 83,3 66,7 Grãos+ 69,2 7,7 76,9 83,3 61,5 53,9 69,2 Para simular a redução da área de produção resultante da aplicação da legislação no tocante à complementação da RL e APP, foram feitos levantamentos de campo com gps em 41% dos estabelecimentos, conforme mostra o quadro 09. Os dados mostram que redução variou de 3,26 ha ( ) a 6,12 ha ( + Grãos ), o que representou de 18,1% ( ) a 23,3% ( + Grãos ). A proximidade dos valores entre os sistemas, especialmente dos porcentuais de redução, sugerem a possibilidade de adoção da média de toda a amostra como parâmetro confiável. Ou seja, a correção do passivo ambiental decorrente da 16

17 inadequação no tocante às APP e RL, comprometeria 21,5% da área dos estabelecimentos pesquisados. Quadro 09: Área a recuperar de Reserva Legal (RL) e Área de Preservação Permanente (APP) para atendimento da legislação ambiental, redução da área de produção resultante e porcentagem dos estabelecimentos do total da amostra que foram analisados, por sistema e no total analisado. Sistema Área a recuperar Redução de Estabelecimentos (ha) área de analisados (%) APP RL Total produção (%) 1,72 1,54 3,26 18,6 46 1,33 2,77 4,10 18,1 32 +Grãos 1,58 2,53 4,11 23,3 59 +Grãos 3,11 3,01 6,12 21,7 17 Grãos+ 2,39 2,68 5,07 19,3 46 Média - total da amostra 1,73 2,38 4,11 21,5 41 O quadro 10 apresenta o resumo das margens de progresso constatadas para indicadores que refletem a eficiência dos sistemas no uso do solo. São eles: Renda Bruta por SAU, por SAU, Renda Líquida Global por SAU e Margem Bruta da atividade leiteira por área destinada à produção de leite. Os dados demonstram uma tendência de os sistemas mais especializados na produção de leite, e apresentarem maior eficiência na produção de leite, expressa pelas menores margens de progresso na margem bruta do leite, e menor no estabelecimento em geral, evidenciada pelas maiores margens de progresso dos outros indicadores. O inverso ocorre nos outro sistemas, com a exceção da RLG/ha do sistema + Grãos. Esta constatação sugere que a diversificação pode 17

18 conduzir à melhor eficiência do sistema, o que poderia contribuir para melhoria dos sistemas especializados. Por outro lado, para os sistemas integrados com grãos, há maior potencial de aumento de eficiência na atividade leiteira. Porém, em todos os sistemas e considerando todos os indicadores, as margens de progresso superam com folga a redução de área que a implantação da APP e RL promoveriam. Quadro 10: Margens de progresso - as diferenças porcentuais entre os indicadores das referências e da amostra de estabelecimentos pesquisados - na Renda Bruta por SAU, por SAU, Renda Líquida Global por SAU e da atividade leiteira por área destinada à produção de leite; e porcentual de redução de área em relação à área total dos estabelecimentos analisados por sistema e a média do total da amostra estudada. Margem de progresso (%) Redução Renda Margem de área Sistema Renda Margem Líquida Bruta/ha para APP Bruta/SAU Bruta/SAL Global/SAU e RL 72,4 91,7 107,1 35,4 18,6 117,0 82,4 101,0 20,4 18,1 +Grãos 39,9 67,2 108,2 56,7 23,3 +Grãos 39,0 50,8 75,3 42,2 21,7 Grãos+ 88,5 65,0 62,1 117,9 19,3 Média - total da amostra 76,9 74,2 94,3 52,9 21,5 As práticas validadas nas Redes de Referências para a Agricultura Familiar que compõem os sistemas de produção melhorados, prevêem a análise de solo, adubação de pastagens, introdução de novas espécies de pastagem, implantação do sistema silvipastoril, realização do balanceamento na alimentação das vacas, seleção e criação 18

19 de bezerras, implementação de melhorias nas benfeitorias e aquisição de equipamentos. Algumas requerem apenas um esforço de difusão para a ampliação do uso, outras a assistência técnica especializada e outras ainda, além da assistência, acesso a recursos financeiros por parte dos agricultores familiares. A continuidade no desenvolvimento tecnológico na produção de leite poderá ampliar ainda mais sua eficiência. O desenvolvimento de sistemas de produção diversificados, especialmente os que têm boas possibilidades de integração como o de leite com grãos, foco deste estudo, podem também conduzir à melhor eficiência do uso do solo. Embora a possibilidade de aumento de eficiência econômica seja real para a grande maioria dos estabelecimentos pesquisados conforme mostra o quadro 11, é importante constatar que 13,2% deles já apresentam indicadores semelhantes ou até melhores que as referências, se considerarmos a renda bruta por SAU, o parâmetro mais geral. Este índice é pouco maior para a margem bruta por SAU, 14,7%, e menor para a renda líquida global por SAU, 11,8%. Quadro 11: Estabelecimentos com valores de Renda Bruta/SAU, /SAU, Renda Líquida Global/SAU e da atividade leiteira por área destinada à produção de leite inferiores à referência. Estabelecimentos com valores inferiores que a referência (%) Sistema Renda Bruta/SAU Margem Bruta/SAU Renda Líquida Global/SAU Margem Bruta/ha 84,6 84,6 84,6 61, ,5 89,5 73,7 +Grãos 76,5 82,4 88,2 82,4 +Grãos 66,7 66,7 83,3 50,0 Grãos+ 92,3 92,3 92,3 92,3 Média - total da amostra 86,8 85,3 88,2 75,0 19

20 CONCLUSÕES Este estudo permitiu constatar que para 86,8% dos estabelecimentos pesquisados haveria como se implantar APP e RL sem comprometer a viabilidade da propriedade, desde que se utilizassem processos produtivos melhorados, já validados nas Redes de Referências para a Agricultura Familiar ou pelos agricultores mais eficientes. Para os 13,2% estabelecimentos restantes haveria redução de renda com a implantação da APP e RL. BIBLIOGRAFIA ASSESOAR/DESER/IAPAR. Caracterização e diagnóstico dos sistemas de produção do sudoeste do Paraná. Francisco Beltrão, PR, p. IPARDES/EMATER. Caracterização socieconômica da atividade leiteira no Paraná / Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social e Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural. Curitiba : IPARDES, p. PERIN, Edevar; VIEIRA, José Antônio Nunes; LOVATO, Luiz Francisco, FRANCESCHI, Lúcia de; MACHADO, Manoel Luiz da Silva; BERTUOL, Ornela. Sistemas de referências para a agricultura familiar no Sudoeste Parnanense: SR1. Instituto Agronômico do Paraná e Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural. Pato Branco, 2006, 8p.: il. PERIN, Edevar; VIEIRA, José Antônio Nunes; LOVATO, Luiz Francisco, FRANCESCHI, Lúcia de; MACHADO, Manoel Luiz da Silva; BERTUOL, Ornela. Sistemas de referências para a agricultura familiar no Sudoeste Parnanense: SR2. Instituto Agronômico do Paraná e Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural. Pato Branco, 2006, 8p. : il. 20

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